Cyndi, minha história
Capítulo 11
O ANEL DE NOIVADO QUE DAVE ME DEU ERA
UM DIAMANTE AMARELO-CANÁRIO. Guardei esse anel por um longo tempo, mas poderia muito bem ter sido apenas um relógio de ouro por dez anos de serviços prestados. Dave não se casaria. Eu queria a cerca de estacas, queria um piano na sala de estar, todos reunidos nas férias com cães e gatos, tocando música, cantando, rindo, comendo, bebendo. Mesmo sendo um tipo de fantasia, eu queria isso.
Dave e eu conversávamos sobre nosso futuro juntos, e ele não dizia exatamente que não queria. Ele sempre dizia: “Um dia vamos ter isso” e “Um dia vamos ter aquilo”. Lembro-me de que, quando ele disse isso uma vez, olhei para ele e pensei: “Um dia? Que tal agora?”, e comecei a pensar em ter um filho. Três gerações de pessoas iam aos meus shows, e as crianças pequenas iam vestidas como aquela garota punk do clipe da Art of Noise que mencionei antes. Eu as via e pensava: “Olhe para elas, elas vão crescer ouvindo a minha música. De certa forma, eu as estou criando. Então por que não posso ter meu próprio filho?”.
No entanto, Dave não tinha interesse, porque como viveríamos nosso estilo de vida enquanto eu estivesse grávida? Além disso, eu não era famosa antes dos 30 anos, então eu era mais velha, o que poderia ocasionar alguns problemas (a mãe dele sempre dizia isso a ele). E sabe Deus o que mais ele escondia em mente. Ele amava quando entrávamos e saíamos de limusines e éramos “o casal”.
Bem, era isso que ele amava em público. Em casa, ele jogava videogame o tempo todo e me deixava de fora. Ele precisava relaxar porque o trabalho era uma panela de pressão e estava preso entre uma mulher que queria as coisas à sua maneira e uma gravadora que trocava apertos de mãos com os maiores machos sexistas do mundo, que se casavam com mulheres-troféu – mulheres que calam a boca porque homens são reis.
Durante o fim dos anos 1980, todos esses homens poderosos pareciam totalmente descontrolados. Muitos deles usavam cocaína e todos eram sexistas. Era realmente foda e tive dificuldade para lidar com essa merda. Eu estava cercada por isso, cercada por homens. Fiquei doente novamente e precisei de outra operação.
Eu não me encaixava mais na Sony, e Dave e eu também não estávamos nos ajustando. Eu chorava o tempo todo porque não conseguia acreditar como tínhamos nos distanciado. E a gravadora o estava torturando. Eles diziam: “Você é o homem da casa – você diz a ela o que fazer”. Como se disessem: “Você é o homem da casa, por que não consegue controlá-la?”. Soube que era o fim quando eu e ele estávamos tendo uma briga e ele disse: “Eles estão certos. Você não deve tomar suas próprias decisões”. Naquele momento, eu era uma mulher famosa. Olhei para ele e pensei: “Resposta errada!”. Mas apenas disse: “Ok, é isso”. Foi a coisa mais triste do mundo para mim, porque eu o amava. Aqueles caras da gravadora que ficavam interferindo nos separaram – eram apenas porcos, grosseirões com correntes de ouro e pelos saindo de suas malditas camisas, sapatos brancos e aquelas calças de golfe de merda – tudo errado, entende o que quero dizer?
A separação de Dave levou muito tempo. Meu relacionamento e meu trabalho tinham sido tudo para mim, e sempre pensei que, se eu tentasse com mais afinco, poderia superar o problema. A verdade é que não dava para superar isso com trabalho duro; era profundo demais. Enquanto isso, a Sony estava fungando no meu cangote. Originalmente, eu queria que meu terceiro álbum fosse um projeto chamado Kindred Spirit, inspirado em uma gravação antiga. Essa gravação fazia você se sentir como se estivesse entrando em outro tempo. Fiquei muito interessada no outro mundo (sendo o tempo algo de textura elástica, de qualquer forma). Eu queria criar o mesmo tipo de sensação no meu disco, por isso a música “Kindred Spirit”, que entrou no álbum, tinha aquele som arranhado antigo. Toquei um dulcimer (que aprendi a tocar sozinha) e minha voz soou como se fosse de outro tempo também.
Eu queria que o álbum se chamasse Kindred Spirit, porque todas aquelas gravações antigas eram de espíritos afins. Mas a gravadora, grande surpresa, estava mais interessada no lado comercial do que na arte. Há um jeito de misturar as duas coisas, mas nunca fiz isso do jeito certo. Pensava apenas na arte e na magia da música.
Então eles trocaram os diretores da gravadora novamente. O rapaz novo adorava Diane Warren, que escreveu muitos sucessos, como “If I Could Turn Back Time” para Cher e “I Get Weak” para Belinda Carlisle. Ela havia originalmente escrito uma música chamada “I Don’t Want to Be Your Friend” para a Heart, e trouxeram para mim. Mas eu não queria cantar como a Heart. Como eu disse, eu não estava mais numa banda cover. Então eu a peguei, baixei o tom e, com o músico de zydeco Rockin’ Dopsie tocando gaita-ponto, fiz uma marcha cajun. Também consegui que Baghiti Khumalo, o baixista sul-africano que trabalhou com Paul Simon, tocasse naquela faixa, então ela tinha uma espécie de som “jazz-funeral” de Nova Orleans. E Phil Ramone me ajudou a produzir essa faixa (acho que é uma versão bonita, mas, aparentemente, Diane ligou para a gravadora depois e reclamou de forma amarga sobre isso).
No fim dos anos 1980, o cara do departamento de Artistas e Repertório era o gênio, não o artista. Como o álbum não era criação deles e eu não estava fazendo exatamente o que aqueles idiotas queriam, estava errado. Lennie e Eric Thorngren, o coitado que estava produzindo e arranjando algumas das faixas comigo, ficavam olhando para mim e dizendo: “Cyn, o que há de errado com você? Você é o Vinnie van Gogh do rock, faça suas coisas, não os escute, vamos lá!”. Porém, eu estava tão acostumada a ser um bom soldado que não sabia quando dar um basta (isso acontece ainda hoje).
Em um determinado momento, alguns executivos da Sony até vieram do Japão para se encontrar comigo. Eles me levaram para jantar e disseram: “Cyndi, acreditamos em você e queremos que você faça música novamente”. Mas ninguém em Nova York disse isso para mim. Não havia comunicação. Então tentei um álbum mais comercial e fiz A Night to Remember em 1989, que chamo de A Night to Forget, pois era um daqueles álbuns condenados à ruína porque a gravadora estava mudando novamente. Então Lennie caiu em seu barco, quebrou a perna e estava no hospital. Depois disso, ele deixou a empresa, o que foi devastador para mim. Então precisei lidar com os novos chefes de estado. Eu não conseguia agradar o novo cara do departamento de Artistas e Repertório. Não importa o que eu tocasse para ele, ele dizia: “Isso é bom para os ouvidos”. Nunca: “Oh, essa é uma boa música” ou “Isso é cativante”. Eu pensava: “Foda-se você e seu ouvido”. Tive vontade de dizer para todos eles: “Parem de encher o saco”. E nesse tempo todo eu estava me separando de Dave.
Eu deveria ter saído quando o executivo musical perguntou: “O que você está vestindo?”. Ele estava em seu mundinho particular. Queriam que eu me conformasse e, infelizmente, contrataram uma inconformista. Não dá para pegar uma galinha e transformá-la num pato. O mundo corporativo estava acima de tudo e é por isso que a música foi para o brejo. Se você olhar para a música no início dos anos 1980, era algo criado por artistas. Assim como os looks. A empresa não disse para os integrantes da Flock of Seagulls: “Por que vocês não usam o cabelo assim?”. Isso veio da banda.
No estúdio, eu estava presa a um cara que Lennie havia contratado, um completo alcoólatra. Era tão horrível que até os músicos olhavam para mim e diziam: “Cyn, esse cara está bebendo às dez da manhã”. E eu não conseguia que ele fizesse nada porque ele tinha suas próprias opiniões. A certa altura, ele estava falando sobre o som de algo e disse: “Só é um pouco ruim”. Grande surpresa que fiquei ofendida com isso. Pensei: “Quer saber? Estou pagando para você colaborar comigo, e eu não quero que fale comigo desse jeito”. Enquanto eu estava tentando gravar o disco, a equipe de promoção estava dentro do estúdio. Imagine ter a equipe de promoção informando o que você deve fazer enquanto você está tentando fazer música! O ambiente ficou tão ruim que precisei parar a produção. Eu tinha ouvido falar sobre um evento na Rússia, uma espécie de conferência de escrita entre compositores russos e americanos, então decidi ir.
Em 1989 a União Soviética era um lugar muito diferente do que a Rússia é hoje. Levei água engarrafada e papel higiênico. Também fui cuidadosa ao sentar nos vasos sanitários, porque o vaso tinha um tamanho e o assento sanitário, outro. Parecia que eu estava sendo espionada o tempo todo, então eu tentava ficar bem quando entrava na banheira do American Hotel, onde fiquei. Lembro que perdi algo, talvez uma joia, e não consegui encontrá-la, então eu disse em voz alta: “Onde está? Sei que alguém pegou. Estava bem aqui”. Mais tarde, depois que as faxineiras vieram, o que eu tinha perdido estava na minha cama. Foi assim que eu soube que tudo estava grampeado.
A Rússia era um lugar estranho, porque era muito difícil fazer o que você adorava fazer. As pessoas só queriam criar, mas, naquele momento, era contra a lei fazer um clipe (e alguns desses músicos estavam morrendo de vontade de fazer clipes). Havia muitas bandas underground fantásticas.
Dave Wolff ainda era meu empresário, então ele foi comigo, embora não estivéssemos mais juntos. No entanto, ele não apareceu quando alguns de nós fizemos uma viagem no trem da meia-noite para Leningrado e acabamos ficando perto de um cara italiano de Jersey. Laura Wills, minha estilista e amiga da Screaming Mimi’s, estava comigo e começou a chamá-lo de “French Fry”, então eu o chamava dessa forma também e o apelido ficou. Estávamos todos muito à vontade, porque éramos todos artistas e é assim que artistas são. De todo jeito, o French Fry era muito engraçado. Ele tinha marcas no rosto, mas havia retocado essas marcas em seu passaporte. Ele me fazia rir, e uma coisa levou a outra e tivemos um pequeno caso. Enquanto eu estava fazendo isso, todo mundo estava tendo seus pequenos momentos de paquera também. (Diane Warren estava na viagem e, mesmo estando brava com ela por ela ter falado mal da minha versão de “I Don’t Want to Be Your Friend”, preciso dizer, ela era engraçada e estava atrás do cara do Serviço Secreto. Ela o achou bonitinho.) Também conheci um cara russo, Igor, que era ótimo. Ele me levou a todos os lugares para passear e Laura estava sempre procurando por mim (David fez com que ela ficasse responsável por mim). Acho que Igor tinha uma queda por mim. Eu me lembro de ter levado comida de uma loja de alimentos saudáveis de casa e Laura disse: “Não tem comida aqui e você traz comida que tem gosto de terra?”. O que era verdade – eu tinha levado comida com gosto de terra. Na Rússia você podia escolher entre carne desconhecida em gelatina ou caviar, que deixava a língua inchada, mas para eles essa era uma comida muito cara. Veja bem, eles nos deram o melhor que tinham. Esses homens grandes e corpulentos eram muito gentis comigo, mesmo não estando acostumados com mulheres fazendo esse tipo de trabalho. Não havia muita água potável, então eles ficavam me dizendo: “Beba isso. Vodca”.
Fiquei lá por duas semanas e a viagem me acordou um pouco. Tive um momento de clareza quando estava naquele trem. Eu estava muito, muito solitária e Dave já havia partido para voltar para os Estados Unidos. Olhei para os trilhos e pensei: “Por que você não se mata? Você achava que esse seria o auge de sua vida e agora, onde você está?”. Eu estava tão cansada de a gravadora me falar o que eu não podia fazer, de estar isolada e de pessoas me dizendo o que elas achavam que eu era. Meu relacionamento estava acabando. O filme que eu tinha feito fracassou. Pensei: “Não aguento mais essa vida. Posso pular do trem ou ter um caso com esse cara que não conheço, continuar minha vida e cortar os laços com Dave”. Então tive um caso com o French Fry.
Quando voltei da Rússia, me mudei para o Mayflower Hotel por um longo, longo tempo, e deixei Dave no loft. A vida em hotel é muito triste. E, depois da viagem russa, eu ainda andava por aí com o French Fry, embora ele estivesse se encontrando com sua antiga namorada e eles estivessem indo morar juntos. Eu não conseguia entender por que ele estava morando com alguém e continuava me ligando. Minha governanta Ann não gostou dele e acabou me fazendo terminar com ele. Quando o French Fry ligava, ela nunca me falava, então pensei que ele tivesse perdido o interesse. Parecia que eu amava o French Fry, mas percebi que ainda estava com o coração partido por causa de Dave.
Quando você começa algo e não tem nada, e consegue chegar ao auge da sua vida, você acha que sua fama e seu sucesso são uma redenção para tudo que já aconteceu com você. Não é verdade. Porque, no fim do filme, os créditos sobem – mas na sua vida isso não acontece. Os créditos não sobem. Tive que continuar vivendo. Toda a minha vida até aquele momento tinha a ver com “chegar lá”, mas agora que eu estava lá, não era tão cor-de-rosa. Eu queria que minha vida ficasse melhor, e pensei que ficaria, mas não ficou. Porque, ao longo do caminho, para chegar a esse auge, precisei desistir do meu relacionamento. Eu pensava que isso era a coisa mais importante e, por isso, eu ainda era um bom soldado em relação a tudo que Dave me falava para fazer. Ele continuou sendo meu empresário e, mesmo estando preocupada, pois a gravadora estava uma completa bagunça, achei que ninguém mais iria realmente me querer como artista. Nunca me senti tão bem-sucedida, pois estava sempre trabalhando duro.
Ganhei um Grammy naquele ano, mas desapontei a gravadora porque não cheguei em casa com uma braçada de prêmios como eles esperavam. Sempre foi assim – nunca era o suficiente. Eu tinha chegado muito longe, mas parecia que eu tinha falhado.
Havia a ideia de que eu estava nadando em dinheiro, mas, para falar a verdade, eu não estava. Por exemplo, eu realmente dava meu sangue em turnês e promovendo meus discos internacionalmente, mas ganhava um centavo por disco na Europa. Eu me lembro de ter perguntado ao meu contador naquela época: “Quanto dinheiro eu tenho?”, ele disse: “Você tem um milhão de dólares”. Eu me sentia como Ralph Kramden. Pensei: “Estou rica!”. O que ele se esqueceu de me dizer foi que metade desse milhão iria para os impostos. Nunca fui boa com dinheiro.
Foi um período muito sombrio. Quando eu estava morando no Mayflower, eu estava a dois passos da varanda. Eu ia ao estúdio, gravava e então ficava no meu quarto escuro e bebia vodca (sendo que eu nem gostava). A lua iluminava o quarto, passava pela varanda, iluminava a janela e o chão. E eu ficava na minha poltrona e conversava com a lua. Brindava com ela e dizia a ela que me chamava Cynthia, em homenagem à deusa da lua. Depois eu chorava enquanto olhava para ela. Eu não telefonava para ninguém; estava tão chateada que nem conseguia falar. Eu via minha família de vez em quando, mas tive que passar a maior parte do tempo gravando meu disco. Eu estava sozinha. No entanto, eu queria ficar sozinha. Eu estava de luto. Achei que a tristeza nunca iria embora. Devo dizer que a única coisa que sempre me impediu de me suicidar é que nunca quis que a manchete fosse: GAROTA QUE QUERIA SE DIVERTIR NÃO SE DIVERTIU. Eu achava que esse era o nível de estupidez e ridicularidade da imprensa, e não queria que minha vida fosse reduzida a isso.
Minha amiga Katie Valk me apresentou sua amiga Tracey Ullman, então saí com ela um pouco. Falei para ela sobre como eu pularia, exceto pela manchete, e Tracey olhou para mim e disse: “É a segunda vez que você diz isso para mim. Acho que você deveria procurar um terapeuta”.
Então fui a uma terapeuta por um segundo, mas me pareceu que ela concordava muito comigo, e não dá para ter alguém apenas concordando com você. Você precisa de alguém que vai ouvir, ser objetivo e perguntar: “Isso já aconteceu com você antes?” e “Como você se sente sobre isso?”. Você precisa de alguém para ajudá-lo a subir de volta. Tive um colapso. O estupro, as partes sombrias do meu passado – tudo desmoronou naquela época e eu estava perdida. Eu ia ao estúdio chapada e Eric olhava para mim e dizia: “Cyn, o que você está fazendo? Faça o seu trabalho. Por favor”. Mas eu o via trabalhando com Robert Palmer, que tinha uma namorada muito jovem. Parecia que para todo lugar que eu olhava havia uma forma de sexismo estranho. Eu assistia a seu clipe “Addicted to Love” e via uma garota balançando os seios e nenhuma delas tocava instrumentos. Que diabo é isso?
Dave ainda era meu empresário, mas eu sabia que isso não duraria para sempre. Pensei que da próxima vez eu deveria ter uma empresária. Eu queria trabalhar com Sharon Osbourne, que era muito legal e sempre falava o que pensava, mas as pessoas (geralmente homens) me falavam merdas como: “Ah, ela é louca”. Porém, vejo agora que o que realmente acontecia era que ela os confrontava e eles não gostavam.
Perdi meu relacionamento, perdi meu trabalho, perdi meu foco. E eu não tinha ninguém a quem recorrer. Entrei no mundo da música com boas intenções, com honestidade, e tudo que fiz foi orgânico. Nada do que fiz foi preconcebido. Eu acreditava que a música poderia elevar as pessoas e deixá-las felizes. Então fui sugada e considerada lixo descartável e pensava: “Não é isso que vim fazer”.
Enquanto isso, Dave disse: “Cyn, ouça, eu me sinto ridículo. Preciso me mudar, não você”. Continuamos sempre amigos. Então voltei e ele se mudou. E Dave me conseguiu uma entrevista de capa para a revista Details. Foi assim que conheci Annie Flanders, a editora fundadora, que se tornou uma amiga. Nós nos encontramos no restaurante Russian Tea Room. Ela era uma das poucas pessoas com quem eu podia conversar. Annie era muito criativa e muito legal. Fiz algumas pesquisas para o que eu achava que seria bom para a capa. Laura me sugeriu o estilo de Alberto Vargas (ele pintou muitas garotas pin-up nos anos 1940), então fui à livraria e encontrei um livro de Vargas para levar para Annie.
Quando mostrei a ela, eu disse que, quando pensei na capa, imaginei uma pintura. E ela disse: “Eu conheço um cara que talvez possa pintá-la”. Então a capa era uma pintura minha, no estilo Vargas, com um visual muito clássico-hollywoodiano, loiro-platinado, como Jean Harlow, e fui enquadrada por gardênias. Essa seria minha nova imagem para A Night to Remember.
A Night to Remember saiu em 1989, e “I Drove All Night” chegou à posição seis. Ela era bem popular no mundo inteiro (desta vez Dave não interpretou o mocinho no clipe – consegui outra pessoa). Mas, novamente, a gravadora ficou desapontada. Como um bom soldado, fiz turnês pelo mundo para fortalecer esse álbum. A gravadora queria que eu trabalhasse na Europa e no resto do mundo enquanto eles lançavam seus novos artistas nos Estados Unidos, para que pudessem viver do que quer que havia restado de mim. É assim que eles são. Lembro que fui para a Itália fazer esse show selvagem e louco em Bari. Era um festival com cerca de trinta atrações, uma após a outra, e tudo era televisionado. Quando há muitas apresentações, é mais fácil, e a qualidade do som é melhor, dá para apresentar “sing to track” (quando a faixa toca sem o vocal e você canta junto) em vez de fazer tudo ao vivo.
Havia uma mistura de artistas conhecidos e depois artistas italianos que eu não conhecia, o que foi fantástico. Viajei para o show com Justin, que cuidava do meu cabelo, porque eu estaria na TV. Justin tinha barba e cabelo comprido até o traseiro. Também estava com Jodi, minha maquiadora, que era minúscula, e Laura Wills, que tinha 1m55cm, e Dave. E eu, que estava bem no meio. O carro estava tão lotado com toda a bagagem e as tralhas de que precisávamos para o programa de televisão que o porta-malas não fechava e tivemos que usar uma corda. Quando chegamos ao festival, havia crianças esperando e gritando quando cada artista saía de seu carro. Quando todos nós saímos, as crianças começaram a cantar a música da Família Addams! Ri muito. Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo em Bari. Pensei: “Nós realmente parecemos a Família Addams”.
Um garotinho italiano correu até Laura Wills, olhou para a cara dela, pisou no pé dela o mais forte que pôde e saiu correndo. Eles estavam fora de si. Começávamos a rir o tempo todo, porque nossas vidas eram tão ridículas. Depois que fizemos o programa de TV, fomos levados a um restaurante onde estavam todos os artistas da Sony do mundo inteiro. Os artistas italianos estavam sentados à esquerda e começaram a cantar conforme os garçons traziam uma comida incrível. Então todos começaram a beber e cantar. Ouvi um cara da gravadora, Massimo, e ele disse: “Nos anos 1970, tínhamos os Beatles e os Stones, e agora temos Duran Duran e Spandau Ballet”. Fiquei pensando: “Não acho isso. Essas não são as novas lendas”.
Havia outros artistas da Austrália lá chamados Noiseworks, e eles começaram a tocar, e começamos a tocar também, e eu simplesmente me apaixonei pelo que estava acontecendo – estávamos comendo, bebendo e cantando. Então comecei a cantar com eles – harmonias, o que eu conseguisse. Então o lugar ficou um pouco maluco. Estavam derramando vodca por toda parte, e me vi em cima de uma cadeira no final da noite cantando “True Colors” com o vocalista da Noiseworks e a pessoa que lavava louça, que estava tocando gaita. Pensei: “Que diabos – isso é ótimo. É isso que vale a pena, isso é o rock and roll em sua melhor forma”. A viagem valeu muito a pena. Para mim, naquele momento, a alegria voltou para a música.
Eu sempre me diverti na Itália. A primeira vez que fui para lá tive que ir a outro programa de TV italiano para apresentar “Girls Just Want to Have Fun”, que, se bem me lembro, foi uma dublagem. Antes de continuar, eu estava dizendo a um produtor que minha família vinha da Sicília. Ele era siciliano, então isso era importante. Aí eu ouvi uma galinha.
“Com licença, isso é uma galinha?”, perguntei.
“Sim, foi uma galinha.”
“Deixa eu ver se entendi. Estou fazendo a abertura para uma galinha?”
“Sim, você está”, disse ele.
E por que não? Isso era a televisão europeia maluca (quando eu estava promovendo Hat Full of Stars lá, algumas ovelhas abriram a apresentação para mim, mas elas fizeram xixi nos monitores, o que não foi nada bom).
Outra vez fui à TV francesa para cantar “I Drove All Night”, e queria fazer um número de performance de arte em que um carro andando por uma estrada é projetado no meu corpo nu, como no clipe. Então trabalhei com uma mulher da iluminação, Carol, que recomendou que eu pegasse um material reflexivo e elástico para envolver meu corpo. No entanto, não conseguíamos fazer o maldito projetor funcionar. Meu empresário de turnê, Robin, começou a suar muito, porque o programa de TV era ao vivo e tínhamos que seguir em frente. Havia quinze franceses em volta do projetor, fumando cigarro e falando em francês, tentando fazer a coisa funcionar. Naquela época, Simply Red tinha uma versão da música “If You Don’t Know Me by Know” e Jodi ficou cantando: If it ain’t working by now, it ain’t never gonna work [Se não está funcionando agora, nunca vai funcionar]. Eu estava rindo, pensando: “Oh, meu Deus”. O tempo estava correndo e, finalmente, Robin apenas apertou um botão e funcionou. Pensei: “Ohhh, o botão liga/desliga. Excelente”. Coisas assim aconteciam com muita frequência. Desde que eu pudesse fazer uma obra de arte, ficava feliz.
A turnê “Night to Remember” me levou a muitos lugares, incluindo várias partes do México, que eu adorava. O único problema era que eu estava cantando em arenas de touradas e perdia a voz. Percebi que estava engolindo o pó que vinha do chão de terra quando todos ficavam animados e começavam a dançar. Quando descobrimos isso, pegamos um ventilador para afastar o pó de mim. Também fiquei doente em Hong Kong por causa do ar-condicionado (eles nem sempre limpavam os filtros) e fiquei com bronquite. Foi tão forte que precisei cancelar compromissos. Depois fui para a Austrália e para as Filipinas e cantei o melhor que pude, mesmo com bronquite. No Japão, tomei todas as vitaminas conhecidas pelo homem e comecei a melhorar. (E comecei a ter um caso com outro cara, um jornalista australiano muito bonito que me entrevistou. Eu não tinha ideia de que ele daria em cima de mim. Continuei falando, falando e falando sobre a minha arte. Por fim, ele me levou para cima e foi em direção ao quarto e eu disse: “Oh”.) Comecei a pensar se deveria ficar na Austrália e fazer meu próximo disco. Isso significaria deixar todos com quem trabalhei durante oito anos para fazer música. Mas pelo menos seria um novo começo. A Noiseworks estava lá e talvez eu pudesse fazer algum trabalho com eles. Poderia ser divertido. Eu estava em Bondi Beach observando o fim do mundo. Percebi que poderia ser muito solitário. Eu estaria muito longe de tudo que conhecia. Eu já tinha feito isso uma vez, mas não tinha certeza se estava pronta para isso de novo. E eu não tinha certeza se conseguiria fazer o tipo de disco que queria na Austrália. Além disso, eu não poderia dirigir. Sou nova-iorquina e nunca tirei minha carteira de habilitação. Então voltei para Nova York. Mas sempre imagino como minha música poderia ter sido se tivesse ficado.
Eu estava ausente havia três meses e, quando cheguei em casa, era perto da época do Natal. Eu tinha comprado todos os presentes. Dave foi em casa e colocou tudo em seu carro para que pudéssemos visitar Lennie e dar presentes para todos. Ele e eu quase nos reconciliamos antes de sair. Fizemos amor e depois descemos para o carro, que ele deixou estacionado em frente ao prédio, com todos os presentes empilhados até o teto. Claro que alguém entrou no carro e os roubou. Que surpresa! O que meu velho amigo Esopo teria a dizer sobre isso? “Não seja careta e deixe o maldito carro cheio de presentes para pessoas que podem querer roubá-los!”.
Eu estava esgotada da turnê quando recebi uma oferta para fazer outro filme. Eu tinha conseguido duas outras ofertas antes disso – para Flores de Aço e Uma Secretária de Futuro. Ninguém me explicou que seria uma boa ideia trabalhar com Mike Nichols, mas eu não queria fazer Uma Secretária de Futuro, porque não suportaria estar num escritório de novo, e eu não queria fazer uma esteticista de novo. E recusei Flores de Aço porque achei que não seria boa o suficiente.
No entanto, decidi pegar o papel em Paradise Paved, que depois foi alterado para Moon over Miami, e depois para Fora de Controle [Off and Running]. Porém nunca saiu de controle e prosperou. Foi o último filme que a Orion Pictures fez antes de declarar falência em 1991. Aí é que está: sempre que um projeto tem três nomes, você sabe que não vai funcionar. Mas pensei: “Vamos parar com a música por um tempo e fazer um filme”. Era outra história de uma garota maluca, um filme peculiar que tentou ser sério também. Vibes tinha uma premissa melhor. Interpretei uma atriz chamada Cyd Morse que não tinha muito trabalho, então dançava como sereia embaixo d’água num clube noturno de Miami. Aí fico presa em um mistério de assassinato depois que dois caras matam meu namorado e tentam me matar também. Era para ser um tipo de comédia maluca sombria. Mas foi outro set sexista, e, na minha opinião, o diretor estava sobrecarregado. Depois de um tempo, parecia que eu estava num clube do Bolinha. E, mais uma vez, parecia que eu nunca conseguia falar com ninguém, exceto minha preparadora de elenco.
Minha nova preparadora de elenco gostava da coisa toda do “Método de atuação”, que nunca consegui entender. Ela me passou todos os exercícios, como pular para cima e para baixo em um pé só enquanto cantava “feliz aniversário” fora do ritmo. Eu me senti torturada durante esse exercício. Eu sou uma cantora/musicista. Dizer palavras de forma repetitiva várias vezes em uma cena me ajudava a encontrar o ritmo dela. Para mim, tudo é ritmo. Temos coração, temos pulso, temos ondas cerebrais. Somos ritmo. Quando ouço o ritmo do discurso de uma pessoa, conheço a pessoa que está por trás dele. Isso é o que entendi. As outras coisas não consegui entender. Eu estava sempre tentando descobrir sobre o que era a cena, mas não sabia como, e eu não conseguia entender o que elas me diziam. Me disseram para não me comportar como eu mesma. Diziam: “Você precisa falar mais baixo e não usar as mãos quando fala”. Então, tentava o meu melhor, mas faltava o “porquê”. Eu estava desesperadamente tentando agradar todo mundo depois de ter meu nome arrastado na lama em Vibes.
Louis Falco, o coreógrafo do filme, tornou-se um bom amigo. Ele tinha uma companhia de dança em Nova York e fui encontrá-lo quando ele estava coreografando as cenas subaquáticas. Ele disse: “Cyn, você tem que ondular”. Que diabo é isso? Então ele me viu tentando ondular e disse: “Hã, não tem importância, está tudo bem”. Quando fizemos isso na água, ele me disse para girar, e eu rodopiei e rodopiei como uma broca, até que bati a cabeça na parede da piscina. De novo, ele disse: “Hã, não tem importância”. Também tive que aprender a nadar. Não gosto de molhar o rosto, então foi meio difícil. Precisei aprender a fazer mergulho autônomo. Às vezes eu surtava e a professora de natação dizia: “Se você surtar, descanse, fique calma, lembre-se de que pode respirar e pense: ‘do que eu tenho medo?’”. Ainda uso isso hoje quando surto – contanto que eu possa respirar, consigo permanecer calma.
O figurinista gostava da brancura da minha pele e queria que eu tivesse cabelos pretos na piscina para me fazer parecer diferente das outras sereias. Então decidiram que eu também usaria um top preto. Mas o top preto fez algo estranho com o visual subaquático: sugou toda a luz para dentro. Todas as outras sereias tinham tops claros que faziam seus seios parecerem maiores do que eram – não que eles não fossem bonitos, para início de conversa. Mas meu top preto fez meus seios parecerem menores, então eu parecia uma criança de 12 anos. Pouco antes de entrar na água, o rapaz que trabalhava para o produtor veio correndo até mim e começou a gritar coisas sobre o figurino. Eu disse a ele: “Por que você está gritando comigo? Essa é a primeira vez que você viu meu figurino? Por que você não verificou isso antes? Estou petrificada da água, e agora que estou prestes a entrar, você fica me estressando?”. Todos ficaram assustados porque, quando cheguei ao fim da conversa, eu estava gritando.
Depois de ter entrado na água um monte de vezes, percebi que não só poderia trabalhar o tubo de ar e respirar, filtrando a água com a língua, mas também poderia fazer a sincronia labial. De repente, eu estava me apresentando embaixo d’água. Não por nada, mas eu era como o Flipper. Quem ia saber que dava para fazer sincronia labial subaquática? Foi divertido. No começo havia uma dublê fazendo algumas cenas subaquáticas, mas o diretor achou que eu tinha mais personalidade. O mais frustrante foi que, depois de todo esse trabalho para aprender a fazer isso, eles só filmaram um pouco da música. Eles nem sequer fizeram uma tomada completa. Se filmassem a música inteira, mesmo que só uma vez, poderíamos ter criado um clipe com trechos do filme. Pensei que esse poderia ter sido o motivo pelo qual fui escalada, para que pudessem fazer uma promoção cruzada em dois mundos diferentes, música e filme.
Enquanto eu estava gravando esse filme, descobri que fui indicada para outro Grammy de Melhor Performance de Rock Feminino em “I Drove All Night”. O engraçado foi que, quando estávamos compilando esse CD, eu disse a Don Grierson que “I Drove All Night” deveria ser a primeira faixa do álbum, porque essa música seria nomeada para um Grammy. Lembro que ele olhou para mim como se eu estivesse um pouco iludida. Porém, dessa vez, eu estava disputando com o retorno de Bonnie Raitt e ela ganhou com “Nick of Time”. (Como eu disse, na primeira vez que fui indicada para o melhor vocal, perdi para o retorno de Tina Turner. Na segunda vez, com “True Colors”, perdi para o retorno de Barbra Streisand. O problema comigo é que continuo voltando ou não vou embora... não sei bem qual das opções.) O produtor do filme não permitia que eu tirasse um dia de folga para ir ao Grammy. Foi um momento bem difícil. Fiquei muito deprimida. Porém, meu assistente Paul, que estava no set comigo, ficava dizendo: “Você tem que conhecer esse cara, David Thornton. Ele interpreta o assassino. Ele é muito engraçado. Não sei dizer se ele é hetero ou gay, mas, Deus, ele é uma graça”.
“POR QUE NÃO SER UMA
ONDA?”