Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 5 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 5

 

EU CONTINUAVA RESISTINDO AOS CARAS DA

GRAVADORA QUE ME DIZIAM PARA cantar baladas porque, quanto mais eu trabalhava na indústria da música, mais percebia que seu primeiro sucesso era o que identificava você ao longo de sua carreira. E eu queria me assegurar de que o meu tivesse um ritmo acelerado para que eu não fosse rotulada. Também batalhei porque notei que todos que deixaram de resistir falharam. Todos os artistas legais, todos os grandes – Clash, Elvis Costello, os Pretenders – não tinham gravadora para inventá-los. Os artistas que a gravadora inventou tinham uma vida superficial. Porque se a gravadora realmente soubesse como fazer música, estaria fazendo música e não vendendo música, certo? O que vi foi: “Ei, venha ouvir o novo single 45 do Jam em 33”. E ainda vou deixar esses caras me dizerem o que fazer?

No entanto, a Blue Angel estava indo ladeira abaixo. Nosso single “I’m Gonna Be Strong” chegou à posição 37 – na Holanda. Ninguém aceitava mais nossas demos. Estava ficando cada vez pior e, mais uma vez, o dinheiro não estava entrando, e todos começamos a morrer de fome. Lembro que minha amiga Jutta – ela é alemã – costumava me dizer que havia dois tipos de pessoas no mundo: aquela que fica pensando em seus problemas e aquela que fica pensando em como resolvê-los.

Tento ser o segundo tipo de pessoa, mas naquela época eu estava muito para baixo. Fui ao estúdio de Katie Agresta e disse a ela que não conseguia saber como faria isso funcionar. Ela começou a me dar comida, porque pensou que eu não conseguiria cantar do jeito certo se estivesse com fome o tempo todo. É por isso que eu a amo. Ela acreditou em mim. Uma vez estávamos trabalhando juntas, eu estava me sentindo desanimada com a coisa toda – isso foi antes da Blue Angel – e disse a ela que um dia desses veriam meu nome e se lembrariam de mim. Nós duas ficamos paradas. Sentimos um calafrio e não era gripe.

Porém, infelizmente, fiquei muito doente – de novo. E perdi minha voz – de novo. Eu estava muito deprimida, tinha um cisto invertido na minha corda vocal, que o médico disse que era por cantar de forma incorreta, mas na verdade não era. Finalmente encontrei um médico, um santo chamado dr. Eberly, que operou minha garganta. E Katie me ajudou a voltar. Foi difícil e demorou muito tempo, mas, quando pude cantar novamente, tomei muito cuidado quando tocávamos ao vivo.

Eu também sabia que queria rescindir nosso contrato de gravação e fugir do nosso empresário que, por muitas razões, não estava trabalhando para nós. Fui até ele e disse: “Escuta, gostaríamos de romper completamente com você ou continuar, conseguir mais um contrato de gravação e, em seguida, pagar você”. Ele disse: “Não. Vocês não vão a lugar nenhum sem mim”. E isso virou uma briga.

E eu sempre precisava de dinheiro. Eu estava falando sobre isso com o contador da Blue Angel e ele disse: “Por que você não consegue um emprego em uma loja de roupas de que você gosta? Você vai à Screaming Mimi’s o tempo todo – pergunte se eles querem contratar você”. Então fiz isso e fui contratada como vendedora. Acabei ficando por dois anos, porque eu adorava muito aquilo. Era como uma loja de brinquedos gigante para mim, como você pode imaginar. Eu vivia comprando roupas, e me fizeram parar com isso, porque o que eu comprava custava mais do que as roupas que eu vendia. Eles não conseguiam colocar as coisas à venda porque estavam reservadas para mim. As pessoas chegavam e eu as ajudava a estar na moda, o que era muito divertido. Uma vez Lene Lovich, que eu adorava, entrou e estava olhando os sapatos. Apenas a rodeei, mas não falei nada para ela; não queria incomodá-la enquanto ela estava dando uma olhada nas coisas.

Pelo menos eu conseguia pagar as contas, mas ainda estávamos tentando sair do contrato. Meu advogado disse: “Cyndi, agora toda a indústria está dizendo que, quando você se cansar de levar o carrinho de puxar, vão falar com você”. Ele queria dizer a banda. Então, é claro, a banda me odiava.

Isso foi no final de 1981, e eu me lembro que, mais ou menos na época do Natal, meu baixista, Jim Gregory, deu uma festinha. Havia outros cantores e bandas por ali, e eu estava com minha amiga Debbie. Ela era cantora de estúdio e tinha trabalhado com John Turi e Jim Gregory, e também fez backing vocal com Billy Hocker, um cara com um tipo de voz machucada que cantava white soul. Ele me influenciou de verdade – me disse que eu deveria ouvir Otis Redding e abrir meus ouvidos e minha voz. Enfim, eu estava com Debbie e vi um rapaz de calça boca de sino amarela de veludo cotelê. Tenha em mente que, naquela época, todos usavam jeans pretos justos – era um uniforme. Era como você diferenciava as pessoas legais das pessoas não tão legais. Ele estava vestido como... ai, ai, ai. Com aquela calça amarela, tênis branco, suéter surrado, casaco de lã, barba e cabelos compridos como Jesus Cristo. Eu olhava para ele e pensava: “Meu Deus, que bagunça”. O que ele estava fazendo era uma coisa anos 1970, e naquele momento eu não via nenhum mérito nisso.

Era Dave Wolff.

Estávamos todos bebendo, e Dave Wolff estava flertando com uma das garotas da banda punk do Sic F*cks. Ela o deixou para ir ao banheiro, então, de repente, ele olhou para mim e pensei: “Ah, não”. Mas ele se sentou ao meu lado, e eu disse: “É sério isso? Agora está flertando comigo? Você não chegou a lugar nenhum com ela, pareço seu bilhete premiado?”. Mas tudo o que ele disse foi tão engraçado e maluco que comecei a rir porque ele era uma figura.

Começamos a conversar e descobri que ele era de Connecticut. Então, havia dois obstáculos ali: calças boca de sino e Connecticut. No entanto, ele não era “WASP-y” (branco, anglo-saxão e protestante), como eu pensei que fosse no começo – ele era judeu – e, quando começamos a falar sobre pigmeus do rock que vivem no subsolo e aparecem para o suco de wampanini, pensei: “Esse cara é bem engraçado”. Teve muitos trabalhos diferentes, como eu. Tinha sido exterminador e mensageiro. E, como muitas pessoas naquela festa, ele estava em uma banda. Descobri mais tarde que ele era empresário de turnê de Vicki Sue Robinson, mas também tinha um contrato de gravação. Ele fez um disco de rap com a banda Captain Cameleon e fez rock com a Human Fly. Ele passou a fazer um acordo com um acrobata franco-canadense chamado Human Fly, que ficava em pé em aviões enquanto eles decolavam, e continuava de pé enquanto eles voavam e pousavam. Então, de alguma forma, Dave, que podia conversar com qualquer um sobre qualquer coisa e adorava misturar rock and roll com outros tipos de performance, fez um acordo com ele. Dave se vestia como ele e o representava como Human Fly, fazia de conta que Fly se apresentava em uma banda de rock – mesmo que o verdadeiro Fly não tivesse uma banda. Você está conseguindo me acompanhar até agora?

Enfim, Dave estava numa banda de rock vestido de Human Fly, com uma roupa vermelha justa e uma capa, de máscara e botas, e tinha um sotaque franco-canadense. Mas ele também era Dave Wolff, o empresário do Human Fly, então, se houvesse um pessoal da imprensa, ele seria Dave e diria: “Vou mandar o Human Fly para você”. Então ele se vestia rápido como Human Fly e saía e falava com um sotaque franco-canadense com a fantasia completa, uma das coisas mais hilárias que já vi.

Naquela noite, ele continuou me fazendo rir, me contando todas essas histórias e, apesar das calças boca de sino, ele era bonitinho e sexy. E eu estava muito solteira naquele momento. Um tempo atrás eu estava namorando um cara bissexual, e meu amigo Gregory se sentou comigo e disse: “Ouça, Cyn, você não pode ganhar com um cara bissexual, porque você nunca vai poder satisfazê-lo. Você sempre estará do lado errado. Por que você quer esse tipo de relacionamento? Além disso, você paga o café dele também, não é?”, o que eu fazia mesmo. Ele era um artista faminto como eu e era o tipo de cara que – como a maioria dos caras que eu conhecia, especialmente se fossem artistas – encontrava uma garota e se encostava nela. Havia algo diferente em Dave. Ele estava tentando me ajudar.

Então, Dave e eu continuamos conversando, o fim da noite chegou e percebi que não tinha passagem de ônibus para chegar em casa. Eu disse a ele: “Escuta, você tem carro. Você pode me levar de volta para o meu apartamento?”. Grande erro.

Lembra como os caras costumavam vir ao meu apartamento e parecia que nunca mais iriam embora? Que eu dizia a mim mesma que poderia transar com eles para que me deixassem em paz e eu pudesse trancar a porta? Foi isso que começou a acontecer com Dave: senti que ele nunca iria embora. Fiquei pensando: “Aqui vamos nós de novo. Quero você fora daqui. Isso aconteceu comigo a minha vida toda, então quero só dormir com você, e você vai embora”.

Mas o engraçado é que ele ficou, continuou dizendo: “Sabe, eu realmente gosto de você”.

Ele era muito doce e começamos a namorar. Ele andava comigo e eu conversava com ele sobre coisas que eu via. Sempre tive uma imaginação bem exagerada, que poderia matar você. Por exemplo, se eu visse um chiclete na rua quando estivesse andando, isso me deixaria com nojo porque imaginaria como seria lambê-lo do chão. Talvez eu tenha sido um cachorro em alguma vida passada. Não faço ideia. No entanto, ele sempre entendeu que minha imaginação talvez fosse um pouco diferente da imaginação de todo mundo. Ele também era um pouco perdido. Cuidávamos um do outro.

Quando ficamos mais próximos, eu ainda estava procurando um empresário, e Dave me falava das coisas que eu deveria pedir. Eu me encontrava com todas essas pessoas, mas o mais estranho é que, quando chegava em casa, continuava sonhando com os cenários com meu novo empresário, e nenhum deles dava certo. Nesse meio-tempo, com o dinheiro apertado, como de costume, precisei me tornar faxineira de novo (eu já tinha sido faxineira em Vermont). Eu ganhava US$ 20 por um trabalho, o que era muito para um dia. Comecei com meu amigo Dan e me lembro de estar em algum lugar com ele quando uma garota disse: “Olha, a Cinderela”. Fiquei muito constrangida.

Eu me lembro de que, quando estava em Vermont, respondi anúncios para faxineira no jornal e liguei para um cara que me disse: “Bom, uma parte do seu trabalho será dar banho na minha esposa e depois vesti-la”. Eu disse: “Ela é inválida?”. Ele respondeu: “Não. E eu vou assistir”. Eu disse a ele que não tinha interesse e desliguei.

Trabalhei como faxineira para outra mulher em Vermont, da qual nunca vou me esquecer enquanto viver: a sra. Butterfly. Ela tinha quase 90 anos, morava em uma grande casa vitoriana e alugava os quartos. Ela precisava de uma faxineira, então tive que ficar e almoçar com ela. Ela disse que as pessoas que faziam a faxina precisavam almoçar também. Era a coisa mais fofa, e acho que ela sabia que eu estava sempre com fome. Ela falava muito, tinha muitas fotos de pessoas mortas às quais ela tinha sobrevivido e me contava histórias sobre uma e outra. Ela também tinha imagens de Jesus, e me lembro de ter falado com ele e dito: “Jesus, você precisa ajudá-la. Ela não pode simplesmente ficar lá e conversar com pessoas mortas”. Isso não era bom, ela só estava esperando para morrer. Mesmo que você seja velho, tem que haver outras coisas. É por isso que, quando mais tarde me casei, falei para minha avó de 91 anos, que começou a ficar deprimida: “Que tal se você for minha dama de honra?”. Nada como um vestido novo e uma festa! Ela tinha um belo vestido de lã com strass e estava muito bonita.

De volta a Nova York, contei à minha amiga Lisa sobre o incidente da Cinderela. E ela perguntou: “Por que você está limpando casas? Você não precisa fazer isso. Posso conseguir um emprego como hostess em um piano bar japonês e você pode ganhar muito dinheiro com gorjetas. E ninguém sabe que esses lugares existem!”. Havia um monte desses piano bars nos anos 1980 na área central da cidade, perto de todos os prédios comerciais. Eles eram como discotecas, e o trabalho era dançar com os empresários japoneses, servir bebidas e acender cigarros e ser festeira. Lisa me contou sobre um ótimo lugar familiar chamado Mama’s, mas infelizmente não tinha vaga. Eles me recomendaram outra casa noturna que era mais uma boate. Comecei a trabalhar lá e costumava voltar para casa com dores de cabeça e pescoço terríveis. Eu me lembro de estar dançando com uma garota a música de Olivia Newton-John, “Physical”, e um dos clientes me lançou um olhar malicioso. Dei a entender: “Ei, não faço isso”. Meio que senti como se estivesse caindo, como nas apresentações de go-go dance que fiz. Era tão contra quem eu era. Simplesmente não consegui fazer isso e fui embora.

Aí Lisa conseguiu que o Mama’s me contratasse. As garotas que trabalhavam lá não precisavam sair com clientes, nunca. Você não precisava “ficar fisicamente” com ninguém. Uma mulher chamada Mama-San, uma grande mecenas das artes, administrava o lugar e adorava ter alguém com notoriedade lá, e aconteceu de eu estar numa edição da revista Life que tinha Elizabeth Taylor na capa. A revista me apresentou em uma seção de “Garotas Roqueiras”, que também tinha bandas como as Go-Go e as Pretenders. Eu usava minha calça cigarrete vermelha, sapato de salto alto vermelho com meias soquete do tipo “bobby” e uma pequena camisa sem mangas com a inscrição JOHNNY ANGEL. Eu estava num salão de beleza, com rolos de espuma laranja e rosa no meu cabelo e lendo O Eu Desconhecido, de Carl Jung. Mama-San adorava isso.

Ela adorava cantar, e foi um ótimo lugar para eu aprender como lidar com os empresários em um nível mais pessoal. Eles eram legais. Tinham suas garrafas e só queriam tomar uma bebida. Eu realmente adorava isso lá. Depois, os chefs de sushi iam para o bar. Em geral, esses chefs também me davam gorjetas de US$ 20, o que era um ótimo negócio. E Peter, o guitarrista, me ensinava japonês foneticamente.

Meu grande número era “Wasureaniwa”, traduzido como “Nunca vou esquecer você”. Eu era acompanhada por Peter e uma pianista, e depois de cada frase ela terminava com um pequeno “da da da” no piano. O guitarrista me disse que eu soava como Brenda Lee. Fiquei fascinada com essas pessoas, eu as amei, e tenho lembranças muito reconfortantes do lugar, de pessoas que foram muito gentis. Tentei de verdade ser uma boa anfitriã e fazer as pessoas rirem.

Nessa época, eu também estava indo a um terapeuta porque estava tentando não ficar com raiva. Quando as pessoas diziam algo para mim, eu lhes dizia o que pensava e elas viam isso como raiva, e não como o fato de eu não ter filtro. Desde então, adquiri um pouco de filtro – não um grande, mas um pequeno. Então comecei a ir à terapia porque era um lugar onde eu podia ficar com raiva e reclamar e não ter ninguém me dizendo: “Oh, Deus, você está sempre reclamando” e isso me ajudou a ter limites. Crescemos como crianças meio rudes, sentindo que o que tínhamos a dizer era muito importante porque minha mãe sempre nos deixava dizer o que queríamos. Mas às vezes você precisa pensar antes de falar e isso não era meu forte.

Depois que conheci Dave Wolff na festa de Natal, ele veio me ver no show de Ano-Novo que a Blue Angel estava fazendo. Foi na virada de 1981 para 1982, e não foi um dos shows mais prestigiosos do Ano-Novo. Estávamos tocando em um barzinho em Passaic, em Nova Jersey, chamado Hitsville, mas eu o chamava de Shitsville, porque era assim que eu o via. Nosso baixista na época era Slim Jim Gregory, que dirigiu nosso carro alugado barato de Manhattan, da Rua 76, para a ponte George Washington Estava chovendo e não conseguíamos encontrar o maldito lugar. Eu me lembro dessa noite de forma muito clara, porque definia muito aquela época. Estávamos em uma briga com a nossa antiga administração e parecia que não estávamos indo a lugar nenhum – literal e figurativamente.

Tocávamos em uma sala dos fundos que nos disseram ser um camarim. Em geral, era desorganizado e sujo e tinha pichações em todas as paredes. Havia um texto em grafitti que, depois de tudo que passamos, era bem profundo para mim, e não importava quantas vezes eu tentasse não olhar, ele gritava para mim da parede. As palavras estavam escritas a caneta hidrográfica em uma parede branca e suja: “Não temos contrato? Somos demo”. Como as palavras da banda Devo: “Não somos homens? Somos Devo”. E isso era a minha vida: fazer demos que não iam a lugar nenhum.

Continuamos tentando, mas parecia que não estava rolando. Dave nunca tinha me visto tocar, e eu estava muito preocupada com isso, porque todos os namorados que tive ficavam bem até me verem apresentando, então se assustavam.

Quando os homens veem mulheres cantando de forma tão poderosa assim, isso pode assustá-los. Quando um homem canta, as meninas desmaiam, mas se uma mulher canta, é como “ai, ai, ai”. Talvez perguntem: “Como serei homem o suficiente?”, vai saber. Então eu estava muito preocupada, porque realmente gostava dele e fiquei pensando: “Bem, aqui vai mais uma merda para a lista”. Eu já tinha percebido que, embora os cantores sempre tivessem pessoas carinhosas esperando por eles, eu sempre ficava com as pessoas baixo-astral, aquelas que precisavam de ajuda. Eu não me importava com isso, mas nunca seria como era para os homens. Apenas imaginei: “Então vamos lá – adeus, Dave Wolff”.

Eu tinha pintado meu cabelo com tinta spray azul e estava no palco cantando “Blue Christmas”. E como eu estava chateada, bebi. E bebi. Não sou de beber, porque tenho um rim bom e um rim que não funciona tão bem. Preciso ter cuidado, fico alta rápido. Eu me lembro de uma garota na plateia dizendo: “Ela está bêbada”. Pensei: “Sim, estou bêbada, certo! Estou chegando aos 30, queria ter sido uma competidora, mas em vez disso estou aqui em Shitsville com você na véspera de ano-novo e lendo na sala de trás como ainda sou demo, d-e-m-o”. Claro que eu não diria isso, porque ela ficaria terrivelmente magoada depois de querer passar o ano-novo comigo. Mas, acredite, pensei isso.

Fiz o show, saí do palco e fiquei perto do bar. Dave tinha um olhar engraçado, então pensei: “Ok, vamos lá. Ele vai dizer quão boa eu era, mas as coisas vão ficar estranhas a partir de agora”. Mas ele não disse nada. Em vez disso, depois que a van nos deixou em minha casa, ele me ajudou a carregar todas as minhas coisas pelos cinco lances de escada até meu apartamento. Então, enquanto ele me ajudava a carregar toda essa merda para cima, eu fiquei esperando que ele reclamasse. Em vez disso, ele disse: “Como eu te amo? Deixe-me contar os passos”, em referência ao poema de Elizabeth Barret Browning. Comecei a rir e pensei: “Meu Deus – esse cara é um sarro”.

O negócio com os rapazes é o seguinte: depois de verem você no palco, muitos deles precisam levar você de volta para casa, para a cama e meio que possuir você, sabe o que quero dizer? Mas sempre tive que voltar e tirar a maquiagem, cuidar da minha garganta com vapor, fazer exercícios vocais e, quando isso acabava, eles em geral ficavam: “Que diabos?”. Devoção a um ofício não é o que as pessoas comparam ao rock and roll e, como perdi a voz muito cedo, estava obcecada em não perdê-la novamente. Quando perdi a voz, não pensei: “Como vou ganhar a vida?”, pensei: “Como vou viver? Como consigo respirar ainda?”. Não era uma opção. Há um filme chamado Os Sapatinhos Vermelhos e, nele, Vicky, a bailarina, queria dançar. Quando encontrou Boris, o diretor do balé Lermontov, ele perguntou a ela: “Por que você quer dançar?”, e ela disse: “Por que você quer viver?”. Ele diz algo como: “Bem, não sei exatamente por que, mas... preciso”. Pensei: “Sim, é por isso que eu canto”. Por que você come? Por que você respira? É por isso que eu canto.

Então, depois do show, eu estava desempacotando as coisas, tinha que cuidar do meu cabelo, estava cansada e limpando a banheira. Enquanto fazia isso, Dave começou a pentear meu cabelo. Foi um gesto tão doce que pensei: “Meu Deus, esse cara, ele entende”. Logo depois disso, ele começou a se mudar para minha casa. Ele quebrou meu despertador, um relógio da Betty Boop que eu amava, então trouxe um relógio da casa da mãe dele cujo alarme era tão alto que eu precisava colocá-lo no banheiro e fechar a porta e você ainda conseguia ouvi-lo. Um dia ele saiu, comprou uma televisão para nós (eu não tinha uma) e a carregou cinco lances de escada acima – e ganhou uma hérnia. Mas eu gostava dele – gostava de verdade.

Enquanto isso, eu ainda precisava de um empresário. Eu me encontrei com um monte de gente, incluindo Tommy Mottola. A questão com o Tommy é que ele fazia você sentir que ele tomaria conta de você, e é um sentimento muito sedutor, porque você sente que tudo vai ficar bem, que ele vai fazer dar certo. Eu conhecia Tommy havia algum tempo, mas só sabia que ele trabalhava na área. Em seu escritório havia muitos troféus de caça. Tinha até um escorpião imobilizado em plástico. Depois de tê-lo encontrado, sonhei naquela noite que ele também tinha a alma de um cantor na gaveta. Ele colecionava coisas e eu não queria fazer parte de sua coleção.

Tive dois sonhos semelhantes depois que me encontrei com outras pessoas, e eles eram sempre muito sombrios. Continuei contando a Dave sobre meus sonhos e, por fim, ele me disse: “Bem, sou empresário. Estou apenas começando, mas vou cuidar de você se você quiser”. Olhei para o cenário completo e pensei comigo mesma: “Bom, ele é malandro, engraçado e, mesmo quando você não quer fazer alguma coisa, vai rir tanto e acabar fazendo e, se ele podia me convencer a fazer as coisas, ele poderia convencer qualquer um a fazer as coisas”. Ele era assim, tinha esse tipo de charme engraçado de menino. Então eu disse a ele: “Vou jogar meu chapéu no picadeiro. Vou cantar e você vai recolher o dinheiro, mas você nunca pode deixar a empresa se tornar mais importante do que nós”. Esse foi o nosso acordo. Ele me administraria como um ato solo.

Na época, minha reputação como cantora era ótima, e as resenhas sobre mim também eram muito incríveis. A primeira coisa que Dave me disse foi: “Tem alguém que quero te apresentar”. Eu disse a ele que não poderia ir porque eu tinha um emprego – ainda trabalhava no Mama’s. Ele disse: “Saia do seu trabalho, você vai conseguir um contrato de gravação”. Era Lennie Petze, diretor da Portrait Records na Epic. Ele havia assinado contrato com a banda Boston. Dave havia se encontrado com ele antes para falar sobre outras coisas e Lennie lhe dissera: “Quando você tiver algo real, me procure”.

Sendo assim, fomos a Connecticut para encontrar Lennie e sua família para jantar. Foi perto dos feriados de fim de ano e estava nevando. Gostei de Lennie e de sua esposa logo de cara. Lennie era tão legal que eu não conseguia saber se ele era assim de verdade, mas ele era. Eles jogaram cartas, e fiz uma leitura com elas. Eu estava virando as cartas, perguntei sobre Lennie, ele surgiu como o Rei de Copas, fiz isso de novo e, mais uma vez, ele veio como Rei de Copas.

Então fiz um show em Yonkers, Nova York, em uma casa noturna que tinha sido um banco antigo, e Lennie foi me ver. Eu estava usando um tipo de suéter branco dos anos 1950 com uma saia estilo cocktail, meia arrastão e sapato lingback, e estava selvagem: era noite, eu não me importava, então agarrei minha virilha, joguei as pernas para cima e rolei (quando fiquei famosa e comecei a ver crianças pequenas chegando ao show, parei com isso).

Lennie não tinha certeza sobre o rockabilly que eu estava fazendo, mas gostou da minha performance. De repente, Dave estava fazendo coisas. Ele me apresentou a outro amigo dele chamado Gibby Silverman, um sujeito rico e muito legal que concordou em nos dar suporte por um tempo até que pudéssemos pagá-lo de volta. Isso me deixou nervosa, porque quando você gosta de uma pessoa, a última coisa que você quer fazer é pegar o dinheiro dela, mas concordamos com isso.

Eu me lembro que Dave e eu ainda não estávamos comendo muito bem, porque não tínhamos dinheiro. Nós dois vivíamos com US$ 200 por semana em Manhattan, o que era meio apertado. Às vezes, o plano era não comermos por um dia ou não comermos até a noite. Enquanto isso, eu estava passando por problemas legais com o ex-empresário da Blue Angel, que não nos deixava ir. Ele nos levou ao tribunal e nos processou para nos impedir de continuar sem ele. Ele queria tudo – todas as músicas, todas as demos – e a certeza de que eu continuaria sendo garçonete, e não cantora. Eu estava tentando quitar a dívida com ele e ele não ficaria com isso. Uma das coisas boas dessa época era um dos meus advogados, Elliot Hoffman. Ele era a cara de Nova York. Usava terno e tinha um bigode handlebar, me pegava e levava para o tribunal na parte de trás da sua pequena motocicleta.

O que entendi sobre a lei: o que era certo não tinha nada a ver com ela – o que era a lei tinha a ver com ela. Eram duas coisas diferentes. Eu disse ao empresário no tribunal: “Por que você quer todas as músicas? Elas nem são boas. Para que você as quer – chantagem?”. Todo mundo começou a rir, e o juiz disse: “Ordem!”. Mas eu tinha que dizer a ele: “Por que você está fazendo isso? Por que não aceita um acordo? Você poderia ganhar algum dinheiro e eu poderia seguir em frente”. Quero dizer, que pé no saco.

E, veja bem: ele conheceu minha família. Ele viu de onde vim. De que planeta distante alguém pode ser, onde no rabo dele, para pensar que, num impasse, não vou lutar até o amargo fim, como se fosse o amargo resto de sua vida de merda, bastardo? Ele sabia dos diferentes empregos que eu tinha. Ele entendeu que eu havia perdido a voz, disseram a ele que eu nunca mais cantaria e ele voltou. Ele entendeu a ferocidade com que eu cantava. Sempre vou cantar e ponto. Vou cantar até morrer.

Dave Wolff me disse apenas: “Mantenha o foco. Estamos lutando”. Fiz o que eles disseram e tentei ficar de boca fechada, então, no fim, o juiz olhou para mim e olhou para todos. Ele pegou o martelo, bateu na mesa e disse: “Deixe o canário cantar”. Foi exatamente o que ele disse. Ganhamos o caso.

Por fim, consegui seguir em frente, embora tenha tido que declarar falência após o processo. No entanto, tive mais reuniões com Lennie e finalmente assinei com ele. Era novembro de 1982. Eu achava que a Epic Records era uma boa ideia porque via o que ela oferecia e o que estava faltando. Eles não tinham uma grande estrela feminina.

Depois disso, Lennie disse: “Conheço um cara com quem você deveria se encontrar”, e me apresentou a Rick Chertoff, um produtor da Columbia Records que havia trabalhado com grupos como The Kinks e The Band. Ele procurava um cantor que pudesse cantar as músicas que ele estava colecionando. Eu disse que queria escrever, mas Dave disse: “Cante primeiro, depois você pode escrever”.

Então me sentei com Rick, que estava trabalhando com outra banda chamada Hooters. Ele tocou algumas das músicas deles para mim, e achei que, mesmo havendo dois vocalistas na Hooters, eles não tinham voz. Quando ouvi as coisas de reggae que eles estavam fazendo, tive uma ideia do que eu poderia acrescentar a eles.

Na primavera de 1983, entrei no estúdio para gravar She’s So Unusual.

“VOCÊ PODE PASSAR DIAS

EM UM TRECHINHO DE UMA

MÚSICA.”