Cyndi, minha história
Capítulo 10
COMECEI A RECEBER ROTEIROS DE
PRODUTORAS CINEMATOGRÁFICAS,
PORQUE, NA época, elas estavam buscando cantoras pop, como a Madonna, para estrelar filmes. Eles queriam que eu aparecesse no filme Girls Just Want to Have Fun [Dançando na TV] – você se lembra disso, com Sarah Jessica Parker? Era sobre garotas que entram em uma competição de dança. Quando li o roteiro, pensei: “Como você ousa pegar o que fiz, vestir as personagens como eu e depois escrever esse roteiro idiota sobre nada, sendo que tudo que lutei para fazer foi sobre algo?”. Não podia acreditar.
Depois recebi um telefonema com um convite para fazer Vibes – Boas Vibrações, um filme de Ron Howard. Eu era e sou uma grande fã dele. Achei incrível o jeito com que ele usou atores como Don Ameche e Hume Cronyn em Cocoon. No entanto, eu disse: “Ouça, adoraria fazer o filme, mas posso mandar muito mal. Por que vocês não fazem um teste de elenco e veem se sou boa o suficiente? A última coisa que quero é estar num filme e não prestar”. Eles disseram que tudo bem, e Ron Howard veio me ver em meu apartamento em Nova York. Ele era muito legal e pé no chão. Quando eu estava fazendo o teste de elenco, fiquei pensando: “Meu Deus, estou sendo dirigida por Ron Howard”.
Quero dizer, eu não tinha experiência com atuação além dos meus clipes. Só escutei tudo que ele disse, fiz o que ele me disse e ele gostou. Ele também me fez assistir e não achei que estava horrível na tela. Então assinei contrato para fazer o filme. Interpretei uma médium chamada Sylvia, que, com outro médium (interpretado por Dan Aykroyd), é contratada por um cara rico para encontrar seu filho na América do Sul. Mas, como se vê, na verdade somos contratados para encontrar um tesouro inca escondido, de onde vem toda a energia psíquica do mundo. Para mim, logo de cara, foi muito divertido.
Tentei descobrir que raio de aparência essa garota Sylvia teria. Ela era esteticista e também médium e deveria ter cabelo rosa – sabe, como aquelas garotas que querem descolorir seus cabelos loiros, mas ficam rosa? Adormeci depois de descolorir, e meu cabelo ficou branco e meio que queimado em alguns pontos, então não pude manipulá-lo novamente para que ficasse com uma cor diferente. No fim, deixei-o loiro-platinado. Depois vi que a Madonna estava fazendo um filme chamado Quem é essa garota? e ela era uma loira platinada também. Pensei: “Tudo bem – legal. Nunca conseguimos nos afastar uma da outra”.
De tintura de cabelo eu entendia: tinjo meu cabelo desde os 9 anos, quando usei corante alimentar para fazer com que ele ficasse verde para o Dia de São Patrício. Aos 12 anos, usei Sun-In, depois Nice ’n Easy, antes de trocar para coisas pesadas. Uma vez tentei tingir de volta para castanho – a cor natural do meu cabelo –, mas ficou ruivo por engano. Gostei, então mantive assim.
Queria estar bem no filme, então fiz aulas em uma escola de beleza para aprender a fazer “finger waves”, ondulações no cabelo, e aprimorar minhas outras habilidades de esteticista. Também comecei a estudar com médiuns para descobrir como eles faziam o trabalho deles. Todos me diziam: “Você será uma líder espiritual”, e eu pensava: “Sinceramente, duvido disso. Não vou fazer nada iogue no curto prazo”.
Conheci uma médium, Ginny Duffy, que minha professora de canto e amiga me apresentou quando eu lhe disse que estava estudando mediunidade. Ginny era diferente das outras porque fazia regressão a vidas passadas, quando você usa a hipnose para recuperar o que acreditam ser memórias de vidas passadas. Ginny também conectava as pessoas aos seus anjos. Usei alguns de seus maneirismos quando estava me comunicando com os espíritos no filme.
Eu sempre tinha sonhos interessantes que pareciam mergulhar em minhas próprias vidas passadas, então a ideia toda não parecia tão estranha para mim. Por exemplo, uma vez, quando eu estava dormindo perto de Dave Wolff, sonhei que era uma condessa no Mundo Novo, num lugar muito quente, e eu andava em uma carruagem até uma fortaleza. Quando saí para caminhar, eu era menor que o normal. Então alguém me agarrou, um tipo de Zorro sombrio – era Dave. Em outra ocasião, sonhei que era holandesa, de outro tempo, e eu tinha conseguido um pequeno exército para perseguir um ladrão ordinário, mas na verdade eu gostava dele – é por isso que eu o estava perseguindo. Mais uma vez, quando acordei, percebi que era Dave. Então pensei: “Tudo bem, regressão a vidas passadas, isso é interessante”. Foi assim que minha cabeça estava explicando tudo. Sempre fui atraída pelo fato de Dave ser um malandro que poderia levar qualquer um na conversa.
Ginny também me conectou a guias espirituais – entidades que ensinam, curam e ajudam você em sua jornada para a consciência espiritual – e isso me influenciou muito. Na verdade, ao longo da década seguinte, fiquei muito conectada a um outro nível de consciência e me tornei uma pessoa mais espiritual. Lembro que, quando estava promovendo True Colors, conheci um menino através da Make-a-Wish Foundation que tinha espinha bífida. Ele tinha 12 ou 13 anos e estava numa maldita cadeira de rodas. Não conseguia nem se mexer. E eu ficava dizendo: “Por quê, Deus? Por que eu? Não posso me encarregar dele. Não posso fazer nada por esse garoto”. Isso me incomodou de verdade, então descobri uma forma de ajudar todas essas crianças que não seriam preponderantes. Ginny praticava Reiki, uma técnica japonesa que usa o toque para reduzir o estresse e promover a cura. Então a estudei, achei que seria algo bom para se aprender, porque quando me apresentava para crianças elas sempre tocavam meus pés e eu sempre gostava de segurar suas mãos. Senti que, se estudasse Reiki, seria capaz de lhes dar energia de cura, algo mais além de entretenimento – alguma coisa que realmente faria com que elas se sentissem melhor.
A produtora de filmes também me ofereceu uma preparadora de elenco incrível. O nome dela era Sondra Lee e ela era uma professora gentil e maravilhosa que realmente me orientava. Sondra foi atriz ao longo dos anos 1950 e 1960. Ela interpretou Tiger Lily em Peter Pan e a jovem na festa em La Dolce Vita. Em seu livro de memórias de 2009, I’ve Slept with Everybody [Dormi com todo mundo], ela disse que perdeu a virgindade com Marlon Brando – dá para imaginar?
De qualquer forma, acontece que Dan Aykroyd gostava de mim, mas se sentia desconfortável com minhas habilidades de atuação. Fazíamos uma leitura juntos, quando ensaiávamos o roteiro, e eu estava numa luta, pensando: “Devo lê-lo como se estivesse atuando ou devo lê-lo sem nenhum sentimento?”. Eu era totalmente inexperiente e ninguém me disse como fazer isso. Quando Dan viu o que fiz, acho que ele sentiu que minha abordagem estava errada e continuou dizendo: “Como você vai falar com o seu guia espiritual?”. Não pude lhe responder no começo, porque estava perdida no roteiro, e poderia dizer que ele achou que eu não tinha a menor ideia. Ele ficou desconfortável em trabalhar à minha frente, o que entendi, mas o que ele não percebeu é o quanto sempre aprendo com as dificuldades. Por exemplo, lembro-me de uma vez em que fui apresentar sem minha banda e tive que aprender a tocar “Money Changes Everything” na escaleta. No fim, aprendi o trecho, mas é sempre estressante para todos ao meu redor me ver tentando dar um jeito nas coisas. Por exemplo, recentemente toquei “True Colors” no maior programa de TV matinal do Japão e tive que descobrir como tocá-la no dulcimer a caminho da estação de TV. O rapaz da promoção da TV japonesa estava lá me observando e ficando inacreditavelmente nervoso e dizendo: “Meu Deus, ela sabe a música?”, mas eu consegui. Mesmo que às vezes seja de última hora e que deixe todos loucos, geralmente sou capaz de dar um jeito.
É compreensível que Dan Aykroyd se sentisse assim. Por alguma razão, Dan decidiu sair e Jeff Goldblum entrou. Então, de repente, em vez de Ron Howard, eles contrataram outro cara cujo grande filme era Vila Sésamo – Onde está o Garibaldo?. Logo, eu estava sendo dirigida pelo diretor do Garibaldo, o que me fez sentir como o Garibaldo (fiquei pensando comigo mesma: “Apenas garanta que seu cabelo não fique tão grande”). Começamos a filmar na Califórnia em fevereiro de 1987 e passamos o verão e o outono filmando, incluindo duas semanas no Equador.
Infelizmente, Jeff Goldblum, com quem achei que seria fácil trabalhar, acabou sendo um pouco diferente e fazia coisas que eu achava irritantes. Não sei por que ele tinha que ser assim, mas ele era horrível. Era um sujeito estranho que, se soubesse o que você faria na tela, faria algo para impedir. Por exemplo, fizemos uma cena de amor e, de repente, ele colocou suas mãos grandes e gordas em todo meu rosto. Então peguei suas mãos e as puxei para baixo, e ele ficou todo chateado. Eu disse: “Deixa eu te dizer uma coisa – não gosto de ninguém tocando meu rosto, ok? Isso é um grande erro”. Ele também tinha algum tipo de processo de atuação estranho: antes de entrar em uma cena, folheava um livro, tagarelava baixinho e ficava nervoso, como se estivesse tendo um colapso nervoso. Bom, uma vez fizemos uma cena com um ator coadjuvante mais velho chamado Bill McCutcheon, que interpretou o curador do museu. Antes de começarmos, Jeff ficou lá e fez a coisa toda do colapso nervoso de novo. Perguntei ao Bill: “Você acha isso muito desconcertante?”. Ele disse que toda vez que Jeff fazia isso ele não conseguia se lembrar de suas falas.
Então me virei e falei para Jeff: “Olha, posso ver que você tem todo o seu processo em andamento aqui. Respeito, mas, faça-me o favor, vá dar uma voltinha para ter seu colapso nervoso. Quando começarmos a cena, aí você volta. Porque você está desconcentrando esse cara e está me desconcentrando também. Certo? E vou dizer outra coisa: se você continuar fazendo isso, esse não vai mais ser um filme de mistério de assassinato, porque vou matar você bem aqui, na frente de todo mundo”. Todos meio que deram um passo para trás. Mas quer saber? Algumas pessoas ficam importunando e importunando você e esperam que você não diga nada. Bem, isso não vai acontecer comigo. Sempre vou dizer alguma coisa. E quando fico com raiva, fico arrogante. A arrogância provavelmente é meu maior defeito.
Jeff era um cara interessante, a filmagem poderia ter sido ótima. Daria para pensar que nos daríamos bem. Quero dizer, ele é um cara da arte. Tenho certeza de que ele pensou quem diabos eu era para ser a protagonista de um filme sendo que ele batalhou a vida inteira para conseguir papéis. Mas ele era o outro protagonista, então qual era o problema? Talvez algo estivesse acontecendo em sua vida. Seu comportamento parecia refletir algum tipo de fragilidade emocional, mas eu não conseguia entender o que o deixava infeliz. Na época, ele estava com a garota mais rock’n’roll, a atriz Geena Davis. Eu a achava incrível. Ela me ensinou uma música sueca que canto no filme, porque ela tem raízes suecas.
De toda maneira, batalhei para contratarem Peter Falk como terceiro protagonista, porque achei que seria bom ter dois homens de cabelos escuros ao lado do meu cabelo claro, e falamos no mesmo ritmo, mas, quando ele apareceu no set, descobri que ele era um pouco excêntrico. Por exemplo, o operador de câmera me chamava e dizia: “Cyn, tenho uma boa luz em você. Fique nesse ponto e diga essa fala para mim”. Então Peter aparecia e dizia: “Não dê ouvidos a ele. Você não precisa ficar nesse ponto. Apenas faça isso”. Eu pensava: “Mas se ele gastou tempo para me iluminar e posicionar tudo, por que eu não deveria ficar no lugar?”. No entanto, atuar com Peter Falk era extraordinário, algo tão louco quanto ele.
Outras coisas malucas aconteciam no set também. Certa vez um produtor desceu e eu o ouvi dizer: “Você transaria com ela? Ela é transável?”. Ou às vezes eu começava a trabalhar e um dos produtores ficava bem na minha linha de visão, olhando diretamente para mim, assistindo, enquanto a câmera estava ligada. Era incrivelmente perturbador e estranho, então eu tinha que dizer: “Ele está bem na minha linha de visão – ei, você pode parar com isso?”. Então, durante todo esse tempo, Jeff estava passando por seja lá o que for. E Peter Falk – esse cara rebelde totalmente anarquista que eu adorava, no fim, se juntou a Jeff contra mim. Eu estava muito triste por eles terem me excluído. Porém, talvez isso fosse melhor para o papel – quero dizer, minha personagem deveria ter um pouco de tensão com Jeff.
A luta pelo poder e os traumas que ocorreram por baixo do filme superaram o que poderia ter sido um filme divertido, feliz e engraçado. Sabe quando falei sobre querer criar músicas que vão atrair o espírito? Sempre achei que atuar seria parecido com isso. Seria como chamada e resposta – alguém diria algo para você e você responderia, certo? Fazer uma conexão? Não. Na época em que comecei a trabalhar no cinema, a atuação passou a ser sobre closes e atores que basicamente pareciam querer atuar sozinhos. Não havia senso de unidade, e foi muito desanimador para mim porque é com isso que eu estava acostumada como musicista. Eu queria que eles fossem meus amigos, em vez disso eles eram cretinos competitivos e não pude deixar de pensar: “Fiz isso para poder trabalhar com Ron Howard, e ele nem está aqui, está trabalhando na Nova Zelândia, e eu também desejaria estar na Nova Zelândia, em vez de aqui”.
Porém, nem todo mundo era assim. O figurinista e as pessoas de maquiagem e cabelo eram maravilhosos. E a mulher que costurava as roupas era incrível. Aprendi muito com ela e com o pessoal de câmera e iluminação. Eu sempre os observava quando era possível, para ver o monitor para o qual eles olhavam, porque aquele era o lugar onde a gente entraria e isso sempre foi mágico. Quando você entrava, você se tornava a imagem e isso era como pintar. Era como emoldurar algo quando você pinta uma imagem. Eu estava bastante animada em absorver tudo no set e isso tornava tudo um pouco suportável.
E havia muita coisa insuportável, por exemplo, quando o roteirista do filme queria que eu tirasse a roupa em uma cena. Eu disse: “Primeiro de tudo, eu não tenho esse tipo de imagem. E, em segundo lugar, por que não tem um cara tirando a roupa?”. Por fim, descobri que poderia usar corpete para parecer meio bonitinha e nua, mas não completamente nua. E eu adorava fazer comédia física. Por exemplo, em uma cena entrei em transe e comecei a cantar, e Jeff e Peter me pegaram e me carregaram enquanto eu ainda estava cantando. Tentei com afinco ficar absolutamente dura. Adorei porque era como algo rotineiro dos Irmãos Marx. Sabe o que foi mais legal? Arranjei um gato enquanto estava filmando – meu gato maravilhoso, Nick, que me deu muitos anos de alegria e amor.
Infelizmente, enquanto trabalhava no filme, fiquei com endometriose de novo, então me submeti a outra operação em Los Angeles. Em seguida, a Columbia Pictures, a produtora de filmes, queria que eu escrevesse uma música para o filme Vibes, então fiquei em Los Angeles para encontrar o que escrever. No começo, escrevi uma música com um ritmo mais lento chamada “Unconditional Love”, com Billy Steinberg e Tom Kelly, mas o diretor da Columbia disse: “Esse filme é uma comédia – não dá para ter uma balada”. Dessa forma, Dave Wolff propôs que eu cantasse “Hole in My Heart (All the Way to China)”, escrita por Richard Orange. Eu disse: “Mas esse filme não é sobre a China”. Ele disse: “Sim, mas essa é a piada. É muito maluco”. Reorganizei a música e a fiz soar como a música de que eu gostava – meio punk, forte e rápida. Entretanto, quando ela foi lançada, as emissoras de rádio acharam que era muito pesada para elas e não tocavam. Elas preferiam tocar baladas. E eis a questão: elas teriam tocado “Unconditional Love”. Toda vez que eu falhava era porque eu não ouvia meu pressentimento inicial e tentava satisfazer outras pessoas. (É por isso que quando conheci Lady Gaga para fazer a campanha Viva Glam, da MAC, eu disse a ela: “Não dê ouvidos a ninguém. Seja qual for a criação que você tenha na cabeça, faça, porque agora é a sua hora e, se você desistir, não vai conseguir fazer isso”.) Quando Vibes saiu, em 1988, me mataram nas críticas. Eles chamaram o filme de Bad Vibes e afirmaram que minha carreira nunca se recuperaria. Mas agora, quando vejo o filme, honestamente, não acho que fui mal. Para dizer a verdade, acho que fiz um bom trabalho. Minha atuação foi muito natural. O filme tinha um ritmo animado, não era engessado, era muito engraçado e peculiar. Não era para ser Shakespeare. Era para ser apenas uma comédia leve, uma coisinha prazerosa para tirar sua mente do seu dia monótono, sabe? Mas o filme foi um fracasso em todos os sentidos. Provavelmente não fui feita para trabalhar em filmes. Eu estava destinada a fazer o caminho que estou fazendo. Acontece que Vibes realmente prejudicou minha carreira, o que algumas pessoas aceitariam, mas eu não consegui aceitar. E isso também afetou meu relacionamento com Dave, porque ele não era apenas meu namorado, era meu empresário.
True Colors ficou em quarto lugar nas paradas de álbuns, mas a gravadora não estava feliz por ter vendido apenas três milhões de cópias. A faixa-título estava em primeiro lugar, “Change of Heart” estava em quinto e “What’s Going On” foi para a 12ª posição. Essa última não se saiu tão bem quanto deveria. Quando eu a promovi no rádio, disse que se Marvin Gaye tivesse uma esposa que promovesse sua música como Yoko Ono promovia a música de John Lennon, nós nos lembraríamos de “What’s Going On” tanto quanto nos lembramos de “Imagine”. É claro, isso saiu mais abrasivo do que eu quis dizer. Sempre achei que as pessoas não se importavam tanto com Marvin, porque as drogas o controlavam e talvez o transformassem em alguém que não era mais Marvin. No entanto, o homem podia cantar e escrever, posso garantir.
Eu precisava visitar emissoras de rádio em todos os lugares e fazer eventos especiais para elas. Trabalhei para burro e custou dinheiro fazer tudo, mas elas não pagavam nada. Eu tinha que fazer isso, caso contrário, ficaria na lista negra. Eu também tinha que ligar para uma longa lista de emissoras e, a cada quinze minutos, ligava para uma. Isso durava algumas horas. De manhã, eu conversava com DJs que tentavam ser engraçados, porque os ouvintes estavam se levantando e estavam mal-humorados. Como alguns dos DJs estavam acordados desde as 3h da manhã, também estavam enfadados e diziam coisas estúpidas porque estavam improvisando. Muitos deles estavam irritados, reclamavam e eram desagradáveis sobre ter que impulsionar meu álbum. Como eu nunca tinha filtro, também era desagradável. Não era uma situação legal. Ainda ligo para emissoras de rádio, mas, antes de ligar para alguém, eu me certifico de que querem falar comigo e faço alguns intervalos.
Os ingressos para a primeira turnê de True Colors não saíram tanto quanto os da turnê Fun. Eu me senti muito mal com isso, mesmo que muitas pessoas não estivessem vendendo ingressos no inverno de 1986. Além disso, meu contador me disse que eu não poderia mais ir para a plateia porque eu poderia ser processada. De repente, havia uma barreira entre mim, “a estrela”, e “as pessoas”, e essa era a questão de as pessoas irem me ver – não havia barreira.
Decidi que, como não poderia tocar as pessoas na plateia, tentaria tocá-las visualmente e criar cores no palco. Então eu usava roupas que tinham uma cor na parte superior e cobria-as com mais cor por baixo. Quando eu girava, outras cores surgiam, então eu pintava enquanto cantava. Eu me movimentava mais e cantava pra caramba. Eu me esforcei muito, mas o desempenho piorou. Eu lembro que Jon Pareles, do New York Times, fez um artigo me comparando novamente com a Madonna e como eu conseguia me sair melhor do que ela e blá-blá-blá. Não acho que foi uma boa ideia porque nunca se sabe o que vai acontecer. Depois de True Colors, Madonna provou que ele estava errado. Ela é brilhante em vender e não brigou com sua gravadora como eu fiz. Acho que o segredo por trás de seu sucesso é que ela encontrava alguém realmente bem-sucedido no que ela queria fazer – um compositor ou produtor – e fazia isso com eles. Nunca fiz isso. Nunca quis chamar pessoas que eu não conhecia para trabalhar comigo. E ela também tinha a Warner Bros e seu vice-presidente, Seymour Stein, por trás dela, travando a luta com ela, e eu simplesmente não recebia esse tipo de apoio da minha gravadora. Eu estava sempre lutando contra eles. Até Dave foi pego pela “rivalidade com a Madonna”. Uma vez ele disse: “Você não quer competir com a Madonna?”. Eu não podia acreditar. Eu estava apenas tentando manter o foco e fazer minhas próprias coisas.
Então Don Dempsey, gerente geral da Epic, foi demitido. Fiquei arrasada, porque eu o adorava e ele me dava muito apoio. Eu me lembro de uma vez, no começo da minha carreira solo, em 1983, que eu precisava ir a um jantar promocional no sul da França, estava sentada à mesa e não sabia como me comportar. Ele disse: “Coma a comida à esquerda, beba a bebida à direita” (ele também apontou para um de seus ouvidos e disse: “Sou surdo desse ouvido, mas você vai notar que às vezes coloco as pessoas que falam mais desse lado e apenas balanço a cabeça”). Comecei a ficar realmente desiludida com as gravadoras quando ele foi demitido. Houve muita mudança na Epic porque a Sony estava comprando a CBS e a Epic estava sob esse guarda-chuva inteiro. Enquanto isso, Dave Wolff estava sentindo muita pressão para fazer de mim um sucesso, porque agora que Don estava fora e Al Teller estava dentro, todos tinham algo a dizer sobre a minha carreira. Não era um clima bom.
Todos eles estavam tentando me controlar e eu não queria que todos me dissessem: “Faça isso, faça aquilo”. Eu também estava um pouco cheia de mim – como todos nós ficamos quando nos tornamos famosos. Eu estava muito frustrada por não poder sair porque Dave Wolff tinha medo de eu estar sozinha e, quando estava sozinha, ficava impaciente. Eu nunca ligava antes de ir a restaurantes e depois ficava brava se não tivessem lugar para mim.
Como minha relação com a gravadora estava ficando mais tensa, as coisas estavam ficando mais tensas em casa também. Dave tinha feito um bom trabalho em me manter isolada. Esse era o método dele: manter Cyndi bastante ocupada para que ela não soubesse o que estava acontecendo. Mesmo no auge da minha fama, quando eu saía com minha amiga Katie Valk, isso torturava Dave. Ele ligava para ela e perguntava: “Vocês estão bem? O que vocês estão fazendo agora?”. Ele fazia muitas ligações assim. Por exemplo, se eu estivesse trabalhando com outras pessoas no estúdio, ele ligava para o produtor e perguntava: “Como ela se saiu hoje?”, em vez de me ligar e perguntar isso diretamente.
Era assim que ele me controlava. E isso era frustrante porque toda a minha vida tinha sido uma aventura e agora eu estava presa como um pássaro numa gaiola. Acredito que ele não dizia isso de forma negativa. Porém, penso que, em sua mente, eu estava fora de controle porque tinha uma visão da aparência que queria ter e também como gostaria de soar e ser. Quando começamos a nos separar, houve uma luta de poderes. Quando eu estava promovendo True Colors na TV, ele gostava quando eu dizia que estávamos noivos, mas que não nos casaríamos até que eu fosse bem-sucedida, porque ele achava isso engraçado. Embarquei na piada, mas sentia que era muito humilhante. Sim, sim, a piada era sobre mim. Isso só aumentou a pressão que ele estava sentindo por causa do novo bando de figurões arrogantes com que ele tinha que lidar na gravadora.
Além disso, havia uma tensão entre Walter Yetnikoff e Al Teller, presidente da CBS. Lennie achava que Tommy Mottola seria mais adequado para nós e para a Sony, porque ele era empresário, conhecia artistas e seria mais gentil. Então, de alguma forma, Dave, Lennie e Tommy orquestraram uma reunião entre Walter e Tommy, para que pudessem se juntar e, com sorte, Tommy poderia assumir o controle para Al quando Walter se livrasse dele, o que parecia uma possibilidade. Até então, tínhamos uma longa história com Tommy. A ideia era que todos ficássemos em nossa casa em Cape Cod, que comprei em 1985. Ela não era tão grande, era apenas uma casa comum em um bom bairro de classe média alta. Havia uma doca que nunca consertei e pegamos uma lancha que Dave queria, mas ele não sabia pilotar (quando ganhei algum dinheiro, decidi comprar alguns imóveis: aquela casa, um pequeno pedaço de terra em Cape Cod e o apartamento no centro de Nova York).
A casa não estava arrumada, então precisei me virar para fazer isso bem rápido, porque todo mundo chegaria dali a alguns dias. Essa é a minha vida: figurões e suas esposas estão vindo para uma grande festa enquanto dirijo com o garoto da vizinhança para conseguir móveis. E tudo que fiquei ouvindo no rádio foi “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, do U2, e pensava: “Concordo plenamente. Preciso de um sofá”. Eu estava com tanta pressa que ia a uma loja e dizia: “Adoro o que está na sua janela – posso comprar?”.
Além disso, minha gata Skeezicks ficava fazendo xixi no edredom no andar de cima, onde Walter ia dormir, e depois desaparecia. Eu a encontrei entocada na parede da casa. Eu deveria ter percebido que, se a gata estava fazendo xixi no edredom, isso não era uma boa ideia, mas não, apenas continuei tentando deixar tudo pronto para eles.
Quando todo mundo apareceu, tentei tratar Walter como uma pessoa comum. Eu o levei no barco e percorri a baía com ele para que ele pudesse esquecer tudo por um minuto e apenas ser uma pessoa.
Tommy Mottola trouxe os dois filhos pequenos que ele tinha com sua primeira esposa e, quando estávamos na praia, a esposa de Lennie, que era muito boa com crianças, virou-se para o garoto chamado Michael e disse: “O que você quer ser quando você crescer?”. Ele disse: “Vou ser advogado da minha mãe”. Ele tinha talvez 8 anos. Fiquei pensando: “Bem, acho que as coisas estão complicadas em casa”. Naquela época, Tommy tinha descoberto Mariah Carey.
Bem, a festa acabou sendo um sucesso porque Tommy fez o show na minha casa. Depois, lamentei pelo dia. Não dá para se envolver com essa merda porque essas pessoas são implacáveis. Walter teve a ideia de separar a transmissão da CBS da parte de música da CBS, mas ele precisava de alguém para comprar a divisão de música de Larry Tisch, o CEO da CBS (ele nem gostava de música). Walter queria que os executivos da Sony cuidassem das coisas e ele achava que eu seria a pessoa perfeita para construir relações com os executivos da Sony do Japão – trabalhando como eu trabalhava nos piano bars japoneses. Então conversei informalmente e tirei uma foto com Akio Morita, o cofundador da Sony e inventor do walkman da Sony, para a capa da revista Time em 1988, para um artigo que eles escreveram. Eu estava sendo um bom soldado. Então, com o passar do tempo, Walter e Tommy tiveram uma ruptura. Ficamos do lado de Walter, o que foi um grande erro, porque depois disso minha vida foi uma merda.
Tommy nunca esqueceu e nunca perdoou o que fizemos por Walter e, quando ele assumiu, a ordem da gravadora era para que minhas coisas fossem colocadas em banho-maria e que não seriam promovidas como tinham sido antes. Nesse momento, eu deveria ter seguido em frente e entrado em contato com Seymour Stein, mas ele já tinha a garota dele. Don Dempsey havia entendido as qualidades que me tornaram famosa e, depois disso, vieram todos esses idiotas me falar coisas do tipo que eu deveria me vestir como Katrina, da banda Katrina and the Waves. Uma vez tive uma reunião com Tommy sobre minha direção musical e ele disse: “Dos discos que estão nas paradas, de quais você gosta?”. Selecionei coisas legais, como o que o U2 estava fazendo. Então ele disse que eu tinha que trabalhar com um cara que era da Canned Heat! Depois o diretor do departamento de Artistas e Repertório – Don Grierson, um cara legal, mas que não tinha muita coisa artística em andamento – continuava tentando me fazer entrar na banda Heart. Eu pensava: “Já estive em uma banda cover, muito obrigada, não tenho intenção de fazer isso de novo”. Então, um dos novos diretores da Sony se virou para mim em uma reunião e disse: “O que é isso que você está vestindo?”. Pensei comigo mesma: “Você está brincando comigo?”. Eu deveria ter dito: “Isso é o que a sua filha vai usar no próximo ano”.
Todos eles estavam tentando me refazer após a percebida falta de sucesso de True Colors, e eu não queria ser refeita, eu queria fazer o que fazia. Mas, como achavam que eram mais importantes que o artista, queriam fazer os sons e eu não queria fazer parte dessa máquina. Eu queria rescindir meu contrato, mas se eu processasse a gravadora como George Michael fez, eu perderia, e, se eu fizesse um disco, teria que aguentar um idiota atrás do outro. Eu estava incrivelmente frustrada e deprimida. Só para constar: não foi uma boa situação.
Enquanto isso, True Colors foi indicado para um Grammy de Melhor Performance Feminina de Pop, mas Barbra Streisand retornou de forma grandiosa com The Broadway Album, e ela ganhou. Sempre fui colocada para concorrer com pessoas que estavam retornando, como Tina Turner dois anos antes. Não sei, acho que é o meu carma. Preferiria ser premiada pelo meu trabalho do que por razões sentimentais. Ou talvez seja Deus me dizendo que é bom ser reconhecida, mas prêmios não constroem a pessoa ou o cantor.
Enquanto todas essas coisas ruins estavam acontecendo, eu estava conversando com Dave sobre o nosso plano de casamento. Conversamos sobre isso por um tempo. Eu estava com o anel de noivado na mão. E meu empresário, que também era meu namorado desde 1982, disse para mim: “Não quero me casar nesse estado de declínio. Prefiro me casar quando estivermos indo melhor”.
“TODA A MINHA VIDA ATÉ
AQUELE MOMENTO TINHA A
VER COM ‘CHEGAR LÁ’, MAS
AGORA QUE EU ESTAVA LÁ,
NÃO ERA TÃO COR-DE-ROSA.”