Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 18 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 18

 

A VIDA CONTINUA ACONTECENDO, COM

TODAS AS SUAS VOLTAS E REVIRAVOLTAS. Por exemplo, em março de 2011 eu estava indo para o Japão e depois para a Austrália como parte da turnê mundial para divulgar o CD Memphis Blues. Quando estávamos voando para o Japão, de repente, ficamos descendo e depois subindo. Pensei: “É outra aventura de aeroporto, como em Buenos Aires”. Mas não foi – foi realmente sério. Era um terremoto. Não tínhamos lugar para pousar, então tivemos que pousar em uma base militar. Havia alguns jovens japoneses com seus celulares contatando amigos deles. Eles disseram que o terremoto havia chegado ao norte, mas ninguém disse nada sobre um tsunami; eu não tinha ideia na época.

Por fim, disseram que tínhamos que ser levados de avião para o aeroporto local de Tóquio. Naquele momento já eram 22h ou 23h e havia pessoas por toda parte. Apreensivos funcionários da companhia aérea estavam se desdobrando para tentar atendê-las. Algumas estavam deitadas no chão, no que pareciam ser sacos de dormir descartáveis. Pensei: “Sacos de dormir descartáveis? Só no Japão”. Observei como todos nessa crise se mantinham controlados de forma graciosa. Todos estavam calmos, eram generosos e se comportavam com dignidade.

Tenho uma longa história com o Japão, que se iniciou em 1984. Quando fui lá, mudaram o nome de “Girls Just Want to Have Fun” para “High School Danceteria”. Mais tarde, em 1986, eu disse: “Vocês não querem que as garotas entendam que essa música é sobre empoderamento e direitos?”. Eu disse ao meu responsável pela promoção, Teri Tatsumi: “Você acha que vão mudar ‘True Colors’?”, e ele disse: “Será ‘True Colors’ e vão entender o que isso significa”. Ele se certificou disso.

Al Arashita, um promotor de Kyoto, me levou para o Japão em 1986 para a minha turnê “True Colors” e ela foi muito bem-sucedida. Fizemos apresentações em Tóquio e Osaka, que é o que todo mundo fazia. Também me apresentei na arena Budokan em três ou quatro shows cujos ingressos se esgotaram. Antes de eu me apresentar, me colocaram para cantar em um programa de TV e planejaram para que eu cantasse ao vivo do estúdio em Nova York para o Japão. Como resultado dessa e de outras promoções, os ingressos para o Budokan esgotaram em poucas horas. Fiquei meio chocada. Pensei: “Quem eles acham que vai se apresentar?”. Porque naquela época eu ainda contava os assentos (na verdade, ainda me preocupo com assentos vazios).

Quando cantei “True Colors” no Japão, no Budokan, foi um momento mágico porque cantei sem a minha banda. O plano original era cantá-la apenas com uma guitarra, mas o guitarrista que estava conosco, Aldo, estava passando por um mau momento. Ele não era o cara seguro que conheci no estúdio quando estava fazendo sua própria música.

Então, quando chegou a hora de fazer algo sensível e sutil, não senti que Aldo poderia tocar de forma íntima comigo na frente de um Budokan lotado. Dave Wolff disse para eu cantar sozinha, mas eu não estava sozinha, porque a multidão cantou comigo. E, quando parei e os escutei, ouvi a música com o sotaque maravilhoso deles, e foi a primeira vez que eu ouvi uma plateia, grande ou pequena, cantar “True Colors” de volta para mim.

Al abriu o Japão para mim. Depois dos shows, ele queria nos encontrar em um restaurante para mostrar todas as comidas diferentes. Fui a primeira ocidental a fazer uma turnê por todo o Japão e a primeira mulher a ser pintada e fotografada com um artista kabuki por um artista kabuki. Fui a primeira ocidental a ser levada para a cerimônia de arremesso de feijão de Kobe e homenageada como a “princesa da boa fortuna”. Os japoneses sempre me acolheram e sempre quiseram ouvir minha música, mesmo quando minha gravadora americana achava que eu não prestava.

Em 1989, quando fui lá novamente, outro promotor me disse que parte do motivo pelo qual os japoneses gostavam de mim era porque a “fala de bebê” era muito popular. Eu perguntei: “O que você quer dizer?”, e ele respondeu: “Cyndi, quando você fala japonês, você usa ‘fala de bebê’”. Eu não tinha a mínima ideia! Achei que sabia um pouco de japonês, porque tinha aprendido no piano bar. Nesse meio-tempo, fiz papel de idiota. Além disso, minha voz era mais alta na época.

Em 2011, quando cheguei ao nosso hotel em Tóquio, havia pessoas dormindo em sacos de dormir e com cobertores por toda parte, porque os trens e ônibus pararam – tudo parou –, então havia pessoas em lobbies em todos os lugares de Tóquio. Eu me senti muito culpada por subir ao meu quarto. Então, quando liguei a TV, entendi a magnitude do que havia acontecido – o tsunami, uma cidade inteira destruída, pessoas gritando.

Em seguida, minha empresária Lisa ligou e disse: “Se você quiser voltar para casa, tudo bem”. Comecei a pensar sobre isso e percebi que havia muitas razões pelas quais eu não poderia fazer isso. Os japoneses sempre me acolheram. Como eu poderia deixá-los? E estávamos em segurança.

Depois disso, recebi um telefonema da minha empresária dizendo: “Piers Morgan quer falar com você”. Eu tinha acabado de acordar na cama que balançava para frente e para trás e foi muito reconfortante, eu me senti uma criança. Fiquei pensando: “Eles têm banheiros quentes e camas que balançam...”. Então abri os olhos e pensei: “Espere um minuto – é outro terremoto!”. E Joy Behar, que conheci através do The View, queria que eu ligasse para o programa dela. Então liguei, porque todo mundo queria saber por que eu estava lá. Eu disse: “Por que vocês acham que estou aqui?”.

Quando as pessoas cantaram “True Colors” para mim foi poderoso e se eu fosse embora, honestamente, o que “True Colors” teria significado? Depois de aquele país ter aberto seu coração para mim? Nada. Então eu ficaria para me apresentar por oitenta ou noventa minutos e daríamos a eles um pouco de distração. Nós levantaríamos o ânimo deles. Pensei comigo mesma que eu poderia usar tudo que tivesse. Então usei o que aprendi de Reiki, e tinha aprendido que o som da minha voz, especialmente a frequência média, era muito reconfortante. Fiquei amiga de alguns fãs, e um deles, Donny, que mora na Geórgia, me contou sobre uma garota que ele conhecia que tinha câncer, e isso foi mais ou menos no final. Então liguei para cantar para ela, e a mãe dela ficava tentando dizer: “É a Cyndi Lauper”. Ela estava perdendo a audição, mas decidi que logo de cara eu cantaria “True Colors” para ela naquele som de frequência suave. E ela se acalmou. Nesse momento, percebi que havia algo mais na minha voz do que apenas cantar hits. Então, se eu ficasse no Japão, talvez o som da minha voz ajudasse os japoneses, como aconteceu com aquela garota.

Sendo assim, fiquei lá. Porque eu não podia decepcioná-los. E não apenas eu fiquei, mas ficaram a minha banda e a equipe inteira, toda a equipe japonesa e Yuki, o encarregado pela turnê cujo bebê tinha acabado de fazer um ano no dia em que o tsunami ocorreu. Fiz o maior número de shows que pude nessa turnê com Toku, um musicista japonês que tocava fliscorne. Depois de um tempo, éramos os únicos em turnê no Japão – ninguém ficou, nem japoneses, nem americanos, nem ninguém. Mas ficamos porque queríamos dar paz às pessoas.

Um ano depois, Lisa disse: “Eles querem que você volte ao Japão para o aniversário do tsunami, e podemos acrescentar muitas outras datas e fazer toda a região sul da Ásia”. Entretanto, como estive em turnê por muito tempo, meu filho e meu marido precisavam de mim. Eu precisava da minha família também. Percebi que meu filho estava crescendo e eu estava sentindo falta de tudo. Então eu disse a Lisa: “Não posso ficar fora por mais dois meses, mas vou para o aniversário de onze de março. Isso eu preciso fazer, sem dúvida. Depois quero voltar para casa”.

Lisa planejou com a Wowow, um tipo de HBO do Japão, que, se eu aparecesse no show pós-Grammy deles em Los Angeles, eles patrocinariam um show para mim no aniversário do tsunami e o exibiriam gratuitamente nos cinemas das três prefeituras afetadas pelo tsunami. Outros cinemas ao redor do país também o exibiriam e doariam os lucros para a Cruz Vermelha. Eu me senti honrada em ser convidada para fazer parte disso, então fiz tudo que eles queriam.

O Grammy tem bastante importância no Japão. Eles o apresentam ao vivo pela manhã, quase como um programa de notícias. Então, depois de participar do Grammy, fui a um estúdio separado, em frente ao Staples Center, para fazer meu comentário. Achamos engraçado eles terem sido colocados no espaço para jogadores penalizados da ESPN Zone. A noite do Grammy foi um pouco triste porque Whitney Houston morreu. A morte de um cantor sempre abala a comunidade de cantores. Todos nós enviamos e-mails e mensagens uns para os outros. No entanto, mesmo estando abalada naquele dia, fiz meu trabalho. Eu sabia que, se eu o fizesse, isso me permitiria fazer algo de bom para o povo japonês.

No dia seguinte à minha chegada ao Japão para o aniversário do tsunami, meu cabelo e minha maquiagem começaram a ser feitos às 10h e dei entrevistas para a TV no quarto do hotel. Conheci muitas pessoas diferentes, incluindo um rapaz chamado Gutch. Ele me deu um pouco de saquê de Fukushima e disse que era um “presento” e eu disse: “Vamos arrasar com isso agora e brindar a Fukushima”. Fizemos as filmagens para a TV e tomamos um pouco de saquê em seu programa de rádio. Não parecia trabalho porque ele era muito engraçado. Todas as entrevistas começavam com uma conversa sobre o tsunami. Foi um ano bastante difícil para eles.

Então todo mundo começou a falar sobre tudo que eu fiz para o povo japonês, e comecei a me sentir uma fraude. Primeiro, não fiz nada sozinha. Todos nós fizemos – a equipe japonesa também. Ninguém foi para casa. Então pensei que, se eles iam me transformar em uma heroína, eu realmente deveria fazer alguma coisa boa. Comecei a pensar em como poderia ajudar as crianças que estavam em áreas devastadas. Eu tinha falado com a Yoko Ono antes de ir ao Japão. Ela tinha ido a uma escola na prefeitura de Fukushima e abraçado as crianças. Ninguém toca as pessoas lá porque há o medo da radiação. Então liguei para o meu marido, David, porque eu estava realmente chateada com essa coisa toda de “me passar por alguém que não sou”. Não sou a Lady Di. E não sou o Bono. Meu marido disse que talvez precisassem de alguém que fosse isso para eles: “Não se afaste disso só pela forma como você se sente em relação a isso. Por que você não vai a uma escola do norte e leva uma árvore?”.

Yuki, que estava fazendo minha turnê por Kyoto, e Nestor, meu guarda-costas, me ajudaram a fazer isso acontecer. Reiko Yukawa é mãe de Yuki. Ela é uma famosa jornalista de rock, considerada a sensei do rock and roll do Japão. Ela entrevistou todos os roqueiros desde Elvis e os Beatles. Então ela meio que me guiou através disso. Yuki não queria que eu fosse para uma área radioativa, então fomos para uma área devastada do outro lado das montanhas de Sendai chamada Ishinomaki, cuja tradução é “rock and roll”. A mãe de Yuki conhecia um diretor funerário e perguntou se ele conhecia um centro de jardinagem (pensei que eles tivessem uma loja Home Depot, mas não tinham).

O diretor funerário disse a Reiko que ele estava fazendo mil funerais por semana e que tinha um centro de jardinagem para todos os funerais que estava fazendo. Ele generosamente doou dez cerejeiras em flor. Decidi levar as árvores porque elas poderiam crescer com as crianças e as cerejeiras floresceriam em torno do aniversário do tsunami. Então as crianças poderiam ver algumas flores em vez de devastação.

Quando chegamos lá, as crianças estavam reunidas no auditório. Elas eram como quaisquer outras crianças da escola primária – barulhentas –, e os meninos estavam se empurrando. O diretor parecia preocupado, mas estavam todos esperando as equipes de notícias chegarem. Acho que o fato de termos ido lá foi uma grande notícia. A mídia perguntou sobre a devastação e por que eu havia ido. Eu lhes disse que queria que as pessoas soubessem que não me esqueci delas.

Depois que fomos para a escola, passamos de carro pela cidade – ou o que era a cidade. Passamos por uma loja de música, decidimos entrar e um velhinho me mostrou onde estava a marca da água. Eu queria comprar algo dele – é importante manter o comércio funcionando, já que as pessoas não estavam comprando produtos de lá. Então me levaram para uma escola mais distante. A colina inteira, que costumava ser cheia de casas, estava completamente devastada. Não havia nenhuma casa. Quando o tsunami ocorreu, me falaram sobre como as crianças em outra escola foram colocadas no telhado, mas não havia espaço suficiente para os pais, então eles ficaram na parte de baixo e, quando a água chegou, todos se afogaram.

Então fomos a um templo no meio de um cemitério. As lápides grandes e pesadas haviam sido reviradas como se não fossem nada. Dentro do templo, as mesas estavam repletas de sacolas de compras contendo restos humanos, corpos não reclamados. Acendi incenso, toquei um sino três vezes e orei por eles. Também doei o que eu tinha na minha bolsa. A viagem foi devastadora. Quando você vê uma devastação assim – bom, é devastador.

Estava nevando lá e a neve se transformou em chuva. Estava frio e lamacento. Pegamos o trem-bala de volta para Tóquio. Cantei e fiz o show que todos nós preparamos para o dia 11. No exato momento em que o tsunami ocorreu, o Japão inteiro parou por um minuto para orar. Até os trens pararam. Eu queria muito que meu desempenho fosse extraordinário, mas nem tenho certeza se respirei até a quarta música do meu set. Eu me senti um pouco arrebatada, como se quisesse ser a Mulher-Maravilha, mas em vez disso eu era apenas eu. Em meu coração, sei que não há acidentes. Era para eu estar lá. Acho que a Wowow estava feliz com o show. Espero que o povo japonês também tenha ficado feliz. No dia em que liguei para o meu marido, David, do Japão, ele disse: “Há muita coisa acontecendo no mundo. Às vezes, o melhor que podemos fazer é apenas estar lá para ajudarmos uns aos outros”.