Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 11 de 21

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Deus é Vermelho

9. O mártir

Capítulo 9

O MÁRTIR

 

á, acima da Grande Porta Oeste da Abadia de Westminster, no centro de Londres, dez estátuas que representam mártires cristãos do século 20 em todo o planeta.

H Uma das estátuas homenageia Wang Zhiming, que viveu e pregou na comarca de

Wuding, província de Yunnan, e serviu à etnia miao. Preso em 1969 por sua atividade religiosa, Zhiming foi executado em 1973. Ele tinha 66 anos. A história de Wang Zhiming era bem conhecida entre a comunidade cristã em Yunnan, mas fora dali a maioria dos chineses nunca ouviu falar dele. Os familiares, muitos dos quais continuam sua causa, raramente falam com a imprensa.

Ouvi falar de Wang Zhiming em dezembro de 2005, quando viajava em Yunnan com o dr. Sun, que conhecia o filho de Zhiming, um famoso líder cristão. Fui no encalço dele em janeiro de 2007.

A igreja na aldeia Xiachangchong, no distrito de Gaoqiao, é de um branco impecável, com telhado rosa, e me lembrou um castelo mágico, com as altas montanhas como pano de fundo. No trajeto até a igreja, surgem vias lamacentas. Por uma delas, um aldeão local conduziu o dr. Sun e eu. Nós o seguimos por subidas e descidas de colinas, e por valas de arbustos e videiras. Perto da entrada da aldeia, encontrava-se Wang Zisheng, o filho de Wang Zhiming. Ele havia sido alertado de nossa visita e nos cumprimentou como a irmãos que andavam sumidos, com apertos de mão e tapinhas nos ombros.

Wang Zisheng, nascido em 1940, tinha acabado de completar 67 anos. Ele era pequeno, robusto, um toco de árvore, com um enorme chapéu de algodão. Trilhamos outro caminho irregular em torno da aldeia antes de alcançar o pátio de sua casa, uma caótica “fazenda” com porcos, cães e galinhas, o pungente odor das fezes dos animais a agredir meu nariz. Quando Wang Zisheng abriu a porta para entrarmos na casa, uma galinha e mais uma dúzia de pintinhos escorregaram entre nossos pés e sumiram no interior da casa.

A primeira entrevista, realizada no interior da casa, durou quatro horas. Após nos despedirmos e sairmos pelo pátio, a esposa de Wang nos alcançou, colocando em nossas mãos alguns bolinhos de trigo assados. Nunca me senti tão faminto e engoli-os imediatamente.

Seis meses depois, enquanto transcrevia a entrevista, descobri que metade das histórias de Wang fora acidentalmente apagada da fita. Examinei o aparelho de trás para a frente, batendo a cabeça contra a parede. Durante os dez anos anteriores, eu realizara mais de duzentas entrevistas. Esse foi meu primeiro acidente.

Desesperado, liguei para o dr. Sun, implorando que arranjasse uma segunda entrevista. Assim, em 5 de agosto de 2007, viajei até Kunming e me encontrei com ele.

O contratempo com a fita de Wang Zisheng foi apenas o início de uma série de infortúnios. No caminho para o terminal rodoviário de Kunming, deixei minha mochila no banco de trás do táxi. A mochila continha alguns de meus bens mais preciosos: uma flauta que me acompanhara por muitos anos, uma câmera, um gravador novo, meu caderno de notas e alguns de meus CDs prediletos. Nada adiantou visitar a delegacia de polícia e telefonar para o despachante do táxi. Eu tinha de avançar com minha tarefa. Reorganizei-me, comprei um gravador novo e voltei ao terminal rodoviário apenas para encontrá-lo congestionado de pessoas a caminho de uma festa nas proximidades.

O mundo inteiro parecia ter se levantado contra mim, e, quando o dr. Sun sugeriu que viajássemos outro dia, recusei com teimosia. Por fim, convencemos um motorista de caminhão a nos levar. Enquanto aguardávamos num engarrafamento causado por um horroroso acidente, curvei minha cabeça e orei como um cristão, perguntando a Deus se ele estava testando minha paciência e confiança. Antes de anoitecer, quando nosso caminhão se aproximava do prédio branco com telhado rosa da igreja, na parte externa do povoado de Wang Zisheng, meu coração se encheu de gratidão.

O reverendo Wang estava cuidando da lavoura no campo. Parecia um pouco confuso quando nos viu. Enquanto caminhávamos lentamente até sua casa, o sol desaparecia por detrás das montanhas. Subitamente, dois arco-íris emergiram no céu, formando uma cruz colorida. Por alguns minutos, fiquei distraído com o exótico fenômeno natural.

As lâmpadas brilhavam fracas dentro da sala cavernosa de Wang. Assim, sentamos todos na varanda. Em meio a ataques de nuvens de mosquitos de verão pós-chuva, nossa segunda entrevista teve início. Conferi e conferi outra vez meu gravador. Estava funcionando.

Às 21 horas, finalmente completei minha missão e senti uma imensa sensação de alívio. Por sorte, uma entrevista apagada de uma fita podia ser recuperada graças à ajuda de amigos dedicados como o dr. Sun. Mas e se, como nação, perdêssemos coletivamente nossa memória do passado?

 

Liao Yiwu: Por que é que o cristianismo se tornou amplamente aceito entre os miao? Wang Zisheng: O cristianismo foi introduzido nas aldeias miao por volta de 1906, com a chegada de dois pastores, um da Austrália — de nome chinês Guo Xiufeng; um de meus parentes que sabe inglês diz que seu nome é Arthur G. Nicholls — e o outro da Inglaterra. Só conhecia seu nome chinês: Shi Mingqing. Eles pertenciam à China Inland Mission e vieram para cá de Kunming montados em jumentos. Viajaram por três ou quatro dias e, quando finalmente alcançaram as aldeias miao, causaram grande agitação. O povo miao nunca havia visto ninguém com cabelos loiros, olhos verdes e um imenso nariz arqueado. Os dois pastores eram muito altos, muito mais altos que os miao. Atraíram uma atenção enorme.

Desde tempos ancestrais, o povo miao vive nas montanhas, cultivando, caçando e criando bichos-da-seda. Éramos bastante primitivos, nada melhores que os pássaros a voar nos céus ou os animais correndo na terra. No decorrer da história, o governo central sempre tentou conquistar as tribos miao.

O povo miao adorava todo tipo de espíritos e fantasmas e se prendia a muitas tradições e costumes. Cada vez que planejávamos um evento, grande ou pequeno, bom ou mau, tínhamos de, primeiramente, queimar incenso para adorar e buscar proteção de vários deuses e divindades. Para casamentos e funerais, tínhamos de convidar a nossas casas sacerdotes taoístas ou um xamã, pagando para que realizassem toda sorte de rituais, como tocar gongos, dançar e cantar para afastar quaisquer espíritos malignos. As famílias aqui eram tão pobres quanto os ratos que vivem dentro das tocas no campo, mas tinham de produzir apresentações extravagantes. Se um indivíduo falecesse, a família sacrificava porcos e cabritos e convidava todos na aldeia para uma vigília que se estenderia durante a semana inteira. Ao mesmo tempo, a família precisava providenciar comida e bebida para cada visitante. As pessoas não podiam enterrar seus mortos de imediato. Elas passavam por rituais para demonstrar aos outros aldeões que haviam cumprido as obrigações familiares. Caso contrário, temiam eles, o castigo viria mais tarde. Por esse motivo, um morto acabava deitado no caixão por dez a vinte dias antes do enterro. Muitas vezes, o cadáver começava a cheirar mal e a se decompor.

No ano em que os ministros cristãos estrangeiros chegaram, a região sofria uma terrível calamidade, a pior em anos: uma pandemia. Num raio de 15 quilômetros, não havia uma única família em circunstâncias favoráveis. Lares estavam degradados por toda parte. Após uma tempestade, quando a casa das pessoas ruía, não havia dinheiro para os reparos. Seres humanos e animais conviviam fechados sob o mesmo teto. O pobre não podia se dar ao luxo de se importar com coisas como higiene pessoal. Em consequência, a peste bubônica e o tifo varriam as aldeias como o vento. Pessoas caíam mortas logo após a infecção. Não havia tempo suficiente para enterrar os mortos. Por vezes, três ou quatro mortos eram atirados numa única cova. Ainda assim, havia corpos por toda parte.

Os dois estrangeiros montados em jumentos iam a lugares perigosos de onde outros estavam fugindo. Contanto que alguém ainda respirasse, os ministros iam supri-los com medicamentos. Aos que não podiam ser salvos, eles se agachavam ao lado dos aldeões moribundos, curvavam a cabeça e realizavam uma oração em favor dos enfermos.

Os ministros também ajudaram as pessoas a reconstruir as casas e a retomar a vida. Ensinaram os moradores a isolar dos animais os aposentos dos seres humanos. Ensinaram a proteger as fontes de água e a prestar atenção à higiene pessoal. Também ajudaram as pessoas a obter uma percepção maior dos truques enganosos dos feiticeiros locais. Muitos sobreviventes abandonaram as práticas de adoração a espíritos e fantasmas e se tornaram cristãos. Com a mudança no velho modo de viver das pessoas, os ministros começaram a ensiná-los a ler a Bíblia e a orar. Por fim, decidiram tornar Sapushan a base para o trabalho missionário. Construíram uma igreja, a primeira na província de Yunnan.

As pessoas encontravam suporte espiritual na igreja. Todos os domingos, povos de diferentes etnias — miao, yi e lisu — vinham de todas as direções e se reuniam dentro da igreja para ouvir o evangelho, ouvir a Palavra de Deus. Nos dias da semana, oravam em casa ou em comunhão nas aldeias. Muitos pais traziam os filhos e pediam aos ministros estrangeiros para dar-lhes nome. Não lembro o nome original de meu avô, senão que foi alterado para Wang Sashi pelo ministro australiano Guo Xiufeng. O novo nome de meu avô significava “abandone o mundo secular para percorrer o caminho do Senhor”.

Meu pai, Wang Zhiming, nasceu em 1907. Aquele foi o segundo ano após a chegada dos cristãos estrangeiros. Nossa família vivia, na época, na aldeia de Bajiaojing, distrito de Dongcun, na comarca de Fumin. Ele começou a frequentar uma escola local em 1921, aos 14 anos. Três anos depois, meu avô o transferiu para uma escola administrada pela igreja em Sapushan. Ele se formou em 1926, com 19 anos. A igreja o convocou para pregar e lecionar nas escolas e pregar nas comarcas de Haoming e Lufeng. Ele retornou a Sapushan em 1935 e continuou a ensinar e a pregar nas aldeias vizinhas. Quando, dois anos depois, a guerra de resistência contra o Japão começou, os dois pastores estrangeiros partiram para assumir funções em outros lugares. Meu pai foi escolhido para ser o pregador na principal congregação em Sapushan. Em 1944, tornou-se presidente da Associação Cristã de Sapushan.

Liao: Então Sapushan foi o lugar onde o cristianismo na região étnica miao teve início e se desenvolveu. Qual era a abrangência da paróquia? Wang: Abrangia todas as igrejas miao nas cinco comarcas: Wuding, Luquan, Fumin, Lufeng e Yuanmou. Era a maior paróquia miao em Yunnan. Como o jumento era o principal meio de transporte, pregar o evangelho significava passar dias na estrada, subindo e descendo as montanhas. Era de fato muito difícil. Mas, sob a liderança de meu pai, a paróquia se desenvolveu rapidamente. Segundo documentos que obtive, antes da tomada comunista em 1949, cerca de 5.500 indivíduos dos povos miao, yi e lisu se converteram e se uniram à igreja em Sapushan. Em 1945, meu pai passou a viver na capital provincial de Kunming, Ele compilou uma coleção de salmos na linguagem miao. A coleção foi, provavelmente, o primeiro hinário miao na China.

Quando os comunistas apareceram, todas as atividades religiosas foram banidas. Em 1951, quando eu tinha 11 anos, meu pai viajou a Kunming e foi ordenado ministro por Chu Huai-an, de Xangai. Nessa época, todos os missionários estrangeiros foram expulsos da China. O governo comunista condenava as religiões estrangeiras como ópio espiritual, ferramentas de invasão para oprimir o povo chinês.

Liao: O Movimento da Reforma Agrária se iniciou em 1951. Sua família foi afetada? Wang: A nossa era uma aldeia pobre. Não havia latifundiários ou agricultores ricos para perseguir. Três famílias relativamente abastadas foram postas na categoria de classe média, mas o resto pertencia à classe dos camponeses pobres, aliados da revolução. Mas, apesar de minha família ter sido categorizada como de camponeses pobres, éramos cristãos e recebíamos tratamento diferente. Não podíamos partilhar de nenhum dos “frutos da revolução”: não nos deram terra, moradia ou dinheiro.

Liao: Sem um proprietário de terra malvado como alvo, de que maneira a aldeia conduzia as “sessões de luta de classes”?

Wang: Importávamos latifundiários de outras aldeias para usar como alvos. As pessoas erguiam as mãos para condená-los, contavam histórias amargas de como haviam sido exploradas e, em seguida, faziam os latifundiários desfilar em torno do campo. Você sabe, havia muitos espancamentos e torturas. A aldeia aqui não perdia uma única atividade prevista pela campanha. Meu pai tinha pena dos proprietários caídos. Ele suspirava em particular e dizia: “Não sei o que está acontecendo! Essas pessoas de bom coração concederam suas terras para nós. Elas nem sequer nos cobravam tanto dinheiro. Foi muita generosidade da parte delas fazer isso. Mas agora estão recebendo todo esse tratamento brutal”.

O governo lacrou e confiscou a propriedade da igreja em Sapushan e ordenou a meu pai que voltasse para casa e trabalhasse no campo sob a supervisão dos camponeses revolucionários. Por ser um dos poucos alfabetizados na região, fizeram dele o contador da aldeia. Ele obedeceu, pois a Bíblia diz que você deve submeter seu corpo aos governantes, mas nunca deixou de praticar suas orações diárias.

Às vezes, os cristãos de outras aldeias se reuniam em nossa casa tarde da noite. O ambiente político tenso deixava todo mundo nervoso. As atividades de oração passaram à clandestinidade. O governo então designou membros da milícia local para nos monitorar e interrogar. Obrigaram meu pai a confessar seus laços estreitos com pastores em países estrangeiros. A situação de meu pai complicou muito sua comunicação com outros cristãos locais, mas ele persistiu. Em 1954, o gabinete de segurança pública local prendeu meu pai sob a acusação de “recusar reparar seus procedimentos e continuar a se envolver em atividades religiosas e espionagem”. Enviaram-no a uma prisão na comarca de Luquan.

Liao: Quanto tempo ele permaneceu na prisão? Wang: Não muito. Veja, o caso de meu pai era singular; ele era uma figura de prestígio na região da etnia miao. Pelo fato de ele sempre ter trabalhado duro no campo e obedecido a ordens, os líderes do governo decidiram, após cuidadosa consideração, condenar meu pai publicamente, mas, ao mesmo tempo, torná-lo um modelo positivo para outros reacionários. Seria boa propaganda para o movimento de reforma do pensamento de Mao. Assim, soltaram-no em poucos meses e até o nomearam para a comissão preparatória da Conferência Política Consultiva na prefeitura de Chuzhou. Em 1956, no papel de ministro cristão, tornou-se representante de uma delegação, formada por representantes de vários grupos étnicos na região. Sua delegação viajou até Pequim para participar das celebrações do Dia Nacional. O presidente Mao chegou a se reunir com meu pai.

O encontro com o presidente Mao causou alvoroço por aqui. O Diário do Povo publicou a notícia com uma foto enorme. Mas o Partido Comunista nunca confiou em meu pai, e meu pai não acreditava na causa comunista. Embora tivesse se reunido com o presidente Mao, ele continuou alvo de toda campanha política. Ele escreveu muitas confissões e foi o tema de muitas sessões de condenação pública. Em 1964, durante a campanha “Quatro Modernizações”, meu pai foi finalmente removido de todos os cargos públicos e expulso das fileiras revolucionárias. Mais uma vez, retornou à aldeia para trabalhar sob supervisão na lavoura. Acho que meu pai sabia o destino final para alguém como ele numa sociedade ateísta. Ele estava à espera daquele momento. Nunca teve medo.

Em 1966, começou a Revolução Cultural. As massas revolucionárias invadiram nosso pátio, saquearam nossa casa e espancaram todo mundo. Amarraram-nos e nos exibiram de aldeia em aldeia. Meu pai foi obrigado a usar um enorme chapéu de burro com as palavras “espião e lacaio dos imperialistas”. Nas sessões de condenação pública, com participação de mais de dez mil pessoas, éramos os alvos de punhos furiosos. Os cuspes eram quase suficientes para nos afogar. Não importa quanto sofrêssemos, meu pai nunca parava de orar. Assim prosseguiu por três anos, até os rebeldes revolucionários começarem a lutar entre si e não restar mais tempo para nos importunar. O assédio diário, na maior parte, terminou. Meu pai reencontrou alguns antigos cristãos, e eles se encontravam em cavernas nas montanhas à meia-noite para reuniões de oração. Eles não possuíam nenhum exemplar da Bíblia, mas acreditavam que ela estava no coração de cada um. O povo miao era pobre, porém simples e honesto. O governo forçou-o a gritar “viva o presidente Mao”, mas não podia destruir sua fé em Deus. Assim, o evangelho voltou a se espalhar nas aldeias vizinhas. Meu pai continuou a batizar pessoas. Logo, as autoridades descobriram as atividades de meu pai. Na madrugada de 11 de maio de 1969, ele foi preso. Meu pai estivera nas montanhas na noite anterior para alguns batismos. Alguém deve tê-lo delatado.

Liao: Onde você estava quando o levaram? Wang: Eu vivia de um lado da estrada, com minha esposa e filhos. Meus pais e meu irmão mais novo viviam do outro lado. Fui acordado por disparos mais barulhentos que uma tempestade. Soava como se a montanha tivesse se rachado. Vi três caminhões com faróis ofuscantes. Uma grossa multidão cercou a casa de meus pais. As lanternas que carregavam pareciam estrelas numa noite de verão. Ouvi outro estrondo, não um disparo, mas alguém chutando a porta aberta. Ouvi gritos barulhentos, mais penetrantes que a lâmina de uma navalha. Os soldados berravam. Minha mãe gritava de volta.

Mandei meus quatro filhos de volta para casa e disse a eles que permanecessem lá. Minha esposa e eu éramos incapazes de atravessar a estrada, bloqueada pelos soldados. Utilizamos, assim, uma rota indireta. No momento em que chegamos, os caminhões retumbavam ao longe; pude ver os faróis se dirigindo para as montanhas.

Meu irmão contou-me o que aconteceu. Dois soldados guardaram a entrada para o pátio enquanto outros dois, empunhando rifles carregados com baionetas fixas, chutaram a porta aberta, dispararam duas vezes e invadiram o interior da casa. Alertaram que qualquer um que resistisse seria baleado. Dentro da casa, encontraram meu pai na cama e berraram: “Levante-se! Venha conosco!”.

Meu pai estava bastante calmo. Sem dizer uma palavra, vestiu a roupa, mas, antes que seus pés tocassem o chão, dois soldados se adiantaram e agarraram e torceram seus braços. Ele olhou nos olhos dos soldados e disse: “Não há necessidade disso. Eu irei com vocês”. Em seguida, estendeu os braços, pedindo que lhe colocassem as algemas. Minha mãe gritou e não deixava meu pai partir. O soldado a chutou. Ela caiu e desmaiou.

Quando cheguei, meu pai tinha ido embora. Minha mãe fora levada de volta para casa, e a família de meu irmão permaneceu em torno dela. Ela havia sofrido incontinência, a calça encharcada de urina. Quando recuperou a consciência momentos depois, pedia água constantemente: “Estou com sede, estou com sede”. Tomou vários copos e disse que seu peito doía. A dor a acompanhou o resto da vida.

Meu pai permaneceu detido por quatro anos na comarca de Wuding. Em dezembro de 1973, eles o executaram.

Nunca o acusaram oficialmente, mas listaram cinco acusações contra meu pai: primeiro, ele era uma lacaio dos imperialistas estrangeiros e um espião incorrigível, que usava ópio espiritual para envenenar a mente das pessoas; segundo, ele era um contrarrevolucionário; terceiro, ele boicotava constantemente as políticas religiosas do governo; quarto, ele era membro de uma quadrilha local de latifundiários; quinto, ele liderou um amplo grupo de latifundiários malignos e seus seguidores na emboscada ao Exército Vermelho Comunista quando este atravessara a comarca de Lufeng na década de 1930, assassinando sete soldados comunistas. Os miao locais trocaram disparos com o exército de Mao na comarca de Lufeng. Ambos os lados sofreram baixas. A batalha ocorreu muito longe daqui. Meu pai não teve nada a ver com isso.

Liao: Você conseguiu visitar seu pai antes da execução?

Wang: Podíamos visitar o centro de detenção, mas não nos permitiam vê-lo. Podíamos deixar roupas, mas não comida. Não nos forneciam nenhuma informação a respeito de sua condição física. Éramos constantemente hostilizados pelos soldados e aldeões revolucionários: “Seu velho era um mau sujeito. Ele acreditava em Deus. Por que você não põe um ponto final nessa história?”; “Deus não é o salvador. O presidente Mao e o Partido Comunista são os salvadores do povo. Você acredita em Deus ou no presidente Mao e no Partido Comunista?”.

Por fim, recebemos uma notificação do governo local afirmando que ele seria executado. Rotulado como “incorrigível contrarrevolucionário”, as regras diziam que não poderíamos vê-lo. Mas, como nossa família pertencia ao grupo minoritário miao, o governo nos concedera um encontro final, por “razões humanitárias revolucionárias”.

Em 28 de dezembro de 1973, o dia anterior à execução de meu pai, membros da milícia local apareceram em nossa porta e nos informaram que poderíamos visitá-lo. Doze familiares se reuniram, e viajamos juntos. Precisamos de várias horas para alcançar o centro de detenção. Após atravessarmos diversos postos de fiscalização e níveis de muros altos, finalmente revimos nosso pai. O cabelo já estava grisalho, e ele, magro, como um esqueleto. A cada movimento, os grilhões nos tornozelos tiniam ruidosamente. Ao mancar em nossa direção, todos nós choramos.

Ele recebia o tratamento de um assassino. Ao ver a família inteira chorando e soluçando, um guarda rugiu contra nós: “Parem de chorar! Apressem-se e conversem com o pai de vocês, um por um. O tempo é limitado”. Ele nos fazia falar mandarim para que pudesse compreender o que conversávamos.

Minha mãe acenou para meu pai e disse: “Você é quem costumava guiar todas as conversas. Nós vamos escutá-lo primeiro”. Meu pai sorriu. Ele entendeu o que minha mãe queria dizer. “Não pude reformar meu modo de pensar”, disse meu pai, no tom usual de um ministro cristão. “Por não ter mudado, sou responsável e mereço o que recebo. Mas digo a todos vocês: não me acompanhem. Ouçam o que ‘o superior’ disser”.

Liao: Em termos seculares, a palavra “superior” significa governo, mas presumo que seu pai quis dizer “Deus”.

Wang: Exato. Os cristãos souberam de imediato o que ele quis dizer. Em seguida, ele acrescentou: “Vocês devem se engajar no trabalho físico, certificando-se de ter comida para comer e roupas para usar. Vocês devem prestar atenção à higiene pessoal e se manter saudáveis. Não adoeçam”.

As palavras de nosso pai aqueceram nosso coração. Ele dizia sempre que essas foram as palavras de seu próprio pai e dos missionários estrangeiros. Dei um passo na direção dele e solucei: “Papai, vamos ouvir o que o ‘superior’ nos disser, mas temos muitas crianças em casa que necessitam de você. Caso você não possa ser reformado e voltar para casa, o que as crianças farão?”. Na verdade, queria dizer que ele era o reverendo e líder da igreja. O rebanho desejava seu pastor.

Em seguida, minha mãe trouxe seis ovos e presenteou-os a meu pai. Ele estendeu as mãos feridas, tocou a cabeça de minha mãe, seu peito, seus ombros, e então separou os ovos, segurando três e devolvendo os outros três.

Liao: A Trindade?

Wang: Nós entendemos o simbolismo. Nesse momento, um oficial da prisão apareceu a anunciou: “Wang Zhiming foi sentenciado à morte. A execução será realizada amanhã após um julgamento público. O corpo do criminoso estará sob a responsabilidade do governo. Os membros da família não precisam se envolver”.

Imploramos ao guarda uma explicação para não podermos levar o corpo conosco. Ele disse que, em resposta aos inúmeros pedidos das massas revolucionárias, o governo decidira destruir o corpo com explosivos. Ficamos chocados. Continuamos a implorar. Prometemos não erigir uma lápide nem colocar qualquer sinal de destaque que pudesse levar as pessoas a prestar tributo. O guarda não aceitou. “Ao longo da história, vocês, o povo miao, se tornaram conhecidos por sua superstição. Quem sabe o que acontecerá se permitirmos que sua família lhe conceda um enterro decente!”.

Após levarem meu pai, recusamos sair, exigindo o direito de recolher o corpo. Enlouquecido, o funcionário da prisão convocou a milícia local para nos expulsar. Não resistimos a eles. Já estava escuro quando retornamos, e dezenas de moradores nos aguardavam em casa. Eles choraram após ouvir que o corpo de meu pai seria explodido em pedaços. Permanecemos em casa e oramos pela ajuda de Deus.

Na manhã seguinte, um oficial da aldeia apareceu e disse que deveríamos pedir uma carroça emprestada. Disse que poderíamos ir ao julgamento público de nosso pai, que teria a participação de dez mil pessoas. Posteriormente, poderíamos, nas palavras dele, “arrastar para casa o corpo do contrarrevolucionário”.

É certo que Deus ouviu nossa oração, dizíamos uns aos outros. Na estrada, com discrição, cantamos hinos. O local da reunião se encontrava lotado de pessoas gritando palavras de ordem e agitando bandeiras vermelhas. Dois outros criminosos também estavam presentes para julgamento, mas não obteriam a pena de morte. Foram arrastados até ali para receber “educação”.

Logo que chegamos, vários soldados armados se aproximaram e apontaram armas para nós: “Não se movam. Agachem-se com as mãos segurando a cabeça”. Assim fizemos, com as costas viradas para a plataforma, mas durante a sessão, quando os soldados se distraíam, nos virávamos para obter uma rápida visão, por entre a cabeça das pessoas, do que ocorria com nosso pai. Havia duas fileiras de assentos na plataforma. Todos os líderes de comarcas estavam sentados ali. Meu pai, com mãos e pernas atadas com cordas, estava no meio da plataforma, os outros dois criminosos de cada lado. Havia sangue no canto de sua boca. Soubemos depois que um guarda usara a baioneta para cortar sua língua, de modo que não pudesse gritar ou pregar. Alguns antigos membros e líderes da igreja subiram à plataforma e denunciaram os crimes de meu pai. Depois disso, um líder agarrou o microfone e anunciou: “Wang Zhiming foi condenado à morte. A execução será realizada imediatamente”. Soldados levantaram meu pai no ar para que todos pudessem enxergá-lo. A multidão urrava. Erguiam os punhos e gritavam, mas tudo que pude ouvir eram as palavras “abaixo o...”, “esmaguem...”, e “vida longa ao presidente Mao”. Havia um ditado popular na época: “Quando as massas revolucionárias se regozijam, os contrarrevolucionários desfalecem”.

Os soldados puseram uma placa de madeira nas costas dele — um “sinal de morte”, como chamavam. Tinha metade de sua altura e listava os cinco crimes que, segundo diziam, meu pai cometera. O nome dele também estava ali, com um enorme “X” vermelho por cima dos caracteres. Os soldados o levaram a um caminhão e o empurraram junto aos outros prisioneiros, com a cabeça inclinada. Dois carros abriram o caminho. O caminhão de meu pai estava no meio. Outro caminhão repleto de soldados armados veio em seguida. Uma metralhadora se assentava sobre a cobertura do último veículo. Disseram-me que exibiram meu pai pelas ruas por meia hora antes de levarem-no a um velho aeroporto, onde foi baleado.

Liao: Onde você estava?

Wang: Ainda estávamos no local da sessão, com armas apontadas para nós. Quando a maioria dos espectadores havia partido, os soldados amarraram todos nós com uma corda comprida e nos levaram ao centro de detenção, numa sala onde se encontravam os pertences de meu pai estendidos no chão. Um oficial da segurança pública disse: “Este é o lixo deixado pelo contrarrevolucionário. Levem para casa”.

Liao: Vocês não deveriam recolher o corpo de seu pai? Wang: Amigos da aldeia fizeram isso por nós. Eles pediram uma carroça emprestada, e, quando chegaram ao aeroporto antigo, o corpo de meu pai estava cercado por centenas de curiosos, como corvos negros. Um soldado vigiava o corpo. Assim que teve certeza de que os aldeões eram quem disseram que eram, permitiu que levassem meu pai. Encontramo-nos com eles no centro de detenção. Limpei o rosto de meu pai com um pano molhado. Minha irmã envolveu o corpo num cobertor. Era uma hora da tarde. Fazia sol e o céu estava azul. A estrada estava vazia quando partimos, a carroça se movendo lentamente, conosco ao lado, caminhando juntos. Lembro-me dos pássaros, voando e chilreando, e a sensação de que meu pai ainda estava vivo em torno de nós.

Algumas pessoas do povo miao pararam nossa carroça e se despediram de meu pai. Alguns eram velhos, alguns jovens, alguns conhecíamos, alguns eram estranhos. Uma menininha subiu à carroça, abriu o cobertor e tocou o corpo de meu pai, da cabeça aos pés. Sorrimos com seu gesto inocente e, por um momento, esquecemos nosso pesar.

Quando chegamos à aldeia, o sol já havia se posto. Levamos o corpo de meu pai para o interior da casa. O rosto parecia em paz, como se apenas cochilasse. Os oficiais da aldeia e os membros da milícia guardavam a casa para impedir a entrada de visitantes, desejosos por prestar tributo. Mas, após a meia-noite, quando os guardas foram para casa dormir, companheiros cristãos bateram discretamente na porta e entraram para orar conosco.

Liao: Quantas pessoas apareceram naquela noite? Wang: Entre setenta e oitenta. Vieram em silêncio por entre trechos acidentados, sem lanternas, por medo de serem descobertos. Eles vinham quietos como os sonâmbulos. Por volta das duas da manhã, os últimos terminaram suas orações e partiram. O corpo de nosso pai estava frio e rijo. Ele também havia partido.

Ao amanhecer, subi a colina com meus dois irmãos e meu cunhado e passamos cerca de duas horas ali cavando uma sepultura. Após o almoço, carregamos o caixão até a colina e o colocamos dentro da cova. Depois, voltamos para buscar o corpo.

Liao: Por que vocês separaram o corpo do caixão? Era um costume miao? Wang: Não, não. Não tivemos escolha. Não tínhamos força suficiente para carregar o caixão com o corpo do pai dentro. Um caminhão com soldados havia chegado, aparentemente para evitar um possível motim entre o povo miao. Soldados com armas carregadas se espalharam em torno da aldeia. Apenas os familiares tinham permissão de se aproximar da sepultura. Nossa intenção era fazer um funeral breve, mas, com os soldados ali, os aldeões só podiam assistir a centenas de metros de distância. Eles ansiavam por ajudar, mas nada podiam fazer. Normalmente, necessita-se de oito pessoas para carregar um caixão, mas éramos somente quatro homens na família. Tentamos diversas vezes, mas não conseguíamos levantá-lo. Por fim, tivemos de separar o corpo do caixão. Os soldados não partiram até terminarmos de aterrar a cova e voltar para casa.

Liao: Muitas coisas mudaram em 1974. O presidente Mao e o primeiro-ministro Chu En-lai adoeceram e se aproximavam do fim da vida. A Revolução Cultural se dissipava. Wang: Sim, a mudança era perceptível. O controle político afrouxou-se um pouco; em nossa aldeia, retomamos a oração e outras atividades religiosas. O governo local descobriu e reuniu o povo miao para uma conferência. Um líder nos ameaçou durante uma palestra: “Passaram-se apenas alguns meses desde que o contrarrevolucionário foi executado. Vocês não aprendem as lições. Pelo contrário, vocês se encontram secretamente para realizar atividades religiosas. Tal desprezo pelo Partido Comunista será punido. Quem é o líder de vocês? Apareça!”.

Fui o primeiro a dar um passo à frente. Em 1976, fui detido oficialmente e lançado na mesma cela de meu pai. Os agentes de segurança pública disseram que eu era mais incorrigível que meu pai. Se os crimes dele foram cometidos sem intenção, pois havíamos sofrido lavagem cerebral nos dias pré-comunistas, os meus eram premeditados. Nos primeiros quatro meses, confinaram-me na solitária, uma pequena sala escura com piso de cimento. A sala possuía uma bacia de porcelana e um recipiente para urina. Realizei todas as minhas atividades — comer, beber, urinar e defecar — naquele espaço minúsculo. Estava na escuridão todo o tempo. Uma pessoa não pode permanecer na escuridão. Uma planta morre sem luz solar. Animais enlouquecem após duas semanas.

Liao: Mas uma pessoa pode manter sua sanidade mental, pois ela pode pensar. Wang: Eu tinha Deus em meu coração. Ele me manteve são. Durante a Revolução Cultural, sete membros da minha família foram perseguidos; meu pai foi executado; meu segundo irmão, Wang Zihua, reitor do Hospital do Povo na prefeitura autônoma da etnia lisu, em Nujian, tornou-se alvo de condenações públicas. Wang Zihua não suportou os espancamentos e as denúncias públicas intermináveis. Jogou-se no rio Nu. Suicídio. Meu irmão mais velho, Wang Zirong, seguiu o mesmo caminho que eu. Fomos presos no mesmo período; ambos fomos condenados a oito anos e soltos na mesma época. Fui enviado a um campo de trabalhos forçados na comarca de Yao-an, enquanto meu irmão permaneceu em Luquan. Prenderam também as duas irmãs de minha mãe e uma das irmãs de meu pai. Elas foram sentenciadas a cinco e três anos, respectivamente, por organização e participação de reuniões religiosas secretas.

Em 1979, a China abrandou o controle sobre a religião, e todos nós, após cumprirmos três anos, fomos liberados antes do tempo previsto. No início de 1980, o vento parecia ter mudado a nosso favor. O governo decretou que eu seria escolhido representante do Congresso Popular da Comarca de Wuding, um órgão legislativo local. Não podia recusar a nomeação. Desenterrei meu “certificado de redução de sentença” e mostrei-o aos chefes do congresso popular local. Apontei as palavras impressas no documento: “O criminoso confessou seus crimes e lhe é concedida liberdade antecipada por bom comportamento”. Disse: “Como pode um ex-criminoso ser adequado para a posição de legislador?”. O rosto do oficial enrubesceu, e ele disse: “Fizeram um trabalho malfeito. Eu vou investigar isso”. Dois dias depois, emitiram um novo documento, que me inocentava de todas as acusações. O nome de meu pai também foi limpo após a reversão oficial do veredicto. Podíamos, enfim, construir um túmulo para ele.

Liao: Creio que seja o único monumento conhecido a celebrar um cristão morto na Revolução Cultural.

Wang: Em 1996, a igreja daqui realizou um grande culto memorial para meu pai, o maior na história; somente o coro somava duas mil pessoas.

Liao: Em 1998, a Abadia de Westminster, em Londres, escolheu seu pai como um dos dez mártires cristãos do século 20 a serem honrados. Conte-me sobre isso. Wang: Ele foi homenageado com uma estátua acima da Grande Porta Oeste da Abadia. Soube disso depois. Alguém nos enviou uma espessa pilha de documentos, todos escritos em inglês. Como eu possuía apenas metade do ensino fundamental — não tinha autorização para concluir o ensino por causa das “atividades contrarrevolucionárias” de meu pai —, não compreendi uma palavra. Em dezembro de 2002, o filho de um parente viajou a Londres e fotografou a estátua de meu pai na frente da Abadia de Westminster. Todos nós choramos quando vimos as fotos. Meu pai havia lutado contra os demônios naqueles dias sombrios e triunfou.

Liao: Você sente amargura com o passado? Wang: Não, não sinto amargura. Como cristãos, devemos perdoar o pecador e seguir adiante. Somos gratos pelo que temos hoje. Há tanto que fazer. Em meados da década de 1960, quando meu pai pregava, havia 2.795 cristãos na comarca de Wuding. Em 1980, depois que ele foi “reabilitado” pelo Partido Comunista, o número de cristãos em Wuding cresceu para doze mil, e hoje temos cerca de trinta mil. Em nossa sociedade atual, a mente das pessoas está confusa e caótica. Elas precisam das palavras do evangelho mais do que em qualquer outra época.