Cyndi, minha história
Capítulo 2
EU QUERIA MUITO IR PARA UMA ESCOLA DE
ENSINO MÉDIO VOLTADA PARA ARTES performativas. No entanto, quando minha mãe foi discutir isso com meu orientador da oitava série, ele perguntou se ela queria que eu acabasse servindo mesas como ela. Ele a fez chorar com a ideia de que eu poderia acabar no lugar dela um dia. Aquele canalha – nunca gostei daquele cara. Então, essa suposta autoridade disse à minha mãe que, como nossa família trabalhava na indústria da moda e meu tio fez nome como modelista, a High School of Fashion Industries seria mais adequada para mim. Milagrosamente, passei no teste de admissão.
A melhor coisa de ir à Fashion Industries era a aventura de ir para uma escola de educação profissional em Manhattan no trem A. Passei muito tempo no metrô observando os passageiros de pé. Tive um grande prazer em fazer parte dessa comunidade. Manhattan não era nem remotamente parecida com Ozone Park, no Queens. Como estudante do ensino médio, eu estava vivendo a vida que minha mãe nunca viveu. Eu estava indo para uma escola em Manhattan! Meus avós entenderam tudo errado. Isso não tinha nada a ver com se tornar uma puta. Tinha a ver com ter cultura, educação e querer mais. Eu estava indo para a meca da arte, da música e da moda. Eu estava viajando todos os dias para um lugar onde as pessoas eram mais glamorosas. Talvez eles tivessem medo de que, se minha mãe se tornasse culta, ela não aceitaria estar “segura” nem ser “submissa”.
Nunca fui boa em administrar o tempo, então havia muitos momentos frenéticos. Uma vez cortei e costurei um vestido para a escola e corri os seis quarteirões até a Avenida Liberty, como sempre fazia, com sapatos altos e pesados, carregando meu portfólio na mão, meus livros embaixo do braço e uma bolsa no ombro. O vestido tinha as costuras do lado de fora, o que eu achava que estava bom – porém, a ideia de desconstrução ainda não havia se estabelecido. Devo ter sido um sinal.
Como calouros na Fashion Industries, os alunos faziam diferentes tipos de aulas de costura, como a aula de máquinas de costura elétricas ou a aula de máquinas para materiais finos. Fiquei um pouco deprimida na aula de calçados porque tudo que costuramos foi um estojo para faca com pele de bezerro. Também imaginei que a aula conduziria a um emprego em um sapateiro sob uma pilha de sapatos que precisavam ser consertados. Minha professora da aula de máquina de costura para materiais finos se vestia de forma muito antiquada, com uma saia reta na altura do joelho e uma camisa de manga curta com punhos, e sempre enfiava um lenço na manga esquerda. Ela me deu nota setenta e me disse que os nós no final da minha agulha com linha para costura a mão eram como torpedos.
A aula de arte foi o ponto de partida. Eu adorei de verdade, mas desagradei a professora. Ela queria que eu mudasse de lugar, não entendi por que, então eu disse que não mudaria. Aí ela disse que a única forma de eu passar seria levando doze pinturas até o final do semestre. Então pintei e pintei. E adorei isso. Eu ficava acordada a noite toda no meu quarto com a pobre e velha Elen na outra cama de solteiro ao lado da minha, com a cabeça embaixo do travesseiro enquanto eu pintava. Olhando para trás, vejo que fui muito egoísta por deixar a luz acesa. No entanto, minha irmã mais velha era uma boa perdedora. Usei aquarelas e tinta para cartazes, que era bem fácil de manejar sem um cavalete. Pintava no chão. Criei cenários de floresta à noite ou do jardim da minha avó, que era iluminado pela lua bem ao lado da janela do meu quarto.
Então chegou o dia em que entreguei com orgulho as pinturas à minha professora, mas ela estava sendo ameaçada por uma das garotas maiores da turma, que lhe disse que era melhor não fazê-la repetir de ano. A escola não estava exatamente no melhor bairro e sempre havia alguma questão com a qual era difícil de lidar. Como ela estava ocupada, eu disse: “Aqui estão as pinturas”. Coloquei-as na frente dela e saí.
Quando recebi meu boletim, ganhei um zero em arte. A professora disse que nunca recebeu nenhuma pintura minha. Eu deveria ter me lembrado de uma das fábulas de Esopo – aquela com a moral que diz algo como “sempre pegue um recibo”. Fiquei arrasada em perder todo o trabalho. Houve outros fracassos também, como minhas aulas de inglês e matemática. Passei a maior parte do tempo pintando e quase não fazia mais nada.
Todos me disseram para estudar muito, mas ninguém nunca me ensinou como estudar. Só me disseram que seria melhor aprender ou acabaria como todo mundo ao meu redor, o que foi muito perturbador. Apesar disso, eu nunca sabia por onde começar e sempre era uma tarefa assustadora que eu adiava, até acabar adormecendo. Havia momentos em que eu abria um livro e o deixava aberto ao meu lado, completamente aterrorizada. Eu estava muito ansiosa para estudar e me sentia fadada à reprovação. Então fui reprovada. Imaginei que, se fosse cair, poderia muito bem chegar ao fundo e ficar com o pior. Lembro-me de levar para casa um boletim escolar com notas muito baixas e o zero em arte. Acho que havia uma moral que eu deveria ter aprendido com essa experiência também, mas era difícil demais pensar nisso. Lembro-me do meu padrasto olhando para o boletim e dizendo: “Você foi reprovada em educação física? Isso não é como ser reprovada em almoço?”.
No entanto, antes de ser reprovada, fui colocada em algo chamado “aula para gênios sem êxito”. Uma professora de inglês lá foi realmente muito inspiradora. Ela trouxe uma música de Janis Ian e a apresentou como um poema em vez de letra. As melhores letras de música são poemas, e essa parte me interessou. O que inspirou minha professora de inglês a achar que valia a pena me ajudar era meu entendimento do romance O Velho e o Mar. Acho que ela não queria me jogar de volta na água, uma vez que ela viu como esse livro me chamou a atenção e como entendi as metáforas que ela tanto amava.
Acontece que, no fim das contas, não fui um gênio sem êxito – eu era apenas alguém sem êxito. E foi assim que entrei no anexo da Richmond Hill High School como caloura de novo. Minha irmã, Elen, era veterana nessa escola, sempre fui bem-vinda em sua mesa de almoço e lá não me sentia tão deixada de lado. Quando Elen se formou, fiquei com amigos mais jovens e fiz metade do primeiro ano de novo, mas fiquei muito deprimida. Só tinha reprovação atrás de reprovação. Comecei a sentir como se estivesse em um pesadelo recorrente e que em algum lugar precisava haver uma realidade diferente.
Para mim, os pequenos prazeres, como o pôr do sol ou o nascer do sol, ou quando as árvores floresciam, ou os pássaros cantavam, ou eu via as flores no jardim da minha avó, eram as únicas distrações que eu conseguia encontrar para continuar. Em meu íntimo, nunca senti que me encaixava neste mundo. Sempre tive um pé onde eu estava e um pé em outro lugar. Costumavam dizer que eu era apenas uma sonhadora. Realmente sonhava, mas também costumava escrever muita poesia e desenhar tudo o que podia.
Os poucos amigos que eu tinha depois de ter saído da escola se declararam gays e, quando saíram do armário, pensei: “Oh, sou gay porque eles são gays”. Então tentei. Uma das minhas amigas mais próximas disse que estava apaixonada por mim. Bem, não queria perder minha amiga, então dávamos as mãos e nos beijávamos, mas não era como eu estava me sentindo. Até li O Raposo, de D. H. Lawrence, mas não importa o quanto eu tentasse, não estava sentindo o que ela sentia. Eu a amava, mas não dessa forma. Eu tinha que dizer a ela a verdade: eu não era lésbica. Tinha que sair do armário como heterossexual.
Como a formatura continuava sempre um ano à frente de mim, e meu tempo extra no ensino médio começou a parecer o cumprimento de um mandato duplo em miséria, saí. Eu estava acabada. Tinha 17 anos. Depois que saí, tive alguns amigos que me ajudaram a esquecer minha situação. Uma delas era uma garota da vizinhança, Susan Monteleone. Ela morava na esquina, do outro lado da rua. Ela até tinha uma irmã mais velha da mesma idade que a minha irmã. E, o melhor de tudo, ela tocava violão como nós e sempre foi uma violonista melhor que eu. (Sou grata só por conseguir tocar. Acho isso reconfortante, embora eu normalmente só toque dulcimer e apenas use o violão para compor. Eu até afino meu violão em quinta, como um dulcimer.) Susan também chamou atenção para o movimento das mulheres. Fomos juntas a uma manifestação pelos direitos das mulheres na estátua de Alice no País das Maravilhas no Central Park. Primeiro encontramos algumas mulheres que Susan conhecia em um hotel. Elas pareciam um pouco furiosas e algumas pareciam lésbicas hardcore. Uma vez ouvi que alguns homens mais velhos do meu bairro se referiam ao movimento de mulheres como “um bando de lésbicas furiosas”. Na época, achei que o que eles queriam dizer era que uma mulher só precisava transar e então ela voltaria rápido para o antigo esquema dos garotos. Porém, quando escutei essas mulheres falarem, parecia que elas tinham muitas razões para estarem furiosas. Elas estavam falando sobre direitos civis para todas as mulheres, direitos delas e meus também. Isso estava além de todos os estereótipos – isso era revolucionário. Susan estava conversando com uma mulher que ela conhecia e, quando todos começaram a sair para ir ao parque, alguém disse que poderíamos ir com elas na limusine.
Havia muito tumulto e excitação no carro. Susan e eu estávamos praticando o que diríamos e o que queimaríamos ao longo de umas algumas semanas. Susan estava queimando os rolos duros de plástico em que dormiu por anos para deixar seu cabelo bonito. Isso eu entendi. Quanto tempo você consegue aguentar isso antes de jogar as malditas coisas fora? Isso foi emocionante, tão emocionante quanto andar na grande e longa limusine com todos esses diferentes tipos de mulheres, cuja simples conversa era a informação mais inspiradora que eu tinha ouvido em muito tempo.
Entendi tudo o que elas estavam falando naquela limusine e, na maioria das vezes, concordava. Porém, no fundo, eu secretamente ainda amava parte da moda que elas menosprezavam, mesmo concordando que existem elementos da moda que são antimulheres, como os saltos altos que nos tornam lentas. Estar naquele carro aos 15 anos foi tão intenso que eu nunca poderia dizer, no meu vernáculo do Queens de segunda mão, “I still love them shoes, though” [mas eu ainda os amo, sapatos].
Para o meu grande momento em frente à lata de lixo, levei um dos velhos sutiãs da minha mãe, que ela me deu depois que meu sutiã de adolescente ficou pequeno. Ele era pontudo e antiquado. Andei até a lata de lixo de malha metálica, ergui o sutiã velho da minha mãe e disse: “Queimo isso por mim, pela minha mãe e pela minha avó!”. Foi um bom momento na minha vida, compensou muito os momentos não tão vitoriosos. E também senti que minha mãe devia ter jogado fora o sutiã de qualquer forma.
Essa era uma nova época. Era a época dos protestos, de pensar livremente e ser livre, embora eu sempre achasse que essa coisa de “amor livre” parecia um mau negócio para as mulheres. Era livre, mas para quem? Digamos que você sentisse que queria todas as liberdades que um homem tinha e quisesse dormir com qualquer pessoa, certo? Você ainda era considerada uma vagabunda. E digamos que, como um homem, você escolhesse não dormir com ninguém? Então você era frígida ou lésbica. Você deveria ser capaz de controlar seu corpo e sua vida – como um homem. Mas o controle de natalidade havia entrado em jogo na década anterior. Na época, mulheres e meninas jovens estavam morrendo nos Estados Unidos devido a abortos ilegais e inseguros.
Susan e eu também formamos uma dupla folk chamada Spring Harvest (que diabo? Eu devia saber que não funcionaria. Não existe colheita na primavera). Ainda assim, foi uma ótima experiência. Nós nos apresentamos duas vezes juntas em um pequeno café no Queens, em uma estrada que ia de Woodhaven Boulevard até a Alexander’s Store, no Queens Boulevard. Era um lugar bonitinho, mas não pagavam e tínhamos que fazer nossos amigos irem nos ver. Mais tarde em minha vida profissional, eu conheceria esse esquema como uma situação “pay-to-play”. Em vez de a casa pagar você, você paga para eles ao levar seus amigos.
Em nossa primeira apresentação, um comediante fez a abertura para nós, e Elen e Wha foram com o amigo delas, Dominic, que perturbou o pobre rapaz. Infelizmente Dominic era mais engraçado que o comediante, o que era um grande problema. Quando fomos verificar tudo antes de o lugar abrir, o dono me disse: “Olhe, garota, não há microfones aqui. Mas há uma telha acústica no teto. Mire para lá, e todo mundo vai ouvir você”. Que eu saiba, as telhas acústicas controlam a reverberação do som e são usadas para fazer o ambiente ter um som melhor. No entanto, esse cara não tinha um teto inteiro de azulejos acústicos como deveria – ele só tinha um azulejo pendurado levemente na diagonal em um teto inclinado de cortiça, do tipo que o pai do meu amigo usava para fazer o acabamento do porão. Mirei na direção daquele azulejo não exatamente de um palco de verdade, mas mais de uma pista de dança de madeira no centro do lugar. Mirei e mirei a noite toda, especialmente nos trechos altos e suaves que cantei de “Thirsty Boots”, de Eric Andersen. O cara me fez acreditar que funcionava (ei, foi minha primeira apresentação). Engraçado como agora ainda posso mirar minha voz se precisar.
A dupla era uma distração e um contraste com a escola, a casa e minha irmã indo embora. De repente eu conseguia funcionar e me definir. Senti que talvez houvesse algo em que pudesse ser boa. Mas não deu certo, éramos muito jovens. Tivemos uma reunião com um agente/empresário uma vez. Susan o encontrou. Susan era uma dessas pessoas realmente informadas e de fazer as coisas acontecerem. Ela estava até escrevendo cartas para a mãe de Joan Baez. Acho que começou como uma correspondência de fã e depois aconteceu de ela pedir conselhos. E, para o crédito da mãe de Joan Baez, Susan recebeu respostas. De qualquer forma, tocamos para esse agente/empresário e ele nos informou que precisávamos ter alguns garotos na banda, para que, caso nos casássemos, não nos separássemos. Que diabo era isso?
Enquanto isso acontecia, eu ainda estava batalhando na escola. Sempre me lembrarei do zero que tirei em artes, porque me senti como um zero assistindo ao que parecia uma aula de arte remediada. Lembro-me de ter recebido uma pequena tesoura de ponta redonda, como aquelas usadas no jardim de infância. Me falaram para cortar o papel para fazer cones, que colaríamos com uma cola não tóxica (porque alguns alunos da turma já estavam intoxicados).
Então fui ao chefe do departamento de arte e pedi para não ser mais punida. Em vez disso, de alguma forma, falei do meu jeito sobre fazer o curso dele. Ele gostava do meu trabalho, então pude ir a um programa de arte na Washington Irving High School em Manhattan para um curso de verão, do qual realmente gostei. Mas, depois disso, voltei à Richmond Hill High School, sendo reprovada novamente.
Dessa vez, me colocaram em um programa diferente, para adolescentes que nunca vão para a faculdade, onde ensinam coisas como ser um arquivista, então foi o que fiz. O prédio tinha vista para as docas, e eu costumava olhar para os barcos e me perguntar como era ser rebocador. Em minha mente, eu estava vivendo a vida secreta de Walter Mitty. E, naquela doca que costumava ficar observando, escrevi um desejo em um pedaço de papel, dobrei em forma de barco e o joguei rumo ao mar nas águas do rio East. Desejei que algum dia encontrasse alguém como eu que fosse artista, criasse e entendesse. Alguém que se lembrasse da criança dentro de si. Acho que é como na música de Branca de Neve, “Someday My Prince Will Come” [Algum dia meu príncipe virá].
Cerca de quatro anos depois de ter ficado famosa, em 1988, a Richmond Hill High School me pediu para ir lá para um encontro. Como “pessoa famosa”, tenho muita correspondência e, às vezes, tenho tempo para abrir e ler. Naquela época, eu estava na roda de hamster (quando eu cantava “Money Changes Everything”, sabia exatamente o que isso significava). Uma das minhas amigas mais próximas, que também foi minha primeira publicitária, Katie Valk, estava sentada à mesa da minha cozinha no loft que eu tinha no American Thread Building. Ela trabalhou comigo quando eu estava na banda Blue Angel. Nós nos tornamos muito próximas na noite em que permanecemos juntas quando minha banda se separou. Com paciência, ela me ouviu chorar sobre isso em um bar no West Village e, em seguida, ela disse: “Não seja uma vítima”. E ela estava certa. Então segui em frente.
Katie trabalhava para uma firma de relações públicas chamada Solters/Roskin/Friedman e era uma das melhores publicitárias da época. Quando abri a carta de Richmond Hill me pedindo para ir a um encontro, eu disse para Katie: “Ah, claro – eles me expulsaram!”. Na época muitos famosos estavam recebendo diplomas honorários de ensino médio. Então Katie começou a rir e disse: “Você deveria ligar para eles e dizer que você só vai se eles anularem sua expulsão e lhe derem um diploma honorário do ensino médio”. Então eu disse: “Sim!”, mas nunca pensei que fariam isso. Que boba eu, eles fizeram. Então consegui uma roupa para a formatura com ajuda da minha estilista na época, Laura Wills, que disse: “Você deveria ter sapatos com frutas se destacando do seu vestido!”. Pensei: “Que piada”, e claro que fiz isso.
Minha mãe foi para a formatura e eu a vi com sua câmera Polaroid. Ela estava clicando furiosamente e me chamando da multidão. Ela estava muito orgulhosa por eu estar recebendo esse diploma. Ela tinha uma lágrima na bochecha quando andei pelo corredor e percebi o quão importante era esse diploma do ensino médio. Esse não era apenas o diploma de equivalência geral que consegui para o meu ano fracassado na faculdade. Não – era o diploma de verdade.
Minha mãe até fez uma festa de formatura para mim em um restaurante japonês no Queens. Também recebeu alguns de seus amigos mais próximos. Ela estava muito orgulhosa e disse: “Você finalmente chegou lá”.
Como adolescente, eu estava procurando por um eu melhor, ou um caminho melhor. Eu vivia dentro da minha cabeça: falava comigo mesma, sussurrava para mim mesma, cantava para mim mesma e entoava para mim mesma. Havia certas músicas que me ajudavam a sobreviver. Joni Mitchell tinha músicas sobre liberdade e algumas que ofereciam um refúgio que me permitia compartilhar minha solidão com a dela. Havia também uma música dos Beatles, cantada por John Lennon, chamada “Across the Universe”, onde eu sentia que vivia de alguma forma. Também comecei a ir muito a Greenwich Village.
Fui pela primeira vez ao Village quando minha irmã, meu irmão e eu éramos pequenos, e minha mãe costumava nos levar de carro. Ela dizia: “Vejam, crianças, esses são os beatniks. Vejam, esses são os hippies”. Minha mãe sempre adorou coisas exóticas. Ela não queria que tivéssemos a vida dela. Ela foi muito protegida e não queria que tivéssemos medo do mundo. Ela queria ser boêmia. Ninguém no Queens ia a museus, mas ela ia, e lia sobre arquitetura chinesa, iogues e Shakespeare. Mas ela é siciliana, e lá eles têm uma mentalidade que oprime as mulheres.
Minha mãe era bem legal. Quando eu tinha 11 anos e os Beatles foram para Nova York, minha mãe levou minha irmã, sua amiga Diane e eu para o Belt Parkway, onde o Hilton Hotel fica perto do aeroporto, para que pudéssemos ver os Beatles passarem, e nos deixou lá por um tempo. Ela sabia que não iríamos correr no trânsito. Então esperamos. E esperamos. De repente, vimos carros chegando e eram eles. Comecei a gritar, fechei os olhos e, quando percebi que deveria abri-los, tinha perdido a oportunidade. Eu também estava bem vestida – calça pescador de jeans escuro com sapatos pontudos e uma camisa xadrez verde, azul e preta sem mangas, com um colarinho masculino feito sob medida. Nunca conheci um Beatle, mas vi Tony Bennett uma vez quando era criança na Feira Mundial de 1964-1965. Mais tarde, comecei a cantar com ele e disse: “Sabe, eu te encontrei uma vez na Feira Mundial. Você estava descendo a escada rolante e eu estava subindo. Acenei e você acenou de volta. Lembra de mim?”. Achei engraçado, mas acho que isso o assustou. Russ Titelman, um produtor que estava trabalhando comigo, disse que eu parecia uma stalker.
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Em 1970, saí de casa para ficar no apartamento de porão da minha irmã e da Wha, em Valley Stream, na Rua Ash, número 6. Naquela época todo o mundo estava lendo a trilogia de J. R. R. Tolkien, então costumávamos chamar isso de “hobbitshire”. Eu me lembro de usar uma calça jeans verde e uma camiseta amarela e pensei: “Os hobbits usam amarelo, verde e marrom e vivem num buraco no chão. Sou eu!”.
Minha irmã e eu tentamos fazer com que meu irmão de 11 anos morasse conosco também, mas minha mãe o levou de volta. Deixá-lo ir me matou. No entanto, na época, eu tinha que lidar com a minha vida e como viveria. E, para o crédito da minha mãe, ela voltou e me levou para comprar roupas para que eu pudesse conseguir um emprego. Devido à bondade da família de Wha, os Pepitones (sim, como o jogador de beisebol), de alguma forma sobrevivemos. O tio de Wha, Lou, mentiu por mim e me indicou um emprego como office girl em uma editora chamada Simon & Schuster, na Avenida Park South, 251 – na verdade, a mesma que publicou este livro em inglês.
Porém, para falar a verdade, eu era uma office girl do barulho. Tentei o meu melhor, apesar de não saber que diabos eu estava fazendo. Minhas roupas talvez fossem muito sexy. Eu usava um vestido de mohair um pouco apertado, porque era um vestido tipo suéter, botas de couro, cílios postiços e costumava me sentar à mesa desse jeito. Quando almoçava, voltava com uma cerveja. Não parecia bom – sentar na parte da frente com uma cerveja –, então chegaram para mim depois e disseram: “Você precisa se livrar da cerveja”. Eu realmente tentei muito, mas me enchi. Um dia eu estava no escritório da minha chefe e peguei o telefone para atender para ela e, quando desliguei, o telefone estava cheio de suor.
Eu estava lá há alguns meses. Isso foi meio difícil para eles. Além disso, eu dormia lendo a correspondência. Fazia o meu melhor para não dormir, mas achava terrivelmente chato. Não havia nenhuma janela na sala de arquivos. Nunca conseguia encontrar o que os telefonistas pediam. Muitos deles gritavam ao telefone. Alguns desligavam. Isso até a máquina de escrever elétrica chegar e eu só conseguir datilografar dezenove palavras por minuto e minha chefe me chamar em seu escritório. Ela era uma linda mulher negra, inteligente, elegante e muito gentil por ter me aguentado tanto tempo. Ela disse que gostava muito de mim, mas eu era a pior office girl que ela já tinha visto. E, lamentavelmente, ela teve que me dispensar.
Enquanto eu estava batalhando no meu emprego, minha irmã foi demitida do emprego dela (não sei bem a razão, mas o consenso era porque ela vestia a mesma coisa todos os dias). O pai de Wha era professor de violão e tocava em uma banda de casamento também. Foi difícil criar uma família dessa forma. Então a mãe de Wha dava uma olhada em nós e ajudava quando podia. Às vezes ela levava comida. Wha sabia fazer espaguete e sopa de ervilha, o que era muito bom. Mas a situação com comida e dinheiro não era boa. Então pratiquei não comer e aprender a não ter fome. A única coisa que eu não sabia era que, se você jejuasse, precisava beber muita água, o que eu não fazia.
Era inverno de 1970. Um dia, quando eu voltava do trabalho para casa, uma cachorrinha começou a me seguir. A cachorrinha parecia uma raposa e um beagle. Ela andou ao meu lado e nunca se desviou. Naquele minuto eu já a amava, mas não achava que poderia ter um cachorro. Não tínhamos dinheiro e as coisas pareciam não ter perspectiva na época. Mas a cachorra não desistiu. Ela começou a dormir à nossa porta. E quando Wha a viu, levou-a para dentro.
Wha a chamou de Sparkle, porque ela tinha uma marca em forma de estrela nas costas. Eu estava lendo O Pequeno Príncipe na época, e Sparkle parecia aquela raposa para mim. Mas, ao contrário da raposa do livro, ela não era uma raposa e também estava esperando filhotes e era inverno. Ela não seria colocada de volta na neve. Eu estava lendo outros livros além de O Pequeno Príncipe. Sidarta, O Hobbit, o livro de Paul Twichell sobre projeção astral e Grapefruit, que me recusei a queimar, mesmo que isso estivesse escrito na contracapa. Eu estava buscando mudar a forma de pensar o mundo. Eu estava tentando me tornar iluminada, acordada. Também tinham lançado um livro sobre groupies. O senso de moda deles era tão novo; uma grande mistura de rua e alta costura, que era tão nova para mim, porque de onde eu vinha a alta moda era Lord & Taylor e Gimbel’s.
Na época, a canção de Eric Clapton “Layla” era um sucesso. O álbum All Things Must Pass, de George Harrison, havia sido lançado, aquele com a música “What Is Life” e “Wah-Wah” (que, claro, impactou Wha). Escutávamos e dançávamos os álbuns e observávamos as capas. Discutíamos a vida, o amor, o que nosso futuro poderia ser. Elen e Wha tocavam violão. Eu também tocava violão e cantava ou tocava flauta doce. Mas Wha ficava frustrada em nos ouvir. Às vezes ela explicava como mudar as escalas, contando com a mão para encontrar as progressões certas (por exemplo, C, F e G é 1, 4, 5 na escala de C, mas muda para D, G e A na escala de D e A viraria 5. Entendeu?).
Às vezes ela ficava tão frustrada que nos pedia para calar a boca. Mas isso nunca me chateou, embora chateasse minha irmã, e ela acabava parando de tocar. Nunca liguei para o que as outras pessoas achavam da forma como eu tocava ou cantava. Eu ligava para a forma com que eu me sentia. A vida ganhava uma pausa quando eu sentia o som vibrar através do meu corpo, e não há nada tão reconfortante quanto certas notas que vibram através do seu corpo. Por exemplo, notas altas me fazem sentir como se estivesse voando alto, longe da briga, nunca olhando para baixo ou para trás.
Foi uma época diferente. Havia uma revolução cultural acontecendo. A Era de Aquário estava chegando. Os tempos mudariam radicalmente. O movimento pelos direitos civis havia chegado. Eu costumava ir ao Fillmore, uma casa noturna perto da Union Square. Dava para ir lá e, mesmo se você não entrasse, podia ficar na fila com as pessoas. Era uma cena musical, e elas eram tão legais quanto as pessoas no palco. Uma noite, Elvin Bishop e sua banda estavam fazendo a abertura para Johnny Winter, e o guitarrista convidado especial Rick Derringer abriu para eles. De alguma forma decidi ir. Eu também queria ver os groupies elegantes. Vi alguns deles em um muro na alameda e gritei para eles. Havia uma garota pequena e loira que gritou para mim de volta, dizendo: “Agora, quando eu disser vai, você vai. Entendeu?”. Eu disse que sim. Então, quando ela me disse para andar bem atrás do Johnny Winter e do Rick Derringer enquanto eles entravam no prédio, fiz isso. Eu os segui nos bastidores. Aí um cara muito agitado começou a me xingar. Seu nome era Red Dog e ele era o empresário da turnê. Ele me viu e disse: “Onde você estava? Você deveria estar no palco agora”. Ele me confundiu com uma backing vocal. Tentei falar, mas estava tendo problema para formar as palavras, e ele simplesmente me empurrou para fora do vestiário. Incrível que mais tarde consegui conhecer e trabalhar com Rick Derringer.
Durante esse tempo, eu cantava folk music e tocava violão folk. Havia os folkies e havia os roqueiros, e você simplesmente não os misturava, porque os roqueiros odiavam os folkies. Mas eu estava começando a perder meu gosto por folk e tinha ficado mais intrigada com o rock and roll, apesar de nunca ter pensado que poderia cantar isso. Lembro-me de ouvir Bonnie Bramlett, da dupla Delaney e Bonnie, e pensar: “Oh, minha voz nunca fará isso, está muito além do que eu posso fazer”.
No entanto, naquele dia, quando vi os cantores de backing vocal dos bastidores, percebi que poderia cantar rock também. Eles tinham um som simples em suas vozes e pensei: “Meu Deus, isso é realmente fácil”. Foi como se a poeira tivesse se dissipado.
Eu não pensava em cantar como uma carreira naqueles dias. Eu seria uma artista, mas tinha que ter um monte de empregos diferentes para pagar as contas. Quando me mudei para a casa da minha irmã e de Wha em Valley Stream, aprendemos onde poderíamos trabalhar e comer. Por exemplo, dava para ir ao templo hare krishna e, se você fizesse uma limpeza para eles, eles lhe davam comida. Foi quando George Harrison trouxe à tona toda a atividade hare krishna. Quando comecei a ver os hare krishnas pela cidade, eles tinham uma vibe boa. Eu gostava de todos os tipos de coisas espirituais e gostava do canto e da ideia de que um deus poderia ser seu amigo, em vez de todo o enxofre e fogo a que eu estava acostumada ao crescer como católica. Foi uma mudança revigorante dos gritos que eu ouvia do púlpito quando criança. Eu ficava lá tentando entender o que o cara estava falando e pensava: “Uau, veja o que Deus fez com seu filho, Jesus. Agora imagina o que ele vai fazer comigo. Nem tenho nada a ver com isso”.
Eu poderia lidar com um tipo de deus como Krishna. Um deus que não odeia mulheres e não as apedreja até a morte. Engraçado, sempre olhei para o céu representado em diferentes livros como minha ideia do inferno. Sempre pensei algo como: “Ok, deixe-me ver se entendi: enquanto eu estiver viva, você vai me torturar e negar meus direitos humanos como indivíduo e, quando eu morrer, esperando por um lugar melhor, eu também vou receber o mesmo tratamento injusto no céu?”. Não, obrigada.
Então eu limpava o templo – quero dizer, garantia a comida que serviam; ela estava cheia de açúcar, mas pelo menos eu estava comendo. Acontece que depois de sentir tanta fome e comer todo aquele açúcar, eu basicamente via estrelas. Quando eu estava limpando os banheiros, as fotos se moviam, ou Krishna piscava para mim, e eu ria muito, porque era engraçado. Mas, sempre que eu limpava o templo, sentia como se estivesse limpando meu coração. Então eles me chamaram de lado e perguntaram se eu queria me juntar aos hare krishnas. Eles sentiam que eu era especial, me disseram que o coordenador escolheria um marido para mim, eu me casaria com ele e teria filhos. A melhor parte foi quando eles disseram que, como mulher, eu teria que comer na cozinha com as crianças, enquanto os homens comiam na sala de jantar principal depois que eu os servia. Acabei rindo e disse: “Olha, eu sou italiana e já conheço essa história sobre mulheres como bens. Não quero mais essa merda”.
Vi minha mãe lutar a vida inteira, e minha tia e avó. Toda a mentalidade siciliana de manter as mulheres em casa só significava ajuda doméstica gratuita disfarçada de proteção e reverência. Ah, meu c*. Sempre pensei: “Você pode vender isso para outra mula que encontrar na estrada, mas não serei eu”. Quando eu estava crescendo, sempre considerei Gloria Steinem uma grande heroína, além de Yoko, então li A Mulher Eunuco, de Germaine Greer, e de repente as coisas começaram a ficar mais claras.
John e Yoko sempre falaram em ajudar o mundo. Quando eu estava morando em West Hempstead, vi uma fábrica vazia e pensei que seria um ótimo lugar para reciclagem. Então fui para a prefeitura argumentar. Mesmo que as pessoas argumentassem contra, quando voltei para fazer uma visita anos depois, havia um centro de reciclagem lá. Percebi que nunca dá para saber como você pode afetar a vida, mesmo que não se veja fazendo algo grande. Às vezes pode ser apenas ter uma ideia que faça sentido (mas algumas pessoas disseram que o centro de reciclagem trouxe ratos. Então, talvez não tenha sido uma ótima ideia).
Quando minha irmã, eu e Wha saímos de Valley Stream, encontramos um lugar em West Hempstead, em um novo complexo de apartamentos, bem em frente à parada West Hempstead na estrada de ferro de Long Island. O apartamento era bem bonitinho, exceto pelo fato de eu ter algumas companheiras de quarto das quais era difícil me livrar: baratas. Havia tantas que algumas delas eram albinas. Sabe de quantos milhares de baratas você precisa para ter uma albina? Continuamos pulverizando o lugar toda semana. Elas estavam nos armários da cozinha. Uma vez estavam na cama.
A época não foi tão boa. Os vizinhos mexiam com drogas e todo mundo se tornou namorado e namorada e eu ainda não tinha emprego e tinha dificuldade para comprar comida. Uma vez eu estava com tanta fome que olhei para uma imagem de Krishna e pensei por um minuto que ele estava me dando comida, então minha fome passou. Entendi isso como outro pequeno milagre na minha vida e talvez um pequeno agradecimento por limpar seu templo. De qualquer forma, foi uma bênção.
Continuei tentando conseguir um emprego e me manter nele. Finalmente consegui um emprego como garçonete no IHOP, no Hempstead Boulevard, do outro lado da estação ferroviária, a duas quadras de distância. Minha mãe era garçonete, e ela tentou me treinar, mas eu não era muito boa. Foi difícil trabalhar bem rápido. Recebíamos pequenos cartões com quadradinhos para marcar quando as pessoas faziam os pedidos, acho que para acelerar as coisas. Mas a impressão era tão pequena que eu continuava confundindo frango frito com torta de frango. E, deixe-me contar, não dá para acreditar como as pessoas ficam irritadas quando são servidas com frango frito em vez de torta de frango. Eu costumava pensar: “Os dois são frango, sabe! Além disso, não acho que seja mais saudável comer toda aquela massa na torta!”. Por fim, o gerente me puxou de lado e disse: “Olha, garota, talvez o trabalho de garçonete não seja sua praia. Que tal ser hostess?”. Eu lhe disse que precisava ganhar mais dinheiro que uma hostess e ele disse: “Sim, mas seus erros custam mais que o seu salário”. Estávamos sentados a uma mesa, ele se abaixou e começou a passar a mão nas minhas pernas. Eu me obriguei a sair de lá.
Então tentei outra coisa. A dois quarteirões do outro lado do apartamento, havia um lugar que enviava malas diretas com amostras de cosméticos e cupons. Era o tipo de lugar que poderia ter enviado aqueles absorventes internos que se transformavam em travesseiros e provocavam uma síndrome de choque tóxico nas pessoas. Eu ficava na minha estação e pegava amostras da esteira e as colocava em uma caixa. Enquanto fazia isso, eu começava a rir, porque é claro que eu não conseguia fazer isso rápido o suficiente. E havia um rapaz em um púlpito – na verdade, havia um púlpito com vista para todas as mulheres em suas estações – que fazia pequenas gincanas. Ele dizia coisas como: “E agora vamos ver quem consegue ser a mais rápida em colocar esses dez itens na caixa!”.
Então eu tentava acompanhar o ritmo cada vez mais rápido da esteira conforme os pequenos itens iam se acelerando. Eu pensava: “Ok, cadê a Ethel?”. O cara achou que não havia motivo para rir, então ele disse: “Ei, Lauper, tire esse sorriso do rosto”. Bem, eu não conseguia, e ainda não consigo agora. Acho que às vezes o único jeito com que consigo lidar com as coisas quando elas são tão ridículas e ruins é rindo.
No entanto, eu estava com muito medo o tempo todo porque coisas ruins aconteceriam. Quando eu era jovem, comparava a vida no mundo a um oceano. Eu não sabia como consertar o que poderia ou não ter sido culpa minha quando criança, mas eu sabia que se você estivesse sangrando, os tubarões viriam. Eu não tinha dinheiro para a condução, então pedia carona para chegar aos lugares. Pedir carona é muito, muito, muito perigoso. Pulei de carros e me envolvi em acidentes com homens dirigindo como idiotas. Nem sei como consegui sair viva, mas de alguma forma consegui.
Por exemplo, uma vez eu tinha uma entrevista de emprego e estava usando meia-calça e um vestido curto que minha mãe tinha feito para ser usado com calças combinando. Mas dava para usar a parte de cima como um minivestido, então fiz isso. E tudo que eu tinha era um sapato de salto alto que costumava usar no meu primeiro emprego na Simon & Schuster. Na época, eu não tinha dinheiro suficiente para comprar roupas íntimas ou sutiãs. E também não tinha dinheiro para chegar aos locais das entrevistas, mas precisava de um emprego, então pedia carona. Um cara parou e me pegou, mas depois não me deixava sair do carro – não até que eu fizesse sexo oral nele e ele em mim. Foi uma experiência ruim e senti que merecia porque devia estar parecendo uma puta.
Quando saí do carro, fui para a entrevista. Eu me senti atordoada e enojada e triste. Tentei responder todas as questões que me fizeram da melhor forma que pude, porque eu realmente precisava de um emprego. E depois, para voltar ao apartamento, que ficava a algumas cidadezinhas de distância, eu me lembrei de como vi os trilhos da ferrovia passando ao longo da rodovia. Então comecei a andar para casa ao lado dos trilhos do trem para não me perder. Deus, foi uma caminhada longa e quente naqueles saltos. Obviamente, não consegui o emprego.
Fiquei tão deprimida depois. Quando crianças, costumávamos ter um ditado: não nos sentíamos como merda, nos sentíamos como o chão em que a merda caía. Eu não sabia como fazer isso parar. Eu estava muito perdida. Eu nem conseguia descobrir por que tinha nascido. Continuei cantando as músicas de John Lennon na minha cabeça, aquelas que possibilitaram levantar e continuar, como “Across the Universe”. Cantei para mim mesma o tempo todo, porque ela tinha uma oração e isso me ajudava a libertar minha mente em vez de agonizar sobre a minha vida.
Eu tinha muitos subempregos quando morava em West Hempstead, mas, por fim, comecei a trabalhar na Burt’s Shoes no Roosevelt Field Mall. Isso foi estável por um tempo. Achava que fazia um bom trabalho às vezes. Conheci uma jovem alta e bonita que trabalhava lá também. Eu lembro que ela me disse uma vez que a melhor maneira de não engravidar depois do sexo era fazer uma lavagem vaginal, o que na verdade era o oposto do que você deveria fazer. Ela também me ensinou a roubar de uma loja de departamentos, colocando as roupas debaixo das minhas. Ela me explicou que era uma grande loja de departamentos e ninguém se chatearia muito.
Naquela época, eu não conseguia ganhar dinheiro suficiente para comprar um casaco de inverno. Nunca tinha dinheiro suficiente para comprar alguma coisa e comer e pagar aluguel. Chegar até o final do mês era uma luta. Eu também não podia pedir dinheiro à minha mãe, porque ela não tinha muito, e não havia mais ninguém a quem eu pudesse pedir. Então, a primeira coisa que roubei foi um casaco. Foi perto do Natal e estava muito frio. Depois roubei um vestido para Wha e uma saia para Elen. Só pensei “que se dane”, mas me senti mal fazendo isso. Eu nunca tinha roubado antes (e eu nunca mais roubei desde então).
Três semanas antes do Natal no shopping, o presépio apareceu. Sempre amei o Natal, e um presépio para mim era como um grande enfeite de Natal. Eu mal podia esperar para andar ao redor dele. E quando vi o bebê Jesus pensei em comprar para ele um grande crisântemo de aniversário. Então, no dia seguinte, durante o intervalo de almoço, fui ao florista no shopping, comprei um grande crisântemo, caminhei até a estátua do bebê e coloquei a flor na frente dele. Passei todos os dias para ver o bebê e se a flor ainda estava lá.
Ficou lá por duas semanas sem água e parecia tão fresca quanto no dia em que a coloquei. Eu não sabia se alguém havia trocado a flor de vez em quando, mas decidi tomar isso como um sinal – encarar como outro pequeno milagre que poderia acontecer bem debaixo do nariz das pessoas. Era como se aquele pequeno grupo no presépio estivesse me dizendo que alguém estava cuidando de mim e que algum dia tudo daria certo. Como minha vida passou por mudanças, nunca esqueci esse pequeno milagre. E toda vez que eu passava por um presépio perto da época de Natal, eu parava e cantava baixinho para o pequeno grupo. Às vezes eu parava na frente das casas das pessoas se elas tivessem um presépio e penso que meus vizinhos achavam que eu era louca. Eu era, um pouco. Acho que acabei levando a música “Little Drummer Boy” longe demais. E acho que isso assustava as pessoas também, então eu não recomendaria. Mas, às vezes, me lembro disso quando estou cantando no palco, e canto para o pequeno presépio novamente na minha cabeça.
Quando não havia grandes coisas acontecendo comigo – especialmente nessa época –, eu apenas tentava encontrar alguma felicidade nas pequenas coisas. Então, se eu estivesse limpando ou arrumando ou fazendo qualquer outra coisa, tentava ficar naquele exato momento e aproveitar as pequenas alegrias de realizar a tarefa. Eu acreditava, naquela época, que tudo estava vivo e tinha uma vibração – até mesmo uma xícara ou uma mesa. E quando eu estava triste e não tinha esperança, pensava: “Bem, você pode ficar com a sua tristeza ou você pode dizer ‘Oh, olhe para isso, não é bonito?’”. Era assim que eu vivia. Nem sempre me lembro de fazer isso agora.
Uma vez vi uma mulher negra na Jamaica – Jamaica, Queens, quero dizer – quando eu ainda morava em casa. Ela estava indo para o trabalho e eu estava só andando, vindo do único lugar onde garotas podiam comprar jeans decentes, uma loja masculina, e não quererendo ir para casa. Eu estava apenas olhando para o céu e pensando como era bonito, e olhei para ela porque ela também estava olhando, e ela sorriu e disse: “Esse é o Senhor”. Achei uma linda colocação. Eu tinha começado a ler sobre diferentes religiões naquela época e isso me mantinha íntegra também. Tentei me ensinar a não querer nada.
Então continuei a não comer muito quando estava na casa da Elen e da Wha. Nunca tínhamos o suficiente para dar uma volta. Mas, como eu disse antes, eu também não estava bebendo água, então tive uma infecção grave nos rins e precisei ir ao hospital. Acabei no Hospital Geral de Hempstead, que eu achava horrível. Eles nunca iam verificar nada, então basicamente eu era uma chata porque nunca fui de sofrer em silêncio. Havia uma velhinha na cama à minha frente que me disse que tinha removido quase tudo dela e que não havia muito mais para tirar. Quando ela me ouviu fazendo piada com a enfermeira, olhou para mim e disse: “Olha, garota, ninguém gosta de espertinhos”. Então tentei ouvi-la, porque eu meio que gostava dela. À noite ela conversava com pessoas mortas e pensei que talvez ela não tivesse muito tempo. Então, por que chateá-la?
Depois eles levaram um padre. Sim, bem, isso me aborreceu. Eu não tinha certeza se ele estava lá para fazer um exorcismo ou o quê, mas fiz o padre me dar a comunhão. Ele disse: “Você tem alguma coisa para confessar?”. Olhei para ele e disse: “Não, porque não acho que pequei”. Eu sabia que o tinha pego num detalhe técnico; ele teve que me dar a hóstia e isso realmente o irritou. Acho que eu ainda estava brava com o fato de minha irmã e eu termos sido convidadas a deixar a escola católica pela primeira vez, quando eu estava na terceira série e Elen na sexta.
Enquanto morava no apartamento em West Hempstead, conheci um sujeito chamado Phil. Dormi com ele e gostei dele, mas eu estava com medo. Como eu disse, eu tinha medo de tudo. Eu tinha 18 anos – uma criança. Phil tinha 24 e eu sentia que às vezes não havia nada para falar. De qualquer forma, eu estava com muito medo de dizer qualquer coisa. Mas ele deve ter gostado de mim, porque ficava me pedindo para morar com ele.
Eu estava sempre esperando encontrar um companheiro romântico. Eu ficava com as pessoas pensando: “Tudo bem, esse cara?”. Sei que é uma forma estranha de pensar. Acho que pensava assim desde que fui dama de honra no casamento da minha madrinha. Eu tinha 4 anos e achava que estava me casando com o pajem. Claro que não funcionou para mim porque ele não gostava de dançar. De qualquer forma, Phil e eu acabamos encontrando um lugar juntos. Era a época do amor livre, e eu acreditava nisso por causa da parte do amor. Achei que poderíamos nos casar um dia como pensadores livres – como John e Yoko. Infelizmente, como no caso do pajem no casamento da minha madrinha, não deu certo.
Nunca fui boa no que Phil queria. Eu li que John e Yoko estavam em uma dieta macrobiótica. Então fiz feijão azuki e arroz integral e camarão com sementes de gergelim e molho de missô, enquanto Phil teria gostado muito de carne e batatas. Phil me queria apenas para cozinhar e limpar, e que eu parasse de gastar tempo desenhando o dia todo e fosse uma esposa, mas sem amarras. Pensei: “Tudo bem, uma vida adulta sem as complicações do casamento”. Então eu tocava violão e cantava e ele dizia: “Sabe, você é muito boa, mas nunca vai conseguir. Há tantas pessoas que querem fazer a mesma coisa e alguém precisa fazer o trabalho sujo”. Bem, para mim, esse foi o grande gongo para Phil. E, de novo, o que ele disse não me deteve. Realmente nunca me importei com quem achava que eu era boa ou com quem achava que eu era muito ruim. Eu ficava lá e tocava de qualquer forma até que as pessoas me dissessem para parar. Meio que entendo que, se estou cantando a mesma música várias vezes, só para acertar as inflexões, depois de um tempo alguém pode dizer: “Cyn, você pode calar a boca?”, mas parece que nunca dei atenção.
E, nesse momento, percebi que o sonho que meus pais tinham para mim não era mais meu. Mesmo que eu não conseguisse descobrir qual sonho era esse, além de apenas sobreviver. Embora eu fosse grata por eles terem se responsabilizado por mim, chegou um ponto em que eu tinha que levar minha própria vida. Eu estava em uma nova fase e percebi que, se eu conhecesse alguém que me visse como igual e com quem eu pudesse viver com felicidade, eu teria que aprender a viver por conta própria e me aceitar, para que outra pessoa pudesse me aceitar também.
Toda vez que eu cantava, sempre parecia que a divisão entre o mundo exterior e o mundo interior oscilava em uma linha muito tênue. Eu estava ciente de como era olhar para a vida de dentro para fora e de fora para dentro. É apenas parte do meu dom e eu tinha me racionalizado, como a maioria das pessoas que consegue fazer isso, e então percebi que precisava recebê-lo de volta. Sempre ouvi vozes. Sou uma cantora e ouço poemas na minha cabeça, é a forma como escrevo. Sempre pensei que era louca até que alguns anos depois meu namorado Richie me disse que às vezes seu dom também pode ser sua maldição. Não que eu pense que seja uma maldição, mas se você não entende como o cérebro funciona e não usa seus pontos fortes, então o que poderia ser um grande dom se torna uma maldição.
Por um lado, andar com um pé dentro e outro fora pode ser chamado de loucura. Mas, por outro lado, pode ser chamado de uma perspectiva muito necessária para criar. Tem sido uma ótima ferramenta para mim, seja para escrever, desenhar, cantar, atuar ou dirigir a arte. Estar em contato com suas entranhas e entender como enxergar de fora lhe dá uma visão mais ampla – que agora as pessoas chamam de “pensar fora da caixa”. Como um querido amigo meu, Bob Barrell, disse (você ouvirá mais sobre ele em um minuto), eu me tornaria uma estudante da vida.
Depois do emprego no Roosevelt Field Mall, trabalhei em uma pista de corridas. Eu era “hot walker” [“andadora quente”]. É bem o que o nome diz: você anda com os cavalos quando eles estão quentes. Eu nunca estivera perto de cavalos antes, mas isso não importava. Era um trabalho e amo animais. Eu cantava para os cavalos também, o que meio que os acalmava. Eu cantava canções hare krishna em seus ouvidos e caminhava ombro a ombro com eles. O nascer do sol sobre a pista também era muito bonito. Achei o cenário tão impressionante que poderia tê-lo pintado. A princípio, pensei que o trabalho seria perfeito para mim, mas os períodos de trabalho eram difíceis e os homens mais velhos odiavam as jovens porque elas tiravam seus empregos. Eventualmente, os homens mais velhos assustavam os cavalos quando eu entrava na cavalariça e, na última vez, um cavalo empinou, fiz o número oito no ar no fim da condução. Aquilo foi o suficiente. Não voltei e fui demitida.
Eu ainda estava morando com Phil àquela altura, mas a relação não estava indo muito bem. Pensei que o amava e me senti traída quando percebi que ele não me amava. Porque a única razão pela qual fui morar com ele era ser amada. Quando brigávamos, ele sempre me derrubava, ficava sobre mim e dizia: “Você não consegue ouvir?”. Comecei a pensar: “Isso não é uma boa ideia. Preciso sair daqui”.
Na época, eu visitava meu amigo e grande professor/mentor Bob Barrell. Eu o conheci quando estava sendo expulsa do ensino médio. Depois de mais um daqueles dias sem esperança encontrei esse improvável aliado, em um lugar improvável – sob a linha elevada em Richmond Hill / Ozone Park, Queens, na Rua 106. Eu estava caminhando para casa e lá, em uma pequena loja, todas as pinturas estavam na janela. Elas eram bonitas e tinham uma profundidade, alma e paixão dedicada a elas. Elas não apenas falaram comigo, mas gritaram para mim: “Acorde!”. Eram peças de arte genuína na vasta e desolada paisagem daqueles que estavam ocupados demais lutando para existir para se incomodar com cultura. Ao lado de uma pintura havia uma placa que dizia: ESCOLA DE ARTE, ANDAR DE CIMA. Então subi e encontrei Bob. Ele não só era um artista maravilhoso, como também um professor maravilhoso. Ele me ensinou a pintar e achou que eu tinha talento, e isso me deu uma nova coragem.
Além disso, ele me ensinou sobre história, política e vida. Deu um vislumbre de quem eu poderia ser. Um monte de desajustados ia para as aulas dele às terças e quintas à noite. Vai saber? Eu pensava que estava sozinha. Ele foi um grande filósofo e falou comigo sobre coisas que nunca aprendi na escola – sobre Gandhi e Martin Luther King e desobediência civil e Thoreau. Então eu voltava para visitá-lo e pintávamos e conversávamos.
Bob nomeou o que estava acontecendo ao meu redor. Ele dizia que as massas em dificuldades eram um “produto da miséria”. Ele disse que miséria gera miséria, a não ser que quebremos a corrente. E é daí que vem o título da música “Product of Misery”, que escrevi depois de todos esses anos, do meu álbum Hat Full of Stars.
Contei a Bob que Phil costumava acampar com meus outros amigos, mas eu nunca podia ir, porque não tinha nenhum equipamento. Mas Phil não sabia dos dois cheques de desemprego que eu tinha recebido depois de deixar o trabalho de “hot walker” e que havia comprado equipamentos de camping, porque pensei: “Dane-se, eles nunca me levam para acampar, estou indo acampar e vou deixá-lo”. Então consegui ajuda de alguns amigos para me mudar da casa do Phil, para que ele não tentasse me segurar e me chacoalhar ou o que quer que fosse.
Bob me ajudou a descobrir o que fazer. Ele disse que eu poderia ir ao Canadá, a um parque provincial e fazer um estudo sobre árvores. Todo mundo estava pedindo carona naquela época, e eu poderia viver com uma maçã e um dólar por dia. Então, naquela noite, nos ajoelhamos no chão da cozinha de Bob com o mapa aberto e ele me ajudou a traçar para onde eu estava indo no Canadá e como faria isso.
Contei à minha irmã, Elen, sobre a minha viagem, e ela achou que era uma boa ideia. Ela estava passando por um momento difícil também. Então pensei, embora na época eu nunca teria dito isso, que ela amava Wha (Elen é gay, mas se sentia pressionada a agir como hétero e estava morando com um cara chamado Mitch).
Fui para o aeroporto com minha cachorra Sparkle. Eu tinha 18 anos e nunca tinha andado de avião antes. Antes disso, levei Sparkle ao veterinário para ter certeza de que ela poderia fazer a viagem. O veterinário disse que a cachorra estava bem, mas perguntou se eu ficaria bem. Achei que estava bem, então coloquei Sparkle em uma caixa com alguns comprimidos para dormir e disse a ela que eu a veria do outro lado. Eu nunca tinha acampado na vida, mas não me importei. Não deixaria o medo me impedir. Eu tinha uma mochila cheia de equipamentos de camping e comida enlatada para humanos e cães. Tinha também alguns bastões de carvão para desenho e blocos de desenho, um bico de Bunsen, calças jeans e camisetas, uma tenda para filhotes e um saco de dormir amarrado na parte de baixo da mochila. Acho que nunca viajo com o essencial. Mas essas eram as coisas que Bob disse que eu precisaria. Paguei US$ 125 por aquela passagem e um machado – porque eu teria que cortar madeira. Meu assento era na janela e ganhei um sanduíche de atum. Achei delicioso e a aeromoça era muito agradável. Eu estava vivendo em grande estilo!
Quando aterrissei em Toronto, fui buscar a Sparkle. Lá estava ela, latindo e chacoalhando a cabeça. A coitada não deve ter se importado com o passeio. Eu nunca faria isso com um cachorro de novo, agora que sei o quão frio é o lugar onde ela estava no avião. Fui para a alfândega e uma senhora disse: “Alguma coisa para declarar?”. Eu tinha um pacote amassado de cigarros Marlboro no meu bolso e disse: “Nada além disso”. Fui prontamente enviada para uma verificação alfandegária mais intensa, porque ninguém gosta de espertinhos, como a senhora no hospital me disse.
Lá eles perguntaram sobre a minha viagem. Eu lhes disse que era uma estudante de arte indo ao Algonquin Provincial Park para fazer um estudo de árvores por cerca de duas semanas. Acho que eu era uma figura. Com minha cachorra a tiracolo, vesti a jaqueta de camurça marrom-avermelhada que eu havia roubado da loja de departamentos em Roosevelt Field no ano anterior e um chapéu de camurça marrom-avermelhado que levantei para poder enxergar. Eu usava calça jeans verde, uma camiseta amarela e bota de caminhada amarrada na altura do tornozelo (para que eu não o torcesse enquando estivesse no parque, como disse o homem que as vendeu para mim).
Eu estava tão animada e amedrontada, tudo junto, que mal conseguia ouvir o que o outro homem da alfândega estava dizendo, porque era difícil esperar para finalmente ir acampar. Pensei em todas as vezes que Phil disse que eu não poderia ir porque não tinha nenhum equipamento de camping, e agora eu estava indo acampar de um jeito espetacular. E estava indo sem ele e seus amigos – estava indo como a artista que sempre senti que era, aquela que tentava viver e pagar as contas em um mundo não artístico. Sempre me esforcei para viver em um mundo cuja língua eu não conseguia falar e não queria conhecer. Naquele mundo, tudo sobre mim estava errado.
Eu estava repetindo na minha cabeça o plano que Bob Barrell traçou naquele mapa que levou ao parque Algonquin, meu destino. Eu tinha que levar “Walden”, de Thoreau, e lê-lo. Era parte da minha tarefa, o que ele chamava de “andar no caminho como um estudante da vida”. Naquele caminho, não importava se eu era diferente ou estúpida ou perdida, porque eu iria me encontrar seguindo minhas próprias regras. Naquele dia, na fronteira do Canadá, eu estava a caminho de descobrir quem e o que eu era.
Meu plano era que Elen me passaria meu cheque de desemprego enquanto eu estivesse no Canadá, o que me renderia dinheiro suficiente para comer e ficar em albergues da juventude. Mas, naquele momento, tudo que eu tinha no bolso era US$ 25, e os agentes alfandegários disseram que eu precisaria de mais do que isso para entrar no país. Eles sugeriram que eu ligasse para os meus pais e pedisse para que eles adiantassem o dinheiro. Então liguei para o meu pai. Meu pobre pai não entendeu por que eu tinha que fazer as coisas que fazia. Quando liguei, ele disse: “O que você está fazendo no Canadá? E, antes de tudo, por que você está aí?”. Ele não podia se dar ao luxo de adiantar o dinheiro, e acho que ele sentiu que eu o deixaria numa situação difícil de qualquer jeito. Eu não deixaria, mas todos na minha família achavam que eu era um problema.
Quando meu pai não pôde me ajudar, fiquei um pouco chateada.
Tentei explicar para os agentes da alfândega, mas depois comecei a chorar um pouco. O engraçado desse grupo de agentes alfandegários foi que, quando eles ouviram como eu tinha planejado a viagem e o que faria, eles estavam torcendo por mim. Eles começaram a tentar descobrir como eu poderia fazer este estudo sobre árvores. Minha lembrança dos canadenses é de como eles foram gentis comigo quando eu não tinha nada e não era ninguém. Nunca esquecerei isso. Eles me permitiram entrar e disseram: “Olha, arranje um spray de insetos porque é junho, a estação das moscas”. Outro me disse aonde ir em Toronto para conseguir um albergue da juventude. Então me desejaram sorte e me deixaram ir. Eu estava apaixonada pelo Canadá.
Então peguei carona para o parque. Foi muito empolgante. Quando você está na floresta e não conhece nada, faz tudo de um jeito idiota. Como, por exemplo, escovar os dentes e cuspir na água. Eu não sabia. Alguém que estava passando por mim de canoa me lançou um olhar muito feio. Ok, cuspir na água: não é bom. Quando montei uma fogueira, eu me lembrei de como minha irmã e eu costumávamos assistir ao comercial “Careless Camper” [Acampador Descuidado], da Smokey the Bear, uma campanha de prevenção a incêndios dos Estados Unidos, e reencená-lo embaixo da nossa mesa da cozinha. Nós nos revezávamos sendo Smokey the Bear e o Careless Camper, acendíamos uma fogueira e depois dizíamos: “Só você pode evitar incêndios florestais”. Então minha mãe voltava para casa e nos perguntava sobre o novo ponto escuro debaixo da mesa, e eu dizia: “Não sei o que é isso, talvez você devesse usar Comet”. Estava feliz porque, antes de partir para o Canadá, Wha me ensinara a fazer uma fogueira adequada.
Eu estava com medo, mas a única coisa que sempre senti foi que não estava sozinha. Eu sentia como se houvesse alguma força protetora comigo. Desenhei, escrevi poemas, encenei coisas, me fiz rir. Em algum momento me abaixei na frente de uma pequena árvore e disse: “Acho que nunca verei um poema tão adorável quanto esta árvore”. Coisas estúpidas. Eu podia fazer isso porque eu estava sozinha e isso não importava.
Fiquei lá talvez por duas semanas. Eu queria me encontrar. Como eu disse, senti que nunca encontraria alguém que me entendesse se eu não me entendesse, então eu precisava fazer essa jornada. No fim das contas, é meio perigoso quando você pensa sobre isso. Não havia nenhum lugar em mim ou na pobre e velha Sparkle que não estivesse picado por moscas blackflies. Não sei como vivi (embora tenha levado aquele machado comigo e pudesse ter matado alguém que quisesse fazer algo contra mim). Foi um período interessante. Isso aconteceu ainda no final de toda a coisa hippie. Ainda havia pessoas que eram almas gentis.
Não sei como voltei do acampamento a Toronto, mas, quando cheguei, conheci um cara lá que tinha um ônibus e estava indo para Nova York. Era um ônibus mágico, como um ônibus hippie. Algumas pessoas estavam indo, então pensei em ir também. No caminho até lá, ele parou no rio São Lourenço e todos nós saímos. Tirei minha camisa porque nunca na vida eu tivera o vento batendo em meu peito como um homem. Pensei: “Uau, então ser livre é assim”. Depois coloquei minha camisa de volta e conheci um pescador no rio São Lourenço. Ele me ensinou a limpar e filetar um peixe. Isso foi útil mais tarde. Então, voltamos para o ônibus mágico com todo mundo e fomos para Nova York.
“FOI ASSIM QUE MELHOREI:
EU ME PERMITI
DESMORONAR.”