Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 13 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 13

 

FINALMENTE CONSEGUI A VIDA FAMILIAR

QUE SEMPRE QUIS QUANDO ME CASEI com David, mas quando você é musicista não consegue ficar em casa por muito tempo. Um dos piores momentos da minha vida foi o final de 1993, quando eu estava promovendo o Hat Full of Stars e fui enviada para o oriente (eu me saí muito bem e minha gerência na época disse: “Vamos aproveitá-la, porque ela é grande no Japão”). Sendo assim, eu estava no Japão no Natal, sem meu marido, e estava muito triste. Lembro que, antes de partir, disse à Yoko Ono que estava deprimida porque estaria fora e olha só: ela descobriu onde eu estava hospedada e colocou uma árvore de Natal no meu quarto de hotel. Ela pediu a seu irmão para fazer isso. Nunca vou esquecer esse gesto.

Também fiz uma turnê para promover o álbum nos Estados Unidos e tive a ideia de fazer um documentário de estrada chamado Cyndi Lauper Discovers America [Cyndi Lauper descobre os Estados Unidos]. Eu conversaria com pessoas do país inteiro para descobrir o que elas pensavam – sobre acontecimentos atuais, suas famílias, política, música, várias coisas –, o que seria meio engraçado e ótimo também. Encontrei o pessoal de TV para falar sobre isso e me disseram que eu teria que levantar o dinheiro sozinha. Porém, meu advogado e minha agência de filmes não estavam interessados em fazer isso, então não consegui um diretor. Eu até me encontrei com Michael Moore, que fez Tiros em Columbine. Enquanto isso, gastei muito dinheiro tentando filmar quando estava na estrada (uma turnê em grupo, com dois ônibus e uma banda com dez integrantes), mas nunca deu certo. Esse foi um período difícil para mim, mesmo que eu estivesse fazendo uma boa música. (Olha, eu não conhecia ninguém que estivesse juntando loops e pop folk como fiz naquele álbum. Se eu tivesse conhecido alguém, teria tido um aliado e não me sentiria tão sozinha.) Eu precisava de um bom empresário, depois do último que tinha sido uma droga. Ele era de uma empresa de gerenciamento que também administrava bandas realmente conhecidas, então, quando eu o contratei, pensei: “Esses caras devem entender sobre ser inovadores, certo?”. Não. Eles não entendiam. Uma vez, antes de eu ir a um programa de entrevistas, ele me disse que havia perdido o single “Who Let in the Rain”. Você está gerenciando uma apresentação de música e perde o single que vão tocar? Eu deveria ter dito: “Bom, você perdeu seu emprego também”.

Eu ia fazer uma turnê em grupo e criar um disco do grupo, mas meu empresário permitiu que a gravadora dissesse a ele para seguir com “Who Let in the Rain”, uma balada suave, em vez de música moderna. E deu errado. Aprendi que, quando eu quiser escrever qualquer coisa sobre política, vou sempre encobri-la com um relacionamento para torná-la mais palatável para as pessoas. É por isso que gosto do blues, ele é encoberto. Tudo que escrevem sobre o homem branco é encoberto por uma canção de amor. Seus sentimentos reais estão sob o texto, mascarados. Porém, com uma música como “That’s What I Think”, fiquei tão horrorizada com os anos Bush que eu queria falar diretamente com as pessoas e animá-las novamente. Quero dizer, tudo se tornou muito corporativo na época. Lembro que, em todos os lugares para onde viajei, todas as cidades pareciam as mesmas: o mesmo horizonte previsível, como os cartazes da Coca-Cola, não importa em que país. Foi aí que comecei a entender a gravidade do que estava acontecendo em nosso mundo. Ainda tenho orgulho da música “Sally’s Pigeons” e sua mensagem. No entanto, naquela época, as pessoas da indústria da música estavam muito ocupadas tentando fazer coisas voltadas para os negócios e observando os lucros; resumindo, não havia muito espaço para a criatividade. Eu participava de júris de música, ouvia o pessoal da indústria falar e ninguém falava sobre o ofício de compor – falavam sobre promoção, vendas e os dois minutos de fama que você poderia conseguir. De repente, a parte do artesanato havia acabado.

Em seguida, o pessoal da série de TV Mad About You disse que queria trabalhar comigo. Eu nunca tinha feito uma série antes, mas achavam que eu seria perfeita para a personagem Marianne Lugasso. Ela era ex-esposa do primo do ídolo Paul Reiser, Ira, interpretado por John Pankow. Aceitei e fiquei muito feliz por ter aceitado, porque Paul Reiser é uma das pessoas mais legais e talentosas para quem já trabalhei. Ele era muito engraçado e um chefe muito, muito bom. Eu me senti tão à vontade com todos durante as primeiras filmagens que cantei para eles e comecei a fazer minha personificação de Ethel Merman, e o colega que estava dirigindo virou e disse: “Essa é a voz de Marianne! Essa é a personalidade dela”. E, de repente, através da voz, apreendi todo o ritmo da personagem.

Quando Marianne ficou popular, Paul escreveu um ótimo diálogo para a personagem. Parecia que tinha saído da minha cabeça, como se tivesse começado no meu cérebro. O ritmo da linguagem de Marianne coincidia com o modo como falo naturalmente, porque Paul também é do Queens. Ele estava em uma vizinhança melhor, mas ainda era do Queens, e o Queens tem um certo ritmo animado, seja você da Jamaica, de Ozone Park ou de Forest Hills. Ele tem mais swing em certos lugares, perde um par de vogais ou consoantes, mas tudo tem o mesmo ritmo. Esse ritmo foi criado por pessoas que migraram para lá durante os anos 1920 e 1930 – italianos, irlandeses e judeus. Adoro história, e ela está lá com um sotaque do Queens (se um francês quisesse aprender a falar inglês comigo, bom, soaria um pouco engraçado).

De qualquer forma, nesse primeiro ano em que fiz a série, fui indicada para um Emmy. Meu agente realmente se esforçou para que eu fosse nomeada porque percebeu que fiz um ótimo trabalho. Eu não sabia se tinha feito um ótimo trabalho, só sei que tentei fazer bem esse papel. Isso foi o melhor que pude fazer.

Depois me convidaram para fazer outra temporada e, quando voltei, foi muito mais divertido, porque consegui descobrir quem Marianne realmente era. Ela também se casou com uma pessoa rica, então precisei me vestir dentro dos conformes. Fui a Dolce & Gabbana e eles me emprestaram algumas roupas. (Meu grande erro foi que a empresa de produção mandou de volta todas as roupas por correio e não sei o que aconteceu com elas, mas a mulher da Dolce estava muito brava. Acho que eu mesma deveria ter feito isso.) No segundo ano, também fui indicada para um Emmy e ganhei, acredita? Mas quer saber de uma coisa? Eu me senti muito mal na cerimônia. Eu não sabia o que estava fazendo e ninguém estava lá comigo – nenhum empresário, ninguém da imprensa. Fui com o maquiador. Parecia que eu tinha sido jogada ali. Acho que todo mundo pensou: “Oh, Cyndi, ela consegue fazer isso”. No entanto, eu estava vestida como eu, sem perceber que precisava me vestir como eles – e não como rock and roll. Eu estava usando uma roupa da Vivienne Westwood com corset e uma calça dourada justa com uma sandália dourada de salto alto com plataforma. Meu cabelo estava para cima e tinha diferentes tons de loiro e preto. Quero dizer, teria sido bonitinho para o Grammy.

Fui para a sala de imprensa e perguntaram: “O que torna o Emmy diferente da MTV?”. Naquela época eu tinha sido afastada da MTV. Quero dizer, sabe como é. É como se eles quisessem a próxima grande atração. Eles não iam tocar nada que não fosse um sucesso, e eu não tinha nenhum sucesso. Então eu disse: “Não sei, não tenho ido lá ultimamente”.

Bom. Foi uma resposta errada, então pararam de fazer perguntas. Não havia ninguém do departamento de imprensa me ajudando, e eu não sabia para onde ir ou o que dizer ou fazer. O empresário que eu tinha naquela época era alguém da música, e ele nem recebia uma comissão pela minha atuação, porque não tinha nada a ver com isso, então eu estava sozinha. De qualquer forma, era hora de me livrar dele.

Então consegui outro empresário e ele parecia ótimo no começo, mas nunca vou me esquecer de quando estávamos voltando de uma viagem na Europa e ele me disse: “Sabe, você nunca será tão grande quanto já foi”. Fiquei arrasada. Eu disse: “O que você quer dizer? Você não tem como saber isso”. Billy Joel e outras pessoas conseguiram fazer isso, tiveram que voltar. Então, em vez de dizer: “Ok, sinto muito, mas, se você pensa assim, não posso mais trabalhar com você”, continuei com ele. Sou uma idiota.

Sabe o que é isso? Sempre que eu me defendia, as coisas davam errado, porque a situação passava dos limites. Era sempre uma luta e não uma negociação. Se você quer ser bem-sucedido em qualquer coisa, é melhor aprender a ter controle. Dito isso, há muitos anos tenho uma empresária incrível chamada Lisa Barbaris, que costumava fazer minha divulgação musical. Ela é como uma irmã para mim.

De qualquer forma, eu estava falando sobre Mad About You. Quando voltei à série, Helen Hunt estava se saindo bem representando Jamie, a esposa de Paul, e ela meio que assumiu o show. Ela estava dirigindo, o que era interessante, mas havia tensão no set.

Como eu disse, eu queria rescindir meu contrato com a gravadora, mas não consegui. Então a empresa queria que eu fizesse uma coletânea com os grandes sucessos. Na verdade, queriam que eu fizesse isso antes do Hat Full of Stars, mas não achava que tinha hits suficientes, então eu disse: “Deixe-me fazer este álbum e teremos outro hit para colocar nele”. Como eu poderia saber que eles não fariam nada para promovê-lo? Pelo menos alguém apreciou meu trabalho, porque ouvi dizer que quando Alanis Morissette entrou para conversar com um cara na Maverick Records sobre o que ela queria fazer a seguir, ela levou alguns discos, incluindo Hat Full of Stars. Isso me fez sentir melhor – alguém ouvia o que eu estava fazendo e eu não estava errada. Acontece que cheguei antes e estava numa gravadora muito conservadora que passava por mudanças e os executivos tinham amarras.

Eu lembro que o produtor Jimmy Ivoine queria que eu trabalhasse com ele no projeto Very Special Christmas para as Olimpíadas Especiais, então ele mesmo me ligou. Ele me perguntou o que eu estava fazendo, então toquei “Sally’s Pigeons” ao telefone, e ele estava genuinamente interessado. De repente, desejei estar na gravadora dele. Também toquei essa música para Patti Scialfa, esposa de Bruce Springsteen. Fizemos uma sessão de fotos juntas e ela disse: “Cyn, eu adoro como você coloca o loop nessa música”. E então o que eu soube a seguir foi que Springsteen lançou “Streets of Philadelphia”, com sua grande voz, música suave e o loop. Pensei: “Legal. Por que toco as coisas para as pessoas?”.

Então, em 1994, lancei a coletânea de maiores sucessos, Twelve Deadly Cyns... and Then Some. Retrabalhei “Girls Just Want to Have Fun” para dar uma sensação de reggae e ela virou “Hey Now (Girls Just Want to Have Fun)”. O single fez sucesso na Europa e, por algumas semanas, fiz uma turnê europeia com doze dançarinas drag queens. Eu meio que só queria que elas estivessem lá dançando comigo, mas não pude ajudá-las a montar uma coreografia, porque não sou coreógrafa. Estávamos basicamente fazendo isso usando nossas experiências. No entanto, elas tinham uma atitude positiva em relação a isso. Éramos eu e doze drag queens em um ônibus, o que era incrível. Talvez você pense que, por se vestirem como mulheres, elas são mais mulheres. Na verdade, era um bando de roqueiras incríveis, passando garrafas de vodca de mão em mão. Houve alguns momentos hilários, especialmente na Espanha. Uma vez fomos a um restaurante para jantar e elas entraram no banheiro feminino, vestidas como mulheres, o que, é claro, causou um grande alvoroço.

Eu tinha a noite seguinte livre, precisava muito comer cedo e disse: “Esse lugar já está aberto?”. Então a senhora da gravadora perguntou ao restaurante se eu poderia ir lá enquanto estavam arrumando, porque eu estava morrendo de fome. Uma mulher no restaurante disse: “Tudo bem, mas ela vai vir com... os amigos dela?”. Isso me fez rir.

Durante a turnê, conversei com essas pessoas sobre a discriminação que enfrentavam, e pensei que talvez devesse escrever uma música para elas. Eu queria fazer uma música dançante para celebrá-las. Isso se transformou em “Ballad of Cleo and Joe” no meu álbum seguinte, que eu tinha começado a escrever com Jan Pulsford, meu tecladista no Hat Full of Stars.

O Gay Games começou em 1982 e se tornou um evento esportivo e cultural LGBT internacional, e em 1994 ele estava acontecendo em Nova York. Meu amigo estava trabalhando no comitê e pensei: “Eu adoraria jogar esses jogos”. Parecia apenas uma extensão das casas noturnas onde eu tocava. Meu amigo Howard Kaplan me disse: “Cyn, você deve fazer o novo mix de ‘Girls Just Want to Have Fun’ e ter umas cinquenta drag queens dançando com você”. Então fiz isso e foi a primeira vez que trabalhei com Jerry Mitchell, com quem eu estou trabalhando agora no musical Kinky Boots (ainda faz todo o sentido ter escrito a música para Kinky Boots, porque ainda amo os sapatos deles). Jerry era engraçado e sabia exatamente como coreografar as drag queens. Então lá estava eu cantando o remix de “Girls” com elas e seus sapatos e acessórios de cabeça extraordinários. O problema era que eu tinha que lembrar meus passos e não apenas ficar lá e olhar para elas. Porém, fiquei tão impressionada com a aparência elegante delas que fui atingida por uma dançarina que passava e o microfone bateu em meu lábio. Mas continuei cantando. Quando não as vi na tela gigante JumboTron foi realmente desconcertante. Pensei: “É sério isso? Quer dizer que a comunidade gay vai discriminar as artistas drag? Que diabo é isso? Por que não colocar esses sapatos incríveis no JumboTron?”.

Depois disso, pensei: “Vocês não vão mostrá-las? Eu vou mostrá-las. E não só vou mostrá-las como vou torná-las famosas”. E fiz o clipe de “Hey Now” com todas aquelas fabulosas drag queens, perto da Unisphere da Feira Mundial de 1964-65, que tem a altura de um prédio de doze andares e fica no Queens – é claro. Meu amigo Kevin Dornan me falou do globo e percebi que seria um ótimo lugar para filmar porque é muito icônico, e colocar as drag queens embaixo dele dá um ótimo aspecto visual. Vendi um milhão de cópias desse álbum na Inglaterra, mas sabia que não passaram esse clipe nos Estados Unidos? A gravadora decidiu esquecê-lo aqui. Aparentemente, havia muitas drag queens nele. Então Gloria Estefan viu as drag queens e as colocou em seu clipe de “Everlasting Love”.

Em 1995 fiquei muito doente e a médica me perguntou quando eu teria um filho, e eu disse a ela: “Depois dessa turnê”. Ela disse: “É sempre depois dessa turnê ou daquela turnê”. Minha amiga Helena disse: “Cyn, apenas tenha um bebê”. Então fiz isso. Comecei a tentar engravidar em 1996 por fertilização in vitro (eu não tinha tempo para esperar). A fertilização in vitro era cara, e depois de um tempo percebi que os quadros no consultório do meu médico não eram reproduções, eram originais – e eu estava pagando por eles. Mas não funcionou.

Quando eu estava tentando engravidar, comecei a passar mais tempo na casa de Connecticut. Jan Pulsford ficou por perto e começamos a escrever músicas para o novo álbum em meu pequeno estúdio caseiro. Foi ótimo. Eu não tinha ninguém me enchendo, e se Jan fosse dormir eu poderia continuar trabalhando, se quisesse. Fui inspirada por seu trabalho quando ouvi uma faixa que ela chamou de “Searching”. Montamos uma ótima equipe e passei um tempo maravilhoso com ela. Ela era simplesmente incrível. Chamei o álbum de Sisters of Avalon, porque Jan é galesa e adora mitologia galesa, a lenda arturiana e tudo isso (ela tem um filho chamado Merlin).

Comecei a compor Sisters of Avalon enquanto fazia uma turnê para promover o Deadly Cyns, que me levou a três continentes em seis semanas. Quando voltei dessa turnê, eu estava usando uma bengala porque tinha caído de um palco. Precisei dançar em cima de caixas de alto-falante, porque não podíamos pagar pelo palco que eu queria.

Jan e eu estávamos conversando sobre o livro As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, um tipo de releitura da lenda do rei Arthur do ponto de vista feminino. As irmãs eram as curandeiras, as sábias, e eu achei que Sisters of Avalon soava empoderador.

A música “Sisters of Avalon” é sobre um rito de passagem. Na época em que escrevi, estávamos viajando, no fim de 1994. Li um artigo sobre uma garotinha que estava sendo circuncidada e a família tratou como se fosse uma grande festa. Isso me inspirou.

Quando consegui autorização para fazer Sisters of Avalon, Steve, meu empresário na época, me disse para encontrar uma mansão antiga, como as bandas inglesas faziam, e gravar meu álbum lá. Então conversei com um produtor que David Massey, meu responsável pelo departamento de Artistas e Repertório na época, recomendou. Esse produtor tinha feito alguns trabalhos com Tricky, da Massive Attack, em um antigo celeiro e disse que, se encontrássemos o lugar certo, eu poderia até cantar do lado de fora. Ele disse que poderíamos gravar usando Pro Tools, Logic e fita de dezesseis canais. O álbum seria meio primitivo, porque tentaríamos obter um som de fita antigo com todas as vantagens de usar um computador. Eu estava empolgada com a ideia.

Eu tinha voltado daquela viagem ao Japão, onde fiquei longe do meu novo marido no Natal e no Ano-Novo. Percebi naquela viagem que precisava reavaliar minha carreira e minha vida. Eu precisaria de uma nova administração e um novo eu. A única coisa que consegui do projeto Hat Full of Stars foi uma banda maravilhosa, da qual, dessa vez, eu era a verdadeira líder. Eu conversava e tocava com eles e era próxima deles. Eu os conduzia no palco da mesma forma que vi homens como Cab Calloway, Bruce Springsteen e Prince fazerem. Eu sempre pensava: “Ei, como Bruce consegue ser o chefe de sua banda? Se ele conseguia ser o chefe, eu também conseguiria”. Além disso, eu queria ser capaz de fazer música ao vivo e no local. Quando algo chegasse até mim durante uma apresentação, eu queria ser capaz de liderar a banda para isso. Como já disse antes, a alegria da apresentação, para mim, é que nos melhores momentos posso ser qualquer um. Eu era Cab Calloway e Elvis e Tina Turner e Ann-Margret. Eu também era Jagger e James Brown e Edith Piaf. Quem quer que viesse até mim.

Minha única esperança sempre que canto é cantar com liberdade suficiente para que o espírito venha a mim. E, quando estou lá, é um verdadeiro presente. Estou voando livre; finalmente consigo me libertar de tudo. Nesse espaço, quer as pessoas reconheçam ou não, sinto-me conectada a algo maior que eu. Sempre foi assim para mim desde a primeira vez que abri a boca para cantar. É por isso que, quando eu estava nas bandas covers, se eu perguntasse a alguém como eu tinha me saído naquela noite e diziam: “Estava ok”, eu nunca entendia. Em minha mente, eu estava dançando com Mick Jagger e era fantástico. Por fim, percebi que não conseguia mais fechar os olhos e apenas cantar. Eu precisava fazer com que a banda e o público vissem o que eu via e sentia por dentro. Eu precisava que eles se libertassem comigo. Então tive que retroceder de novo e aprender tudo o que pudesse.

Quando fiz a turnê de Hat Full of Stars com essa incrível banda de dez integrantes, toquei ao vivo com um loop. Mas fiz o baterista reiniciar o loop a cada quatro ou mais compassos. Dessa forma, se eu quisesse tentar algo e fazer uma leve mudança inesperada no meio da música, era possível. Não estávamos tão presos, isso tornava mais fácil ser espontâneo. Acho que você precisa de combustão espontânea às vezes. No entanto, para liderar, eu precisava aprender a dar dicas claras e aprender a contar bem o suficiente para entrar e sair de versos de música que eu queria incluir enquanto tocávamos.

Sendo assim, tentei trabalhar bem próxima do baterista. Na turnê “Hat Full of Stars”, trabalhei com Rocky Bryant e depois com Scooter Werner. Eu perguntava: “Se eu quisesse fazer esse tipo de mudança aqui, qual seria uma contagem boa e clara para você?”. Eles me diziam. Então eu fazia mais disso. Trabalho o mais próxima que posso com qualquer banda com quem esteja fazendo música. No entanto, penso que sempre será um processo.

A maioria dos cantores fala de forma tão enigmática para essas pessoas que é um milagre o operador de som adivinhar o que o cantor quer dizer. Então, toda vez que soava bom para mim, eu perguntava o que ele acrescentava à minha voz ou tirava. Ou eu perguntava que tipo de alto-falante ele achava que seria melhor para a minha voz. Isso me ajudou a aprender a me comunicar com o operador de som.

Mas voltando a Sisters of Avalon, Jan e eu, e nosso produtor Mark Saunders, terminamos de gravar o álbum em uma antiga mansão em Tuxedo Park, Nova York, que tinha sua própria personalidade. Eu estava cansada de gravar em estúdios. Eles são superfaturados e superestimados e, com a tecnologia de hoje, você não precisa deles. Em Tuxedo Park, tínhamos uma ótima paisagem. E uma governanta. E um chef. Infelizmente, quando eu estava plantando as últimas petúnias e colocando os gnomos perto de cada cômodo, meu empresário me disse que estava indo trabalhar na Sony. Ele era meu segundo empresário desde David Wolff.

Havia muitas faixas das quais eu me orgulhava. “Say a Prayer” era sobre Gregory, e Aids, e a luta entre a vida e a morte. “Love to Hate” era sobre a gravadora e os jovens artistas cool e muito confiantes, tão rudes e estúpidos que nem percebiam que metade da merda que faziam era porque a gente fez primeiro. (Os anos 1980 se tornaram muito importantes agora, e tem essas turnês nostálgicas com várias apresentações com alguns hits. Eu não faria uma turnê assim. Não quero.) E “You Don’t Know” era sobre pessoas na televisão que não têm ideia do que estão falando, como os chamados especialistas em política – a esquerda suprime a direita e a direita suprime a esquerda.

Quando gravamos o clipe de “Sisters of Avalon”, usamos uma tecladista que estava numa cadeira de rodas. Jan achou que todos pensariam que era ela na cadeira de rodas, então nunca divulgamos o clipe porque ela estava triste com isso. De qualquer forma, não foi um sucesso, porque as pessoas não estavam focadas nisso.

Quando eu estava na Europa divulgando, comecei a tentar engravidar de novo. Então, em março de 1997, descobri que finalmente estava grávida. Não pude acreditar. Eu quis esse bebezinho por muito tempo. Eu costumava olhar para fotos da mãe do meu marido segurando-o com uma boca triangular e, claro, agora meu filho tem essa boca triangular. Eu costumava chamá-lo de “Luscious Louie” quando ele era pequeno. Eu estava muito animada, mas não disse nada publicamente por um tempo. No começo pensei que teria uma menina porque, quando estava tentando engravidar, fiquei tendo uma visão de meninas gêmeas saindo com uma mala. Acontece que eu tinha um menino lindo.

Acabei fazendo um clipe de “Ballad of Cleo and Joe” quando estava no final da gestação. Não era para ser um clipe. A gravadora queria que eu fizesse divulgação para a imprensa em algum lugar de design em Nova York, olhei ao redor e disse: “Estou toda produzida, de peruca preta, por que não fazer um clipe? Apenas me dê uma mesa giratória e duas luzes apontando para mim, para a minha barriga. Você fica ali e filma isso”.

Fiz um cara colar pequenos espelhos na minha grande barriga redonda para que ela parecesse um globo de discoteca, e usei a parte de cima de um biquíni prateado porque achava engraçado. Percebi que essa era a única vez na vida que eu poderia usar biquíni e não me preocupar com o fato de não estar em boa forma.

Quando eu estava editando o vídeo, ficava tendo contrações de Braxton Hicks, e os dois editores de vídeo me olhavam como se dissessem: “Oh, meu Deus, por favor, não tenha o seu bebê aqui”. As pessoas sempre diziam isso para mim. E também havia os engraçadinhos. “Ei, senhora, vai ter gêmeos?”. David disse: “Da próxima vez que alguém disser isso, responda: ‘Não sei do que você está falando. Eu tenho bebido muita cerveja ultimamente, mas não estou grávida’”. Fiz isso uma vez. Foi muito engraçado. E todos tocavam minha barriga quando eu estava grávida. Eu tinha vontade de dizer: “Tire suas mãos de mim antes que eu te jogue no chão! Vou mostrar para você como é uma mulher grávida! É melhor você recuar”. As pessoas não incomodam um animal quando a fêmea está prenha. Simples assim.

Li e-mails de fãs enquanto estava grávida. Você precisa entender que o e-mail era algo novo naquela época. Era como Star Trek, como se eu estivesse escrevendo no espaço sideral. Muitos desses e-mails eram de pessoas que me contavam sobre como foi difícil para elas se revelarem gays e que a música “True Colors” salvou suas vidas. Quando elas se revelaram gays, foram renegadas por familiares e amigos e perderam o emprego. Algumas eram suicidas. No entanto, em vez de cometer suicídio, cantavam essa música para elas mesmas, da mesma forma que eu cantava “Across the Universe” para mim mesma.

Assim que comecei a responder esses e-mails, eles começaram a chegar em grande quantidade. Nem sei quantos, mas sabia que eram muitos, e que cada e-mail dizia a mesma coisa. Foi aí que percebi que a comunidade gay abraçou essa música. Liguei imediatamente para minha irmã e contei a ela sobre as mensagens e disse que, se algum dia pudéssemos ajudar a comunidade gay, deveríamos ajudar. Quando chegou a hora, fizemos juntas a campanha “Stay Close” da organização PFLAG, que apresentou celebridades e seus familiares gays, com uma mensagem para que as pessoas apoiassem seus entes queridos gays.

Também fiz a apresentação de abertura da turnê de verão “Wildest Dreams”, de Tina Turner, enquanto estava grávida. Isso não era coisa dos anos 1980: Tina estava promovendo um material novo, e eu também. Meu erro foi ter feito versões alternativas de “Sisters of Avalon”, mas isso não servia para aquele público. A turnê a ajudou, mas não me ajudou em nada. Isso me magoou. Isso fez de mim uma apresentação de abertura.

O famoso fotógrafo David LaChapelle queria tirar fotos de mim enquanto estava grávida. Então eu contei à minha agente publicitária Kathy Schenker e ela disse: “Ele não quer tirar uma foto sua”. Em primeiro lugar, eu não sabia por que ela era minha agente publicitária – ela não estava me trazendo nada de extraordinário. Anos depois, David me perguntou o que aconteceu quando ele quis tirar uma foto minha e eu disse: “Kathy Schenker aconteceu”. É assim que esse negócio funciona. É meio que uma merda.

O álbum saiu em 1997 e a gravadora o negligenciou. Jan ficou surpresa. Ela não esperava que o álbum não conseguisse nada, mas eu esperava, porque sabia que a gravadora não tinha intenção de fazer nada por esse CD. Ele ficou na parada de álbuns da Billboard por uma semana. Vendemos 60 mil cópias em turnês e era muito triste. Quando eu estava grávida e em turnê com Tina Turner, ninguém da gravadora foi me ver.

Tina era legal, mas não chegamos a ficar tão próximas, se você entende o que quero dizer. Eu me conectei muito mais com Cher quando viajamos juntas em 1999 em sua turnê “Do You Believe”. Cher é incrível, uma pessoa muito, muito legal. Quando ela me convidou para a turnê, disse: “Vamos lá, vamos ficar ótimas juntas”. Ela estava certa.

A Cher fazia coisas como alugar um cinema inteiro para todos em uma parada de turnê para assistirmos a um filme. Deus a abençoe. Todos os dias ela praticava ioga – todos os dias, fizesse sol ou chuva. É um saco, mas ela conseguia fazer isso. Ela era disciplinada e fazia a coisa certa e era agradável e ela é legal. Se houvesse algum problema, você saberia, ela vinha e falava com você, e tudo se resolvia.

No momento em que ela me convidou para sua turnê de 2002, eu tinha acabado de perder a gravadora em que estava e pensei que indie era o caminho a seguir. Mas um milhão de pessoas viram esse show – um milhão. E foi muito legal porque conseguimos fazer uma ótima apresentação. Minha banda foi incrível. A Cher começou a me colocar no JumboTron e a me orientar. Não sei como ela conseguia tempo, mas em algum momento ela me chamou de lado para dizer: “Olha só, quando você usa toda aquela maquiagem escura nos olhos não consigo enxergar dentro dos seus olhos”. Ela sugeriu que eu usasse outra maquiagem e colocasse mais brilho em mim.

Durante o dia, eu fazia sessões de autógrafo, porque não queria apenas estar na turnê, queria realmente contribuir. É por isso que também gravei “Disco Inferno” na gravadora do produtor Jellybean Benitez – então eu teria material novo. E comprei roupas para estar o melhor possível para Cher e para mim. Meu marido havia dito: “Se você quer ser bem-sucedida, precisa parecer bem-sucedida. Não pode usar essas roupas baratas”. Sendo assim, contratei uma estilista e ela me comprou coisas de todos os lugares, incluindo Dolce & Gabbana. Anna Sui também me deu um terno e uma calça de couro, Deus a abençoe. Para as sessões de autógrafo, eu usava jeans branco e camisa da Etro. No palco eu usava ternos e camisas com babados, pelo que lembro, do tipo que Otis Redding costumava usar.

Eu cantava cinquenta minutos por noite e queria fazer algo especial para as pessoas que iam me ver. Eu sabia que os fãs da Cher estavam sentados na frente, mas meus fãs estavam na parte de trás e eu queria fazer com que eles se sentissem importantes também. Então eu corria para a parte de trás do lugar e subia as escadas dos fundos enquanto cantava. Eu fazia todo mundo ficar de pé. Eu tinha um engenheiro de som fantástico, então o som era ótimo. Não há nada como fazer com que um monte de pessoas que estão muito impressionadas consigo mesmas sintam que elas não têm importância, excluindo-as.

A turnê foi um acontecimento, mas, infelizmente, eu estava trabalhando tanto que comecei a me desgastar. Durante nosso show em Oklahoma, caí enquanto corria pelas escadas para chegar até o público e me machuquei. O metal dos degraus entrou na minha perna, havia um corte profundo e não pude voltar. Eu me senti muito mal porque os dançarinos da Cher olharam para mim e ficaram muito preocupados. Fizeram com que as pessoas corressem para os bastidores para conseguir algo, qualquer coisa, para me ajudar, e me trouxeram sacos de gelo para colocar na minha perna. Mesmo sem conseguir me movimentar, terminei a música.

Depois fui para o hospital, fizeram um curativo e recebi alguns analgésicos. Mas eu ainda estava fora de mim e disse: “Eu não consigo fazer isso, preciso ir para casa”. Quando meu garotinho me viu com muletas, começou a chorar, mas ele se acalmou quando eu lhe disse que ficaria bem.

No começo, o pessoal da Cher entendeu totalmente que eu precisava descansar e alguém do pessoal dela, que chamarei de sr. Sorridente, queria que eu voltasse. Não pude ir quando queriam que eu fosse, mas, assim que pude, claro que fui. Só perdi dois ou três shows. No começo, tive que me apresentar em uma cadeira de rodas e uma vez quase caí do palco. Depois, gradualmente, minha perna melhorou e troquei para uma bengala e, por fim, eu estava totalmente de volta. No entanto, não consigo correr desde então.

Uma vez, quando estávamos indo para um show em Washington, D.C., ficamos presos em um trânsito horrível, um pneu havia furado e eu ia me atrasar para o show. Você não vai acreditar no que aconteceu. Enviaram uma escolta policial para que pudéssemos passar. Nós nos vestimos rapidamente na parte de trás do ônibus e saímos direto do ônibus para o palco. Foi muito dramático e selvagem. No entanto, também me senti muito mal. Cher é uma defensora da pontualidade e o sr. Sorridente disse: “Você não pode mais se atrasar. Se você se atrasar, eu vou começar a descontar do seu pagamento”. Apesar de tudo, essa experiência me ensinou a ser mais pontual, então sou grata. (Mas ainda me atraso um pouco. Estou tentando. Há muita coisa pra fazer até eu ficar pronta – faço os exercícios de canto, coloco os cílios...) Em outra ocasião, estávamos em Laredo, Texas, e eu estava atrasada novamente depois de uma sessão de autógrafos. Minha assistente Jackie e eu tivemos que arrumar tudo (ela fez a maior parte da arrumação), nos vestir rapidamente no hotel e ir para o show. Mas alguém esqueceu de contratar um carro. Então Jackie chamou um táxi para nós e começamos a enfiar nele toda a nossa tralha para o show. Tentamos fazer com que o pobre taxista mexicano chegasse à entrada do palco o mais rápido possível: “Dirija na grama e vá para os bastidores. Vamos lá, você tem que ir, você tem que ir!”. Esse pobre homem que estava absolutamente horrorizado dirigiu na grama, sem saber quem diabos éramos. Então fomos bloqueados por um grupo de pessoas enfileiradas para ver Cher. Coloquei a cabeça para fora da janela e gritei: “Por favor, me deixem passar! Vou me atrasar, preciso estar no palco, eu deveria estar no palco, por favor, por favor, deixem-me passar”. Alguns ficaram com uma postura do tipo: “Foda-se você”. Mas alguns deles olharam para mim e falaram: “Oh, meu Deus, é a Cyndi Lauper!”, e saíam da frente. Finalmente chegamos nos bastidores e todos os nossos baús estavam do lado de fora porque era um lugar pequeno e a srta. Importante tinha colocado todas as coisas dela para dentro, incluindo o elefante e a pia da cozinha. Corremos para fora do táxi, abrimos os baús, tiramos todas as nossas tralhas e corri para o palco. Foi tão ridículo e, novamente, eu estava com raiva de mim mesma por estar atrasada.

Depois que fizemos uma pausa para o Natal, a Cher queria voltar, mas eu precisava ficar com meu filho, porque ele estava um caco, sentia falta da mãe. Acho que Cher entendeu. Depois disso, sempre que ela fazia algo bom, eu ligava para ela e a parabenizava. Eu a acho incrível. É muito difícil fazer amizade com pessoas famosas porque elas são muito ocupadas.

É engraçado – fiz a turnê com a Cher, mas nunca fui convidada para a Lilith Fair. Supostamente havia um momento de “mulheres no rock” no fim dos anos 1990, mas, na verdade, foi um momento de Christina Aguilera e Britney Spears. As duas eram como eu e Madonna, uma competição direta. Mas Christina era um tipo de artista diferente de Britney – e apesar de todo mundo dizer que Britney não consegue cantar, isso é besteira. Ela consegue cantar – só não consegue cantar como faz no álbum, porque na verdade ninguém consegue. Os produtores suecos com quem ela trabalhava a faziam parar a cada palavra. É por isso que a voz dela soa assim – tão controlada. Eu teria matado esses produtores. Eles estariam mortos.

Eis algo muito bizarro para mim. Quando os produtores entram em contato com você para trabalharem juntos, é porque eles ouvem algo em seu trabalho que desejam combinar com o que eles fazem. Então é bem estranho quando eles tornam você irreconhecível – a menos que, acho, você queira fazer algo irreconhecível. O que acho muito plausível para mim – às vezes me perguntava se eu deveria apenas esconder meu nome da próxima vez, então as pessoas me ouviriam cantar sem saber quem eu era. Eu poderia montar uma persona como Daft Punk. Você nem sabe quem são esses rapazes ou quantos anos eles têm. Essa é a maravilha e a beleza disso.

A ideia de que os jovens são os únicos produzindo boa música e que músicos mais antigos fazem algum tipo de música de velho é bizarra para mim. Muitos dos artistas mais jovens de hoje cantam literalmente uma palavra e depois os produtores juntam as outras palavras usando o Pro Tools. Quando fiz Bring Ya to the Brink, trabalhei com compositores suecos que agiam como se eu fosse Svengali por adicionar minha própria contribuição, eu apenas olhava para eles e pensava: “Eles não leem créditos, eles não sabem o que eu sei, eles não sabem que produzi”.

Quando um produtor começou a dirigir a forma como eu deveria cantar, eu disse: “Você é um baterista maravilhoso, por que não me mostra como cantar como um tambor?”. E eu o dirigi na ponte para torná-la um eco. A música “Echo” deu certo; é cativante e divertida. É uma ótima música para dançar, mas não foi uma prioridade. A gravadora tinha outras quatro apresentações que eram prioridade e, infelizmente, não havia nada que eu pudesse fazer.

E isso, a propósito, é o que há de legal no musical Kinky Boots que estou fazendo com Harvey Fierstein e Jerry Mitchell. Eu não poderia estar percorrendo o mundo da Broadway com dois caras melhores. Eles são muito talentosos. Conhecem o mundo em que vivem e realmente gostam da minha música. É por isso que estou lá. Não me jogaram lá só por causa do meu nome. Eles não estão tentando me mudar. Tem sido empolgante porque não tenho que me preocupar com o fato de que alguém vai me dizer para fazer algo ridículo que não sou eu (e, se fizerem isso, Harvey diz: “Isso é ridículo”).

Como eu disse, quando canto algo, realmente quero me conectar a algo maior que eu. Não quero apenas cantar. Sempre quis me libertar, e quando você canta no ritmo certo, no tom certo, e diz as coisas certas, você pode abrir esse corredor. É o único lugar aonde quero ir quando canto. Cantar o torna maior do que você normalmente é. E agradeço a Deus pelos meus professores e todos os cantores que vieram antes de mim e os que estão cantando agora. Todos aprendemos uns com os outros e estamos conectados.

De qualquer forma, voltando a 1997. Declyn Wallace Lauper Thornton nasceu em novembro daquele ano. Nós demos esse nome a ele em homenagem a Elvis Costello (cujo primeiro nome é Declan). É aquilo que dizem mesmo: toda a sua perspectiva muda quando você tem um filho. Depois que ele nasceu, tive uma reunião com o pessoal da gravadora em Nova York e me apresentaram um novo reponsável pelo departamento de Artistas e Repertório, Peter Asher. Mas o diretor era o mesmo cara que conheci em Paris antes de engravidar, que me disse que tudo ficaria bem. Não dá para ouvir uma mentira duas vezes. Eu tinha mais um álbum no meu contrato e disse: “Olha, se você não vai fazer nada para promovê-lo, você pode muito bem me deixar ir. Não quero passar por isso novamente. Trabalhei muito duro, tentei muito, fiz uma ótima imagem, tentei fazer uma ótima capa para o álbum, mas nada disso importa se vocês não vão promovê-lo”. E esse cara disse: “Não, dessa vez vamos fazer alguma coisa. Por que você não vai para casa e pensa melhor sobre isso?”, ele estava tentando me apaziguar. Peguei a foto do meu bebê e disse: “Por que você não vai para casa e pensa melhor nisso? Amanhã, quando você estiver se barbeando, olhe para o rosto desse bebê no espelho e diga a ele como a mãe dele precisou conseguir outro emprego, porque você arruinou a carreira dela. Você pode fazer isso comigo, mas não vai fazer isso com meu bebê”. Parecia que Peter ia desmoronar. Ele não conseguia nem acreditar.

Tentei sair, e eles vieram atrás de mim e disseram: “Ok, você só precisa fazer um álbum de Natal”. Esse seria meu último álbum para a Epic e depois eu poderia dar o fora. Eu disse que trabalharia em um disco de Natal porque sempre quis fazer um. Adoro o Natal. E foi assim que aconteceu. Jan voltou para ficar comigo no andar de cima de nossa casa de Connecticut com o filho dela, que tinha 8 ou 9 anos. Tínhamos trabalhado juntas tão bem que era um passo natural continuarmos compondo. Declyn tinha acabado de nascer e uma mulher gentil chamada Dalila cuidava dele. Dec foi um garoto muito incrível. Ele era engraçado e ria muito – um amor. Jan e eu escrevíamos na sala de estar. Fiz muita música boa naquela casa (o que eu considero boa, pelo menos). Escrevi os álbuns Hat Full of Stars e Sisters of Avalon inteiros naquela sala de estar. Mais tarde escrevi Shine lá também.

A casa tem uma vibração muito mágica que faz você se esquecer do tempo e do espaço. Ela é como uma casinha de bonecas, então é divertido escrever lá. David passava com Declyn de vez em quando, enquanto gravávamos o álbum na garagem. O álbum tem uma música chamada “New Year’s Baby (First Lullaby)”, que escrevi para Dec, que pegou o microfone e cantou. É ele que você ouve no solo. Ele achava que estava cantando e até fez uma coisa meio iodelei na música.

Quando o álbum saiu, minha ótima agente publicitária Lisa (que acabou se tornando minha empresária) me colocou no especial de televisão do Rockefeller Center Christmas, quando as luzes da árvore são acesas, para cantar “Early Christmas Morning”. Além disso, eu estava acompanhada de um coro infantil. Todas as criancinhas estavam de cachecol e suéteres de Natal. Foi incrível. Comecei a música sentada no chão, com uma capa branca, tocando o dulcimer, depois tirei a capa e estava com um vestido ao estilo Mamãe Noel de cetim vermelho com crinolina branca por baixo.

Quando eu era criança em Ozone Park, meus amigos e eu íamos a Manhattan à noite durante o Natal. No meio da noite, era como se você tivesse a cidade para você. Na Saks, víamos vitrines de lojas do outro lado da rua, enfeitadas com todas as decorações de Natal, então víamos a árvore. E lá estava eu me apresentando na frente dela. Achei isso muito incrível.

A época em que Dec era pequeno foi muito especial. Lembro que, quando ele era bebê, eu o levei na turnê “Do You Believe” da Cher, com sua cuidadora, Dalila. Dec era ele mesmo. Ele queria ser incluído em tudo. Durante essa turnê, havia algumas bandas de abertura antes de mim, incluindo a Wild Orchid, da Fergie, antes de ela se juntar à Black Eyed Peas. Dec costumava apontar o queixo para a mulher a quem ele queria ser levado. Ele ficou todo derretido pela Fergie. Ele também começou a ficar fascinado com a bateria, então Scooter, da minha primeira turnê, deu baquetas para ele e ele demonstrou como conseguia usar seus pulsos. Scooter disse que ele tinha um ótimo ritmo. Quando ele tinha 3 anos, fomos à Sam Ash Music Store para procurar baterias, ele se sentou em um conjunto para bebês e imitou tudo de um vídeo com instruções de bateria que estava passando. Uma vez ele foi comprar um prato e bateu em cada prato na loja. O rapaz que trabalhava lá parecia querer me matar. De qualquer forma, mais tarde, quando ele tinha 3 anos e meio, eu o incluí no palco. Eu o deixava montar sua pequena bateria e tocar com a gente.

Uma vez precisei deixá-lo para ir a uma sessão de autógrafos em Manhattan e ele começou a chorar porque queria estar comigo, então eu disse: “Ok, vamos levá-lo”. Eu o vesti e Jackie desenhou um pequeno bigode e cavanhaque nele. Ele tocou bateria em uma caixa de papelão com a banda, cujos integrantes foram muito generosos com ele. E as pessoas simplesmente o amaram! Ele era bom. Mas, em determinado momento, a banda decidiu que eles não queriam mais tocar com ele até que ele realmente aprendesse. Ele ficou chateado e não quis mais ir. Ele também sentiu como se tivessem me tirado dele.

Depois ele se envolveu com o hóquei. Dá para acreditar que me tornei uma mãe entusiasta do hóquei por um tempo?

Little one little son All my life I’ve wished you welcome.

[Pequenino filhinho Durante toda a vida lhe desejei boas-vindas]

“December Child”

“VI ESSA GERAÇÃO DE

MULHERES ANTES DE MIM

TER TODAS AS ESPERANÇAS

E SONHOS DESTRUÍDOS.”