Cyndi, minha história
Capítulo 12
DAVID, DAVID, DAVID: PAUL SÓ FALAVA DISSO,
POIS TINHA UMA QUEDA POR DAVID (“Se ele for gay, ele é meu novo namorado”, ele disse). Ele investigou um pouco e descobriu que David tinha namorada, mas parecia que as coisas não estavam indo bem. Então, quando íamos jantar uma noite e Fora de Controle não dava transporte para David, eu disse: “Talvez devêssemos chamar o assassino e ver se ele quer vir conosco”.
Durante as filmagens, eu não queria ficar no extravagante hotel em Miami Beach com meu coprotagonista, David Keith, e o diretor. O quarto ficava sobre a água, mas nem sequer tinha uma vista. Então perguntei se poderia ficar no Eden Roc, nas proximidades, onde eu poderia ter uma grande cobertura agradável, com um alpendre e uma bela vista que custaria menos do que o quarto que tinham arranjado para mim, e eles disseram que sim. O único problema foi que às vezes eu encontrava baratas “palmetto”, comuns na Flórida, no meu quarto. Você já viu uma barata “palmetto”? Suas caras são tão grandes que você consegue ver suas expressões quando elas ficam de ponta-cabeça (eu disse isso uma vez, no elevador, o gerente também estava lá e ficou bravo porque eu disse isso na frente de alguns hóspedes).
Quando David Thornton foi me encontrar, ele fez uma coisa muito boba. Puxou a calça bem para cima, como Urkel, apertou minha mão com os ombros encurvados e disse: “Prazer em conhecê-la”. Então eu soube que ele era engraçado. Começamos a sair em um pequeno grupo com Paul, Louis e Marilyn, minha preparadora de elenco, e eu realmente adorava nossos momentos juntos fora do set. David é um ator sensacional (ele estudou na Escola de Arte Dramática de Yale), muito criativo e também muito gentil.
Quando todos fizemos a primeira leitura do roteiro juntos, passamos por uma cena em que meu namorado deixa o cara do serviço de quarto (interpretado por David) entrar em nosso quarto e ele chuta (ao estilo karatê) meu namorado pela janela e o mata. Depois da leitura, liguei para o quarto de David e disse: “Escuta, amigo, não por nada, mas você não vai chutar meu namorado assim. Vou falar para ele não atender a porta” e desliguei. Depois disso, ele começou a enviar bilhetes para Paul que eram supostamente da Madonna, dizendo-lhe que ele deveria ir trabalhar para ela, assim ele não teria que experimentar a comida dela como tinha que fazer comigo. Ele escreveu todas essas coisas engraçadas, e depois isso continuou. Uma vez saí com Marilyn e tirei todas as caudas de camarão do meu prato e as grampeei na parte de baixo de um pedaço de papel. Ficamos envolvidas com isso e rindo. Então recortei letras do jornal e as colei para formar o seguinte texto: “Querido assassino, por favor, não me mate – De: sereia”. Então coloquei isso na porta dele.
Essas brincadeiras iam e vinham, iam e vinham, e eram muito engraçadas e divertidas. Então encontrei outra carta maluca no meu camarim – só que esta não era tão maluca. Tinha sido escrita pouco antes do primeiro dia de filmagem e dizia que eu tinha toda a beleza e conhecimento dentro de mim para fazer isso. Qual o nível de generosidade de David ao dizer isso para mim? Louis estava lendo, se virou e disse: “Cyn, você sabe o que é isso?”. Eu disse: “Sim, é um cartão”. Ele continuou: “Não. É uma carta de amor”.
Em primeiro lugar, fui eu que fiz o diretor contratá-lo. Participei de todas as audições porque eu deveria estar envolvida; nós todos seríamos uma equipe. Vimos todos os rapazes que queriam interpretar o assassino, e então esse cara entrou e, por ser tão intenso, assustou tanto a leitora de roteiro que ela acabou deixando o papel cair. Olhei para ele e pensei: “Sim, ele é um pouco bonito, mas não é isso que torna um assassino ameaçador de verdade?”. Sua energia encheu o palco. Olhei para o diretor e disse: “Você sabe, é esse o cara, seja lá quem for”. O diretor puxou a foto dele e disse: “Não, ele é muito bonito”. Eu disse: “Olha, sempre dá para fazer uma pessoa parecer feia, mas você não pode fazer um cara feio atuar bem do jeito que esse cara consegue. Isso dá peso à história”.
Infelizmente, David Keith, que interpretou o protagonista masculino, estava passando por um momento difícil em sua vida, acho. Ele simplesmente não parecia ser ele mesmo, porque antes de trabalhar com ele, conheci um músico que o conhecia e disse que ele era legal. No entanto, ele não foi tão legal durante as filmagens. Por exemplo, eu ficava toda molhada depois de uma cena e ele pegava o aparelho de ar-condicionado portátil e o colocava bem perto de mim. E achei abusivo ele fazer a criança do filme chorar. O garoto era um ótimo ator mirim e, em vez de continuar a atuar depois daquele filme, acho que ele foi para a escola militar e depois para o exército.
Esse foi meu segundo filme e ele tinha a mesma atmosfera estranha do primeiro. Eu nunca conseguia sair impune, com um set fácil. E nunca encontrei um jeito de afastar as pessoas que tentavam me distrair de propósito. Eu ficava pensando: onde estão as malditas regras de etiqueta em um set de filmagem? Fiz esse filme para fugir da tumultuosa troca de guarda na gravadora e de todos os diretores corporativos que queriam colocar sua marca em mim e ser as celebridades no lugar dos artistas.
Então pensei: “Ok, vou para Miami e vou viver essas páginas nos próximos meses. Não sou mais Cyn, sou Cyd. Não sou mais loira. Vou fazer algo diferente”. Quando o diretor me disse para pintar meu cabelo de preto, como Louise Brooks, eu pulei. No entanto, quando o produtor viu, ele ficou maluco, então apliquei uma camada laranja para que parecesse castanho-escuro.
Comecei a filmar e percebi que era um saco estar com essas pessoas. O filme tinha um bom roteiro, mas, como eu disse, senti que o diretor estava sobrecarregado. Ele gritava no set e, se parecêssemos chateados, ele dizia: “Vamos lá, pessoal, isso é uma comédia! O que há de errado?”. Ele me lembrava o ator Eugene Levy em uma daquelas velhas esquetes de Second City Television. Eu pensava: “Isso não pode ser minha vida de verdade, pode? Será sempre uma comédia de erros?”.
Pelo menos eu me divertia com meus amigos e com David. Ele me ensinou como silenciar os idiotas ao meu redor ouvindo músicas que estavam conectadas à cena que eu estava prestes a fazer no meu fone de ouvido. Depois de um tempo, algumas sereias começaram a atacar David como gatos fazem com ratos. Um dia ele me contou de uma garota que era modelo, que lhe deu carona para a cidade porque ela ia para a aula de ginástica. Ele disse que ela trocou de roupa, colocando a roupa de ginástica, enquanto estava dirigindo. Ela deve ter soltado o volante de vez em quando, o que, considerando que ele estava no banco do carona (ou o que chamam de “assento da morte”), deve ter sido uma viagem e tanto. Ele ficava atrás de mim quando essa modelo aparecia, e ele dizia: “Oh, não, aí vem ela de novo. Foi essa que tirou as roupas no carro. Vamos lá, me faça esse favor, apenas finja que está falando comigo”. E eu dizia: “Ok, ok, eu vou falar com você”.
Depois de ver todas essas garotas dando em cima de David, pensei: “Quer saber? Eu sou Cyndi Lauper, droga! Se alguém vai conseguir esse cara, por que não pode ser eu? E daí se pareço uma garota de 12 anos debaixo d’água com meu top preto? Isso é só a luz. Deixe-me jogar uma luz sobre isso!”. Então coloquei uma túnica sem mangas bem bonitinha que usei para uma apresentação na TV em Madri – era vintage, com uma estampa ao estilo Paisley laranja e verde sobre seda com acabamento amarelo e um corpete pequeno. Fechei o zíper de trás, me olhei no espelho e disse a mim mesma: “Eu sou Gumby, droga!”. Arrumei o cabelo, passei batom, coloquei meu sapato Frederick’s of Hollywood e saí pela porta.
Todos nós abarrotamos o carro para ir a um restaurante, e é claro que não cabia todo mundo, então tivemos que nos sentar um no colo do outro. De repente comecei a sentir algo na parte de trás da panturrilha e pensei: “Que p–?”. Então percebi que era a mão de David e pensei: “Ora, seu sacana”.
Jantamos e andamos na praia. A lua estava cheia naquela noite. A lua parecia sempre uma grande lanterna pendurada sobre as ondas que chegavam em South Beach. David e eu estávamos à beira-mar. Estava ventando muito e eu estava com os braços abertos e o vento soprava meu vestido. Fiquei na beira da água, ergui os braços para os lados e disse: “Queria ser uma pipa”. Ele me perguntou por quê, e eu disse: “Porque eu poderia voar. Mas não seria tão bom, porque alguém estaria sempre puxando a minha linha”. Então ele olhou para mim, olhou para a água e disse: “Por que não ser uma onda?”. E, de repente, olhei para ele e pensei: “Quantas vezes conversei com pessoas que nem me ouvem? Aqui está um sujeito que não apenas me ouviu, mas conseguiu me responder de volta de forma poética”.
Voltamos para o hotel e David me deu um beijo de boa-noite no elevador. Voltei para o meu quarto e pensei sobre isso, porque éramos amigos e dávamos muitas risadas juntos. Então liguei para ele e disse: “Com licença, você acabou de me beijar?”. Ele disse: “Bom, sabe, eu geralmente nunca faço isso”. Ele parecia um pouco nervoso, como se estivesse colocando suas roupas de volta ou se movimentando pelo quarto ou algo assim. Então eu disse: “Por que você não sobe e termina o que começou?”. Acho que era uma fala de um velho filme de Mae West. Bom, funcionou para ela.
Então ele subiu e fizemos amor pela primeira vez em uma cama banhada de luar, ao som das ondas do oceano. Era Dia dos Namorados, 14 de fevereiro de 1990. Por isso, quando estou trabalhando e não estou em casa no Dia dos Namorados é um sofrimento para mim.
O problema era que ele ainda tinha namorada. Mas, como eu disse, a essa altura eles não estavam indo tão bem – se estivessem, acho que não teria acontecido nada. Então eu disse a ele: “Olha, sou louca por você, e não sou tão boa sendo a outra. Então você precisa tomar uma decisão aqui. Fale com ela”. Então fez isso. De qualquer forma, David não é o tipo que trai. Mas, por causa da minha experiência com o French Fry, decidi ser muito clara sobre meus limites.
Enquanto isso, eu estava muito feliz porque levaram uma maquiadora para o set. O rapaz de antes era especializado em sangue e efeitos especiais e fez meus olhos parecerem um pouco desiguais. Sabe, o tipo de olhar “um olho olhando para você e o outro procurando você”. A nova maquiadora era uma mulher mais velha chamada Marie, e eu a adorava. Ela era engraçada e solidária e sabia quando eu estava tentando lembrar as falas. E ela também adorava o David. Falei com ela uma vez sobre ele e disse: “Não sei de nada, acabei de conhecê-lo”. Porque depois de duas semanas ele começou a dizer: “Se vamos fazer isso, então quero morar com você e ser sério, ou nada feito. Só preciso saber”. Pensei: uau. Na noite após ele me dizer isso, sonhei que éramos neandertais e estávamos caminhando pelo continente em direção ao sol (quando a África e a América do Sul eram um único continente). Precisávamos chegar ao sol porque algo estava acontecendo com o solo. No sonho, passamos toda a nossa vida caminhando rumo ao sol e percebi que o homem com quem passei a vida nesse sonho era David. A primeira coisa que fiz quando acordei foi verificar meu rosto, porque eu estava muito chateada com meus pelos faciais neandertais. Quero dizer, de quanta eletrólise eu precisaria para tirá-los, afinal?
David e eu fomos morar juntos. Precisávamos ver se era apenas um daqueles romances de filme. E no começo uma preocupação minha foi que no último relacionamento sério que tive o nome do cara era David. Quando fiquei amiga de David Thornton, ele era o assassino do filme. Então eu o chamei de “o assassino”. Mas quando as coisas mudaram e não estávamos no filme, comecei a me preocupar por estar colecionando Davids. Então fui a uma terapeuta, a mesma que eu consultava quando estava fazendo She’s So Unusual.
No fim, a terapeuta disse algo como: “Ok, deixe-me ver se entendi. Você conheceu um cara que você ama, mas o nome dele é David. E você está disposta a terminar com ele porque o nome dele é David?”. Eu disse que sim. A terapeuta disse: “Então você tem um problema”. E eu percebi: “Sim. Certo”. Quero dizer, que diabos? Como Shakespeare disse uma vez: “O que há com o nome?” (quero dizer, “em um nome”, é claro).
Nós nos casamos em 1991. Não esperamos muito tempo, já que tínhamos passado por longos relacionamentos antes. Pensamos, que diabos, se não der certo, não deu certo. Então demos uma chance para isso. David comprou alguns anéis diferentes para mim. Um era um cristal da década de 1840 que pertencera a uma princesa hindu. Acredito na reencarnação e no passado, então ele pensou que esse seria um bom candidato. Também havia um anel romano antigo com a impressão de Eros e um anel de compromisso vitoriano inglês com gemas cujas primeiras letras eram “regards” [“felicitações”] ao redor do dedo. Foi esse que escolhi.
A cerimônia aconteceu em Nova York, mas tivemos muita dificuldade em encontrar um lugar para nos casarmos. Eu mentiria sobre minhas crenças religiosas e tudo mais só para me casar em uma igreja. Mas David disse: “Por que se incomodar?”. Em vez disso, ele queria se casar em nosso restaurante italiano favorito, Siracusa. Pensei que seria ótimo para a recepção, mas eles tinham uma pequena mercearia na frente, onde vendiam espaguete, molho e outras coisas, e fiquei pensando: “Vou andar pelo corredor ao lado de espaguete caseiro?”. Esperei a vida inteira para me casar. Vamos tocar “Volare” também?
Então David continuou procurando, procurando, procurando, e veio com um lugar chamado Friends Meetinghouse. Era quaker, era perfeito e o pensamento por trás disso era lindo também. Convidaríamos nossos amigos e familiares e nos uniríamos como amigos e amantes. Entretanto, quando nos reunimos com o manda-chuva da igreja, tivemos que mentir. David fez a maior parte disso, enquanto fiquei escondida. Quando entrei, estava muito natural, com uma roupa de corrida e cabelo castanho (pareço muito italiana com cabelo castanho, dá para ouvir o realejo?).
E então David e eu conversamos sobre quem iria realizar nosso casamento. Eu disse que, se eu acreditasse em alguma coisa, seria na Igreja da Voz. Sou cantora, eu disse a ele, então vamos nos casar com um cantor/sacerdote. Sendo assim, pedimos a Al Green, mas não deu certo. Então pensamos em Little Richard (esses eram os únicos dois reverendos que eu conhecia). Além disso, ele era da minha comunidade – a comunidade do rock and roll – e, por acaso, acho que a voz de Little Richard é uma das melhores do rock and roll. Então meu gerente de turnê, Robin, entrou em contato com Little Richard e ele disse que faria isso. Foi emocionante.
Eu queria usar hot pants brancos e go-go boots, mas David não queria se sentir num show de rock. Então fui mais tradicional. Fui a Saks com minha amiga e então estilista Laura. Escolhemos um vestido de cetim com corte A até o joelho – muito anos 1960 – com bordados na frente. Meu cabelo estava loiro-claro e usei longas luvas brancas, um chapéu pillbox com um véu até o queixo e sapatos de cetim com um laço com corte A. Minha tia Gracie me disse que eu parecia a Grace Kelly. Percebi que era tão convencional quanto poderia ir. No entanto, menti para a mulher na Saks e disse a ela que precisava me vestir como uma noiva para um clipe de rock, para que eu pudesse me casar de forma privada. Minha avó foi a dama de honra e eu não queria que ela tivesse um ataque cardíaco.
Para ajudar no casamento, contratamos Robin e minha amiga Annie recomendou uma florista chamada Dorothea. Ela fez os arranjos mais bonitos que já vi na vida. As flores eram todas brancas e rosa-pálido. Minha avó estava muito triste porque havia caído e estava numa cadeira de rodas. Imaginei que nada anima mais uma dama do que um lindo vestido e uma boa ocasião para sair, então pedi para ela ser minha dama de honra. Adorei minha vovó.
Minha irmã também compareceu. E Katie Valk e Howard e muitos amigos, mas ninguém de negócios, uma vez que foram os negócios que destruíram o relacionamento com o último David. Rob Hyman da Hooters estava lá com sua esposa, Sally. Nós nos tornamos muito próximos deles. Eu me encontrei com eles de novo quando me apresentei com Roger Waters no Muro de Berlim, em 1990. O mais engraçado era que o tempo parecia não ter passado. E agora Sally fazia parte da situação e era muito divertido. Ela era hilária, incrível, e ela e David se deram bem muito rápido.
Foi bom começar a fazer mais amigos. Como eu estava sempre fora, nunca tive muitos. Eu tinha minha banda, mas isso acontecia porque eu passava a maior parte do tempo viajando com ela. Nesse meio-tempo, nunca pude encontrar amigos como Bonnie Ross, que mencionei que trabalhava para a Cruz Vermelha e estava vestida como enfermeira no clipe de “Girls Just Want to Have Fun”. Eu a conheci em um show e a adorei – ainda adoro. Eu sempre me lembrava do número de telefone dela porque os algarismos formavam “MADLOVE”. Adoro vê-la nesse clipe. Como eu disse, tentei fazer um álbum de fotos de todos os meus amigos e da minha família, e amigos e familiares por extensão, em meus clipes. Então eu sempre poderia voltar e vê-los – “Oh, olha, essa é minha tia Gracie, que peça! Olha, o meu primo, olha, o meu irmão!”.
Passei um tempo maravilhoso no meu casamento, e estava muito apaixonada por David. Eu ficava pensando o que os pais de David devem ter feito para me ter como nora. O pai de David ensinava inglês em Harvard e escreveu livros sobre Robert Burns, o famoso poeta escocês. Eu o vi se contorcendo durante a cerimônia, porque Little Richard estava assassinando vogais em todos os lugares. Na noite anterior eu o abracei, levantei-o um pouco e disse: “Não se preocupe. Você não está perdendo um filho – você está ganhando alguém que não fala inglês tão bem”.
Estávamos em Long Island para nossa lua de mel de apenas um dia, porque David era ator substituto em uma peça e eles o chamaram para ficar de prontidão. Anos mais tarde, finalmente tivemos uma verdadeira lua de mel no Havaí. Depois do casamento, precisei de um pouco de tempo para ter uma vida, porque parecia que eu não tinha uma. Se você é um artista isolado, sobre o que você escreve? Sobre como é difícil viver em uma torre de marfim? Ou sobre como meu guarda-costas me olhou de um jeito torto e agora estou me sentindo deprimida? Eu queria uma vida real. Então comprei a metade de Dave Wolff da casa que adquirimos em Connecticut. Meu novo marido já havia se mudado para o meu loft em Nova York e passávamos fins de semana em Connecticut, ou às vezes íamos à casa em Cape.
Só um comentário, minha casa em Connecticut não fica muito longe de onde o chimpanzé Travis desfigurou o rosto de uma mulher. Você se lembra dessa história horrível, certo? Quando o chimpanzé se tornou adolescente, sua dona precisou começar a dar Xanax a ele. Um dia ele enlouqueceu e a mulher ligou para sua amiga para pedir ajuda e ele acabou mordendo o rosto dessa amiga. Eu teria ido ao veterinário e conseguido uma arma tranquilizante ou ao zoológico para pedir ajuda.
De qualquer forma, minha mãe, que agora mora em Long Island, me ligou toda aflita e disse: “Ah, eu estava tão preocupada porque o chimpanzé estava perto da sua cidade”.
“Ma”, eu disse, “se tivesse sido comigo, juro por Deus que as manchetes seriam ‘O chimpanzé não queria se divertir’. Certo? É assim que você saberia que era comigo”.
De qualquer forma, depois que David e eu nos casamos, nos afastamos um pouco e fomos passar um mês em Cape. Eu só queria estar viva. Em primeiro lugar, eu precisava voltar para o motivo pelo qual comecei a cantar. Por que me tornei artista? Qual foi a minha história? Eu ia escrever um livro, mas acho que não era o momento certo, então disse a mim mesma: “Ok, não dá para escrever um livro, mas você pode escrever sua história em músicas. Então faça isso”.
Comecei a escrever depois de ter ficado em Cape por um tempo. Annie e meus outros amigos e familiares foram me visitar lá. Na época em que comecei a trabalhar no álbum que se tornaria Hat Full of Stars, viajei com Annie Flanders para ir ao aniversário de Alee Willis em Los Angeles (agora que tenho um filho, nem consigo me imaginar num avião para encontrar um amigo). Allee Willis é uma musicista que se tornou uma amiga próxima. Ela acabou coescrevendo cinco músicas do álbum (Rob e Eric também coescreveram algumas). Fiquei na casa de Allee, e a casa tão maravilhosamente maluca que parecia um pouco o meu clipe “Girls Just Want to Have Fun” e Meu Tio, de Jacques Tati. Do lado de fora de sua casa, seu passeio tinha uma curva e havia verde de um lado e azul do outro – era como uma obra de arte.
Escrevi a faixa-título, “Hat Full of Stars”, com Nicky Holland, que morava um andar acima do meu no Edifício Thread. A ideia da música veio de um chapéu que consegui há muito tempo em Vermont, antes de ir para a faculdade. Como falei, eu estava muito solitária e, meu Deus, estava frio. Eu costumava visitar a Free Store em Johnson, Vermont, que era para pessoas pobres, como uma Goodwill. Era uma loja maravilhosa, com roupas lindas, e foi lá que consegui o chapéu, que era meio que um boné.
Eu usava esse chapéu o tempo todo. Embora fosse fria, Vermont era muito bonita e sempre desejei ter alguém com quem compartilhar isso. Então, uma noite, tirei meu chapéu e coloquei todas as estrelas nele. Dessa forma, toda vez que eu colocasse meu chapéu, poderia me lembrar daquele lindo céu noturno, e talvez pudesse compartilhá-lo com alguém. Quando conheci Dave Wolff, ele usava muito aquele chapéu. Além disso, o que eu também estava dizendo nessa letra, metaforicamente, tinha a ver com criar uma sensação mágica ao redor de si mesmo. Para mim, sempre teve a ver com isso, para eu me sentir mais brilhante, mais viva, mais alta, com cabelos maiores, para usar tons de cores que me revigorassem ou para pintar meu cabelo ou meu rosto com elas.
Mesmo que “Hat Full of Stars” seja uma música triste, também é edificante. Há um trecho que diz: You could’ve seen far You should’ve seen the magic In my hat full of stars [“Você poderia ter visto adiante Você deveria ter visto a mágica No meu chapéu cheio de estrelas”]. É “poderia, deveria”, porque, como eu disse, na vizinhança de onde eu vim, todos sempre diziam: “Eu poderia ter sido isso, deveria ter feito aquilo”, mas nunca faziam. Bem, tenho certeza de que fiz – não fui uma pessoa “poderia, deveria, faria”.
Eu também queria escrever sobre questões sociais, sobre pessoas reais. Há uma música no álbum chamada “Product of Misery” (lembre-se, essa foi uma frase de Bob Barrell) sobre uma mulher que é arruinada, cuja vida é penosa. Essa foi uma resposta à administração de George H. W. Bush, que nos vendeu uma ilusão. E coloquei “A Part Hate” no disco, o que não pude fazer no último. O timing estava certo, porque os atos de revolta de Rodney King estavam se espalhando pelos Estados Unidos. De muitas formas, vi o apartheid no meu próprio país.
“Sally’s Pigeons”, que escrevi com Mary Chapin Carpenter, era sobre uma garota do bairro que morreu devido a um aborto clandestino. Com esse tipo de história, eu precisava hipnotizar as pessoas com a música. Tornei todos os pequenos sons diferentes parte da história: o sintetizador, o loop, o ritmo da rua, das pessoas e, pela primeira vez na vida (exceto por “Time After Time”), eu estava cantando minhas músicas, cantando minhas histórias. Para mim, é muito importante escrever músicas tiradas da minha vida para que elas tenham um significado real.
Sempre me pareceu que os caminhos que as pessoas escolhiam eram moldados conforme elas caminhavam, conforme viviam, e sei que isso é romantizar as coisas, mas o importante para mim é retratar a riqueza de suas histórias em sons e palavras. Até a capa do álbum, para mim, sempre tem que ser uma pintura das histórias juntas.
Quando eu estava procurando por um coprodutor, conversei com o produtor do Run-DMC, e disse a ele como queria pegar os loops do hip-hop e misturá-los com pop, mas não sabia como fazer isso bem e agradar a gravadora também. Ele disse: “Mas você é Cyndi Lauper – você pode fazer o que quiser”. Pensei: “Bem que eu queria”. Não segui com ele porque não tinha certeza se ele seria capaz de manter as pessoas da gravadora felizes. Em vez disso, fiquei com Junior Vasquez, que acabou irritando-as de qualquer forma. Mas adorei Junior e me diverti muito com ele.
Quando as pessoas da gravadora ouviam as músicas, elas queriam remixar algumas antes mesmo de elas serem finalizadas. Elas tinham todos esses aparelhos de mixagem desagradáveis que misturavam as coisas com besteira, para que pudessem ser feitas sob medida para cada estação de rádio. A rádio categorizada estava começando a acontecer, então, se você quisesse ouvir um gênero específico, teria que ir para esse tipo de estação de rádio, porque separavam o rock, o hip-hop e a dance music, em vez de tocar o Top 40 e ouvir tudo. Eu disse a eles: “Se vocês tocarem no meu disco antes de eu terminar, vou ter que matar vocês”. Infelizmente, eu disse isso ao presidente da gravadora. E, de novo, todos engasgaram com o almoço. O que eu não entendia na época era: eles remixarem a minha música não tinha nada a ver com o meu álbum. Só tinha a ver com a forma com que tornariam isso vendável para as estações de rádio. Eu não tinha empresário – ninguém para traduzir isso para mim. Se tivessem me explicado dessa forma, eu teria entendido e ouvido, porque eu era um bom soldado.
Em vez disso, me deixei levar pela emoção, me precipitei e afastei todos. Eu deveria ter falado de uma maneira razoável. Além disso, eu parecia uma maldita alienígena para eles. Você consegue imaginar Lady Gaga entrando em uma reunião em 1993 e chegando a algum lugar? Era uma época diferente. Até tentei suavizar meu visual, porque todos tentaram me vender ilusões que dizem respeito ao interior, não ao exterior. Até passei por uma fase hip-hop, se é que dá para acreditar. Imagine eu naquelas roupas folgadas.
Eu estava orgulhosa desse álbum e recebi críticas boas, mas ele não vendeu. Não havia nenhum single dele, apesar disso, achei que ele fez a música avançar. Coloquei muito esforço nesse álbum e tentei muito torná-lo bom, fazer algo diferente. Quando ele foi lançado em junho de 1993 e vi os números das vendas, fui para casa e me acabei de chorar. Foi meu primeiro grande fracasso. A gravadora não se preocupou em promovê-lo. Eles simplesmente o descartaram, enquanto Tommy Mottola estava no topo, investindo cada dólar na carreira de sua nova noiva, Mariah Carey.
Briguei com a Sony por anos, mas o que dizer? O bom foi que, como eles não davam a mínima, me permitiram crescer.
“ELAS ME CONTAVAM QUE A
MÚSICA “TRUE COLORS”
SALVOU SUAS VIDAS.”