Cozinheiros Demais
Capítulo 14
Meu amigo Odell estava parado perto de uma coluna com uma folha enorme de palmeira acima da cabeça, olhando para mim com um tico de dúvida em sua fisionomia, que considerei injusta para comigo.
Eu disse — Não estou tentando arranjar um encontro clandestino, nem estou metido em espionagem. Já disse mais de uma vez: só quero ter certeza de que um telefonema particular seja particular. Não se trata de suspeita, só de precaução. Quanto à necessidade de você consultar o gerente primeiro, que droga de segurança você é? Não controla nem seu próprio serviço? Pode vir junto e ficar do meu lado, se quiser, e, se eu fizer alguma coisa de que não goste, pode me jogar uma pedra. Por falar nisso, este Kanawha Spa parece ser muito duro com os hóspedes. Se não te acertam com uma pedra, acabam te dando um tiro.
Sem se livrar das dúvidas, ele começou a se mover. — Está bem. Da próxima vez que eu contar uma história engraçada a um cara, vai ser sobre Joãozinho e Maria. Pode vir, meu.
Ele me conduziu pelo saguão, passando pelo elevador, a um corredor lateral estreito. Vi portas com vidros foscos. Ele abriu uma do lado direito e fez um gesto para que eu entrasse. Era uma sala pequena, a mobília consistia em uma mesa telefônica que ocupava toda a sua extensão, cerca de cinco metros. Havia seis moças enfileiradas, em cadeiras de encosto reto. Odell foi até a que ficava em uma das pontas e conversou um pouco. Depois me indicou a terceira moça da fila. Visto por trás, seu pescoço parecia um pouco áspero, mas, quando ela se virou para nós, notei que tinha pele suave e olhos azuis promissores. Odell disse algo, ela fez que sim e eu falei:
— Acabei de pensar em um novo modo de fazer um telefonema. O senhor Wolfe, da suíte 60, no pavilhão Upshur, deseja uma ligação para Nova York. Vou ficar aqui observando.
— Suíte 60? Não é o homem que foi baleado?
— Sim.
— E você, o sujeito que disse que eu sou uma gracinha.
— Sim. De certa forma, estou aqui para confirmar isso. Se você puder...
— Com licença. — Ela deu meia-volta, falou, escutou e brincou com alguns pegas. Quando terminou, eu disse:
— Ligue para Nova York, Liberty 2-3306, e passe a chamada para a suíte 60.
Ela sorriu. — Ligações telefônicas com supervisão pessoal, hein?
— Sim. Eu não me divertia assim havia séculos.
Ela começou a trabalhar ativamente. Percebi alguma atividade atrás de mim, e vi que Odell havia sacado um bloco e caneta, e estava escrevendo alguma coisa. Estiquei o pescoço para ver o que escrevera, e depois disse a ele animado — Gosto de um sujeito que conhece seu trabalho, como você. Para economizar o esforço de ficar orelhando na próxima ligação, posso adiantar que será para Spring 7-3100, Central de Polícia de Nova York.
— Muito obrigado. O que ele está fazendo, pedindo socorro porque tem um arranhão no rosto?
Respondi qualquer coisa, estava com a cabeça em outro lugar, pois acompanhava as ligações. Era uma mesa telefônica do tipo antigo, e seria fácil perceber se ela estivesse escutando. Suas mãos passeavam de um lado para o outro, pegando e largando plugues, e passaram-se cinco minutos até que a ouvi dizer — Senhor Wolfe? Sua chamada para Nova York. Prossiga, por favor. — Ela me brindou com um rápido sorriso. — A quem eu deveria contar? Ao senhor Odell?
Sorri em retribuição. — Não ocupe sua cabecinha com isso. Seja boazinha, menina...
— E logo vou usar diamantes. Sei. Você já... Desculpe.
Odell ficou comigo até o final. Teve de esperar bastante, porque a conversa de Wolfe com Saul Panzer durou bem um quarto de hora, e a segunda, com o inspetor Cramer — se é que foi Cramer —, quase o mesmo tempo. Quando terminou e os plugues foram retirados, pensei que seria de bom-tom perguntar se ela desejava diamantes redondos ou ovais. A moça retrucou que preferia uma Bíblia nova; a dela estava se estragando devido ao uso intenso, ela a lia bastante. Inclinei-me para fazer um afago em sua cabeça, ela se encolheu e Odell me puxou pela manga.
Deixei o detetive do hotel no saguão, com meus agradecimentos e a garantia de que não havia esquecido suas ambições quanto ao Hotel Churchill, e prometi que o senhor Wolfe sondaria o senhor Liggett na primeira oportunidade.
Um minuto depois, eu mesmo tive a oportunidade, mas estava muito ocupado para tirar vantagem dela. Saí pelo acesso principal para cumprir minha missão seguinte, o que me levou a passar pelo galpão de montaria. Havia um monte de cavalos por ali, alguns montados, outros não, com cavalariços de paletó verde. Gosto de cavalos, a uma distância de três metros ou mais, de modo que reduzi o passo ao me aproximar. Foi então que vi Liggett, que vestia roupas adequadas à montaria, suponho que emprestadas, apeando de um baio enorme. Outra razão para eu ter diminuído o passo foi a esperança de ver um outro hóspede sendo pisado, mas não aconteceu nada. Não que eu tenha algo contra hóspedes enquanto tais; trata-se apenas de um sentimento natural contra gente capaz de pagar vinte paus por dia para dormir em um quarto, e que sempre parece polida demais ou então que já nasceu com dor-de-barriga. Sendo assim, se eu fosse um cavalo...
Mas tinha minhas missões. Wolfe já estava sozinho naquele quarto havia mais de meia hora, e apesar de eu ter dado ordens estritas ao empregado de paletó verde para que ninguém entrasse na suíte 60, sob pretexto algum, e de a porta estar trancada, no fundo eu não ligava para a situação. Assim sendo, fui para o pavilhão Pocahontas de uma vez. Encontrei Lisette Putti e Vallenko, com raquetes de tênis na mão, perto da entrada. Mamma Mondor divertia-se com seu tricô na varanda. No acesso, um policial estadual e um investigador brutamontes de terno fumavam dentro de um carro. As duas salas estavam desertas, mas o movimento na cozinha chamava a atenção — cozinheiros e ajudantes, caras de paletó verde e mestres corriam de um lado para o outro, concentrados. Pelo jeito, mais um almoço do tipo boca-livre estava sendo preparado, para não mencionar o jantar daquela noite, que deveria ilustrar o tema do discurso de Wolfe e consistiria em pratos originários da América. Estes, obviamente, deveriam ser preparados sob a supervisão de Louis Servan, e lá estava ele, de boné branco e avental, andando de um lado para o outro, farejando, olhando, sentindo, experimentando e dando ordens. Não pude conter um sorriso ao ver Albert Malfi, o fatiador de frutas corso, também de boné e avental, correndo atrás de Servan, na hora em que fui ao encontro do decano, e evitando uma colisão com Domenico Rossi quando ele saiu de trás de um fogão.
O rosto cansado e digno de Servan anuviou-se quando me viu. — Ah, senhor Goodwin! Acabei de saber do terrível... do senhor Wolfe. O senhor Ashley ligou para cá. Um convidado meu — o convidado de honra — terrível! Vou falar com ele assim que der um jeito de sair daqui. Foi muito sério? Ele vai poder jantar conosco?
Eu o tranquilizei, dois ou três dos outros aproximaram-se, aceitei suas manifestações de solidariedade a meu chefe e disse a eles que seria melhor evitar os telefonemas por algumas horas. Depois lamentei interromper um homem tão ocupado, e informei a Servan que precisava trocar umas palavras com ele, que me acompanhou até a sala pequena. Após algum tempo de conversa, ele mandou chamar Moulton, o chefe dos garçons com a orelha incompleta, e passou algumas instruções.
Quando Moulton se retirou, Servan hesitou.
— Quero ver o senhor Wolfe assim mesmo. O senhor Ashley disse que ele arrancou uma história incrível de dois de meus garçons. Posso compreender a relutância deles... mas não posso aceitar... meu amigo Laszio assassinado em plena sala de jantar. — Ele passou a mão nervosamente nos cabelos. — Estes deveriam ser momentos de alegria... tenho mais de setenta anos, senhor Goodwin, e esta foi a pior coisa que já aconteceu em minha vida... preciso voltar para a cozinha... Crabtree é bom sujeito, mas é distraído, e não confio muito nele com tanta agitação...
— Esqueça. — Bati no ombro dele. — Quero dizer, esqueça o crime. Deixe que Nero Wolfe se preocupe com isso; é o que sempre faço. Elegeram os quatro novos membros esta manhã?
— Sim. Por quê?
— Estou curioso com relação a Malfi. Ele foi aceito?
— Malfi? Um dos Quinze Maîtres? Deus do céu, claro que não!
— Certo. Apenas curiosidade. Volte para a cozinha e divirta-se. Vou dar seu recado a Wolfe.
Ele balançou a cabeça e saiu rápido com seu passo miúdo. Eu estava longe de Upshur havia mais de uma hora, e voltei a galope, pelo caminho mais curto.
O quarto de Wolfe parecia sombrio depois do sol que brilhava lá fora. A cama fora feita, e encontrei tudo arrumado. A poltrona grande havia sido virada para ficar de frente para as janelas, e ele estava sentado com o discurso na mão, franzindo a sobrancelha para a última página. Eu havia assobiado quando cheguei ao foyer, para indicar que estava tudo bem, e agora me aproximava para dar uma boa olhada no curativo. Parecia em ordem, sem sinais de sangramento recente.
Fiz o relatório: — Tudo providenciado. Servan passou os detalhes para Moulton. Todos enviaram votos de pronto restabelecimento. Servan vai mandar um belo almoço para nós. Está fazendo um dia lindo lá fora, pena que estejamos trancados aqui dentro. Nosso cliente aproveita melhor o dia passeando de cavalo.
— Não temos cliente.
— Eu estava me referindo ao senhor Liggett. Ainda penso que deveria dar a ele o prazer de poder pagar pelos seus serviços. É o que quer. Isso sem mencionar a contratação de Berin para seu hotel. Conseguiu falar com Saul e Cramer?
— Você não foi até a mesa telefônica?
— Sim, mas não sei com quem falou.
— Conversei com ambos. Aquela possibilidade está sendo investigada. — Ele suspirou. — Esta coisa dói. Que estão preparando para o almoço?
— Sei lá. Não faço a menor ideia. Cinco ou seis deles estão correndo feito loucos. Claro que dói, e não vai receber nem um tostão por isso. — Sentei-me e repousei a cabeça no encosto da poltrona, porque já estava cansado de carregá-la. — Não é só o ferimento; a coisa toda parece ter tornado você mais do contra que o normal. Deve ser a falta de sono. Sei que zomba do que chama procedimentos de rotina, mas você mesmo já conseguiu alguns resultados através deles, algumas vezes, e, por mais gênio que seja, não há nenhum mal em descobrir o que certas pessoas estavam fazendo às dez e quinze da manhã de hoje. Por exemplo, se souber que Leon Blanc se encontrava na cozinha preparando a sopa, ele não poderia estar no meio dos arbustos atirando em você. Estou só explicando como se faz a investigação.
— Muito obrigado.
— Muito obrigado, você diz, mas vai continuar fazendo o oposto, certo?
— Não estou sendo do contra, só inteligente. Como já expliquei várias vezes, a busca de provas negativas é um recurso final desesperado, quando não se encontra uma prova positiva. Coletar e checar álibis é cansativo, e normalmente perda de tempo total. Não. Arranje uma prova conclusiva, e, se ela for confrontada com um álibi, destruirá o álibi, caso seja mesmo boa. De qualquer forma, não estou interessado no homem que atirou em mim. Quero quem matou Laszio a facadas.
Arregalei o olho. — Que é isso, uma piada? Você mesmo disse que era a mesma pessoa.
— Certamente que sim. Mas, como foi o assassinato de Laszio que o levou a atirar em mim, é óbvio que devemos provar o assassinato. A não ser que possamos provar que matou Laszio, como dar a ele um motivo para tentar me matar? E, se a gente não puder provar que há um motivo, de que adiantará saber o que ele fazia às dez e quinze? A única coisa que pode nos ajudar é uma prova direta de que ele cometeu o assassinato.
— Mas claro. — Movi a mão debilmente. — Isso é tudo. Naturalmente você já tem a prova.
— Tenho. Está sendo verificada.
— Eu sabia. Qual é a prova, e quem é o criminoso?
Ele começou a balançar a cabeça, mas piscou e parou. — Está sendo testada. Não estou dizendo que a prova seja conclusiva; longe disso. Precisamos aguardar o resultado do teste. Como não é muito conclusiva, pedi ao senhor Blanc uma pequena performance, pois estamos sendo pressionados pelo tempo, e nenhuma alternativa pode ser ignorada. E afinal de contas é bem possível, apesar de eu achar que ele não tem uma arma. Alguém está batendo na porta.
A performance com Blanc foi elaborada, porém completamente inútil. Sua única vantagem foi ter me mantido ocupado e acordado até a hora do almoço. Não fiquei surpreso com o resultado, e acho que Wolfe também não. Ele estava apenas sendo cuidadoso, evitando deixar passar qualquer possibilidade.
Os primeiros a chegar foram Moulton e Paul Whipple, e tinham consigo todo o equipamento necessário. Levei os dois para receber de Wolfe uma aula detalhada do projeto, depois os encostei no meu quarto, e fechei a porta. Minutos depois Leon Blanc chegou.
O chef e o gastrônomo conversaram um bocado. Blanc obviamente estava indignado com o atentado contra Wolfe, e demonstrou isso com clareza. Depois foram ao que interessava. Blanc estava ali, disse, a pedido de Servan, e responderia a quaisquer perguntas que o senhor Wolfe fizesse. Essa ordem valia para todos, mas Blanc a levou ao pé da letra, inclusive nas insistentes questões constrangedoras referentes à profundidade de seu relacionamento com a senhora Laszio. Blanc agarrou-se à história de que a conhecera bem quando ela era a senhora Vukcic e ele o chef de cuisine do Churchill, mas nos últimos cinco anos, desde sua ida para Boston, a encontrara apenas duas ou três vezes, e os dois nunca tinham sido íntimos. Depois Wolfe passou para a noite de terça-feira e para o período em que Blanc teria permanecido em seu quarto, no pavilhão Pocahontas, enquanto os outros experimentavam a Sauce Printemps e alguém estava esfaqueando Laszio. Ouvi a maior parte da conversa de longe, porque fiquei no banheiro; havia deixado a porta aberta só um pouquinho, experimentando o efeito da cortiça queimada nas costas da minha mão. Servan havia enviado uma espiriteira a álcool e cortiças suficientes para um espetáculo circense.
Blanc esperneou um pouco quando Wolfe sugeriu o teste da cortiça, mas não o bastante para se safar, de modo que abri a porta do banheiro e pedi que entrasse. Foi uma festa. Ele ficou só de cuecas. Primeiro, passei uma camada de creme, depois a cortiça queimada. Suponho que não tenha feito um trabalho muito profissional; eu não era especialista naquilo, mas pelo menos ele ficou preto. As orelhas e os cabelos foram um problema, e Blanc reclamou que entrara cortiça em seus olhos, mas a culpa foi dele mesmo, que ficou piscando sem parar. Depois ele vestiu o uniforme dos garçons, inclusive o boné, e o resultado não foi de todo mau, a não ser pela ausência das luvas pretas, que Moulton não conseguiu encontrar. Usamos um par marrom-escuro.
Eu o levei até Wolfe para obter sua aprovação. Depois telefonei para o pavilhão Pocahontas, e disse à senhora Coyne que estávamos prontos.
Em cinco minutos ela chegou. Fui encontrá-la no corredor, para dar-lhe uma breve explicação do projeto, e disse-lhe que não deveria abrir a boca se quisesse ajudar Wolfe a mantê-la fora daquilo. Depois mandei que entrasse no foyer, deixei-a lá, e voltei para orientar Blanc. Sua irritação era imensa quando terminei o serviço no banheiro, mas agora Wolfe já o havia acalmado novamente. Mandei que ficasse parado perto do pé da cama, a uma distância que parecia adequada, e puxei seu boné para baixo. Disse-lhe que levasse um dedo aos lábios e ficasse imóvel. Em seguida, fui até a porta do foyer e a abri uns quinze centímetros.
Depois de dez segundos, disse a Blanc que podia sair da pose. Fui até o foyer e levei Lio Coyne até o corredor outra vez.
— E aí?
Ela balançou a cabeça. — Não, não era aquele homem.
— Como sabe que não era ele?
— As orelhas são grandes demais. Não era ele.
— Pode jurar isso no tribunal?
— Mas você... — Seus olhos se estreitaram. — Você disse que não iria...
— Fique tranquila, não será preciso. Mas tem mesmo certeza?
— Certeza absoluta. Este homem é mais magro, também.
— Certo. Muito obrigado. O senhor Wolfe talvez queira falar com a senhora mais tarde.
Os outros disseram a mesma coisa. Fiz com que Blanc posasse mais duas vezes, uma de frente para a porta, para Paul Whipple, e a outra de costas, para Moulton. Whipple sustentou que poderia jurar que o homem que vira perto do biombo, na sala de jantar, não era o mesmo que estava no quarto de Wolfe, e Moulton disse que não poderia jurar porque só vira as costas do sujeito, mas imaginava que não fosse o mesmo homem. Mandei-os de volta para Pocahontas.
Depois tive de ajudar Blanc a se limpar. Remover aquilo foi muito mais difícil do que aplicar, e não sei se algum dia sua orelha vai ficar totalmente branca de novo. Considerando-se que ele afinal não era um assassino, sua atitude até que foi bem compreensiva. Depois do sangue de Wolfe e da cortiça queimada de Blanc, eu certamente seria amaldiçoado pelo pessoal da lavanderia do Kanawha Spa naquele dia.
Blanc ergueu-se e disse a Wolfe — Eu me submeti a tudo isso porque Servan pediu. Sei que os assassinos devem ser punidos. Se eu fosse um deles, esperaria isso. Esta é uma experiência terrível para cada um de nós, senhor Wolfe, terrível. Não matei Phillip Laszio, mas, se eu tivesse o poder de trazê-lo de volta à vida erguendo um dedo, sabe o que eu faria? Eu faria isto. — Ele enfiou ambas as mãos nos bolsos, o mais fundo possível, e as deixou lá.
Ele fez menção de sair, mas sua partida foi adiada por alguns minutos pela chegada de uma pessoa. A mudança de programa tornara necessário, claro, avisar ao cara de paletó verde no hall que o embargo de visitantes fora suspenso, e agora estava chegando o primeiro de uma fila que passou a bater na porta intermitentemente durante toda a tarde.
O primeiro foi meu amigo Barry Tolman.
— Como está o senhor Wolfe?
— Cansado e beligerante. Entre.
Ele entrou, abriu a boca quando avistou Wolfe e aí viu quem estava ali.
— Oh! O senhor aqui, senhor Blanc!
— Sim. A pedido do senhor Servan...
Wolfe intrometeu-se — Estive realizando uma experiência. Acho que não precisa perder mais seu tempo com o senhor Blanc. Não é mesmo, Archie? O senhor Blanc matou Laszio?
Balancei a cabeça. — Não, senhor. Três confirmações de inocência.
Tolman olhou para mim, para Wolfe e para Blanc. — É mesmo? De qualquer modo, gostaria de vê-lo mais tarde. Vai estar em Pocahontas?
Blanc disse que sim, de má vontade; expressou o desejo de que Wolfe estivesse melhor à noite e saiu. Quando voltei, depois de acompanhá-lo até a porta, Tolman já estava sentado, a cabeça inclinada para o lado, olhando o curativo de Wolfe, que dizia:
— Não para mim, senhor. O médico disse que era superficial. Mas posso assegurar que é altamente perigoso para o homem que o provocou. E olhe aqui. — Ele exibiu o texto do discurso perfurado. — A bala passou por aqui antes de me atingir. O senhor Goodwin salvou minha vida quando atirou o discurso na direção da janela. Pelo menos é o que ele diz. Estou inclinado a concordar. Onde está o senhor Berin?
— Aqui. Em Pocahontas... com a filha. Eu o trouxe pessoalmente, neste instante. Recebi um telefonema em Quinby, informando que o senhor levara um tiro. Acredita que foi a mesma pessoa que esfaqueou Laszio?
— Quem mais?
— Mas por que tentaria acertá-lo? Estava fora do caso.
— Mas a pessoa não sabia disso. — Wolfe se mexeu na cadeira, piscou e disse amargo — Não estou mais fora do caso agora.
— O que é conveniente para mim. Não estou dizendo que fiquei feliz por terem atirado no senhor... quer dizer que começou por Blanc? O que o fez decidir que não foi ele?
Wolfe começou a explicar, mas outra interrupção me afastou dali. Desta vez era o almoço, e Louis Servan estava realmente com a macaca. Havia três bandejas enormes e três garçons, além de um quarto, servindo de batedor, para abrir portas e caminho. Eu estava faminto, e os odores que saíam das bandejas me deixaram pior ainda. O batedor, nada menos do que o próprio Moulton, após uma mesura e uma saudação a Wolfe, abriu os apoios para as bandejas e avançou para a mesa com um pano na mão.
Wolfe disse a Tolman — Com sua licença. — Levantou-se da poltrona com um grunhido de satisfação, e caminhou até as bandejas. Moulton aproximou-se dele e colocou-se à disposição. Wolfe ergueu uma das tampas, baixou a cabeça e olhou. Depois aspirou o perfume. Virou-se para Moulton e perguntou — Piroshki?
— Sim, senhor, preparado pelo senhor Vallenko.
— Sim, eu sei. — Ele ergueu as outras tampas, inclinou-se e aspirou o perfume, e balançou a cabeça em sinal de reverência. Ergueu-se novamente. — Alcachofras barigoule?
— Acredito, senhor, que ele usou o termo drigante. Foi o senhor Mondor. Ou algo parecido.
— Não importa. Deixe tudo aqui, por favor. Podemos nos servir, se não se importa...
— Mas o senhor Servan disse...
— Prefiro assim. Deixe tudo nas bandejas.
— Vou deixar um dos garçons...
— Por favor, não. Estou tendo uma conversa. Podem ir, todos vocês.
Eles saíram. Pelo jeito, se eu quisesse comer alguma coisa, teria de ir à luta, de forma que exigi dos meus músculos um esforço suplementar. Quando Wolfe retornou à poltrona, perguntei — Como faremos? Estilo pensão, com pá carregadeira?
Ele esperou até completar a operação de sentar antes de responder. Primeiro suspirou. — Não. Telefone para o hotel e peça o prato do dia.
Arregalei os olhos para ele. — Você deve estar delirando.