Cyndi, minha história
Capítulo 9
EM 1985, A VIDA FICOU MAIS ESTRANHA.
DAVE WOLFF OUVIU DIZER QUE STEVEN Spielberg estava fazendo um projeto com Huey Lewis e pensou: “Bem, por que não fazer algo com Cyndi?”. Steven havia escrito um novo filme, Os Goonies, uma espécie de filme de aventura para crianças ao estilo de Os Caçadores da Arca Perdida. Richard Donner seria o diretor e um dia Dave chegou para mim, todo animado, e disse: “Meu Deus, temos uma reunião com Steven Spielberg em Los Angeles. Ele quer que você faça a trilha sonora”.
Eu estava um pouco assustada. Eu nunca o havia encontrado. Eu sabia que ele era muito criativo e brilhante e eu era uma grande fã dele, mas, pelo que eu ouvia, ele também era um cara meio estranho. Eu estava preocupada em manter a integridade do que estava fazendo. Queria permanecer fiel à base de fãs que eu havia construído.
Significava muito para mim conhecer Steven, mas, quando cheguei ao seu escritório em Hollywood, parecia um lugar tão sexista. Não havia mulheres, exceto uma produtora chamada Terri, que era incrível. Não dá para acreditar como todos eles estavam falando sobre mulheres. Por exemplo, começavam a falar sobre escalar uma atriz e faziam comentários grosseiros sobre o corpo dela. Isso me fez pensar: “O que estou fazendo aqui?”.
Mas ficamos por ali e jogamos um pouco de conversa fora. Em um momento Steven disse: “Streisand cantou para mim uma vez”. Pensei comigo mesma: “Sim, mas eu estou aqui agora. Talvez pudéssemos conversar sobre isso?”. Então ele pediu lagosta para todos no almoço, o que me pareceu estranho, pois isso só atrasava a reunião ainda mais.
Porém, finalmente começamos a falar sobre o filme e como ele dirigiria o meu clipe para a trilha sonora, o que foi muito empolgante. A ideia dele era eu me apresentar na frente de um filme antigo projetado em uma tela verde atrás de mim. Fui aniquilada. O que eu deveria ter dito era algo do tipo: “Sabe, vim de longe para trabalhar com você, e eu esperava trabalhar com você em um cenário real – trabalhar em uma tela verde é meio desanimador para mim, mesmo que seja você”.
Mas eu disse isso? Não. Eu não sabia como ser diplomática. Então deixei escapar: “Isso não é muito criativo”. Todos ao meu redor se engasgaram com a lagosta. E, claro, eu tinha que continuar, então acrescentei: “Talvez pudéssemos fazer algo um pouco mais inspirador”. Ele se levantou e disse: “Acho que me disseram que eu não era criativo”. Então ele disse que não trabalharia mais no clipe – eu trabalharia com Dick Donner. Eu disse que tudo bem e ele saiu.
Eu nunca disse o que realmente queria dizer, mas sou assim: sempre digo as coisas erradas para as pessoas certas. Eu não tinha filtro e fui jogada nessas situações. Eu não sabia me misturar com os peixes grandes. Só sei fazer o que faço. Não tenho muitos amigos famosos. Trabalho todos os dias da minha vida, isso é tudo que faço. Eu vivo para o meu trabalho.
E, embora naquele momento eu devesse estar trabalhando no meu próximo disco, mergulhei na trilha sonora dos Goonies. Eu estava trabalhando doze horas por dia em Los Angeles, morando em hotéis de beira de estrada e ficando triste, porque era solitário e Los Angeles era muito exclusiva. Porém, eu estava trabalhando com artistas como Bangles e Teena Marie na trilha sonora, e isso estava indo bem até que Spielberg entrou e tirou a maior parte da música do filme. Aparentemente, ele sentia que havia muita música, então a trilha sonora não tinha sentido porque a maioria das músicas não estava no filme. A única coisa que acabou nela foi minha voz aqui e ali.
Apesar disso, nós nos divertimos muito gravando um vídeo de duas partes para o single do Goonies, algo que ninguém havia feito antes. Consegui que muitos lutadores estivessem nele, como Iron Sheik, Roddy Piper, “Classy” Freddie Blassie e André the Giant (que salva o dia no fim da parte 2). As Bangles faziam papéis de piratas e, na noite anterior às filmagens, tingi o cabelo de cores malucas no banheiro do hotel Sunset Marquis. Havia uma trilha de formigas na sala, em uma linha perfeita, como uma banda marcial – eram formigas de escola católica. Os vídeos deram muito trabalho, mas me importei de verdade com eles. Talvez esse tenha sido o problema – me concentrei em cada coisinha, fiz demais, e isso retardou as coisas e me deixou louca, mas não pude evitar.
Depois que os vídeos foram feitos, eles queriam que eu mudasse o título da música de “Good Enough” para “The Goonies ‘R’ Good Enough”. Eu não queria, porque achei que, se colocasse a palavra “Goonies”, ela soaria brega e ninguém iria querer tocá-la – e foi exatamente isso que aconteceu. Mesmo que eles a espremessem na rádio comercial, pelo menos ela se tornou um sucesso underground – porque há tantos garotos que são os Goonies. Mas eu estava tão incomodada por terem arruinado o nome daquela música que me recusei a cantá-la por anos. Finalmente comecei a cantá-la de novo há alguns anos.
No verão de 1985, fui a Nashville para uma convenção de rádio e nessa época descobri que tinha endometriose. Eu tinha um tumor do tamanho de uma toranja no estômago, além de outros bem pequenos. Fui para o hospital e os médicos ficaram dizendo coisas assustadoras como: “Precisamos operar agora”. Porém, quando me deram o formulário de consentimento que sempre dão para assinar antes de você ser operado, delineando os riscos potenciais e outras coisas, passei por isso dizendo: “Não vou fazer isso, não vou fazer isso e não vou fazer isso”. Eu disse à pobre da médica: “Quero que você escreva exatamente o que você vai fazer e rubrique. Você pode tirar toda a endometriose, mas não pode tirar mais nada – nem uma tuba, nem um ovário, nada”. Ela disse: “Isso é muito rigoroso – e se eu tiver que salvar sua vida?”.
Respondi: “Então me acorde”. Eu estava sendo cautelosa porque minha tia se submeteu a uma cirurgia para remover um caroço e tiraram tudo: seu seio, a carne sob seu braço. Ela ficou com cicatrizes para sempre. Acho que nunca tinham visto um paciente fazer o que fiz, mas eu sabia o que acontecia quando você assinava um documento e abria mão dos seus direitos. Eu ainda tinha esperanças de ter um filho e pensei: “Este é o meu corpo”. Parece extremo, mas eu tinha minhas próprias crenças e convicções, e viveria por elas – ou morreria por elas. Então a médica fez a cirurgia, retirou o tecido da endometriose (não havia lasers naquela época) e havia muito tecido cicatricial. Fiquei no hospital por pelo menos uma semana, então fui levada de avião para Boston, onde fui transportada de cadeira de rodas para um carro. Dave me levou para a casa do meu amigo e produtor Lennie Petze em Cape Cod para eu me recuperar. Lennie era muito gentil e toda a sua família me recebeu.
Depois de duas semanas, quando eu estava começando a andar, Bob Geldof me convidou para participar do Live Aid. Eu realmente queria ir, e Boy George estava me encorajando também, mas, naquele momento, meu estômago ainda estava distendido e eu mal conseguia me levantar. Demorou um pouco para eu me recuperar completamente, e a endometriose me fez entrar e sair de hospitais nos anos seguintes.
Como Os Goonies absorveram muito do meu tempo e depois veio minha doença, não comecei a trabalhar no meu segundo álbum até o outono de 1985. Aí me submeti a outra operação, e ninguém deveria saber que eu estava doente, então foi muito difícil porque primeiro tive que voltar bem de saúde para ter forças para trabalhar no álbum e depois me organizar de forma criativa.
Então Gregory morreu.
Ele me deu sua Miss Piggy enfeitada com contas quando morreu. Ele amava a Miss Piggy. Gregory e Carl enfeitavam com joias quase tudo que tocavam – até a mim. Depois do funeral, Carl, eu, Diana e nossos amigos Miss Aida e Bobby voltamos para o meu apartamento no Thread Building, no centro da cidade. Todos estávamos aturdidos pela tristeza, aí o afiador de piano chegou. Eu estava chorando um pouco – todos nós estávamos – e no meio de tudo isso estava o afinador de piano afinando o piano, nota por nota. Era a coisa mais bizarra, mas eu não podia falar para ele ir embora, porque eu precisava do piano para trabalhar no dia seguinte.
Essa foi a época mais triste. Porém, nesse momento, meu álbum estava atrasado. Então tive que ir em frente com ele. Para mim, a música era isso: você pega tudo em sua vida, coloca em seu trabalho e isso transcende e transforma.
Nesse período eu estava usando preto o tempo todo. Eu precisava disso para aguentar firme emocionalmente enquanto estava trabalhando. Foi então que ouvi uma pequena canção em uma fita demo que Anne Murray havia rejeitado. Tinha sido escrita por Billy Steinberg e Tom Kelly, e foi chamada de “True Colors”. Era uma espécie de balada country com toques de gospel. Ouvi a letra e a melodia e pensei: “Bem, se é um tipo de oração para as pessoas se sentirem melhor, então deve ser cantada como uma”. Sendo assim, pedi para Peter Wood (meu tecladista, que também fazia vários arranjos comigo) simplificar os acordes e tocar o tipo de acordes que tocávamos, quintas abertas, suavemente – não tocamos todas as partes do acorde. Eu queria cantar baixinho para Carl e todas as pessoas que amavam Gregory. Eu sabia que era especial, que era uma música de cura, e eu queria que nos curássemos um pouco.
Quanto ao arranjo, era importante criar um som de tambor arcaico, para que ele penetrasse no eu interior das pessoas – para chamar atenção para aquela impressão arcaica criada quando homens das cavernas ouviram pela primeira vez uma batida de tambor. Cantei as palavras quase num sussurro, e mantivemos a música de reserva porque, se o sentimento é muito forte, você não consegue exagerar. Precisei dar profundidade à música para poder falar com a alma das pessoas (em vez de cantar minhas entranhas, o que teria sido o caminho mais fácil). Eu queria criar um sentimento sobrenatural no rádio e trabalhei para fazer minha voz soar como se estivesse sussurrando em seu ouvido, mesmo que você estivesse ouvindo no carro. Para isso, usamos um processador Dolby. Ele traz o ar para fora e produz mais o som sssss.
Cantando em voz baixa e usando esse efeito, tentei ressoar com a menor e mais inocente parte de um ser humano, para transmitir esse sentimento pesado da forma mais delicada que pude. Usei o poder de ficar parada e não cantar para fora, mas cantar para dentro. A partir dessa experiência, aprendi que o peso de uma pena às vezes pode derrubar uma montanha, uma lição da qual eu me lembrei por toda a vida.
Gravamos a música ao vivo. Eu tinha muitas visões enquanto cantava, uma delas era de anjos no teto – a brancura e as asas. Também vi o público na minha frente. Com essas visões ao meu redor, cantei essa música de cura. Precisei sair do meu caminho e saber que não era sobre mim. Precisei ficar lá e esperar que os espíritos viessem, e permitir que eles passassem por mim. Sempre quero criar músicas que atraiam os espíritos, seja rock, hip-hop ou o que for. Alguns rappers fumam maconha para se colocar num estado que os faça esquecer para que possam se lembrar – entende o que quero dizer?
Mais tarde, quando “True Colors” saiu, foi muito difícil apresentá-la, porque eu estava na frente de todas aquelas pessoas empolgadas, estava empolgada também e precisava cantar a partir daquele lugar de emoção. Porém, quando cheguei a esse lugar, esse brilho veio do meu coração e percorreu meus braços e mãos. Ele fez um laço que me envolveu, como um abraço, e saiu para o mundo, fazendo a mesma coisa com a plateia.
Quando “True Colors” se tornou um sucesso, percebi que tinha realizado o sonho de Gregory – cantei algo sobre ele que se tornou popular, como “That’s What Friends Are For”. Eu não sabia que isso inspiraria tanto ativismo até que, mais tarde, em 1994, cantei no píer na Parada do Orgulho Gay em Nova York. No ensaio, quando eu estava passando a música, um homem de aparência gentil me entregou uma bandeira de arco-íris. Ele disse que se inspirou na música para fazê-la. Quando ele me disse isso, fiquei muito surpresa. Eu não tinha certeza se era verdade, mas envolvi aquela bandeira em torno de mim naquela noite e disse à multidão o quanto Gregory queria uma música famosa para ele – e era essa. Eu o vi na minha cabeça tão claramente. Cantei na brisa onde imaginava que ele estava e disse que ele tinha realizado o desejo dele, porque a comunidade tinha acolhido a música que eu cantava para ele e para nós. Ela se tornou um hino. Desde aquela noite em que cantei “True Colors”, nunca ouvi essa música da mesma forma. Nunca mais. Ela se tornou uma canção de cura, de inspiração para a comunidade.
Originalmente eu havia conversado com Rick Chertoff sobre a produção do meu segundo álbum, mas ele queria controlar tudo, enquanto eu queria coproduzir, para que eu pudesse crescer. Então acabei não trabalhando com Rick e, como não trabalhei com ele, não pude trabalhar com Rob Hyman, porque eles eram afiliados. Então lá se foi a banda e o som que criei com eles.
De qualquer forma, coproduzi o álbum True Colors com Lennie e dessa vez contratamos músicos. Eu me acostumei a sempre estar em uma banda e sentia que havia algo de errado em não estar. E, apesar de estarmos trabalhando com músicos muito bons, eu não sabia como articular nada com eles. Quero dizer, eu tinha Adrian Belew na guitarra, que foi o maior guitarrista de todos os tempos, e o fantástico Peter Wood, e Lennie trouxe Aimee Mann, que estava na minha gravadora, para fazer o backing vocal. No entanto, não dá para pedir para Adrian Belew tocar como os Four Tops ou entrar numa vibe melancólica – estamos falando de Adrian Belew, malditos! Ele estava na banda King Crimson! Vamos colaborar!
Escrevi com um monte de pessoas diferentes e me senti meio perdida. O bom de estar por baixo e tudo mudar é que você só pode passar de ruim para bom. Mas quando você está no topo e tudo muda, você se preocupa com o infortúnio seguinte. Mas eu queria continuar meu trabalho, não queria parar.
Fiz uma parceria com Tom Gray (ele escreveu “Money Changes Everything”) e começamos a escrever uma música chamada “A Part Hate”, porque eu era fortemente antiapartheid e estava muito aborrecida com a prisão de Nelson Mandela. O problema era que eu também tinha feito o cover de “What’s Going On”, porque eu amava Marvin Gaye. Com essas duas músicas e a faixa-título, de repente, True Colors se tornou um álbum muito pesado e sério. Além disso, a gravadora não queria “A Part Hate”, porque achavam que era muito político.
Não pude acreditar. Eles disseram que era mudança demais – que a “garota que só queria se divertir” não poderia de repente se tornar política. Eu disse: “‘Girls Just Want to Have Fun’ era uma música política – não dá para entender?”. Não gostaram. Estavam assustados. Eram muito medrosos. Fingiam ser politicamente conscientes, mas não eram ativistas de verdade. Então não pude colocar “A Part Hate” em True Colors (na realidade, demorei mais sete anos para lançá-la). Eu ainda acreditava que o rock and roll poderia mudar o mundo e tinha visto como isso fora feito. Causei um grande impacto no Japão e abri a mente deles, e o que eu não fiz Madonna e Janet Jackson foram lá e fizeram.
A gravadora vivia me perguntando: “Cadê a música no single ‘True Colors’?”. Porque o single era muito simples. Acho que eles queriam mais pop feliz. Mas quer saber? Diferente de muitas pessoas, vivi uma vida antes mesmo de ter 20 anos. E eu tinha passado por tanta coisa naquele ano. Fiquei no hospital, quase pensei que fosse morrer. Ninguém na gravadora, exceto Lennie, sabia que eu estava doente. Eu deveria ter falado para eles – deixá-los sentir que iam me perder. Então talvez teriam recebido meu segundo disco um pouco melhor do que receberam em vez de brigar comigo o tempo todo. Claro, havia alguns momentos mais leves no álbum também. Paul Reubens – sabe, Pee-wee Herman – era um telefonista do tipo “911”. Nós nos conhecemos em 1985, quando ele era o MC no MTV New Year’s Ball, e ficamos amigos rapidamente. Ele era uma pessoa tão fácil de se conviver, além de ser engraçado, e tínhamos uma sensibilidade parecida. Descobríamos coisas para fazer juntos na televisão, como jogar golfe em miniatura no Entertainment Tonight. Quando ele desenvolveu seu próprio programa de TV, Pee-wee’s Playhouse, ele queria que eu cantasse a música-tema. Eu disse a ele que cantaria, mas não poderia ter o crédito no meu nome porque ia lançar True Colors, que tinha um tom sério. Em nosso mundo superficial, as pessoas não podiam aceitar as duas coisas ao mesmo tempo. Então cantei a música-tema usando o pseudônimo “Ellen Shaw”. Aí Paul me mandou de volta uma fita hilariamente engraçada – eu cantando a música-tema e, no meio, ele dizendo: “Oh, não! Minha carreira está arruinada, oh não!”. Ele é um maluco. Eu o adoro.
Patti LaBelle, que se tornara uma amiga, deveria estar em True Colors também. Mas ela queria alguns royalties, e Lennie e Dave não fariam isso. Não dou a mínima para isso, mas concordei com eles e perdi a chance de cantar com minha amiga em um disco.
Eu a conheci quando estava em Los Angeles, quando fui a um de seus shows depois que minha turnê “Fun” terminou. Sempre fui uma grande fã de sua voz, e ela estava incrível, como de costume. Cheguei nos bastidores e lembro que fiquei lá apenas chorando, pois a apresentação dela tinha sido muito emocionante. Então ela me convidou para subir ao palco – imagine, totalmente sem preparo. Acho que ela estava cantando “Stir It Up” e acabei fazendo o backing vocal. Mais tarde comecei a cantar e improvisar com ela e nos tornamos amigas.
Ela teve um programa especial de Ação de Graças na TV em 1985 e me pediu para participar dele. Ela convidou outras pessoas também, como Luther Vandross e Amy Grant. Pobre Amy – no palco, ela era como um cervo diante de faróis. Às vezes Patti pode atropelar você com a música dela quando está muito envolvida.
Naquele especial, quando ouvi Patti cantar “Time After Time”, pensei: “Ok, cheguei”. Cantamos juntas: ela chamava, eu respondia e, para minha sorte, eu conseguia fazer o que ela queria que eu fizesse. Até fazer aquele especial, eu não fazia ideia de como meu trabalho afetava a comunidade afro-americana (eu ouvia muito que o público negro “não era o meu mercado”). Anos depois eu estava na rua e pessoas afro-americanas – carteiros, todos os tipos de pessoas – se aproximavam e diziam que se lembravam de mim daquele especial. Isso sempre me emocionava.
Também cantamos “Lady Marmalade” juntas. Como eu disse, na minha primeira banda, essa era a melhor música se tudo estivesse ficando alucinante – meus companheiros de banda diziam: “Vá lá e cante ‘Lady Marmalade’!”. Poder cantar com alguém cujas músicas eu cantava quando era criança, com cuja voz eu me conectava e que estava cantando uma das minhas músicas, foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Esse foi um grande momento para mim.
Enquanto eu estava terminando o trabalho no álbum, Annie Leibovitz fotografou a capa dele. Eu saía para as sessões de fotos, voltava e trabalhava no álbum. Às vezes ficava acordada a noite toda, então eu me exercitava porque precisava estar bem. Tentava não comer depois das 18h, porque tinha perdido muito peso quando estava doente e queria me manter magra.
Em seguida, gravamos o clipe para “True Colors”. O conceito é que sou uma contadora de histórias que bate um tambor africano enquanto uma garota é apresentada passando pela infância e pela idade adulta. Uma concha simboliza as mudanças. O clipe e a música são sobre aprender a amar e aceitar a si mesmo. Era para eu codirigi-lo, mas quando coloquei aquele enfeite estúpido na cabeça eu não conseguia nem me mexer. Então, Pat Birch, que também dirigiu “Money Changes Everything”, foi a única diretora.
E, mais uma vez, Dave estava no clipe. Eu queria mostrar a conexão espiritual entre as pessoas e transmitir uma vibração angelical, então nos tornamos solarizados quando nos beijamos. (Mas não acho que ele deveria ter aparecido na cena com o peito nu, puxando o lençol branco de mim como ele fez. Todo mundo zombou dele por isso.) Para a festa de pré-lançamento de True Colors em Nova York, convidei um monte de lutadores, porque eles faziam parte da minha família, ferrados como eram. Mas a coisa toda da luta livre tinha sido uma merda porque Vince e a equipe da World Wrestling Federation se transformaram nessas pessoas estranhas e gananciosas que expulsaram Dave e eu, então, não muito tempo depois da festa, decidi acabar com as coisas de luta. Ouvi muita merda dos críticos por estar envolvida com a luta livre, porque não era algo sério. De alguma forma, isso tornou minha música menos séria. Mas não acho que foi o caso e apoio a luta livre.
Depois que o álbum saiu, no fim do verão de 1986, fui de novo ao programa Late Night with David Letterman para cantar “True Colors” e eu estava bem surtada. Fiquei pensando: “Meu Deus, como vou me apresentar? Preciso ganhar todas essas pessoas e tenho que fazer isso em voz baixa, sem cantar com as entranhas”. Lembro que meu cabelo era amarelo brilhante com algumas extensões vermelhas – foi muito emocionante. Eu usava uma saia da Vivienne Westwood, um chapéu da Expo Mundial e uma linda camisa vintage de caubói que tinha vários tons de verde, bem bonita.
Para capturar o espírito da música, deixei o palco todo escuro. Como era uma canção de cura, segurei uma pequena ametista em forma de coração que não mostrei a ninguém. Estava muito amedrontada no palco e segurar a ametista me acalmou. Fui para um lugar que era de outro mundo, que me permitiu expressar minha mensagem: você quer se curar. Vá se curar. Assim, aprendi o poder de um sussurro.
As pessoas pegaram essa mensagem muito rápido e a música foi parar em primeiro lugar. No início da turnê “Girls Just Want to Have Fun”, alguns jovens que haviam fugido de casa começaram a aparecer na estrada. Eles nos seguiam em seus carros e às vezes nós os colocávamos para dentro e os alimentávamos ou conversávamos com eles. Eu me lembro bem de uma garota de 15 anos chamada Donna, que queria se juntar à nossa turnê. Seus pais eram muito rigorosos, muito cristãos, especialmente seu pai, que era realmente radical. Quando a pessoa é assim, tudo o que ela faz é afugentar os filhos. Então, nosso gerente de produção, Robin Irvine, que foi muito bondoso, trouxe-a para o meu camarim e me disse: “Você precisa conversar com essa garota”. Então falei com ela e ela me contou como seus pais eram rígidos e tinham imposto toda essa merda bíblica a ela. Acho que a Bíblia é o livro mais indecente que você pode comprar. Ele tem assassinato, incesto, estupro, apedrejamento, saque, guerra – todo tipo de coisa traiçoeira e horrível –, com uma inclinação muito sexista. Por isso não aguento ler isso (fico pensando: “Isso é brincadeira? É isso que você diz sobre as mulheres?”).
Fui criada como católica, como eu disse, e minha mãe foi expulsa da igreja porque se divorciou. Sua opinião sobre a religião fica mais negativa quando as pessoas dizem que sua mãe vai para o inferno, sendo que elas nem a conhecem. Então, quando eu era mais jovem, acreditava nessas coisas com ceticismo. Eu sabia que havia pessoas que usavam a religião para controlar outras pessoas, e decidi há muito tempo que isso não aconteceria comigo. Eu tinha 8 anos nessa época (sim, bem jovem). Sigo meu próprio código básico de conduta, que pode ser encontrado em todas as religiões, mas, na maioria das vezes, é uma questão de bom senso – faça para os outros o que você gostaria que fizessem para você. Eu disse a Donna que ela precisava se comunicar mais com os pais dela e quando ela tivesse 18 anos ela poderia viver sua própria vida. Passei horas conversando com Donna e a deixei dormir lá por uma noite, mas depois falei para ela ir para casa. Ela era uma criança. Eu a reencontrei nos anos 1990 e ela estava bem.
Mesmo tendo me tornado uma inspiração para os outros, eu ainda era eu. Eu ainda dizia coisas erradas para pessoas certas. Por exemplo, na primavera seguinte, em 1987, Dave e eu fomos convidados para um sêder em Los Angeles, oferecido por dois homens da gravadora, incluindo o executivo da CBS Records, Walter Yetnikoff. Havia muitas pessoas famosas lá, além de gente influente com suas esposas-troféu que mal falavam (e quando falavam era sobre o marido delas). Foi horrível porque precisei ficar com pessoas cujos valores eram muito diferentes dos meus. Eles eram tão republicanos que eu queria me matar. Definitivamente entendi a hierarquia de quem era quem. Os maridos estavam bajulando Walter, para não serem pisoteados por ele na frente de todos. Naquele ano o sêder caiu no domingo de Páscoa e eu estava lá pensando: “É assim que estamos passando a Páscoa?”.
A conversa incluiu assuntos como Warren Beatty dando papéis só para mulheres que lhe fizeram um boquete. Pensei: “Todas as mulheres ficaram completamente malucas?”. Então Julio Iglesias se inclinou para mim e disse: “Você é tão inteligente, mas você não gosta de mim”. Pensei: “Querido, não que eu não goste de você, você parece um cara legal, mas por que você está dando em cima de mim quando vê que estou com um cara aqui?”.
Também vi Bruce Springsteen e sua nova esposa Julianne Phillips, a atriz/modelo que não teve carreira depois ele. Grande erro se casar com ele. Grande maldito erro! Ela estava indo para algum lugar e, depois desse relacionamento, nem tanto. Sempre digo: “Veja um homem famoso, corra para outro lado”. A única pessoa que nunca se machucava por estar com um homem famoso era a Madonna.
Fiquei tão aliviada ao ver Bruce. Fui até ele e disse: “Meu Deus, não consigo nem acreditar que estou aqui, não conheço essas pessoas. As mulheres só conversam quando falam com elas e, quando falam, é só sobre seus maridos”. Julianne assentiu e disse: “Sim, eu sei”. Mas Springsteen me olhou feio. Ele poderia muito bem ter pegado uma faca e cortado meu coração porque, naquele momento, pensei, “Et tu, Bruce-ay?” [“Até tu, Bruce?”]. Eu me senti tão enganada que me tornei a americana chata para ele, porque pensei que era a pior coisa que eu poderia fazer para me vingar. Como uma pessoa de quem você quer se livrar, mas de quem não consegue se afastar, aí ela se aproxima, diz coisas desagradáveis e não para. Sou o tipo de pessoa que, se sei que você não gosta de mim e eu acho que você está sendo um idiota em relação a isso, vou chegar ainda mais perto só para chatear você. E, se ficar chateado, aumento a dose.
Bruce obviamente não queria nada comigo, então fiz exatamente isso. Bruce estava em uma mesa, parei na borda e disse alto o suficiente para todos ouvirem: “Bruce, por que você não faz um dueto com Placido Domingo? Você e o Placido poderiam cantar ‘Born to Run’ juntos”. Na época, estavam juntando pessoas estranhas para fazer duetos e poder vender um monte de discos. Eu só queria irritá-lo e funcionou. Ele me odiava, e eu o reprimi com unhas e dentes porque pensei: “Como você pode fingir estar bem com essas pessoas?”. Nos anos 1970, quando eu era uma faxineira ou uma babá que fazia camas, cantava com ele no rádio. Ouvia a forma com que ele escrevia e cantava sobre as mulheres e sabia que ele as entendia – nos entendia. Em vez disso, ele parecia tolerar toda aquela cena horrível e sexista. Patti Scialfa, sua atual esposa, é muito inteligente. Não é idiota. Não que Julianne Phillips fosse idiota – apenas achava que não havia luz suficiente para os dois.
Não encontrei Bruce desde então. Não quero mais conhecer ninguém. Não quero saber como as pessoas são além de sua arte. Quando você conhece as pessoas e elas são maravilhosas, é uma surpresa tão genuína e tão legal. Mas não quero me decepcionar. É demais para mim. E isso se estende a mim também. É por isso que digo às pessoas: “Escute, não confunda o meu trabalho com quem eu sou, você vai se decepcionar”. Tentei ao máximo fazer um bom trabalho e coisas boas, mas não sou necessariamente sempre fantástica como pessoa e, como digo, faço e falo muitas coisas erradas. Sou humana. Entretanto, fãs não pensam assim. Eu sei, porque sou esse tipo de fã.
“DECIDI QUE, COMO NÃO
PODERIA TOCAR AS
PESSOAS NA PLATEIA,
TENTARIA TOCÁ-LAS
VISUALMENTE.”