Cyndi, minha história

Cyndi Lauper · Capítulo 3 de 19

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Cyndi, minha história

Capítulo 3

 

EM NOVA YORK, VISITEI MINHA IRMÃ, VI

ALGUNS VELHOS AMIGOS E ACABEI voltando para a casa da minha mãe, que havia se divorciado de seu segundo marido. Essa era uma das melhores coisas da minha mãe. Ela sempre dizia: “Mesmo se não der certo, vocês podem voltar, nem que seja a cavalo, vocês ainda são meus filhos”. Levei ao pé da letra. Não voltei para casa exatamente a cavalo, mas tenho certeza de que minha roupa impressionou bastante.

Minha mãe não só se divorciou, ela estava se mudando da casa em que ela e eu crescemos. Foi um pouco traumático e libertador ao mesmo tempo. Ela encontrou um lugar na Rua 9 que precisava de alguns reparos. Meu irmão mais novo, Fred (que chamamos de Butch), ainda morava em casa também. Fiquei com um quarto e meu irmão ficava no que teria sido a sala de estar, como geralmente acontece com pessoas sem muitos recursos. Então nossos quartos ficavam bem próximos um do outro. Pois é! Não havia privacidade. Era meio como estar na faculdade. Também vivíamos com Ralph, o “pretendente a terceiro marido um dia” da minha mãe. Como o Ralph trabalhava na construção, sempre havia um projeto a ser finalizado, o que acontece com pessoas que gostam de oportunidades de ficar com lugares que precisam de reparos (minha mãe adorava isso).

Também vi Phil, que decidiu que queria voltar a ficar comigo. Ele disse: “Você deu o recado. Você pode voltar a morar comigo agora”. Pensei: “Você está brincando comigo? Você não me amava e, na verdade, a distância, percebi que não o amava, e eu não posso viver o seu tipo de vida”. Eu tinha passado por tanta coisa que me senti livre disso e mais forte, embora eu realmente não tivesse um plano além disso. Levei a cachorra para o Village e pedi dinheiro para as pessoas. Sempre pedi dinheiro: “Você pode me dar uma moeda?”. Às vezes as pessoas me diziam para vender meu cachorro. Eu não me importava com o que elas diziam. Você precisa entender, não tinha importância para mim, porque coisas horríveis aconteceram comigo antes. Você vai me dar dinheiro? Bom. Você não vai me dar dinheiro e vai me insultar enquanto passa por aqui? Ótimo.

Eu tinha meu violão, então também me apresentava na rua, mas só sabia tocar duas músicas da Joni Mitchell – “Carey” e “This Flight Tonight” –, porque afinei o violão para elas e, uma vez afinado, foi isso. Eu ganhava dois dólares, tudo que eu precisava (embora teria sido ótimo se eu tivesse um repertório maior). Um cara veio até mim uma vez, me deu dois dólares e disse: “Isto é para o seu segundo álbum – lembre-se de mim”.

Depois do Phil, conheci um cara chamado Richie, que costumava sair com a amiga da minha irmã. Então ele chegou na minha irmã e depois em mim. Eu disse: “Ei, Richie, não é por nada, mas isso não vai acontecer. Somos amigos”. Ele era um ótimo ilustrador, mas uma alma perturbada. Decidimos pegar carona para Massachusetts para encontrar um lugar onde eu pudesse morar. Eu não podia morar em Nova York sozinha porque tinha 18 anos e é preciso ter 21 para assinar o contrato de aluguel, e se meu pai não tinha me dado dinheiro, ele não assinaria um contrato de aluguel comigo. Então, Richie e eu fomos para Massachusetts, montamos acampamento e dormimos na floresta ao longo do caminho. Estávamos perto da fogueira uma vez e ele me disse: “Sabe de uma coisa? Você não deveria soletrar seu nome ‘Cindy’, você deveria soletrar C-Y-N-D-I”. Então eu fiz isso.

Depois continuamos indo para Vermont. Às vezes eu tinha sonhos antes de as coisas acontecerem e, muito tempo antes de chegarmos a Vermont, tive um sonho em que vi Jesus em um campo com minha cachorra Sparkle. Jesus estava abrindo os braços e sorrindo, e a cachorra pulava por toda a grama. Quando chegamos a Vermont, minha cachorra desceu uma colina, havia um campo e ela ficou pulando nele, e a única coisa que faltava era Jesus de braços abertos. Vermont era tão linda. Parecia um show da natureza, ou algo como Walt Disney Apresenta. Eu nunca tinha visto nada parecido, então fiquei.

Richie teve que ir embora quando chegamos a Vermont, e fiquei sozinha. Fui a um albergue da juventude em Burlington. Quando os outros jovens do albergue ouviram eu me aproximar, disseram: “Aí vem Nova York”. Eles não gostavam do meu sotaque. Conheci algumas pessoas que disseram que me ajudariam e me inscreveram em um programa para me estabelecer em um apartamento. Elas também me colocaram no programa de assistência social e me deram um emprego. Primeiro, fui babá. As pessoas eram muito gentis e tinham dois menininhos. Compraram uma fazenda antiga, mas tinham uma casa moderna e duas vacas de estimação. Havia um quarto para mim no porão, onde Sparkle e eu morávamos.

Tentei ser o que a moça queria, e os dois menininhos estavam bem, mas um dia ela deu uma festa para um dos filhos e vieram doze crianças. O pai deu um trator para o garoto, e as crianças se amontoavam na grande pá dianteira, enquanto o filho as conduzia ao redor. Enquanto isso acontecia, minha cachorra corria de um lado para o outro, e isso estava me deixando nervosa. Eu ficava dizendo ao garoto para ter cuidado com a minha cachorra. Fui até a mãe e disse a ela que as coisas estavam ficando um pouco fora de controle, e ela disse: “Esse é seu trabalho, não é?”.

Bem, o menino de 5 anos que dirigia o trator atropelou a cachorra. Não pude acreditar. Eu amava aquela cachorra. Dormíamos juntas. Morávamos juntas. Ela era minha família. O trator passou por cima das costelas dela. O pai e um amigo dele me levaram de carro ao veterinário e conversaram sobre como perderam seus cães. Fiquei pensando: “Legal, podemos ver o que o veterinário diz primeiro, seus bodes velhos idiotas?”. Nós a levamos ao veterinário, que disse: “Olha, se ela sobreviver durante a noite, ela viverá”. Fiquei realmente abalada. Eles me levaram de volta ao meu porão e naquela noite tive outro sonho em que vi a Mãe Abençoada, só que ela não era nada parecida com o que eu tinha aprendido. Ela tinha um rosto bondoso, sardas e cabelo loiro. Ela estava sorrindo para mim, a cachorra também estava lá e havia um arco-íris no céu, exatamente como tinha sido antes. Era como se ela estivesse sobreposta à cena daquele dia. Foi um grande conforto vê-la no meu sonho. Ao crescer como católica, Maria e Jesus são como seus amigos secretos que você pode chamar em momentos de dificuldade. Na manhã seguinte, quando acordei, recebi a notícia de que a cachorra estava viva, então foi um milagre.

Larguei o emprego – grande surpresa –, peguei a cachorra e fui embora. No fim, consegui outro emprego e um apartamento em Burlington, mas me sentia muito solitária. Na época de Natal, eu me lembro de ficar ouvindo a música “River”, de Joni Mitchell, saindo dos bares da Rua Church. Sabe, aquela: It’s coming on Christmas, they’re cutting down trees. Eu estava muito triste e conheci um cara num bar. Ele parecia ser uma alma semelhante e voltou para South Burlington comigo. Começamos a nos ver, e logo ele estava se mudando para o meu apartamento. Meu sentimento era: “Ok, seja o que for” (lembre-se, eram os anos 1970). Nós dois costumávamos pintar, mas suas pinturas eram tão cruas que eram quase infantis. Pensei que era como van Gogh. Ele não estava trabalhando, mas eu tinha acabado de encontrar um emprego, depois de ir ao escritório do programa de assistência social e dizer: “Você pode me dar um emprego, por favor?”. Eu realmente não queria estar no programa de assistência social.

Eles ficaram empolgados e me conduziram até um homem no escritório, que me perguntou o que eu gostaria de fazer. Eu disse a ele que queria ser pintora. Ele disse que, se eu morasse em South Burlington por um determinado período de tempo, eu poderia me candidatar a uma bolsa e ir para a escola. Enquanto isso, eu teria que trabalhar. Ele me perguntou que tipo de coisas eu gostava e eu disse animais. Então ele me conseguiu um emprego em um canil/abrigo. Eu costumava gostar mais de trabalhar no abrigo do que no canil porque os cães do abrigo eram muito mais amorosos e doces e apreciavam tudo. Eu amava muito esses animais. A dona do lugar gostava de colocá-los para dormir (tinha essa coisa estranha acontecendo). Sempre que eu via que ela colocaria algum cachorro para dormir, eu o levava para passear. Então ela meio que ficou esperta e os matou no meu dia de folga. Havia um cachorro que eu simplesmente amava. Ele tinha uma perna quebrada, e cuidei dele até ficar bom. Eu dei a ele o nome do ator Herschel Bernardi. Ele era muito engraçado, costumava correr o tempo todo e a dona o pegava. Bem, na última vez que ela pegou o Herschel, ela colocou aquele pobre cachorro para dormir também.

Tentei fazer meu namorado trabalhar no canil, porque eles queriam ajuda. Um dia a dona se aproximou de mim com o marido e eles me fizeram sentar. Ele disse: “Cyn, olha, fiz uma verificação do seu amigo. Você sabe que ele foi dispensado do exército porque teve um colapso mental, certo? Sabe aquelas atitudes infantis dele? Elas têm um porquê”.

Fiquei: “Ooohhh”. Fazia sentido. Havia momentos em que eu conversava com ele e ele ficava bravo muito rápido por nada. E quando pedi para ele ir embora, ficou um pouco estranho comigo. Ficou muito chateado e gritando enquanto eu o ajudava a fazer as malas. Ele ainda ficou gritando enquanto eu o ajudava a colocar suas coisas no carro, aí me empurrou para a árvore de Natal. Eu me levantei e continuei a ajudá-lo e, quando ele finalmente saiu, tranquei a porta. Como cresci vendo violência, permaneci calma.

Passei por muito perrengue naquele apartamento. Eu não tinha televisão, não tinha aparelho de som, nada. Eu ainda era uma criança e estava sozinha. Muitas vezes eu não aguentava mais, então ficava na cama o tempo todo. Quando eu realmente não conseguia lidar com nada, costumava ter tremores, completos ataques de ansiedade. Quando eles aconteciam, eu me abraçava e tentava me acalmar. Dizia para mim mesma: “Você vai ficar bem – respire fundo”. Então, se achasse que precisava me sentir protegida, esvaziava o armário embaixo da pia e engatinhava para lá. Eu ficava lá porque era um lugar fechado e, lentamente, começava a me sentir melhor. Como estava sozinha, eu me permitia fazer coisas que, se fossem feitas na frente de outras pessoas, elas diriam: “Nossa, ela é louca”.

Às vezes, se estivesse com muito medo, eu ficava dentro de um armário e dizia a mim mesma: “Ok, agora você está em um armário. Bom. Vá em frente, fique em qualquer lugar que quiser do apartamento. É o seu apartamento. Espere até se sentir melhor e saia. Se quiser, fique naquela cadeira, fique onde quiser até se sentir melhor. Se não consegue lidar com isso e quiser ir para a cama, fique na cama. Quando se sentir melhor, levante-se e tente de novo”. Foi assim que melhorei: eu me permiti desmoronar.

Num desses dias em que fiquei na cama o dia todo e a noite toda, acordei no meio da noite e vi um anjo dentro da minha cabeça. Ele estava em uma mesa com um livro grande e gordo e me mostrava a cena de um tribunal. Minha mãe estava nele e ela estava chorando. Então um juiz mesquinho me disse que julguei minha mãe de forma muito severa. O anjo tinha uma aparência doce, com asas e cabelo loiro encaracolado. Olhei por cima de sua mesa para ler o livro e, nas páginas, eu me vi deitada no chão com carruagens passando sobre mim.

Com o passar do tempo, fiquei muito doente. Aparentemente, o cara com colapso mental me passou hepatite. Ele vomitava muito, mas eu estava acostumada a limpar vômito porque sempre limpava o vômito dos cachorros. A hepatite estava à solta em Burlington naquele ano. De qualquer forma, fui trabalhar, mas fiquei muito, muito mal um dia quando estava lá e tiveram que chamar uma ambulância. Fui levada em uma maca. Eu estava tão cansada, mas podia sentir Krishna ainda menino dentro do meu corpo me mostrando como descansar e sabia que tudo ficaria bem. Quando cheguei ao hospital, me disseram que eu tinha hepatite. Quando estava deitada na cama do hospital com uma intravenosa no braço, ouvi as enfermeiras conversando e uma delas disse: “Como ela contraiu hepatite?”, e a outra enfermeira virou e disse: “Um caso”. De repente parecia que eu estava em um filme de Bette Davis – eu tive um caso. Liguei para o meu pai e ele estava partindo para sua lua de mel com sua nova esposa. “Coitada”, ele me disse. “Por favor, ligue para sua mãe.” Não que ninguém pudesse me ajudar, eu estava bem, estava no hospital.

Quando saí, estava fraca demais para trabalhar. Às vezes, se houvesse pessoas interessantes no albergue de que eu poderia gostar, eu as colocava na minha casa por um tempo. Uma vez, teve uma garota chamada Ann Marie que se hospedou comigo e era fugitiva. Ela tinha um namorado mais velho – um pedófilo de verdade, se quer saber. Iriam colocá-la em um centro de correção juvenil para jovens delinquentes, a não ser que alguém a adotasse. Eu queria, mas não podia, porque era muito jovem, só tinha 19 anos. Eu me senti muito mal. Ela nunca me perdoou.

Enquanto tentava melhorar, um casal veio e se hospedou comigo – um cara chamado Tommy e sua namorada – e cuidou de mim. Ela acabou indo embora, ele ficou e se tornou meu namorado depois de um tempo. Ele não ia embora (eu sei, mais uma vez isso). Tommy era muito encantador e podia convencer as pessoas a fazer qualquer coisa. Ele não trabalhava, então passava muito tempo caçando. Uma vez não havia nada para comer no jantar, aí ele saiu com sua arma, atirou em um esquilo e o trouxe para casa.

Lá estava o esquilo, sobre a bancada da cozinha. Tudo em que eu conseguia pensar era naquela vez em que o Ônibus Mágico fez uma parada no caminho para Nova York, vi um cara pescando e ele me ensinou como limpar um peixe. Graças a Deus, eu me lembrei de como fazer isso, porque foi assim que dei conta desse esquilo. Então fiz o que tinha que fazer. Cortei sua cabeça, tirei a pele e pensei: “Hmm, não tem muita carne”, mas peguei o que estava lá e cortei tudo. Depois cortei uma cebola, coloquei azeite em uma panela com um pouco de manjericão, um pouco de alho e uma folha de louro, e refoguei o esquilo. Aí despejei uma lata de tomate, um pouco de vinho, um pouco de açúcar e um pouco de sal e deixei cozinhar por um tempo. Tommy pegou um táxi para casa e convidou o taxista para jantar. O taxista adorou e, depois do jantar, disse: “Isso é realmente delicioso. Que tipo de carne é essa?”.

Eu disse a ele que era galinha e ele disse: “Não, não é”.

Eu disse: “Sim, é”.

“Não, não é.”

“Sim, é.”

“Não, não é, tem um gosto mais forte.”

Eu disse: “Tudo bem, é esquilo”. Ele não acreditou em mim e ficamos indo e voltando mais algumas vezes. A cabeça do esquilo estava no lixo e a pele também, então eu lhe mostrei a pele e ele ficou muito chateado.

Depois de um tempo, percebi que Tommy nunca trabalharia. Me ocorreu que, embora houvesse algo muito encantador nele, ele era um vagabundo e estava realmente sujo. Ele não gostava de tomar banho de banheira nem de chuveiro. Isso perdeu a graça muito rápido.

Enquanto isso, as pessoas do departamento de assistência social estavam trabalhando para que eu conseguisse ir para o Johnson State College, em Johnson, Vermont. Eles tinham algo chamado programa PROVE, pelo qual era possível conseguir uma bolsa de estudos se você se provasse através do seu trabalho. Eu só queria fazer arte, mas eles queriam que eu fizesse inglês e história. Como mencionei, sempre tive muitos problemas com inglês e não queria fazer isso. Eu não conseguia escrever um artigo ou ler o tanto necessário na faculdade. Não conseguia me concentrar em uma página. Tinha transtorno de déficit de atenção ou algo assim. Até hoje não leio muito. Na época, eu conseguia fazer coisas visualmente e escrever de forma criativa, mas nunca aprendi o básico para escrever um relatório.

Claro, na época, eu não sabia que o que eu poderia ter era transtorno de déficit de atenção. E eu não conseguia descobrir se o meu problema era de uma infância traumática ou se eu era só idiota mesmo. Apenas pensei que talvez meu curto período em uma escola de convento, onde as freiras eram um pouco brutais, pudesse ter contribuído para a minha condição. Aquele adorável colégio interno é o que sempre chamei de Irmãs Sem Misericórdia Nem Caridade, especialmente se as crianças lhes tirassem a paciência. Talvez tenham batido demais na minha cabeça. E, olha, eu me virava muito bem como uma pessoa estúpida, porque conseguia fazer as coisas e articular bem algumas coisas verbalmente. Às vezes eu me levantava na aula, conversava com o professor e fazia perguntas e, quando me sentava, ouvia, na minha cabeça: “Você é mesmo brilhante”. Eu pensava: “Eu não sou brilhante; na verdade sou meio idiota”. Então eu ouvia: “Não, você não é”. Sempre senti que havia uma presença forte de um anjo da guarda perto de mim. Ou era um anjo da guarda ou tive que ser completamente esquizoide para sobreviver.

Enquanto eu morava em Vermont, ainda voltava a Nova York. Pegava carona e levava minha cachorra e meu cavalete. Eu ficava naquela grande rodovia que sai de Vermont e sentia muito medo. Estava frio, e eu temia pela minha vida o tempo todo. Entrei num carro com um rapaz que me levou de volta para sua casa e me deixou descansar antes de me levar para o próximo lugar. Ele foi muito gentil. Tive muita sorte por não ter sido morta ou algo assim. (Mas, bom, eu também tinha a cachorra. É meio difícil matarem você e a cachorra, certo? Bem, acho que se você estiver motivado, você consegue.) Quando chegava em Nova York, visitava Bob Barrell e pintávamos, e ele me ensinava sobre pintura. Uma vez ele me disse que um pintor é um grande mentiroso porque pega uma superfície plana e faz com que pareça tridimensional, não algo plano, mas algo com profundidade. É uma coisa bem louca, mas uso algumas das técnicas que ele me ensinou na minha maquiagem, quando pinto o rosto ou quando adiciono cor à minha paleta loira de cabelo.

Então, como eu estava fazendo cursos para essa bolsa de estudos de arte na Johnson State, consegui um emprego como modelo nu em uma das aulas. Posei na aula de aquarela. Eu amava aquarela, mas não consegui entrar na turma, então trabalhei lá para poder assistir às aulas do professor. Infelizmente, os artistas quase nunca veem os modelos como pessoas que podem estar participando de uma aula em que não puderam participar. O melhor de tudo é que, como eu também estava fazendo aulas de história da arte, pude posar como as modelos das pinturas que estudei e depois observar como os alunos traduziam essas poses em caneta, tinta e aquarela. Adorei isso.

A maior parte dos livros de história da arte que li eram muito mal escritos. Tive dificuldade em lê-los, mas amava tanto as pinturas que pulava os textos que não faziam sentido. E eu estava fazendo arte com meu corpo. Eu me torcia para fazer uma linha que descesse pela página ou posava em uma forma que eu gostaria de desenhar. Conseguia ficar assim por muito tempo. Então eu observava os alunos desenharem e pintarem e ouvirem enquanto o professor se aproximava e falava com eles. Acho que nenhum deles percebeu o quanto eu estava observando. Eles provavelmente pensaram que eu era uma exibicionista ou algum tipo de vagabunda.

Nunca tive muita sorte com homens jovens. Ouvia fofocas de homens que eu namorava e chegavam até mim. O primeiro rapaz realmente gentil comigo como namorado foi um africano baixinho da Nigéria. Comecei a sair e dormir com ele, e todos na escola surtaram. Aparentemente ele estava com outra garota branca da escola que era muito meiga e ele se livrou dela por mim, a garota louca e excêntrica. Íamos a festas no dormitório e seu padrão era beber muito e, de alguma forma, brigar com alguém que ele insistia que o havia insultado. Bom, esse cara nunca agiu como um idiota comigo, mas nessas festas ele sempre xingava, ficava bravo e tão bêbado que eu tinha que ajudá-lo a voltar ao dormitório dele ou ao meu. Nunca senti que poderia ajudá-lo do jeito que ele me ajudava. Então esbarrei naquela garota meiga, com enormes olhos tristes, com quem ele terminou muitas vezes. Eu não podia mais machucá-la assim, e talvez essa garota pudesse ajudá-lo melhor do que eu. Então terminei isso.

Tive um professor de carpintaria que me ensinou muito. Numa noite, ele ia me dar uma ajuda extra e me ensinar como usar as máquinas. Como ele achava que eu era idiota, não me deixava usar a máquina grande de cortar. Eu estava fazendo um vaso sanitário de madeira com um rolo de papel higiênico de madeira (era manifesto sobre a arte). Bem. Ele entrou na marcenaria e passou o braço sobre a mesa para limpar tudo – muito dramático, do tipo: “Tudo bem, vamos fazer isso ou não?”. Eu estava pensando comigo mesma: “Isso é realmente ótimo”.

Sabe, se você fosse uma dessas garotas que dormiam com qualquer um, supostamente era para ser amor livre, mas, como eu disse, não era. Não para as mulheres. Eu costumava ouvir as coisas que eles diziam sobre mim. Se você fosse a um encontro e transasse com alguém, eles contariam para todo mundo se você faz bons boquetes ou o que quer que fosse. Eu costumava pensar: “Eu deveria contar como você era? Desatento e rápido na cama?”.

No entanto, eu estava feliz por ter uma verdadeira experiência universitária. No começo eu estava em um dormitório e isso foi muito legal, mas continuei tentando levar minha cachorra e não estavam felizes comigo, então eu saí. Acabei ficando em um monte de lugares diferentes. Eu tinha um colega de quarto horrível que andava de moto dentro de casa. Para conseguir ar, eu andava com minha cachorra à noite, mas havia cemitérios por toda parte. Ela correu em um para fazer xixi em uma lápide, corri atrás dela e tentei levá-la para fora. Eu estava apavorada, pensava: “Oh, meu Deus, essa pessoa ficaria tão puta. E, na verdade, as pessoas ficavam”. Também morei em um lugar chamado casa do Programa PROVE, já que fazia parte do Programa PROVE. Havia outras pessoas na casa fazendo a mesma coisa, incluindo pessoas vindas de presídios que estavam tentando se reabilitar – ex-drogados, ex-delinquentes. Eles também abrigavam pessoas que tinham crises nervosas. Alguns desses jovens passavam por períodos difíceis em momentos de estresse. Um garoto surtou e não saía da cadeira, então a família dele acabou carregando a cadeira e colocando-o na parte de trás de um caminhão. Mas as pessoas da casa do PROVE eram jovens bons. As pessoas sempre as julgariam, e sei muito bem como isso é.

Nesse momento, eu ainda estava determinada a ser uma pintora, então pintei em todas as superfícies que consegui encontrar. Uma vez peguei os sapatos que eu tinha usado no Algonquin Provincial Park e cobri a parte de baixo de um dos sapatos com gesso, que serve como uma base de superfície branca, e o pintei. Peguei um dos esboços que fiz na viagem, de um lugar à beira-rio onde a água passava pelas rochas, e pintei em acrílico. Depois, peguei pedras reais e colei-as, para que elas saltassem da pintura. Foi ótimo. Também peguei um pequeno galho de árvore que guardei e passei-o pela ponta do sapato. Apresentei essa peça em uma mostra de arte na escola e ela foi roubada. No entanto, me disseram que apenas as peças realmente boas eram roubadas, então é um bom sinal.

Eu também selecionava músicas para tocar na estação de rádio da escola. Consegui esse trabalho depois que liguei para a estação e reclamei que eles não estavam tocando mulheres o suficiente. O início dos anos 1970 foi uma época em que as pessoas ainda estavam com a mentalidade hippie de querer mudar as coisas e torná-las melhores. O garoto da estação me disse: “Se você não gosta, venha aqui e seja DJ para nós. Você pode tocar todas as mulheres que quiser”. Entrei nisso como uma criança beligerante, mas depois vi o quanto era divertido. Adorei lá. Tocava todos os tipos de música e, entre as músicas, colocava algumas coisas de comédia e transitava para harpas eólicas ou algo assim. Sempre me certificava de haver algum tipo de história acontecendo com a música. Era bem viajante. Na verdade, muitas pessoas costumavam viajar com as minhas apresentações.

Trouxe mais mulheres para as ondas do rádio e também fui a primeira “streaker” feminina no campus. Isso precisava ser feito – havia muitos caras fazendo e era hora de uma mulher fazer. Usei botas e um chapéu e corri nua pelo refeitório. Um dos meus amigos estudantes de arte disse: “Cyn, não pude deixar de te reconhecer, porque te desenho o tempo todo”.

E é claro que eu também tocava música. Eu tinha alguns amigos que viviam em um dormitório diferente, uma antiga casa de campo reformada. Sparkle e eu corríamos em um espaço para as vacas (contornando os estrumes) entre o meu dormitório e o deles. Eu levava meu violão e todos cantávamos e improvisávamos juntos a noite toda. Eu tocava um violão chamado Athena – aquele que as pessoas me davam dinheiro para tocar quando eu tinha 16 anos. Ele tinha um braço fino e um som agradável. Nós nos sentávamos e tocávamos, qualquer som era bem-vindo. Você podia tocar em copos de vidro se quisesse; não importa o que você usasse, eu amava isso. Uma vez, um professor disse que eu poderia me juntar à banda dele, mas que eu teria que me esforçar escrevendo músicas. Eu me animei muito. Depois do jantar, em Johnson, todos se sentavam e tocavam.

Durante esse tempo, B. B. King veio ao colégio para uma apresentação. Apertei a mão dele, mas lembro que eu estava com tanto medo que não pude olhar em seus olhos. Passei daquele aperto de mão assustado para um disco em que ele tocou dois anos antes. O arco e o milagre de uma existência é o que realmente me surpreende. Isso me faz lembrar: “Não se exclua”. Muitas coisas acontecem na vida por uma razão, e tudo que sei é que aquele aperto de mão, em algum nível espiritual, pode ter levado a mensagem “Oi, em vinte ou trinta anos você será uma musicista e eu estarei tocando em seu disco”.

Fiquei na faculdade por um ano e dois meses. Dei muito duro, mas mais uma vez eu estava sendo reprovada e simplesmente não aguentava. Minhas notas de arte eram boas, mas reprovei em história grega e também estava sendo reprovada em inglês, além disso, eu estava endividada. Quando decidi sair da faculdade e pegar carona para Nova York, chorei. Parei em uma igreja, como qualquer bom italiano, e orei a Jesus, meu amigo secreto, e de repente o senti em pé ao meu lado sem tristeza. De certa forma, ele estava me dizendo sem palavras que esse fracasso não tinha problema, que eu deveria ir para casa. Nunca vou saber se é apenas a minha imaginação que me faz ouvir e ver coisas, mas fico feliz. Isso me ajuda a passar pela vida.

Quando cheguei em casa da faculdade em 1972, desci pela Avenida Jamaica e as pessoas jogaram pedras em mim por causa das minhas roupas. Lembro que estava usando um casaco verde comprido, que era meio bonitinho; meu “chapéu cheio de estrelas” que criei depois de ler o livro Grapefruit, de Yoko Ono; meias que pareciam bengalas doces, brancas e vermelhas e grandes tamancos vermelhos número 37. Eu calçava 36, mas gostava deles, então usava meias grossas – foi assim que ganhei meus joanetes. Então nunca faça isso, ok? Use sapatos do número certo.

Logo voltei ao estúdio de Bob Barrell. Uma noite ele estava dando uma festa, eu estava tocando violão para todos e outra estudante de arte chamada Fran Kissinger sentou-se perto de mim e disse: “Sabe, você tem uma voz profissional – você deveria cantar profissionalmente”. Bem, por que não? Comecei a olhar anúncios que procuravam cantores nos jornais, mas o que geralmente queriam eram garotas negras que fizessem backing vocal para caras brancos (o que, quando você para e pensa sobre isso, é algo como “uma banda toda branca e backing vocals negras? Que raio é isso?”). Então ouvi falar de uma empresa que estava procurando cantores. Eu me encontrei com um cara que me disse que eu deveria aprender todas as diferentes músicas que estavam na rádio. Eu me apresentei para ele, tudo pareceu correr bem, mas depois tive problemas.

Ele me convidou para jantar em sua casa e eu achei que fosse um encontro. Então eu fui, e foi muito bom – luz de velas e tudo mais. Eu tinha provavelmente 20 anos na época e fiquei pensando: “Que cara legal, ele está preparando o jantar para mim. Quem faz isso?”. Então, claro, ele chegou em mim. Fiquei lisonjeada e fui em frente, então, de repente, ele recebeu um telefonema. Ele desligou, disse que sua esposa estava voltando para casa, me levou para fora e me colocou em um táxi. Esse foi o fim de tudo. Eu era uma garota estúpida.

Depois fui para outro teste, para uma banda cover. Dessa vez Fran foi comigo porque decidi que não faria mais audições sozinha. Cantei a música da banda Gladys Knight and the Pips, “I’ve Got to Use My Imagination”, cometi um erro e cantei mais alto do que deveria. Apenas forcei um pouco e não conseguia acreditar na grande voz que saiu de mim. Era tão alta e tão forte que pensei: “Puta merda, de onde veio isso?”. Você precisava ver a cara de todos também. Eles olhavam para mim, surpresos, e eu pensando: “Vocês acham que estão surpresos?”. Já tive um sonho em que um anjo me disse que eu era um leão adormecido e naquele momento pensei: “Esse deve ser meu rugido”. Mas continuei, afinal estava em uma audição. Entrei para a banda (estou deixando de fora o nome da banda, por razões que você verá mais tarde).

Havia um cantor gay que se parecia um pouco com John Travolta e um baixista que se vestia como Bootsy Collins, embora ele fosse um rapaz branco. Eu era uma backing vocal, mas de vez em quando as garotas do backing vocal cantavam como vocalistas, então sempre que a banda estava perdendo a plateia, me faziam dar um passo a frente e cantar algo como “Lady Marmelade”, “I’ve Got the Music in Me” ou “Tell Me Something Good”. Eu cantava como backing vocal com outra garota, Dale, que era incrível. Eu cantava as harmonias altas, então começaram a nos chamar de Tico e Teco.

Com minha nova banda, consegui um novo lugar para morar: o apartamento da Fran. Fizemos um acordo de que eu seria a babá de seus dois filhos. Eu fazia as apreentações à noite com a banda, mas tinha que acordar cedo e cuidar das crianças. E logo isso começou a ficar muito estranho. Fran estava passando por um período muito traumático, porque havia muita turbulência com seu ex, e as crianças estavam um pouco fora de controle. Uma vez dei um tapa no filho dela. O menino fez algo comigo e foi uma reação instantânea. Ele foi para perto da parede e nunca me perdoei. Eu mesma ainda era uma criança, mas nunca, jamais deveria ter batido nele. É errado, porque se você ensinar violência, a violência gera mais violência. Eu nunca conseguia fazer as coisas direito porque não sabia como. Eu não conseguia ser a babá de que ela precisava e não conseguia levar estabilidade para o lugar, então, por fim, fui embora.

Voltei para a casa da minha mãe no Queens e Fran começou a trabalhar em um bar como garçonete para sustentar os filhos. Nesse bar, conheci dois caras com quem pensei que ficaria, porque eu só queria sair para um encontro. Nunca deu certo com eles. Um deles era um veterano do Vietnã, mas eu não era sensível a sua situação e disse a ele que tinha marchado contra a guerra. Ele surtou. Esse encontro terminou de forma abrupta. Claro que foi assim, porque ninguém tratou bem esses caras quando eles voltaram e eu era uma criança estúpida que não entendia isso. Então, mais tarde, quando eu era vocalista da banda, comecei a ver o outro cara, que era amigo do baterista. Mas isso acabou quando ele se tornou um namorado nervoso, que precisava se certificar de que tudo corria bem nas casas noturnas, mesmo que ele não fosse nosso empresário.

A banda conseguiu alguns shows de abertura bons. Abrimos para Wayne County – uma vez quando ela era Wayne e mais tarde quando era Jayne. Você se lembra daquele musical Hedwig and the Angry Inch? Isso me lembrou muito Wayne/Jayne, embora o ator John Cameron Mitchell tenha dito que o personagem Hedwig era baseado em uma combinação de duas pessoas. Wayne era selvagem e engraçado. Sempre tive medo dele. Ele disse algumas coisas desagradáveis para mim, mas não me importei. Tocamos no Coventry Club, no Queens Boulevard, onde a banda Kiss fez sua primeira apresentação. Também abrimos para Isis, cuja vocalista era uma mulher lésbica linda. Ela tinha um cabelo loiro-claro no qual jogava glitter. Também usava uma camisa branca brilhante e calças brilhantes. Ela parecia uma rainha do gelo, mas seu violão estava em chamas. Naquela época era legal ver pessoas vivendo estilos de vida alternativos naquelas bandas “glitter” – no entanto, mesmo que um homem gay pudesse fazer rupturas, uma lésbica declarada nunca poderia.

Todos os proprietários de casas noturnas sempre tiveram problema comigo, porque eu não conseguia ficar de pé quando dançava. Eles perguntavam: “Por que ela não pode ficar parada ali e cantar?”. Eu costumava cair muito porque usava salto alto ou grandes plataformas. O vocalista se curvava e me ajudava, então ele caía, Dale tentava nos ajudar e depois estávamos todos no chão. Foi assim que aprendi a falar no palco – porque você precisa dizer alguma coisa.

Íamos para os shows em uma van velha e uma vez tivemos um acidente. Acho que estávamos no Southern State Parkway, na direção leste em Long Island, pela saída 60, e estávamos todos espremidos com o equipamento. Não havia cintos de segurança, o pneu furou, a van continuou em movimento, mas a forma hábil com que o motorista estava dirigindo, a forma como conseguiu manobrar, salvou nossas vidas. Eu me lembro de puxar as pessoas que estavam voando pela janela e, no fim, eu também estava voando, mas eu não estava sozinha. Estava voando com um anjo acima de mim e passei por músicos mortos que estavam do lado da estrada só observando – Duane Allman, Berry Oakley. Então o anjo disse: “Esse é um bom lugar para você pousar”, e era um arbusto. Aterrissei ali. Acabei com uma cicatriz na perna.

Cantar em casas noturnas e botecos em Long Island não foi fácil para minha voz. Eram lugares como o Glendale Lounge, onde Fat Jack costumava andar entre nossa aparelhagem com uma pizza, porque a cozinha ficava bem atrás de nós. Muitas vezes os guitarristas tinham amplificadores Marshall de 200 watts, muito populares na época, com guitarras Gibson Les Paul Goldtop – que são altas e sustentadas. Então, para ser ouvida, precisei pegar um amplificador de 50 watts para a minha voz e eu só tinha uma caixinha de nada para ouvir o retorno. Mas, depois de um tempo, eu continuava rouca. Eu começava cantando com tudo e terminava com nada, então eu ia dormir e tentava recuperar minha voz.

Quando estávamos fazendo shows, um empresário veio nos ver duas vezes. Ele nos disse: “Eu não vou administrar vocês a menos que coloquem a garota backing vocal que canta bem e cai o tempo todo como vocalista. Deixe o cara da frente que dança bem, mas canta pouco, ser um backing vocal com a outra garota – vamos ver como isso funciona”. Então fizemos isso, mas é claro que a banda meio que me odiava por esse motivo. E os donos da casa noturna sempre tinham problema comigo porque diziam que eu parecia um garoto e dançava como um garoto.

Este empresário, Phil, era um pouco maluco. Na minha opinião, ele era um idiota machista e manipulador. Uma vez ele foi a um lugar em que estávamos tocando chamado Three Ships, que tinha um bar enorme com um palco e servia bebidas por cinco centavos de dólar (assim os jovens ficavam engessados e se acidentavam de carro na estrada a caminho de casa). Eu estava cantando covers da Janis Joplin e, depois de um set, ele me puxou de lado. Eu estava com maquiagem, como costumo fazer, e ele me fez tirar tudo e subir ao palco sem nada, disse que Joplin nunca usava maquiagem. Isso não é verdade coisa nenhuma, às vezes ela não usava, às vezes ela usava. Você tem ideia de como era embaraçoso ficar na frente de todas aquelas pessoas, com luzes brilhantes, sem maquiagem?

E havia tensão na banda porque estavam um pouco zangados comigo. Uma noite, alguns de nós estávamos na casa de um dos membros da banda. Ele era um pouco maluco e muito provocador – o tipo de cara que falava sobre sexo e o que ele fazia com a namorada o tempo todo e achava engraçado fazer xixi na própria cerveja. Por alguma razão, ele e a namorada dele tinham uma caixa cheia de dildos na casa dele. Eles me disseram: “Vá em frente – escolha um”. Achei engraçado, estávamos todos rindo disso, então peguei um deles, olhei e coloquei de volta na caixa. A irmã da namorada dele também estava lá e estava tudo divertido até que, de repente, a atmosfera da sala mudou. Ele pegou o dildo e duas outras pessoas me agarraram. Corri para longe deles, mas eles me pegaram e tiraram a minha calça. Aí esse cara pegou o vibrador e o usou em mim.

O rapaz gay da banda estava lá e começou a surtar. Ele ficava gritando: “Oh, meu Deus, oh, meu Deus, não machuquem ela!”. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Tentei me soltar com todas as forças e não consegui, porque estava sendo segurada pela namorada dele e pela irmã dela – e ela era uma garota grande. Fiquei atordoada, em estado de choque.

Finalmente me soltei, agarrei o dildo e ia enfiar no rabo dele, e eles falavam: “Vai, vai, vai!”, mas eu o derrubei. Eu estava nauseada e incrédula, porque não eram apenas homens – era um homem e duas mulheres. Eu simplesmente não conseguia entender o porquê. Enquanto tudo estava acontecendo, vi alguém sentado na cama olhando para mim e chorando. Pensei: “Sou eu ou um anjo chorando”. A namorada do cara entrou no banheiro e entrei também. Eu ainda não estava vestida e perguntei a ela: “Por quê? Por que você fez isso comigo?”. Ela me disse que era porque ela amava o cara e queria fazê-lo feliz.

Apenas me vesti e saí. Fiquei meio que em choque por um bom tempo. Eu pensava que, quando você está numa banda, você é da família. Porque você é igual a eles. Sempre senti afinidade com músicos. Sempre ficava feliz em saber que havia pessoas no mundo que se sentiam como eu antes de encontrá-las. Pensava: “Por que diabos estou aqui? Sou um nada. O que posso fazer? Não posso fazer nada. Não consigo nem manter um emprego”. Pensei que havia um código de honra entre ladrões.

Depois percebi que talvez fosse porque esse cara tinha começado a banda, então o poder escapou dele e veio para mim. E esse ato foi como um instinto muito animal para dominar. Eu disse a ele que eu diria aos outros o que aconteceu e ele disse: “Vá em frente, diga a eles – eles não vão acreditar”. Dito e feito, eu disse aos outros rapazes da banda e eles não acreditaram em mim. Depois disso, se é que dá para acreditar, ainda fiquei com a banda porque me recusei a deixá-los me destruir.

A única razão pela qual nunca falei sobre isso publicamente antes foi por não querer dar poder a esse cara. Mas eis o que Deus fez. Em 1989, depois dos meus dois primeiros álbuns, eu estava comprando presentes de Natal em Nova York. Eu tinha motoristas maravilhosos – caras ótimos de verdade que me levavam para fazer compras. Estava nevando e eu estava na frente da Bloomingdale’s. Um cara veio e disse: “Cyn, como você está? Olhe para você: você fez acontecer. Estou tão orgulhoso de você”. Era ele. Perguntei como ele estava, e ele disse que estava trabalhando em uma delicatessen ou algo assim. Perguntei: “Como está sua namorada?”, e ele disse: “Oh, isso acabou há anos”.

No fim da nossa conversa, eu não disse nada sobre o incidente. Não precisei. Sabe quando você começa a ver o quadro completo? Voltei para o meu carro e segui em frente. Pensei: “Quer saber, amigo? A forma como você trata os outros, em algum ponto da vida, seja agora ou mais tarde, vai voltar para você”.

Tudo na minha vida tem sido uma lição assim. Todas as coisas malucas.

“PUDE VER COMO EU TINHA O

PODER DE CONSEGUIR UMA

REAÇÃO DAS PESSOAS.”