Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 8 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 8

 

HOUVE MUITOS ALTOS E BAIXOS DURANTE

ESSE PERÍODO. POR EXEMPLO, EU ESTAVA na capa da Rolling Stone em maio de 1984. Um fotógrafo muito famoso, Richard Avedon, tirou a foto e tudo que eu queria era estar tão bonita quanto a Annie Lennox em sua capa da Rolling Stone. Em vez disso, eles usaram uma foto em que me achei feia. Chorei quando vi e pensei: “Se estou tão feia, quem vai comprar isso?”. Você deveria ter visto as fotos que não usaram, eram muito melhores.

A revista Ms. me elegeu como uma das mulheres do ano, o que, preciso dizer, foi uma honra para uma queimadora de sutiãs como eu. Mas foi difícil absorver tudo, porque eu basicamente estava trabalhando desde 1983 promovendo o álbum ou fazendo turnês. Quando você está fazendo essas coisas, você fica longe de casa três quartos do tempo. Eu ia para Los Angeles, depois para o Japão e depois para a Austrália. Era assim – continuei andando pelo mundo. Eu voltava, tirava um ou dois dias de folga, mas não era uma pausa porque estava lidando com o jet lag. Aí precisava voltar ao trabalho.

A fama estava acontecendo num nível que a Epic esperava, mas para a qual não tivera expectativas. Quero dizer, consegui ficar quatro vezes seguidas no “top cinco” com hits do She’s So Unusual. Eles tiveram sucesso com outras artistas femininas, mas as pessoas estavam gritando por mim.

Ninguém realmente prepara você para o sucesso. Acho que toda criança, até certo ponto, quer ser famosa. Sei que eu quis, mas porque eu queria fazer um disco, e a única forma de fazer um disco e ter uma carreira na música era ser famosa. Então passei muito tempo me preparando para a fama – por exemplo, fazia entrevistas na minha cabeça quando estava no chuveiro. Não sei por quê (eu era um pouco louca). Caso me sentisse injustiçada por alguém, no chuveiro, também fazia meu discurso de agradecimento para o grande prêmio que receberia – como o Grammy ou qualquer outra coisa.

No entanto, a fama não é nada do que consegui imaginar. Ela parecia fazer com que tudo estivesse andando para trás em relação à lembrança que eu tinha da minha vida. Sempre vivi do lado de fora e foi tão bizarro quando fiquei famosa, porque, de repente, eu estava do lado de dentro. O engraçado foi que comecei a ver uma ironia estranha acontecendo: os mesmos idiotas que jogavam pedras em mim por causa do que eu costumava vestir saíram e compraram os mesmos tipos de roupa.

Vi versões minhas em todo lugar. E minha brincadeira suja e engraçada era provocar pessoas que pareciam muito normais dizendo que eu era perfeitamente normal – que eu era a vizinha ao lado. Então o normal absorveu o anormal e o tornou normal. De repente, houve um movimento de pessoas vestindo coisas que não ousariam vestir antes de me verem.

Talvez eu tenha tornado isso um pouco mais fácil para as crianças que fugiam da norma. Porque, por um minuto, tudo foi invertido, e as pessoas diferentes se tornaram a norma e as pessoas mais conservadoras se tornaram diferentes. E não eram apenas jovens. Minha música sangrou por gerações.

Meu penteado, minhas roupas – tudo – viraram moda. Eu usava corsets como você usaria uma blusa, a Madonna também fez isso depois de mim e, depois de um tempo, todo mundo usava corsets. Era estranho ser totalmente absorvida e apropriada. Outra coisa irônica é que muitos dos meus looks vieram do fato de não ter condições de conseguir o que eu realmente queria, então eu precisava ser inovadora. Por exemplo, quando todo mundo estava usando correntes compridas, tudo que eu conseguia comprar era uma corrente ou duas, então eu pegava fios de strass, que dava para comprar por US$ 0.25 nos mercados de pulgas, e juntava-os para fazer um tipo de cinto. Aí alguém começou a vender correntes com strass.

As pessoas escreviam sobre a minha “moda feita de apetrechos”. Fiz um show em Detroit e, enquanto eu estava me apresentando – fazendo todo mundo se mexer –, as pessoas na plateia começaram a puxar as coisas de mim. Na época, eu ainda estava comprando cada coisinha, economizando para isso e aquilo, e finalmente consegui comprar coisas como o cinto de corrente e strass. Então, quando as pessoas se aproximaram e pegaram minhas coisas, pensei: “O que vocês estão fazendo? Estão rasgando essa saia que deixei reservada até conseguir pagar!”. Foi bem perturbador no começo. Isso e os gritos.

Mas eu sabia que estava fazendo algo de bom quando vi três gerações de mulheres comparecerem aos meus shows: avós com strass, mães com cabelos tingidos de spray e suas filhas pequenas vestidas como uma versão esquisita de mim. Percebi que eu tinha a atenção delas. Eu estava falando para três gerações, e era isso que eu queria. Ao incluir minha mãe no grupo, e pessoas como Captain Lou, fui capaz de falar para um público muito amplo e diverso. Meu sentimento é: quando você sobe até o topo da montanha, é melhor você ter algo a dizer. Nunca tive problema em abrir minha boca grande, e isso não mudou quando fiquei famosa. Como eu disse, eu estava sempre dizendo as coisas erradas para as pessoas certas.

Em especial, falei sobre os direitos das mulheres. No começo, ninguém apareceu e disse que era feminista. Eu fiz isso. Nunca disse “humanista” como muitas outras artistas faziam. E quando o clipe “Papa Don’t Preach” saiu, com a Madonna dançando em sua roupa sexy, eu tinha algo a dizer sobre isso. Se você é uma mãe adolescente que quer manter seu bebê: primeiro, você não vai parecer a Madonna, dançando por aí. Segundo, não vai ser assim tão fácil. Os pais (homens) nem sempre aparecem no final para lhe dar a bênção. O cara que engravidou você nem sempre fica por perto. Terceiro, todas as mulheres ainda devem ter escolha. Eu estava orgulhosa de ter me pronunciado sobre algo que eu sabia que era o certo, mas a gravadora e meu empresário surtaram.

Numa outra ocasião, fui ao Japão e os repórteres começaram a falar sobre “Girls Just Want to Have Fun” e perguntaram: “Você acha certo uma jovem ficar fora a noite toda?”. Eu disse: “Para mim, parece que sim”. Ainda havia mulheres de quimono andando atrás de seus maridos no Japão naquela época e, quando vi isso, pensei: “Isso tem que mudar”. Então tudo que falei quando estava no Japão era sobre igualdade – tudo. Direcionei todas as conversas para: “Bom, veja isso dessa forma: se você quer uma sociedade forte, se quer ser competitivo no mundo, não pode simplesmente usar metade do seu pessoal – você precisa usar todo o seu poder”. Eles olhavam para mim como se eu estivesse apresentando uma ideia nova – e é claro que eu não estava. Mas isso estava vindo dessa maldita mulherzinha que parecia uma alienígena para eles. No entanto, eles gostam de alienígenas. Quando fui ao Japão, percebi por que tinha me tornado popular: meu cabelo era laranja brilhante, eu usava roupas engraçadas e usava uma pintura de guerra no rosto. Assim como alguns de seus desenhos.

Fiz a mesma coisa quando fui para a Itália. Peguei uma página de Gertrude Stein e disse à imprensa que os três maiores opressores de mulheres são a igreja, a família e o governo. Isso é verdade.

Deus, falei bastante com a imprensa naquele ano. Depois de um tempo, quando eu estava repetindo a mesma coisa várias vezes, sentia vontade de dizer: “Escute, esqueça as perguntas, não seja bobo, pare tudo, corra para fora, consiga um ingresso, compre o álbum. É a melhor coisa que você vai comprar”. Mas é claro que não dá para fazer isso.

Eu estava trabalhando sem parar, mas Dave e eu nos divertíamos um pouco. Andávamos em limusines o tempo todo. Eu pulava em camas de quartos de hotel (mas sempre pulei em camas, em hotéis e em casa). Pensava: “Olhe para nós! Estamos vivendo muito bem!”, mas também era surreal. Eu entrava em um evento e as pessoas gritavam para mim do jeito que eu costumava gritar para os Beatles, rasgando minhas roupas. E geralmente eram garotas, o que era estranho para mim. Entendi por que garotas jovens gritavam para caras – elas os achavam bonitinhos. No entanto, garotas gritando para garotas eu não entendia. Depois de um tempo percebi que era admiração – que eu era uma espécie de heroína delas por abrir minha boca enorme sem pensar. Eu dizia coisas que outras pessoas não diziam. Acho que isso fez de mim alguém cativante, mas é claro que também fez as pessoas me odiarem.

Eu não podia acreditar no que estava acontecendo – eu não podia ir a lugar nenhum, pois sempre havia histeria quando ia a algum lugar. Eu saía para comer e alguém sempre se aproximava, sempre. Eu não podia ter um único minuto para mim, e o triste foi que as pessoas com quem eu estava e não via há muito tempo – pessoas que eu finalmente podia me dar ao luxo de levar para comer fora – começaram a ficar chateadas. É estranho ser constantemente interrompida e elas não estavam acostumadas com isso.

Sair para jantar era o que eu mais costumava fazer socialmente. Eu tinha namorado, então não havia festas loucas. Celebrei meu trigésimo primeiro aniversário em um restaurante chinês e convidei todos os meus amigos – isso é tão louco quanto possível. Depois dos shows, eu voltava para o hotel com Dave, tomava um banho quente, me alongava e ia para a cama enquanto ele jogava cartas com os amigos. Ou, se estivéssemos em casa juntos, ele ia para o outro lado do loft que conseguimos no centro da cidade, no Thread Building, e jogava videogame, como Super Mario ou Pinball. Depois de vê-lo jogar por algum tempo, eu ia para o outro lado do apartamento e assistia a filmes antigos, porque eu não aguentava aquilo.

Desde que eu estava com Dave, nunca saíamos na cidade nem íamos dançar. Ele não dançava. Nossa vida juntos consistia em negócios e coisas caseiras. Eu amava Dave, mas gostaria de ter conhecido outros artistas e ter feito mais coisas. Às vezes, quando ele não estava por perto, eu ia a casas noturnas e cantava em noites de microfone aberto. Eu tentava encontrar outros músicos, porque essa é a única coisa de que sentia falta – outros músicos, outros artistas, não apenas pessoas que o empresário encontra para compor com você. Havia apenas um músico que vinha ao meu apartamento para me ver e de que eu realmente gostava: Boy George. Ele veio com Marilyn, a cantora transgênero. Eu adorava o Boy George e estava muito animada para encontrar outro artista. Nós ficamos conversando e, quando ficou tarde, pensamos: “Vamos comer”. E, naquela época, o que é difícil de acreditar agora, não havia nenhum lugar por perto para comer que ficasse aberto até tarde, exceto um lugar chamado Green Kitchen.

Em geral, com outras pessoas famosas, eu era um pouco tonta. Eu tropeçava com meus próprios pés. Porque eu ainda era eu. Quer saber? Mesmo na Epic eu ficava mais à vontade saindo para almoçar com as secretárias do que com as pessoas da música. Embora eu fosse a única que deveria ser a pirralha mimada, eu não me sentia assim, porque tudo que eu fazia era trabalhar (e lutar para conseguir o que eu queria).

Em minha primeira grande turnê, toquei em muitas faculdades. E sempre quis ter mulheres na turnê porque minha banda estava cheia de homens, mas, toda vez que eu pedia uma mulher, Dave Wolff dizia: “Elas não tocam tão bem quanto os homens”, o que não é verdade.

A Concrete Blonde abriu o show para mim uma vez. Eles eram um trio e, na primeira noite, não se saíram tão bem. Então pedi ao meu empresário da turnê para ligar para minha agente, Barbara Skydel, e dizer: “Ei, não sei o que há com essa banda”. Então o empresário da turnê tirou a banda. Mas eles estavam comprometidos a abrir para mim na noite seguinte. Bom, naquela noite, eles foram incríveis. Então liguei para Barbara e disse: “Espere um minuto – esses caras não são tão ruins”. No entanto, eles não quiseram voltar, estavam furiosos. Tudo bem, porque talvez essa crítica tenha sido um catalisador para Johnette tentar ainda mais. Acho que às vezes a raiva ajuda as pessoas a seguir em frente.

Basicamente, no começo, eu não tinha backing vocals nem nada disso nas minhas turnês. O cara que tocava guitarra meio que fazia o backing vocal, eu era a vocalista e depois mudava para o backing vocal e me juntava a ele para que o som fosse um pouco mais forte, e depois voltava a ser a vocalista. Ele era um ótimo guitarrista e também tinha cabelos ruivos. Então isso pareceu muito bom no palco. Aquilo era demais para minha voz. Minha banda era maravilhosa, mas sempre senti que poderia ter usado alguns backing vocals. Eu adoraria ter tido algumas mulheres comigo em turnê, seja como cantoras ou musicistas, mas, de novo, toda vez que inventava de contratar uma musicista, Dave dizia que não havia nenhuma musicista boa.

O público continuava aumentando. Normalmente, antes de subir ao palco, eu era um desastre. Era sempre uma corrida nos bastidores. Às vezes, enquanto meu maquiador fazia a maquiagem – eu arrumava meu próprio cabelo –, eu começava a fazer meus exercícios vocais. Como eu disse, sempre tinha uma panela e um fogão portátil para poder cuidar da minha voz com vapor (por cerca de dez minutos, porque nunca tive tempo para fazer isso por mais tempo). Eu enchia uma bexiga para trabalhar meus pulmões. Depois me vestia e andava por aí, nervosa. Eu estava sempre preocupada em não ser boa o suficiente. Eu estava sempre espiando o lado de fora e contando os lugares ocupados para ver se tinha me saído bem e me perguntava se o dinheiro das pessoas valeria a pena. Se o lugar não estivesse lotado, dizia a mim mesma: “Bom, tudo bem – então você mostra a todos o que as pessoas que não compraram os ingressos perderam”. Ainda costumo fazer isso.

Eu tentava me encontrar com a banda antes, para dizer: “Bom show para vocês”, mas sempre fui mantida à parte. E não, não fazia um círculo de oração antes do show. Odeio toda a prática do círculo de oração. Porque o meu Senhor provavelmente não é seu Senhor. Quero dizer, olhe para mim: o que você acha? Uma mulher ou uma drag queen ou uma pessoa realmente interessada em moda, música e artes – talvez essa seja a líder da minha casa de oração. Ou talvez minha casa de oração seja a loja da Chanel? A única vez em que gostei da coisa toda do círculo de oração foi quando fiz isso com Cassandra Wilson. Eu a adoro. Ela me ligou uma vez quando eu estava tendo uma briga feia com meu marido, David, e eu disse: “Cassandra, não posso falar agora, estou tendo uma briga feia com meu marido, ligo para você mais tarde”. Pensei que ela havia se sentido muito insultada e que eu era rude. Essa foi a última vez que falei com ela por um tempo. No entanto, a vida seguiu e voltamos a nos encontrar em dezembro de 2011, quando ela se apresentou no show da True Colors Fund, “Cyndi Lauper & Friends: Home for the Holidays”. Comecei a cantar e tocar dulcimer enquanto ela tocava violão. Ela ainda é incrível.

Onde eu estava? Certo: me apresentando. Quando chegava a hora de subir ao palco, eu ia lá de forma despretensiosa e calma e dizia: “Ei, como vocês estão?”. Às vezes, quando a plateia mostrava muito carinho, isso quase me fazia perder a fala e me fazia chorar. Então eu falava porque ficava nervosa. Depois de terminar de falar, eu me sentia menos nervosa, e quando eu começava a cantar, eu me acalmava.

Porém, sempre senti que tinha que provar minha capacidade. Se eu errasse a letra, eu dizia: “Meu Deus, vamos fingir que isso não aconteceu”, e contava com a banda. Eu sempre tentava incluir a plateia, algo como: “Estamos todos juntos nessa”. Sempre penso: “Como as pessoas na multidão terão retorno do dinheiro delas? Elas compraram o ingresso. Talvez tenham contratado uma babá. Agora, como eu faço isso valer a pena para elas?”.

Assim como eu fazia nos dias da Blue Angel, pensava em como começaria o show. Sempre achei que tudo gira em torno de como você abre o show. Eu saía encoberta e depois tirava a roupa quando me apresentava. Tinha meu cabelo tingido de laranja, amarelo e vermelho, como fogo, e o enfiava embaixo de um chapéu. Eu também usava óculos e um casaco quando aparecia no palco. Então puxava o chapéu e balançava o cabelo para revelar essa explosão de cor, o que era emocionante para eles, ou tirava os óculos, e isso era como um fenômeno. Mas eu fazia isso por mim também. Porque, como eu disse, isso me ajudava a tirar as camadas emocionalmente.

Depois eu começava a cantar. Eu sabia que a primeira e a segunda música precisavam ser fortes. Aprendi isso ao assistir os Allman Brothers quando os vi nos anos 1970. Eles sempre apareciam com músicas em ritmo acelerado primeiro, para chamar a atenção da plateia e, em seguida, diminuíam a velocidade. Eu me movimentava e cantava, movimentava e cantava, parava, falava, cantava uma pequena balada e, quando as pessoas relaxavam, eu me movimentava e cantava de novo até que elas estivessem num nível de frenesi que, no fim, estavam loucas. Eu as acertava em cheio. Eu não dava escolha a elas. Nunca desisti de uma plateia, nunca. Continuo acertando as pessoas até alcançá-las, mesmo que precise ir até a plateia e me sentar em seus lugares. Sempre quis ser como os Rolling Stones e sobrevoar o público em uma plataforma elevatória como Jagger. Em vez disso, meu ato era subir numa maldita lata de lixo no palco porque eu não podia bancar a plataforma elevatória quando cantava “Money Changes Everything”. E eu achava que a lata de lixo estava em um sistema automático de polias, mas, na verdade eram dez homens me levantando. Fizeram com que eu assinasse meu testamento antes de me içarem. Só subi um pouco e, assim que comecei a tremer e a perder o equilíbrio, me puxaram de volta. Devem ter pensado: “A galinha dos ovos de ouro está caindo – puxem-na, garotos, tragam-na de volta!”.

Muitas vezes me senti totalmente isolada nos bastidores, então sempre tentei me conectar com as pessoas quando estava no palco. Com pessoas do público universitário não havia barreiras, então elas podiam me tocar e eu tocá-las. Nós nos abraçávamos, ou elas estendiam as mãos e seguravam meus pés e pernas e eu levantava o braço e cantava. Essas pessoas nunca fizeram nada de estranho – se tivessem feito isso, eu teria batido nelas. Olha, nunca fui um símbolo sexual. Porque não me vestia como um. Usava meias arrastão com um pé de tênis preto e outro pé de tênis branco que eu pintava com caneta hidrográfica. E eu não agia como um símbolo sexual também. Eu estava vendendo a liberdade de expressão e a liberdade de ser diferente – não sexo. Estou lhe dizendo, não havia homens me perseguindo. Em vez disso, eu tinha as pessoas tristes, porque eram as pessoas que eu estava tentando curar quando cantava.

Apesar disso, eu não conseguia acreditar no quanto alguns dos homens da turnê eram sexistas. Eu ficava sabendo de caras dormindo com uma mãe e a filha dela e coisas assim. Eu pensava: “Que porra é essa? Essas pessoas estão vindo para cá por minha causa, eu estou pregando a liberdade das mulheres no palco, e veja o que vocês, homens, estão fazendo”. Era o meu momento, mas eles queriam ter o momento deles também. No fim, a banda era de Dave Wolff – ele contratava os músicos, eles o ouviam, se tivessem algum problema comigo, falariam com ele (acredite, isso mudou alguns anos depois). Mas, na época, me mantinham muito ocupada e eu ficava apenas tentando acompanhar tudo. E quando as pessoas lidavam comigo, elas surtavam, porque eu era bem direta com elas.

O sexismo no mundo da música não se limitava apenas às gravadoras e aos rapazes da turnê. Vi isso com outros artistas também. Conheci Ron Wood dos Stones uma vez em alguma cerimônia de premiação. As garotas dele estavam todas vestidas de forma elegante e eu disse: “Sim, as garotas só querem se divertir”. Ele olhou para mim e afastou as garotas. Você tem que entender que na geração dele as mulheres eram totalmente diferentes. Caras como ele não estavam confortáveis com o que eu representava. Você já viu o clipe da Art of Noise chamado “Close (to the Edit)”? Tem uma garotinha lá com o cabelo punk batendo nas coisas e ela está vestida como eu. Foi assim que essa geração de homens me viu: eu era assustadora porque, quando via mulheres sendo diminuídas ou objetificadas, dizia: “Merda, não! Isso é chauvinismo, não vou permitir isso”.

Outra vez, quando eu estava em algum outro evento, eu disse ao meu estilista que queria parecer diferente de um jeito chocante. Então me vesti de um jeito muito feminino – ainda rock and roll, mas sexy, o que, para mim, era radical. Eu estava esperando para subir ao palco para me apresentar com um roqueiro mais velho. Eu me virei de costas para ele por um segundo para dizer “oi” para um amigo, e de repente esse cara muito famoso agarrou meus quadris e meio que me encoxou. Fiquei pensando: “O quê? Ele acha que isso é algum tipo de aperto de mão?”. Então me virei e disse, tão alegre quanto pude (até dei uma risadinha no meio da frase): “Ei, amigo – não é por nada, mas se você fizer isso de novo, vou ter que arrancar seu coração na porrada”. Então ele agiu como se estivesse com medo de mim. Pensei: “Você quer dizer que sob essa juba não há um leão, só um choramingo? Que diabos?”. Ele era mais alto, mais forte e me pegou de surpresa.

A ideia de que uma mulher realmente se ofenderia por ter sido encoxada por alguém que ela não conhecia bem provavelmente foi um choque para ele. E por quê? Porque ele estava acostumado a mulheres se atirando nele? Só acho que eu estava no meio de uma geração estranha, em que a ideia de igualdade iludiu esses homens (pelo menos até que eles tivessem filhas).

Uma vez Bob Dylan falou comigo, não muito tempo depois que apareci em um especial para John Lennon. Agora eu o adoro. Quem não gosta? Mas ele me disse: “Sabe, vi o que você fez no especial de Lennon e achei realmente ótimo. Eu teria você na minha banda – e falo sério, porque não gosto de garotas em bandas”.

Ai, ai, ai. Olhei para ele e disse: “Sim, bem, não é por nada, mas isso foi um insulto ou um elogio?”.

Ele disse: “Oh, o que você é, uma daquelas mulheres feministas que queimam sutiãs?”. Respirei fundo e disse: “Bem, sabe, Bob, se eu não estiver preocupada com minhas liberdades civis, quem estará?”. Ele apenas balançou a cabeça e disse: “Oh”. Nesse ponto eu queria dizer: “Blowin in the wind, Bob?”. Mas eu não disse, porque era Bob Dylan e ele escreveu essa música, e muitas, muitas outras músicas maravilhosas. E, sendo honesta, acho que ele também é de uma geração em que as mulheres se anularam porque os homens eram deuses do rock. Para mim essa geração inteira e seu amor livre, com músicos sendo os grandes pavões e as mulheres andando quietas atrás ou ao lado deles, era uma grande porcaria. Sendo uma mulher que lidava tanto com essa merda, às vezes eu só queria dizer: “Desculpa, mas não há luz suficiente para duas pessoas?”.

Quando fiquei famosa – quero dizer, imediatamente –, a imprensa sempre me perguntava sobre uma pessoa: Madonna. Tentaram criar uma grande rivalidade, mas meu sentimento era: não se bate em outra irmã, nunca. Mas até a gravadora dela entrou nisso. Publicaram um anúncio na revista Billboard, em que ela estava vestida com um corset branco. E dizia algo como: “Essa garota vai dar trabalho para Cyndi Lauper”. Eu me senti muito mal com isso. Todo mundo foi estimulado por essa suposta rivalidade, mas eu estava mantendo distância e pensando: “Não quero fazer isso. Não quero fazer parte disso”.

A questão era: nossa música não era nem parecida (apesar de que, se quer saber, a voz dela foi acelerada em “Like a Virgin” para que soasse tão alta quanto a minha). Ela era tão inteligente em relação a negócios e marketing (eu nunca fui) e ela sempre foi, e ainda é, linda. Eu meio que fui para o outro lado porque usava pintura de guerra no rosto e vestia roupas rebeldes e antimoda de propósito às vezes, especialmente no fim de 1985. Lembro que vi a Madonna pela primeira vez no American Music Awards no início de 1985. Eu estava pronta para ganhar alguns prêmios e também ia apresentar “When You Were Mine”. Eu deveria ter cantado “Girls Just Want to Have Fun” – o lugar todo teria entrado em erupção –, em vez disso, cantei a música do Prince, que provavelmente passou batida pela cabeça de todos. Mas eu queria que meu disco seguisse adiante.

De qualquer forma, fiz tudo preto e branco no cenário. Falei para os produtores me deixarem trabalhar com o sindicato dos carpinteiros para construir uma grande escultura feita de sapatos. Eu estava descalça e usava calça preta, camisa branca, maquiagem preta e um colete com estampa de zebra. Nada tinha cor, exceto um pouco de tinta laranja que estava em um balde no palco e meu cabelo, amarelo e laranja. Então, enquanto eu cantava, espalhava cor no cenário. Para os telespectadores, parecia que eu estava transformando uma imagem em preto e branco em cores. Eu queria levar arte para a casa das pessoas. Eu estava determinada a misturar arte e música, o aspecto visual, o som e a história, e basicamente abri uma veia no palco. Eu queria ser maior que a vida, ser melhor do que quem eu era, parecer completamente diferente. Eu me tornei uma pintura. É por isso que me identifico com Lady Gaga e Nicki Minaj – elas se tornam pinturas às vezes.

Naquele ano fui indicada para dois prêmios, Artista Feminina de Pop/Rock Favorita (concorrendo com Madonna) e Clipe de Artista Feminina de Pop/Rock Favorito (concorrendo com Tina Turner). Quando me levantei para fazer meu discurso de agradecimento para Artista Feminina de Pop/Rock Favorita, olhei para Madonna na plateia e me senti muito mal, porque ela lançou “Like a Virgin” e foi a número um por seis semanas seguidas. Nunca tive esse tipo de sucesso na vida, nunca. Ela também não tinha tido, então pensei que era incrível para ela.

Então agradeci a todos e disse: “Aceito este prêmio pelas pessoas que vieram antes de mim e pavimentaram o caminho, e para as pessoas que virão depois de mim”. Olhei para ela e pensei: “No ano que vem será você”. Eu a conheci depois e disse: “Ei, essa sua faixa, ‘Like a Virgin’, é inacreditável, é muito boa, parabéns”. Ela era legal, mas foi uma troca muito curta. Nunca pude ter uma conversa com ela, porque ela sempre teve muitas pessoas que a protegiam. A minha vida inteira vivi do jeito oposto.

Depois do show, continuei com minha vida incessante: o American Music Awards terminou por volta das 21h ou 22h, e tive que ir direto para um estúdio de gravação em Los Angeles para filmar o vídeo “We Are the World” para o projeto “USA for Africa”. Não havia tempo para me arrumar. Eu estava muito chateada por não poder lavar o cabelo depois da peça de arte que fiz, então tinha respingos secos de tinta laranja e amarela caindo da minha cabeça. Usei um casaco de garçom italiano, porque estava com uma blusa branca felpuda embaixo e macacão e eu achei que o casaco me faria parecer mais magra. Quando cheguei lá, vi Michael Jackson em sua jaqueta de líder de banda e ela era muito semelhante ao meu casaco, então tirei o meu. Além disso, os respingos secos de tinta do meu cabelo estavam começando a cair no casaco – não era o melhor visual.

Quincy Jones, o produtor, disse a todos para deixar o ego na porta, mas eles não fizeram isso. Eu queria me misturar, mas era como o monstro. Eu estava com os grandes respingos secos de tinta laranja e amarela que pareciam caspa. Falei “oi” para Michael Jackson. Não era muito falante, mas era legal. Então conversei com pessoas como Huey Lewis e contei piadas ruins e ri. Acho que se você disser algo que não é engraçado e depois rir, é meio engraçado. Mesmo nessa situação, eu me senti como uma estranha. Sempre. Sempre fui como o Rodney Dangerfield do rock. Fazia luta livre, era esquisita e, de repente, estava cantando esses grandes sucessos.

Fui até Bette Midler e disse a ela que eu a adorava. Aí relegaram Bette Midler, cuja voz eu sempre adorei – Bette Midler –, a algum canto para ficar com os Jacksons não cantantes no refrão! Então, de novo, Billy Joel estava lá e não pediram para ele cantar solo também. Continuei olhando em volta e pensei: “Onde estão as mulheres com as grandes vozes? Cadê a Aretha? Cadê a Patti LaBelle?”.

Consegui uma boa parte na música que Dave realmente disputou para mim. Eu conhecia o verso, mas não sabia como cantaria até começar a cantar. Era o ponto crucial da ponte e eu tinha acabado de assistir cantores incríveis, um atrás do outro – a voz de Steve Perry é incrível, a voz de Daryl Hall é incrível. Chegou a minha vez e o verso acabou saindo atrapalhado. As melhores coisas que canto são cantadas quando não estou no controle, quando apenas permito que tudo passe por mim. No entanto, acho que assustei Kim Carnes, que estava ao meu lado, pra valer. Então Quincy continuou: “O que é esse som estridente?”. Ele parou tudo, veio até mim e disse: “São as suas bijuterias”. Pensei: “Ele disse para deixar o ego na porta – não as bijuterias”. Mas eu não disse isso – apenas entreguei a ele as bijuterias e segui em frente. Para mim, não apenas o que você veste é importante, mas também como você complementa o que veste com acessórios. Estávamos sendo filmados, eu queria estar com uma boa aparência. Sem as bijuterias, eu me sentia como uma simples mulher, exceto pela tinta amarela e laranja brilhante no meu cabelo, para ser precisa.

A sessão continuou por cerca de dez horas. Achei interessante que o primeiro verso e a ponte incluíam mulheres e o grande final as excluía. Foi uma noite longa. Saímos ao amanhecer. Senti como se estivesse cambaleando.

Então o Grammy Awards aconteceu no mês seguinte. Fui indicada para sete deles. Janet Perr ganhou na categoria Melhor Direção de Arte no álbum, e eu ganhei na categoria Melhor Novo Artista, que é o beijo da morte (veja os artistas que conseguiram isso no passado: Rickie Lee Jones, Christopher Cross, Arrested Development). Eu me senti tão constrangida porque, no ano anterior, Michael Jackson ganhou tudo – havia fotos dele carregando uma braçada de Grammys – e acho que as pessoas da gravadora esperavam que eu fizesse o que ele fez e limpasse tudo. Porém, eu estava enfrentando todos esses grandes pesos pesados: Springsteen, Prince, Tina Turner e Lionel Richie. Eu era peixe pequeno.

“Time After Time” foi indicada para Melhor Canção e “Against All Odds”, de Phil, ganhou. E eis a questão: não ouvi muitos covers de “Against All Odds”, porém nunca paro de ouvir covers de “Time After Time”. Então talvez não seja o prêmio que conta. É maravilhoso ouvir o que as outras pessoas acrescentam a uma música que foi muito pessoal para mim. Tuck & Patti fizeram uma versão especialmente boa de “Time After Time”, assim como Patti LaBelle. Essa música tem sido cantada por dezenas de artistas – não consigo nem acompanhar quantos. No entanto, a maior honra que senti foi quando Miles Davis fez o cover dela. Nunca quis que ele me conhecesse, porque pensava que, se ele não gostasse de mim (como a maioria dos veteranos), ele não tocaria mais minha música, e o jeito que ele a tocava era pura magia.

Entre as datas da minha turnê, eu voltava para outros shows em premiações, como o primeiro MTV Video Music Awards, onde ganhei na categoria de Melhor Clipe Feminino (e durante o MTV Awards de 1987 pude apresentar “Change of Heart” conforme ia descendo em uma barra de acrobata, o que foi muito legal). Trabalhei de forma árdua com a MTV. Eu adorava vídeo e música. Adoro a era visual em que eu vivo.

Aquele primeiro ano depois de lançar She’s So Unusual foi incessante, e muito disso foi uma emoção. Foi o tipo de ano louco em que minha mãe fez um programa de televisão sobre mães de celebridades e ficou amiga da mãe de Cher e da de Stevie Wonder (que lhe disse que ela era durona).

Por outro lado, também tive dificuldades, porque comecei a ter náuseas por causa da endometriose. Pior, meu amigo Gregory começou a ficar doente. Eu adorava o Gregory e sempre me senti protetora dele por conta de tudo que ele passou. Ele foi expulso de casa aos 12 anos quando sua mãe viu seu padrasto violentando-o sexualmente. Ela manteve o padrasto e colocou o garoto para fora – uma história triste que nunca vou esquecer. Não foi uma época fácil para Gregory. Uma vez, ele e eu estávamos falando sobre o que ele faria com sua vida e ele disse: “Ah, que importância isso tem? De todo jeito, somos loucos”. A partir disso, entendi como era ter uma autoimagem terrível – sentir-se como lixo jogado na rua, na esperança de que o vento o levasse, para não ter que ficar mais por perto. É difícil explicar para alguém que não sofreu abuso quando criança como esse abuso pode arruinar sua cabeça – a forma como você sente isso, não importa o que você faça, porque o pior já foi feito com você. Sei em meu coração que Gregory deve ter se sentido assim.

Também vi a prima de Gregory, Diana, uma mulher transexual, ser ridicularizada por tentar ser a mulher que ela sentia que era por dentro. Você precisa lembrar que Nova York foi uma época assustadora nos anos 1980. Havia jovens saqueadores e brutais vindos de Nova Jersey e do Brooklyn, que dirigiam nas redondezas do West Village e procuravam espancar pessoas que eles achavam que eram gays.

Quando Gregory ficou doente, tínhamos acabado de filmar “She Bop” juntos. Mais uma vez, todos os meus amigos, incluindo Carl e Gregory, estavam no vídeo. Eles fizeram o papel de clientes robóticos no local de fast food. Logo depois disso, os dois se sentaram comigo para me contar que Gregory estava doente. Eles fizeram parecer que tudo ia ficar bem, mas, na verdade, a Aids era uma sentença de morte na época. Eu estava devastada. Durante o tempo que passei no apartamento da Rua 77, cheguei a pensar que minha pequena família dessa rua e eu envelheceríamos juntos e, em certo momento, ficaríamos em um hotel cor-de-rosa em algum lugar da Flórida bebendo mint juleps (seja lá o que for essa bebida) numa varanda e relembrando os velhos tempos juntos.

Carl foi forte no começo, mas é difícil ver o homem que você ama afundar daquele jeito. Gregory teve relações sexuais sem proteção quando trabalhou em um bar quando era mais jovem, e foi assim que aconteceu. No entanto, as pessoas simplesmente não sabiam que havia o risco da Aids na época.

Quando as pessoas me perguntam por que trabalho para essa comunidade, digo que é por causa dos meus amigos e da minha família. Meu trabalho com a True Colors Fund – e meu trabalho com Colleen Jackson na True Colors Residence, um abrigo no Harlem que ela construiu para jovens LGBT expulsos de casa por seus pais –, claro, está diretamente relacionado a todos eles. Como não poderia estar? (Vou falar mais sobre isso depois.) Eu vi a Aids alterar e depois debilitar amigos, como meu cabeleireiro e maquiador Patrick Lucas. Ele ainda está vivo, mas luta o tempo todo porque a doença não facilita e você precisa tomar muitos medicamentos. Certa vez, ele me disse que os medicamentos são tão fortes que os sobreviventes da Aids dizem entre si que esse ou aquele está morrendo da “Aids antiga”. Patrick era uma parte enorme da criação da minha maquiagem e do cabelo no começo. Tínhamos as ideias e ele as executava com perfeição. Eu dizia que queria o padrão xadrez de sua camisa em meus olhos e ele pintava tabuleiros em minhas pálpebras. Ele também pintou meu cabelo para “Money Changes Everything” quando estávamos na estrada e eu não podia ir ao Vidal Sassoon. Ele fez minhas raízes loiras e minhas pontas vermelhas como uma chama. Também fez minha maquiagem para a capa da Rolling Stone. Nós dois estávamos em perfeita sincronia. Um dos meus olhos é menor que o outro, então eu o deixava louco porque ele queria fazê-los parecerem iguais.

A Aids também levou meu bom amigo Louis Falco, que criou a coreografia para o filme Fama. Espero que num desses anos possamos eliminar a doença para sempre. Entretanto, até lá, cito Nancy Cohen, ex-diretora executiva da MAC AIDS Fund e ex-chefe da campanha Viva Glam de combate a Aids, que disse que “a Aids é 100% evitável e 100% não curável”. Você pode viver com Aids, mas não é fácil. E, se a Aids não matar você, os remédios podem fazer isso. Então estou empenhada em lutar e ajudar as crianças LGBT que estão na rua.

Enquanto Gregory estava no hospital, morrendo com seus inacreditáveis e jovens 27 anos, ele me pediu para escrever uma música para ele. Queria que eu a lançasse com o espírito de “That’s What Friends Are For”. Pensei: “O quê, como Burt Bacharach? Nossa, é uma tarefa difícil”. Na maior parte da minha vida, consegui lidar com a noção de que sempre haverá pessoas melhores e maiores do que eu, mas não consigo me concentrar em outras pessoas. Então escrevi “Boy Blue”. Coloquei meu coração e meu fígado nessa música, mas infelizmente não era boa para tocar de forma repetitiva no rádio. Era tão enredada em meu sofrimento e tão encoberta pela minha tristeza que não sei se era boa o suficiente para ele.

A True Colors Residence tem uma placa no prédio com uma dedicatória em memória a “Gregory Natal, Boy Blue”. Não pudemos salvá-lo, mas talvez possamos salvar alguns outros. Eu já disse isso antes: Deus ama todas as flores, mesmo as flores selvagens que crescem ao lado da rodovia.

“APRENDI O PODER DE UM

SUSSURRO.”