Cozinheiros Demais
Capítulo 6
Passado algum tempo, ele disse, sem abrir os olhos: — Você compreende, Archie, que eu hesitaria em aceitar qualquer trabalho que pudesse adiar nossa volta a Nova York.
— Hesitaria é um pouco fraco. Eu usaria uma palavra mais forte.
— Claro, Por outro lado, eu seria um idiota tão grande quanto o senhor Tolman se ignorasse uma oportunidade esplêndida como essa. Ao que parece, a única forma de tirar proveito de tudo isso é descobrir quem matou o senhor Laszio. O problema é conseguir resolver o caso em 31 horas. Vinte e oito, na verdade, uma vez que no jantar de amanhã à noite eu discursarei sobre as contribuições americanas à haute cuisine. Será possível resolver tudo em 28 horas?
— Claro que sim. — Fiz um gesto de pouco-caso. — Ora, desde que eu cuide do planejamento, e você se encarregue dos detalhes...
— Sim. Pode ser que tenham desistido daquele jantar, mas acredito que não, uma vez que só acontece a cada cinco anos... bem. O primeiro passo é...
— Com licença. — Eu jogara o jornal no chão e estava em pé, com a agradável sensação de que teria uma oportunidade de melhorar a circulação. — Por que não entrar em contato com Liggett e aceitar o serviço? Já que vamos fazê-lo de qualquer maneira, podemos muito bem acrescentar os honorários.
— Não. Se eu me comprometer com ele e não tiver terminado até amanhã à noite... Não. A liberdade é mais preciosa do que quaisquer honorários. Devemos agir por nossa conta. O primeiro passo é óbvio. Chame o senhor Tolman aqui imediatamente.
Este era Nero Wolfe. Um dia ainda me mandaria buscar o Senado e a Câmara dos Deputados. Eu disse — Tolman está furioso porque não o atendeu esta manhã pelo telefone. Ele também acha que pegou o culpado, e não está mais interessado. Eu não creio...
— Archie! Você disse que cuidaria do planejamento. Por favor, vá até o senhor Tolman e no caminho planeje um jeito de trazê-lo aqui.
Peguei o chapéu.
6
Corri com agilidade pelo caminho de Pocahontas; pensava alcançar Tolman antes que ele fosse embora, e meu cérebro trabalhava mais rápido do que os pés, tentando inventar uma boa desculpa para atraí-lo, mas cheguei tarde demais. O sujeito de paletó verde na entrada me avisou que Tolman entrara no carro estacionado no acesso e saíra na direção oeste. Fiz cara de desapontado a parti a galope. Se tivesse feito uma parada no hotel, o que era provável, eu poderia tê-lo pegado lá ainda. Quando entrei no saguão, já ofegava um pouco, e parei enquanto percorria as palmeiras, pilares e paletós verdes com os olhos. Vi fregueses vestidos com roupas de montaria e o que parecia ser a última defesa de Gypsy Rose Lee.* Eu estava a ponto de avançar até a recepção para fazer algumas perguntas, quando ouvi uma voz sinistra soar atrás do meu cotovelo: (*) Famosa estrela americana do strip-tease. (N. E.)
— Olá, seu verme.
Girei nos calcanhares e apertei os olhos. — Oi, rato. Que rato nada. Nem isso. Nem sei seu nome, bicho-da-terra que vive no buraco comendo as raízes das plantas.
Gershom Odell sacudiu a cabeça. — Nada disso. Você está enganado. Eu tinha contado das ameaças de morte a Laszio ao recepcionista noturno só para puxar conversa. Claro que eles me chamaram para explicar a história depois que tudo aconteceu, o que você queria? Mas o jeito que arranjou para livrar a cara, falando das pedras atiradas... será que não tem nada na cabeça, e não percebeu que o delegado ia ficar com a pulga atrás da orelha?
— Não tenho nada na cabeça mesmo. Sou detetive. O delegado está ocupado com outras coisas agora. — Fiz um gesto com a mão. — Esqueça. Quero ver Tolman. Ainda está aqui?
Odell fez que sim. — No escritório do gerente, com Ashley e outras pessoas, inclusive um sujeito de Nova York chamado Liggett. Mas eu andava querendo falar com você. Acha que é muito esperto, mas eu poderia facilmente jogá-lo no chão e pisar em cima. No entanto, vou deixar isso de lado, porque preciso que me faça um favor.
— Isso. Quem com ferro fere com ferro será ferido.
— Tá bom. Quero pedir uma coisa. Tô de saco cheio do mato. Este emprego aqui é bom, de certa forma, mas no geral já me cansou. Hoje, quando Raymond Liggett chegou aqui de avião, foi logo perguntando por Nero Wolfe, e saiu correndo para Upshur antes de ir para o quarto ou dizer alô para Ashley. Concluí que Wolfe tem a maior moral com ele, e me passou pela cabeça que um dos melhores empregos do país para um detetive é o Hotel Churchill. — Os olhos de Odell brilhavam. — Meu, que lugar para um cara legal e honesto como eu! Então, você podia falar com Wolfe, enquanto Liggett está aqui, para que ele me ajude a conhecer Liggett discretamente, sem que o pessoal do hotel fique sabendo, caso a coisa não dê pé...
Pensei, agora sim, viramos mesmo uma agência de empregos. Odeio desapontar as pessoas, de modo que enrolei Odell um pouco, sem contudo estimular seu equívoco quanto à intimidade de Wolfe com Raymond Liggett. Mantive um olho na porta fechada que dava no escritório do gerente. Disse que ficava satisfeito em saber que ele não estava feliz vivendo naquela rotina, um cara cheio de ambições, e assim por diante. Era uma conversa bem agradável, mas caí fora abruptamente quando vi que a porta fechada se abriu e meu amigo Barry Tolman apareceu desacompanhado. Dei um tapinha cordial no ombro de Odell, aplicando somente a força necessária para mostrar a ele como seria fácil me jogar no chão e pisar em cima. Deixei-o e segui minha presa por entre os pilares e as palmeiras, e num lugar propício, perto da entrada principal, dirigi-me a ele.
Seus olhos azuis revelaram preocupação, e seu rosto inteiro se anuviou. Ele me reconheceu. — Sim? O que você quer? Estou com pressa no momento.
Eu disse — Também estou. Não vou me desculpar por Wolfe não ter atendido ao telefone esta manhã, porque se sabe alguma coisa sobre Nero Wolfe deve ter descoberto que ele é excêntrico e teimoso. Mas vi você passando e pensei na noite de segunda-feira, quando o conheci no trem; lembrei de ter ido com sua cara, pois você parece ser um sujeito legal. Acontece que agora há pouco observei quando prendeu Berin por assassinato — suponho que não notou minha presença, mas eu estava lá — voltei para a suíte e informei Wolfe do ocorrido. Acho melhor você saber o que ele fez quando ouviu a noticia. Ele tapou o nariz.
— E daí? — Tolman estava de cara feia. — Desde que não tape o meu, que é que tem?
— Nada, a menos que você conheça Wolfe como eu conheço... Nunca o vi tapar o nariz, a não ser quando tem certeza absoluta de que um sujeito está fazendo o papel de completo idiota. Faça o que quiser. Ainda é jovem, e tem uma vida inteira de erros pela frente. Tive apenas um impulso de piedade ao vê-lo passar, e creio que possa convencer Wolfe a ter uma conversa com você, se quiser vir comigo imediatamente até a suíte. Bem, posso pelo menos tentar. — Dei um passo para trás. — Faça como quiser, já que tem tanta pressa...
Ele continuou carrancudo. Mas fiquei contente em ver que não perdia tempo com frivolidades. Olhou no fundo dos meus olhos sinceros por poucos segundos, e depois disse abruptamente — Vamos lá — encaminhando-se para a saída. Corri atrás dele, radiante como um escoteiro.
Quando chegamos a Upshur, tive de continuar com o teatro, mas não pretendia deixá-lo solto no saguão de entrada, de modo que o levei para a suíte. Mostrei meu quarto e fechei a porta atrás dele quando entrou. Depois, corri para o de Wolfe, fechei a porta também, me sentei no sofá e sorri para o velho filho da mãe.
— E aí? — Perguntou. — Conseguiu encontrá-lo?
— Claro que consegui. Está aqui. — Apontei o local com o dedo. — Precisei vir na frente para tentar persuadi-lo a conceder uma audiência. Necessito me demorar uns cinco minutos. É possível que ele se esgueire até o foyer para escutar atrás da porta. — Ergui a voz. — E a justiça? E a sociedade? E os direitos humanos?
Wolfe foi obrigado a escutar, não teve escapatória. Fiz um discurso dos bons. Quando achei que havia transcorrido tempo suficiente, fechei a torneira, voltei para meu quarto e fiz o sinal de triunfo a Tolman, permitindo que entrasse. Ele parecia tão preocupado e aborrecido que, por um segundo, imaginei que fosse errar a cadeira oferecida para que se sentasse.
Mas acertou. — Soube que o senhor acha que estou dando mancada.
Wolfe balançou a cabeça. — Não usei esta palavra, senhor Tolman. Não posso chegar a uma opinião consistente até conhecer os fatos que o levaram a agir. Aqui entre nós, temo que o senhor tenha se precipitado um pouco.
— Eu não acho. — Tolman esticou o queixo. — Conversei com o pessoal de Charleston pelo telefone, e eles concordaram comigo. Não estou querendo passar a bola para a frente. A responsabilidade é toda minha. Por falar nisso, preciso estar em Charleston às seis horas, para uma reunião, e são noventa quilômetros. Não sou teimoso. Posso soltar Berin com um estalo dos dedos, se tiver uma razão para tanto. Se está de posse de alguma informação que desconheço, teria sido ótimo se a houvesse fornecido esta manhã, quando liguei, e será ótimo se a der agora. Para não falar em suas obrigações de cidadão...
— Não possuo nenhuma informação que prove a inocência do senhor Berin. — O tom de voz de Wolfe era calmo. — Foi o entusiasmo do senhor Goodwin que o trouxe aqui. Minha opinião foi manifestada na noite de ontem. Se eu souber em que se baseou para tomar sua decisão, quem sabe possa ajudar. A não ser que seja um segredo. Quero que entenda que não tenho um cliente. Não estou representando ninguém.
— Eu não tenho segredos. Mas há motivos suficientes para prender Berin e, em minha opinião, condená-lo. Quanto à oportunidade, sabe que existiu. E ele andou ameaçando indiscriminadamente Laszio de morte, segundo o testemunho de meia dúzia de pessoas. Suponho que ele tenha calculado que um assassino não anunciaria seu objetivo antecipadamente, mas creio que exagerou na dose. Esta manhã interroguei a todos novamente, em especial Berin e Vukcic, e descartei este último. Reuni várias informações. Mas admito que o fato mais decisivo de todos veio de uma sugestão sua. Comparei aquelas listas com a que encontrei no bolso de Laszio. Ninguém errou mais do que duas, exceto Berin.
Ele tirou alguns papéis do bolso, e selecionou um. — As listas de cinco deles, incluindo-se a de Vukcic, batiam exatamente com a correta. Quatro pessoas, o senhor entre elas, cometeram dois erros cada uma, nos mesmos molhos. — Ele devolveu os papéis ao bolso e inclinou-se na direção de Wolfe. — Berin só acertou duas. Errou sete!
No silêncio que se seguiu, os olhos de Wolfe quase se fecharam. Depois de uma pausa, ele murmurou — Absurdo. Nonsense.
— Exatamente! — Tolman balançou a cabeça enfático. — E incrível que, em um teste no qual a média foi de 90% de acertos, Berin tenha conseguido marcar apenas 22%. Isso prova definitivamente uma das seguintes hipóteses: ou ele estava tão perturbado com o homicídio que acabara de cometer ou estava a ponto de cometer que não conseguiu distinguir os sabores, ou estava tão ocupado com o assassinato que não teve nem tempo de experimentar os molhos, e apenas preencheu a lista ao acaso. Considero isso absolutamente conclusivo, e creio que um júri também o fará. E quero dizer que sou imensamente grato por sua sugestão. Admito de coração aberto que foi uma ideia muito esperta, e o crédito por ela é todo seu.
— Muito obrigado. O senhor informou Berin desses fatos e lhe pediu explicações?
— Sim. — Ele estava deslumbrado. — Mas ele não conseguiu explicar.
— O senhor disse que considerava isso absolutamente conclusivo. Acho um pouco forte. Existem outras alternativas. A lista de Berin pode ter sido forjada.
— Foi a lista que ele entregou pessoalmente a Servan, assinada. Não saiu da mão de Servan, até que a entregou a mim. Suspeita de Servan por acaso?
— Não suspeito de ninguém. As travessas ou os cartões podem ter sido trocados.
— Os cartões não. Berin disse que estavam em ordem crescente quando experimentou os molhos, como antes. Quanto às travessas, quem poderia ter feito a troca e quem as devolveu ao lugar correto após a saída de Berin?
Depois de mais uma pausa, Wolfe murmurou de novo, obstinadamente. — Continua muito despropositado.
— Claro. — Tolman inclinou-se para a frente, mais do que antes. — Olha aqui, Wolfe. Sou promotor público, tenho uma carreira pela frente e sei o que significa ser bem-sucedido em um caso sensacional como esse. Mas está enganado se pensa que sinto prazer em agarrar Berin logo de cara para servir de vítima. Não sinto. Eu... — Ele parou. Tentou recomeçar... — Bem... eu... não sinto. Por determinadas razões, foi a coisa mais difícil que já fiz na vida. Mas quero fazer uma pergunta. Quero que seja rigoroso. Considere estas premissas como fatos comprovados: um, Berin cometeu sete erros na lista preenchida e assinada por ele. Dois, quando ele experimentou os molhos, as travessas e os cartões estavam na mesma condição e ordem de antes. Três, nada que venha a ser descoberto poderá lançar dúvidas sobre esses fatos. Quatro, se você tivesse feito o juramento de promotor público, prenderia Berin por assassinato e tentaria condená-lo?
— Eu pediria demissão.
Tolman ergueu ambas as mãos. — Por quê?
— Porque vi o rosto do senhor Berin e ouvi sua voz menos de um minuto depois que ele saiu da sala de jantar na noite passada.
— Pode ser que você o tenha feito, mas eu não. Se nossas posições estivessem invertidas, aceitaria minha palavra e meu julgamento no que diz respeito à voz e ao rosto de Berin?
— Não.
— Ou os de qualquer outra pessoa?
— Não.
— Tem alguma informação que explique ou ajude a explicar os sete erros na lista de Berin?
— Não.
— Tem alguma outra informação, além das que me deu, que possa provar a inocência dele?
— Não.
— Muito bem. — Tolman recostou-se novamente na poltrona. Olhou para mim ressentido e acusador, o que achei injusto, e depois voltou os olhos para Wolfe outra vez. Seu maxilar estava em funcionamento, movendo-se nervosamente de um lado para o outro; após algum tempo ele pareceu ter se dado conta disso e cerrou os dentes com força. Depois, afrouxou-os de novo. — Sinceramente, eu esperava que tivesse. Pelo que Goodwin me disse, fui levado a crer que soubesse de algo. Disse que pediria demissão se estivesse em meu lugar. Mas que benefício poderia haver em...
Não escutei o resto da frase por causa de outra interrupção nos planos de Wolfe para ter uma tarde tranquila e solitária. As batidas na porta foram longas e demoradas. Andei até o foyer e abri a porta, de certo modo esperando ver os dois visitantes de Nova York em nova tentativa, tendo em vista os desdobramentos recentes. Em vez disso, havia um trio de um tipo diferente: Louis Servan, Vukcic e Constanza Berin.
Vukcic foi brusco. — Queremos falar com o senhor Wolfe.
Pedi que entrassem. — Poderiam esperar um pouco aqui? — Perguntei, indicando meu quarto. — No momento ele está ocupado com o senhor Barry Tolman.
Constanza deu um passo para trás, chocando-se com a parede do foyer. — Oh! — Sua expressão teria sido a mesma se eu lhe houvesse dito que estava com os bolsos cheios de sapos, cobras e lagartos venenosos. Ela fez um gesto para alcançar a maçaneta da porta. Vukcic a segurou pelo braço e eu disse — Não. Acalme-se. O senhor Wolfe não pode evitar que uma jovem atraente insista em chorar em seu ombro, não é? Por favor, por aqui, todos vocês...
A porta que dava no quarto de Wolfe se abriu e Tolman surgiu. Estava um pouco escuro no foyer, e ele levou um segundo para identificar o grupo todo. Quando a viu, deu a identificação por encerrada. Olhou para a moça, empalidecendo como cera, e sua boca se abriu três vezes à procura de palavras que se perderam no caminho. Pelo jeito, ela não sentiu nenhum prazer em encontrá-lo naquele estado. Fingiu que não o viu. Ela olhou para mim e disse que supunha poder avistar-se com o senhor Wolfe agora. Vukcic a tomou pelo braço, e Tolman abriu caminho como um raio para permitir que passassem. Fiquei para trás, para me despedir de Tolman, o que fiz depois que ele trocou algumas palavras com Servan.
A nova leva aparentemente não enfureceu nem animou Wolfe. Ele cumprimentou a senhorita Berin sem entusiasmo, mas com um toque extra de cortesia, e desculpou-se com Vukcic e Servan por ter ficado recluso o dia inteiro, evitando comparecer aos encontros no pavilhão Pocahontas. Servan garantiu educadamente que, devido às malfadadas circunstâncias, nenhuma desculpa era necessária. Vukcic sentou-se, passou os dedos pela cabeleira abundante e resmungou algo sobre a sorte madrasta no encontro dos quinze mestres. Wolfe perguntou se as atividades programadas seriam canceladas, e Servan balançou a cabeça. Não, disse, elas continuariam conforme programado, apesar de todos lamentarem profundamente o ocorrido. Ele havia esperado anos pelo momento em que, na condição de decano dos Quinze Maîtres, teria a honra de recebê-los como convidados. Seria o auge de sua carreira, uma doce bênção para sua velhice, mas o que aconteceu foi um desastre incrível. Mesmo assim, prosseguiriam. Ele faria, na condição de decano e anfitrião, a conferência daquela noite, sobre Les mystères du goût, que passara dois anos preparando. Ao meio-dia do dia seguinte, elegeriam os novos membros — agora seriam quatro, infelizmente — para substituir os falecidos. Na quinta à noite, ouviriam o discurso do senhor Wolfe sobre Contributions américaines à la haute cuisine. Que calamidade, que golpe para a amizade e o companheirismo!
Wolfe disse — Mas essa melancolia, senhor Servan, é a pior atitude possível para fazer a digestão. Como a compreensão está fora de questão, não seria a hostilidade ativa a melhor opção? Hostilidade contra a pessoa responsável?
As sobrancelhas de Servan se ergueram. — Refere-se a Berin?
— Meu Deus, claro que não! Eu disse a pessoa responsável. Não creio que Berin tenha feito
aquilo.
— Oh! — O grito partiu de Constanza. Pelo modo como pulou na poltrona e pelo olhar lançado na direção de Wolfe, esperava que fosse beijá-lo, ou no mínimo jogar ginger ale em cima dele, mas conseguiu controlar-se a tempo e permanecer sentada,
Vukcic reclamou — Eles acham que têm provas. E os sete erros na lista dos molhos. Como é possível uma coisa dessas?
— Não tenho a menor ideia. Por que pensa que Berin fez isso, Marko?
— Sei lá. Não pensei nisso. — Vukcic passou os dedos pela cabeleira novamente. — Que complicação dos diabos! No começo suspeitaram de mim; achavam que eu era o assassino porque estive dançando com Dina e meu sangue estava quente. E estava mesmo! — Ele soava desafiador. — Você não poderia entender isso, Nero. Uma mulher daquelas. Ela tem um fogo que me incendiou uma vez, e poderia me aquecer de novo, sem dúvida, se chegasse bem perto e eu deixasse minha mente se perder nele. — Ele deu de ombros, e repentinamente ficou alucinado. — Mas enfiar uma faca nas costas daquele cachorro! Ele não merecia essa honra! Tapar o nariz é só o que se deve fazer com esse tipo de gente!
— Mas veja bem, Nero. — Vukcic olhou em volta. — Trouxe a senhorita Berin e o senhor Servan para conversar com você. Eu dei a ideia. Se descobríssemos que considerava Berin culpado, não saberia o que dizer, mas felizmente não é essa sua opinião. Discutimos o caso com o resto do pessoal, e a maioria concordou em contribuir para a defesa de Berin — já que ele se encontra em um país estranho — e disse que com certeza a melhor maneira de defendê-lo é contratar você para...
— Mas por favor — Servan interrompeu sério. — Por favor, senhor Wolfe, compreenda que deploramos esta necessidade inevitável — é nosso hóspede, meu convidado, sei que é imperdoável pedir ao senhor, nestas circunstâncias, que...
— Mas o fato é que... — Vukcic prosseguiu — eles foram muito generosos em suas contribuições para a defesa, depois que expliquei sua postura no que diz respeito a honorários.
Constanza, sentada na pontinha da poltrona, deu um palpite: — Os onze mil francos que prometi demorarão um pouco para chegar, porque estão em um banco de Nice...
— Chega! — Wolfe quase gritou. Ele apontou o dedo para Servan. — Aparentemente, senhor, Marko os informou sobre minha ganância. Ele estava correto. Preciso de muito dinheiro, e normalmente meus clientes são depenados. Mas também poderia ter dito que sou um romântico incurável. Para mim, a relação entre anfitrião e convidado é sagrada. O convidado é uma joia repousando sobre a almofada da hospitalidade. O anfitrião é um rei, em sua sala ou cozinha, e não pode aceitar um papel menor. De modo que não discutiremos...
— Os modos que vão para o inferno! — Vukcic fez um gesto impaciente. — Quer dizer então, Nero, que não vai fazer nada por Berin?
— Não. Quero dizer que não discutiremos honorários e contribuições. Certamente vou fazer algo por Berin. Eu já havia decidido isso antes de sua chegada, mas não aceitarei o dinheiro de meu anfitrião e seus amigos. Não há tempo a perder, e desejo ficar a sós, para pensar no assunto. Mas como já estão aqui... — Seus olhos detiveram-se em Constanza. — Senhorita Berin, parece convencida de que seu pai não matou o senhor Laszio. Por quê?
Os olhos dela se arregalaram. — Porque... mas o senhor também está convencido disso. Acabou de dizer. Meu pai não faria uma coisa dessas.
— Não se importe comigo. Em termos legais, pois estamos lidando com a lei, quais as provas de que dispõe? Tem alguma?
— Mas eu... só... que absurdo! Qualquer um...
— Percebo. Não tem nenhuma. Tem noção, ou qualquer indício, de quem possa ter assassinado
Laszio?
— Não! Não tenho a menor ideia! E não me importo. Só alguém...
— Por favor, senhorita Berin. Devo preveni-la de que temos uma tarefa difícil pela frente, e pouco tempo disponível. Sugiro que ao sair daqui vá para seu quarto, controle suas emoções e dedique-se a recapitular — rever — tudo o que ouviu e viu, tudo, desde sua chegada ao Kanawha Spa. Faça isso com seriedade. Anote qualquer coisa que possa ter um mínimo de importância. Lembre-se de que esta é uma missão importante, a única que pode desempenhar com alguma chance de ajudar seu pai.
Ele moveu os olhos novamente. — Senhor Servan. Em primeiro lugar, faça o mesmo que a senhorita Berin. Provas da inocência de Berin, ou indícios ou evidências da culpa de outro. Tem alguma ideia?
Servan balançou a cabeça lentamente.
— Isso é péssimo. Devo preveni-lo, senhor, que os desdobramentos indicarão que o único modo de livrar Berin é encontrar o culpado e provar tudo. Não podemos inocentar a todos. Afinal de contas, Laszio está morto. Se sabe de algo que possa transferir as suspeitas para alguém, e está ocultando os fatos, não pode dizer que esteja realmente tentando ajudar Berin.
O decano dos mestres sacudiu a cabeça mais uma vez. — Não sei de nada que possa implicar alguém.
— Muito bem. Quanto à lista de molhos de Berin. Ele a entregou pessoalmente ao senhor?
— Sim, logo depois de ter saído da sala de jantar.
— Traz a assinatura dele?
— Sim. Eu olhei para cada uma delas antes de guardá-las em meu bolso, para me certificar de que poderia identificar os nomes.
— Tem certeza de que ninguém teve a chance de mudar a lista de Berin depois que ela foi passada ao senhor, e antes que a entregasse ao senhor Tolman?
— Positivo. Certeza absoluta. As listas ficaram no bolso interno de cima o tempo inteiro. Claro, eu não as mostrei a ninguém.
Wolfe o observou um pouco, suspirou e virou-se para Vukcic. — E você, Marko. O que sabe?
— Não sei droga nenhuma.
— Pediu à senhora Laszio que dançasse com você?
— Eu... mas o que isso tem a ver com a história?
Wolfe olhou bem para ele e murmurou — Olha, Marko, no momento eu não tenho a menor ideia de como agir para descobrir o que precisa ser descoberto, e devo me permitir qualquer pergunta que não seja insultuosa. Tirou a senhora Laszio para dançar, ou foi ela quem o tirou?
Vukcic franziu a testa e sentou-se. Finalmente falou, enrolando as palavras — Acho que ela sugeriu isso. Mas eu teria pedido, se ela não houvesse sugerido.
— Pediu a ela que ligasse o rádio?
— Não.
— Portanto, o rádio e a dança, naquele momento específico, foram ideias dela?
— Que se dane! — Vukcic estava furioso com seu velho amigo. — Juro que não vejo motivo, Nero...
— Claro que você não vê. Nem eu. Mas às vezes é espantoso como a ponta de um novelo embaraçado fica bem escondida. Dizem que as duas melhores maneiras de perder um amigo são emprestar-lhe dinheiro e questionar a pureza de intenção do gesto de uma mulher para com ele. Não quero perder sua amizade. Muito provavelmente a senhora Laszio sentiu um desejo irresistível de dançar com você. Não, Marko, por favor, não estou sendo só gentil. E agora, se não se importa... Senhorita Berin? Senhor Servan? Preciso cuidar deste caso.