Cyndi, minha história
Capítulo 14
SHINE ERA PARA SER UM DISCO DE DANCE
MUSIC. EU ESTAVA INDO NESSA DIREÇÃO depois de ter concluído alguns trabalhos com dois companheiros da Soul Solution que remixaram “Ballad of Cleo and Joe”. Essa música se tornou um grande sucesso no sul da Flórida porque um fã e amigo meu, Carlos Rodriguez, ficou tão chateado com a forma como a gravadora me tratou que conseguiu um emprego em uma estação de rádio e tocou minha música (obrigada, Carlos). E, como eu disse, eu tinha feito “Disco Inferno” para a primeira turnê da Cher porque eu não queria ser apenas a artista das antigas sem nada para vender. Essa música foi indicada para um Grammy de Melhor Gravação Dance em 1999 e se tornou um sucesso nas danceterias.
Compus a música “Shine” e algumas outras com Bill Wittman, um colaborador de longa data. Também compus com Jan e continuei tentando voltar a compor com os rapazes da Soul Solution. Senti uma conexão com eles porque, como eu disse anteriormente, minha tia conhecia o tio de Bobby Guy e porque tivéramos sucesso. Mas os tempos mudaram e eles mudaram e eu mudei.
De qualquer forma, Shine começou como um disco de dance, mas quando apresentei as músicas nas quais estava trabalhando em casas noturnas, percebi suas deficiências. Muitas delas eram muito complicadas para dançar. Eu cantava alguma coisa e percebia: “Ah, essa música tem muitas mudanças de acordes”. A dance music tem apenas três acordes, ou talvez quatro, no máximo. Isso não muda muito. Ela precisa ser bem simples e não ter muitas palavras. As coisas avançaram um pouco desde então, mas, basicamente, eu achava que a dance music era mais restritiva que o pop, por outro lado, no começo eu achava que ela seria mais criativa.
Na época, eu teria gostado de receber dados de Junior Vasquez, mas ele não estava falando comigo porque insultei um de seus amigos ou algo assim, e ele estava convivendo com pessoas estranhas que meio que assumiram um pouco a sua vida. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo, mas nos desentendemos por um tempo (agora estamos nos falando de novo). Quando comecei a tocar dulcimer em meus álbuns, ele dizia para mim: “Ninguém gosta daquela merda caipira que você está tocando”. Então, às vezes, quando ele não retornava minha ligação, eu ligava para ele de novo e tocava o dulcimer em sua secretária eletrônica.
Percebi que tinha que fazer mudanças no álbum, me afastando um pouco da dance, e corrigi-lo para o que ele era: um álbum de pop, rock, dance e R&B. Nessa época também fiz alguma coisinha para Tricky. Fiz a voz para a música “Five Days”, para o seu álbum de 2001, BlowBack. Eu o admiro muito como artista. Eu o conheci em um estúdio em Nova Jersey, mas foi uma experiência estranha, porque, quando cheguei lá, tive que começar a compor a música com ele, quero dizer, literalmente, tudo – a letra e a melodia. Consigo fazer isso, mas não estava preparada e eu estava no lugar onde tudo estava acontecendo e nem conseguia pensar. Eu me senti como um cervo diante dos faróis.
Enquanto eu estava lá, também toquei para ele a balada “Water’s Edge” para saber o que ele achava, e ele disse: “Cyn, para mim, é um hit”. Ele gostava muito de mim porque seu vaso sanitário continuava vazando e vazando, isso estava me enlouquecendo, então levantei a tampa e consertei aquilo. Quando ele deu uma entrevista sobre o álbum e perguntaram sobre trabalhar comigo, ele disse: “Ela consertou meu vaso sanitário”.
Uma música desse álbum que sempre achei muito engraçada era “It’s Hard to Be Me”, que escrevi com Bill e Rob Hyman. Parece uma música de comédia, mesmo sendo uma música de rock. Rimos muito quando estávamos escrevendo. Por exemplo, no trecho You see me everywhere in my underwear / You may wonder what I’m here to sell [Você me vê em todos os lugares de cueca / Você deve imaginar o que vim vender aqui]. É porque, mais ou menos no ano 2000, estavam mostrando modelos em roupas íntimas nos anúncios e fiquei pensando: “Onde estão as roupas? O que eles estão vendendo?”. Apesar de estarem em roupas íntimas, não dava para saber se estavam vendendo roupas íntimas, música, roupas ou o quê. A música deveria ser irônica também, como com o trecho que Bill criou: It’s hard to be me Nobody knows what it’s like to be me the envy of mediocrity [É difícil ser eu Ninguém sabe como é ser eu a inveja da mediocridade]. (Bill é muito inteligente.) Além de “Comfort You”, Jan e eu compusemos “Higher Plane”, que achei que seria um grande hit. Eu adorava essas músicas, mas quando eu as tocava para as pessoas da gravadora, elas diziam: “Não parece você, Cyn”. Eu pensava: “Isso não é bom?”. E daí se não parece eu? “Shine” parecia um hit para mim também, mas as rádios não a tocavam por causa da bateria, por causa do ritmo. Não conseguiam me dizer o que não gostavam no ritmo, mas paguei o rapaz que trabalha com engenharia para Mutt Lange para remixar a música. Ele acabou comprimindo tanto a minha voz que parecia que eu não conseguia cantar. Percebi que só porque o compressor funcionava para outras pessoas não significava que funcionaria para mim. Então me senti como Vinnie van Gogh tentando fazer uma pintura de sucesso de novo.
A forma com que eu costumava vender meus discos era apresentar remixes dançantes das minhas músicas nas casas noturnas. Comecei a vestir toda a tralha que vestia na Gay Pride quando me apresentava nas casas noturnas. Eu usava uma bandeira de arco-íris com enfeites e, quando eu girava na luz, ela brilhava. Comecei a usar acessórios de cabeça também. Lembro que fui ao Canadá fazer alguns shows e, na época, a rede Bravo estava fazendo um trabalho sobre processo criativo. Então eles ficavam me seguindo por aí. Eu também estava comendo uma comida repugnante de dieta novamente para ficar magra.
De qualquer forma, eu tinha agendado dois shows no que me disseram ser danceterias em Edmonton, Alberta. Eu tinha o dia livre e as pessoas da Bravo sumiram para algum lugar, então dei uma volta nos arredores e encontrei uma loja com lindos cocares. Só para lembrar que isso foi em Edmonton, ok? Não foi em Nova Orleans. Então entrei e havia acessórios em várias cores diferentes: um vermelho, um branco, um azul. Eu estava bastante empolgada. Mas a mulher que trabalhava lá ficava olhando para mim e perguntava: “Você patina no gelo?”. Eu disse: “Não, não, eu não patino no gelo”. Mas ela continuou me perguntando isso. Por fim, eu disse: “Por que você fica me perguntando se patino no gelo?”.
“Porque esta é uma loja do Capades Ice.”
Comprei alguns acessórios de cabeça com penas largas e os levei com minha bandeira enfeitada com joias para a danceteria, para o meu show. Entrei e havia tela para galinheiro em frente ao palco e chão de terra, e também havia uma banda de abertura para mim. Fiquei pensando: “Hum, por que tem uma banda numa danceteria?”. Mas trabalhei rapidamente algumas músicas com eles – versões em slash-metal de “Bop” e “Girls”. Depois coloquei meu acessório de cabeça e estava dançando com minhas roupas brilhantes, vestida como uma curandeira louca e cantando músicas como “Higher Plane” com fundo musical (como se faz em casas noturnas) e, de repente, parei e olhei para todo mundo. Todas as pessoas estavam olhando para mim, estupefatas. Então eu disse: “Todos vocês devem pensar que estou louca, mas, olha só, achei que essa era uma danceteria, e em danceterias a gente faz esse tipo de coisa”.
Não sei como consegui passar por esse show. Parecia algo saído de um filme. Não me importo com terra me sujando de vez em quando, mas senti como se tivesse chegado ao fundo do poço. Fiquei pensando: “Essas pessoas não estão nem aí para mim. Eu poderia estar morta”. As pessoas da plateia ficaram bem desapontadas porque eu não era a Cyndi Lauper que elas conheciam.
Eu precisava fazer mais um show em Alberta e o dono da casa noturna me disse que o outro lugar era igual a esse. Liguei para o meu empresário e disse: “Você está falando sério?”.
“Você não pode simplesmente fazer isso?”, meu empresário louco perguntou.
“Não, é ruim para minha reputação”, eu disse a ele. E pelo menos consegui escapar desse outro show.
Glamoroso não foi. Há uma maquiadora com quem trabalho em Toronto e, às vezes, minha vida é tão ridícula que, quando conto a ela, ela começa a rir e diz: “Ok, onde estão as câmeras? Não pode ser tão ridículo assim”.
Você provavelmente não ficará surpreso ao saber que já estava na hora de deixar meu empresário, porque ele provou não estar fazendo muito para me ajudar. Então contratei a melhor empresária de todos os tempos – Lisa Barbaris. Eu sabia há muito tempo, desde 1995, que ela seria perfeita. Como eu disse, esse foi o ano em que participei do Gay Games em Nova York. A propósito, meus amigos Brian Salzman e Howard Kaplan me colocaram nos jogos, e não a gravadora. Eles sequer promoviam a música “Ballad of Cleo and Joe” nas casas noturnas, porque o chefe da divisão de dance music achava que era muito gay. Em vez disso, estavam interessados em baladas e dando um gás para elas.
Então meu amigo Chris Tanner, um pintor, artista drag e ator maravilhoso, me ligou e disse: “Cyn, a parada de orgulho gay é daqui a duas semanas, você tem que ter um carro alegórico, você precisa estar no desfile”. Eu disse: “Você está brincando, né? Como vou conseguir um carro alegórico em duas semanas?”. Chris disse: “Você liga para os organizadores, diz que é a Cyndi Lauper e que quer estar no desfile. Você leva todo mundo e nós arrasamos”. Então liguei para Lisa, minha agente publicitária na época e, de alguma forma, ela conseguiu um carro alegórico para mim. Eu tinha várias drag queens no carro e apresentei todas as versões de “Girls Just Want to Have Fun” que existiam. Então me disseram que eu não poderia cantar “Girls Just Want to Have Fun” na frente da St. Patrick’s Cathedral, porque era uma área em que não era permitido cantar e, se eu fizesse isso, me fariam parar. Eu disse: “Por favor, deixe-me cantar e deixe-os me impedirem. Tem ideia de como seria a manchete? ‘O cardeal O’Connor não queria se divertir’”. Então fui em frente e cantei, e o engraçado foi que a igreja não me fez parar: eles sabiam como seria a manchete. Então meu coraçãozinho de colegial católica estava todo agitado.
No entanto, eu soube que quando Lisa arranjou aquele carro alegórico do nada ela seria uma ótima administradora, e ela é. Ela é capaz, leal e eu a amo e acho que ela me ama. Ela trabalha duro – às vezes trabalha duro demais e tenho vontade de dizer: “Ei, por favor, vamos morrer mesmo, você pode parar um minuto?”.
Mas eu ainda estava com meu antigo empresário na época. Ele não foi para a Gay Pride. E, em outra ocasião, quando participei do Vienna Gay Life Ball for AIDS usando roupas de baixo brancas da Marie Antoinette com uma peruca que tinha um barco com um homem dentro, lembro que ele olhou para mim e disse: “Por que você não pode simplesmente usar jeans e camiseta?”. A gota d’água foi quando ele enviou um assistente em seu nome para a apresentação de Shine para a gravadora. Decidi mandá-lo passear e contratar Lisa.
De qualquer forma, Shine deveria ser lançado por uma gravadora menor chamada Edel em 1 de setembro de 2001, mas, algumas semanas antes, Lisa me ligou e me disse: “A Edel America está saindo do mercado. Você precisa reaver os direitos da sua música”. Então lutamos para recuperá-los e, em seguida, tive oportunidade de lançar o álbum com uma gravadora independente bem pequena, mas eu não tinha certeza sobre isso. Além disso, algumas faixas vazaram para o público. Percebi isso quando me apresentei pela primeira vez e todo mundo já estava cantando junto. Então Lisa procurou outras gravadoras para ver se elas fariam o disco, mas o feedback foi bem desanimador, do tipo: “Quem ela pensa que é? Ela não é produtora, ela deveria apenas cantar. Eu só posso aceitá-la se ela fizer tudo o que eu disser para ela fazer”. Queriam que eu trabalhasse com o compositor David Foster. Eu não queria trabalhar com alguém de cuja música eu não gostasse. Ele é um cara muito talentoso, mas faz um tipo de música bem melódica e diz o que você quer, mas não faço música melódica. Eu não queria fazer baladas tão emocionantes. Quanta angústia é possível cantar? Até algumas pessoas de R&B voltaram e disseram: “Ela não consegue produzir, isso é horrível”. O trabalho horrível sobre o qual elas estavam falando inspirou muitas das músicas que estão surgindo agora. Consigo ouvir “Shine” na música “Firework”, de Katy Perry. E a banda Arcade Fire é uma grande fã minha e muita coisa os inspirou – foi o que me disseram.
Depois disso, eu falei: “Vamos só produzir um EP e ver o que acontece”. Lisa me disse para escolher cinco músicas, então escolhi “Shine”, um remix dela, “It’s Hard to Be Me”, “Madonna Whore” e “Water’s Edge”. “Shine” é a maior música underground. Quando canto essa música, é um grande sucesso, as pessoas enlouquecem.
A propósito, a música “Madonna Whore” não tinha absolutamente nada a ver com a Madonna. Era sobre o complexo da Madonna-vadia. Eu estava só escrevendo sobre minha experiência como mulher: Every woman’s a Madonna every woman’s a whore you can try to reduce me but I’m so much more [Toda mulher é uma Madonna toda mulher é uma vadia você pode tentar me reduzir, mas sou muito mais]. Mas é claro que, por causa da coisa entre mim e a Madonna, é isso que as pessoas iam pensar. Que idiota eu.
No entanto, a própria Madonna trouxe esse conceito em seus materiais mais incríveis e mais provocativos, como “Like a Prayer”, que, só para constar, me fez amá-la. Quando vi aquele clipe, eu disse: “Certo, ela é muito boa”. Ela apertou todos os botões só com aquele botão – foi brilhante. Quando a Pepsi desistiu dela depois daquele clipe, ela não só recebeu o dinheiro deles como usou essa controvérsia para tornar o clipe ainda maior, e todo o mundo viu – todo o mundo. Quando a Pepsi a rebaixou desse jeito, na verdade, o que fizeram foi impulsioná-la. Ela sabia exatamente como trabalhar isso. E, como eu disse antes, eu sempre me esforçava bastante, mas não sabia como manipular a imprensa. Eu não tinha senso para negócios.
Em seguida, vendi o EP no meu site e Lisa batalhou muito para vendê-lo pela livraria Borders. Eu não desistiria e tive muita ajuda dos meus amigos, que trabalharam de verdade. Foi um pequeno EP independente e acho que, no fim, vendi 68 mil deles, um por um. Não foi o que eu havia planejado originalmente para o álbum, mas esse era um número de vendas decente e isso tornava tudo mais fácil. Nunca vou me esquecer de quando aprontei tudo para Shine e depois descobri que a Sony estava lançando mais uma coleção de “as melhores”, um DVD de Twelve Deadly Cyns... and Then Some de todos os meus clipes até “I’m Gonna Be Strong”. Esse tipo de porcaria. Eles estavam canibalizando minhas vendas. Não dá para ter dois lançamentos ao mesmo tempo. Mas o que eu podia fazer?
Durante o período do Shine, fui à Transilvânia para fazer um programa de TV em um palco em frente ao castelo de “Bad Vlad” (ele foi Vlad, o empalador, a inspiração para o Drácula, mas acho que “Bad Vlad” é um nome muito melhor). Então fui para a Romênia. Era 2000, talvez 2001. Meu cabelo estava loiro-platinado e preto. É engraçado, sempre lembro do ano e do álbum com base no meu cabelo. De qualquer forma, isso foi apresentado como um grande negócio e que eu seria um grande negócio na Romênia. Quem poderia saber? Foi outra grande aventura. Eu não tinha uma equipe à qual estava acostumada, mas minha banda era fantástica. Eu tinha Sammy Merendino na bateria, Bill Wittman no baixo, Knox Chandler na guitarra, Steve Gaboury nos teclados e Allison Cornel no violino, na viola clássica e às vezes no dulcimer também (dois dulcímeres são melhores que um, se quer saber, então toquei dulcimer também). De todo modo, eu estava bastante empolgada porque tocaríamos o CD Shine e mais algumas músicas.
Eu tinha ido para a loja Trash and Vaudeville antes de viajar. Eu estava vasculhando a cidade para encontrar um visual ao estilo Edie Sedgwick. Ninguém estava fazendo isso. Continuei indo às grandes lojas e mostrando fotos, mas ninguém tinha nada remotamente parecido com o que ela usava. Claro, no ano seguinte, e um ano depois, Edie ressurgiu de forma grandiosa. O visual dela não estava disponível quando precisei. Mas, no fim, mudei o que eu vestia e fui ao estilo centro de Nova York.
Então, quando fui à Romênia, usei uma blusa de seda como aquela camisa dos anos 1960 com mangas que se abriam em sino a partir do cotovelo e calças de couro pretas. No fim, eu estava descalça, mas não importava, porque nunca consegui ir aos programas principais.
Quando cheguei, fomos levados pela equipe do organizador em disparada pelas ruas, com as sirenes do veículo ligadas. Eu não conseguia entender o que eram aquelas sirenes, até descobrir que essas pessoas eram ex-integrantes da polícia secreta. De repente a situação ficou muito parecida com James Bond. E eu ficava pensando comigo: “Não é possível eles terem inventado uma história dessas”. Aí comecei a pensar no meu filho de 3 anos em casa e comecei a ficar um pouco nervosa, então eu lhes disse que eles precisavam ir mais devagar. Eles não diminuíram a velocidade – então fiquei muito brava e disse que precisava voltar inteira para o meu filho, daí diminuíram a velocidade da melhor forma que podiam.
Eu nunca tinha ido à Romênia – foi isso que a tornou tão empolgante. Ficamos em uma cidadezinha montanhosa com um grande hotel ao estilo chalé. Foi muito singular. E lá, como prometido, estava o Castelo de Bad Vlad. Todos saímos para comer na primeira noite e Bill comeu urso. Não consegui me sentir bem com essa coisa do urso. Pedi carne de veado. Comi a mãe ou o pai do Bambi.
No dia seguinte aconteceu a coletiva de imprensa. Eu estava em meu novo visual, com jeans vermelho, azul e preto da Trash and Vaudeville e olhos à la Edie Sedgwick. Era um novo eu. Eu estava muito empolgada para começar esse novo capítulo da minha carreira – Cyndi como indie.
Todo mundo foi muito legal conosco, só que eu não tinha ideia de que a homossexualidade era ilegal na Romênia naquela época. Então, durante a entrevista, quando perguntaram: “Então você luta pelos direitos dos gays?”. Eu disse: “Pode ter certeza que sim”, e comecei a falar sobre como acho que todos deveriam ter direitos civis. Isso causou uma grande agitação na sala.
Enquanto eu estava passando o som, falei para o operador de som, que estava boquiaberto comigo, como se eu fosse louca, que ele tinha que aumentar o som da guitarra, e rápido. Eu ficava dizendo: “Vamos lá, vamos lá, você tem que fazer isso agora”. Eu o fiz chorar. Sem brincadeira. Se você vai chorar, não faça parte do show, porque não é fácil. Gostei muito dele, mas não há choro quando se opera o som. (Sempre haverá falhas em relação a “aprender a me comunicar”. Ainda penso muito: “Eu deveria ter dito isso, deveria ter dito aquilo”, mas ainda estou no caminho do aprendizado.) Enquanto isso, minha empresária estava prestes a ser espancada por uma grande mulher da Transilvânia que estava orientando o Elvis romeno que se apresentaria antes de mim. Esse cara estúpido apresentava uma música que soava como uma canção antiga, mas não era legal, como a banda Stray Cats ou alguma coisa interessante. No entanto, as pessoas daquele país provavelmente adoraram. Superamos isso, apesar de o Elvis ter decidido gastar boa parte do tempo. Cantei algumas músicas, incluindo “She Bop”.
A propósito, se você ouvir o finalzinho de “She Bop”, vai notar que Michael Jackson pegou a linha do baixo e escreveu “Bad” a partir dela. Um pouco antes de ele entrar para gravar “Bad”, ele se sentou atrás de mim em um avião com Emmanuel Lewis e estava ouvindo “She Bop”. De qualquer forma, não importa. Fico muito lisonjeada só de ele ter pensado nisso. Ninguém estava me promovendo como faziam com ele. Eu também estava com um pouco de ciúmes dele – ele estava na Epic. Mas eles o tratavam muito mal. Ele era muito pressionado e, quando as notícias sobre abuso sexual saíram na imprensa, a gravadora se distanciou dele – todos o fizeram. Não sei como era sua vida particular, mas ele sempre foi gentil comigo. Então, é claro, quando ele morreu, a gravadora entrou na vibe “Viva Michael”. Estavam sedentos por todo o lucro que teriam, porque todos os discos dele subiram para o topo das paradas, assim como aconteceu com os discos de Whitney Houston.
Em todo caso, quando terminamos as músicas e saímos do palco, descobrimos que tudo tinha sido tirado da coxia. Tudo se perdeu. É como dizem às vezes: “Aqui está o seu casaco. Você já vai embora, né?”. Então o avião romeno que pegamos fez um pouso inesperado em uma base militar no país para reabastecer. Não era um voo de primeira classe, era da classe trabalhadora. Era um voo Fred Flintstone vindo do inferno. Entretanto, foi um momento engraçado e rimos muito. E, sabe o que mais? Vimos o país e comprei alguns vasos de vidro.
De volta aos Estados Unidos, fiz muitas sessões de autógrafo para Shine, o que eu adorava. Conheci muitas pessoas e ouvi histórias tristes de veteranos doentes que estavam voltando da Guerra do Golfo. Eu me esforcei bastante para vender CDs e dar o máximo de autógrafos possível. O estranho sobre as sessões de autógrafo é que é difícil assinar com rapidez. Você quer apertar a mão de todos, tirar uma foto, fazer uma conexão e agir como um ser humano, mas os gerentes da loja querem que você entre e saia dali em uma hora ou duas. Só que isso é impossível. Se houver quinhentas pessoas, você ficará lá por três horas.
Sempre adoro conhecer pessoas, mas sinto muita saudade da minha família quando estou fora. Eu me sinto como Willy Loman às vezes. Tenho um sentimento de desespero e isso fica mais difícil à medida que envelheço. É engraçado, meu tecladista Archie “Hubbie” Turner diz que quer fazer um reality show chamado The Old and the Useless [Velhos e inúteis], porque quando você envelhece nesse negócio, começa a se sentir inútil. Mas ele não é nem um pouco assim. Quando vi Hubbie ao vivo pela primeira vez, fiquei dizendo: “Espero que seja fácil e bom trabalhar com esse garoto”. Acontece que ele era mais velho que todos nós! Ele tinha 65 anos. Ele passa pela vida de um jeito mágico – é um bastardo de sorte. Penso que todo mundo que você encontra e vê tem alguma magia e estou sempre interessada em entender o que é essa magia. Sei que Allen Toussaint, que tocou no meu álbum de blues, tem magia; sei que meu guitarrista tem magia; sei que todos os músicos com quem toco têm uma certa magia; e sei que minha família tem uma magia de primeira. Então, vivo uma vida encantadora e mágica – acontece que em alguns dias me esqueço de pensar nisso, porque não consigo ver, ou estou ocupada olhando para outra coisa.
Mesmo que eu reclame do quão ocupada minha empresária me mantém o tempo todo, pelo menos ainda estou cantando e sou capaz de fazer isso depois de todos esses anos. Bring Ya to the Brink foi indicado para um Grammy. At Last foi indicado para um Grammy em 2003 – não pela voz, o que deveria ter sido, mas pelo arranjo. Não leio a música por partes instrumentais. Faço o arranjo de ouvido. Eu ouço, eu sei o que quero. Às vezes peço para alguém tocar uma música completamente diferente, mas mudando os acordes para os acordes da música que estamos tocando. E eles olham para mim como se eu tivesse duas cabeças. Entendi isso agora, ao explicar para as pessoas que tenho uma forma estranha de trabalhar, então elas precisam me aguentar. Sempre acreditei que a música é como cozinhar – você pega um pouco de tempero desse armário e do outro armário, mistura tudo e vê o que conseguiu.
De qualquer forma, depois de Shine, Lisa ficou pensando em como as gravadoras disseram que eu não era uma produtora e que a única forma de assinarem contrato comigo seria se eu fizesse o que eles queriam. Como Clive Davis disse: “Se eu a acho maravilhosa? Sim, eu acho. Ela fará o que eu quero que ela faça? Não”. Então Lisa disse: “Cyn, ninguém entende que você arranja música. Por que você não faz o arranjo de algumas músicas clássicas e as interpreta? Isso pode ser algo sobre arranjo e interpretação – deixe-os ouvir a cantora que você é”. Eu disse ok. E, acredite ou não, voltei para a Sony, porque eles tiveram essa ideia com a Lisa. Havia um rapaz de quem gostei de verdade lá chamado David Massey, e assinei o contrato por causa dele. Pensei que era melhor ficar com o diabo que você conhece. No entanto, quando me encontrei com ele pela primeira vez, ele queria ouvir uma fita do que eu faria. Eu disse a ele: “Você quer uma demo? Eu faço isso há vinte anos e você quer uma demo?”. Mas esse é o protocolo deles. Eles precisariam gastar muito dinheiro e blá-blá-blá.
Quando percebi que eles queriam demos, pensei: “É melhor eu encontrar uma música para fazer um truque de circo, porque é a única maneira de eles toparem isso”. Então pensei nas músicas que me influenciaram quando eu era mais jovem e influenciaram a forma como eu ouvia música. Apesar disso, “At Last” não era uma música que eu tinha escolhido originalmente. Parecia uma daquelas músicas que todos e suas mães cantavam.
Comecei a pensar sobre isso e me lembrei de quando era criança e costumava esperar pelo trem da linha A no cruzamento da Avenida Liberty com a Rua 104 para ir à escola. Eu me lembro de um cartaz na estação de trem: uma linda mulher negra com cabelos loiros, Etta James. Eu costumava ficar parada e olhava para o cartaz e para as outras mulheres na plataforma, todas vestidas para ir a Manhattan. Se você morava no Queens, Manhattan era a meca – a meca do estilo, a meca da arte, tudo era em Manhattan. Era o seu sonho. Então todos que iam trabalhar em Manhattan se vestiam de forma diferente (isso foi mais ou menos na época em que eu estava estudando moda, porque eu estava frequentando a High School of Fashion Industries). Eles também eram diferentes. Não pareciam estar no Queens, onde todas as mães iam ao supermercado A&P – era como se essas mulheres estivessem indo para a cidade. Observando-as, senti essa coisa de outro mundo como sempre senti. Como eu disse antes, sempre tive um pé nesse planeta e outro pé... não sei, em outro lugar, o que me permitia ver e sentir coisas assim. E eu também estava pintando na época, então tudo parecia uma pintura. Os sons são como uma pintura para mim também – os varais no meu bairro pareciam música, com os lençóis balançando ao vento. Assim como os pombos voando, que soavam como música, ou as mães chamando os filhos a distância, paradas e gritando na esquina. Você achava que tinha ouvido seu nome e ia correndo para casa.
Então, quando interpretei “At Last”, tentei colocar tudo isso na música e me lembrei de como era possível sentir a oscilação das estruturas da estação de trem quando ele estava se aproximando. Sendo assim, pedi ao meu acompanhador e à pessoa com quem arranjei a música, Steve Gaboury, para recriar essa sensação com ritmos, porque o piano é um instrumento de ritmo. Parecia que ele quase respirava com o piano – dentro e fora do ritmo das estruturas que se movimentavam contra o vento quando o trem entrava na estação. Nesse momento saí da plataforma para cantar o primeiro verso da música.
Apenas continuei cantando e ele continuou tocando. No fim da música, fiz o truque de circo segurando uma nota grande por um longo tempo, para que o pessoal da gravadora dissesse: “Oh, sim, ela consegue cantar, vamos assinar o contrato com ela”.
Também cantei “Walk on By” e “Unchained Melody”, que eram muito populares quando eu era criança. Muitos artistas fizeram versões cover dessas músicas, então percebi que a única forma de as pessoas ouvirem a minha interpretação seria se eu redescobrisse essas músicas e encontrasse uma nova alma, um novo caminho, uma nova história dentro da história. Essa é a forma como você deve sempre interpretar uma música: Qual é a história? Onde você está? O que está ao seu redor? Está frio? Está quente? É noite? É dia? O que acabou de acontecer? Esse é o enredo de onde você parte. Quando eu era uma jovem que olhava para o cartaz de Etta James, era época da Janis Joplin, e vi Janis Joplin e os hippies e a justaposição dessas duas culturas em um redemoinho, rock e blues cru e uma cultura em mudança.
Os ouvintes vão sentir a história, estejam eles conscientes disso ou não. Porque muito disso não era evidente nem explicitado – era um ritmo interno ao qual eu precisava me conectar. Nesse espaço, uma história tem mais riqueza e qualidade sobrenatural. E, em vez de cantar alto onde todo mundo cantava alto, eu cantava para dentro. E onde cantavam para dentro, eu cantava alto. Então eu encobria minha cabeça em torno da história de qualquer espírito que viesse até mim. Quando canto baladas, sempre sinto que é preciso se virar de dentro para fora, e a maior parte do meu trabalho em At Last foi uma combinação de cantar com poder e revisitar o poder de um sussurro.
Todo som é um personagem. A história de “Walk on By”, que eu disse anteriormente que cantaria ao vivo, era sobre uma menina do meu bairro que ficou grávida quando tinha 12 anos e acabou criando a criança sozinha. O namorado dela foi por outros caminhos, mas sua vida mudou radicalmente e ela não estava preparada financeiramente nem tinha instrução suficiente para ter recursos para cuidar de si mesma e de uma criança. Sua vida parou onde estava e ela começou uma vida totalmente diferente, com menos oportunidade financeira e menos oportunidade educacional.
Eu estava muito feliz, porque Russ Titelman, que trabalhou com todo mundo que você possa imaginar, de Eric Clapton a George Harrison, era o produtor. Eu sabia que Russ entenderia essas coisas, porque muito, muito tempo antes disso, ele me enviou uma velha canção de Richard Rogers e Lorenz Hart, “Little Girl Blue”, cantada por Nina Simone. No começo ela usa um pouco da canção de Natal “Good King Wenceslas”. Isso também é interior – é muito tranquilo e quase gritante. Porque o Natal é o momento mais triste para muitas pessoas, e também o mais solitário. Esse tipo de pensamento coloriu minha versão de “La Vie en Rose”.
Aquele álbum inteiro era uma história sobre as mulheres da minha vida. Havia uma dona de casa no bairro que era muito grande. Eu a via quando eu trabalhava no jardim da minha avó, que tinha cercas de metal limitando seu pedaço de terra. Dava para enxergar através delas, observar e ver os quintais de outras pessoas. Era a coisa mais incrível ver todas aquelas pessoas durante suas lutas e alegrias diárias. Essa mulher corpulenta fazia seu molho de espaguete aos domingos, e eu sentia o cheiro do jardim da minha avó. Enquanto cozinhava, ela se sentava em uma pequena cadeira com seu acordeão e tocava “Volare”, a ponto de eu pensar: “Oh, meu Deus, vou me matar”. A pele embaixo de seus braços grossos balançava para a frente e para trás quando ela apertava os botões do acordeão e, mais tarde, quando eu já era adulta, percebi que “volare” significa “voar” e tudo fez sentido. Essa mulher levava uma vida de trabalho árduo e encontrava alegria tocando uma música sobre seu coração levantando voo enquanto a pele de seus braços acompanhava. E todas aquelas metáforas de O Velho e o Mar voltaram para mim.
Esses tipos de imagens surgiram muito para mim quando eu estava fazendo o álbum At Last (mesmo não podendo cantar “Volare”, porque isso realmente teria me matado). Percebi que queria muito contar essas histórias através da orquestração e dos arranjos das músicas escolhidas para o álbum. Quando Russ tocou “Stay” para mim, eu me lembrei de estar na casa da minha prima mais velha, Linda, no quarto dela, ouvindo seus discos de 45 rotações. Ela tocou “Stay” e também várias músicas da banda Four Seasons e outras cantadas por garotas com vozes bem femininas, como Lesley Gore. Enquanto isso, a mãe de Linda, minha tia Gloria e os outros adultos ouviam música latina, música chá-chá-chá, sendo que na capa dos álbuns havia mulheres vestindo meias arrastão e batom colorido. Se eu estivesse no meio da casa, talvez na cozinha assando marshmallows no fogão, ouvia uma música no estilo de “Stay” tocando em um ritmo latino. Era basicamente um mashup antes do tempo.
Todo esse período em que eu estava crescendo no Queens e visitando minha tia em Long Island foi repleto de música italiana e mulheres usando muumuus durante o dia e cocktail dresses e “cha-cha heels” à noite. Nos quintais, elas davam festas ao ar livre de classe média, que eram pródigas para nós, porque tinham um aparelho de som que estourava pela janela do quarto enchendo o jardim de música. Se fosse uma ocasião especial, como uma festa de aniversário na casa da minha tia Gloria, penduravam lanternas chinesas. Vivíamos bem, de um jeito que as pessoas que realmente vivem bem não vivem – há um tempero, uma riqueza, uma alegria nas pessoas da classe trabalhadora. E, apesar de sermos um pouco produtos da miséria, ainda tínhamos um entusiasmo.
Portanto, esse álbum inteiro foi sobre meu crescimento e as histórias em torno da minha infância. Acrescentei “On the Sunny Side of the Street”, porque cresci ouvindo Louis Armstrong e precisava de outra música uptempo. Havia muitas músicas lentas e profundas e, se não animássemos o álbum, teríamos que distribuir lâminas de barbear com o disco para as pessoas cortarem os pulsos. De todo modo, havia uma música sobre ser positivo em vez de negativo, sobre pegar tudo que era triste e dizer: “Certo, tudo isso é triste, mas posso lidar com isso e vou escolher ver as coisas pelo lado positivo de alguma forma”. É assim que minha vida sempre foi.
Outra música uptempo que incluí foi “Makin’ Whoopee”, com Tony Bennett, mas tive um pequeno problema com Tony. Eu estava procurando um jeito de fazer a música de forma diferente, porque era muito tradicional. Escutei como Ella Fitzgerald fez isso com Louis Armstrong e gostei do modo como Louis falava um pouco entre os períodos em que cantava, então imaginei fazer isso. No entanto, ele ficou bravo comigo, porque não entendia as falas no meio da música e queria que eu fosse como k.d. lang, sua parceira frequente em duetos. Ele também queria que eu conhecesse muito bem a música antes de chegar lá. Eu não queria, porque queria aprender a música com a banda dele antes de ele chegar lá, para que eu pudesse apresentar no ritmo deles, em vez de apenas cantar por cima.
Então, mesmo que eu não tenha escrito nenhuma dessas músicas, o disco foi muito autobiográfico, porque eu estava recolhendo pedaços da minha vida de quando me sentia destruída ou via alguém sendo destruído. Ou de alguém que estava em sua festinha ao ar livre e estava alegre. Conforme crescíamos, ainda tínhamos essa cor, as pessoas e etnias diferentes, e a moda diferente que usavam, as coisas diferentes que diziam. Era como Shakespeare para mim. Enquanto isso, como eu disse antes, minha mãe sempre nos levava ao Delacorte Theater para ver Shakespeare. Sempre achei que poderia encontrar Shakespeare na minha vizinhança quando observava todo mundo descendo o quarteirão, saindo das fábricas até chegar às árvores do nosso quarteirão. Ele tinha fileiras de árvores depois da nossa casa, porque meu avô derrubou a árvore perto da nossa casa. Então as árvores não começavam até a casa da vizinha, a sra. Schnur.
A sra. Schnur era amiga da minha avó e essas mulheres eram parte da minha jornada e do meu despertar. Vi essa geração de mulheres antes de mim ter todas as esperanças e sonhos destruídos, rasgados como as fotos da minha tia Gracie. Vi todas essas mulheres, a senhora do outro lado do quintal, minha mãe, sua irmã, minha avó, que não teve nenhuma chance, que não foi para a faculdade, a garota que tinha 12 anos e estava grávida e por quem todos passavam. Todas essas histórias me motivaram a promover uma mudança de todas as formas que eu conseguisse. E tenho certeza de que mudei as coisas um pouquinho, mas já era algo e, por um segundo, era mais legal ser diferente do que ser uma pessoa conservadora e normal.
At Last nunca foi pensado para ser um álbum de rádio, mas, de repente, a gravadora queria tocá-lo na rádio. Fiquei falando que minha voz estava alta na mixagem – não dava nem para tocá-lo numa casa noturna, porque, se você aumentasse o volume, minha voz o mataria, mas eles não escutaram. Para mim, era o tipo de álbum que você poderia deixar tocando em um jantar.
A arte é interpretativa e é importante se inspirar em sua própria vida. A capa do álbum é uma pintura das histórias reunidas, e você verá que na capa do At Last estou vestindo um cocktail dress preto, com a cidade ao fundo, e estou em um bueiro, saindo de uma balsa. No clipe de “Hole in My Heart (All the Way to China)”, também saí de um bueiro e usava um pijama chinês. Usei uma peruca preta em que fiz tranças, óculos e chapéu (foi muito engraçado, mas, sei lá, olhando em retrospecto, acho que é um pouco racista). Minha mãe estava no clipe em um riquixá e minha tia Gracie também, o que é meio encantador.
De qualquer forma, é engraçado pensar no bueiro, porque vim de baixo. Eu sentia que não valia nada antes de sentir que valia alguma coisa. Ao longo dos anos, sempre estudei muitas coisas de autodesenvolvimento, o que às vezes me ajudava e às vezes não. Sou intensa, porque o trabalho que faço é intenso e porque quando canto sou intensa. Sou apenas uma bastarda intensa, o que posso dizer? Eu tento, ouço CDs budistas, CDs de Abraham, a ponto de ter um assistente dizendo: “Meu Deus, de novo não, por favor, não”. Esses CDs são enlouquecedores depois de um tempo, porque você só pensa algo do tipo: “Cale a boca e siga em frente. Se você quer ser bem-sucedida, apenas faça o que precisa fazer. Se houver um muro no caminho, tudo bem. Deixe-me dar um passo para trás, deixe-me contornar isso e chegar ao ponto B”. É assim que tento fazer as coisas agora.
Anos atrás, meu marido entrava e olhava para mim enquanto eu fazia a dança dos espíritos com minha amiga Marion. Queimávamos nossos vilarejos e os reconstruíamos em nossa cabeça. A governanta hondurenha e a babá, que eram irmãs e acho que também eram testemunhas de Jeová, ficavam bem apavoradas – eu via as duas cabeças através da porta, me observando. Antes de conhecer David, durante a época de Vibes, eu também praticava ioga e fazia visualização criativa com Ginny Duffy, que me fez entender como cheguei onde queria estar: sempre me vi lá. Se você não consegue ver a si mesmo fazendo o que quer, como isso vai acontecer?
Não me importo de ser tão intensa. Quando as coisas começam a ficar além da conta, eu me disperso, entro em uma realidade diferente, onde vejo as coisas de forma diferente – tenho vivido minha vida assim. Sempre senti que tinha um anjo da guarda, com quem conversei durante toda a vida. Porém, agora penso: “Sabe, talvez você tenha um anjo da guarda, talvez você não tenha. Mas esteja aqui agora, seja compassiva, tente abrir sua mente louca e seus olhos para o que está acontecendo agora”.
O que talvez acrescente um peso à minha intensidade é o fato de estar quase sempre sozinha. Fico muito em hotéis e fico em casa sozinha quando Dec está na escola. Mas tenho meu cachorro e deixo a televisão ligada às vezes, apenas para ter uma voz ao fundo. Continuo procurando um trabalho em que eu não precise deixar meu filho, mas não sei se é possível. Alguém me disse uma vez: “Por que você não faz apenas eventos privados, então pode estar em casa e ganhar o dinheiro que você quer?”. No entanto, a ideia de não fazer mais música para o público realmente me assustou. Quando escrevo, preciso ficar sozinha, mas quero estar com a minha família. Então, muitas vezes, escrevo tarde da noite. Não me importo de me levantar no meio da noite para fazer isso. Funciona para mim, então posso vê-los. E, claro, tenho minha imaginação, então nunca estou totalmente sozinha.
Durante o ano em que trabalhei em At Last, meu pai me disse que foi ao médico e tinha câncer de pele. Eu disse: “Pai, câncer de pele é fácil de curar, eles tiraram isso?”. Ele disse que tiraram tudo, mas que a doença tinha se espalhado para os linfonodos e, na verdade, não ouvi essa parte no início.
Tive sorte em minhas primeiras experiências com o sistema de saúde – quando minha mãe teve câncer no ovário, ela teve um ótimo tratamento. Queria que meu pai fosse para o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, um dos melhores institutos oncológicos do país, mas ele não podia ir, porque seu seguro médico da AARP não pagaria. Mas pagariam pelo tratamento no Columbia, que não tinha um tratamento tão bom quanto o Sloan-Kettering. No entanto, eu não tinha dinheiro suficiente para colocá-lo no Sloan. Havia uma enfermeira muito gentil no Columbia que me ajudou a encontrar um asilo para o meu pai morrer. E foi o que fiz. Eu o coloquei em um asilo realmente bom, o melhor que pude encontrar.
Porém, quando meu pai estava morrendo, eu me culpei por nunca ter vendido tudo – eu poderia ter tido integridade, mas não tinha dinheiro para fazer nada por ele. Em vez de investir em cuidados preventivos, o sistema médico investe em “você fica doente, nós pegamos seu dinheiro, querida”. Não querem médicos que tirem seu sangue e prescrevam vitaminas, porque isso o manteria vivo.
Tentei muitas coisas diferentes quando meu pai estava doente e sendo cuidado no asilo. Levei uma mulher de qigong, levei um curandeiro, mas eles não estavam tendo muita sorte com ele. Tentei fazer Reiki também, enquanto a mulher de qigong trabalhava nele – sua cabeça estava quente e seus pés, frios, e eu conduzi o calor para seus pés. Tenho todos os tipos de rochas e pedras, e levei outra terapeuta Reiki chamada Michelle, que trabalha com médicos. Também levei todos os tipos de música e, quando tocava uma voz estridente, meu pai olhava para mim como se dissesse: “O quê? Você está de brincadeira, né?”. Isso me fez rir.
Eu ficava dizendo aos médicos e enfermeiros: “Apenas dê mais medicamentos a ele, porque não quero que ele sinta dor”. Minha madrasta não estava bem com isso, provavelmente porque ela não queria deixá-lo ir. Ela disse: “Por que você quer mantê-lo tão dopado? Você não quer que ele morra, não é?”.
Quando meu pai faleceu, minha madrasta disse que o enviaria para a cremação e depois pegaria a urna de volta. No entanto, parecia que, quando ele fosse cremado, estaria tudo acabado e ele ficaria lá, no maldito balcão em uma urna? Então decidi ir para a cremação e fiquei surpresa quando meu marido, que temia pela saúde de seu pai, veio comigo. Antes, eu dizia ao meu pai: “Quando você melhorar, vou levá-lo para a Grande Muralha da China”. Então levei um lenço de seda da China para a cremação. Quando pedi para vê-lo, disseram: “Isso tem um custo adicional”. Ótimo, eu disse, e eles me mostraram uma caixa de papelão. Coloquei um lenço ao redor dele e flores cor-de-rosa sobre ele – sobre o coração dele, para curar qualquer tristeza.
Liguei para Elen enquanto estava lá e ela disse: “O que é essa música ao fundo? O que você está tocando?”. Eu disse “Requiem for a Death”, ou algo assim. Ela disse: “Por que você não toca música havaiana? Ele tocava guitarra havaiana”. Então pedi para colocarem música havaiana quando me despedi dele. Quando meu pai estava entrando no fogo, uma música havaiana clássica chamada “I Like You”, de Sol Hoopii, começou a tocar e David disse: “Isso parece um filme de Woody Allen”. Toquei o álbum Master of the Hawaiian Guitar, Volume 2 inteiro. Meu pai gostava desse tipo de música. Meu pai sempre levava o mundo para casa, para nós, e eu amava isso nele.
“EU QUERIA EXPERIMENTAR
UM MUNDO MAIOR DO QUE
AQUELE EM QUE PESSOAS
DE MENTE PEQUENA RIAM DE
MIM.”