Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 5 de 21

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Deus é Vermelho

3. O tibetano

Capítulo 3

O TIBETANO

 

ares e clubes noturnos da rua Foreigner, em Dali, parecem diferentes à luz do dia, sem os cortejadores letreiros em neon e a hipnótica batida tum tum tum de

B sua música; imagino uma modelo acordando muito cedo, sem maquiagem nem

roupas glamorosas. O cheiro era também diferente no ar fresco da manhã: o odor corporal e a fumaça rançosa de maconha. Há, ainda, as vendedoras de legumes, mulheres bai em vestidos coloridos chamando a atenção para as frutas e verduras de sua terra, suas bancas de exposição com cheiro natural e autêntico, folhas extraordinariamente viçosas e espessas. Parei para admirar a couve chinesa e, sem maldade, perguntei se era geneticamente modificada. A mulher bai olhou para mim com olhos semicerrados, riu com sua boca desdentada e ralhou: “Ê assombração maldita de Sichuan!”.

Um pouco depois das 9 horas, no dia 3 de agosto de 2009, virei à direita na avenida Renmin, numa pequena travessa de paralelepípedos, seguindo a sinalização indicativa para “A Igreja Católica”. A porta para um pátio estava aberta, e, da travessa, a “igreja” parecia, à primeira vista, nada diferente de qualquer outra das antigas casas residenciais do bairro. Embora os beirais estivessem esculpidos com pássaros e animais das lendas bai, estendendo-se até o céu, havia uma torre encimada por uma cruz pintada de dourado. No interior, o teto arqueava vários andares acima, e o prédio tinha o formato de uma borboleta, as asas esticadas, prontas para voar.

A missa dominical havia acabado de começar, quando deslizei silenciosamente por entre as ondas do canto dos mais de cem fiéis e me guiei até um banco, para me juntar a meu amigo Kun Peng. Como não sabia cantar os hinos, eu cantarolava a melodia. No altar, diante de um fundo de quatro grandes caracteres chineses proclamando “Deus é amor”, um padre de meia-idade e dois jovens coroinhas estavam absortos numa cerimônia ancestral. “Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair”, entoou o padre. Senti-me um pouco constrangido a respeito de minha presença na igreja, um não crente a observar o comportamento dos crentes. Eu conhecia a passagem que o padre estava lendo e esperava que não pensassem que eu fosse o traidor.

O serviço tinha um ritmo de sobe e desce, como o fluir da maré junto a uma praia: em pé para cantar o hino, sentado para ouvir o sermão, ajoelhado para rezar, em pé novamente para cantar outro hino. Kun Peng havia me dito que, com a repetição de cada ato, o coração se tornava mais puro, mais piedoso e mais arrebatado. Todos nos levantamos mais uma vez quando o órgão começou a tocar, e a congregação enfileirou-se no corredor para receber a sagrada comunhão — a hóstia e o vinho, que eram o corpo e o sangue de Cristo.

Eu não fui o único a permanecer sentado; havia um punhado de outros não crentes ali, presentes por curiosidade ou simplesmente para apreciar a música. Às 11 horas, a missa se encerrou, e Kun Peng me levou para conhecer o mosteiro ao lado. Paredes altas dividiam a vista das duas casas com pátios tradicionais ao estilo bai, onde plantas e flores cresciam no jardim, exuberantes e em plena floração. As casas pareciam dilapidadas. Freiras e frades iam e vinham, alguns de hábitos, outros não, cuidando de seus afazeres dominicais. Entre eles havia um jovem que disse ter 24 anos, tibetano, católico e seminarista. Tal como a maior parte dos chineses, eu tinha a impressão de que cada tibetano era um seguidor devoto do budismo tibetano.

Jia Bo-er estava agachado sob o beiral, lavando seu hábito numa bacia. Seu cabelo encaracolado, preto e brilhante balançava para cima e para baixo ao sol enquanto ele torcia e batia o tecido escuro. Disse que seu nome cristão era Gabriel, e, quando terminou de lavar a roupa, procuramos uma sombra para conversar. Ele disse que vinha de Shangri-lá.

 

Liao Yiwu: Shangri-lá? Não é aquele famoso paraíso descrito no romance de James Hilton,

Horizonte perdido[5]?

Jia Bo-er: Sim, sim. A maioria dos meus amigos leu o romance. Foi escrito em 1933, acho. O paraíso que Hilton descreve no livro supostamente estaria na região de Cizhong, jurisdição de Diqing, parte da província de Yunnan. Na década de 1990, líderes da jurisdição atestaram de forma oficial que nossa aldeia era a “Shangri-lá perdida”. Acho que foi um truque para atrair turistas. Tenho muito orgulho de que minha cidade natal seja tão bem conhecida.

Gerações da minha família viveram na região de Cizhong. Antigamente, éramos todos budistas. Cerca de duzentos anos atrás, soldados do mosteiro de lamas se envolviam com frequência em lutas contra as tropas chinesas. A guerra durou muitos anos e deixou muitas aldeias em situação de pobreza e caos. O pessoal mais velho me dizia que, na região devastada pela guerra, pessoas morriam o tempo todo. Em meados do século 19, vários padres de uma organização católica chamada Missões Estrangeiras de Paris apareceram. Eles mudaram a vida de muitas pessoas comuns.

Liao: Há mais budistas ou cristãos na região de Cizhong? Jia: Acho que é meio a meio. Vivemos todos na mesma aldeia, temos a mesma cor de pele, usamos casacos de pele de cabra semelhantes, pastoreamos cabras e trabalhamos no cultivo juntos. É bastante harmonioso, portanto. Quando nos reunimos para jantar com amigos ou vizinhos, eles entoam mantras budistas e nós fazemos orações para buscar a bênção de Deus. Depois brindamos uns aos outros com licor. Vez ou outra, tiramos nossos colares e comparamos quais pingentes são mais bonitos, a cruz ou as pequenas imagens de Buda. Você leu a respeito do encontro entre o papa e o dalai-lama? Eles se elogiaram calorosamente durante o encontro. É bom promover harmonia inter-religiosa, não acha? Quatro gerações da minha família foram cristãs. Tenho sido cristão minha vida toda.

Liao: Seu nome não soa tibetano.

Jia: Você tem razão. É um nome ocidental. Fui batizado numa igreja. O padre me nomeou “Gabriel”. Gabriel é um dos anjos de Deus, e o nome significa “homem de Deus”. Como você sabe, nós, tibetanos, nomeamos nossos filhos de forma bastante espontânea. Um pai deve aparecer com um nome imediatamente após o nascimento do filho. Muitas vezes, ele recebe inspiração daquilo que vê primeiro quando pisa fora de casa. Se for uma flor kalsang brotando sobre o gramado, ele chamará sua filha recém-nascida de Kal Sang, ou Ge Sang. Se for uma manhã de ventania, é bem provável que nomeie seu filho recém-nascido de Anil, que significa “vento” ou “ar”. Eu gosto muito do meu nome bíblico.

Liao: Onde você foi batizado?

Jia: Na igreja de Cizhong, que foi construída pelos missionários franceses cerca de 150 anos atrás.

Liao: É a igreja mais antiga na província de Yunnan? Jia: Provavelmente. Quando se está na região do vale, é possível ver, de certa distância, o campanário no estilo ocidental sobre o fundo dos picos das montanhas cobertos de neve, rodeado por templos budistas. O rio Lancang flui e então encurva em torno das aldeias dali. O pessoal mais velho na aldeia dizia que Cizhong era uma zona fronteiriça para os missionários cristãos. Da metade do século 19 ao início do século 20, os missionários tinham a esperança de que o evangelho se infiltrasse no Tibete, mas os lamas não gostaram da concorrência religiosa e muitos padres foram mortos. O Kashag, ou o conselho governante tibetano, colocou milhares de tropas nas principais passagens das montanhas para impedir que forasteiros entrassem no Tibete. Não importava se você fosse um han ou um ocidental, e não importava se você carregasse um revólver ou uma Bíblia. As tropas iriam prendê-lo ou matá-lo. Muitas pessoas foram e nunca mais voltaram. No fim, os missionários estabeleceram bases em Cizhong, de onde serviam às aldeias do Tibete.

Liao: Há muitos cristãos lá?

Jia: Não. Acho que há apenas uns setecentos e pouco. Em Cizhong, os missionários católicos foram os primeiros a chegar, mas, como o percurso se tornou mais acessível, as igrejas protestantes também se expandiram. Em anos recentes, Cizhong se tornou um destino popular para turistas franceses, americanos, britânicos, canadenses, australianos, suecos e neozelandeses. No caminho para escalar a montanha de neve Meili, muitos param para rezar na igreja de Cizhong.

Liao: Você ouviu algumas histórias a respeito dos primeiros missionários ocidentais na região?

Jia: Sim. Vi as lápides da sepultura deles. Algumas foram danificadas durante a Revolução Cultural, mas agora foram restauradas e estão protegidas. Vi também as árvores plantadas pelos missionários estrangeiros no início do século passado. Os missionários escolheram as encostas das montanhas voltadas para o sol para plantar uvas. Nós as chamávamos de “mel rosa”. Elas tinham um gosto forte, denso e doce. Faziam parte de uma variedade ancestral na França. Os missionários trouxeram as técnicas de vinicultura para a região.

Liao: Eu provei o vinho de mel rosa. É vermelho e suave. Jia: Não arranha a garganta, como faz a cerveja. A intenção original dos missionários franceses era usá-lo apenas para a sagrada comunhão. Mas, depois que eles se estabeleceram em nossas aldeias e construíram uma igreja ali, o povo superou com facilidade a diferença cultural e os tratava como uma família. Os tibetanos ofereciam a cerveja do planalto aos amigos franceses, e estes ofereciam o vinho vermelho de mel rosa em troca.

Comerciantes e agricultores tibetanos iam à igreja não para rezar ou cantar hinos — eles ainda eram budistas —, mas para visitar os amigos franceses e beber vinho com eles. Eu soube que, vez ou outra, um agricultor local saboreava copos de vinho em excesso, e os padres arrumavam uma cama para deitá-lo.

Durante as épocas de colheita, os padres franceses traziam vinho para o campo de cevada e ajudavam os agricultores com a colheita e o plantio. Também tentavam ensiná-los a cantar hinos. Você sabe, os tibetanos são bons em sair berrando cantigas pelas montanhas. Eles abrem a boca e uivam. O padre os interrompia, dizendo: “Amém; Deus abençoe a sua voz. Mas vocês não precisam uivar. Deus não é surdo. Ele pode ouvi-los”. Os padres franceses fizeram muitas adaptações para os hinos. Hoje em dia, salmos são cantados com melodias do planalto tibetano. Na missa dominical, às vezes há a apresentação de uma dança ao redor de uma fogueira. O Natal é celebrado com danças em torno de fogueiras.

As relações entre tibetanos locais e missionários estrangeiros nem sempre foram tranquilas, entretanto. Nós, tibetanos, sofremos muito, por vezes devastados pela guerra, outras vezes por pandemias, e às vezes tanto pela guerra quanto pelas pandemias.

Contam que, na época de meu tataravô, a região foi atingida por uma grave seca. Por vários anos consecutivos, não havia chuva ou neve. O leito do rio ficou exposto. Cabras e bois morriam de fome, pois não havia capim para alimentá-los. As safras secavam como gravetos. A vida das pessoas estava em perigo. Os lamas cantavam e oravam pela chuva. Não adiantava. Pessoas queimavam incenso para deuses e divindades locais. Nada. Alguns tibetanos começaram a descarregar sua frustração nos missionários estrangeiros. Alguns reclamavam que os tibetanos haviam ofendido seus ancestrais, pois tinham convidado forasteiros a suas aldeias e permitiram que eles alterassem sua fé. Numa determinada região, os moradores cercaram a igreja local e capturaram o único padre. Amarraram-no e o levaram até as montanhas, onde planejavam sacrificá-lo a seus ancestrais. Quando a faca transpassou o pescoço do padre, a cabeça dele se transformou num pedaço de rocha azul. Do pescoço não jorrou sangue, mas leite, que escorreu montanha abaixo, em direção à aldeia. Todos saíram correndo. Pularam no córrego para beber o líquido nutritivo. Desse modo, a terra ressequida foi rejuvenescida. As pessoas estavam agradecidas. Carregaram o corpo do padre montanha abaixo e o enterraram nos fundos da igreja. Desde então, eles oram em frente ao túmulo do padre para buscar a proteção de Deus quando ocorrem desastres.

Liao: História e lendas estão separadas apenas por uma linha tênue. Às vezes, não há problema em atravessá-la.

Jia: Vou lhe contar outra: “A história das agulhas douradas”. A peste bubônica e a cólera atingiram nossa região muitas décadas atrás. Uma extensa faixa da população morreu. Os sobreviventes fugiram para outros lugares. Aldeia após aldeia se esvaziava. Até as tropas han e tibetanas tiveram de interromper a prolongada guerra que travavam entre si. Havia silêncio por toda parte. Por sorte, os missionários apareceram com muitas agulhas douradas. Eram vacinas para a praga, e eles tinham pílulas contra a cólera. Alguns se recuperaram rapidamente, outros mais devagar, mas logo todo mundo melhorou.

Liao: Eu ouvi muitas histórias sobre como os missionários ocidentais salvaram vidas por meio do serviço médico. Eles desempenharam um papel importante em impedir a propagação de epidemias em muitas partes da China.

Jia: Quando criança, eu me lembro de ver os adultos sentados ao redor de uma fogueira à noite. Após uns goles de licor, começavam a contar histórias desse tipo, mas eu era jovem demais para relembrar todas elas. Meus pais tiveram sete filhos. Vários dos meus irmãos têm melhor memória do que eu.

Liao: Sete filhos?

Jia: Eu tenho três irmãs mais velhas e três irmãos mais novos. Sou o do meio, mas o mais velho dos homens. Tenho muita sorte por eles terem me enviado a Chengdu para estudar teologia. Sempre me senti atraído pela igreja. Seja qual for o desejo do Senhor para minha vida, eu obedeço.

Mas, às vezes, não sou tão determinado quanto deveria. Muitos de meus superiores, tais como a irmã Tao e o padre Ding, são bem mais devotados. Muitos de meus colegas seminaristas renovam seus votos de compromisso a cada três anos. Três vezes três é igual a nove. Após nove anos, farão um voto final para permanecer no celibato e servir ao Senhor pelo resto da vida. Ainda estou hesitando e ponderando meu futuro. Não sou tão devotado quanto meus superiores.

Liao: Você só tem 24 anos. Está hesitante quanto a seu futuro com a igreja porque quer se casar?

Jia: Não. Não estou pensando sobre o assunto no momento.

Liao: Você planeja voltar para Cizhong após o seminário? Jia: Não.

Liao: Por que não? Cizhong é sua cidade natal e é um ótimo lugar. Jia: Eu pertenço à igreja. Vou para onde a igreja me enviar. A Bíblia diz que Jesus deixou sua cidade natal e vagou pelo mundo por muitos anos. Assim, uma vez que já saí, não irei voltar. Estou pronto para viajar pelo país e servir a Deus.

Liao: A Igreja Católica prende você à regra do celibato. As igrejas protestantes são diferentes.

Jia: Algumas pessoas acham que os católicos sãos mais conservadores. Talvez isso seja verdade. É por isso que o governo secular se sente mais ameaçado pelos católicos.

Liao: Sério?

Jia: Vou lhe dar um exemplo. Há um cartaz na entrada a respeito de uma pessoa desaparecida que viveu há mais de dois mil anos. Diz: “Jesus de Nazaré, 1,80 metro de altura, com cabelo castanho encaracolado, olhos brilhantes e penetrantes, cheios de vigor, voz sonora e contundente. Ele não se curva às forças do mal e detesta hipocrisia. Deus é o caminho, ele representa a verdade e a vida. Se você encontrá-lo, por favor, siga-o”.

Liao: Você tem compromisso de lealdade ao Vaticano? Jia: Na verdade, não. Bispos e padres que possuem relações com o Vaticano são monitorados de perto pelo governo, que tenta com toda a força bloquear quaisquer contatos com o Vaticano. O Partido Comunista plantou muitos de seu pessoal dentro da igreja. O governo relembra com frequência aos clérigos que não se desviem ou façam algo que viole a política do partido. Antes de qualquer missa em grande escala, o governo precisa aprovar o conteúdo do sermão.

Liao: Você se curva às forças do mal?

Jia: Ainda não fui testado.

Liao: E seus pais?

Jia: Eles passaram pela destrutiva Revolução Cultural. A única coisa que disseram foi que não desistiriam de Deus. Eles rezavam em segredo. Não querem se alongar muito sobre o passado. Acredito que a maioria dos católicos na China pensa da mesma maneira.