Cozinheiros Demais
Capítulo 5
Sem dúvida, ele era um detetive feliz naquela noite.
5
No dia seguinte, quarta-feira, às duas da tarde, eu estava me sentindo um tanto insatisfeito e irritado com a vida, mas de certa forma completamente em casa. Ir para a cama muito tarde ou ter o sono perturbado indevidamente envenena o organismo. E ambas as coisas aconteceram comigo. Tinha esquecido de pendurar o aviso, e um empregado idiota bateu à porta da suíte às nove da manhã para perguntar se queríamos que preparasse nosso banho ou fizesse algum outro serviço. Mandei que voltasse depois do pôr-do-sol. Fui acordado de novo às dez e meia pelo telefone: meu amigo Barry Tolman queria falar com Wolfe. Expliquei que Wolfe só seria exposto à luz do dia por iniciativa própria, e pedi à telefonista que suspendesse as ligações até segunda ordem. Apesar disso, uma hora depois o telefone tocou, e continuou tocando. Era Tolman, que precisava falar com Wolfe. Disse a ele que de jeito nenhum, a não ser que mostrasse um mandado de busca e apreensão. Ele que esperasse até Wolfe acordar. Mas àquela hora eu já estava desperto o suficiente para tomar consciência de outras necessidades além do sono, de modo que tomei banho, fiz a barba, vesti a roupa e pedi um café da manhã ao serviço de quarto, pelo telefone, uma vez que não podia ir tomar café da manhã naquelas circunstâncias. Eu estava terminando a terceira xícara de chá quando escutei meu nome gritado por Wolfe. Ele estava ficando desmoralizado, sem dúvida. Em nossa casa de Nova York, eu não ouvira gritos dele mais do que três vezes em dez anos.
Depois de me passar o pedido do café da manhã, e de esperar que eu o transmitisse pelo telefone, Wolfe me deu as instruções que fizeram com que eu me sentisse em casa. Seus planos eram limitar os contatos sociais naquela tarde exclusivamente à minha pessoa. Contatos profissionais e negócios estavam fora de questão. A porta deveria ficar trancada, e qualquer um que batesse, com exceção de Marko Vukcic, deveria ser informado de que Wolfe estava ocupado com alguma coisa, não importava o quê. Só eu atenderia a telefonemas, uma vez que ele não sabia nada que eu não soubesse. (Isso estimulou minha autoconfiança, já que era a primeira vez que ele admitia isso.) Caso eu sentisse necessidade de mais ar fresco do que era possível obter através da janela aberta, o que era burrice, porém bem provável, a tabuleta NÃO PERTURBE deveria ser pendurada na porta, e a chave guardada em meu bolso.
Pedi os jornais da manhã pelo telefone, fossem quais fossem. Quando chegaram, passei um a Wolfe e me instalei no sofá com o restante. Os jornais de Nova York, Pittsburgh e Washington, edições matutinas vindas de trem, não faziam menção ao assassinato de Laszio, mas as manchetes eram enormes no Journal, de Charleston, distante apenas cem quilômetros dali.
Mas, antes que o dia terminasse, as providências de Wolfe para desfrutar sossegado sua privacidade foram por água abaixo. A primeira e menos importante das interrupções aconteceu antes de ele terminar com os jornais, por volta das duas horas, quando ouvi ruídos na porta externa. Fui atender, abrindo a porta só cerca de trinta centímetros, e dei de cara com dois senhores que não pareciam ser das redondezas, a quem eu nunca vira antes. Um deles era mais baixo do que eu e um pouco mais velho, de pele morena, atarracado e magro. Vestia um terno cinturado cinza espinha de peixe, com enchimento nos ombros. O outro, médio tanto no tamanho quanto na idade, tinha a risca do cabelo acima das têmporas e olhos cinzentos pequenos que davam a impressão de que ninguém conseguiria irritá-lo mais, porque já estava irritado ao máximo para sempre. Mas ele falou e ouviu educadamente quando perguntou se aquela era a suíte do senhor Nero Wolfe e eu informei que sim. Ele se apresentou como senhor Liggett, e o espécime acolchoado era o senhor Malfi. Queria falar com o senhor Wolfe. Expliquei que Wolfe estava ocupadíssimo, mas ele mostrou-se muito insistente. Tirou um envelope do bolso e o passou para mim. Pedi desculpas por largá-los no hall antes de fechar a porta e retornei para o quarto.
— Dois homens desconhecidos, creme e caramelo. Para você.
Os olhos de Wolfe não se ergueram do jornal. — Se qualquer um deles fosse o senhor Vukcic, suponho que o reconheceria.
— Não, claro que não era Vukcic. Mas você não proibiu cartas, e ele me entregou uma.
— Leia.
Abri o envelope, tirei a carta, notei que fora escrita em papel timbrado e pus som na caixa:
Nova York
7 de abril de 1937
Caro senhor Wolfe,
Venho por meio desta apresentar o senhor Raymond Liggett, gerente e sócio do Hotel Churchill. Ele deseja solicitar seus serviços ou sua ajuda, e pediu que eu escrevesse este recado.
Espero que esteja se divertindo aí. Não coma demais, e não se esqueça de regressar, para tornar a vida em Nova York mais agradável a nós.
Um abraço,
Burke Williamson
Wolfe resmungou: — Você disse 7 de abril? Mas é hoje.
— Sim. Devem ter voado para cá. Antigamente era um modo de dizer, hoje está na lista dos transportes corriqueiros. Devo permitir a entrada deles?
— Que se danem. — Wolfe deixou cair o jornal. — A cortesia é um problema de cada um, mas a decência é uma dívida para com a vida. Você se recorda de que o senhor Williamson foi muito gentil em permitir que usássemos sua propriedade para armar a emboscada do roubo da senhorita Anna Fiore. — Ele suspirou. — Deixe que entrem.
Fui buscá-los, fiz as apresentações e distribuí as poltronas. Wolfe deu-lhes as boas-vindas, fez seu discurso habitual sobre a tendência a permanecer sentado e olhou pela segunda vez para o acolchoado.
— Entendi bem seu nome, senhor? Malfi? Não seria Albert Malfi?
Os olhos irritados do outro o fuzilaram. — Isso mesmo. Não sabia que conhecia Albert.
Wolfe fez que sim. — Antes se chamava Alberto. Conheci o senhor Berin no trem, a caminho daqui, e ele me falou do senhor. Disse-me que é um excelente preparador de entradas, e tenho sempre grande prazer em conhecer um artista e um trabalhador esforçado.
Liggett meteu o bedelho — Ah, esteve com Berin no trem?
— Sim. — Wolfe fez uma careta. — Compartilhamos aquela provação. O senhor Williamson disse que veio para me pedir algo.
— Sim. Claro que sabe por que viemos. O que aconteceu... Laszio... é terrível. O senhor estava lá, não é? Encontrou o cadáver.
— Encontrei. Não perde tempo, senhor Liggett.
— Pode apostar que não. Normalmente fico acordado até tarde, e me levanto tarde também. Mas esta manhã Malfi me acordou antes das oito, pelo telefone. Os repórteres andaram atrás de mim antes disso, mas é claro que não os atendi. Os jornais da cidade deram a história em segundo clichê. Sabia que o Williamson era seu amigo, e mandei pedir a carta a ele. Depois fretei um avião em Newark. Malfi insistiu em vir junto, e temo que uma de suas funções será vigiá-lo, assim que descobrirem quem cometeu o crime. — Liggett exibiu um sorriso discreto. — Ele é corso e, apesar de Laszio não ser parente, sentia grande devoção por ele. Não é mesmo, Malfi?
O sujeitinho acolchoado fez que sim, enfático. — É verdade. Phillip Laszio era um homem duro, mas um grande homem. E não foi mau para mim. — Ele mostrou a palma da mão a Wolfe. — Mas é claro que o senhor Liggett só está brincando. Todos pensam que os corsos esfaqueiam as pessoas. Trata-se de um preconceito, um equívoco.
— Mas o senhor queria me pedir alguma coisa, senhor Liggett? — Wolfe soou impaciente. — Disse uma de minhas funções. Eu não tenho funções.
— Terá em breve, espero. Em primeiro lugar, descobrir quem matou Laszio. A julgar pelo relato dos jornais, parece um pouco demais para um delegado de West Virginia. Pelo jeito, quem cometeu o crime foi capaz de usar o refinamento para outros propósitos que não experimentar os temperos da sauce printemps. Não posso dizer que era devotado a Laszio, como Malfi, mas afinal era o chef do meu hotel, e pelo que sei não tinha família, a não ser a esposa. Penso que seja uma obrigação. Foi um assassinato covarde, matá-lo pelas costas com uma facada. O maldito tem de ser preso, e suspeito que só você possa fazê-lo. Foi por isso que vim. Conhecendo suas humm... peculiaridades, tomei a precaução de pedir a carta a Williamson.
— Isso foi péssimo. — Wolfe suspirou. — Quero dizer, péssimo que tenha vindo. Poderia ter telefonado de Nova York.
— Perguntei a Williamson o que achava disso, e ele me disse que, se eu realmente desejava seus serviços, era melhor vir aqui e contratá-lo pessoalmente.
— Não sei por quê. Não entendo como o senhor Williamson presumiu essas dificuldades. Meus serviços podem ser contratados no mercado. Claro, neste caso em particular eles infelizmente não estão disponíveis. Foi por isso que disse ter sido péssima sua vinda.
— Por que não estão disponíveis?
— Em função das condições.
— Condições? — A irritação que transparecia nos olhos de Liggett tornou-se mais intensa. — Eu não impus condição alguma.
— O senhor não. O local. A geografia. Se eu aceitasse a tarefa de descobrir o assassino do senhor Laszio, iria até o fim. O que poderia durar um dia, uma semana, com muito azar uma quinzena. Pretendo tomar o trem para Nova York amanhã à noite. — Wolfe piscou.
— Williamson me preveniu. — Liggett apertou os lábios. — Meu Deus do céu! Mas este é o seu trabalho! Seu...
— Suplico, senhor. Não prossiga. Não vou dar atenção a nada. Se eu o ofendo por ser lacônico, paciência. Qualquer um tem a possibilidade de ofender aqueles que estão cheios de ódio. Eu não estou disposto a aceitar nenhum compromisso que me mantenha preso a este paraíso no fim do mundo depois de amanhã à noite. O senhor falou em serviços. Há algo mais que deseje discutir?
— Há. — Liggett dava a impressão de querer continuar a conversa com uma granada ou uma metralhadora. Ele se sentou e encarou Wolfe, e depois de algum tempo desistiu. Então disse — Na verdade, o principal é um trabalho completamente diferente. O motivo que me trouxe aqui foi outro. Laszio está morto, o modo como morreu foi terrível, e como ser humano eu abrigo, espero, os sentimentos adequados sobre isso, mas além de ser humano tenho negócios, e o Hotel Churchill ficou sem seu chef de cuisine. Conhece a reputação mundial do Churchill; ela precisa ser mantida. Eu quero contratar Jerome Berin.
Wolfe ergueu as sobrancelhas. — Não o censuro.
— Nem poderia. Há outros, poucos, tão bons quanto Berin, mas estão fora de questão. Mondor nunca deixaria seu restaurante em Paris. Servan e Tassone são velhos demais. Não me importaria de aceitar Leon Blanc de volta, mas ele também está velho. Vukcic vai continuar no Rusterman’s, e assim por diante. Descobri que Berin já recebeu cinco ofertas de trabalho neste país, duas delas para Nova York, nos últimos dois anos, e que recusou todas. Eu gostaria de contar com ele. Na verdade, ele é o único que considero tanto disponível quanto desejável. Se não conseguir contratá-lo, Malfi poderá colocar o cordon bleu em seu chapéu. — Ele se virou para o acompanhante. — Não está de acordo com nosso compromisso, Albert? Quando você recebeu aquela oferta de Chicago, há um ano, eu disse que se ficasse, e o cargo de chef de cuisine no Churchill vagasse, eu tentaria primeiro conseguir Berin, e se não fosse possível você ficaria com o posto, certo?
Malfi fez que sim. — Foi este o acordo.
Wolfe murmurou — Tudo isso é muito interessante. Mas o senhor estava falando de um trabalho...
— Sim. Quero que se aproxime de Berin para mim. Ele está entre os sete melhores chefs do mundo, mas é difícil de lidar. No sábado passado, ele deliberadamente jogou dois pratos de salsicha no carpete do meu restaurante, no Resort Room. Williamson contou que sua habilidade como negociador é notável, além de ser o convidado de honra aqui. Berin vai ouvir um pedido seu com respeito, e eu acredito, sem sombra de dúvida, que possa convencê-lo. Pensei em oferecer quarenta mil a ele, mas, sendo sincero, posso chegar até sessenta mil, e sua comissão...
Wolfe ergueu a mão em sinal de basta. — Por favor, senhor Ligsett, não prossiga. Tal coisa está absolutamente fora de questão.
— Quer dizer que não aceita fazer isso?
— Quero dizer que não aceitaria a missão de persuadir o senhor Berin de coisa alguma. Prefiro tentar convencer uma girafa. Eu poderia iludi-lo... mas prefiro ser sincero.
— Não quer nem tentar?
— Não mesmo. Para dizer a verdade, o senhor veio ter comigo no momento menos auspicioso dos últimos vinte anos, com propostas que tendem mais a me vexar do que a despertar interesse. Não dou a mínima a quem possa vir a ser seu novo chef, e, apesar de sempre gostar de ganhar dinheiro, isso pode esperar até que eu esteja de volta ao meu escritório. Existem outros mais qualificados do que eu para uma aproximação com o senhor Berin — o senhor Servan e o senhor Coyne, por exemplo, são amigos dele de longa data.
— Eles também trabalham como chefs. Não quero que seja assim. Você é a pessoa indicada para fazer isso para mim...
O cara era persistente, mas não adiantava nada. Tentou insistir, mas Wolfe apenas ficou mais seco, como era do seu feitio, até que Liggett se deu conta de que escolhera o sujeito errado e desistiu. Ele pulou da poltrona, estalou os dedos para chamar Malfi e sem a menor cerimônia deu as costas a Wolfe. Malfi trotou atrás, e eu os segui até o hall para trancar a porta após sua saída.
Quando voltei para o quarto, Wolfe havia retornado ao jornal. Sentia os nervos tensos, mas não estava nada disposto à inércia, de modo que disse a ele — Sabe, Werowance, até que não era má ideia...
Uma palavra desconhecida invariavelmente atraía sua atenção. O jornal foi baixado até o nível do nariz. — Que diabo quer dizer isso? Você inventou?
— Nada disso. Tirei de uma notícia no Journal, de Charleston. Werowance é um termo usado para designar um chefe indígena na Virginia e em Maryland. Vou passar a chamá-lo de Werowance, em vez de chefe, enquanto estivermos nesta parte do país. Como eu estava dizendo, Werowance, pode ser uma boa ideia abrir uma agência de empregos para chefs e garçons, talvez ampliando mais tarde para empregados domésticos em geral. Você tem consciência, suponho, de que acaba de desprezar uma oferta de trabalho das boas. Este cara, o Liggett, tem dinheiro de montão. Suspeito que ele possa ser meio esperto, também. Por exemplo, não imaginou que ele possa ter vindo vê-lo para mostrar indiretamente a Alberto que, se este tentar aprontar algo para Berin, de forma a torná-lo inelegível para o posto no Hotel Churchill, isso poderá ter consequências desastrosas para o próprio Alberto? O que nos abre uma linha de raciocínio que pode levar à solução do problema do desemprego. Se um posto fica vago, e você o deseja, primeiro mate os outros candidatos, e depois...
O jornal havia sido erguido novamente, de forma que eu soube que fora considerado chato. Então disse — Vou dar uma volta e andar pelo riacho; quem sabe, até entrar no hotel e desgraçar algumas garotas. Vejo você mais tarde.
Peguei o chapéu, pendurei o NÃO PERTURBE e fui passear; notei que havia um garçom na porta do hall de entrada principal, mas nenhum guarda. Aparentemente a vigilância fora relaxada. Virei em direção do hotel, só para ver o que andava acontecendo por lá, mas não demorou muito para que eu lamentasse a decisão, pois, se não tivesse ido ao hotel primeiro, poderia ter visto, inteirinho, o show que meu amigo Tolman estava montando, ao invés de mal chegar a tempo para a descida da cortina. Antes disso, deparei com diversas cenas em torno do hall de entrada do hotel e no saguão que serviram para me distrair um pouco, inclusive um cavalo com cara de inteligente pisando com tanta força no pé de uma velha gorda que foi preciso levá-la dali carregada. Lá pelas 3h30, resolvi fazer uma excursão até o pavilhão Pocahontas para agradecer a Vukcic, meu anfitrião, por toda a diversão que me fora proporcionada. Em um trecho isolado do caminho, um sujeito com a gravata para trás do ombro e necessitado de barbeiro pulou de trás de uma moita e me agarrou pelo braço, enquanto me dizia: — Ei, você é Archie Goodwin, não é? O secretário de Nero Wolfe. Olha, cara...
Eu o empurrei, engrossando — Pera lá! Vê se não assusta as pessoas assim. Amanhã de manhã darei uma entrevista coletiva em meu escritório. Não sei de nada, e, se soubesse e lhe contasse, seria morto por meu werowance. Você sabe o que é um werowance?
Ele me mandou para o inferno e começou a procurar outra moita para se esconder.
O teatro no pavilhão Pocahontas estava montado em duas partes quando cheguei lá. A primeira cena, sem contar a presença de dois guardas estaduais postados na entrada, acontecia no hall principal. O cara de paletó verde que abriu a porta para mim estava virado para outro lado, de olhos arregalados. A porta que dava para a sala maior estava fechada. Em pé, com as costas na parede do lado direito, os braços cruzados apertados contra o corpo, o queixo erguido e os olhos purpúreos ofuscando os sujeitos que a cercavam, estava Constanza Berin. Os algozes eram dois policiais estaduais, fardados, e um tipo urbano, fortão, com um distintivo no colete. Apesar de eles não a estarem tocando fisicamente, davam a impressão de que o haviam feito antes de minha entrada. Ela não deu mostras de ter me visto. Uma rápida verificação revelou que a porta para a sala menor estava aberta, e dava para ouvir uma voz vinda de lá. Quando me dirigi à sala, um dos guardas me deu uma ordem ríspida de parada, mas pelo jeito ele estava ocupado demais para interferir pessoalmente, de forma que o ignorei e segui em frente.
Havia policiais também na sala pequena, junto com o delegado de olhos miúdos e Tolman. Entre dois guardas estava Jerome Berin, algemado. Fiquei surpreso porque, dadas as circunstâncias, Berin não estava quebrando a mobília nem crânios, mas apenas olhando e respirando. Tolman dizia a ele:
— ...Sabemos muito bem que você é um visitante estrangeiro e um estranho neste país, e vamos demonstrar toda a consideração possível. Um homem acusado de homicídio não pode ser solto sob fiança nos Estados Unidos. Com certeza, seus amigos providenciarão um advogado para ajudá-lo. Não só eu o preveni de que tudo o que disser poderá ser usado contra sua pessoa, como também o aconselhei a não dizer nada antes de conversar com um advogado. Podem ir, rapazes. Levem-no pelos fundos, para o carro do delegado.
Mas eles não saíram no ato. Gritos e outros barulhos vieram subitamente do hall principal, e Constanza Berin entrou pela porta como um tornado, com os policiais em seu encalço. Um deles, na sala, tentou agarrá-la quando passou, mas teria sido mais fácil tentar parar uma tempestade de neve. Pensei que ela fosse pular por cima da mesa para trucidar Tolman, mas parou e encarou os guardas com os olhos em brasa. Depois foi até Tolman e gritou: — Seu maluco! Seu porco maluco! Ele é meu pai. Acha que ele mataria um homem pelas costas? — Ela bateu com o punho na mesa. — Deixe-o ir! Deixe-o ir, seu miserável!
Um guarda tentou segurar o braço dela. Berin rosnou e deu um passo à frente. Tolman dava a impressão de que a única coisa que poderia salvá-lo era um alçapão de mágico. Constanza livrou-se do guarda com um safanão, e Berin disse algo a ela, em voz baixa e calma, em italiano. A moça andou na direção do pai, três passos, ele tentou erguer a mão, mas não conseguiu por causa das algemas. Então, curvou-se e beijou-a no alto da cabeça. Ela se virou, ficou parada por dez segundos, dirigindo a Tolman um olhar que eu não pude observar, mas que provavelmente tornou o alçapão mais necessário ainda, deu-lhe as costas e saiu da sala.
Tolman não conseguia falar. Pelo menos não falou nada. O delegado Pettigrew empertigou-se e disse — Vamos lá, pessoal. Eu os acompanho.
Dei o fora sem esperar pela saída deles. Constanza não estava no hall principal. Fiquei ali por um instante, pensando em explorar a sala grande, à procura de pessoas que pudessem complementar minhas informações, mas depois resolvi que era melhor depositar primeiro o que já tinha faturado. Sendo assim, voltei a jato para Upshur.
Wolfe acabara de ler os jornais, que estavam empilhados cuidadosamente sobre a cômoda. Sentado na poltrona grande, que não era assim tão grande para ele, lia um livro. Não levantou os olhos quando entrei, o que significava que, no momento, minha vida era exclusivamente problema meu. Entendi o recado e me acomodei no sofá com um jornal na mão, que abri e olhei sem ler. Após cerca de cinco minutos, tendo Wolfe virado duas páginas, eu disse:
— Sabe, foi ótimo você não ter concordado em trabalhar para Liggett. Estou me referindo à última parte do serviço. Se tivesse aceitado, estaria agora numa sinuca. Do jeito que as coisas estão, você teria de se virar um bocado para convencer Berin de qualquer coisa, mesmo que fosse ser chef em uma lanchonete.
Ele não olhou para mim nem se moveu, mas disse: — Presumo que o senhor Malfi esfaqueou o senhor Berin. Ótimo.
— Não esfaqueou nem vai conseguir fazê-lo, pois não pode chegar até ele. Berin está a caminho da cadeia, algemado. Meu amigo Tolman fez uma prisão. A justiça vem a cavalo.
— Puf! Se você pretende me atormentar com contos de fadas, use a imaginação.
Eu disse paciente — O senhor Tolman deu voz de prisão ao senhor Berin pelo assassinato do senhor Laszio, e o transferiu sob custódia, sem possibilidade de fiança. Vi com meus próprios olhos.
O livro foi abaixado.
— Archie, se isso for gozação...
— Não, senhor. É sério.
— Ele acusou Berin?
— Sim, senhor.
— Por Deus, o sujeito é maluco.
— Foi o que a senhorita Berin disse. Ela disse porco maluco.
O livro continuou suspenso no ar. Depois, desceu para repousar sobre a coxa imensa. Em instantes, foi novamente erguido, para marcar a página, e guardado na pequena estante ao lado da poltrona. Wolfe recostou-se novamente, fechou os olhos e cruzou as mãos na frente da barriga. Vi que seus lábios se projetavam, recuavam, iam para a frente de novo... para trás... fiquei intrigado, imaginando o porquê de tanta excitação.