Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 14 de 21

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Deus é Vermelho

12. O banquete

Capítulo 12

O BANQUETE

 

s baladas yi podem ser animadas e jubilosas, ou serenas, ou reminiscentes de espíritos viajantes solitários, repletas de tristeza e melancolia. Meu primeiro

A contato com a balada yi ocorreu num bar em 2007, quando eu estava viajando em

Dali. Conheci um músico francês que havia acabado de retornar de uma jornada a diversas aldeias yi na região de Daliangshan. Com seu equipamento caro, ele havia coletado dezenas de antigas baladas e as gravou em três CDs. Bebemos juntos, e ele tocou uma seleção para mim.

Aquelas canções entraram em meu sonho certa noite. Uma melodia simples e repetitiva ecoava dentro das desnudas e sombrias montanhas, cada nota derramando uma lágrima, escorregadias feito minhocas. Quando acordei, meus pés estavam gelados, algo que gosto de atribuir a minha interpretação subconsciente da cultura yi: um povo oriundo de montanhas escuras e úmidas, cuja existência compunha-se de uma combinação de deuses, espíritos e humanos.

No início de agosto de 2006, fui convidado pelo reverendo Zhang Mao-en a participar de um culto realizado não numa igreja, mas no pátio da casa de um paroquiano. Enquanto ele me conduzia por uma trilha estreita e lamacenta que se entremeava na aldeia, abrindo espaço para a passagem do gado adornado com sinos e de cavalos galopantes com barriga arredondada, eu andava cuidadosamente, evitando as pegadas dos cascos, que eram seguidas por excrementos exalantes. Zhang parecia alheio às agruras triviais da vida rural.

A visão e o cheiro de tanto estrume me fizeram lembrar de um artigo alegórico que fui obrigado a ler na escola durante a Revolução Cultural. Um grupo de jovens urbanos enviado às regiões rurais para receber “reeducação” tropeça em um monte fresco de esterco de vaca num caminho lamacento semelhante ao nosso. Enquanto procuram uma pá para remover o monte, aparece uma garota camponesa, que enche as mãos com o esterco e o carrega até o tanque comunitário de estrume. A jovem camponesa demonstra um exemplo poderoso para os jovens da cidade, que são incapazes de enxergar além de seus hábitos burgueses mesquinhos. Nosso professor nos apresentava uma série de questionamentos: Qual era pior, o esterco do cavalo ou o mesquinho modo de pensar da burguesia? Quem possuía a mente mais pura, a camponesa ou os jovens da cidade? Quarenta anos mais tarde, os professores já não mesclam as fezes de vaca com a ideologia comunista. O povo chinês sabe que bosta fede, e que qualquer um em sã consciência usaria uma pá para recolhê-la, seja proletário, seja burguês.

O que devia ser uma caminhada de cinco minutos durou meia hora, e, no instante em que chegamos, minha calça e meus sapatos estavam uma bagunça enlameada. Bati os pés no chão seco, tentando me livrar da sujeira, quando alguém me tocou no ombro e disse: “Não desperdice energia. A lama secará em pouco tempo e vai se soltar com facilidade”. Ao nos aproximarmos do pátio da casa do paroquiano, pude ouvir os hinos estourando nos dois alto-falantes da era Mao, muito parecidos com os usados pelos militares do partido durante as sessões de denúncia, mixados numa estática sofrível que castigava meus tímpanos e, por um momento, me lançava de volta a épocas mais sombrias.

O sol já ia alto. O ar estava úmido, e a música das cigarras ressoava por todo canto. Lambi meus lábios ressecados, olhei ao redor para me orientar e percebi que naquele lugar, na noite passada, eu encontrara Zhang. A casa e o pátio pareciam bastante diferentes à luz do dia, o que era surreal e mágico tornou-se surrado e rude, a multidão indistinguível de qualquer outro amontoado de camponeses simples e ordinários, exceto que todos sorriam, o que só posso atribuir à felicidade induzida pela fé.

A cabeça grisalha de Zhang desapareceu depressa no interior da casa. Único ministro ordenado na região de Sayingpan, aquele era seu espetáculo. Observei os paroquianos, e o que à primeira vista parecia caótico, resolveu-se em ordem conforme os recepcionistas arranjavam os assentos e distribuíam chá e doces enquanto os cozinheiros trabalhavam na cozinha.

Os cristãos nas principais metrópoles da China estão altamente divididos em relação às igrejas sancionadas pelo governo, mas os aldeões daqui não são tão políticos. Eles frequentam cultos dominicais nas igrejas patrocinadas pelo governo e administradas por Zhang, mas também participam de cultos realizados pelas famílias dos pastores.

Ao meu redor, no pátio, a conversa cessou, e meus ouvidos se esforçavam para ouvir a voz de Zhang, que aumentava e diminuía no ar cálido matinal. Eu escutava, mas não entendia uma palavra. Ele falava na língua yi. Era como a sensação que tive, quando jovem, ao escutar uma fita do poeta T. S. Eliot lendo seus poemas. Podia somente decodificar o significado por meio dos tons e ritmos e com os olhos, o nariz e a mente. Deixei a imaginação preencher as lacunas e senti que podia ver o sangue de Jesus, cheirar o ar fétido anterior a sua morte, e partilhar a exultação dos outros a meu redor com a ressurreição. Não foi um culto longo, e logo a multidão pronunciou “amém” e a vida retomou a ruidosa condição secular.

A língua impossibilitava entrevistas com os participantes, mas muitos haviam me visto chegar com Zhang, de modo que pude me movimentar livremente com a câmera, tentando capturar rostos interessantes e cenas inusitadas. Montes de lixo e sujeira empilhados ao longo dos muros perto da entrada do pátio. Noutro canto, uma pocilga e um galinheiro. Animais e humanos viviam lado a lado, compondo um quadro harmonioso. Quatro senhoras de idade sentadas próximas umas das outras nas escadas inferiores da casa, debaixo do sol escaldante. Uma delas se levanta, balançando-se, hesitante, à frente. Focalizo seu rosto calejado, a testa profundamente enrugada.

Aproximava-se o meio-dia, e as moscas zumbiam de um lado para o outro. Quando os aldeões a meu redor gesticulavam, ou riam, ou se cumprimentavam, as moscas subiam e giravam em torno deles. Quando parados, as moscas pousavam sobre sua cabeça, ombros, braços e pernas. Pequenas nuvens de moscas pairavam sobre as conversas mais animadas.

Zhang acenou para mim, e entrei na casa, onde estava mais fresco e havia menos moscas. Ele me apresentou a diversos pastores de outras aldeias, mas nossas conversas em mandarim eram simples e limitadas a frases comuns. Todos pareciam bronzeados, rubros como a terra vermelha do planalto de Yunnan-Guizhou, o rosto transpirando bondade e nobreza. Quando as palavras se esgotaram, sorvemos um gole de chá e sorrimos uns para os outros.

Lá fora, quatro mesas eram preparadas para a comida. Tendo crescido nas áreas rurais da província de Sichuan, eu havia participado de toda espécie de banquetes — casamentos, funerais, aniversários —, mas nada comparável a esse. As pessoas em Yunnan estavam acostumadas a bancos baixos e mesas pequenas, enquanto o povo em Sichuan preferia bancos mais altos e mesas compridas. Mas os costumes do banquete eram os mesmos. Dos tempos ancestrais até a modernidade, pessoas em cada província mantinham as tradições de celebração: abate de porcos e cabritos e grandes pratos e tigelas recheados com carne meticulosamente preparada, além de travessas com legumes.

Os cozinheiros, apressados, entravam e saíam da cozinha. A anfitriã convidou Zhang e os outros pastores e pregadores a ir até o pátio. Todos se levantaram e se curvaram uns para os outros. “Por favor, vá primeiro, eu posso esperar”. Ninguém se moveu. Poucos minutos depois, a anfitriã apareceu novamente, incitando Zhang a sair. “Por favor, vá primeiro, eu posso esperar.” Após um terceiro diálogo do tipo, Zhang agarrou meu pulso e disse a todos: “Vamos para fora e começar”. Zhang guiou os outros líderes da igreja escada abaixo, acenando para a multidão, trocando algumas palavras aqui e ali no caminho até as mesas. Cada uma delas estava ocupada por oito a dez aldeões; mais aldeões aguardavam na parte externa do pátio, à espera de se juntar à segunda sessão.

Carne de porco, cordeiro, frango, pato, tofu, amendoins e legumes fritos, cozidos, ensopados e crus: a maioria dos pratos aparentava e cheirava como se temperados com grande quantidade de ardida pimenta vermelha. Em minutos, a mesa estava coberta por uma dúzia ou mais de pratos. O sol, agora, posicionava-se sobre a multidão. Eu estava faminto. As moscas mais pareciam corvos, tentando abocanhar a comida. Em outros banquetes, as pessoas tilintariam seus copos e, aos berros, brindariam ao próximo. Nesse dia, o pátio estava em silêncio, salvo o zumbido das moscas. A montanha se avultava à distância, gloriosa na luz solar.

Zhang se levantou, olhou ao longe, e abaixou a cabeça para conduzir uma oração. Elevou-se sobre nós, nos bancos baixos. Cada palavra yi que pronunciou soava melódica e bela.

Zhang estava orando.

Senti-me assolado por um conjunto inteiramente diferente de emoções. A escuridão úmida e solitária em meu sonho evaporou em torno de mim. Sua voz, profunda e densa, e as palavras melódicas me faziam pensar na bela e inspiradora música gospel dos negros americanos ou nos cânticos que arrebatam a alma das antigas tribos africanas.

Zhang estava orando.

Com seu “amém” repetido em coro por todos os presentes, meus ouvidos retornaram aos sons e atividades normais da vida, os pauzinhos a estalar por entre a comida. Mais pratos foram servidos. Zhang se envolveu em algumas conversas animadas com os vizinhos em torno da mesa. Riam, aberta e livremente, com alegria.

Nesse momento, recordei uma passagem da Bíblia, que eu havia lido antes da viagem. “Neste monte o Senhor dos Exércitos preparará um farto banquete para todos os povos, um banquete de vinho envelhecido, com carnes suculentas e o melhor vinho”. Realmente, uma festa memorável e uma celebração da vida.

O banquete terminou por volta das 13 horas. Após me despedir do reverendo Zhang, meu motorista recomendou uma visita ao local do antigo Seminário Teológico do Sudoeste, em Salaowu.

O carro deslizava numa recém-pavimentada estrada de concreto. Tratores pequenos expeliam colunas de fumaça negra, contaminando o ar puro. Quando o motorista se deteve na margem de um milharal, pude ver o contorno do seminário, assentado como uma ilha solitária entre um mar verde de hastes de milho. Comecei a me sentir estranhamente animado e ansioso. Saltei valas e andei a passos largos. Pensei no dr. Sun, que me deliciava com histórias sobre o seminário e seu fundador, um missionário australiano chamado Zhang Erchang. No início do século 20, o seminário se tornou uma incubadora para a liderança cristã na região. Quando morreram, Zhang Erchang e a esposa foram enterrados nas proximidades. Quase todos os líderes cristãos que eu havia entrevistado na região mencionavam o seminário e comentavam sua tremenda influência sobre a comunidade cristã local. Minhas expectativas aumentavam enquanto eu atravessava com ímpeto o milharal, e o motorista atrás de mim, ofegando e gritando, pedindo que andasse devagar.

Dois ou três pequenos prédios desbotados com telhas cinzentas compunham a totalidade do campus. Se a pessoa não conhecesse a história, presumiria que o terreno consistia em uma simples coleção de casas de fazenda. Não havia prédios no estilo ocidental, nem vitrais ou afrescos bíblicos.

Um aldeão nos guiou até a capela, com a estampa de um sol crescente amarelo pintado sobre uma janela do segundo andar. Seguimos vários aldeões por uma pequena entrada. O interior era espaçoso, com vigas de madeira expostas. A pintura do teto descascava. As luzes da tarde entravam filtradas através das amplas janelas. Havia um balcão e um quadro-negro na parede frontal, com uma cruz vermelha pendurada acima. Fileiras de extensos bancos verdes podiam acomodar mais de uma centena de pessoas.

Uns seis aldeões sentaram em silêncio no interior do ambiente vazio, como estudantes diligentes que chegam antes à classe a fim de se preparar para as lições. Corri os olhos pelo lugar, em busca de traços de sua antiga glória. Vaguei pelo lado de fora da capela, em torno do pátio, e até escalei uma colina, com a esperança de localizar o túmulo ou a lápide de Zhang Erchang. Nada.

Espiei cada sala nos prédios adjacentes. Tudo que pude ver foi poeira, aranhas, moscas e dejetos de animais. Um cão de aparência feroz amarrado com uma pesada coleira de ferro fundido dormia dentro de uma sala dilapidada. Noutro prédio, subi até o segundo andar; o piso de madeira parecia mofado e apodrecido. Andei uns passos à frente e ouvi um estrondo. Um grande buraco apareceu. Uma pequena multidão se reuniu no andar inferior e olhou para cima, tentando descobrir o que estava acontecendo.

Nós descemos. O motorista me seguia de perto, preocupado que eu me envolvesse em mais confusões embaraçosas.

Desanimado, sentei num lance de escadas de pedra na frente da capela. Um grupo de pessoas passou por mim para participar de um culto vespertino. Parei uma mulher de aparência piedosa e perguntei, lentamente, em mandarim: “Você conheceu um missionário chamado Zhang Erchang? Você sabe algo sobre o Seminário Teológico do Sudoeste?”.

A mulher parecia confusa e balançou a cabeça. Ela não tinha ideia do que eu estava resmungando.