Deus é Vermelho
15. A poetisa e o padre
Capítulo 15
A POETISA E O PADRE
stou desesperada”, sussurrou ela. “Não posso mais permanecer na China. Eu quero fugir.” Na última vez que a vi, Liu Shisheng era jovem e bonita. Agora, sua pele
E estava ressecada e áspera, a testa marcada por rugas profundas. Líder do
movimento poético vanguardista em Sichuan na década de 1980, Liu saíra de cena, desaparecera. Fazia anos que ninguém tinha notícias dela. Vê-la vestida de preto e caminhando em minha direção, enquanto eu estava sentado com amigos no lado de fora da Livraria 31 em Chengdu no ano de 2002, causou-me surpresa, assim como suas palavras. Ocupamos uma mesa separada. Liu começou a chorar. Ela se tornara uma ativista católica e estivera encarcerada durante sete meses por fazer proselitismo nas áreas rurais.
Liu me deixou preocupado. Levantei algumas informações de interesse dela, mas, quando tentei marcar um encontro, Liu não respondeu a meus recados, e eu não tinha outras formas de entrar em contato com ela. Eu a vi novamente três meses mais tarde. Era o terceiro dia após o ano-novo chinês. Ela estava dando uma palestra numa casa de chá, ao ar livre. Parecia calma e relaxada. “Minhas preces diárias me proporcionam muita paz interior”, disse. Liu contou que estava reunindo informações sobre o padre Zhang Gangyi, figura-chave na comunidade católica chinesa.
Liu veio de uma família de oficiais comunistas. O pai lutara por Mao Tsé-tung durante a guerra civil chinesa. Ele estava presente quando os nacionalistas fugiram para Taiwan e ajudou a estabelecer o novo governo em Chengdu. Por anos, seu pai se encarregou da Liga da Juventude Comunista em Chengdu. Ele conheceu a mãe de Liu durante a campanha de nacionalização das empresas privadas da China. Ela trabalhava numa fábrica têxtil e dedicava-se à causa comunista. Casaram-se. Liu nasceu na primavera de 1961, período de fome na China quando pouquíssimos bebês sobreviviam.
Liu Shisheng: Eu era uma rebelde, uma ovelha negra. Não tinha nada em comum com meus pais. Quando criança, com apenas 18 meses, fui enviada por eles a um jardim de infância específico para filhos de oficiais superiores do governo. Frequentei uma escola especial no ensino médio e, depois, a faculdade. Estava saturada da ideologia comunista. Meus pais eram mais dedicados ao trabalho do que à família. Quando visitavam meus irmãos e eu, parecia uma visita à prisão, curta e formal. Depois que se aposentaram, o partido já não precisava mais deles, e eles descobriram que não tinham vida fora do partido. Eles nem mesmo sabiam o que era viver como uma família. Ambos estavam com seus setenta e poucos anos, mas brigavam o dia inteiro. Tornaram-se muito irracionais e atacavam-se verbalmente como inimigos jurados.
Liao Yiwu: Eles tinham colocado a fé no comunismo... Liu: ... e essa fé resultou em nada. Dedicaram a vida ao Partido Comunista, e o partido preencheu um cheque polpudo para eles, mas nunca poderão descontá-lo, pois o partido está falido. Gerações e gerações de chineses foram enganadas pelo partido. Tornaram-se todos fanáticos. Muitos antigos oficiais do governo sentiram-se atraídos pela prática da Falun Gong, e, não importa quanto o partido tentasse, não conseguia impedi-los de se juntar a algo que o governo declarava constituir uma seita. A razão era simples. Esses praticantes estavam desiludidos com o partido. Eles haviam dedicado a vida por aquele cheque prometido, apenas para descobrir que não valia o papel em que fora escrito. Hoje, quando meu pai menciona os principais líderes comunistas, é sempre com uma saraivada de impropérios. Ele e outros veteranos de guerra planejavam uma reunião na Praça de Tiananmen para uma manifestação pacífica. Planejavam vestir o uniforme, usar as medalhas e protestar contra a perda das antigas tradições e valores revolucionários. Na percepção deles, a imagem do Partido havia sido manchada pela nova liderança. A polícia soube de seus planos e tentou dissuadi-los, consolando-os e prometendo benefícios. Meu pai entrou num debate intenso com os oficiais de polícia e, mais tarde, disse que a discussão lhe causou a sensação de que o governo prestava atenção a suas queixas. Os veteranos desistiram. Nada conseguiram além de palavras.
Eu estava farta de meus pais e de sua ideologia. Foi por isso que busquei um renascimento espiritual na igreja. Quando fui batizada, até mudei de nome. Meu nome atual me foi dado pelo padre Zhang Gangyi. Levei algum tempo antes de encontrar meu caminho. Deus mudou meu destino, e encontrei significado na vida. Não é fácil. Fui casada certa época e vivi desviada por um longo tempo.
Liao: Não se esqueça de que eu era amigo de seu ex-marido. Liu: Como posso esquecer? Quando morávamos na rua da Reencarnação, tentávamos escrever
juntos poemas de fluxo de consciência.[11] Lembra-se de como ficávamos tão bêbados? Ligávamos o gravador e falávamos frases sem nexo no microfone. Achávamos que estávamos criando a poesia mais extraordinária. Somente uma linha surgiu daquela experiência: “Um lobo vermelho embebido em vinho, a boca a gotejar”. Em 1986, quando os poemas de vanguarda tomaram o país de assalto, a minha casa se transformou num hotel, um grupo de malucos saindo, outro esperando para entrar. Eles dormiam por todo canto, comendo, bebendo e evacuando em minha casa. Eu me tornei cozinheira em tempo integral, comprando comida e bebida alcoólica. Eu só cozinhava e cozinhava. Uma noite, me tranquei na cozinha e liguei o gás. Tentei me matar.
Liao: Por quê?
Liu: Esses meus amigos artistas em tese constituíam a elite cultural, mas não passavam de um bando de animais inúteis e desalmados. Certa vez, eu os vi embebedando e praticando sexo grupal. Era nojento. Onde estava a visão artística naquilo? Tudo se tornou tão sem sentido. Comecei a ouvir vozes...
Em 1989, eu lecionava numa universidade e, quando o movimento estudantil teve início, fiquei animada e vi esperança para a China. Ofereci grande apoio a meus alunos. Mas então aconteceu a repressão do governo. Fiquei seriamente deprimida. Deixei de conviver com as pessoas, rompi contato com meus amigos poetas. Eu vagava pelas ruas, sem objetivo. Numa manhã de domingo, passei pela igreja católica na rua Zouma. Podia ouvir os cânticos e, por curiosidade, entrei e vi centenas de pessoas sob aquele belíssimo teto alto e arqueado cantando com o coral e o órgão. Permaneci no fundo, com a cabeça baixa, e logo percebi que estava cantarolando a melodia com eles. Senti alguém tocar meu cotovelo. Uma velha senhora sorria para mim. Seu rosto estava enrugado como a casca de uma árvore de mil anos. Ela gesticulou para que eu levantasse a cabeça e cantasse. Fiquei envergonhada. Eu nunca tinha ouvido o cântico de hinos antes. Eu nunca havia escutado música tão pura e celestial. As lágrimas rolaram de meus olhos. Aquela velha vovó me entregou seu hinário. Quando ela sorriu outra vez, notei que só lhe restava um dente na boca. Ela permaneceu ali, estufando seu peito seco e achatado e cantando com o coração. A igreja inteira estava sob o fascínio de Jesus, sem o mínimo de distração. Tudo era tão brilhante e puro. Nunca vou esquecer o primeiro hino que cantei:
O Senhor é meu pastor; de nada terei falta.
Em verdes pastagens me faz repousar
E me conduz a águas tranquilas;
Restaura-me o vigor.
Guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome.
Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte,
Não temerei perigo algum: pois tu estás comigo...
[Salmo 23]
Não me atrevia a cantar alto demais, por medo de estragar a harmonia. Eu estava possuída de felicidade, como uma criança extraviada que encontra o caminho. Olhei para a cruz sobre o altar e para Jesus, que carregou os sofrimentos dos homens. Eu me sentia tocada; meu corpo, eletrificado. Eu queria escrever poesia, mas não a porcaria vanguardista que costumava escrever.
Liao: Eu estive na igreja que você descreveu. A Igreja Patriótica Católica da Província de Sichuan.
Liu: Naquela época, eu não tinha ideia de que havia igrejas patrióticas das Três Autonomias sancionadas pelo governo e igrejas domésticas clandestinas. Após o culto, fui ao escritório local da Associação Católica Patriótica Chinesa para perguntar sobre a adesão à igreja. O padre parecia desconfiado. Por que eu queria me tornar membro da igreja? Ele me explicou a política do partido sobre a religião e os princípios de governo autônomo, sustentação autônoma e propagação autônoma. Enfatizou a necessidade de ser patriota. Perguntei a respeito do Vaticano. Ele disse: “Nossa igreja chinesa não tem relação nenhuma com o Vaticano. Eles não têm controle sobre nós”. Com isso, retomou sua explicação e me falou sobre o processo de inscrição. “É bom que você queira se juntar à igreja”, disse ele, “mas você tem de conseguir uma recomendação de sua universidade. Depois, a inscrição será analisada pela igreja. Em seguida, deverá ser aprovada pelo Gabinete de Assuntos Religiosos local. Seu arquivo será mantido lá”. E ele não parava mais de falar. Achei aquilo ridículo. Então eu o interrompi: “Você não acabou de me dizer que todos são iguais e que temos liberdade de religião neste país?”. O padre tomou a defensiva. “Claro, temos liberdade de fé neste país. Você só precisa passar pelos canais apropriados. Por que você não compra um exemplar da Bíblia e a lê? Depois, pense a respeito”.
Assim que voltei para casa, comecei a ler a Bíblia que ele me vendeu. Que decepção. Era uma versão abreviada, e no verso havia um organograma que colocava o Gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista no topo, a Associação Católica Patriótica Chinesa abaixo, depois a Confederação Episcopal Católica Chinesa e, em seguida, os bispos, padres e assim por diante. Era estranho ver que, dentro da hierarquia da igreja, o Partido Comunista era o chefão. Não era Deus? Retornei ao escritório e pedi a devolução do dinheiro. A recepcionista disse que o padre tinha saído e que eu deveria voltar mais tarde. Fiquei furiosa e estava expressando minha raiva perto da entrada do prédio, quando uma mulher veio até mim e disse: “Não se incomode tentando obter um reembolso. Você deveria jogar isso fora”. Esse foi meu primeiro encontro com a professora Bai, minha mentora. Ela me emprestou seu exemplar da Bíblia e disse: “Se quiser ser uma verdadeira filha do Senhor, você deve se afastar daqui. A Associação Católica Patriótica Chinesa é satânica”.
A professora Bai me levou a sua casa. Lá, várias pessoas realizavam uma missa, que se aproximava do fim. Ela me apresentou a cada um: “Temos uma nova irmã, que está sofrendo. Vamos orar por ela”. Cerca de dez mulheres recitaram a Oração da Novena das Rosas para mim. Desde então, sempre que enfrento problemas na vida, entoo a Novena das Rosas.
Liao: Você ainda está com sua mentora?
Liu: Não. Ela foi presa logo depois que a conheci. Pegou sete anos, sob a acusação de realizar atividades religiosas ilegais. O governo tem invadido muitas igrejas domésticas em Chengdu desde o final da década de 1990. Diversos líderes das igrejas clandestinas são presos por jurar lealdade ao Vaticano, não ao Partido Comunista. Muitos deles tentam manter contato com o Vaticano por meio de canais secretos. É uma longa história. De qualquer modo, antes de ser presa, a professora Bai me apresentou ao padre Zhang Gangyi, e, na Páscoa de 1993, viajei à aldeia Zhangerce, na comarca de Gaoling, província de Shaanxi, onde ele me batizou. O padre Zhang tinha 86 anos e seu nome cristão era Antônio. Espero que você sempre se lembre deste nome.
Liao: Por quê?
Liu: Porque ele inspirou uma nova geração de católicos, como eu. Espero escrever um livro sobre a vida dele algum dia.
Liao: Conheço apenas a história do cardeal Gong Pingmei, preso na década de 1950 por se recusar a renunciar ao Vaticano e a reconhecer a igreja sancionada pelo governo. Ele foi sentenciado a trinta anos. No final da década de 1970, quando ainda estava na prisão, o papa o nomeou cardeal secretamente e tornou a nomeação pública em 1991. Foi publicado um artigo na seção internacional do Diário do Povo sobre o Ministério do Exterior acusar o Vaticano de interferir em assuntos internos da China. A nomeação só foi publicada após o cardeal se mudar para os Estados Unidos.
Liu: Nos últimos cinquenta anos, muitos cristãos morreram por causa da opressão e perseguição do Estado. Como o governo controla a mídia, não obtemos informações sobre a maioria desses mártires. Você e outras pessoas souberam do cardeal Gong porque ele foi apontado pelo jornal do Partido como um alvo de condenação. Foi assim que eu soube do padre Zhang. O Diário do Povo publicou uma reportagem sobre ele para demonstrar como a religião era “nociva” para as pessoas. “Elimine a superstição e modifique velhos costumes e tradições”, dizia. O jornalista era bastante sarcástico. A reportagem consistia em algo assim [Liu narra]:
Uma pandemia atingiu recentemente a região, e muitas pessoas adoeceram. Algumas pessoas más usaram a oportunidade para espalhar rumores de que a pandemia era resultado da rejeição popular a Deus. Certo dia, depois da meia-noite, moradores afirmaram ter visto uma auréola brilhante sobre o túmulo de um missionário estrangeiro. Dentro da auréola, a figura de Jesus com uma cruz nas mãos. Imediatamente, um antigo sacerdote católico reuniu um pequeno grupo de aldeões, de pensamento político atrasado. Ele envenenou a mente das pessoas com demagogia. Disseram que ele teria dito: “Esta será a última vez que o Senhor aparecerá para vocês. Deus está pedindo que suas ovelhas retornem ao caminho correto”. Esse antigo padre chegou a proclamar-se Pedro, o discípulo de Jesus. Além disso, alguns moradores locais também espalharam histórias falsas contando como esse antigo criminoso recolheu a água de uma vala malcheirosa próxima e bebeu. Em poucos segundos, a vala se transformou num riacho de água limpa.
Em vista disso, muitos doentes ouviram as fábulas e migraram aos montes para o local onde a auréola havia
aparecido e beberam a água do riacho de água limpa nas proximidades. As pessoas ficavam curadas de imediato, e a saúde delas nunca havia sido melhor. Esse mito tem enganado as massas, e, dia após dia, um afluente de pessoas invade a aldeia Zhangerce, achando que descobriram uma panaceia para suas doenças. Quando visitou a área para este artigo, o repórter descobriu que a vala imunda ainda se encontrava ali, e não havia vestígio do riacho limpo. Não havia nenhum sinal da aparição santa.
No final do artigo, o repórter alerta as pessoas de não acreditarem em superstição e as aconselha a informar o
departamento público de saúde caso exista uma pandemia. O repórter também adverte as pessoas de “serem vigilantes contra quem espalha boatos e a darem parte de pessoas más à polícia”.
O antigo sacerdote era o padre Zhang Gangyi. Não sei se as alegações sobre a auréola e o riacho limpo eram verdadeiras ou não. Talvez o jornal do partido tenha inventado a história para difamar o padre Zhang, ou talvez algo realmente tenha acontecido e os moradores embelezaram o fato. Você sabe como as pessoas são. Essa história “negativa” tornou o padre Zhang e a aldeia Zhangerce famosos por todo o país. Cristãos chegavam de toda parte, alguns com o artigo nas mãos. Vinham para orar e buscar a bênção do padre Zhang. O padre Zhang ajudou a reavivar o catolicismo na região. Até o dia de sua prisão, no final de 1989, ele realizava uma grande missa na igreja local toda Páscoa.
Liao: O que você sabe sobre ele?
Liu: O padre Zhang Gangyi nasceu em 1907 numa família católica na aldeia Xincheng, no distrito de Xiyang. Hoje, está na atual comarca de Sanyuan, província de Shaanxi. Aos 18 anos, juntou-se ao monastério Tongyuanfang. Em seguida, foi transferido para um monastério na diocese de Ankang, parte sul da província de Shaanxi. Em 1930, ele foi escolhido para ingressar na Ordem Franciscana, uma das mais conhecidas ordens religiosas dentro da Igreja Católica. Os franciscanos patrocinaram seus estudos na sede em Roma. Ele se tornou noviço em 1932 e foi ordenado padre em 15 de agosto de 1937.
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, o papa Pio XII enviou o padre Zhang para trabalhar como capelão num campo de prisioneiros de guerra no norte da Itália. Milhares de soldados aliados estavam detidos ali. A Itália sob Mussolini assemelhava-se a um imenso acampamento militar. Havia postos de verificação por toda parte. Segundo a versão popular da história, o padre Zhang foi detido e, durante o interrogatório, disse em inglês fluente: “Eu sou um sacerdote, não um prisioneiro de guerra”. Mas seu interrogador não concordou: “Você vem de um país inimigo, e nós o consideramos um prisioneiro de guerra”. O padre Zhang rebateu: “Aos olhos de Deus, não existe algo como um país inimigo. Há somente Satanás”. O interrogador gargalhou: “Em tempo de guerra, nossos inimigos são satânicos”. O padre Zhang foi feito prisioneiro de guerra e enviado para um campo, provavelmente como aqueles comuns na Segunda Guerra Mundial: arame farpado, refletores e torres de vigilância. Ele passava o tempo ministrando aos prisioneiros aliados, cuidando dos feridos, rezando por aqueles que necessitavam de suas preces e realizando a missa todos os domingos. Criou-se uma fama tão grande sobre o padre que até Mussolini quis conhecê-lo. Após esse encontro, o padre Zhang tornou-se capelão para todos os campos de prisioneiros de guerra na região e tinha relativa liberdade para se deslocar. Depois que a Itália se rendeu às Forças Aliadas, no final de 1943, os campos foram tomados pelos alemães, e, no fim de 1944, o padre Zhang descobriu que quatro mil prisioneiros americanos e britânicos seriam executados. Ele viajou até o campo numa noite chuvosa, abriu o portão principal e declarou: “Vocês são filhos de Deus. Ninguém, exceto Deus, tem o direito de privá-los da liberdade. Sigam-me e deixem este inferno na terra. Vão para casa e se juntem a seus parentes. Que Deus os abençoe!”. Os prisioneiros avançaram, desarmaram os guardas e fugiram com êxito.
Quanto ao que aconteceu com o padre Zhang, existem duas versões dos fatos. Uma delas, que se encontra na internet, diz que o padre Zhang foi capturado pelos nazistas e condenado à morte por um tribunal militar na Alemanha. Ele seria executado no dia 15 de janeiro de 1945, mas uma operação aérea aliada o resgatou, e o padre Zhang passou o restante da guerra no Vaticano. A outra versão eu ouvi em Shaanxi, e não encontrei confirmação nenhuma a respeito, mas é divertida. Depois que os prisioneiros escaparam, o padre Zhang colocou um vestido de mulher, cobriu a cabeça com um xale, percorreu a Itália até Roma e se infiltrou na Basílica de São Pedro por uma porta dos fundos. Ele seguiu um sacerdote por entre os cavernosos corredores, tentando não se perder, quando o sacerdote sumiu de vista. Enquanto tentava descobrir para onde ir, derrubaram-no no chão. Era o sacerdote, crente que estava sendo seguido por uma mulher. Após descobrir que a mulher era, na verdade, um homem asiático travestido, o sacerdote puxou o xale do padre Zhang e perguntou: “Todos os homens orientais usam lenços na cabeça?”.
Liao: Esta é certamente uma... rendição dramática. Liu: O padre Zhang teve uma audiência com o papa. Comovido com a história, o papa pediu-lhe que continuasse a servir na cidade do Vaticano. Quando a guerra terminou, o padre Zhang pediu para retornar à China. “O Vaticano é apenas uma cidade, mas seu território espiritual cobre o Ocidente e o Oriente”, teria dito o padre Zhang. “Nós, no papel de missionários, deixamos pegadas de Deus ao redor do mundo”.
Antes de partir, o padre Zhang foi premiado com uma medalha pelo governo italiano pós-guerra por salvar os prisioneiros de guerra, e ele foi convidado a celebrar a missa numa catedral no centro de Roma. No início de 1947, o padre Zhang regressou à China. O generalíssimo Chiang Kai-shek se encontrou com ele em Nanquim, então capital do país, e lhe outorgou uma medalha de “herói nacional”. Ele retornou para a província de Shaanxi e continuou a pregar. No final de 1949, a guerra civil chinesa se aproximava do fim, e o governo nacionalista estava à beira do colapso total. Muitos de seus amigos tentaram convencê-lo a deixar a China, mas ele preferiu permanecer. “Deus me escolheu para servir ao povo han, que tem sido afligido por catástrofes e sofrimentos, e para permanecer aqui, neste mundo caótico”.
Em 1950, proibiram o padre Zhang de pregar em Ankang. Ele retornou para Sanyuan e, em 1959, estava entre os que boicotaram a Igreja Patriótica das Três Autonomias sancionada pelo governo e mantiveram sua lealdade ao Vaticano. Foi preso como um espião contrarrevolucionário e condenado à prisão perpétua.
Em 1980, com a abertura chinesa para o Ocidente, o governo havia abrandado o controle sobre a religião e, perto do fim do 21º ano de seu encarceramento, o padre Zhang foi solto. Quando retornou à terra natal, Zhangerce, recebeu cartas do Vaticano e do governo italiano. O Vaticano estivera monitorando sua situação por duas décadas. Depois que a China e a Itália estabeleceram relações diplomáticas, oficiais italianos tentaram tratar a questão por meio dos canais diplomáticos. Nem o Vaticano nem o governo receberam uma resposta do governo chinês. Quando o presidente Mao morreu e a Revolução Cultural teve fim, um amplo número de cristãos na China foi convidado pelo Vaticano a reunir informações a respeito do padre Zhang, e descobriu-se que ele estava preso na província de Shaanxi. Nosso novo líder, Deng Xiaoping, que havia estudado no exterior quando jovem, concedeu liberdade ao padre Zhang. Deng permitiu ainda que o padre Zhang realizasse uma peregrinação ao Vaticano, que ele não visitava há 35 anos. A cidade estava repleta de turistas e romeiros, um nítido contraste com a cidade quase deserta durante a guerra de que ele se lembrava. Os prédios eram os mesmos, mas as pessoas eram diferentes. O novo papa, João Paulo II, estava ocupado, e, após esperar por três dias, o padre Zhang reuniu-se com um representante do Vaticano, e a conversa ocorreu mais ou menos desta maneira:
O representante do Vaticano o cumprimentou: “Em nome do papa, nós lhe damos as boas-vindas. Entendemos que você sofreu tremendamente nas últimas duas décadas”.
O padre Zhang permaneceu em silêncio.
O representante continuou: “Sua situação na China deverá melhorar muito em breve. Há muito sabemos que o governo chinês estabeleceu organizações eclesiásticas patrióticas, que são independentes do Vaticano. Você pode se unir à igreja e oferecer seus serviços, caso esteja disposto”.
O padre Zhang perguntou: “É isso o que o novo papa deseja?”.
O representante balançou a cabeça: “Desde que Deng Xiaoping assumiu o poder, as atividades religiosas na China comunista foram retomadas. Você deve ir cuidar da igreja de sua nação e do povo sob a liderança do Partido Comunista”.
“São estas também as palavras do novo papa?”, perguntou o padre Zhang.
O representante do Vaticano assentiu com a cabeça.
O padre Zhang se enraiveceu: “Pois então vá e diga a ele que existe um único centro. E o centro é o Vaticano. O Vaticano é a capital espiritual para católicos de todo o mundo”.
O ímpeto do padre Zhang atordoou o representante, que se levantou e o abraçou: “Em nome do papa, bem-vindo ao lar”.
O padre Zhang foi dominado por emoções quando o papa João Paulo II o recebeu. Ele disse ao padre Zhang durante o encontro: “Pensamos que você pudesse ter sofrido lavagem cerebral pelos comunistas. Estamos felizes que você não tenha mudado”.
O padre Zhang citou um trecho bíblico: “Honrarei aqueles que me honram”.
As notícias do encontro papal espalharam-se rapidamente, e o padre Zhang, mais uma vez, tornou-se famoso na comunidade católica chinesa. Ele atingira uma idade avançada, mas a mente continuava afiada. No retorno, voltou para casa, com a promessa de prosseguir num caminho considerado herético na China. Ele ergueu uma igreja em sua aldeia com o dinheiro que o governo italiano lhe concedera por suas ações heroicas durante a Segunda Guerra Mundial e construiu estradas para a aldeia. As atividades do padre Zhang desencadearam uma série de controvérsias na região. Os partidários locais apresentaram artigos que o acusavam de difundir superstição. Deng Xiaoping ordenou que o governo local fosse tolerante. Ele não queria desviar o movimento de reforma integral do país.
Liao: Do início até metade da década de 1980, a China experimentou um renascimento da religião.
Liu: Sim, o catolicismo, antes considerado “o ópio espiritual dos imperialistas estrangeiros”, teve permissão de se expandir. Os pregadores católicos podiam exercer a função abertamente. Em 1980, cerca de trezentos líderes católicos na China reuniram-se em Xangai, o primeiro encontro do tipo após a Revolução Cultural. O Vaticano solicitou, por canais diplomáticos, que um enviado do papa tivesse permissão para participar do encontro. O governo chinês rejeitou o pedido. Como a Igreja Católica estava sob jurisdição do Gabinete de Assuntos Religiosos, a premissa para qualquer espécie de liberdade religiosa era o patriotismo. O padre Zhang se indignou e pediu aos oficiais governamentais que reconsiderassem a solicitação do Vaticano: “O papa no Vaticano é o líder físico e espiritual dos católicos no mundo, incluindo os católicos de cada diocese na China. Ele encarna o poder supremo de Jesus Cristo, e nenhum governo secular encontra-se na posição de alterar isso com quaisquer desculpas seculares”.
Devido a seu posicionamento, o padre Zhang se tornou alvo de condenação dos líderes eclesiásticos. Diversos padres e bispos o repreenderam, acusando-o de traidor do próprio país e de guiar os católicos chineses a um caminho perigoso. Parecia uma denúncia pública da era Mao.
O padre Zhang citou a carta bíblica de Paulo a Timóteo: “Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória”. Em seguida, perguntou: “Vocês acreditam que os oficiais no Gabinete de Assuntos Religiosos compreendem o significado dessas palavras? Eles, incluindo muitos de vocês, provavelmente não leram a Bíblia. Vocês sabem que revisar as palavras do Senhor é considerado um pecado mortal e imperdoável?”.
Considerando o eminente status internacional do padre Zhang, a direção não o excluiu do encontro. Em vez disso, colocaram a solicitação do padre Zhang em votação, a fim de demonstrar a natureza “democrática” do corpo de líderes. Quando pediram que os participantes erguessem as mãos para definir se o papa é o único líder espiritual dos católicos na China, houve silêncio total. Uma única mão se ergueu: a do padre Zhang. Ele manteve o braço levantado durante as quatro horas da reunião, enquanto os outros 351 clérigos o ignoraram.
Liao: O que aconteceu depois?
Liu: O padre Zhang saiu da igreja, ainda com o braço erguido. Já havia escurecido e as ruas estavam lotadas. Ele olhou para o céu, gritou “Senhor!”, e depois caiu nas escadas. Foi levado a um hospital.
Após a repressão do governo na Praça de Tiananmen em junho de 1989, o padre Zhang condenou publicamente o uso da força. Na missa, orou pelos mortos e feridos. Em 21 de novembro, um grupo de bispos e padres que recusaram a união com as igrejas do governo se reuniram na aldeia Zhangerce. Eles formaram a Confederação Episcopal Católica Chinesa. O bispo Fan Xueyan, da diocese de Baoding, foi eleito presidente. A organização foi concebida para combater a influência da Confederação Episcopal Católica Chinesa pró-governo. Apenas duas semanas depois, o padre Zhang foi detido pela polícia local para interrogatório. Ele ficou preso até 12 de junho de 1990. O padre Zhang continuou a luta para que a igreja fosse independente do Estado até morrer, em 1997. Ele tinha 90 anos.
Liao: O que ele inspirou em você enquanto católica? Você está disposta a seguir os passos dele e pregar, apesar dos perigos adiante?
Liu: Eu tento. Viajei para as áreas rurais, visitei minas de carvão — uma vez, preguei o evangelho no subterrâneo, na escuridão total — e rezei em cemitérios por crianças que haviam morrido de maus-tratos. Fui perseguida pela polícia em diversas ocasiões, e entrei e saí da prisão muitas vezes. A sentença mais longa durou oito meses. Fui proibida de rezar, e, cada vez que eu rezava, era espancada. Inventaram todo tipo de meios de me torturar. Minha vontade tem se enfraquecido. Estou morrendo de medo. Não quero morrer na China. Eu quero partir.
Liao: Alguma sorte até o momento?
Liu: Eu tranco minha porta e fico em casa para rezar. Eu faço a Novena das Rosas três vezes por dia. Espero poder superar meu medo e alcançar um país favorecido por Deus.