Cyndi, minha história
Capítulo 4
NÃO SAÍ DA BANDA, MAS ELES ME
DISPENSARAM DE QUALQUER JEITO. NÃO SEI
POR que e não me importo – eu não estava feliz. Não estava mais ouvindo o que eles diziam. Mas no fim foi bom, porque comecei outra banda chamada Flyer. Naquela época, muitas bandas foram me ver e fiz amizade com outros músicos, então, com a Flyer, éramos uma equipe ótima. Tínhamos um guitarrista chamado Jimmy, Richie na guitarra rítmica, Eddie no baixo (que ainda me manda e-mails) e Charlie na bateria. Seríamos roqueiros. Na minha última banda eu estava fazendo covers de Janis Joplin, mas nessa banda o som era mais parecido com o de Rod Stewart.
Acabei me apaixonando por Richie. Ele foi meu primeiro amor de verdade. Ele era engraçado e brilhante, era bacharel em língua inglesa e podia interpretar um protagonista perverso. Ele tinha muito potencial, mas era assombrado. Descobri que a maioria dos músicos é assombrada por algo ou alguma ideia com a qual estão sempre em conflito. Ele tinha pesadelos com o pai, que faleceu quando ele tinha cerca de 12 anos. Em seu sonho, seu pai, que tinha sido alcoólatra a maior parte da vida, estava em sua cozinha, rindo dele.
Richie morava com a mãe não muito longe de mim em Richmond Hill, Queens. Ela não teve uma vida fácil com o pai dele e estava um pouco amarga com a mudança de sua vida (quem não estaria, imagino). Porém, ela também nunca foi muito favorável quanto à escolha de Richie de tocar em uma banda. Ele poderia ter sido professor. Ele costumava falar sobre Shakespeare, e eu lhe disse que costumava assistir Shakespeare desde pequena e fui ao Delacorte Theater, ao ar livre, no Central Park, com a minha mãe. Uma vez, quando estava assistindo a uma apresentação no canal 13, Richie disse: “Cyn, você nem sabe o que eles estão dizendo”. Eu disse: “Sim, eu sei. Basicamente, ele disse que aquele cara é um idiota”. Ele não entendia que podemos entender Shakespeare sem traduzi-lo da forma como somos ensinados na escola. Existem muitas formas de ver isso.
Ele me ensinou muito sobre o que tornava as apresentações ótimas – por exemplo, se você cantar sempre uma nota alta em cada verso, isso tira seu valor especial (o que eu acho que estava fazendo na época). Em nossas longas viagens de ida e volta para as casas noturnas de Long Island em seu pequeno Volkswagen Karmann Ghia, ouvíamos o álbum Heros, de David Bowie. Ouvíamos muito Clapton também. Richie o adorava. Clapton era um deus para qualquer guitarrista na época, mas especialmente para Richie. Ele também adorava os Kinks e Elvis Costello, e eu também, assim como Miles of Aisles, de Joni Mitchell. Ela era uma mulher de sucesso que escrevia, produzia, dirigia a arte e fazia suas próprias roupas. Como não amar?
O Karmann Ghia de Richie tinha um buraco de 5 centímetros no piso do meu lado, onde ele me disse que uma vez colocou um aquecedor hibachi para manter o carro aquecido. No inverno, ele usava um cobertor para barrar o vento. O vento da via expressa de Long Island era realmente forte, especialmente quando os caminhões passavam. Tentei colocar meu pé nesse buraco uma vez para bloquear o vento, mas podia ver a estrada de forma tão clara que apenas mantive meus pés longe dele porque fiquei com muito medo de eles caírem de alguma forma (uma vez um cara gritou quando passou: “Por que você não arranja uma bicicleta?”). E nesta pequena carruagem de guerreiro conversávamos sobre sexo, vida ou o último show. Ou falávamos sobre como poderíamos aprender com os deuses do rock em cujos altares nos ajoelhávamos sempre que estávamos no palco cantando uma de suas músicas novamente.
Também conversávamos muito sobre o que fez com que David Bowie e Elvis Costello fossem ótimos poetas. Em especial Elvis Costello. Richie tocava sua música e explicava, com seu bacharelado em inglês, as referências literárias que Elvis usava. E, embora no fundo do coração eu soubesse que nunca escreveria como Elvis Costello nem seria tão boa quanto David Bowie, isso não me impedia de, todas as noites, tentar encontrar algo, alguma nota escapatória ou trechos que me ajudassem a pular da plataforma em meu fantástico mundo interior elástico, onde eu poderia ser Bowie ou Elvis por um instante. Isso foi o suficiente para eu continuar, porque, em meu coração, senti que talvez todos aqueles pequenos grandes momentos poderiam acrescentar um dia. Nunca houve nenhuma dúvida em minha mente de que eu cantaria para viver. Eu continuaria tentando aprender o melhor que pudesse, tanto quanto pudesse, sobre o meu ofício. Eu não me importava com o que as pessoas pensavam de mim porque, ao me apresentar, com esse estado de espírito, eu poderia ser quem eu quisesse e, por estar em um palco, isso seria aceito.
Uma vez, quando a Flyer fez um show, minha mãe foi nos ver. A apresentação foi na igreja da escola onde estudei até a terceira série – onde fui batizada e fiz a primeira comunhão e todo esse absurdo. Naquela época a igreja sediava danças, então tocamos uma dança do ensino médio. Depois minha mãe disse: “Sabe, Cyn, acho que você é muito boa. Você realmente tem algo especial”. Sempre soube que podia cantar. Ninguém precisava me dizer. Ninguém precisou me ensinar. Quando eu era pequena, as freiras da minha escola do convento ficavam fora de si e queriam que eu fosse cantora de ópera. Elas costumavam dizer à minha mãe que eu deveria ser treinada para isso. Então minha mãe teve a ideia de me colocar para adoção para as pessoas ricas, para que elas pudessem treinar minha voz (acho que é por isso que nunca gostei muito de pessoas ricas). Eu falava algo do tipo: “Mãe, eu não me importo com isso. Peraí, não vamos ficar malucas”. Minha mãe sempre me arrastava para tudo que podia – aulas de balé, aulas de sapateado, onde eu era desengonçada e dançava como um espantalho.
Havia pessoas que se aproximavam de mim e diziam que eu cantava como um rato. Eu não me importava, porque havia outros momentos em que era ótimo, e pude ver como eu tinha o poder de conseguir uma reação das pessoas. Eu ia para a multidão e fazia com que ela enlouquecesse. Eu subia nas costas de alguém e cantava ao mesmo tempo.
Tínhamos que fazer covers, covers e mais covers, como “Born to run” (nesse caso eu realmente soava como um rato porque nunca estava no meu tom). Eu sempre tinha problema porque tirava muitas pessoas dos bares da casa. Elas deveriam estar bebendo e, em vez de fazerem isso, iam para a frente e só assistiam – e isso era um grande erro. Eu deveria dizer coisas como: “Ei, bebidas por vinte e cinco centavos no bar!”, mas eu não promovia o álcool, porque quando Richie e eu dirigíamos para casa à noite depois de um show, eu via acidentes de carro.
Obviamente, esse não era o show certo para mim. Eu me senti um fracasso, embora Deborah Harry tenha me dito uma vez que, se eu tivesse ficado, estaria fazendo carreira em navios de cruzeiro até agora (o que é realmente horrível para mim, porque não sei nadar. Quero dizer, vi O Destino do Poseidon com Shelley Winters e ela simplesmente não ficou bem na água).
Não conseguimos vencer. Tocamos em uma casa noturna de praia em Hamptons, mas foi no meio do inverno e quatorze pessoas apareceram. Fizemos nosso primeiro show em Nova York, na famosa casa noturna Trude Heller’s. Não sei se eles nos pagaram ou não e não me importei, porque foi a primeira vez que as pessoas se sentaram e nos ouviram porque queriam. Muitos lugares em Nova York não pagam, como o Bottom Line (mais tarde, quando me pediram para ajudá-los, falei algo como: “E quando vocês poderiam ter ajudado alguns jovens artistas, mas, em vez disso, vocês não pagavam?”). Mesmo no CBGB, o dono, Hilly Kristal, não era um doce de pessoa. Ele também não pagava ninguém. Bastardo mão de vaca. Todos eles eram mãos de vaca – cumprimentavam com a mão fechada. Eles não eram muito gente boa.
Além de tentar preservar minha voz, comecei a me sentir doente, nauseada até a morte e com dor de estômago. Eu estava vomitando o tempo todo e, por fim, fui a um médico. Eu não podia pagar atendimento médico na época, então eu sempre ia para uma clínica onde um aluno me examinava com o médico atrás dele. Eu não poderia ter ficado mais surpresa quando o médico disse: “Olha, você está grávida”. Richie era o pai. Sempre me disseram que eu não podia engravidar porque meu colo do útero era retrovertido.
O médico falou que, se ele me desse remédio para melhorar minha doença, eu não poderia ter o bebê. Ele disse: “Pense no que você quer fazer”. E eu me lembro de dizer: “Apenas me dê o remédio”. Você precisa entender: na época, eu estava muito doente. Mas, depois, quando comecei a melhorar, eu queria essa criança. De repente, eu queria muito essa criança.
Quando contei a Richie que estava grávida, não lhe falei sobre o remédio, só para ver a reação dele. Ele disse: “Você sabe, podemos fazer um aborto. Eu estarei lá com você”. E, mesmo que eu já tivesse tomado o remédio, meu coração partiu porque não houve nem um pensamento para manter o bebê. Mas eu ainda amava Richie. Coitado. Bebia demais, fumava cigarros demais e, no fim, trabalhou numa parte do aeroporto que era muito tóxica, perto dos tanques de combustível, mas pagavam muito dinheiro para se trabalhar lá. Ele ficou doente e mais tarde morreu de algum tipo de câncer.
Então fiz o aborto. Depois sangrei muito e chorei muito, porque eu não conseguia acreditar no que tinha acontecido. A criança tinha quase 12 semanas – isso é muito. E eu a queria, mesmo se, com o remédio que tomei, o bebê pudesse ser deformado. Só queria ter sido mais inteligente na época, mas não era. Minha mãe também não queria que eu tivesse o filho. Ela achou que isso estragaria as chances na minha carreira, porque eu tinha 23 anos. No entanto, outras pessoas tiveram filhos e ainda conseguiram ter uma chance. Não sei. Eu costumava chorar por um longo, longo tempo, em um travesseiro que ficava manchado de lágrimas – como naquela música de Little Anthony and the Imperials dos anos 1950, lembra? Tears on my pillow, pain in my heart. Mesmo quando me tornei famosa, sentia necessidade de segurar aquele travesseiro, então eu o colocava dentro de outro travesseiro.
Quando eu estava sangrando muito depois do aborto, decidi ir para outra clínica. Nessas clínicas havia muito sexismo, besteira e arrogância. Enquanto o estudante estava me examinando, eu disse a eles que doía, e o médico falou: “Bem, em primeiro lugar, por que você não manteve as pernas fechadas?”. Percebi que, se você não era de uma família rica com um pai ou uma mãe para protegê-la, você estava à mercê da clínica e de um grupo de homens poderosos que estavam no comando. Porém, na faculdade, eu costumava ir para a Maternidade/Paternidade Planejada, e sempre foram gentis e generosos comigo, mesmo que eu não tivesse um pote para fazer xixi, então, quando eu tive dinheiro depois, dei a eles.
Mais tarde, fiquei muito feliz quando meu filho, Declyn, nasceu em 1997. Eu queria outro bebê depois dele, mas era improvável. Chorei de novo quando vi todas as minhas amigas que estavam grávidas ao meu lado esperando bebês de novo enquanto eu voltava para o trabalho. Por um longo tempo, sonhei que havia outra criança, uma menina, no assento de bebê para carro atrás de Declyn, dizendo: “Ei, Declyn”. Ouça, você não pode ter arrependimentos, porque tudo acontece do jeito que deveria acontecer.
Depois do aborto, tive que voltar ao trabalho. Como de costume, eu tinha contas para pagar e precisava de um “PA”, que é um alto-falante pelo qual o som da banda passa e um sistema de monitoramento em que você pode se ouvir quando canta. Isso tornava as coisas mais fáceis para a minha voz, que eu não poderia perder de novo. Um dos rapazes da banda me disse: “Nem todo mundo tem um tio rico, então muitas pessoas conseguem um emprego como go-go dancer. Elas ganham muito dinheiro, e você pode pagar pelo seu PA”.
Soou uma boa ideia. Por que não? Eu tinha feito todos os outros tipos de trabalho. Então me tornei uma dançarina de topless. Havia muitos lugares de topless no centro de Manhattan, mas as meninas novas geralmente eram enviadas para fora da cidade, então comecei em um lugar no interior, em Nyack, Nova York. Depois trabalhei em um lugar chamado Gracie’s Lounge, na parte industrial do Queens. Era como se fôssemos pole dancers, só que sem o pole. Meu nome artístico era Cenoura, porque eu tinha cabelos ruivos, e minhas performances eram de dança livre e bem criativas. Em vez de apenas balançar minha cauda de pena, eu fazia de conta que estava com alguém ou dançava. Eu costumava me colocar em algum mundo e contar uma história através da minha dança (e se ela contivesse sexo, as pessoas que assistiam não se importavam).
Algumas das garotas iam até os caras na plateia e pegavam dinheiro deles com os joelhos durante a apresentação, então eu tinha que fazer a mesma coisa. Era estranho porque os homens às vezes insultavam você. Eu me lembro que um homem, que claramente odiava mulheres, dizia coisas horríveis como: “Posso sentir o seu cheiro daqui”. Então, é claro, eu pensava: “Eu estou fedendo? Meu Deus”. Você tentava se limpar como se não houvesse amanhã.
Mas, quando eu estava no palco, a política era que ninguém poderia incomodar os artistas. Então, depois de dançar, você tinha que colocar uma camisola, ficar no bar e beber. Dançarinas não deveriam beber de verdade – em vez disso, nos diziam para pedir spritzers de vinho branco, e eles faziam isso principalmente com refrigerante. Então você tinha que ficar lá e conversar com os clientes. Alguns dos caras eram verdadeiros personagens. Eram motoristas de caminhão e trabalhadores de fábrica, e, para mim, a filosofia deles sobre as coisas era muito interessante, além de muito engraçada.
A cena toda era uma peça: os clientes, que tinham uma maneira específica de falar e agir; as pessoas que dançavam (que eram boas o bastante, mas eram todas estranhas); o pessoal da segurança; o dono da casa noturna; o barman, que precisava trabalhar no meio de garotas que dançavam em volta dele – todos eles eram personagens, falando sério. Eu amo falar com as pessoas, porque todas elas são livros ambulantes. Às vezes você só as encontra uma vez, mas elas são um capítulo. Então você tenta aproveitá-los. (É por isso que, mesmo quando você estiver no banheiro feminino, você deve sempre falar com a mulher ao seu lado. Quando você estiver no banheiro individual, pode dizer: “Ei! Não tem papel higiênico! Acho que vou deixar pingar até secar!”) Foi intrigante no início, então fiquei. E, claro, eu estava tentando ganhar dinheiro para o meu PA. Às vezes ganhava US$ 200 por dia, e isso era uma quantia alta. Até tinha um movimento que era minha assinatura. Eu fazia uma coisa acrobática, estúpida, em que ficava deitada de costas, então pegava minhas pernas e as colocava sobre meus ombros para que as pessoas pudessem ver minha bunda com o fio dental, depois eu balançava a bunda para frente e para trás, por isso era apenas uma bunda sem cabeça. Era muito engraçado para mim, mas sexy para os clientes. Era muito bobo, muito maluco, mas qualquer acrobacia que você pudesse fazer era uma grande vantagem para o seu show, porque, como eu disse, não tínhamos poles. Pense nisso: se você tem um pole, pode fazer muitas outras coisas. As coitadas que dançam agora precisam fazer “lap dances” – nós não tínhamos isso. Às vezes, se um cara quisesse algo extra, eu dizia: “Não faço isso, mas conheço alguém que faz”.
No entanto, depois de um tempo, fiquei realmente deprimida. Mesmo que eu estivesse fazendo isso pelo PA, pela música, isso estava me machucando. Parte disso parecia um lugar seguro para ser sexy, onde ninguém ia me machucar, e isso era libertador. Porém, as coisas que as pessoas diziam e faziam, como jogar moedas e pedir para você pegá-las (em que mundo de circo vocês vivem, pessoal?), me faziam sentir mal. Eu me lembro de quando dançava na casa noturna em Nyack. Gostavam de mim lá, e o dono me chamou em seu escritório um dia e disse: “Ouça, sei que você canta numa casa noturna, mas deixa eu falar uma coisa, você foi feita para isso. Você não pode tentar e ser algo que você não é. Você é ótima na dança, tem muito talento, só precisa se concentrar no que você faz bem”. Tudo que ele disse me fez perceber o exato oposto – que eu era uma cantora.
Então dancei até conseguir o PA, mas não consegui continuar fazendo isso por tempo suficiente para conseguir o sistema de monitoramento. Isso começou a me incomodar. Como meu trabalho no palco era seduzir as pessoas, comecei a olhar para os homens em minha vida cotidiana de uma forma estranha, só para ver se eu conseguia fazer isso fora do palco também. Daí pensei: “Oh, não. Ainda está acontecendo. Isso não é para mim”. Uma noite fui ao CBGB com Richie, o rapaz por quem eu estava apaixonada, e com uma das minhas amigas dançarinas. Estávamos indo apenas por ir – não que algo grande estivesse rolando por lá ou algo assim. Sempre tentávamos ver o que conseguíamos, porque era 1975 ou 1976 e uma cena musical estava começando a acontecer em Nova York. Notei que minha amiga começou a esfregar a perna dele. Ela também estava fazendo o lance de sedução com Richie.
Como eu ainda tinha os mesmos monitores de merda, não conseguia ouvir minha voz, mas, de qualquer forma, estava muito entediada com meu jeito de cantar. Pensei: “Ok, você ainda está fazendo covers de Joplin e agora está cantando Grace Slick. Se você cantar ‘White Rabbit’ mais uma vez, apenas atire em si mesma”, porque é isso que a galera queria no circuito de bares de Long Island.
Mesmo tentando tomar um cuidado especial com a minha voz, eu acabei perdendo-a. Fiquei arrasada e com muito medo porque tive que parar de cantar por dois meses. Não conseguia falar – tinha que escrever tudo. Três médicos me disseram que eu nunca mais cantaria. Enquanto isso, os caras da Flyer haviam contratado uma garota chamada Ellen para ficar no meu lugar. Quando eu a estava assistindo uma vez, notei que ela conseguia manter sua extensão vocal quando cantava. Quando eu fazia shows, sempre começava com uma extensão e acabava com nada no final, porque usava tudo. Perguntei a ela como ela conseguia cantar tão bem em sua extensão, e ela disse que havia estudado com uma treinadora vocal chamada Katie Agresta. Decidi ir até Katie e levei uma fita de covers de Joplin que eu tinha feito. Toquei a fita para ela e nunca vou esquecer o que ela me disse: “Tudo bem, mas onde está o seu canto?”. O que ela quis dizer e a forma como entendi a pergunta dela eram duas coisas diferentes. Katie achou que eu tinha levado uma fita de Janis Joplin, e não uma fita minha imitando Janis. No entanto, o que achei que ela estava perguntando era o que eu desejava – cantar minhas próprias músicas, na minha própria voz, no meu próprio estilo, músicas que eu mesma havia feito. Eu não estava usando minha voz a meu favor, mas antes que eu pudesse trabalhar nisso, tive que recuperar minha voz.
Ela me mandou para um médico que olhou minha garganta e disse que uma das minhas cordas vocais tinha entrado em colapso. Não aguentava mais. Ele me disse que eu não deveria estar cantando rock and roll e, por causa da minha constituição, eu deveria tentar country e western. Ele disse que as pessoas têm cordas vocais diferentes. Tenho uma constituição física pequena e sou branca, então tenho cordas vocais completamente diferentes do que, digamos, um homem grande ou uma mulher negra. Na verdade, sou uma soprano lírica, que é diferente do que normalmente canto, mas tenho uma grande extensão de três oitavas e meia, ou, num dia extraordinário, quatro. Então, apesar do que ele disse, eu queria usar minha voz desse jeito. Porque, quando eu cantava, havia algo em mim que era maior que eu e, de alguma forma, tive que aprender a usar o que estava dentro sem destruir o lado de fora. Eu só tinha que encontrar um jeito de consertar e manter e pensei que Katie poderia ajudar.
Então comecei a estudar com Katie. Ela mudou minha vida e estou com ela até hoje. Na verdade, eu a vi na terça-feira passada. Ela me ensinou terapia vocal. Um homem chamado Dr. Dwyer foi seu professor e ele desenvolveu essa técnica com base em coisas operísticas e terapêuticas que usou para ajudar cantores de ópera e da Broadway. Katie me ensinou sobre exercícios vocais e aquecimentos, e como a dieta afeta a voz, e os danos que o álcool e as drogas podem causar.
De qualquer forma, fiquei longe das drogas, mas, uma vez em um show, alguém me disse: “Você canta bem – quer um pouco de cocaína? Isso vai fazer você cantar ainda melhor”. Claro, eu faria qualquer coisa para cantar melhor. Então experimentei e cantei bem por uns dois segundos, até que, de repente, não consegui mais cantar. Cocaína entorpece sua garganta, então você não sente o que está fazendo, isso explode suas cordas vocais e: fim. Eu me assustei. Não conseguia cantar e tudo que eu ficava pensando era: “Eu achava que essa pessoa gostava da forma como eu cantava”.
Sempre fui desconfiada em relação à cocaína. Quando eu tinha 14 anos, meus amigos e eu costumávamos ir a um parque na Rua 106 com a Avenida Atlantic. Os traficantes costumavam passar e distribuir cocaína, como amostras grátis, e nos dizer que não era viciante. Na época as pessoas não sabiam o que era.
Depois de descansar minha voz e, com ajuda de Katie, conseguir voltar, cantei em um show no Trude Heller’s. Eu adorava esse lugar porque era uma boate (agora se foi) onde as pessoas não ficavam chegando umas nas outras, mas sentavam e ouviam música. De repente, elas realmente ouviam as coisas que eu estava fazendo. Por exemplo, “Magic Man”, a música da Heart – sabe as duas partes de guitarra que eles tocam nessa música? Cantei uma das partes de guitarra. Eu queria cantar como um instrumento. E as pessoas notaram e realmente gostaram de mim. Então, quando tive um gostinho disso, disse a mim mesma que queria continuar tocando em Manhattan e parar de cantar covers.
Tentei escrever com os caras da Flyer, mas eles eram uns tontos – toda vez que eu conseguia uma melodia, eles mudavam o acorde, de novo e de novo, e nunca chegávamos a lugar nenhum. Então, quando cantei no Trude’s uma noite, minha amiga Rose levou um compositor chamado John Turi, que também tocava saxofone e teclado. Nós nos demos bem e começamos a escrever juntos, e por fim acabei saindo da Flyer. John e eu formamos a banda Blue Angel, em homenagem ao filme de Marlene Dietrich. Passamos por várias versões diferentes da banda, com muitos guitarristas diferentes, e passamos também por vários tipos de sons antes de nos estabelecermos no rockabilly. John e eu escrevemos uma música chamada “Flyer” – que ficou com a Flyer. Na época, fui influenciada pela banda Queen e por Freddie Mercury. Mais tarde, mudei radical e totalmente em relação a essa influência e, quando tive a oportunidade de conhecê-los no auge da minha carreira, não o fiz. Mas eu era uma criança idiota. Sabe quando acha que algo é legal e depois não é mais? Na verdade, na época, eu tinha 30 anos – não era criança. Tudo estava atrasado para mim. É uma pena quando você não percebe o valor do que está na sua frente.
Na Blue Angel, gravamos fitas demo caras e ruins para enviar para gravadoras e tocamos em casas noturnas como Great Gildersleeves, que era (fisicamente e meio que simbolicamente) bem no quarteirão de baixo do CBGB. Gildersleeves nunca foi “o” lugar, nunca foi a “cena”. Em vez disso, era sempre o lugar do rock brega que tinha as bandas mais certinhas. E as coisas não correram tão bem com o nosso empresário depois de um tempo. Ele tinha investido dinheiro nessas demos horríveis e, depois de um tempo, queria o dinheiro de volta – não o culpo, mas não havia jeito de recuperar o dinheiro porque simplesmente não conseguimos nenhuma oportunidade.
Então, numa noite, em um show, ele ficou muito chateado, pegou o dinheiro que ganhamos e foi embora. Precisávamos de um novo empresário. Uma noite, quando estávamos tocando no Trax, uma casa noturna em Upper West Side, um cara chamado Steve veio ver o show. Ele era empresário da Allman Brothers e tinha ouvido nossas demos. Não que ele estivesse impressionado – ele achava que eram ruins –, mas de alguma forma ele fora persuadido a nos ver. Então John marcou uma reunião para eu conhecer um novo empresário no escritório dele, no centro da cidade (nem sei por que John não foi, mas ele não foi). Foi uma das reuniões mais estranhas que eu já tive. Eu deveria entrar às 17h e, quando entrei, todo mundo estava saindo. Isso foi um pouco assustador. Fui lá, me sentei e, enquanto eu falava, ele começou a coçar o canto da testa, perto do couro cabeludo. Então, quando sangrou, ele pegou a mão, limpou o sangue com o dedo e depois o colocou no mata-borrão em sua mesa. Pega, pega. Esfrega, esfrega. Seca, seca. Ele estava totalmente à vontade, falando. Depois que ele fez um padrão, pegou uma caneta e começou a desenhar em torno do sangue no mata-borrão. Eu não sabia quem era mais maluco: ele ou eu por estar lá. Fiquei pensando: “Ok, isso não está certo e vou ser morta”. Conversamos por um tempo e então eu dei o fora de lá muito rápido. Falei com John sobre isso e disse: “Escute, não podemos fazer isso”. Ele disse: “Ah, Cyn, vamos lá. Você não vai se casar com o cara. Ele vai gerenciar você, isso é tudo, e nós vamos chegar ao próximo ponto. Precisamos dessa ajuda”. Eu lhe disse que achava que ele estava errado, mas faria isso. Então ele se tornou nosso empresário e montou uma vitrine para a Blue Angel para todos os caras da indústria irem ver.
Acabamos conseguindo um contrato de gravação com a Polydor, uma grande gravadora, em 1980, o que foi muito empolgante. Havia muito entusiasmo em torno de toda a onda rockabilly, e isso estava realmente acontecendo. Nossa foto apareceu na revista Billboard, e o mundo parecia aberto para nós.
Apesar de a Blue Angel ter um contrato, já tínhamos passado por muitas versões da banda. Mesmo assim, estávamos convencidos de que essa última versão realmente aconteceria para nós. A essa altura, eu estava compondo com John Turi havia quatro anos e tentava chegar a uma fórmula que seria o som e o estilo da nova banda. Estávamos expandindo o pop rockabilly para um som pop rockabilly mais New Wave e ficávamos horas ouvindo Wanda Jackson, Elvis Presley, Elvis Costello, Police e Specials. John tocava para mim esses grandes cantores dos anos 1950 e 1960 que eu nem sabia que existiam, mas que soavam como eu.
Quando começamos a Blue Angel, eu estava morando em Woodhaven, no Queens, com meu irmão mais novo, Butch, não muito longe do apartamento da minha mãe na Rua 90. Toda noite que eu não estava trabalhando em uma casa noturna ou ensaiando com a banda, eu voltava para o apartamento. Finalmente ele estava morando comigo como eu queria fazer quando saí de casa. Mas, àquela altura, ele já não tinha mais 11 anos e era difícil morar junto quando já estávamos com vinte e poucos anos. Fiz minha parte de coisas idiotas, e ele também. Só que essa era a primeira chance dele de ser um adulto – e era a minha terceira. Eu já havia tentado morar em Long Island, Vermont, City Line, entre o Queens e o Brooklyn, e acabei voltando para a casa para minha mãe.
No entanto, depois saí do apartamento com Butch em Woodhaven e fomos para um pequeno estúdio em Manhattan, na Rua 77. Arrumei o lugar com todos os móveis e cortinas antigos da minha família e tudo que eu pudesse comprar barato (mas que tivesse uma aparência bonitinha) da McCrory’s, onde eu trabalhava. Foi um dos trabalhos diurnos que peguei. Geralmente eles não duravam porque eu trabalhava muito com a banda, mas consegui esse trabalho através de um amigo. Ele me disse que era meu primeiro fã e vinha me visitar há anos. Era gerente assistente da McCrory’s, uma loja do tipo Fiveworth, com produtos de cinco e dez centavos, do outro lado da rua da Alexander’s em Rego Park, no Queens. Ele me apresentou a uma mulher chamada Doris, que administrava um espaço concedido de joias na frente da loja. No Natal ela personalizava meias de Natal com cola e glitter e também vendia camisetas e você podia comprar a figura que quisesse. Ela passava a figura a ferro para fixar. Minha figura favorita era um desenho animado de um tipo de soldado de aparência encardida que tinha um balão saindo de sua boca que dizia: “Ainda que eu ande pelo vale da morte, não temerei mal algum, porque eu sou o pior filho da puta do vale”. Isso me fez rir. Doris me fazia rir, e a todos ao seu redor também. Gostei muito dela imediatamente. Ela era pequena e tinha cabelos ruivos brilhantes, a mesma cor que eu costumava procurar nas prateleiras das farmácias no início dos anos 1970 (e ela também não se importava que o meu fosse roxo e loiro). Ela tinha um grande sorriso e me lembrava das mulheres italianas que eu costumava ver na Avenida 101 no Queens saindo do salão de beleza. Ela e sua mãe (também uma falsa ruiva, embora a cor não fosse tão vívida quanto o cabelo de Doris) conheciam Barbra Streisand quando ela morava no Brooklyn. A mãe dela a visitava e me contava que a amiga dela, Barbra, morava no andar acima do seu – Barbra, que era igual a todo mundo.
Doris era uma mulher que sabia fazer muitas coisas diferentes. Às vezes, se eu tivesse um show, ela me deixava faltar ao trabalho. Eu estava um pouco atrasada para o trabalho – meus amigos sempre me chamavam de “a atrasada Cyndi Lauper” – então eu sempre estava correndo no último minuto. Mas Doris gostava de artistas. Na McCrory’s, meu trabalho era gravar joias baratas. Eu costumava praticar minha caligrafia em um prato para torta com uma caneta de gravura. As criancinhas ficavam animadas com o presente de Natal para a avó e levavam coraçõezinhos prateados ou folheados a ouro com pedrinhas de strass brilhantes. Elas me pediam para escrever: “Querida vovó, Feliz Natal e Feliz Ano-Novo, com amor, Tommy, Judy, Larry e Susan”. Então diziam: “Ah, e você pode colocar a data também?”.
Mas eu estava indo bem, e Doris, que era muito engraçada, gostava de mim. Ela me levou até a frente da loja em uma véspera de Natal, me fez fazer meias de Natal e me disse para começar a anunciar. Tive que dizer o mais alto que pude (o que foi bem alto): “Compre meias de Natal! Meias de Natal personalizadas!”. E o preço baixava no final do dia. Porém, eu me lembro de entrar no espírito com aquela cola e glitter.
Ela me pediu para furar as orelhas das pessoas também. Imaginei que poderia fazer isso porque, quando eu era criança, ajudei minha mãe a mobiliar a cozinha. Minha mãe sabia costurar e podia fazer qualquer coisa (lembre-se, todos nós viemos da indústria de vestuário). Então nós, crianças, a ajudávamos com o vinil e o couro artificial Naugahyde. Nós o esticávamos sobre a cadeira e grampeávamos.
Então, furar orelhas era apenas mais um grampo para mim, certo? Mas quando perfurei a orelha com os brincos e eles passaram pela carne foi totalmente diferente de perfurar uma cadeira. Esqueci que eu era realmente sensível – nem consegui cortar o sapo na aula de biologia – e meio que surtei.
Doris estava em algum outro lugar da loja e não havia botão de pânico. Eu estava tentando falar com uma senhora, mas não conseguia falar polonês como ela, e estava me sentindo meio nauseada e tentando chamar Doris de lado: “Doris. Doris”. Eu não podia deixar a senhora com a pistola de perfuração na orelha e ela era uma mulher grande, então ela começou a rir. Isso a fez balançar para frente e para trás, e a pistola de perfuração começou a balançar também, o que me fez sentir muito enjoada, então continuei chamando Doris.
A loja não tinha um sistema de comunicação. Em vez disso, tinha a Big Mary, que se sentava na parte de trás da loja, no escritório atrás de uma porta de correr, e abria e chamava a gritos quem quer que fosse na loja. Então Mary entendeu o que estava acontecendo, abriu a porta e gritou: “Doris, acho que a Cyndi precisa de você!”. Doris veio correndo pelo corredor, fez tudo ficar bem com a senhora e terminou a outra orelha, e eu nunca mais perfurei outra orelha na vida.
Doris trabalhava em dois locais: Queens e Greenpoint, Brooklyn. Comecei no Queens, mas mais tarde eles também precisaram que eu cobrisse a loja no Brooklyn de vez em quando. No entanto, foi no Queens que conheci duas mulheres mais velhas: Minnie e Margaret, a mais velha, de aparência mais doce e que tinha a boca mais suja. Elas eram conhecidas como “regressantes”. Nova York estava tendo uma crise fiscal na época, e as pessoas tiveram suas pensões cortadas, então muitas delas, com mais de 65 anos, de repente precisaram voltar a trabalhar. Meu chefe Steve, que havia me contratado, se divertiu muito com essas mulheres. E todos nós, porque elas eram histéricas.
Elas diziam coisas apenas para chocar você. Margaret trabalhava no balcão de alimentos. Ela parecia uma tia doce, mas depois chamava você de “chupa rola”. Quanto à Minnie, quando eu ia falar com ela, ela começava a conversar de um jeito bem normal – até que eu continuasse a questioná-la sobre algo que ela não queria falar. Então ela dizia algo como: “Olha, você parece uma garota legal, mas vá se foder”. Naquela noite de Natal, quando eu estava vendendo meias de Natal, perguntei o que ela faria à noite. Ela disse que esperaria pelo Papai Noel em um tapete de pele de urso, nua, sem nada além de um laço, um pouco de leite e biscoitos ao seu lado também. Ela disse que esperaria que o Papai Noel subisse em sua calha.
Minnie era uma mulher mais velha – tinha cerca de 70 anos. Não que o Papai Noel seja um cara jovem nem nada, mas Minnie era corpulenta, com quadris (muito) largos. Ela usava preto todos os dias. Pensando nisso agora, ela era meio punk e nem sabia disso. Seu cabelo era tingido de castanho-escuro e ela usava meias que ficavam acima do joelho. Ela sempre usava os melhores sapatos ortopédicos plataforma, que se pareciam com os que a Pearl Harbor (da banda Pearl Harbor and the Explosions) usava. Mais tarde, quando escrevi meu álbum de Natal, eu tinha uma música chamada “Minnie and Santa”. Era a Minnie.
Havia uma mulher que lembrava uma aparição sempre que entrava na loja. No primeiro dia em que a conheci, a situação foi desagradável. Eu estava vendo a chuva cair e saltar da cobertura do ponto de ônibus perto da esquina para a calçada. O balcão da Doris estava bem na frente da loja e, quando não havia clientes, eu podia olhar para fora das grandes janelas da frente. Bem, aí entrou essa mulher alta, de cabelo platinado preso em um coque francês atrás e cacheado na frente. E um lenço com estampa floral rosa e vermelha emoldurando o rosto e aqueles cachos altos na frente. Ela usava uma capa de chuva azul-cobalto brilhante e também o batom rosa e brilhante mais lindo. Era muito anos 1960 e eu disse a ela: “Uau, você está ótima”. E ela me respondeu: “Sempre uso minhas cores mais brilhantes nos dias mais escuros”. Meus olhos ficaram felizes em vê-la contra aquele dia cinzento. Por muito tempo, o que ela disse ficou comigo. Anos mais tarde, tinha isso em mente quando fiquei em frente ao velho museu de cera em Coney Island e tirei a fotografia para a capa do álbum She’s So Unusual. Pensei naquela mulher quando estava dançando descalça, num beco manchado de mijo, vestida de vermelho, contra uma porta amarela brilhante e paredes de tijolos azuis brilhantes que eu sabia que iriam contrastar contra o vermelho. Pensei: “No lugar mais escuro, jogue a luz mais brilhante”.
A melhor parte de trabalhar com essas mulheres foi o quão divertido elas tornavam o trabalho. Essas mulheres que eram gentis com você o dia todo e, no fim do dia, se tornavam despudoradas e grosseiras. Elas conheciam Steve, e eu as amava por toda a maldade delas. Sempre sentimos que elas eram almas afins e eu pensava que eu era extraordinariamente sortuda por ter esse trabalho e conhecer essas pessoas, e porque as pessoas que administravam aquela pequena loja de departamentos tinham gentileza e espaço suficientes em seus corações para contratar essas figuras. Havia muita personalidade e humor naquela loja. Agora não é mais a mesma. Tudo ficou tão corporativo que a humanidade fugiu dessas lojas.
Então eu passava meus dias trabalhando na loja de departamentos e minhas noites fazendo shows ou gravando e depois voltava para o meu apartamento no Queens. Eu pegava o ônibus Woodhaven Boulevard, depois fazia baldeação no London Lennie’s, um restaurante que minha mãe amava. Ela achava o camarão de lá incrível. Simplesmente amei o nome “London Lennie’s”.
Ir a qualquer um dos meus apartamentos era um desafio, porque eu sempre tinha toneladas de malas com toda essa tralha para os meus shows. Eu levava uma panela pesada de aço inoxidável com um fogão portátil para que pudesse aquecer minha garganta com vapor, porque estava muito preocupada em perder a voz, algumas pastilhas Vick e um massageador vibratório para o meu pescoço, para ter certeza de que ele não ficaria rígido, e vitaminas e sabe lá Deus o que mais.
Quando me mudei para a cidade, minha irmã, Elen, foi comigo. Nas caixas de correio, ela viu o nome de um amigo que fora seu vizinho. Ela havia perdido contato com ele e, incrivelmente, lá estava ele, bem no andar de baixo do meu apartamento. Então ela bateu na porta dele e disse: “Minha irmã está se mudando para o andar de cima – você pode ficar de olho nela por mim?”. Seu nome era Carl Eagleston, e foi assim que eu o conheci, e também seu namorado, Gregory, que se tornou um amigo muito próximo e mais tarde inspirou minha música “Boy Blue”. Ele era chamado de Blue porque seus olhos eram muito azuis. Eu nunca o chamei assim, mas sua prima Diana, uma mulher transgênero, e outra mulher que o tirou das ruas quando o viu dormindo no parque o chamavam assim.
Era 1980 e Elen acabara de se mudar da cidade de Nova York para Newport News, na Virgínia. Ela estava trabalhando como montadora de tubulações num estaleiro lá. El sempre quis aprender a fazer as coisas e passou a vida como uma exploradora, tentando diferentes empregos e estilos de vida. Acho que eu também. El e eu queríamos mudar o mundo para melhor, queríamos ser tudo o que podíamos ser (quem ia saber que o exército seguiria essa linha?).
El é um ano e pouco mais velha que eu. Quando éramos pequenas, as pessoas perguntavam à minha mãe se éramos gêmeas (principalmente porque ela nos vestia de forma parecida) e minha mãe respondia: “Quase”. Nem consigo entender que diabos isso significa, porque você é ou você não é. Algumas pessoas nos chamavam de gêmeas irlandesas [fazendo piada em relação à fertilidade dos irlandeses no século XIX, quando irmãos tinham idades próximas], o que é bem confuso, já que éramos italianas e alemãs/suíças. Seja lá o que for, minha mãe sempre disse que nasci para ser amiga de Elen e disse à minha irmã para sempre cuidar de mim. Quando éramos pequenas, eu levava tudo muito literalmente, e como Elen tinha que cuidar de mim, me tornei sombra dela. Por mais que ela tentasse afastar sua irmãzinha birrenta e exigente, que sentia necessidade de estar com ela a cada segundo, ela ainda cuidava de mim. Basicamente, pensei que precisava ter uma consideração especial por ela porque nasci para ser sua amiga. É uma longa história. Talvez seja isso que minha mãe quis dizer quando disse que éramos “quase gêmeas”. Eu provavelmente teria me espremido nesse mundo com ela se pudesse. Então aqui estava ela, mais uma vez cuidando de sua irmãzinha, que estava se mudando para a cidade grande pela primeira vez. E como El não poderia estar lá comigo o tempo todo, ela achou que Carl poderia dar uma olhada em mim.
Antes de conhecer Carl e Gregory, tive um sonho com duas velhinhas que viviam em um castelo cor-de-rosa reluzente. Quando os conheci, vi que eles tinham pintado o apartamento deles de rosa – como algodão-doce, rosa Pepto-Bismol, e colocaram espelhos estilhaçados na pintura. Foi a coisa mais incrível que já vi, e percebi que esses rapazes eram as duas velhinhas. Carl cozinhava e eu descia e comia com eles. Eu não tinha dinheiro, mas levava alguma coisa, e eles diziam: “Ah, não precisa trazer nada”.
Eu costumava usar muumuus, vestidos havaianos, com chinelos de dedo o tempo todo, e amarrava meu cabelo em um turbante. Carl olhava para mim e dizia: “Sra. Feeney!”. Ele achava que eu parecia uma sra. Feeney, então inventou o nome e me tornei essa pessoa.
Eles costumavam tocar muitos discos antigos e me mostrar como dançar o foxtrote. Tinham um apartamento e construíram uma “loft bed”, um tipo de beliche, mas sem a cama de baixo, e removeram a maioria dos móveis para que houvesse mais espaço para dançar. Colocavam travesseiros no chão e sentávamos de pernas cruzadas para jantar. Todo dia era um piquenique. Sempre mudavam a pintura no loft. Por exemplo, num ano era um terraço com jardim, então tudo era amarelo e verde vivos. Uma vez Carl veio ao meu apartamento, olhou para as paredes brancas e disse: “Cyn. Sra. Feeney. Olhe para este lugar. Você não é uma garota de parede branca. Vamos até a loja de tintas e descobrir do que você gosta, o que você é”. Então fomos até a loja e pintei uma parede do meu apartamento de ferrugem e as outras paredes de marrom-claro, e eu as cobri com uns vinte espelhos antigos e ele construiu uma “loft bed” para mim. Meu apartamento também tinha um chão inclinado, então sempre que você derrubava alguma coisa, ela rolaria para um lado. Então eles diziam: “A sra. Feeney está rolando de novo”.
Depois que me mudei para a cidade, fui à loja Trash and Vaudeville e comprei roupas de que gostava. Estávamos tocando em casas noturnas de Manhattan, e eu não queria mais me vestir como alguém do Queens. Comprei uma blusa vintage preta e branca translúcida bem bonitinha com um colete preto e calça drapeada com estrelas que tinha um visual meio Ali Babá, mas não tão severo. E eu ia para a Screaming Mimi’s, uma loja de roupas vintage onde mais tarde trabalhei, e experimentava roupas vintage, girando e rodopiando para ver como poderia me apresentar com elas e como elas ficariam no palco. Eu costumava sair e procurar as roupas, mas agora estou tão ocupada que tenho uma estilista que faz compras para mim. Considero o que ela traz para ver o que fala comigo. Ela e eu trabalhamos juntas desde 2004. Ela é uma estilista incrível. Sempre digo a ela: “Elegante, mas não conservadora – sempre”. E ela entende. Temos mentalidades diferentes. Para ela é uma questão de estilo, mas para mim tem a ver com a apresentação e como as roupas vão se movimentar quando estiver dançando no palco.
E é claro que sempre gostei de experimentar coisas novas com meu cabelo. Por exemplo, quando eu estava na Blue Angel, meu cabelo era castanho e loiro na frente, e eu o trançava, fazia diferentes rabos de cavalo e outras coisas. Fazia isso sozinha. A parte da frente do meu cabelo era loira só por causa do Ed da Flyer. Ele costumava me provocar e dizer que eu tinha bigode, então eu o tirei com pinça. Bem, ele voltou mais escuro, então comprei um produto de branqueamento da Jolene. Eu o coloquei no meu bigode e, enquanto estava agindo, eu estava me olhando no espelho. Havia sobrado um pouco de Jolene, então coloquei na minha franja, por isso a frente era loira e a parte de trás era castanha. O que era um bom visual, eu achava.
Houve um momento emocionante para todos nós. Uma estação de rádio promoveu o concurso “Ganhe um encontro com Cyndi da Blue Angel” de Dia dos Namorados. Então Carl, eu e outro amigo, John, que já faleceu, e todos os meus amigos coloridos do andar de baixo do meu prédio me ajudaram a desenhar um grande coração que dizia “Feliz Dia dos Namorados”, colocaram babados em volta e cortaram dois buracos para passar os braços. Quando saí, eu tinha um “coração em mim”, entendeu? Isso foi emocionante, porque foi o início de toda a arte performática que costumávamos fazer.
Fizemos alguns shows em Porto Rico, porque não havia muitas pessoas famosas dos Estados Unidos tocando em Porto Rico – na época, não havia voos diretos, então não era conveniente. Além disso, o país não era visto como um grande mercado. Porém, como eu não tinha mercado, não importava. Enquanto planejávamos a viagem, achei que, como nenhum famoso ia a Porto Rico, por que não nos vestirmos como famosos, agirmos como famosos e acenar para todos? Foi o que fizemos.
Eu me lembro que, na minha “chegada”, eu usava calça capri como a da capa do álbum da Blue Angel e meias estilo “bobby socks” com corações. Eu gostava de misturar padrões, como uma estampa e diferentes tipos de xadrez e, por algum motivo, isso costumava incomodar muita gente. Sempre achei que xadrez e estampa de leopardo combinavam, mas, só mais tarde, nos anos 1990, essa combinação se tornou aceitável quando Vivienne Westwood fez isso. Não que eu esteja dizendo que fiz isso primeiro – apenas fiz o que eu gostava. A Blue Angel uma vez recebeu uma crítica e a pessoa escreveu: “Eu não posso nem ouvi-la cantar por causa de suas roupas”. Não me importei. Eu me vestia como queria no palco, porque também havia pessoas que diziam: “Meu Deus, que voz”. Às vezes, quando eu estava no palco, tirava meus sapatos e dançava descalça porque conseguia dançar melhor (não sei se foi uma boa ideia, porque agora meus pés estão me matando).
Quando a Blue Angel abriu para Peter Frampton, comprei um maiô cor-de-rosa pequeno, estilo anos 1950, e um vestido verde com botões para usar no palco. Eu não podia sair do palco e trocar o figurino – precisava fazer isso lá mesmo. Então tirei o vestido durante o show e dancei de maiô. Ei, Debbie Harry fez isso em sua banda Blondie, e por falar em estilo: ela usava maiô com paletó, o que era muito sexy e ótimo. Ela usava um saco de lixo no palco e fazia parecer bom! Então improvisei também. Saía com óculos de sol e os tirava, ou um boné, e então tirava o boné e meu cabelo colorido ia se espalhando. Então eu basicamente tirava as coisas quando me apresentava, o que me fazia sentir mais livre emocionalmente também. Eu era jovem e magra e, quando você tem 27 anos, pode usar qualquer coisa e ficar bem.
Depois tivemos uma reunião durante o jantar com o chefe da Alemanha (a gravadora era uma empresa alemã), eles gostaram do nosso cover de “I’m Gonna Be Strong” e nos disseram que haveria um grande impulso para isso. O que foi bom, mas eles também me disseram que iam me transformar na próxima Streisand. Eu disse: “Ah, não. Vocês não podem fazer isso. Sou uma roqueira, por que vocês não transformam outra pessoa na próxima Streisand?”. Claro, como eu disse isso para o chefe da Polydor, todo mundo engasgou com a comida. Eles continuaram querendo fazer de mim uma cantora de baladas, porque eu conseguia cantar uma balada. Eu disse a eles: “Eu não consigo tomar tantos medicamentos para ficar parada por tanto tempo, ok? Posso fazer um agito melhor que a maioria e não vou deixar vocês prenderem meu cérebro e espírito”.
No entanto, o que realmente colocou um prego em nosso caixão foi a forma como nosso empresário organizou a gravação do álbum. Digamos que tivéssemos US$ 100 mil para fazer isso – bem, ele fez um acordo para ficar com qualquer dinheiro que não fosse usado, de modo que, se custasse, digamos, US$ 75 mil, ele ficaria com US$ 25 mil. Não é uma boa ideia, porque, no fim, não havia backing vocals, não havia músicos extras, nada. Só nós. O álbum poderia ter sido melhor do que foi se tivéssemos tido alguma ajuda. Porém, esse foi meu primeiro álbum. Eu não sabia. E a banda estava feliz.
O plano era nos introduzir primeiro na Europa, o que as gravadoras geralmente faziam na época. Então fomos para a Alemanha, onde uma mulher maravilhosa foi designada para nós. Ela geralmente andava atrás de mim e dizia “Schnell” (que significava “rápido”), com uma palavra gentil atrelada a ela, porque eu sempre tinha muitas coisas para carregar, como minha panela de vapor. Ela me ajudava da melhor forma que podia.
As coisas eram boas na Europa, mas quando voltamos para os Estados Unidos a Billboard decidiu que bandas como a nossa eram retrô e não as cobririam. Isso resultou em outra rodada de reuniões com a Polydor, que ficava me dizendo: “Você precisa deixar a banda”. Eu disse a eles que não. Produtores estavam querendo colocar um coro atrás de mim, mas apenas continuei dizendo não, não, não. Sentia que deveria ficar com a banda. Em outra reunião, um rapaz fez um gráfico de pizza e me disse como eu ganharia dinheiro se vendesse todas as minhas letras para ele. Sempre se ouviu de compositores mais velhos a maneira como eles conseguiram uma pequena parte dos lucros no começo e era isso. Eu tinha sido estuprada na minha primeira banda e abusada de todas as formas, e esse cara vinha me dizer como eu ganharia dinheiro se ele comprasse tudo que eu criasse. Eu sabia que ele era um canalha, se tivesse me enganado e tomado todas as minhas letras, eu não estaria ganhando dinheiro nenhum até hoje caso usassem uma das minhas músicas em um filme ou algo assim. Essa é a sua aposentadoria, John Turi costumava me dizer, quando você se torna um outsider – o que, para a maioria das pessoas, é inevitável.
No entanto, eu disse algumas coisas realmente desagradáveis.
Usei a palavra “N”1 em uma reunião, porque cresci ouvindo aquela música de John Lennon, “Woman Is the Nigger of the World”, e, nessa banda, eu sempre ouvia: “Você tem que ouvir o que o produtor está dizendo”. E também: “Cante o que disserem para cantar”, ou que a gravadora tinha “preenchido a cota” de mulheres. Então, nessa única reunião, eu disse: “Escuta, estou ouvindo o que você está dizendo, mas está vendo essa nigger aqui? Não vou fazer isso, encontre outras pessoas”. Porque sempre senti que as mulheres são a palavra “N” (especialmente no mundo da música) e, honestamente, se você olha para o mundo inteiro hoje, não mudou muito. Mas a palavra “N” vem com uma longa história de abuso e escravidão e horror, e não fui sensível a isso. Eu ainda estava na onda John Lennon e, como mencionei, estava sempre em outro planeta. E eu não tinha os recursos, não sabia lutar contra ninguém. Eles acharam que eu era racista, mas o que eu estava dizendo era que as mulheres estavam no nível hieráquico mais baixo. Você pode cuspir no fundo do barril e, no fundo, estão as mulheres e crianças. Mas essa sou eu – estou sempre dizendo as coisas erradas para as pessoas certas.
Outra vez tive um gostinho disso com Roy, nosso produtor musical. Havia uma música que não tinha saído tão boa, então queríamos conversar com ele sobre isso. Ele se virou para mim e disse: “Tenho uma ideia. Por que você não remixa sua versão, eu remixo a minha e vamos ver o que a gravadora acha – o que você acha disso?”. Olhei para ele e disse: “Acho isso uma merda, se você quer mesmo saber”. Então as pessoas que assinaram contrato conosco na Polydor saíram e contrataram um novo presidente. Eu me lembro de uma reunião em seu escritório. Sua assistente entrou e anunciou que estava com o novo single da banda The Jam e o colocou no toca-discos para todos ouvirem. Só que parecia que estava num ritmo muito lento. E todo mundo estava balançando a cabeça e ouvindo como se estivesse gostando. Olhei para o presidente da gravadora e para a assistente, que não ousava abrir a boca. Eu me levantei e fui até o toca-discos, vi que a velocidade estava em 33, e a gravação era 45. Fiquei pensando: “Certo, agora estou no mundo perfeito”. Então mudei para 45 e, de repente, surge a Jam. Os olhos do presidente se iluminaram e ele disse: “Ohhh”. Claro, talvez a coisa certa a fazer fosse não mexer em nada, mas eu estava curiosa para ouvir como era o verdadeiro single da Jam.
As reuniões não eram meu ponto forte, porque nunca fui boa em fazer o que a gravadora queria. De qualquer forma, não precisava ser um gênio para ver que a Blue Angel estava de saída.
1 Forma polida para “nigger”, termo extremamente ofensivo para se referir a pessoas negras (N.T.)
“EU QUERIA ME ASSEGURAR
DE QUE MEU PRIMEIRO
SUCESSO TIVESSE UM RITMO
ACELERADO.”