Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 19 de 21

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Deus é Vermelho

17. O orfanato

Capítulo 17

O ORFANATO

 

u nasci sob o comunismo na China e fui educado por este sistema — certas coisas eram “verdades” e deveriam ser aceitas, jamais questionadas. E na China de Mao

E a religião era “má”, e aqueles que acreditavam nela eram, na melhor das

hipóteses, iludidos e necessitavam de reeducação e, na pior, ritualistas ou espiões imperialistas cujo objetivo era corroer o país internamente. Fui criado acreditando que os orfanatos e hospitais cristãos estavam entre os lugares mais assustadores do planeta.

Na escola fundamental, minha professora dizia que os missionários estrangeiros vieram para a China a fim de escravizar e assassinar o povo chinês. As freiras que dirigiam os orfanatos eram monstros, diziam, e, embora mais tarde eu viesse a compreender o estereótipo humorístico da freira disciplinadora entre católicos de todo o mundo, elas assumiam, na China, características apavorantes. Crianças de famílias pobres eram criadas em potes, e quando chegavam à adolescência, as freiras quebravam os potes e as soltavam. Nessa altura, as crianças teriam se transformado em pigmeus e seriam forçadas a sentar à mesa todos os dias e orar para o “Deus” das freiras. Os pigmeus nunca tinham permissão para se divertir.

No decorrer de minhas pesquisas, deparei com uma antiga reportagem publicada pela agência estatal de notícias Xinhua, em 5 de junho de 1964, e escrita por um jornalista chamado Zhong Yuwen. Ilustra, de modo prático, como se utilizava o trabalho missionário cristão para cultivar uma ampla hostilidade contra o Ocidente:

O MUNDO MUDOU

Visita a um hospital infantil em Nanquim

5 de junho de 1964

Em 1º de junho, Dia Mundial da Criança, muitos jovens professores e alunos do ensino fundamental visitaram o

Hospital Municipal de Crianças de Nanquim. Atendendo ao pedido do grupo, um médico partilhou com os jovens visitantes a história da instituição.

Em 1937, após explorar impiedosamente e oprimir de forma brutal seu povo por muitos anos, o governo nacionalista e

outros reacionários iniciaram uma guerra civil, que mergulhou o país no caos e trouxe mais dificuldades ao povo. Muitas famílias foram arruinadas. Milhares de crianças inocentes tornaram-se órfãs. Na época, instigadas pelos imperialistas estrangeiros, um grupo de freiras estrangeiras, camufladas pela religião, chegou à cidade. O objetivo final era servir os contrarrevolucionários. Elas se utilizavam de uma máscara benevolente de caridade para conquistar as pessoas. Construíram uma casa perto da rodovia Guangzhou e iniciaram a “Casa da Criança do Sagrado Coração”, adotando crianças abandonadas. Elas abusavam das crianças e transformaram a Casa da Criança do Sagrado Coração num inferno na terra, um campo de extermínio infantil. Sem piedade alguma, reduziam a ração alimentar das crianças, acrescentando um pouco de leite a 200 gramas de um mingau ralo de arroz e ervilha em pó a cada dia. Para uma criança de 1 ano, a alimentação consistia em mingau de arroz quatro vezes ao dia. Para crianças de 3 a 4 anos, o mesmo mingau ralo de arroz três vezes ao dia. Em consequência disso, as crianças sofriam de subnutrição. Tinham a aparência magra, como madeira seca. A osteoporose predominava. Muitas crianças de 3 anos tinham dificuldades em manter as costas eretas; algumas de 4 anos ainda não conseguiam andar. O peso de muitas crianças de 3 anos permanecia entre 5 e 6 quilos. As freiras nunca cuidavam bem das crianças, e a maioria sofria com eczema e feridas provocadas pela permanência prolongada na cama. O choro seria o comportamento instintivo de uma criança, mas muitas delas não tinham sequer força para chorar. Elas permaneciam ali, esperando para morrer. A taxa de mortalidade no hospital ultrapassava 70%. Quando as crianças morriam, as tais filantropas murmuravam a seguinte frase, com deleite: “Devemos estar felizes por sua morte, pois sua alma vai conquistar o céu”.

Além de abusar das crianças fisicamente, as freiras também envenenavam a mente delas. Manhã após manhã, as

crianças mais velhas eram forçadas a ajoelhar no chão de cimento gelado da igreja e orar, pedindo que Deus perdoasse

seus pecados. Elas invocavam Deus constantemente para intimidar as crianças, exigindo que implorassem o perdão de Deus. Em razão disso, as crianças viviam em constante medo e possuíam a autoestima muito baixa. As freiras também concediam às crianças nomes ocidentais, tais como Maria, André, Felipe e Matilde, impondo-lhes educação estrangeira para que permanecessem ignorantes sobre a própria pátria. Desse modo, as crianças poderiam ser facilmente escravizadas pelos imperialistas.

Depois que os comunistas apareceram e libertaram a cidade, as crianças foram resgatadas. Atuando para atender às

demandas das grandes massas, o governo do povo puniu os imperialistas estrangeiros de acordo com a lei e assumiu o comando da Casa da Criança do Sagrado Coração, providenciando assistência médica para as crianças. Sob os cuidados do Partido Comunista, as crianças cresceram saudáveis, como mudas secas que são regadas com uma chuva farta. Em 1953, o governo transformou o local onde as crianças chinesas eram violentadas pelos imperialistas estrangeiros num hospital infantil. Sob os cuidados e estímulo do Partido Comunista, médicos e enfermeiros têm dado sua parcela de contribuição na proteção da saúde das crianças chinesas.

Partilhei essa história com meu amigo historiador Liu Shahe, de 75 anos, que vive próximo ao Templo da Benevolência no centro de Chengdu. Ele disse que o governo comunista não foi o primeiro a inventar mentiras e atiçar o ódio contra missionários cristãos.

 

Liu Shahe: Quando criança, eu costumava ouvir que as freiras católicas eram vampiras que sugavam o sangue das pobres crianças chinesas e arrancavam seus olhos para usar como decoração. As pessoas começaram a espalhar boatos infundados antes da Rebelião Boxer, um movimento anticristão no norte da China, que durou de 1898 a 1901. Houve um incidente notório na província de Sichuan. Em 1896, um hospital cristão, que hoje é o Hospital do Povo de Chengdu nº 2, foi atacado por moradores que afirmavam que os médicos haviam atraído crianças ingênuas ao hospital com doces e, em seguida, mataram-nas, socaram seus corpos em frascos de conserva e comeram a carne. Centenas de moradores enfurecidos quebraram as janelas e tomaram o hospital. Todos os médicos e enfermeiras fugiram e alguns se esconderam dentro de uma igreja na rodovia Shaanxi. Os moradores atacaram a igreja e a incendiaram. Por fim, descobriu-se que um morador havia passado pelo laboratório do hospital e visto amostras de tecido de um bebê morto armazenado em formol. A história tomou vida própria e se espalhou entre o público.

Liao Yiwu: A hostilidade contra missionários continuou sob o regime comunista. Liu: A máquina de propaganda do governo perpetuou esses rumores e espalhou novas mentiras para atiçar o ódio contra cristãos e forçar as pessoas a abandonar a religião. A reportagem da Xinhua que você me mostrou é um exemplo perfeito.

No período pré-comunista, especialmente em torno da Segunda Guerra Mundial, muitos americanos, incluindo diplomatas, militares e missionários, vieram a Chongqing e Chengdu. Eles construíram aeroportos, hospitais e muitos orfanatos. Na primavera de 1945, Chengdu foi atingida por uma epidemia de cólera. Corpos se acumulavam nas ruas. Os caixões se esgotaram, e os hospitais estavam repletos de pacientes terminais. Um hospital cristão francês na rua Pinganqiao abriu as portas ao público, e os pacientes fervilharam. Quando todas as camas foram ocupadas, os pacientes lotaram os corredores e transbordaram para o pátio. Os médicos e enfermeiras franceses trabalhavam noite e dia. Quando os medicamentos se esgotavam, administravam soros fisiológicos orais ou intravenosos. Por vezes, quando os pacientes eram trazidos, já não havia o que fazer. Ainda assim, os médicos e enfermeiras cristãos não desistiam e esforçavam-se ao máximo para salvar vidas.

Eu conheci uma freira americana. Como seu primeiro nome iniciava-se com a letra M, que soava como a palavra chinesa “Mann”, nós a chamávamos de irmã Mann. Ela havia morado em Chengdu por muitos anos e oferecia treinamento e oficinas para jovens mulheres que quisessem ser parteiras. Antigamente, como você sabe, as mulheres que cresciam em famílias abastadas não queriam a obstetrícia como carreira, ao passo que as mulheres de famílias pobres talvez se interessassem pela ocupação, mas não possuíam dinheiro para frequentar uma escola. Em vista disso, a taxa de mortalidade na província de Sichuan era alta. Naturalmente, o governo nacionalista também se envolvia em projetos similares, mas creio que as contribuições da irmã Mann tiveram maior destaque. Ela pertencia a um hospital missionário cristão daqui. A irmã Mann também era escritora e publicou vários livros. Você

provavelmente já ouviu falar da escritora Han Suyin,[13] que mantinha relações estreitas com a primeira geração de líderes comunistas chineses. No final da década de 1930, Han Suyin trabalhava no mesmo hospital que a irmã Mann. As duas se tornaram boas amigas. Han praticava seu ofício na máquina de escrever da irmã Mann. Após a tomada comunista em 1949, Han Suyin passou a exercer a medicina no sudoeste asiático, mas a irmã Mann permaneceu em Chengdu e continuou a conduzir sua oficina. Ela considerava Chengdu seu lar permanente. No início da década de 1950, o governo exigiu que todas as escolas pendurassem retratos do presidente Mao nas salas de aula. Cristã, a irmã Mann rejeitou as exigências do governo. Os líderes locais vieram falar com ela, para convencê-la a obedecer. Ela permaneceu irredutível. Um dia, enquanto a irmã Mann estava ausente, os líderes colaram um pôster de Mao na parede acima do quadro-negro. Quando voltou, ela percebeu o pôster e se indignou. Achou uma escada, subiu e rasgou o cartaz ao meio. Isso ofendeu extremamente as autoridades. Os líderes locais a acusaram de espiã imperialista e a expulsaram do país.

A irmã Mann regressou aos Estados Unidos, e Han Suyin a visitou na década de 1960. Han descobriu que a irmã Mann não tinha interesse algum em política. Ela nunca difamou o Partido Comunista. Ela não rasgou o pôster de Mao por razões políticas. Ela simplesmente acreditava que o governo secular não devia colocar sua autoridade acima da autoridade de Deus.

Liao: Essa era a atitude predominante?

Liu: A história da irmã Mann não é a única. Quando ascenderam ao poder, os comunistas reescreveram a história e retrataram os missionários cristãos ocidentais como monstros e sabotadores. Muitos missionários que trabalharam e viveram na China por décadas foram forçados a sair do país. Todo o trabalho filantrópico foi usado como evidência contra os países ocidentais, que, segundo o governo, tentavam colonizar e escravizar o povo chinês. O cristianismo está prosperando novamente na China. É tarefa dos historiadores e escritores descobrir a verdade histórica e explicá-la ao público.