Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 9 de 21

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Deus é Vermelho

7. A comunidade

Capítulo 7

A COMUNIDADE

 

i Linshan, o paciente com câncer, queria que eu o acompanhasse a um culto cristão para que pudesse compreender melhor o que Deus havia feito por ele. Anoitecia

L em 18 de agosto de 2009, quando saí da casa em que estava hospedado em Dali e

me dirigi a um cruzamento nas proximidades, onde Li disse que me encontraria. Era uma noite agradável, com uma morna brisa quente ao sul e o céu róseo manchado pelas nuvens. As luzes da rua surgiam. Podia ver sombras de atividade humana a cintilar nas janelas das casas de teto baixo. Li estava esperando por mim, e partimos em direção a uma aldeia suburbana pelo lado leste na parte antiga da cidade de Dali.

Eu começava a me acostumar com os becos desordenados que conectavam a cidade aos subúrbios rurais. Uma combinação incompatível de edifícios novos e casas antigas demarcava o caminho. Máquinas gigantescas expeliam pó de uma pedreira. Caminhões e tratores corriam enlouquecidos nas ruas estreitas, espremendo os pedestres numa fila única junto às calçadas. Li Linshan parecia alheio ao ruído e agitação em torno de nós, movimentando-se de modo calmo e suave. Ele começou a cantarolar um hino, que elevou meu humor. O sol poente projetava ricas camadas de sombra púrpura. Por um instante, imaginei que estávamos dentro de uma pintura a óleo inacabada.

Li informou que íamos à aldeia Ganjia, perto do lago Erhai, embora a mistura caótica de edifícios altos e casas baixas no decorrer do percurso não oferecesse nenhuma indicação de onde uma aldeia terminava e outra começava. Eu apenas seguia Li, que disse que a área havia sido um milharal, mas recentemente fora transformada em fazendas para criação de suínos e aves. Isso explicava o fedor permeando o ar. Somente após passarmos por uma mercearia tocada por uma família e entrarmos num pátio, percebi que alcançáramos nosso destino. Na escada da casa, duas mulheres de trajes gastos nos cumprimentaram. Elas apertaram nossa mão com entusiasmo e nos conduziram ao interior da casa, tão amontoada de pessoas que imaginei estar submerso numa panela de sopa quente fumegante, borbulhando em ruídos e sorrisos. Era uma sala mobiliada de modo escasso, talvez 10 metros quadrados, com um teto extremamente baixo. Uma cama de casal, um armário ao velho estilo chinês e uma pilha de caixas de papelão preenchiam metade do espaço. Espremidas na outra metade, dezoito pessoas ou mais ocupavam um pequeno sofá e cadeiras e bancos espalhados. As pessoas se levantaram para abrir espaço para nós, oferecendo-nos doces e frutas. Encontrei um lugar encostado à parede, perto de uma minúscula mesa de café com um vaso de violetas plásticas e uma garrafa vazia. Li foi engolido no meio das saudações logo que entrou, e uma mulher o levou ao sofá, ao qual alguém jocosamente se referiu como “o trono de nosso honrado líder”. Após uns dez minutos, as conversas cessaram, e Li foi convidado a conduzir o cântico dos hinos. Ele escolheu “Deus está aqui...”.

Li se pôs em pé diante de sua plateia, com o hinário aberto, respirou fundo e iniciou o que soava como um uivo, mas à medida que todos se juntaram, numa mistura distintiva de acentos, a dissonância servil que atingia meus ouvidos gradualmente se dissolveu em harmonia, como a mescla de água e leite.

Eu tinha ouvido alguns hinos ocidentais em filmes, em que o coral da igreja, formado por homens e mulheres, meninos e meninas, cantava lindamente, com vozes treinadas para o acompanhamento de órgão ou piano. Podia entender, certamente, por que alguns chamavam aquilo de divino. Mas o que eu estava cantarolando ali eram canções seculares populares da China, fáceis de acompanhar e fáceis de lembrar. Algumas delas me lembravam as músicas da década de 1980, quando o público chinês começou a abraçar a música pop. Presumo que o hino seja de Xiao Min, uma jovem camponesa da província central de Henan. Destaque num documentário chamado The Cross: Jesus in China, que eu havia visto recentemente, Xiao Min afirmava ser inspirada por Deus e, sem nenhuma formação musical, compunha e cantava hinos enquanto trabalhava no campo. Ela continuou a escrever melodias e letras após ser presa. Em questão de poucos anos, compôs mais de 1.200 hinos, que se difundiram por toda a China. Na casa de meu amigo Wang Yi, em Pequim, poucos meses antes, também cantaram um hino de Xiao Min:

Com lágrimas e risos, com canções e silêncio,

Passamos por altos e baixos,

Caminhamos através do mais sombrio vale,

Escalamos as mais altas montanhas.

Ano após ano, o evangelho, a salvação, a alegria e a grandeza,

Bênçãos por toda a China.

Durante os hinos cantados por Li, notei duas mulheres e um homem se misturando à multidão, e uma das mulheres se moveu para perto de mim. Ela era jovem e possuía longos e belos cabelos negros, como as modelos nos comerciais de xampu. Seu perfume me desestabilizou. Ela sorriu e pediu para compartilhar um hinário comigo, apontando para a boca aberta, insistindo para que eu cantasse mais alto.

Numa pausa entre os hinos e os testemunhos, iniciei uma conversa com a jovem. Disse que seu nome cristão era Rute e revelou ser uma pregadora e líder daquela comunidade cristã em particular. Ela não quis me dizer seu nome chinês.

Rute se vestia como uma fashionista urbana. Contou-me que era membro do grupo étnico bai, que costumava participar do culto aos antepassados e se curvar a uma variedade de divindades e deuses. Ela fora proprietária de uma loja na parte antiga de Dali e construíra um minialtar para o deus taoísta da fortuna. Queimava incenso todos os dias, na esperança de que seu negócio pudesse prosperar. Era casada, mas começou a se preocupar quando, após vários anos, não conseguia engravidar.

 

Rute: Visitei um templo budista, à procura das bênçãos da bodisatva Guanyin.[6] Mas a vida não se resolvia da forma que eu desejava. Meu marido me deixou. Nossa família estava falida. Eu me perdi totalmente. Não tinha disposição para gerir os negócios em Dali. Assim, voltei e fui morar com minha mãe na aldeia Ganjia. Ela é cristã. Certo dia, ela me arrastou para a igreja. Eu me vi rodeada de homens e mulheres de idade. Uma sensação muito estranha, ser lançada no meio daquele grupo de idosos. Embaraçoso e cômico.

Logo depois disso, peguei um ônibus para Xiaguang. Durante a viagem, uma pedra saltou de debaixo da roda e atravessou a janela. Acertou meu pé. Gritei de dor. Mas os outros passageiros permaneceram sentados, como robôs. Nenhuma reação. O ônibus se manteve silencioso como uma poça d’água. Fiquei pasma com o que aconteceu. Como podia ser possível? Alguém estava tentando me enviar um sinal?

Quando retornei da viagem, estava muito confusa e não conseguia superar o incidente. Procurei minha mãe, mas ela não estava em seu quarto. Sobre uma mesa, vi um exemplar da Bíblia, que nunca provocara interesse algum em mim, mas o segurei e abri ao acaso. A passagem que li foi Isaías 54:1: “Cante, ó estéril, você que nunca teve um filho; irrompa em canto, grite de alegria, você que nunca esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido”.

Fiquei atordoada. Como o Senhor podia saber que eu era estéril? Estaria ele me incentivando a continuar tentando? Emocionei-me profundamente. No domingo seguinte, fui à igreja e fiz minha oração de compromisso. Sentia como se tivesse renascido. Possuía um novo nome, do livro bíblico de Rute. Ela foi uma mulher valente que assumiu a responsabilidade de sustentar a sogra após a morte do marido. Ela recolhia os grãos caídos das espigas nos campos e trabalhou em todo tipo de emprego. Por fim, ela alcançou as bênçãos de Deus, casou-se com outro homem e deu à luz um filho.

Logo, meus amigos começaram a me chamar de Rute. Ofereci-me para trabalhar em uma escola numa região pobre do interior das montanhas. A escola era mantida pela igreja, e me davam 300 iuans [cerca de 75 reais] por mês para alimentação e despesas básicas. As condições de vida eram realmente severas. Por um tempo, hesitei na minha fé. Certa manhã, acordei me sentindo péssima e deprimida. Então eu me cobri com minha colcha e comecei a orar. Pedi ao Senhor que me dirigisse ao caminho correto. Orei por cerca de dez minutos antes de ouvir alguém murmurar algo. Havia uma menina na cama ao lado, e ela parecia falar enquanto dormia: “Acalme-se, Rute. Você vai ficar bem”. Eu a acordei e perguntei o que ela estava dizendo. Ela ainda estava meio sonolenta e não entendeu minha pergunta. Com gentileza, ergui a voz e disse: “Você disse algo para mim. Tente se lembrar”. A garota se sentou e, após um tempo, lembrou-se do sonho. “Você chorava. Com as asas, anjos acariciavam sua cabeça e lhe diziam para se acalmar”, disse ela.

 

A história de Rute foi interrompida quando uma mulher sentada ao nosso lado sinalizou para nós pedindo silêncio. Outra sessão de hinos estava prestes a começar, e, em seguida, alguns dos membros reunidos naquela noite contariam suas experiências, uma oportunidade para derramar o coração ao Pai no céu. As mulheres da vila, muitas das quais semianalfabetas, estiveram privadas do direito de falar por um longo tempo e agora não apenas “contavam” suas histórias, mas também realizavam performances, articulando suas ideias com eloquência, como se cada uma fosse uma atriz profissional treinada. As histórias eram contadas com narrativas vívidas. A variação de tom e ocasionais explosões de lágrimas reforçavam o efeito, elevando suas performances a um alto nível emocional. Eram verdadeiras contadoras de histórias. Eu era um pobre escrevinhador comparado ao dom delas.

Ao final de cada história, a plateia respondia “amém”.

O encontro de comunhão durou cerca de uma hora e meia: uma incomparável peça de teatro, completamente diferente de qualquer coisa que pudesse ter sido encenada ou idealizada. Depois, veio o momento “dos aplausos”, com todos em pé: “Em nome de Jesus Cristo, amém”. Seguiu-se um breve silêncio antes que a sala começasse a retomar uma condição secular, com turbilhões de conversas e gargalhadas aumentando continuamente em volume. Minha mente se demorou na cena que acabara de terminar, sons e imagens se revirando. Encontrei meu caderno de notas e, aproveitando a atmosfera descontraída e aberta para entrevistar os “irmãos”, descobri que o grupo de comunhão foi iniciado pela família de Rute. Muitos dos parentes dela constituíam o núcleo dos membros. Criada numa família de gerações de agricultores, Rute foi a primeira a deixar a aldeia. Sua mãe, de 59 anos, era crente havia nove anos, e Rute se juntou à igreja seis anos antes. Eles eram os cristãos “veteranos” na aldeia.

Dois dos tios e tias maternos de Rute tinham se convertido havia pouco tempo. O tio mais velho, com seus 50 anos, trabalhava como motorista de caminhão numa estação de energia elétrica da comarca. Foi batizado no fim de 2008. Antigamente, vivia em constante temor, pois seu caminhão entrava e saía de vales profundos e túneis escuros, onde deslizamentos de terra e desmoronamentos de túneis eram frequentes. Desde a conversão, porém, ele descobriu que a oração o acalmava em zonas de perigo e eliminava seu medo. Com isso, ele se tornou mais ativo.

O tio mais jovem era um agricultor, quieto e tímido. Parecia ter um pouco mais de 40 anos. Havia se unido à igreja apenas dois meses antes. A conversão foi motivada por uma doença súbita. Ele sofria de várias enfermidades, incluindo inflamação da vesícula biliar causada por pedras. O médico recomendou cirurgia, mas essa não era uma opção. “Não tínhamos condições de pagar a conta”, disse ele, “mesmo se vendêssemos tudo que tínhamos”. Sem alternativas, a mãe de Rute sugeriu que ele se voltasse para Jesus. Ela acreditava que a fé amenizaria as preocupações e a angústia mental de seu irmão e ajudaria a curar seus males físicos. Nos últimos dois meses, ele combinou oração com uma erva medicinal prescrita por um médico da aldeia. Sua condição melhorou. A mãe de Rute ainda precisava convencer o marido a se juntar à igreja.

Rute me apresentou a uma amiga que trouxera a filha consigo. A mulher, com seus trinta e poucos anos, era animada e articulada. Era difícil imaginar que essa jovem mãe costumava ser atormentada pela depressão e a insônia, pensamentos suicidas e dependência de medicamentos:

— Eu me livrei da longa dependência de remédios. Sempre trago minha filha aos encontros da comunidade. Eu a estou colocando sob os cuidados do Pai eterno.

Após ouvir casualmente nossa conversa, uma jovem mãe se aproximou, mas, antes que abrisse a boca, escorreram lágrimas por seu rosto. Ela começou a chorar de modo incontrolável, e pessoas em torno de nós enxugavam em silêncio as próprias lágrimas. O marido da mulher fora diagnosticado com câncer de vesícula biliar. A família vendeu tudo em casa a fim de pagar a cirurgia, mas não puderam salvá-lo. Ele havia acabado de falecer. Quando se acalmou, ela pediu desculpas e disse que a fé lhe proporcionava a força para prosseguir. Ela puxou uma jovem menina em nossa direção e continuou:

— Minha filha é aluna da quarta série. Ela e eu lemos a Bíblia juntas. Quando ora, ela faz um trabalho muito melhor do que eu. Se o pai dela pode ouvi-la no céu, tenho certeza que ele estará muito orgulhoso.

A maioria das mulheres da comunidade era de meia-idade. Uma vovó de cabelos grisalhos me chamou a atenção; a meu ver, ela parecia uma cristã experiente. Em vez disso, descobri que era, relativamente, uma recém-chegada, que ingressara apenas três meses antes. Ela cresceu jejuando e entoando mantras budistas. Cultuava deuses locais, mas também frequentava igrejas cristãs quando jovem. Assim como a maior parte do povo bai, não se preocupava com suas adorações e estava disposta a aceitar qualquer coisa que lhe parecesse útil. Um dia, a caminho de casa após o trabalho na lavoura, sofreu um derrame e desmaiou à beira da estrada. Rute deparou com ela por acaso e a levou ao hospital. O tratamento a tempo salvou sua vida. Após a recuperação, Rute começou a pregar o evangelho para a mulher. Como era parcialmente surda, Rute erguia a voz e gritava em seu ouvido. Hoje, cada vez que sente o coração apertar, ela contrai o peito e ora, e imediatamente se sente melhor.

Passei os poucos minutos restantes com um casal de minha província natal, Sichuan. Falamos no dialeto de lá. Ambos cresceram na comarca de Anyue e se mudaram para Dali há mais de dezoito anos. Eles estavam trabalhando no ramo de mármore e granito. A esposa falava mais, enquanto o marido balançava a cabeça. Quando ela e o marido chegaram a Dali, mantinham empregos temporários e trabalhavam por longas horas. Tendo economizado dinheiro suficiente, abriram uma loja própria para vender placas de mármore. No tempo livre, disse a esposa, ela jogava mahjong, popular jogo de mesa de origem chinesa.

 

Esposa: Dez anos depois, me tornei viciada em mahjong e jogava sempre que encontrasse um momento vago. Isso não deve surpreendê-lo. Como sabe, Sichuan é considerada provavelmente a província número um de mahjong. Todo mundo sabe como embaralhar as peças. Mahjong envolve apostas. Sujeitos comuns apostam 10 ou 20 fens [ou centavos de iuan] para se divertir. Em alguns círculos, as apostas são muito mais altas. No início, eu não via meu vício como um problema sério. Pensava que seria como comer alimento de Sichuan com pauzinhos. Eu estava errada. Foi fácil adquirir o hábito, mas não conseguia mais me desvencilhar do jogo. Quando ansiava por uma partida de mahjong, não importava o que eu estivesse fazendo. Nada me impedia. Quando meu primeiro filho nasceu, eu cuidava dele com uma mão e movia as peças com a outra. Perdi muito tempo e dinheiro. Cada vez que perdia, ia orar num templo, queimar incenso, na esperança de que o misericordioso Buda me concedesse um pouco de sorte para que pudesse vencer da próxima vez. Se ganhasse, doaria parte dos rendimentos ao templo.

Não tive muita educação, mas era devota. Criei um altar em casa e adorava o deus da fortuna e a deusa da compaixão todos os dias. Ainda assim, minha sorte nunca mudava. Eu continuava a perder altas quantias. Meu marido tentava me convencer a parar de jogar, mas eu não queria ouvir. Ele começou a se frustrar. Por raiva, adquiriu também o vício e se meteu num poço sem fundo. Com dois apostadores em casa, nos afundamos em dívidas. Às vezes, não tínhamos dinheiro nem para comprar comida. Ainda assim, não conseguíamos fugir do nosso vício. Nós dois acabamos por adoecer. Muitos pensavam que éramos viciados em heroína. Na verdade, era uma espécie de heroína.

Por sorte, recorremos a Rute, que generosamente nos ajudou quando não tínhamos para onde ir. Ouvi um sermão numa noite de sexta-feira. No domingo seguinte, participei deste grupo de comunhão e me ajoelhei para fazer minha oração de compromisso. Mudei meu nome para Yue Lang — Lua Resplandecente — a fim de marcar meu renascimento naquela noite enluarada. Quando voltei para casa à noite, empacotei as estátuas em meu altar e minhas peças d e mahjong e as atirei dentro de um rio. Limpei a casa, por dentro e por fora, e estava ensopada de suor. Uma sensação boa. Eu havia sofrido de insônia por quatro anos, mas, assim que caí na cama, adormeci e dormi até a manhã seguinte. Ao acordar, abri as janelas e senti a brisa fresca. Isso aconteceu em 2005. Joguei mahjong uma única vez desde então. Não conseguia me concentrar. Sabia que estava pecando. Quando voltei para casa, me coloquei de joelhos, orando, e meu marido me viu e perguntou: “Para que isto? Vale a pena?”. Naquela noite, sonhei com uma cruz, que brilhava tão intensamente que feria meus olhos.

Não joguei desde então. Nossa situação familiar mudou para melhor. Não tenho mais insônia. Estou bastante saudável. Meu marido parou de fumar. Não tenho de implorar ao Senhor por coisa alguma. Ele conhece tudo. Cada progresso que faço, ele me recompensa com sua bênção. Vou seguir o caminho do Senhor e buscar redenção até morrer.

 

Às 23 horas, os irmãos em Cristo se despediam. Por ser o único não crente no grupo, as pessoas se revezavam para me incentivar a remover minhas preocupações e me submeter a Deus. A simplicidade e a sinceridade de seu oferecimento me comoveram. Eles acreditavam que a fé era uma dádiva valiosa, e queriam partilhar esse despertar espiritual com o convidado. No cruzamento, me separei de meu amigo Li Linshan, que se inclinou sobre o ombro da esposa e voltou para casa, passo a passo. Observei-o enquanto ele arrastava os pés rua abaixo. Eu sabia que o câncer o corroía por dentro, mas ele avançou com firmeza na direção de sua casa.