Deus é Vermelho
6. O paciênte com câncer
Capítulo 6
O PACIENTE COM CÂNCER
aixas de luz do sol poente ocupavam um canto do minúsculo pátio de Li Linshan. Enquanto falava, Li massageava uma grande porção de massa de farinha a fim de
F produzir cascas para bolinhos. A face pálida enrubesceu pelo esforço, o suor na
testa frisada. Eu ouvira falar que ele sabia cantar e pedi que me apresentasse algumas árias da ópera de Shanxi. Ajeitou-se para trás e respirou fundo. Expirou. Disse que a ópera exigia que o cantor soltasse a voz num registro maior, mas ele já não possuía resistência, e o melhor que seria capaz de conseguir estaria uma oitava abaixo. “Talvez pareça uma mulher”, alertou. Eu realmente apreciei a versão; achei que mesclava alguns elementos do cântico de hinos. Aplaudi com entusiasmo.
Quando os bolinhos fumegantes foram colocados sobre uma mesa baixa no pátio, nós nos sentamos, e Li conduziu uma oração de agradecimento, que se prolongou por algum tempo: “Hoje é dia de oração pela paz mundial. Senhor, tu trouxeste o irmão Kun Peng e o sr. Liao para ouvir minha humilde história de vida. Eles são intelectuais de destaque, mas estão dispostos a estabelecer amizade comigo. Agradeço por tuas bênçãos e espero que os abençoes com boa saúde...” As cabeças se curvaram em silêncio ao redor da mesa. Observei os bolinhos esfriarem. Após experimentar a fome da década de 1960, nunca recusei comida e sou um tanto glutão, mas comi devagar e sorri durante toda a refeição. Sorri quando terminamos a entrevista e trocamos apertos de mão na hora da despedida. Sorri por cerca de um quilômetro ao longo da estrada. Eu não queria sorrir, e meu rosto doía por causa do fingimento; eu estivera numa casa de grande dor.
Uma tempestade acumulada finalmente rompeu, com torrentes de chuva e ventos fortes, mas logo se ergueu a lua úmida, e as nuvens esparsas se assemelhavam a farrapos pendurados de musgo molhado da montanha contra a luz lunar.
Ouvi falar em Li Linshan pela primeira vez por intermédio de meu amigo Kun Peng, na primavera de 2009. Kun me incentivou a visitar Li imediatamente. “Caso contrário, será tarde demais”, disse ele.
As providências foram tomadas, e, por volta do meio-dia, em 16 de agosto, iniciei minha jornada ao longo de um trajeto estreito e lamacento, através de uma vasta extensão de pastagens. Longe, à esquerda, eu podia ver vacas e matilhas de cães na campina. Ao me aproximar do sopé de uma montanha, ouvi o estrondo de uma trovoada distante. Nuvens grandes como navios suspensas no ar. Houvera uma grande tempestade na noite anterior, e meus sonhos tinham sido repletos de perturbadoras imagens de sublevação das águas, que submergiam a cidade e atingiam o cume de uma montanha. Eu era o único sobrevivente, pulando as montanhas de topo em topo, feito um macaco.
Li morava na parte antiga de Dali, e Kun Peng encontrou-me na avenida Renmin para me guiar no restante do caminho. Descendo as ruelas estreitas, virando à esquerda e à direita, chegamos à rua Guangwu, onde paramos em frente a uma porta, com um cartaz horizontal vermelho sobre o batente de madeira desbotada, proclamando em quatro proeminentes caracteres chineses: As bênçãos de Deus.
Da rua, Kun gritou o nome de Li. Uma mulher com a pele queimada pelo sol abriu a porta. Era a atual esposa de Li. Eles estavam casados havia cinco anos. Kun me levou até o meio do pequeno pátio e me apresentou a Li, que estava agachado num canto, uma faca de cozinha em cada mão.
— É um prazer conhecê-lo — disse Li. — Desculpe, não posso apertar sua mão, estou fazendo bolinhos para vocês.
E voltou a cortar e fatiar. Kun me pegou pelo braço e sussurrou:
— O irmão Li é pouco mais do que um esqueleto.
Surpreso pela intervenção contundente de Kun, falei:
— Ele é um pouco magro, mas parece possuir bastante energia.
Li me ouviu e deu risada:
— Tenho energia porque hoje é um dia especial. Estou muito animado com a visita de vocês. Por isso estou fazendo bolinhos. É a primeira vez que cozinho desde que adoeci. Quem sabe, pode ser também a última.
Li disse que estava usando uma receita tradicional de sua província natal, Shanxi:
— Tenho de cortar a carne e os vegetais bem finos. Quero deleitá-los com um autêntico banquete de bolinhos de Shanxi.
Li terminou em pouco tempo, e, após limpar as mãos num pano velho, iniciamos nossa conversa.
Liao Yiwu: Como você ficou doente?
Li Linshan: Hum... Na verdade, eu não sei. Acho que sempre estive doente. Nasci em 1963, ao cabo dos três anos de fome. Na época em que engravidou, minha mãe não tinha o suficiente para se alimentar na cidade. Ela retornou à aldeia natal na província de Shanxi. Segundo minha avó, quando nasci, parecia um gatinho minúsculo, agarrado a mim mesmo, fraco demais até para chorar. Meus pais não acreditavam que eu pudesse sobreviver e decidiram me abandonar, mas minha avó impediu. Ela disse: “Ele está respirando. Se o agasalharmos perto do fogo, provavelmente poderemos aquecê-lo e salvá-lo”. Meu pai suspirou e disse: “Por três anos não fomos capazes de nos alimentar. Como você vai conseguir criar esse garoto? Além disso, ele não parece ter pulmões para cantar”.
Liao: Seus pais eram cantores?
Li: Eles eram cantores profissionais num grupo local de ópera chinesa. Eram bastante conhecidos na ópera Luozi. Meus pais se apresentavam com o grupo de ópera há vários anos, mas os tempos eram difíceis. Assim, voltaram para a aldeia de origem, no distrito de Danshan. Eles acreditavam que a agricultura providenciaria uma renda estável, mas nunca deram muita sorte. A principal fonte de angústia de meus pais era minha saúde. Eu fui constantemente atormentado com toda sorte de doenças. Mas os pobres não podem pagar um médico.
Liao: E agora?
Li: Eu tenho o que o médico chama de “carcinoma gástrico de cárdia”. O câncer está aqui, onde a garganta encontra o estômago. Quando o médico deu o diagnóstico, em 2007, ainda estava num estágio inicial. Agora, porém, o câncer se espalhou. Cirurgia, radioterapia, quimioterapia, tudo isso custaria pelo menos 20 mil iuans [aproximadamente 5 mil reais em valores atuais]. Eu conserto roupas, 1 iuan [aproximadamente R$ 0,25] para remendar um furo ou pregar um botão. Não havia como juntar tanto dinheiro. Mesmo com a cirurgia, os médicos disseram que eu só viveria mais ou menos uns cinco anos. Não tínhamos dinheiro. Eu não tinha sequer um lugar para pedir dinheiro emprestado. E, ainda que pudesse tomar emprestado dinheiro suficiente para estender um pouco mais minha vida, seriam necessárias gerações da minha família para pagar a dívida. Eu sou chinês e nasci numa área pobre. O que posso fazer?
Liao: Sua cidade natal serviu de base para os comunistas nos primórdios da revolução. O presidente Mao mencionou as contribuições da cidade para a revolução em diversos artigos. Li: Você está certo. Nos primeiros dias, o povo de minha cidade se uniu a Mao em sua campanha guerrilheira e apoiou as tropas comunistas no período mais difícil. Quando a revolução obteve êxito, as pessoas supostamente se tornariam mestres da nação, mas a vida piorou ainda mais.
Veja, não havia água. Cavávamos poços profundos, da altura de duas pessoas, mas eles estavam sempre secos. Água era como ouro. A água da chuva era gratuita, mas não durava muito. Tinha gosto de sopa lamacenta, cheia de insetos. Se você enchesse uma concha, era possível ver os insetos se contorcendo na água. No período de seca, toda poça era preciosa. Infelizmente, o período de seca durou muito. Naquele tempo, toda a gente montava numa carroça puxada por um burrinho com um balde grande em cima. Escalávamos montanhas para obter água a 5 ou 6 quilômetros de distância.
As coisas mudaram um pouco atualmente. O governo iniciou uns projetos hídricos para ajudar a aliviar a situação. Mas, entenda, antes de deixar minha aldeia, aos 30 anos, eu só tinha me lavado na chuva torrencial, completamente nu no pátio, nossa limpeza anual. Após o nascimento de minha primeira filha, a parteira lavou minha esposa e o bebê somente com uma bacia pequena de água.
Liao: Você não se preocupou com infecção? Li: Nunca consideramos a infecção uma doença. Pessoas com câncer não podem pagar o tratamento. Na verdade, nem mesmo de uma infecção comum. Ela se curava sozinha. Em minha cidade natal, havia uma alta incidência de câncer de estômago ou de esôfago. Se bem me lembro, a única pessoa que pôde pagar o tratamento foi um respeitado professor que trabalhou na cidade e tinha se aposentado. Depois que descobriu o câncer, foi hospitalizado e passou pela cirurgia. Todas as contas médicas foram cobertas pelo governo. A cirurgia foi um sucesso. Foi uma das grandes notícias, algo praticamente inédito. Quando retornou do hospital, a aldeia havia planejado uma enorme celebração. O professor aposentado contribuiu com 600 iuans [aproximadamente 150 reais]. Grupos locais de ópera montaram um palco e se apresentaram por três dias. Pessoas vinham de longe para assistir às óperas.
Liao: Qual era a média de vida para as pessoas de lá? Li: Por volta de 60 anos, ou algo assim. Havia exceções. Meu avô viveu até os 80 anos, mas ele não tinha ideia de como conseguira viver tanto tempo. Meu pai era o mais saudável da família. Nos campos, parecia um touro grande, trabalhando de manhã à noite sem pausa. Morreu com 50 anos. Envenenamento. Antes de ir trabalhar no campo, ele borrifava inseticida por todo o corpo para matar pulgas. Era um dia quente e ensolarado. Em pouco tempo, estava todo suado. Acho que o inseticida penetrou em sua pele através dos poros abertos.
No começo, ele teve uma dor de estômago. Depois, o sofrimento se tornou insuportável. Ele voltou cambaleando para casa e deitou na cama. Lembro que soltou uns gritos e então desmaiou. Antes que as estrelas surgissem na noite, seu corpo se contraiu algumas vezes e então ele se foi.
As pessoas normalmente utilizavam DDT ou outros pesticidas. O inseticida que meu pai usava era mais potente. A coceira das picadas de pulgas o deixava maluco, e ele queria alívio rápido. Sem água, as pessoas nunca tomavam banho nem lavavam suas roupas ou colchões. Perfeito para pulgas.
Liao: Muitas pessoas morriam por causa de inseticidas, tal como seu pai? Li: Era bem raro. Começávamos a mexer com inseticidas quando crianças. No início, sentíamos alguma ardência, e alguns de nós tínhamos manchas de cicatrizes arroxeadas. Depois a pele descascava. Em casos mais sérios, a pele ficava vermelha e irritada. Às vezes, sentia-se alguma tontura. Podia-se superar a situação em três ou quatro horas. Gradualmente, o corpo se acostumava ao veneno. Além disso, no verão, depois que aplicávamos o inseticida, em geral esperávamos secar antes de sair de casa. Meu pai era impaciente demais e saía correndo para o sol quente quando ainda estava molhado.
Liao: O que você fazia antes de vir para Yunnan? Li: Em 1998, vi um anúncio no jornal a respeito de uma escola para alfaiates na capital da província, Taiyuan. Deixei a aldeia e viajei para Taiyuan, usando todas as minhas economias para pagar as mensalidades e as despesas pessoais. Após a graduação, retornei para a aldeia. Eu era o “famoso alfaiate” que havia conhecido o mundão. Isso aconteceu pouco antes do ano-novo chinês. Muitas famílias apareciam à porta, trazendo tecidos novos e pedindo que eu lhes costurasse algumas roupas. Você não pode imaginar como eu estava tenso, um recém-formado sem experiência nenhuma. Tive de improvisar. Mas sobrevivi. Poucos anos depois, minhas técnicas haviam melhorado, e meu material se tornou apresentável. Em 1994, um tio do lado materno veio nos visitar. Ele vivia em Chuxiong, na província de Yunnan. Foi logo depois de meu divórcio, e eu estava me sentindo infeliz. Esse meu tio me incentivou a ir para Chuxiong e até pagou a passagem de trem. Ainda assim, a viagem durou quatro dias.
Liao: Como diz o ditado chinês: “A árvore morrerá se replantada, mas a pessoa prosperará quando trocar de morada”.
Li: Eu posso utilizar a água que jorra livremente de uma banheira e me lavar quanto quiser. Às vezes, sinto-me culpado por ser tão extravagante. Uma noite, tive um sonho em que estava sentado dentro de uma banheira. Então, meus conterrâneos apareciam a minha volta, com blasfêmias e maldições: “Canalha! Como pôde desperdiçar tanta água que poderia suprir gerações do povo daqui?” Aí começaram a me morder. Acordei suando.
Liao: E você continuou aqui o trabalho de alfaiate? Li: Sim. No início, trabalhei para um alfaiate na rua Foreigner. Por fim, abri minha própria loja. Havia muitos estrangeiros e pretensos estrangeiros na cidade. Encontrava-se ali todo tipo de trajes exóticos e esquisitos. Um lugar realmente muito cosmopolita. Mas eu era um caipira de Shanxi, não havia como competir com os outros alfaiates. Decidi, assim, me especializar em consertar roupas. Fazer bainha, consertar zíperes, remendar furos, esse tipo de coisa. Custo baixo, mas somava. Desse modo, prosperei. Tinha 32 anos quando cheguei aqui. Em quinze anos, economizei uma boa quantia e pude enviar algum dinheiro para casa.
Liao: Quem cuida de seu negócio hoje?
Li: Não tenho mais de me preocupar com meu negócio. Fechei a loja. Estou fraco demais para lidar com a máquina de costura. Não me restam muitos dias.
Liao: Você se sente perdido?
Li: Não, não estou perdido. Deus faz planos para mim.
Liao: Quando você começou a acreditar em Deus? Li: Ouvi falar no cristianismo quando criança. Não sei se em livros didáticos ou em reportagens de jornais, mas nos diziam que os imperialistas estrangeiros escravizavam o povo chinês com o cristianismo, que era uma espécie de ópio espiritual. Éramos ateus. Não havia cristãos em minha aldeia. Alguns entre os mais velhos acendiam incenso e adoravam deuses budistas e taoístas em templos durante os feriados. Eu costumava olhar para eles com desprezo, até condenando-os por serem supersticiosos. Depois que cheguei a Yunnan, minha mente se abriu. Vi pessoas de todas as cores e países. Comecei a sair com algumas delas. Havia protestantes, católicos, muçulmanos, bahaístas, toda sorte de credos.
Eu era uma vítima da ideologia comunista ateia. Não possuía nada com que me apegar espiritualmente. Não fazia ideia de onde seria o fim. Cada vez que as coisas começavam a me incomodar, eu planejava um modo de escapar, ou por meio do cigarro ou da bebida, ou simplesmente enterrando o sentimento lá dentro. Minha filha mais velha sofreu de uma febre severa, que se revelou meningite. Demoramos a iniciar o tratamento. Ela acabou tendo epilepsia e, mais tarde, ficou surda e muda. Morreu antes de completar 9 anos. Naquele momento, meu coração sangrava o tempo todo, mas eu não sabia o que fazer nem onde procurar ajuda.
Quando descobri que tinha câncer, vivi uma fase muito difícil de reflexão. Contava meus dias com os dedos e dizia para mim mesmo: “Eu quase não tive felicidade nenhuma em vida. Qual é o sentido da vida?”.
Liao: Se você possuísse 20 mil iuans, poderia ter se tratado. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Li: Se tivesse feito a cirurgia, talvez pudesse ter prolongado minha vida em mais cinco anos. Mas qual é a vantagem? Seria como esperar a morte. O câncer é uma faca cega, que me golpeia e me corta lentamente em pedaços. A dor é insuportável; era tudo o que eu podia fazer para aguentar. Não tinha sequer força para cometer suicídio.
Liao: O que mudou?
Li: Havia um sujeito, o irmão Yang. Ele nasceu em Baoshan, Yunnan, e morava perto daqui. Ele costumava passar sempre pela loja. Começamos a nos conhecer melhor, e ele entrava e conversava comigo, perguntando sobre minha vida e os negócios. Um dia, contei sobre meu câncer. Ele ficou muito chocado. Sentou-se e ouviu minha história. Ele se preocupou de verdade comigo. Disse: “Vai custar um monte de dinheiro tratar o câncer”. Eu lhe disse que não possuía o dinheiro. Tudo que podia fazer era esperar a morte me levar. Ele não concordou. Disse: “Não desista tão facilmente. Vamos acreditar em Deus. Deus irá oferecer uma cura”.
Eu não o levei a sério. Ele me visitou muitas vezes e dizia coisas como: “Velho Li, em sua condição atual, ter fé em Deus é a única saída. O hospital não pode ajudá-lo. Seus parentes estão desamparados. O governo não pode ajudá-lo. Pessoas comuns como nós, especialmente pessoas pobres como nós, precisam de algum suporte espiritual e ter fé. Você está à beira da morte. Por que então hesita assim? Entregue-se aos cuidados de Deus”.
Com isso, as lágrimas surgiram em meus olhos. Para dizer a verdade, eu era um patético fantasma vivo, mas havia sido um tanto arrogante, preocupado em ser desonesto, à espera da desgraça alheia. Mas Deus estendeu a mão para mim, vez após vez, por intermédio do irmão Yang. Assim, eu disse em alto e bom som: “Deus, me aceite”.
O irmão Yang fez uma oração de libertação por mim no mesmo instante. A balbúrdia na rua prosseguia a mesma. O sol continuava a brilhar sobre a cidade. As telhas permaneciam nos telhados, e os pássaros se empoleiravam nelas, gorjeando como sempre. A natureza seguia seu caminho. Somente eu havia mudado.
Acompanhei o irmão Yang, as mãos apertadas ao peito, as lágrimas escorrendo como pingos de chuva. E, vou lhe contar, eu não estava dominado pela tristeza. Eu me sentia grato. Pela primeira vez na vida, não pensava em mim mesmo ou nos seres humanos. Eu pensava em Deus, que se encontra acima de nós, acima de todas as coisas vivas, acima das mais altas montanhas e acima do lago Erhai. Meus pais me deram à luz, mas Deus me deu a vida. Eu não sabia disso. O câncer ajudou a abrir meu entendimento, concedeu asas a meu coração chafurdado na lama, e o fez voar e sentir a bem-aventurança do paraíso.
Liao: Estou comovido por sua descrição poética. Fale-me mais sobre o irmão Yang. Li: Ele é ministro de uma igreja doméstica local. Ele acredita que ir à igreja não torna alguém necessariamente um crente em Jesus. Mas, como você sabe, o governo não reconhece a existência legal das igrejas domésticas. Durante a Páscoa, em 2008, fui batizado numa antiga igreja daqui, que tem mais de cem anos de história. Muitos cristãos na região são como eu. Fazemos as duas coisas. Participamos tanto dos cultos na igreja quanto nas igrejas domésticas.
Liao: Com a conversão, sua saúde melhorou? Li: A doença provavelmente piorou. É cada vez mais difícil me alimentar. Posso sentir o tumor preso aqui. Preciso confiar na sorte a cada refeição. Primeiro, tenho de tomar um pouco de água e então comer pouco a pouco. Se eu tiver sorte, a passagem se abre um pouco, e alguma comida pode descer suavemente. Às vezes, nem a água desce. Quando isso acontece, fico com fome. Mas me sinto mais relaxado e com o espírito elevado. Quando comecei a orar, costumava nutrir pensamentos egoístas. Estava à espera de um milagre, como se Deus me devesse isso. Em consequência, estava sempre confuso. Pensava que Deus não tinha poder para me ajudar. Deus não iria me salvar. Em quarenta anos passados, eu tinha vivido na miséria, nada além da miséria total. Não era fácil mudar completamente. Meu pastor me instruiu a orar pelos amigos e parentes, a orar por aqueles que são vítimas dos desastres que acontecem no mundo todos os dias e a orar pelos indivíduos e nações que estão envolvidos em crimes de injustiça, ganância e assassinato e recusam reconhecer seus crimes. Devemos orar para que o Senhor perdoe esses indivíduos e nações e lhes ofereça outra chance de redenção. Eu devo orar pelos outros, e, se estiver profundamente comprometido, o Senhor vai me ajudar sem que eu perceba.
Liao: Você mencionou o suicídio; ainda tentaria cometê-lo se pudesse? Li: Hoje acredito que isso é um pecado. A vida é dada por Deus. Apenas ele tem o direito de encerrá-la. Eu tive todo tipo de doença e passei por cirurgias. Vivi numa aldeia sem água. Achava que a vida era insuportável e que eu não seria capaz de sobreviver, mas sobrevivi. Acho que uma morte natural será muito mais suportável do que passar por uma cirurgia ou viver numa aldeia sem água. A morte será como uma folha que cai no chão. Minha alma flutuará até os braços dos anjos.
Epílogo
Liao publicou essa história em um site em língua chinesa no exterior. John Zhang, um pastor da Igreja Evangélica Reformada, situada em Bay Area, em San Mateo, Califórnia, comoveu-se profundamente com a coragem do paciente e angariou fundos através de sua organização sem fins lucrativos, a Humanitarian China, para cobrir o valor da cirurgia. Li Linshan pôde realizar a cirurgia. No momento em que este livro estava para ser publicado [novembro de 2010], o paciente se encontrava em fase de recuperação.