Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 7 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 7

 

QUANDO CHEGOU A HORA DE ESCOLHER UM

DIRETOR PARA O CLIPE DE “GIRLS JUST Want to Have Fun”, eu tinha Edd Griles em mente. Gostei de como ele dirigiu o clipe “I Had a Love” da Blue Angel. Esse vídeo ganhou um prêmio no Festival Internacional de Cinema e Televisão de Nova York. E eu gostava dele porque era elegante, tinha senso de humor (isso era muito importante) e era visual. Por exemplo, quando filmamos o clipe “I Had a Love”, tive a ideia de meu namorado estar no vídeo e eu assistindo TV; então eu desligava a TV e minha saia passaria pela tela, levando você para outra cena. Coisas visuais como essas sempre passavam pela minha cabeça e às vezes era meio difícil fazer com que outras pessoas fizessem parte disso, mas eu e Edd estávamos em sincronia.

Ele estava aberto para fazer o clipe e, quando entrou no projeto, começamos a ter reuniões. Ele tinha o conceito de ter muitas garotas no clipe, como um musical de Busby Berkeley, que achei que seria ótimo (não tive tempo de escrever um tratamento porque na época estava fazendo bastante promoção para o álbum).

O que Edd fez e que foi tão especial foi ter a mente aberta para ver que o clipe inteiro era uma criação coletiva. As pessoas públicas geralmente veem as coisas como: “O crédito é todo meu ou o crédito é todo deles”. Isso não é verdade. O crédito não é só meu nem só deles: é nosso. O clipe foi feito com uma combinação de contribuições de todas as pessoas criativas do set – cenógrafo, estilistas, Edd, meus amigos, eu e Captain Lou Albano, o lutador que interpretou meu pai. Todos se sentiram livres para contribuir. Conheci Captain Lou quando estava na Blue Angel. Estávamos num voo voltando de Porto Rico. Originalmente queriam que o lutador Gorgeous George estivesse no vídeo, mas eu disse: “Não, Captain Lou é o cara”. Mantive contato com ele e tinha seu número, então Dave ligou para ele, que concordou de imediato. Quando eu estava na Blue Angel, tive uma ideia para um comercial de rádio engraçado com a voz de Tom Carvel, fundador de uma rede de sorveterias chamada Carvel’s. No entanto, não o conseguimos, então usamos Arnold Stang para o comercial de rádio e Captain Lou para o vídeo. O resto se tornou história do rock and roll. Lou era amável e meio que um personagem do rock and roll também. A banda NRBQ também o adorava. Ele era muito engraçado e fez toda a promoção de forma divertida. Ele era como um kahuna grande e maluco com suas camisas havaianas e sobrancelhas grossas. Ele era muito acima da média.

Edd não era apenas um diretor maravilhoso, mas também um ótimo professor. Ele me ensinou muito. Eu tinha ideias muito fortes sobre como o aspecto do clipe deveria ser e, principalmente, estava tentando ter certeza de que ele se movimentava com a música. E você não filma uma cena de dança sem mostrar os pés! Eu via isso o tempo todo. Fiz tantas perguntas durante nossas reuniões: “Como vai ser o apartamento? Qual vai ser a aparência da garota? Como é o quarto dela? Porque é preciso ter um certo visual”.

A estética que eu procurava era novamente a da Screaming Mimi’s. E é claro que Laura, a proprietária, estava arrumando minhas roupas para a filmagem. Essa loja me inspirou totalmente. Eu fazia compras por toda a cidade e sempre voltava para a Screaming Mimi’s porque ela tinha uma abordagem divertida da moda. Tinha humor, selvageria, sensualidade e também uma vibe de filme antigo. E sempre tive a sensação de ter nascido em um filme antigo. Para mim, todo o visual da Screaming Mimi’s não era só um estilo – era um movimento. E não era apenas o pessoal de lá. Havia um monte de gente na cidade que via a moda e a vida doméstica daquele jeito – uma reminiscência dos anos 1950, ainda uma coisa de Jackson Pollock, e algo moderno e de ponta em que você mistura elementos que nunca teriam sido misturados naquela época. Quando fizemos esse clipe, o estilo que apresentamos era atual, mas ainda underground. Esse visual era muito atraente em Nova York e na Inglaterra, mas não era grande na América Central.

Comecei a trabalhar com o diretor de arte – que estava fazendo os móveis e outras coisas. Eu queria que a cozinha ficasse bem anos 1950. Não podíamos comprar papel de parede – era uma filmagem de baixo orçamento – então levei uma toalha de mesa da Screaming Mimi’s, que tinha um padrão de que eu gostava, e o diretor de arte pintou as paredes daquele jeito. Também encontrei móveis para o quarto e os pintei com tinta brilhante. Eu gostaria de poder encontrar esses móveis agora. Acho que está no guarda-móveis.

Eu realmente via o meu trabalho como uma espécie de movimento social, e não só quando se tratava dos aspectos visuais. Quando pedi para minha mãe participar do vídeo, eu disse: “Mãe, pense no que isso pode significar se você estiver envolvida – você e eu faremos com que ser amiga da sua mãe seja algo popular”. Eu disse a ela que não conseguiríamos pagar um monte de figurantes, e ela disse: “É claro que vou te ajudar, Cyndi. O que você quer que eu faça? Não sou atriz de verdade”. Eu disse: “Ma, vamos nos divertir juntas, isso é tudo”. Então Laura a vestiu, arrumaram o cabelo dela para cima, colocaram um pouco de maquiagem nela. No set, ela se sentou na mesa da cozinha e não sabia o que fazer. Edd disse: “Talvez, quando você estiver na mesa quebrando ovos, você devesse pegar o ovo e batê-lo no peito, como se estivesse fazendo um mea culpa”. Então, depois que eu entro e canto: “We’re not the fortunate ones” [“Não somos os afortunados”], ela pega o ovo e quebra no peito como Edd disse e percebe que é isso. É tudo que ela precisava fazer.

Minha mãe ficou bastante assustada com Captain Lou. Quando estava conversando com ela durante as filmagens, ele a confrontava de verdade, e você podia vê-la meio que encostada na parede, mas era muito engraçado. Minha mãe é uma boa perdedora. Quando tinha 80 anos, ela chegou a trabalhar no reality show The Celebrity Apprentice. Havia algo nela no vídeo que era muito vulnerável. Ela não era atriz, mas tinha essa presença encantadora que era bastante afetuosa. Sei que é minha mãe, mas ela parecia ter saído de um filme italiano ou a mulher do filme francês Meu tio, de 1950.

Filmamos no verão em um lugar chamado Mother’s, um estúdio no East Village. Mais uma vez não tínhamos um grande orçamento, então todos abrimos nossos guarda-roupas, compartilhamos todas as nossas roupas e conseguimos que um monte de amigos e familiares meus estivessem no clipe. Estão todos lá, exceto minha irmã, Elen, que estava em Los Angeles, e meu primo Vinny. A generosidade de todos fez com que o clipe ficasse pronto. Estávamos todos juntos nisso. Meus vídeos ficavam quase como filmes caseiros de amigos e familiares meus. Lembro que conseguimos que todos os esteticistas do Vidal Sassoon estivessem lá também. Não o próprio Vidal, mas todos os outros foram, incluindo um rapaz realmente talentoso chamado Justin Ware, que fez meu cabelo para as filmagens. Eu conhecia todo mundo no Vidal Sassoon porque fui modelo de cabelo lá por muito tempo. Em 1975 ou 1976, era o “point” e eles faziam demonstrações no meu cabelo. Todo mundo estava fazendo todos os tipos de coisas loucas e criativas naquela época e tinha o cabelo absolutamente incrível. Você entrava e via alguém com o cabelo tingido como um gato malhado e dizia: “Cara, isso é muito incrível – como eles fizeram isso?”. Os penteados eram peças de arte. Como você pode imaginar, houve muita experimentação no meu cabelo. Nos anos 1970, eu tinha um tipo de corte ao estilo Suzi Quatro. Meu cabelo era castanho, coloriram de ruivo atrás e loiro na frente. Adorei.

Eles ansiavam por pessoas do rock and roll como eu, que queriam cortes de cabelo experimentais. Discutiriam isso com você e diriam: “Que tal tingi-lo de preto só nas pontas?”. E você diria: “Sim, sim, isso é bom”. Uma vez eu disse a Justin para cortar meu cabelo curto de um lado e deixar gradualmente longo do outro, porque havia uma foto de Mamie Van Doren na parede da Screaming Mimi’s, com o cabelo preso de um lado. Pensei: “Por que prender quando você pode simplesmente cortá-lo?”.

Então tivemos as esteticistas de Vidal Sassoon, algumas secretárias da Epic, as garotas da loja de Laura, Myra, do lugar japonês onde trabalhei, e uma garota negra que contratamos que tinha um look maravilhoso com seus dreads. Era muito importante para mim que todas as garotas estivessem representadas – garotas hispânicas, garotas afro-americanas. Falei para o Edd que precisávamos ter pessoas multirraciais também. Naquela época, as pessoas que apareciam em clipes eram todas brancas ou todas negras. Pensei: “Quer saber? É isso que está faltando. Vamos lá”. Ainda não havia tanta integração como deveria haver, mas sinto que muitas garotas que viram o clipe viram a si mesmas, e isso foi o mais importante. Desde que chegasse a elas, eu não me importava mais.

Tantas pessoas apareceram para essa filmagem! Foi extraordinário. Meu irmão, Butch, interpretou o entregador de pizza. Joe Zynsczak, meu empresário junto com Dave, foi o garçom no quarto. Eu tinha uma amiga chamada Bonnie Ross, que era enfermeira, e ela estava lá vestida com seu uniforme (Bonnie era descendente direta de Betsy Ross e costumava me dizer que havia uma sensação horrível em sua família de que Betsy poderia ter dormido com George Washington para conseguir o trabalho). Sabe o homem com o bigode handlebar? Era meu advogado, Elliot Hoffman. Edd disse: “E se a gente conseguir Steve Forbert para ser seu namorado?”. Eu disse: “Adoro Steve Forbert”. Então, lá está Steve Forbert segurando flores. Estão todos naquele maldito quarto.

A filmagem aconteceu durante um longo dia e depois se transformou numa festa. Acordamos muito cedo para nossa primeira tomada no Metropolitan Museum. Ficamos em frente à fonte porque deveria parecer uma produção de Busby Berkeley. Então estávamos todos alinhados. Francis, o cinegrafista, usava um Steadicam que ele tinha, e peguei todos os meus óculos de sol que eu consegui na Screaming Mimi’s ao longo dos anos e os distribuí, e todos usaram. E essa é a tomada. Eu estava feliz porque todo mundo parecia jovem e meio badalado. Também levei toda minha maquiagem para as filmagens, e acabei ficando com conjuntivite porque todo mundo compartilhou tudo.

Até meu cachorro aparece no começo do clipe – Rick Chertoff está andando com ele enquanto estou dançando na rua. Para essa parte, me inspirei em uma cena num filme de Sophia Loren em que ela vem dançando na rua, em Nápoles, à luz do amanhecer, segurando os sapatos no ombro. Então tive que encontrar a rua certa. Desci pela West Village, onde haveria ruas de paralelepípedos, como no filme, e encontrei uma rua com uma grande profundidade de campo porque tinha curvaturas. Ela se chamava Gay Street, por incrível que pareça.

Depois, para uma cena posterior no clipe, Edd me disse para conduzir todo mundo rua abaixo. Eu disse: “O que devo fazer, cancã?” (engraçado, meio que fiz um cancã mesmo). Éramos eu e esse tipo de fauna heterogênea. Quero dizer, as garotas eram bonitas, mas ainda eram heterogêneas, apesar de termos adotado uma abordagem glamorosa para a coisa toda. Havia garotas radicais se comportando como queridinhas da América no filme Ziegfeld Follies. Edd disse: “Continue conduzindo todo mundo pela cidade até chegar em casa, então sua pobre mãe tem que lidar com todas essas pessoas perambulando para chegar ao seu quarto”. Seria como o filme dos Irmãos Marx, Uma noite na ópera, em que todo mundo continua entrando no quarto, até que o Captain Lou abre a porta e todos caem – acho que isso foi ideia de Dave Wolff. Ou de Edd? Ou pode ter sido do amigo de Dave, Johann, que também estava no clipe. Dave tinha sua própria linguagem e ligou para seu amigo Johann Von Bep Bep. Seu primeiro nome era Johann mesmo, mas não tenho ideia de seu verdadeiro sobrenome.

Depois que terminamos de filmar, Edd foi gentil o suficiente para me deixar participar da edição, o que eu realmente queria fazer. Então ele me mostrou a primeira edição e eu disse: “Espere um minuto – onde estão todas as outras cenas? Elas não estão aqui”. Ele me disse que a editora, Pam, havia cortado algumas cenas, mas se eu quisesse adicionar ou mudar as coisas, eu deveria falar com ela e pegá-las. Tenho uma boa memória visual (especialmente com roupas) e coloquei a bunda na cadeira para fazer certas coisas. Literalmente me sentei com Pam e fui tirando as tiras de filme de um recipiente. Mudei algumas tomadas com ela e, de repente, o vídeo estava se movimentando melhor. Edd disse: “Acho que você deveria ficar aqui com ela”. De repente, eu estava aprendendo a editar. Só fiz isso porque queria que meu clipe se movimentasse do jeito que deveria, porque tinha a ver com música – e de música eu sei.

Edd estava procurando algum tipo de efeito especial. Sendo assim, no estúdio de efeitos especiais da Broadway Video me mostraram uma técnica em que você tira uma foto e meio que a embrulha em uma bola. Isso me dava a impressão de que cada garota estaria em seu próprio baile – novamente, um tipo de efeito de Busby Berkeley. Mas esse não era o efeito – só tínhamos uma certa quantia de dinheiro, então fariam pequenos círculos com filmagens aleatórias. Eu disse: “Que diabos essa bola pode fazer? Pode pular? Quanto custa isso?”, ele disse que custaria o mesmo, então ele fez com que ela pulasse e eu disse: “Faça com que ela pule no tempo da música”.

Não tínhamos orçamento para fazer o tipo de coisa que Busby Berkeley faria – precisaríamos de uma grua sobre nós para filmar de cima, enquanto todos deitaríamos no chão e nos movimentaríamos do jeito que eles faziam naqueles musicais. Foi o que Macy Gray fez em seu clipe “Beauty in the World” – estavam todos em um círculo segurando círculos cor-de-rosa e ela no meio. É um aspecto visual muito forte, mas você também tem que descobrir essas coisas com antecedência, e estávamos com pressa.

Adorei a parte em que está passando a versão muda de O Corcunda de Notre-Dame e estou cantando, “Some boys take a beautiful girl and hide her away...” [Alguns homens ficam com uma linda garota e a escondem...]. É claro que é Quasimodo levando Esmeralda para a torre nesse momento, o que é muito engraçado. E, pela forma como o vídeo foi editado, parecia que Quasimodo estava acenando com o braço no ritmo e cantando a música também, o que era ainda mais engraçado.

Havia muitos fragmentos de coisas diferentes que me influenciaram. Quando pego o telefone de ponta-cabeça e depois o viro, é porque vi um trecho de David Bowie em algum lugar e ele usava um fone de cabeça para baixo e depois o virava do lado certo. Pensei: “Sim, é uma boa ideia”. E amo o cineasta francês Jacques Tati (se não souber quem ele é, você precisa ver Meu tio ou As férias do sr. Hulot); também há elementos de seu estilo ali. Eu costumava assistir muito ao canal 13, a emissora de TV pública de Nova York, porque adorava filmes antigos e nesse canal passavam muitos deles, como Meu tio. Como eu era estudante de arte, conhecia a forma de estudar os mestres. Primeiro você precisa saber o que foi, para depois saber o que pode ser.

As pessoas acham que “Girls Just Want to Have Fun” foi um grande sucesso de imediato, mas não foi. A MTV a exibiu um pouco no começo, mas não muito. Quando foi para a rádio, só recebeu sete acréscimos em duas semanas, o que significa que apenas sete estações de rádio tocaram a música em todo o país. Recebi uma carta de um poderoso programador de rádio dos Estados Unidos que disse que o disco nunca seria grande porque eu cantava muito alto. Ele ofereceu uma reunião comigo e com Dave, para que pudéssemos discutir minhas opções de carreira. Porém, Dave olhou para a carta e decidiu elaborar uma ideia diferente. Ele disse: “Vamos fazer o seguinte, vamos começar a assistir a shows de luta livre. Vou chamar um cara chamado Vince McMahon e propor uma promoção cruzada, e vamos começar fazendo coisas com Captain Lou”. E foi assim que meu disco realmente começou a decolar.

Era o sonho de Dave fazer algo assim. Quero dizer, esse era o cara que organizava reuniões de imprensa daquela forma ridícula, quando fazia aquela coisa do Human Fly, usando um sotaque franco-canadense horrível. Dave foi um pioneiro da promoção cruzada. Ele me explicou isso da seguinte forma: havia três shows de luta livre todo fim de semana, sexta à noite, sábado de manhã e sábado à noite. Se passassem meus videoclipes nos três shows, que tinham uma grande plateia, muitas pessoas os veriam. Então eu disse que tudo bem.

Sendo assim, começaram a sair fotos publicitárias de mim e Dave nos eventos de luta, saudando os lutadores e vaiando os vilões. Além disso, mostravam partes do meu clipe antes dos intervalos comerciais. Mas ele também inventou esquetes com Captain Lou e eu, exibidos durante o show.

Sabe aqueles filmes de praia dos anos 1960 que tinham personagens cômicos ridículos – como nos filmes para adolescentes de Frankie Avalon e Annette Funicello em que havia um motociclista chamado Eric Von Zipper? E as pessoas caretas do filme se perguntavam: “Que diabos são essas pessoas?”. Bom, esses personagens cômicos tiveram muita influência em tudo que fiz. Então, junto ao Captain Lou e aos lutadores, minha mãe se tornou uma personagem e eu a vestia como uma mulher excêntrica, sexy e maluca com óculos de sol pontudos e um robe chinês, além de uma longa piteira, sapatos de salto com pompom na ponta e calça cigarrete.

Pensei que deveríamos começar a fazer coisas assim porque era engraçado, e também porque toda vez que você via artistas, eles tentavam falar sobre seu trabalho e sua música e isso pode ser chato pra burro. O mesmo acontece quando estou lá e tento explicar meu trabalho – deve ser muito chato. O importante é o resultado final: é divertido? Então pensei: quão hilário seria se meu “conselheiro espiritual”, Captain Lou, no papel de maluco, simplesmente falasse coisas sem sentido?

Então, quando fizesse a promoção, eu teria meu “conselheiro espiritual” ali, com dois gigantes samoanos em pé atrás dele. E ele lançaria o princípio P-E-G [Politeness, Etiquette, Good Grooming]: educação, etiqueta e boa aparência, algo que ele, como empresário, ensinou a esses dois homens. Era uma imitação de uma cena muito familiar na promoção da luta livre da velha guarda – há um tipo de empresário maluco com um cara grande e estúpido balançando a cabeça ao fundo. Costumávamos pensar: “Isso é brilhante e certeiro”. Também foi improvisação, baby!

Depois as coisas começaram a melhorar com o álbum. Lembro que consegui ir ao programa do David Letterman bem rápido. Na época, ele era novo e seu programa era à 00h30min. Eu também era nova e engraçada – isso era tudo que todas as pessoas que agendaram a participação sabiam. Na época, Dave passava um pequeno trecho do seu clipe e depois deixava você falar. Então, quando cheguei, decidi colocar meu pé em cima da poltrona, de forma irreverente e confortável.

Eu realmente não estava nervosa. Estava pronta. Dave foi tão engraçado quando começou a falar comigo, então me diverti com ele. Ele perguntou sobre minha mãe, e eu disse a ele que costumávamos ter alguns peixes de estimação, e um deles pegou fungo e tinha um tumor, então minha mãe decidiu operá-lo. Ela pegou uma tesoura de cutícula, esterilizou-a e tudo mais. Então ela colocou o peixe para fora, manteve-o molhado e tirou o tumor, depois o pintou com mercurocromo e o colocou de volta no aquário.

O peixe sobreviveu. Dave disse: “Então sua mãe é uma médica de peixes”. Eu disse que sim. Infelizmente, o que aconteceu foi que nossos peixes eram peixes de briga siameses e, quando minha mãe colocou a fêmea de volta no aquário com os outros, um macho a matou. Minha mãe ficou tão chateada que tirou o peixe macho com a rede, colocou-o no chão e disse: “Peixe mau, peixe mau!” e bateu nele um pouco com a rede. Infelizmente, isso cortou sua cauda. Aí ela tentou colocá-lo de volta na água porque não queria que ele morresse. Foi algo terrível, mas você não pode tirar um peixe do aquário e bater nele. A história ficou tão louca que Paul Shaffer começou a entrar nela... foi muito engraçado.

Assim, Letterman foi a primeira aventura, depois a gravadora percebeu que tinha alguma coisa. Até que eu aparecesse, nunca entenderam como juntar moda (bem, minha versão) e humor com música. A música tinha se tornado um meio visual, então Dave Wolff e eu criamos esse mundo que trazíamos conosco quando marcávamos presença ou aparecíamos na imprensa, o que é muito mais intrigante e interessante, na minha opinião. Minha mãe se tornou uma personagem regular na minha comitiva e criou um nome artístico: Catrine Dominique. Como eu disse antes, ela gostava de tudo que era francês.

E sempre havia Captain Lou tagarelando sobre alguma coisa, então eu entrava e tudo ficava idiota. Captain Lou ficou famoso em todo o mundo porque estava em vídeos como “Girls Just Want to Have Fun”, “She Bop” e “The Goonies ‘R’ Good Enough”. Nós estávamos transitando em uma linha tênue entre ganhar respeito e não sermos levados a sério, mas ainda assim foi muito divertido. Eu pensava: “Quem se importa se pensam que sou uma boa cantora ou não? Eu sou uma boa cantora”. Quando cantei “Girls Just Want to Have Fun” e voltei com “Time After Time”, provei que é possível fazer rock, ser uma boa cantora e compositora, mas também usar humor.

Dave Wolff fez um acordo com Vince McMahon de que, se ele continuasse a passar meus clipes em seus shows, eu iria para Johnny Carson e promoveria a luta livre. Foi o que fizemos. E quer saber? Funcionou. Johnny Carson foi importante para mim. Mesmo que ele sempre me chamasse de Sydney e nunca de Cyndi. Mas, bom, era Johnny Carson, e esse era o apelido que ele tinha me dado, o que era legal. Quando fui pela primeira vez em seu programa, usei a saia longa e brilhante que havia usado no clipe de “Time After Time” e uma camisa com estampa havaiana amarela e ferrugem maravilhosa que eu adorava (ainda tenho essa camisa), amarrei tule em volta da minha cabeça e fiz um laço. Primeiro vi aquele tule em um manequim chamado Esther na Screaming Mimi’s. Meu amigo Biff Chandler, sócio de Laura na Screaming Mimi’s, teve essa ideia (infelizmente, ele morreu de Aids nos anos 1990. Naquela época, estávamos perdendo muitos visionários para essa doença). Todos os manequins tinham nomes. Pensei: “Uau, esse tule é bom” (meu cabelo nunca estava com volume suficiente; sempre sentia que era uma pessoa pequena). Levei óculos de sol para Johnny. Ele me disse: “Você se veste de um jeito incomum”. Eu disse: “Sério? Não vejo isso dessa forma. Acho que você se veste de um jeito incomum”.

A conexão com a luta livre continuou crescendo a ponto de os executivos da gravadora estarem nela. Fui avisada de que poderia lutar com Lou na parte de “Rowdy” Roddy Piper, porque ele estava dizendo um monte de coisas que eu não gostava, mas eu disse que, mesmo que estivéssemos lutando, eu ainda queria promover a liberação das mulheres de alguma forma. Dave Wolff disse: “Apenas peça para ele dizer que as mulheres devem permanecer descalças e grávidas na cozinha, aí promoveremos uma luta com as mulheres lutadoras”. Então levaram a Fabulous Moolah (sempre fiquei triste por nunca ter realmente conhecido Moolah, que morreu alguns anos atrás, como gostaria, porque ela era incrível).

Então, quando Captain Lou disse aquilo sobre estar descalça e grávida, surtei no show. Virei uma mesa e puxei a barba de Lou e bati na cabeça dele com uma bolsa. Mas mostraram um trecho no Entertainment Tonight como se fosse real! Eu estava assistindo ao programa com Dave Wolff, ficamos rindo e dizendo: “Como vocês não conseguem ver o humor? É tão ridículo”. Foi engraçado. Mas minha amiga Rose me ligou e disse: “Cyn, quando você surtou daquele jeito, as pessoas viram você irritada”. Ela estava preocupada.

Trabalhar com Vince McMahon era muito diferente para nós. Tornou-se desafiador às vezes porque estava tomando muito tempo da produção musical. Mas fizemos muitas coisas realmente divertidas que deixaram sua marca na luta livre, em Dave Wolff e em mim. Quando estávamos lá, Dave parecia uma criancinha. Se você conversar com qualquer um que trabalhe com luta livre profissional, verá o mesmo olhar infantil em seus olhos. Foi algo que pude compartilhar com Dave Wolff.

Enquanto tudo isso acontecia, estávamos nos preparando para fazer o clipe de “Time After Time”, o segundo single. Edd estava na direção de novo e conseguiu um roteirista para escrevê-lo. Mudei algumas coisas de que não gostei, o que todo mundo faz, e disse: “Quero a minha mãe, e quero o fantasma da mãe dela para assombrá-la”. Dave também estaria no clipe (ele queria estar no clipe – gostava de ser o centro das atenções), e eu queria fazer algo que realmente o surpreendesse. Então cortei meu cabelo e raspei num padrão quadriculado, e não deixei que ele visse. Quando tirei meu chapéu naquela cena no restaurante, era ele enlouquecendo de verdade.

Era importante para mim que nós fôssemos naturais e humanos nesse clipe. Eu queria transmitir a ideia de alguém seguindo seu próprio caminho e nem sempre se dando bem com todos e que nem sempre se casasse com o cara. No fim do clipe, quando entro no trem e aceno para Dave, Edd disse: “Ok, você vai olhar pela janela, dando tchau, e vai ter uma lágrima escorrendo pelo seu rosto”. Eu disse: “Você está louco? Pareço quem, Bette Davis?”. Mas, para minha surpresa, consegui chorar. Enquanto filmava a cena que levava a isso, quando estou carregando a mochila, pensei em quando estava pedindo carona em Vermont. Tudo que eu tinha era uma mochila pequena. E tudo que eu tinha estava nela. Eu me perguntei se eu ficaria bem – se seria capaz de fazer me tornar alguma coisa. Então voltei ao momento presente de filmar esse clipe para uma música que escrevi depois de ter “chegado lá” – e, mais importante, sobrevivi. Esse foi o pensamento que me levou às lágrimas.

Para transmitir a tristeza dessa pessoa deixando sua antiga vida para começar uma nova – sem ninguém, tomando seu próprio rumo –, pensei que poderíamos mostrar um filme antigo que transmitia um clima de perda e falei para Edd: “Conheço um filme realmente divertido – O Jardim de Allah, com Marlene Dietrich e Charles Boyer”. E novamente contamos com Biff e Laura da Screaming Mimi’s para ajudar com a decoração da casa e das cenas do trailer, tão importante quanto a moda das roupas. Porque, apenas para lembrar, você não apenas veste a moda, você a vive. E um clipe é meu disco, visualmente falando. Não pode ser apenas do espaço exterior. Eu queria um som e um visual que funcionassem juntos. O que rapidamente se tornou uma chatice para as pessoas corporativas e empresários, porque eles só queriam que eu fizesse toda a promoção e que outra pessoa fizesse o restante. Mas isso não era para mim. Tenho certeza de que achavam que eu era algum tipo de maníaca por controle, mas para mim era arte performática. Eu estava criando um mundo – e uma vida e pessoas nesse mundo. O trailer da Airstream na cena inicial estava no meio do nada em Nova Jersey e, sem que soubéssemos, havia cocô de cachorro por toda parte, porque o dono tinha cachorros. Quando Dave teve que correr atrás de mim, ele estava pisando em cocô de cachorro.

Outra coisa sobre esse clipe é que, mesmo que a cidade pareça desolada, algumas milhares de pessoas encheram as ruas, ficaram lá nos observando. Isso foi um grande choque. Se a câmera se movesse de um lado para o outro, você não teria acreditado. E não tínhamos seguranças – nunca nos passou pela cabeça que precisávamos disso.

Então fui trabalhar na edição novamente, mas desta vez com um editor brilhante que Edd conseguiu. Seu nome era Norman Smith e ele costumava editar para Robert Altman. Com esse homem aprendi bastante. Naquela época, você tinha dois rolos de filme e usava lâminas de barbear para cortar e juntar – a edição não era feita em um computador. Às vezes demorava muito tempo, e todo mundo dizia: “Tem tanta coisa acontecendo com você, por que você precisa fazer isso?”. No entanto, eu adorava essa parte visual e amava a coisa toda do filme musical, e eu via a possibilidade de o filme se mover como música.

“Time After Time” ficou em primeiro lugar na parada de singles em junho de 1984. E eis a questão: eu nunca tinha tido filtro antes de ser famosa, e também não tive filtro depois. Eu realmente deveria ter ficado quieta às vezes. Mas é claro que nunca fiz isso. Quero dizer, olha: não sou a Santa Cyndi. Eu costumava dizer que eu era a Santa Cyndi das Fezes, porque onde quer que a merda caísse, eu estava lá.

“EU ENTRAVA EM UM EVENTO

E AS PESSOAS GRITAVAM

PARA MIM DO JEITO QUE EU

COSTUMAVA GRITAR PARA OS

BEATLES.”