Cyndi, minha história
Capítulo 16
EU QUERIA FAZER O ÁLBUM DE DANCE
MUSIC BRING YA TO THE BRINK HAVIA MUITO tempo. Comecei a compô-lo em 2006, mas não consegui terminá-lo a tempo para a turnê “True Colors”. Quero dizer, eu poderia ter feito isso muito rápido, mas o que eu precisaria colocar – um pouco de cocô?
Então, depois da primeira turnê, fiquei ocupada. Escrevi “Set Your Heart”, sobre a comunidade gay, porque queria escrever algo para que todos se sentissem melhor, para dizer a eles que poderiam contar comigo. Uma pequena parte dessa música tinha uma amostra de “Where Are All My Friends”, de Harold Melvin and the Blue Notes, porque ela me lembrava dos gays servindo de bode expiatório. Se eu fosse gay, estaria lá: “Ei, onde estão todos os meus amigos?”. Essa foi uma resposta para isso: “Ei, estou bem aqui”. Mas quando toquei a música para a gravadora, não quiseram lançá-la como o primeiro single porque acharam que era comercial demais. O que dizer sobre isso?
Então “Same Ol’ Story” acabou sendo o primeiro single nas casas noturnas. Mantive o “fucking” do título da música [“Same Ol’ Fuckin’ Story”] para as danceterias, mas quando a lancei para todos os outros propósitos, precisei tirar o termo para que ela não fosse totalmente banida. Rappers fazem a mesma coisa e, como meu filho me disse: “Ma, tem um palavrão, será um grande sucesso”. Meu filho me apresenta muita música quando estamos no carro a caminho de jogos de hóquei, então ouço Lil Wayne, Ludacris e 50 Cent. Percebi que, quando supero a agressividade da linguagem, a voz de 50 Cent é como manteiga.
De qualquer forma, “Same Ol’ Fuckin’ Story” saiu de uma conversa que tive com Carmen Cacciatore, meu amigo da FlyLife. Ele estava em pé ao meu lado no estúdio quando eu estava cantando para uma gravação, estávamos chateados com algo que Bush fez, e ele disse: “Yes, same old fuckin’ story” [“Sim, a mesma história de merda”]. Então comecei a cantar isso. Concluí: “Quer saber? Você tem que cantar o que as pessoas estão dizendo”. Ele não era a primeira pessoa que eu ouvia usando essa frase. Os ricos ficam mais ricos, os pobres ficam mais pobres, um para mim, dois para você. É assim que sempre acontece, não importa o quanto você trabalhe. E quando você é pobre, ou mesmo quando você é de classe média, tudo que você faz é trabalhar, e não existe qualidade de vida. Sei disso, mesmo que, como eu disse, todo mundo ache que eu esteja cheia da grana.
Então Carmen me disse: “Talvez você devesse ir para a Inglaterra. Eu poderia apresentá-la para artistas de dança e produtores, como Basement Jaxx e Digital Dog”. E meu responsável pelo departamento de Artistas e Repertório, Daniel, achava que eu também deveria conferir a cena musical sueca, porque os suecos se destacam na história do pop por terem um incrível senso de melodia. Então, no início de 2007, fui à Inglaterra e à Suécia para colaborar com um grupo de pessoas de dança. No começo, foi muito divertido com a Digital Dog. Ficaram surpresos por eu estar trabalhando com eles, mas estavam prontos para isso. A Basement Jaxx também estava preparada para isso, para uma música, e depois tentamos trabalhar juntos novamente e não funcionou muito bem. Acho que eles não me achavam legal o bastante.
Infelizmente, muitas dessas pessoas nunca leram os créditos, então não sabiam que sou produtora e arranjadora, não apenas cantora, e elas querem fazer tudo isso. No entanto, assim que alguém começa a me dizer o que fazer, como eu deveria ouvir imediatamente, eu não vou ouvir – imediatamente. Não é ruim se alguém diz: “Oh, meu Deus, tente isso porque quando você fez isso, pensei nisso”. Isso é colaborar. Mas não: “Agora faça isso e faça isso”. Não preciso de alguém para me acompanhar passo a passo. Embora, em defesa deles, esses caras fossem muito excêntricos. Às vezes eles simplesmente desapareciam e nem o empresário deles conseguia encontrá-los, o que é ótimo quando você pensa a respeito.
Acho que a música “Rain on Me” estava boa, mas agora, quando ouço as palavras, me pergunto se não estava sentimental demais. Parte da inspiração para essa música veio de uma conversa que tive com meu marido sobre nosso filho, sobre como seu filho pode gritar com você – ele pode despejar os problemas dele em você e isso não tem importância.
Em seguida, o verso “I saw you gather all your hopes with all your dreams” [“Vi você juntar todas as suas esperanças com todos os seus sonhos”] veio do fato de conhecer muitos tecladistas, produtores e compositores promissores com os quais colaborei e que, de novo, não entendiam o que faço e queriam que eu – a cantora – ficasse em segundo plano, fizesse uma lobotomia e apenas fosse atrás. Eu não sou uma parceira que fica em silêncio. Não vou me diminuir.
Axwell escreveu a faixa “Rain on Me”. Todos que escrevem faixas musicais se consideram produtores, mas eu não considero. Eles têm uma certa habilidade, mas não considero o que eles fazem uma produção de verdade. Às vezes, eles fazem essas coisas Frankenstein, trechos cortados e colados e, quando você introduz um cantor de verdade, isso se torna trivial; não resta nada na faixa a que se agarrar. Você também pode não ter a voz lá. O problema com alguns desses produtores que escrevem, programam e fazem a mixagem é que eles ficam muito presos aos seus equipamentos e não pensam mais no som de um disco real. E às vezes eles estão tão envolvidos com suas próprias coisas, seus truques, que é difícil para eles trabalharem com pessoas diferentes. Para mim, existe um tipo de arte para a produção, então, intencionalmente, faço com que assinem um contrato como coprodutores e cocompositores. No entanto, fiquei feliz em colaborar. Eu estava cansada do meu processo; queria ver como outras pessoas faziam isso.
Trabalhar bem com outros artistas para criar uma visão particular que tenho, sem atrapalhá-los de alguma forma, é um desafio. Estou aprendendo cada vez mais a fazer isso sem ofender ou chatear os outros, mas devo confessar que não sei como fazer isso tão bem quanto gostaria. Arranjei briga com algumas pessoas na minha época. Nunca fui uma flor delicada. Espero estar melhorando. Ou, como diria Yoda: “Melhor eu estou ficando”. Preciso ser graciosa, inteligente, paciente e segura.
No começo, foi difícil para o produtor sueco Peer Astrom (que trabalha com Glee desde o início). Ele escreveu “Into the Nightlife” e “Echo” comigo e Johan Bobeck. Peer queria algo muito específico. Mas como eu é que sairia e venderia esse material, era ainda mais importante que eu pudesse estar por trás dele. Porém, sempre o achei uma pessoa bem razoável.
Alguns dos problemas relacionados à colaboração também tiveram a ver com a barreira da língua. Embora todos falássemos inglês, eu sempre dizia que o inglês da Inglaterra não é o que falamos do outro lado da lagoa, baby. Quando paro e penso na minha falta de domínio da língua inglesa em meu próprio país – bom, é muito cômico. Eu falo o inglês do Queens, não exatamente o inglês da rainha. Apesar disso, minha experiência em compor com outros artistas e produtores nesse CD ainda era inspiradora. Sempre espero continuar aprendendo e colaborando com outros artistas que me inspiram.
Lisa foi comigo para a Suécia, e fiquei muito grata porque passamos um período ótimo. Primeiro ficamos em um hotel Sheraton em Estocolmo. Era novo e agradável e tinha uma academia ótima. Vou lá todos os dias, dizia a mim mesma, mas só fiz isso nos dois primeiros dias. Eu observava as pessoas se exercitando com pesos grandes ao meu lado enquanto eu levantava meus míseros 3,6 kg. No entanto, quando conheci Alex Kronlund, o primeiro compositor que conheci lá, ele disse que eu deveria me mudar para algum lugar mais inspirador para compor. Então atravessei a ponte para a Cidade Antiga.
Foi lá que Lisa e eu procuramos um restaurante autêntico para conseguir comida sueca de verdade, como almôndegas suecas ou algo assim. Descemos a grande rua turística, passamos por um lugar e concluímos que parecia bonitinho e pitoresco. Vimos um sujeito do lado de fora e lhe perguntamos se o lugar servia comida sueca autêntica e ele disse que sim. O nome dele era Danny e ele era barman lá. Ele se tornou nosso barman favorito, e o lugar se tornou nosso lugar favorito, não só porque a comida era boa ou porque sabíamos como chegar lá, mas por causa do Danny.
Falamos sobre Nova York e Suécia e coisas para vermos enquanto estivéssemos lá. Danny disse que deveríamos ir até uma praça e nos contou a história dela enquanto Lisa e eu tomávamos goles de aquavit e comíamos almôndegas de alce. Me disseram que aquavit é uma bebida muito sueca e, aparentemente, os suecos gostam um pouco de alce, que é mais seca que carne bovina e não tem gosto de esquilo (que você sabe que comi), mas tem um gosto mais de carne de caça do que de frango.
Voltando à praça: aparentemente, na Idade Média, um rei dinamarquês muito arrogante se coroou rei da Suécia também. Então esse autoproclamado rei irritou tanto o povo sueco que causou uma grande revolta. Os suecos cortaram todos os dinamarqueses em pedaços, e havia tanto sangue escorrendo pelos paralelepípedos que rebatizaram o lugar como “Praça de Sangue”. Danny contou assim. Mas, quando pesquisei, os dinamarqueses não foram decapitados, os suecos é que foram. Então o rei dinamarquês se coroou. Danny inverteu um pouco a situação, a não ser que tenha sido a barreira da língua. De qualquer forma, o sangue estava por toda essa praça. Lisa adorou essa história porque ela adora mistérios de assassinato. Então fomos para a praça e eu me apaixonei por aquelas ruazinhas de paralelepípedos. Esqueci o sangue e as cabeças que rolaram e tive um dos meus momentos de “entrar na história”.
Então começamos a procurar por um hotel boutique na Cidade Antiga – o tipo de lugar que me deixaria felizmente desorientada em um mundo dividido entre o passado e o agora –, um lugar situado em uma rua onde, se você olhasse para baixo, num piscar de olhos longo o suficiente, você poderia ver os vikings e uma carroça ou duas sendo conduzidas por um cavalo ou um boi.
O hotel onde decidimos ficar foi dedicado à memória da Marinha Real Britânica e ao almirante Horatio Nelson e sua amante, Lady Somebody. Lady Emma Hamilton. Ela era uma lady, mas não do tipo: “Ei, lady!”. Ela era muito mais chique que isso. O hotel tinha cartas dela para ele dentro de caixas. Era um museu de um caso de amor. Descobrimos que o hotel também era dedicado aos comandantes de navio e marinheiros na época do almirante Nelson. Dois mastros de barco me cumprimentaram quando entrei. Um tinha forma masculina e o outro, feminina. Eles eram velhos, mas recém-pintados com tinta esmaltada e acabamento dourado, o que os fazia parecer novos e brilhantes. Eu sentia vertigem toda vez que os via e piscava para eles.
Mesmo que a gravadora já tivesse alugado o quarto no Sheraton para mim, descobri que ficar na área histórica onde estava esse pequeno hotel boutique realmente me inspirava a escrever, então valia a pena. As pessoas no hotel boutique disseram que havia uma suíte para mim, mas, na verdade, era um apartamento, o que acabava sendo melhor do que um quarto de hotel. Ele ficava no topo de uma escada em espiral. A mobília do apartamento era velha e as cadeiras antigas e o piso de madeira ecoavam meus passos contra as paredes brancas, enfeitadas com retratos de mulheres. Eu me perguntei se elas tinham andado pelos mesmos pisos, talvez esperando ou sonhando com o abraço de seus amantes. E, às vezes, quando eu voltava à noite, colocava Marvin Gaye para tocar no meu iPod em alto-falantes portáteis e dançava descontroladamente ao redor da sala de estar, enquanto tentava me lembrar do que aprendi em algumas aulas de dança dos espíritos que fiz. Um grupo de mulheres se reunia todos os meses na lua cheia para dançar em círculo e uma vez fui convidada para me juntar a elas. Uivei como um lobo e achei legal as pessoas poderem se comportar assim e ainda serem convidadas para voltar. De qualquer forma, dancei sozinha e me perguntei se eu e as damas na parede estávamos em nossa própria dança circular (mas isso aconteceu depois que Lisa, minha empresária aventureira, trabalhadora e gente fina, foi para o quarto dela).
O quarto em que fiquei nesse lugar era no segundo andar e tinha vista para um pátio que funcionava como restaurante no verão. A cada amanhecer (que não é tão cedo na Suécia por conta da questão escuro/claro que acontece lá), eu acordava com o barulho de duas jovens rindo e conversando (em sueco, é claro). E isso sempre me fazia lembrar de onde eu estava. Então me levantava, pedia o serviço de quarto e escrevia poesia na sala de jantar. Eu também tentava fazer minha ioga, mas esse novo mundo fazia minha cabeça girar. Eu simplesmente não conseguia manter o foco nisso, mesmo que ritmo, música e ioga sejam parecidos às vezes.
Dessa forma, mesmo estando longe da minha família, me diverti muito na Suécia, mergulhando na cultura e no mundo da dança. Quando voltei, fiz uma pausa para entender o que tinha acabado de fazer – olhar para o bom, o mau e o feio [“the good, the bad, and the ugly”, título original do filme Três Homens em Conflito]. (Meu filho costumava tirar “folgas” para cantar a música-tema desse filme no jardim de infância. Ainda não consigo aceitar o quanto era errado puni-lo por isso. É um ótimo arranjo para coral para as crianças aprenderem e muito divertido para se cantar junto. Mas estou me desviando do assunto.) Durante esse intervalo, percebi que a turnê me inspirou. Poder ver outros artistas se apresentarem e serem apaixonados por seu trabalho me despertou.
Então, depois de algum tempo sem os dois “D” (Declyn e David) e mamãe Grace (minha sogra, que adoro), voltei ao Bring Ya to the Brink e, por fim, a música se encaixou. É um momento estimulante quando, depois de toda minha preocupação em conseguir acertar as músicas ou em ser boa no que faço, de repente o material ganha vida. E sabe de uma coisa? Entendi que talvez eu nunca ache meu trabalho bom o suficiente. No entanto, não posso deixar minha dúvida me impedir de escrever músicas. A inspiração pode acontecer a qualquer hora, em qualquer lugar. De vez em quando, acordo, a inspiração chega para mim e tenho que escrever. Preciso continuar escrevendo e enfrentar todo verso estúpido de poesia ridícula por um bom verso, o que, aparentemente, do nada, acontece. E quando isso acontece, agradeço.
Ir à Europa para compor realmente me fez crescer. Retomei minha voz como compositora e artista de um jeito que nunca havia feito antes. O engraçado é que sempre ouvi que viajar era algo ótimo para um compositor – essa foi a primeira vez que viajei para o exterior apenas para compor... e sem um guarda-costas também. Claro, tive ajuda. Eu tinha um motorista (ok, viajei um pouco como uma celebridade, mas só um pouco). No entanto, na maior parte do tempo, eu era apenas eu, sem muita confusão habitual. Nesse mesmo tempo, eu não estava em turnê e fazendo divulgação ou tentando ser mãe ou esposa. Eu não estava tentando fazer nada além de escrever. Era tão tranquilo e reconfortante poder escrever o que eu sentia e via, porque isso era tudo que eu estava fazendo. Eu me senti desperta pela primeira vez em anos.
Então comecei a finalizar todo o álbum e gravar meus vocais no estúdio em minha garagem com William Wittman, meu colaborador de longa data. Também pesquisei um ótimo profissional de mixagem que eu tinha em mente desde o início, Jeremy Wheatley, da Inglaterra – ele havia mixado um CD da Goldfrapp e o single “Ride a White Horse”, da mesma banda. Adorei sua imagem sonora para a dança. Sendo assim, entrei em contato com ele através da gravadora, mas, no fim, ele tinha um acontecimento trágico na família, então acabamos fazendo a mixagem on-line. Em outras palavras, foi um pouco assim: escolhíamos um horário em que poderíamos estar on-line juntos com a mesma mesa de som e alto-falantes, e ele enviava a mixagem para mim no iChat (onde é possível enviar arquivos grandes sem precisar compactá-los), eu pegava esse arquivo e tocava. Depois eu dizia a ele o que eu achava que precisava ser mais alto e mais baixo. Quando ouvi a primeira faixa, “High and Mighty”, comecei a chorar, porque era uma gravação muito moderna. Sempre tento estimular as pessoas a fazer uma gravação moderna e, finalmente, lá estava ela.
A música é muito subjetiva. O bom é que agora você pode entrar em sua garagem e fazer uma gravação maravilhosa. O ruim é que ninguém está eliminando as músicas ruins. É como não ter um editor. Tudo bem – Prince trabalhava sozinho, mas não existem muitas pessoas como Prince. Gosto de muitos pesos e contrapesos e que um monte de pessoas diferentes ouça a música e contribua para ela.
Mesmo que eu tenha me orgulhado de Bring Ya to the Brink quando foi lançado em maio de 2008, o álbum não foi tão bem quanto eu queria. “Same Ol’ Story” ficou em primeiro lugar na categoria “Dance/Club Play Songs” da revista Billboard, mas me disseram que a rádio de dance não a tocaria porque eu tinha mais de 30 anos. Como eu disse, as pessoas do ramo da música têm preconceito contra pessoas mais velhas porque trabalham com o mito de que a música é uma forma de arte descartável. Não é. Outra noite eu estava assistindo Nicki Minaj no Saturday Night Live e ela terminou sua música em uma pose, exatamente como eu costumava fazer nos meus shows. Metade do cabelo dela era rosa e a outra, branca, e pensei: “Venham com a merda que quiserem, mas eu inspirei coisas assim, e até se inspiram no que visto agora”.
Bring Ya to the Brink foi indicado para um Grammy de Melhor Álbum de Música Eletrônica/Dance Music. No entanto, perdi para a Daft Punk. Compreensivelmente – a música deles foi sampleada em uma música de Kanye West e era muito famosa. Porém, quando eu estava me sentindo mal, encontrei Nicki Minaj no tapete vermelho do Grammy. Ela chegou para mim e disse: “As pessoas não sabem como estou obcecada por você”. Não é o máximo?
A gravadora e eu nos dissociamos antes de eu ir ao Grammy. Eu tinha um lançamento, mas todos os meus aliados haviam deixado a empresa, então decidi deixá-la também. Olha, no fim foi uma coisa boa porque, então, eu poderia fazer o que quisesse
com meus álbuns. Eu poderia ter minhas masters4 e estar no comando. Eu poderia pesquisar como vender esse material, como promovê-lo e não cometeria erros estúpidos. De qualquer forma, vou fazer outro álbum de dance music. A música que escrevi para o musical Kinky Boots, uma adaptação do filme que Harvey Fierstein e eu fizemos para a Broadway, é principalmente dance music.
Depois que saí da Sony, fiz uma pequena turnê de duas semanas com a Ro chamada “Girls’ Night Out”, em que pedimos aos fãs que doassem comida para bancos de alimentos locais. Antes, eu me encontrei com pessoas da Mark Burnett Productions e disse: “Por que não filmamos a turnê? Depois, podemos fazer alguma coisa sobre refeitórios comunitários também, então seria entretenimento, mas também sobre ajudar as pessoas”. Eles não tinham interesse nisso porque conseguir os direitos da gravadora para a música em um filme pode ser complicado. A Mark Burnett Productions fez Survivor e, quando vi as fotos do show na parede de seu escritório, eu disse que estava preocupada em não ter voz na reunião. Porém, realmente gostei deles.
Então assinei com a Mark Burnett para fazer algo no futuro. E eles me apresentaram para as pessoas do reality show de Donald Trump, The Celebrity Apprentice, que eu não tinha visto. Mas Lisa assistia, chegou em mim e disse: “Por que você não faz Celebrity Apprentice?”. Eu disse: “Hum, sim. Sou uma musicista, por que diabos quero fazer isso?”. Então me disseram que eu poderia arrecadar dinheiro para a True Colors Fund e que, se alguém sabe como trabalhar em equipe, sou eu, porque tudo que fiz foi em equipe. E Lisa dizia: “Vamos lá, Cyn – você conseguiria fazer isso”. Então aceitei.
Gravamos em Nova York. No começo, disseram que se tratava de algo das 9h às 17h, mas não era das 9h às 17h. Era das 7h às 23h ou meia-noite – era algo do tipo dezoito horas por dia. Eu acordava às 4h da manhã para arrumar meu cabelo e maquiagem e estar pronta às 7h, então não conseguia dormir. E não havia tempo para descanso – na verdade, quando você comia, tinha que comer em pé. Nunca dava para parar porque, se fizesse isso, perderia. Consequentemente, desenvolvi um refluxo muito, muito ruim. Meu esôfago queimava o tempo todo e eu não conseguia engolir a comida. E eu tinha que dar longas entrevistas sobre o programa. Eu não sei falar – sei cantar. Então perdi minha voz também. Além disso, o set de filmagem era empoeirado e sou alérgica a poeira.
As pessoas que não cantam não sabem o que é necessário para cantar. Ficavam todos tirando sarro de mim enquanto eu fazia meus exercícios vocais. Eu pensava: “Idiotas, estúpidos, se vocês soubessem alguns exercícios, suas vozes seriam muito melhores”. O problema é que alguns dos outros competidores eram aspirantes que não faziam nada com suas vidas. Eu nunca conseguiria deixar outras pessoas no controle e não fazer nada. Isso me deixaria louca.
A situação rapidamente começou a ficar um pouco como o ensino médio. Sempre fui estranha e eu só precisava me acostumar com isso de novo. Quando Maria, a lutadora de WWE [World Wrestling Entertainment], de repente começou a virar as costas para mim, pensei: “Por que você não vai se foder?”, que era o que as pessoas no programa queriam que eu pensasse, para que começássemos a brigar, porque isso atrai atenção. Ninguém quer assistir a um programa onde todo mundo se dá bem, certo? Até eu fiquei envolvida quando assisti – e sabia o que ia acontecer. Comecei a assistir para ver como eu estava na TV, e pensei: “Nossa, pensei que meu cabelo estava bom, pensei que meu gosto era bom”. Tudo o que faço é uma ilusão de como eu gostaria de parecer, e não minha aparência real. É por isso que me dou bem com drag queens, porque sou uma delas.
Eu me diverti muito com Sharon Osbourne, que adoro, mas o restante das garotas eram duas caras. Então meu estômago começou a revirar por isso bem rápido. Aquela modelo da Victoria’s Secret, Selita Ebanks, foi muito gentil comigo. Quando eu estava tentando ajudar a jovem cantora country Emily West a melhorar em um dos desafios, todos os outros da minha equipe ficavam dando palpites e eles não sabiam de que raios estavam falando. Eu pensava: “Vocês se importam com essa jovem ou não se importam?”. Eles não se importavam – estavam apenas interessados no que saía de suas próprias bocas. Quando Maria, a lutadora, estava conversando com Emily sobre como dar entrevistas, ela disse: “Quando falo com a imprensa, querem saber se eu me depilo lá ou não”. Olhei para ela e só queria dizer: “Ouça, Senhorita Importante, se você acha que vou sentar aqui e dizer a essa jovem como dar uma entrevista, falando se a xana dela está depilada ou não, você está completamente fora da casinha. Isso tem a ver com música e integridade – não sobre essa coisa”.
Fiquei um pouco desconfiada de Donald Trump porque ele traumatizou os filhos de Rosie O’Donnell ao dizer coisas ruins sobre a mãe deles. Quando você faz isso, as crianças não entendem. O que mudou minha opinião sobre ele foi que ele era legal não só comigo, mas também com outras pessoas, e seus filhos eram bons e trabalhadores. E o fato de ele ter incluído os filhos no programa foi significativo.
Eu adorava apresentar “Just Your Fool” no final e dançar na mesa. Lá estava eu em rede nacional chamando a atenção para a falta de direitos civis na comunidade gay. A NBC continuou tentando mudar o que eu disse. No entanto, quando eu estava na TV para a final, eu disse o que queria e eles não conseguiram cortar porque o programa era ao vivo. Pensei comigo mesma: “Vá em frente, tente editar isso agora”.
Apenas para registro, não me senti rejeitada de forma injusta. Eu meio que cometi harakiri porque olhar para a atriz Holly Robinson Peete era muito paralisante para mim. Ela estava lutando para conseguir fundos para o autismo, uma condição que seu filho tinha. E quando se trata de mãe e filho, isso me leva a pensar automaticamente na minha mãe com seus filhos e naquele momento em que ela cantou para meu irmão quando ela estava numa situação desesperançosa naquele dia no banheiro.
Quando participamos do desafio de decorar o apartamento no episódio que terminou com a minha saída, para mim teria sido muito fácil ganhar de Holly, dizendo: “Sim, Holly, você escolheu a cor vermelha para a sala de celebridades do apartamento, todos gostaram disso, mas você também escolheu aquele verde-água, ou o que eu chamaria de ‘verde marrom-avermelhado’, para o quarto principal”.
A situação com Bret Michaels ficou muito cômica. Quando decorou aquele apartamento, ele ficou levando tanta coisa que me senti num filme dos Irmãos Marx, como Uma Noite na Ópera. Toda vez que eu me virava, havia outro grande objeto entrando na sala. Eu pensava: “Não, Bret, não, não, não”. Mas foi interessante observar todo mundo. Não há como ser elegante nesse programa.
Quando fui eliminada, usava um lenço, óculos escuros e batom vermelho porque queria parecer uma estrela de cinema de Hollywood dos velhos tempos. Quando saí do prédio, pensei: “Ande de cabeça erguida, coloque os ombros para trás, seja muito Grace Kelly e entre no carro muito Kim Novak”.
Porém, no fim, expus meu ponto de vista. Eu precisava falar sobre direitos civis para LGBTs em rede nacional – isso foi muito significativo. E levantamos US$ 45 mil para a True Colors Fund, que é o mais importante.
Esse programa me ensinou que as pessoas não mudam muito a não ser que a vida lhes ofereça o dom da compreensão, e isso pode vir de uma dádiva de infelicidade desde o início. E, ao longo da vida, você pode construir uma vida melhor e fazer escolhas melhores porque já teve essa lição.
E aprendi outra coisa também – ser garçonete ainda não era minha praia.
4 CDs finalizados em alta qualidade. A partir da master são feitas cópias a serem comercializadas.
“FAÇO AS COISAS DE FORMA
NÃO CONVENCIONAL ÀS
VEZES.”