Cyndi, minha história
Capítulo 15
NOS ANOS 1970, EU TEMIA O TEMPO TODO
PELAS PESSOAS GAYS QUE EU CONHECIA, como minha irmã Elen. As pessoas eram muito loucas. No começo, nos anos 1970, você achava que a vida ia melhorar – especialmente com Harvey Milk sendo o supervisor da cidade em São Francisco. Foi uma época em que você pensava: “Oh, meu Deus, estamos vivendo um novo tempo em que as pessoas finalmente deixarão as pessoas serem quem são”. E então o cara foi morto e foi horrível.
Até os policiais eram cruéis com a comunidade gay: invadiam bares gays e prendiam pessoas, e tudo isso estava errado. Eu estava muito preocupada com a minha irmã, porque as pessoas agem de forma muito estúpida com alguém que é diferente, e os agressores de gays chegavam de outros estados (continua assim até hoje). Eu pensava: “Meu Deus, minha irmã é uma mulher pequena, o que vai acontecer com ela em Nova York?”. Trabalhei com um músico, um garoto muito talentoso, que foi espancado porque era gay. O agressor se deu bem, porque, quando o garoto foi ao hospital, ele disse: “Estou bem, estou bem”. Sim, ele estava bem, porque, de todo jeito, o que ele poderia fazer? Ele não quis ir à polícia. Algumas pessoas acham que não serão levadas a sério, então, muitas vezes, essas coisas sequer são denunciadas.
Elen foi para a CUNY Queens College, mas desistiu quando era caloura para descobrir por que o mundo era do jeito que era. Então, como eu disse antes, ela tinha muitos empregos diferentes. Ela era encanadora de um navio; trabalhava na ferrovia consertando vagões de carga; trabalhava em uma fábrica de roupas; era carpinteira, massagista e então acupunturista. Depois teve uma época em que ela se juntou ao movimento socialista e ia ajudar os pobres a lutar na Nicarágua. Ela ainda era muito jovem, e eu pensava: “Você não pode estar falando sério. Por que você está indo para lá? Apenas fique longe disso”. Mas ela não escutou. Então ela foi morar em Phoenix, onde viu todas as injustiças contra os refugiados salvadorenhos e os pobres, além de muita corrupção do governo local. Michael
Bloomberg3 ganhava um dólar por ano de salário. Ele insistia nisso e não aceitava suborno de ninguém. No entanto, esses outros caras eram corruptos. Sendo assim, ela se candidatou a prefeita de Phoenix pelo Socialist Workers Party [Partido dos Trabalhadores Socialistas]. Uma das razões era ajudar os refugiados salvadorenhos a terem um local para se abrigar. Na época, ela estava trabalhando na Marathon Steel Company, em Phoenix, cortando aço quente com um maçarico. E, na época, eu era bem famosa, então a revista People publicou um artigo sobre ela em 1985. Dave Wolff ficou uma fera, dizendo: “Ela não consegue nem administrar um talão de cheques – como vai administrar a cidade?”. Eu disse a ele: “Você não entende o que ela está falando em fazer lá. Ela está falando sobre corrupção. Ela está falando sobre apoiar as pessoas”. Ela não ganhou, mas chamou atenção para o que era importante para ela. Anos depois, os mesmos caras que ela disse que eram corruptos foram indiciados por corrupção.
Não acho que o socialismo funcione de verdade. E o comunismo é uma droga, porque todos os países que têm comunismo têm comunistas... e algumas pessoas se dando muito bem. A política tem a ver com poder. E o poder corrompe. Há sempre alguém no topo da cadeia alimentar que vive muito bem.
Elen também estava preocupada comigo e, por isso, ela me apresentou a Carl e Gregory, para que eles pudessem cuidar de mim quando ela não estivesse lá. Ela realmente achava que a sociedade ia desmoronar, porque havia muitas coisas ruins nos anos 1970. As pessoas estavam comprando as mentiras de Nixon e Agnew. Eu ficava deprimida porque meus amigos e eu pensávamos: “Nossa, os americanos acreditam em tudo que dizem a eles. O que aconteceu com a geração que mudaria e salvaria o mundo?”. Elen sempre foi muito otimista, positiva e compassiva. No fim, ela voltou aos estudos para se tornar acupunturista e herborista, o que ela é agora. É o trabalho perfeito para ela porque ela realmente se importa com as pessoas.
Ela se assumiu quando tinha uns 20 anos. Demorou muito tempo para ela se assumir para si mesma e, a princípio, era bissexual. Um pouco depois, ela se assumiu completamente. Elen sempre queria ser o Peter Pan quando estávamos brincando, ela sempre queria ser o homem. Quando fazíamos música, ela tocava bateria, o que nenhuma das garotas queria fazer. Ela era muito boa. Minha mãe costumava fazê-la experimentar e vestir roupas femininas, mas Elen nunca as usava. Nunca! Todos nós usávamos jeans, mas precisávamos ir até uma loja de roupas masculinas e nos adequar a elas porque não vendiam jeans para garotas na época. Tenho certeza de que ela se sentia muito confortável desse jeito. Minha mãe até deu um aparelho de permanente para cabelo a Elen. Pobre Elen. Enquanto isso, eu costumava olhar para aquele aparelho de permanente e implorar para minha mãe me ensinar a usar. Eu estava sempre cortando o cabelo das minhas bonecas Barbie e Pollyanna. Eu as alinhava e colocava um pano em volta do pescoço delas, como se estivessem no salão de beleza. Barbie era uma verdadeira destruidora de corações, mas, de repente, a Barbie ficou muito careca. Isso foi um choque.
Elen sempre foi uma grande inspiração para mim. E meu envolvimento com a tentativa de encontrar uma solução para a Aids começou quando Gregory me disse que tinha Aids em 1985 (depois de gravar o clipe de “She Bop”). Depois disso, ele ficou cada vez mais doente. Ele estava no hospital e não conseguia engolir, então os médicos tiveram que perfurar sua barriga com um tipo de bolsa para poder alimentá-lo. Era tão confuso. Como não havia muita informação sobre a Aids na época, eu não sabia se ele ficaria mais doente se eu o visitasse, mas não conseguia ficar longe. Depois das minhas visitas a ele, todos os meus amigos e todos em geral ficavam bastante apavorados e com medo de mim, como se eu estivesse portando alguma coisa. Eu me lembro de uma vez em que me cortei e estava sangrando quando estava perto de Gregory e pensei: “Meu Deus, estou sangrando, e os germes? Ele vai pegar alguma coisa de mim? Eu vou pegar algo dele?”. Foi ruim.
Era sofrido. Eu só queria ter a nossa vida do jeito que ela era. Tudo isso foi horrível. Vi em primeira mão o que a Aids faz com as pessoas, então eu queria que as pessoas soubessem que precisam usar preservativos, elas têm que fazer sexo seguro. Vale a pena arriscar sua vida inteira? Para mim, me envolver era a coisa certa a fazer. Havia outros grandes cantores adorados pela comunidade gay que não saíam para ajudar, e decidi que eu não seria assim. Porém, lembro que Liza Minnelli, Yoko Ono, Kate Pierson, Jean Paul Gaultier e muitos outros se manifestaram.
Participei de eventos como o Gay Games e a Pride Parade, e meu ativismo estava refletido em minha música, como tudo em minha vida. Toquei no primeiro evento pela luta contra a Aids em 1985, em Los Angeles. E quando Rock Hudson morreu, mais tarde naquele ano, Elizabeth Taylor se pronunciou, e pensei: “Certo, isso é bom, porque todos nós precisamos nos pronunciar”. E a MAC, empresa de cosméticos, também ajudou no começo. Estávamos perdendo toda uma geração de grandes estilistas, cabeleireiros e maquiadores.
Em 2002, quando o ator Harvey Fierstein estava recebendo um prêmio de direitos humanos, ele perguntou se eu poderia cantar “True Colors” em seu jantar de premiação, e é claro que eu disse sim. Levei minha violinista na época, que estava em turnê para o CD Shine comigo – seu nome era Denny e ela era nova. Pedi para ela tocar “True Colors” sem acompanhamento. Pensei que num banco antigo com eco, o som de um violino e uma voz over poderiam resultar em algo lindo. Então cantei para Harvey, ele aceitou seu prêmio e, sendo defensor da comunidade LGBT, falou com eloquência e bom senso. Naquela noite, me ocorreu que eu precisava fazer alguma coisa também. Eu estava trabalhando e cantando em casas noturnas promovendo o Shine e vendo todos na plateia sem camisa, dopados com tranquilizantes para gato, ecstasy e “speedball”, consumindo tudo de perigoso. As drogas faziam com que as pessoas perdessem suas inibições.
Conforme Harvey falava sobre as novas infecções entre jovens gays e o aumento das mortes por complicações relacionadas à Aids, ele disse que pessoas felizes não se autodestroem. Havia uma expressão nova no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000: “barebacking”, que significava não usar camisinha ao fazer sexo. As pessoas pensavam que não morreriam mais, porque havia indivíduos vivendo com Aids. Mas, como eu disse, as pessoas estavam morrendo da “velha Aids”, porque os coquetéis de medicamentos eram muito pesados.
Então pensei: “Por que não fazemos uma camiseta de orgulho e usamos os recursos para ajudar a combater a Aids?”. Na camiseta, coloquei uma foto minha na turnê da Cher em que eu segurava a bandeira do arco-íris com as palavras “orgulho” e “respeito”. Porque, se você respeitar a si mesmo e ao seu parceiro, você não o colocará em risco nem colocará você mesmo em risco. Todo o dinheiro arrecadado foi para a American Foundation for AIDS Research (amfAR). Durante a turnê da Cher, eu me enrolava na bandeira do arco-íris nos shows e contava a história de como, quando eu estava crescendo, minha mãe sempre dizia que, não importava o que fizéssemos, sempre seríamos seus filhos. Tivemos essa sorte. Na turnê da Cher, tudo foi programado para os efeitos visuais que ela tinha, então eu só tinha um certo período para conversar entre as músicas. Isso me deixava maluca (você me conhece).
Também foi nessa época que ouvi falar da campanha Stay Close através de Carmen Cacciatore, da FlyLife, uma empresa que faz serviços de imprensa e promoção no mundo da dança e em casas noturnas gay. Carmen me colocou em contato com a organização da PFLAG (pais, famílias e amigos de lésbicas e gays), que elaborou a campanha. Eu estava no caminhão de bombeiro, que servia de carro alegórico da PFLAG na Gay Pride Parade, no verão de 2001 – usava um acessório de cabeça e minha irmã também estava nesse carro, vestida de bombeiro. Elen queria usar uma camiseta que dizia “Butch”, então procuramos em todos os lugares, mas não conseguimos achar. Por fim, eu disse: “Elen, você está vestida de bombeiro – as pessoas vão saber”. Minha mãe também estava no carro alegórico com um pequeno chapéu de sol, acenando. Foi a primeira vez que participamos de uma parada de orgulho gay juntas como uma família.
Em 2002 também participei da Los Angeles Gay Pride Parade e fiquei em uma taça de champanhe. Fomos patrocinados por um fantástico bar gay chamado Abbey. Cantei todas as minhas músicas dance várias vezes.
Por isso, fiz a camiseta. Nós a criamos e vendemos nas paradas de orgulho gay, e o dinheiro foi para organizações sem fins lucrativos em favor dos gays. Pensei que, se promovêssemos o orgulho gay e o respeito gay, poderíamos deixar claro que não somos algo sem valor. A questão sobre ser gay, minha irmã me disse, é que fazem você se sentir sujo, como se estivesse transando de forma pervertida e não da forma comum. Então, há auto-ódio e vergonha. Mas uma sociedade inclusiva é muito mais forte que uma sociedade excludente. Se você continua se podando, nunca se fortalece. Você não pode simplesmente eliminar as pessoas porque elas são gays. Você nunca sabe quem terá a brilhante ideia de curar o câncer ou dar um jeito na economia. Até que ponto seremos tão ridículos?
Na época, eu estava em turnê para divulgar o CD Body Acoustic e, no palco, eu disse: “Ouçam, vocês podem pedir para os legisladores fazerem o que vocês quiserem, mas, basicamente, não acho que eles estão nisso por nós. Nós estamos nisso por nós. Somos nós que mudamos as coisas”.
Dessa forma, decidi que talvez houvesse uma maneira de inspirar as pessoas sem exatamente dizer a elas o que fazer e, em vez disso, apenas juntar todo mundo. Fiquei inspirada ao fazer a campanha Stay Close, da PFLAG, com Elen e pelo encontro com Judy Shepard, a mãe de Matthew Shepard. Então começamos a pensar em fazer uma turnê “True Colors”.
Matthew era um estudante da Universidade de Wyoming. Ele foi assassinado em 1998. Em um bar, ele pegou carona com rapazes homofóbicos, foi espancado e assassinado. Na noite em que Matthew foi morto, não perdemos apenas ele: três vidas foram absolutamente arruinadas – a de Matthew e a dos dois rapazes que o mataram. E por quê? Porque se você cria seu filho com medo e ódio, é isso que vence no fim, e é uma situação em que todos saem perdendo. Tenho um filho e, às vezes, ele fica intimidado, como muitas crianças. Escrevi uma música para ele chamada “Above the Clouds”, cuja mensagem era algo que Pat Birch me disse uma vez. Ela é uma coreógrafa maravilhosa que conheci quando fui a um programa chamado Friday Night Live (por uma razão ou outra, nunca me colocaram no Saturday Night Live). Ela disse que, quando trabalhava com Martha Graham, Martha lhe disse algo como: “Quando você anda com a cabeça acima da multidão, consegue enxergar longe, mas também é um alvo. Você se destaca”. Sempre me lembro disso quando quero fazer algo diferente e sou duramente criticada por isso.
Jeff Beck escreveu a composição musical para “Above the Clouds”, e depois escrevi a música em cima dessa composição. Jeff trabalhava em um pequeno estúdio que ficava no porão do Sunset Marquis com o tecladista/compositor/produtor Jed Lieber. Assim que ouvi a música, a letra veio tão rápido que quase não consegui escrevê-la. Meu amigo Kevin também estava lá comigo e, quando eu parava, ele dizia: “Continue, fique quieta e escreva a música como ela é”. O refrão é o que eu digo a qualquer um que esteja passando por algo como ser importunado por ser diferente. There’s a place where the sun breaks through and the wind bites cold and hard Stings my ears and tears my eye when the day starts to shout out loud Stand tall and glide when you’re all alone in the crowd don’t fall don’t hide when you walk above the clouds when you walk above the clouds. [Há um lugar por onde o sol entra e o vento é muito frio e árduo Fere meus ouvidos e faz meus olhos lacrimejarem quando o dia começa a bradar Levante-se e voe quando estiver sozinho no meio da multidão não caia não se esconda quando você caminhar acima das nuvens quando você caminhar acima das nuvens].
Acontece que quando eu era alvo de piadas no ensino médio era doloroso. Eu me sentia uma completa estranha. Embora todo mundo seja diferente, para mim o lado de fora começou a parecer outro mundo – mais reflexivo. Depois de um tempo não dei mais a mínima para o que as pessoas pensavam de mim, só ligava para o que eu pensava de mim. Nesse espaço eu poderia me educar. Eu andava por aí um pouco louca às vezes. É surpreendente como as pessoas têm medo quando você parece meio louca. Talvez eu estivesse com raiva de alguns dos meus colegas do colégio, mas eu queria experimentar um mundo maior do que aquele em que pessoas de mente pequena riam de mim porque eu era muito diferente. Se eu era estranha quando criança? Pode apostar que sim. Porém, eu queria crescer e me tornar o que eu queria ser, não o que alguém sem imaginação dizia que era adequado para mim, especialmente porque tudo que eu tinha era imaginação. É assim que eu vivia. E passava por isso imaginando viver como uma artista. Walter Mitty não era melhor que eu. O que dizer?
Tudo que quero dizer aos jovens que estão sofrendo é que às vezes dá para conseguir um alívio quando se fica mais velho. Talvez seja apenas a sua percepção que muda, mas de alguma forma isso fica mais fácil, porque a vida sempre muda. Quando você está por baixo, talvez esteja fortalecendo sua perspectiva sobre o mundo. E quando você está fluindo, talvez você possa usar tudo para criar, escrever, cantar, atuar e, no fim, se elevar e enxergar mais longe. Penso que cabe a cada um decidir mostrar que consegue lidar com uma situação difícil. Para mim, ter feito parte da batalha pode ter tornado minha visão um pouco superficial. Então não lamento por minha experiência.
Quando eu apresentava essa música em um show ao vivo, eu ia para a plateia e ficava em pé nos braços dos assentos. Subi no lado errado de uma daquelas cadeiras dobráveis uma ou duas vezes e caí. Depois disso eu ficava nos braços das poltronas, que eram muito mais estáveis. Passado um tempo, aprendi a andar de um lado para o outro e usar minhas pernas para me equilibrar. Eu movimentava meu corpo e braços enquanto cantava como se estivesse surfando acima da multidão. Achei que isso dava um bom efeito à apresentação, com o holofote sobre mim no escuro.
Nunca esquecerei quando, em 2005, a Human Rights Campaign, a maior organização de direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais do país, me concedeu sua maior honraria, o National Equality Award, por minha ação em defesa da igualdade de direitos para a comunidade. Quando aceitei o prêmio, decidi cantar “True Colors”, porque não sou oradora. Depois, fui para os bastidores e havia uma mulher parada olhando. Ela olhou para mim com seus grandes olhos e rosto arredondado – era Judy Shepard. Ficamos nos olhando, Judy começou a chorar e nos abraçamos por um bom tempo. Quando terminamos de nos abraçar, eu disse: “Parece que você precisa de uma bebida. Você tem vodca aqui?”.
Como eu disse, tinha sido muito profundo ouvi-la falar sobre o filho que havia sido roubado dela. Começamos a conversar e, por fim, pegamos as pulseiras roxas “Erase Hate” [“Apague o ódio”] da Matthew Shepard Foundation e as colocamos em cartões especiais que compartilhavam informações sobre Matthew e a fundação, com uma mensagem especial minha. Matthew havia dito que queria entrar na política e, no fim, através de sua mãe, ele fez isso.
Sempre fui uma defensora forte e engajada da igualdade LGBT, e é claro que sempre soube que a comunidade não era igualitária, mas não sabia o quanto era ruim até saber de alguns fatos extremos. Em 2006, Lisa e eu começamos a trabalhar de perto com o HRC e ouvimos histórias de como a vida de casais gays era impactada porque essas pessoas não podiam se casar. Na verdade, minha irmã criou os dois filhos de sua companheira com ela antes que qualquer um fizesse isso abertamente. Elas não tinham direitos. Ficamos sabendo que as pessoas ainda podem ser demitidas em trinta e oito estados americanos por serem LGBT, como crimes de ódio continuam acontecendo em um ritmo alarmante e como esses crimes não são cobertos pelas leis de crimes de ódio.
Então, quando chegou a hora de fazer minha própria turnê, decidi que seria legal reunir todo mundo. Se a turnê ia ser a turnê “True Colors”, então faríamos um verdadeiro arco-íris. Incluiríamos todos – heterossexuais, gays, transgêneros, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, jovens e idosos. Eu me lembrei de quando a música era assim misturada quando eu era criança. Ficava pensando: “Quando eu tiver minha própria turnê, vou fazer uma mistura também”. Minha amiga Iffath, uma médica brilhante que fez o parto do meu filho, é muçulmana. Por causa de sua religião, todo ano ela doa uma parte de seu salário para caridade. Então pensei: “Isso não é má ideia. Vamos nos divertir, fazer algo bom e conseguir algum dinheiro para a caridade também”.
A turnê “True Colors” arrecadou dinheiro para as seguintes organizações: Human Rights Campaign, Matthew Shepard Foundation, PFLAG e CenterLink. Nunca lucramos com a turnê, mas conseguimos muito dinheiro e conscientização para essas organizações sem fins lucrativos. Penso que mudamos algumas percepções sobre a comunidade ao falarmos sobre o que estava acontecendo. Veja, a única coisa que os membros da comunidade LGBT queriam e ainda querem é ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos que cidadãos heterossexuais. Eles pagam os mesmos impostos, mas não têm os mesmos direitos.
Na turnê “True Colors” de 2007, mostramos um filme curto da HRC entre as apresentações dos artistas. Em todos os shows, também tínhamos cartões-postais em apoio ao Matthew Shepard Hate Crimes Prevention Act [Ato de Prevenção a Crimes de Ódio Matthew Shepard] para as pessoas enviarem para seus senadores e congressistas. Se as pessoas se sentissem decididas o suficiente sobre isso, poderiam usar o cartão-postal para solicitar que a proteção contra crimes de ódio fosse estendida à comunidade LGBT (na época, não era). E nós os enviaríamos. Naquele ano, na turnê, percorremos dezesseis cidades e coletamos mais de cinquenta mil cartões-postais.
Não tínhamos muito dinheiro para a turnê. Eu, minha empresária e meu agente éramos sócios. Tivemos que levantar dinheiro para produção e outras coisas, mas não tínhamos nada. Não sou rica (as pessoas pensam que eu estou cheia da grana, mas não estou. Não lancei bonecas Cyndi nem uma linha de roupas quando talvez devesse ter feito isso). Minha empresária não é rica porque, se eu não sou rica, ela também não é, certo? Pobre coitada. Então tivemos que pensar em coisas que fossem visualmente boas e baratas – parece que sempre estou fazendo isso, por instinto.
Sendo assim, meu agente Jonny Podell disse: “Por que não fazemos o palco parecer o Delano, um hotel de Miami com cortinas brancas diáfanas que flutuam quando o vento sopra?”. É muito sensual, bonito e pega bem a luz. Pensei que era uma boa ideia, mas eu me perguntava como poderíamos manter as tiras de tecido longe dos músicos. E se voassem para o rosto deles?
Rosie O’Donnell também participou disso, porque ela teve um desentendimento com The View e tinha tempo. Eu a conheci em 2002 em um show da Cher e ela estava na plateia tirando fotos. Lembro-me de ter pensado: “Meu Deus, ela está embaixo do meu queixo, espero que essas fotos fiquem boas”. Porque às vezes estou curvada, gritando, colocando toda a emoção para fora, e isso não é uma imagem bonita. Acho que depois disso fui à casa dela por alguma razão, por volta de 2004, e me lembro de ter ficado nervosa.
Mas senti uma conexão real com ela. Porque ela é um pouco desajustada, como eu. Há uma tristeza em seu coração, por mais engraçada que ela seja. Além disso, apesar de ter crescido em Long Island, temos sotaques semelhantes. Falamos o mesmo vernáculo. Não somos de bairros chiques, viemos da classe média baixa, e eu me conecto e me relaciono com ela com base nisso. Não posso me conectar com ela em relação à perda da mãe, mas minha tristeza vem de me sentir tão alienada quando era criança que eu nem sabia por que estava viva. Eu costumava pensar: “Por que Deus me fez tão estranha, tão em outro mundo o tempo todo?”.
Acho extraordinário me sentir tão próxima de Ro, mas há muitas coisas que eu não compartilharia com ela. Tenho receio porque, no fundo, acho que as pessoas muito bem-sucedidas pensam que as outras pessoas só querem tirar proveito delas, e eu não quero nunca fazer parte disso. Quero ter relacionamentos baseados em um chão comum, então, onde quer que eu não seja uma igual, meio que me contenho um pouco – especialmente com pessoas famosas, porque você não sabe o que passa pela cabeça delas. Apesar disso, Ro é a pessoa famosa mais pé no chão que já conheci. Também achei Ellen DeGeneres assim – muito engraçada, mas bem pé no chão. Porém, nunca aprofundei a amizade com ela como fiz com Ro. Havia algo especial na Ro, e ela adorava a minha música – por exemplo, quando estou compondo coisas, mando para ela antes de divulgar, porque ela me pediu para fazer isso.
Então ela foi à minha turnê e fiz algumas apresentações em seu cruzeiro para famílias gays. Eu me importo com a Ro nesse nível, porque não consigo nadar direito. E não gosto de molhar o rosto e Deus sabe que não quero meu cabelo molhado – não quero que ele mude para uma cor que eu mesma não tenha colocado lá. O cruzeiro foi para a Nova Escócia e congelei, é claro. Em algum momento, descemos do barco para ir a outro barco observar as baleias. No entanto, não havia baleias e a água estava agitada, e pensei: “Por que estou num barco, quando acabei de descer de um barco?”.
Na segunda vez que fiz isso, fomos para o Alasca, e Lisa achou que deveríamos levar nossas famílias conosco para mostrar a elas que existem diferentes tipos de famílias. Então levei meu filho. Chegamos a Seattle e tudo estava indo bem. Meu filho conheceu o capitão e ele estava sendo um garoto bastante adorável e engraçado. Depois ele precisou atravessar a prancha de embarque. O navio parecia um prédio alto e, como ele tem medo de altura, disse que não faria isso. Bem, por acaso, Rosie estava do outro lado e, para distraí-lo, falou com ele: “Declyn, como você está?”. E levou-o para o outro lado. De qualquer forma, meu filho é um jogador de hóquei e muitas crianças nas equipes são homofóbicas – adolescentes e pré-adolescentes gostam de citar South Park e dizer: “Oh, isso é tão gay”.
Eis outra coisa que Ro fez. Na primeira noite houve uma festa no barco e havia licor ao redor. Então, Dec olhou para mim rindo e pegou uma garrafa fechada de bebida alcoólica para me fazer acreditar que ele estava bebendo. Eu disse: “Dec, isso não é engraçado, devolva isso”. Ro foi atrás dele e disse: “Na verdade, Dec, isso é meio engraçado, mas pude ver como sua mãe ficaria muito chateada com isso”. Ela leva jeito com crianças. Elas a adoram. Outra coisa legal sobre a Rosie é que ela começou a fazer minha irmã, Elen, entrar no palco e tocar guitarra comigo naquela viagem e algumas vezes na turnê “True Colors”. Era incrível, porque era como costumávamos tocar juntas quando eu tinha 11 anos. Rosie era muito acessível para minha irmã, era muito legal com ela, mesmo que ela não fosse famosa – algumas pessoas famosas são legais apenas com pessoas famosas.
A turnê “True Colors” foi oportuna porque, naquela época, você precisa entender, as coisas eram bem difíceis com George W. Bush. Ele e sua administração estavam dizendo coisas odiosas, a ponto de meus amigos gays falarem sobre deixar o país, e pensei: “Peraí – esse é o nosso país, do que você está falando?”. Na primeira vez em que a questão do casamento gay surgiu, os republicanos a rejeitaram rapidamente e pensei: “Os homens gays fazem todos os penteados dessas velhas republicanas excêntricas e vestem essas mulheres, mas quando chega a hora de dar um pouco de apoio a eles, elas não abrem a boca”. O Matthew Shepard and James Byrd Jr. Hate Crimes Prevention Act [Ato de Prevenção a Crimes de Ódio Matthew Shepard e James Byrd Jr.] passou pela Casa Branca e pelo Senado, mas Bush não assinou. Em sua mente, Deus não criou os gays. Mas isso não muda o fato de que crimes de ódio acontecem todos os dias. O rapaz que fez minha maquiagem e meu cabelo no reality show The Celebrity Apprentice uma vez pegou um trem do set para sua casa no bairro Spanish Harlem e ficou cercado por caras gritando para ele não olhar para eles. Todos os outros passageiros apenas ignoraram isso e não disseram uma palavra.
Achei que era importante para pais de crianças gays que simplesmente não conseguiam lidar com essa questão ou entendê-la conversarem com outros pais de crianças gays. Com quem mais eles conversariam? Eles não podiam ir à igreja porque diriam que eles vão para o inferno e o filho deles também, ou tentariam “curar” as crianças. Ou você nasce gay ou você não é gay. Não é algo que você escolhe ser. Se você pudesse escolher, por que seria algo que faz as pessoas agirem de um jeito tão horrível com você? O ódio vem da ignorância e do medo, e os gays tornaram-se bodes expiatórios para o governo Bush – isso desviava a atenção das pessoas do que realmente estava acontecendo, como a guerra no Iraque.
Sendo assim, fiquei muito feliz quando embarquei na turnê “True Colors”. Depois outros artistas começaram se juntar a ela também. O grupo britânico Erasure estava lá, pronto para ir com a gente, e achei aquilo incrível. Na turnê de 2007 também tivemos Deborah Harry, Dresden Dolls, de Boston, e a banda canadense Cliks, que foram incríveis. Havia muita especulação sobre a razão pela qual pessoas heterossexuais estavam fazendo uma turnê para a comunidade gay, mas eu queria que ela fosse inclusiva, como eu disse.
Margaret Cho foi a MC, e Judy Shepard e muitas outras pessoas tiveram problema com o show dela. As mães saíam durante sua apresentação e diziam: “Cyn, acho que o conteúdo dessas músicas não é o certo para os meus filhos”. Margaret fala sobre transar, chupar e boquetes. É engraçado, mas é um conteúdo adulto, e o problema é que minha música abrange várias gerações. Então elas levaram seus filhos por minha causa. No entanto, eu não iria censurá-la porque isso não seria certo – é a apresentação dela. Ela fez um ótimo trabalho ao mudar de uma apresentação musical para outra. Ela fez esse show avançar.
O que eu queria era fazer desse evento um festival, um destino de um dia, onde todos pudéssemos nos divertir juntos, fazer uma festa do chá e dançar com DJs. E que pudéssemos sentir que somos todos uma família e depois participar de um show à noite.
Foi muito divertido para mim, porque pude escolher todos os artistas legais de que gostava, e a noite toda eu podia ouvir a música maravilhosa deles. Quando você tem sua própria turnê, você pode definir o tom e eu queria deixar todo mundo confortável. Fiquei na cafeteria com os artistas. Se eles precisassem de fixador de cabelo, eu tinha. A porta estava sempre aberta, entende? Então, no fim da noite, eu ficava com a Cliks ou Dresdens e todos nós saíamos e tomávamos uma cerveja ou algo assim, e falávamos sobre música, sobre arte. Era o tipo de coisa que sempre desejei poder fazer. Eu adorava a camaradagem.
A Gossip se apresentou em alguns shows também e o pessoal da banda era ótimo. Antes de a vocalista Beth Ditto subir ao palco, eu corria para ajudá-la, dizendo: “Ok, do que você precisa? Venha para o meu espaço, tenho isso, tenho aquilo”. Uma vez eu disse a ela: “Olha, vá lá e não faça prisioneiros”. Naquela noite, ela tirou o vestido e cantou só com a roupa íntima. Pensei: “Ok, ela tirou o vestido como tiro meus sapatos. Ela não é incrível?”.
Às vezes artistas mais jovens gostam quando damos conselhos a eles e, às vezes, não. Quando Lady Gaga e eu fizemos a campanha Viva Glam da MAC juntas para o MAC AIDS Fund, tentei ajudá-la. Se eu a visse apoiada na própria coxa, o que fazia sua coxa parecer maior, eu dizia a ela para se aproximar e se apoiar em mim. Passamos um dia inteiro juntas trabalhando muito enquanto tiravam fotos nossas, e ela também me ajudou.
Vi um pouco de mim nela. Eu disse: “Uau, eu até danço como você”, ela olhou para mim e disse: “Cyn, eu estudava você”. Muitas pessoas dizem que artistas mais velhos inspiram os jovens, e pensei, especialmente depois de trabalhar com ela nessa campanha, que isso também acontece na direção oposta. Gaga me despertou para o fato de que eu estava me tornando cada vez mais comum, porque todo mundo ficava me dizendo: “Você não pode fazer isso, suas roupas são estranhas”, e até hoje ainda sou duramente criticada pelo que visto. Então agora só uso preto. Quando trabalhei com Gaga, consegui relaxar e me divertir. Pude ser eu mesma sem me sentir uma aberração, porque de muitas formas éramos parecidas, feitas a partir do mesmo tecido emplumado e cola quente. Podíamos ser do jeito que éramos, porque somos artistas e é assim que as coisas são.
Quando ela disse que me estudou, imaginei uma imagem maluca dela quando bebê, parada na frente da TV, colocando e tirando seus óculos escuros ao assistir “Girls Just Want to Have Fun”. Vejo que Gaga é muito boa em se inspirar em influências externas e reinventá-las em si mesma. Madonna faz a mesma coisa. Que diabo, todos nós fazemos isso. Talvez minhas inspirações venham de filmes antigos às vezes, mas foi isso que adorei em Gaga na primeira vez em que a vi. Ela era parecida com La Dolce Vita!
Voltando à turnê “True Colors”. Estar em turnê dava muito trabalho, mas passamos um tempo maravilhoso, especialmente na costa oeste americana. Nunca dei tantos apertos de mão na vida. Parecia que eu estava concorrendo a prefeita. No entanto, eu sabia que estava fazendo algo bom. Eu costumava ir aos bastidores e fazer mais “meet and greet”, porque vendia as fotos por caridade.
Na parada em San Diego, eu me lembro de testar uma música da Erasure chamada “Blue Savannah”. Perguntei ao meu guitarrista na época, Knox Chandler (um grande e inovador guitarrista de rock), se ele tocaria uma parte dessa música com um tipo de som baixo ao estilo Duane Eddy. Cantei com esse acompanhamento e parecia que eu estava em meu próprio filme em preto e branco. De repente, eu era Roy Orbison e Edith Piaf. Foi ao vivo e depois acabou, mas vivi aquele momento pelo tempo que pude. Depois voltei para mais fotos e apertos de mão.
Quando havia contratempos no palco, eu analisava a situação rapidamente e depois agia. Houve um momento embaraçoso uma vez com Knox durante “Money Changes Everything”. Eu quase o derrubei, com a guitarra e tudo. Tentei engatinhar entre as pernas dele no final do solo dele, mas elas não estavam abertas o suficiente para que eu passasse. Acho que eu estava no meu próprio filme dos Rolling Stones (o Mick já fez isso?). De qualquer forma, o pobre coitado quase caiu e, estando embaixo das pernas dele na hora, empurrei seu traseiro para cima com a minha cabeça, como uma bola de futebol. Essa é uma pequena história de bastidores do show – na verdade, “bastidores”, se é que você me entende. Às vezes me mato de vergonha!
São Francisco é uma cidade muito mágica, então adorei quando a turnê parou por lá. E, sejamos francos, há muita história lá: o movimento hippie, o supervisor da cidade Harvey Milk, o filme Vertigo foi filmado lá, a música de Tony Bennett sobre “aquela cidade na baía”... Como eu poderia não adorar esse lugar?
Então, quando Lisa, minha empresária, sugeriu que caminhássemos até a água, eu disse: “Claro”. E lá fomos nós. No começo, foi muito revigorante. Então encontramos um lugar chamado Blue Mermaid Chowder House & Bar, e pensei que talvez fosse o mesmo lugar do qual Joni Mitchell falou em “Carey” (a música, não o filme Carrie). Hã, provavelmente não.
De qualquer forma, Lisa e eu almoçamos todos os tipos de sopa de frutos do mar lá e minha dieta foi para o espaço. Nós duas gostamos de comer. A ideia inicial era pegarmos o bondinho no alto da colina depois da refeição. Mas, em seguida, tivemos uma degustação de sopas, seguida por mais sopas e depois uma salada (que nos fez sentir como se estivéssemos realmente seguindo algum tipo de dieta). E, claro, pedimos vinho branco em vez de tinto, pensando que era mais leve.
Bem, depois do jantar, decidimos voltar. E o legal de caminhar é descobrir coisas novas e lugares novos que você não teria notado dentro de um táxi ou carro. Assim, da mesma forma que alguém pode divagar em uma conversa, pode divagar em uma caminhada. Só fomos andando e dizíamos uma para a outra coisas como: “Já está dando para sentir nas pernas e na bunda?”. No entanto, depois de cerca de uma hora ou mais dessa situação, estávamos definitivamente perdidas.
Passado um tempo, parecia que estávamos em um episódio de Ab Fab. Depois de ouvir indicações de todos, subimos e descemos as colinas várias vezes. Parecia que eu estava rastejando, mas não pude mostrar a Lisa o quanto eu era “banana”. Então fiz piadas e disse que não me importava com uma longa caminhada – apenas com a insolação. Fiquei ligando para o setor de informações para falar com o hotel Fairmont para que fossem nos buscar e alguém do hotel disse: “Qual Fairmont a senhora deseja?”. Falaram que havia dois. Eu não sabia qual deles. Quando finalmente voltamos, é claro que tinha happy hour no bar do hotel. Sentimos que deveríamos tomar um Bellini. Afinal, era sexta-feira, dissemos uma à outra – que diabos. Oh. Espere. Não, não era. Bem, era a nossa sexta-feira. De qualquer forma, passado um tempo, decidimos finalmente dormir um pouco depois da longa viagem de ônibus que tivemos na noite anterior. Porém, não consegui dormir, o que me levou a ficar on-line. E isso me levou a ver um artigo escrito sobre Britney Spears e eu e a turnê “True Colors” na coluna “Page Six” do New York Post. O artigo dizia que a coreógrafa dela disse à revista People que Britney estaria conosco no palco no Greek Theatre em Los Angeles e que ela decidiu não fazer isso.
A verdadeira história foi essa: Britney foi convidada para se apresentar em Las Vegas conosco. Porém, ninguém representando Britney respondeu. Então escrevi um post no blog que dizia: Eis a oferta, Brit: Se isso chegar a você, saiba que é bem-vinda para ir ao Greek Theatre. Essa é uma boa causa e fico grata se quiser participar, linda. E, se você for, pode entrar em contato conosco? Embora eu não a conheça, você parece ser uma boa garota. Você é bem-vinda.
X
Cyn
AHHHHH... desculpe por não ter respondido antes.
Bem, ela não foi. Porém, ela ainda parece uma boa garota.
Britney não se apresentou naquela noite, mas minha irmã Elen sim. Ela foi e tocou guitarra conosco na música “Money Changes Everything”. Como falei antes, quando eu era pequena, tive a minha primeira banda com Elen. E lá estávamos nós no palco do Greek Theatre, sem os esfregões no lugar das guitarras, sem as velhas perucas da mamãe nem suas botas de salto alto. Isso aconteceu porque Rosie sugeriu que Elen tocasse guitarra comigo em seu cruzeiro.
Em 2008, organizamos e fizemos a turnê “True Colors” novamente. O lineup foi incrível, desde Joan Jett and the Blackhearts até B-52s e Sarah McLachlan e Joan Armatrading, e Rosie retornou. Conheci Wanda Sykes, que é tão incrível quanto você possa imaginar. O MC dessa vez foi Carson Kressley, que é muito gente boa. Tivemos alguns grupos jovens diferentes entrando e saindo. Os Cliks só participaram de alguns shows e o Hunter Valentine fez um ou dois shows. Tive oportunidade de conhecer Tegan e Sara. Conseguimos um bom progresso e dar muito dinheiro às pessoas. Depois de um show em que fizemos um evento de arrecadação de fundos para a PFLAG, Wanda e eu saímos e ela me disse: “Você é um soldado”. Ela me disse que sempre ajudaria a causa, que estava inspirada. Foi humilde da parte dela dizer isso. Ela é engraçada, inteligente e comprometida com a causa. Que seja abençoada. Eu a adoro. No ano passado, quando entreguei a ela um prêmio no New York City LGBT Community Center, ela me disse que foi sua experiência na turnê que deu início à sua decisão de sair do armário.
Sempre acreditei em “Power to the People” (essa é a música que eu cantava no fim do meu set na turnê “True Colors”). Fico feliz que pessoas heterossexuais como a Madonna finalmente tenham falado com esta comunidade que as cultuou por tanto tempo. Gaga também estava lá. Meu sentimento é: faça o que é certo. Ninguém está pedindo nada além – só o que é justo. Por que isso é tão errado? Adoro quando políticos republicanos dizem que não devemos legalizar o casamento gay e, de alguma forma, relacionam isso à pedofilia. Estatisticamente, são os heterossexuais, em geral, que são pedófilos!
Na turnê também distribuí cartões que instruíam as pessoas sobre como votar, porque um tempo atrás eu não me conhecia. Votei em Clinton, mas não votei nas eleições de Bush, e veja o que aconteceu. Não digo às pessoas em quem votar, apenas como votar. Porque, se você quer inclusão no mundo, é melhor começar a se incluir. Você precisa participar, caso contrário, não pode reclamar. Fiquei muito decepcionada com as coisas sexistas ditas sobre Hillary Clinton quando ela estava em campanha. Uma vez, em um aeroporto, vi um quebra-nozes simulando as pernas de Hillary Clinton. E, claro, o racismo que o presidente Obama enfrentou foi terrível. Os republicanos fingem que estão do lado das pessoas, mas certamente não pensam como pessoas pobres, porque eles não são pobres. Sarah Palin ganhou um milhão por seu reality show. E senadores recebem convênio médico. Eles deveriam receber a mesma coisa que nós, e então votariam a favor de seus próprios traseiros egoístas. Não sei como eles fazem isso, mas não posso fechar os olhos para as pessoas ao meu redor.
Enquanto ainda estávamos em turnê, Lisa, meu agente Jonny e eu começamos a conversar com o ativista gay Gregory Lewis, que levamos a bordo conosco para cuidar da parte de caridade da turnê, depois de termos trabalhado com ele na HRC e na Matthew Shepard Foundation. Vimos as pessoas em cada show energizadas pela música, pela comédia e, mais importante, pela mensagem de igualdade. Percebemos que, se podíamos ter esse tipo de impacto fazendo uma turnê, talvez pudéssemos fazer ainda mais durante o ano todo em relação a questões que precisavam de atenção. Foi então que nasceu a True Colors Fund. Soube de cara que eu queria continuar envolvendo pessoas heterossexuais no apoio à comunidade.
Então começamos a campanha Give a Damn, em 2010, com o objetivo de educar e engajar a comunidade heterossexual no avanço da igualdade entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. A campanha Give a Damn foi nessa direção porque Jonny recebeu muitas críticas por sermos heterossexuais e fazermos uma turnê gay. Eu disse: “Mas somos pessoas heterossexuais defendendo a causa de pessoas gays, por que não? Este é um movimento pelos direitos civis. Precisamos que todos estejam envolvidos”. Deveríamos nos revelar como gays para os heterossexuais, e como heterossexuais para os gays. É especialmente bom que as pessoas heterossexuais se informem sobre todos os tipos de questões que afetam os gays (que, por sua vez, afetam a todos nós) e se envolvam com elas: casamento gay, suicídio, discriminação no trabalho e na escola. Então, para ajudar a causa, achei que deveríamos tornar atraente o ato de defender direitos iguais para todos, incluindo LGBTs. Assim, produzimos mais de trinta anúncios de serviço público que incluíam pessoas como Susan Sarandon, Whoopi Goldberg, Elton John, Jason Mraz, Sharon e Kelly Osbourne e muitas outras pessoas. Não consigo nem agradecê-los o suficiente (nem consigo me lembrar de todos eles).
A campanha fez um grande barulho quando a atriz Anna Paquin se identificou como bissexual pela primeira vez em um dos nossos PSAs. A notícia foi vista por toda e qualquer pessoa. O site foi tão acessado que caiu nos primeiros quinze minutos em que a campanha foi lançada. E fiquei tão feliz quando Ricky Martin também participou de um. Foi a primeira coisa “gay” que ele fez depois de sair do armário, e foi uma grande ocasião. Eu meio que desejo que um homem hispânico heterossexual dê um passo à frente para dizer: “Está tudo bem ser quem você é”, porque uma grande parte dos jovens gays na rua é hispânica.
Eu me lembro de algo que realmente me tocou quando promovi a primeira turnê “True Colors”. Fiz uma sessão de fotos para a revista Interview e quis incluir a juventude LGBT. O que eu tinha em mente era o trabalho de uma fotógrafa chamada Diane Arbus, que, nos anos 1950 e 1960, tirou fotos de pessoas marginalizadas. Pensei: “Se eu pudesse tirar uma foto e mostrar jovens transgênero, quantos são, o rosto deles – os mais velhos, os mais jovens, as crianças –, então talvez as pessoas pudessem ver uma comunidade, e também seria arte”.
Então, procurei diferentes locais e pessoas para incorporar à foto. Fui até o Christopher Street Pier, na cidade de Nova York, e conheci muitos jovens que compartilharam suas histórias de terem sido colocados na rua por serem gays ou transexuais. Conheci Colleen Jackson, da West End Residences, no Upper West Side, com quem Lisa está envolvida. Fiz uma apresentação em um dos eventos de caridade da entidade e, quando Colleen foi ao Radio City Music Hall, parada da turnê “True Colors” de 2007, perguntei se havia algo que poderia ser feito para ajudar. Colleen voltou com a ideia de moradia para jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgênero que não tinham onde morar. Ela queria chamar a entidade de True Colors e usar o meu nome e eu disse: “Vá em frente, e tudo o que pudermos fazer, eu vou fazer”. Eu já tinha começado a lutar pela causa dos jovens LGBT sem lar e não há nenhuma organização americana que aborda a questão, então decidimos que a True Colors Fund desenvolveria essa organização.
Um grupo de pessoas extraordinárias em minha vida está por trás da construção da True Colors Residence no Harlem. É a primeira moradia permanente do estado de Nova York para este grupo. Muitos jovens LGBT desabrigados enfrentam violência em abrigos tradicionais, então a True Colors Residence oferece aos jovens entre 18 e 24 anos uma moradia de baixa renda, ajudando-os a se reerguer. A True Colors Fund é uma parceira nesse projeto e fornece financiamento e suporte à medida que cresce, e sou a presidente honorária.
Na True Colors Residence, são ensinadas habilidades para a vida que esses jovens podem não ter tido enquanto cresciam – por exemplo, você não pode comprar o lenço que você quer, porque precisa pagar o aluguel. Então eles ensinam como fazer o orçamento (embora alguns artistas optem pelo lenço com enfeites e passem fome, que era o que eu fazia). E os jovens não são expulsos – eles podem ficar o tempo que precisarem para se reerguer.
Há apenas trinta camas lá, então estou apenas fazendo o mínimo por todos que precisam de ajuda, mas se essa for minha contribuição, tudo bem. No entanto, eu não queria ser apenas uma celebridade estúpida que fala demais. Percebi que, se fosse para falar demais, que fosse algo construtivo.
Para mim, tudo retoma o meu amigo Gregory, retoma o píer e o trabalho com artistas drag no clipe “Hey Now (Girls Just Want to Have Fun)” e meu grande amigo e artista maravilhoso, Chris Tanner. Quando me comprometi a fazer a True Colors Residence, vieram até mim e disseram que queriam colocar uma placa em homenagem a Gregory na pedra fundamental da casa. Colleen tinha ouvido a história de Gregory. Eu às vezes contava isso em apresentações. Então agora ele tinha uma música e também uma placa em sua homenagem num lugar que deveria existir quando ele foi colocado na rua quando tinha 12 anos. A placa diz: “Gregory Natale, Boy Blue”, e uma parte do refrão da música “True Colors”. Se você olhar para a sua vida, tudo está conectado e continuamos dando voltas e voltas às vezes.
Fiquei muito feliz quando o Matthew Shepard and James Byrd Jr. Hate Crimes Act [Ato de Prevenção a Crimes de Ódio Matthew Shepard e James Byrd Jr.] foi assinado pelo presidente Barack Obama e virou lei em 2009. Lisa e eu fomos para a cerimônia de comemoração na Casa Branca. Lady Gaga havia se apresentado no jantar da Human Rights Campaign na noite anterior, e o presidente brincou: “É um privilégio estar aqui esta noite para fazer a abertura para Lady Gaga... Eu fiz isso”. Então, quando eu o conheci, eu disse: “Ouvi dizer que você fez a abertura para Lady Gaga”. Ele começou a rir e disse: “Ela pegou todos os seus passos! Você é a original”.
Eu nunca vou me esquecer da apresentação que fiz em sua posse presidencial. Precisei levantar às cinco e meia da manhã para o evento. Conheci Rufus Wainwright, Thelma Houston, Lisa Barbaris e Gregory Lewis, que acabaria sendo o diretor executivo da True Colors Fund, no lobby do nosso hotel. Eu deveria estar usando tênis de corrida em vez de sapato de salto, mas eu estava tão preocupada com a aparência da barra da minha calça que esqueci como meus pés ficariam. Eles me lembraram disso depois de 1,5 km ou mais.
Porém, conforme eu via todas as pessoas indo em direção ao National Mall, esqueci meus pés. Eu nunca tinha visto Washington tão viva. Todos estavam se apressando, felizes por estarem com frio juntos. Parecia que eu estava no meio das pessoas, no meio da história sendo construída. Foi outro momento de “poder para o povo”, e eu quase chorei, mas estava tentando arduamente acompanhar meus amigos. Se eu os perdesse, choraria por um motivo diferente.
De qualquer forma, meu ingresso de entrada era roxo e, enquanto olhava para ele, por um momento, pensei se a cor significava alguma coisa. Eu me lembrei de como o Reverendo Jerry Falwell ficou chateado com aquele Teletubby roxo, achando que o personagem era gay porque tinha uma bolsa e um triângulo na cabeça. Talvez roxo fosse um código? Quando chegamos ao portão roxo, o pessoal da segurança disse para nos apertarmos na frente da fila. Tentamos. No entanto, uma mulher na fila disse: “O fim da fila está lá embaixo! Chegamos aqui às duas da manhã!”. Então, com bravura, Lisa disse: “O segurança nos disse para virmos aqui e esperarmos. Estou com a Cyndi Lauper”. Aí outro cara gritou: “Pensei que todos deveríamos ser iguais aqui”. Eu queria ressaltar que eu estava com Thelma Houston e Rufus Wainwright e dizer: “É claro que somos iguais, mas não agora. E, aproveitando, você não quer conhecer Thelma Houston?”. Porém, eu sabia que essas coisas só eram engraçadas na TV, e não na vida real, então fiquei quieta e optei por não fazer minha imitação de Larry David.
Aí o portão da fila dos ingressos amarelos foi aberto. O portão da fila dos ingressos laranja foi aberto. Mas o portão da fila dos ingressos roxos, não. Ele nunca abria. Então decidi ir embora. Porém, havia tantas pessoas que quase não conseguíamos nos mexer. Finalmente conseguimos nadar no meio da multidão e voltar para o hotel.
Fomos tomar café da manhã e depois nos dirigimos para o ponto de encontro na HRC para assistir à posse. Muita gente estava chorando e eu também estava. Aretha cantou “America the Beautiful” com seu glorioso chapéu, e percebi que ela parecia estar com tanto frio quanto eu. Mas eu sabia que ela tinha que estar lá, porque ela estava lá com o Dr. King no Lincoln Memorial há muito tempo. Quando eu era criança, vi isso na TV. Porém, Rick Warren fazendo a prece realmente me deixou chocada. Quando ele começou a falar, minha cabeça foi para um antigo especial de TV a que eu costumava assistir com meu filho e meu marido na época de Natal, chamado Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho. Eu pensava: “Quem será que escreveu isso? E por que o Papai Noel está tão confuso?”. Rudolph e o pequeno elfo tinham sido expulsos da oficina do Papai Noel porque eram diferentes. Parece que o diferente sempre deixa todo mundo irritado. Então comecei a ouvir as palavras da minha amiga Rosie sendo repetidas na minha cabeça. Uma vez ela falou para mim em nosso camarim, quando estávamos em turnê: “Cyn, estamos na Ilha dos Brinquedos Desajustados”. É lá que Rudolph e o elfo vão parar antes de salvar o dia para o Papai Noel. Olhei ao meu redor na sala, para as pessoas assistindo, tão esperançosas, de braços dados. Não pude deixar de pensar que amor é amor e que talvez, algum dia, todos entendam isso.
Depois o Reverendo Joe Lowery falou e me lembrei de como, quando eu era criança, eu também o via com o Dr. King na TV. Senti em meu coração que esta deve ser a verdadeira prece. Esse reverendo parecia ser um bom exemplo. Ele pediu ao seu Deus para “nos ajudar a escolher a inclusão, não a exclusão... a tolerância, não a intolerância”. Eu estava grata porque, no fim das contas, uma voz de razão tinha sido colocada na mistura. Ele falou de forma direta e percebi que talvez eu devesse ver o contraste – que, para falar a sua verdade, você precisa vir de um lugar muito simples, sem fazer pose. Apenas ser simples e honesto.
Eu não podia acreditar que estava realmente vivendo isso. Pensei: “Talvez ‘The Age of Aquarius’, no fim das contas, não seja só uma música que alguém inventou. Acho que nunca devemos desistir de nós mesmos nem parar de levantar nossas vozes juntos quando acharmos que algo está errado”. Não precisamos concordar. Vivemos nos Estados Unidos e aqui estava a prova: em 20 de janeiro de 2009, conseguimos ver as palavras do Dr. King se tornarem verdadeiras. Ele disse: “O arco da história é longo, mas se inclina para a justiça”. Esse dia foi uma evidência de que um dia o arco se curvará com liberdade, em direção à justiça para todos nós.
Mas voltemos à True Colors Fund. Inspirados pelos jovens que conheci no Christopher Street Pier e por Colleen Jackson e pela True Colors Residence, sabíamos que nosso foco na True Colors Fund precisava se voltar para fazer de tudo para acabar com situação da juventude gay e transgênero que não tinha onde morar. Então, viajamos pelo país em 2011 e visitamos abrigos, centros de acolhimento e nos encontramos com jovens, líderes comunitários e muitas outras pessoas para descobrir qual era a real situação para esses jovens serem expulsos ou fugirem de casa devido a sua orientação sexual ou identidade de gênero. Vamos trabalhar para educar o público sobre o problema e engajá-los para chegarmos à solução, assim como fizemos com a campanha Give a Damn.
O que aprendemos nos surpreendeu e percebemos rapidamente que havia uma grande necessidade de uma voz nacional para tratar dessa questão, alguém cuja única missão seria se dirigir a jovens gays, lésbicas, bissexuais e transexuais sem moradia, alguém para ajudar a educar o público sobre o problema e engajá-los na busca de uma solução, alguém para ajudar a apoiar pessoas e organizações incríveis – abrigos, centros de atendimento etc. – que ajudam esses jovens no dia a dia, alguém que ajude essas pessoas a terem voz em Washington, DC, e também nos níveis estadual e local, e alguém para ajudar a garantir que os lugares onde esses jovens buscam ajuda sejam ambientes acolhedores – sejam eles suas próprias casas ou serviços sociais disponíveis para eles.
Há muito trabalho a ser feito e estamos comprometidos em fazer tudo o que pudermos através do nosso novo programa, Forty to None. Estima-se que até 40% de todos os jovens sem lar se identifiquem como gays, lésbicas, bissexuais ou transgênero, mas apenas de 3% a 5% da população geral de jovens se declara dessa forma. A disparidade é gritante e a principal razão é a rejeição familiar. Como mãe, não consigo me imaginar colocando meu filho na rua por motivo nenhum, muito menos devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero. Seria como arrancar um pedaço da minha alma. Então, estou começando uma nova jornada, para fazer tudo que puder para que essa porcentagem baixe de 40% para zero. Vai ser uma tarefa difícil, mas estou confiante de que seremos bem-sucedidos, especialmente se todos nos unirmos para fazê-lo.
3 Prefeito da cidade de Nova York entre 2002 e 2013.
“SEJA MUITO GRACE KELLY E
ENTRE NO CARRO MUITO KIM
NOVAK.”