Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 10 de 21

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Deus é Vermelho

Parte 2: As aldeias Yi e Miao

Parte 2

AS ALDEIAS YI E MIAO

Capítulo 8

O MÉDICO

 

escuridão no campo é verdadeiramente negra, negrume de tinta preta, quando as nuvens cobrem os céus e a lua é tão nova que ainda nem nasceu. Não havia visto

A escuridão assim por anos. Com o gélido sibilar do vento, senti-me sozinho,

embora soubesse que meu companheiro de viagem se encontrava ao alcance do meu braço. O dr. Sun (usarei apenas o nome de família, pois ele deseja evitar a exagerada atenção das autoridades) me guiava, nessa noite escura, à aldeia Fakuai, nas montanhas da comarca de Tianxin, província de Yunnan. “Fakuai”, descobri, era uma gíria na linguagem local yi para “cintura da montanha”, que era, de fato, onde a aldeia se localizava, embora Sun fosse mais preciso ao explicar que íamos para o “umbigo” da montanha.

O dr. Sun, um médico missionário que eu conhecera em 2004, concordou em me apresentar a alguns líderes cristãos nas aldeias de etnia yi, onde ele realizava visitas três ou quatro vezes no ano. Iniciamos os preparativos, acredito, com a antecedência necessária, em 9 de dezembro de 2005, mas se aproximava o findar do dia quando nosso motorista atingiu o término da estrada de asfalto e o furgão começou a balançar, os pneus fazendo barulho ao longo da estrada de “balas duras”, feita de uma combinação de lama e pedras pequenas. O motorista, com os dentes batendo, não fez esforço nenhum para reduzir, e a caminhonete se lançou com ímpeto à frente. Sun encolheu os ombros — tão violento era o tremor do veículo que era difícil falar — e sorriu, irônico: “Você se acostuma”.

O dr. Sun era evidentemente conhecido por aquelas bandas; saudaram-no como a um irmão sumido quando entramos, por volta das 21 horas, no pátio da casa de um de seus assistentes, o grupo sentado em torno da fogueira pondo-se em pé num pulo e correndo na direção dele. O dono da casa ajudou a descarregar os sacos de roupas doadas que havíamos levado conosco. Era por volta da meia-noite, quando as roupas foram distribuídas, os aldeões partiram, e nos deixaram molhar os pés em bacias de água quente postas perante o fogo. Nenhum de nós tinha sono, então conversamos.

 

Liao Yiwu: Parece tão surreal sentar aqui com você, nesta remota aldeia na montanha. É tão bela e tranquila. Quando nos conhecemos, você me disse que nasceu na cidade de Nanquim. Como veio parar na província de Yunnan?

Dr. Sun: Tanto meus avós quanto meus pais eram praticantes da tradicional medicina herbal chinesa. Eles administravam um dos hospitais mais antigos e respeitáveis da cidade e obtiveram lucros enormes. Compraram lotes de terra como investimento. Quando apareceram os comunistas, o mundo virou de cabeça para baixo. Minha família tornou-se alvo de perseguição: membros da malévola classe de exploradores. O hospital foi confiscado, assim como as fazendas. Mas eles possuíam boa fama por suas habilidades médicas. Por isso, foram considerados valiosos aos olhos dos altos oficiais comunistas locais. Em consequência disso, escaparam da execução. Foi difícil ter nascido numa família com um passado político tão sombrio. Eu era constantemente hostilizado na escola e proibido de participar de muitas atividades escolares. Em 1975, na segunda fase do ensino fundamental, me inscrevi como voluntário e fui a Xishuangbana, no extremo sul de Yunnan, quase o mais longe ao sul a que se pode ir. Ingressei numa fazenda estatal. Eu era o trabalhador mais jovem, mas mentia a idade. Queria me livrar de Nanquim, me livrar da minha família, desaparecer.

Como você sabe, Xishuangbana possui muitas etnias diferentes. O povo dai constitui o maior grupo. Em seguida, há os hani, os lagu, bulang, yao, yi, wa e os bai. É fácil desaparecer aqui. Fui designado para a comuna de Jinghong, perto da fronteira entre Mianmar e a Tailândia, que consistia de muitas aldeias dai.

Vivendo tão distante da cidade, pensei que poderia me livrar das campanhas políticas de Mao. Eu estava equivocado. Acontecia a mesma coisa em todos os lugares, mas com cerca de dez anos de atraso. Enquanto as cidades maiores haviam deslocado o foco do ataque político dos antigos latifundiários para os intelectuais e oficiais do governo, os líderes da minha comuna ainda realizavam sessões de condenação pública contra os proprietários de terra. No dia em que cheguei, encontrei um jovem colega, um dai. Ele parecia simpático. Até subia nas árvores, como um macaco, para pegar frutas para nós, os urbanos. Não sabíamos que ele era filho de um rico fazendeiro até que a milícia local o espancou. Ele apanhou muito.

Meu desapontamento com a sociedade e minhas dúvidas a respeito do comunismo começaram ali, acredito eu. Quanto mais velho, mais reacionário me tornava. Passei a perceber que todas essas palavras de ordem políticas — “As pessoas são donas do país”, “O partido é sempre grandioso, glorioso e correto” — constituíam um absurdo total.

Um dia, em 1976, enquanto colhia bananas, os alto-falantes da fazenda começaram a trombetear uma estridente música de luto, e a voz grave do locutor disse que nosso grande líder, o presidente Mao, havia falecido. Eu meio que ri e pensei em como nós costumávamos entoar “vida longa, vida longa” todo dia, e aí ele cai morto, assim como qualquer outro. Que boa notícia! Claro, eu não partilhava esses sentimentos com nenhum dos outros.

Mais tarde, fui designado para trabalhar na clínica da fazenda. Em 1977, quando a China retomou o sistema de vestibular para ingresso na universidade, passei em todos os testes e fui matriculado na Universidade de Medicina de Pequim. Cinco anos mais tarde, após obter meu diploma de médico, consegui um emprego num hospital afiliado à Faculdade de Medicina de Suzhou, perto de Xangai. Tornei-me cirurgião, trabalhando no departamento de emergência. Lidei com todo tipo de casos terríveis: fígados rompidos, estripação, ferimentos graves na cabeça, membros amputados. Foi assim que aprimorei minhas técnicas cirúrgicas. Em 1988, fui promovido ao cargo de administrador e em 1995 me tornei o vice-reitor da faculdade de medicina.

Liao: Você era jovem e tinha um futuro brilhante. Sun: A importante habilidade que define um cirurgião de emergência é diagnosticar com rapidez e precisão e depois agir. Não se pode brincar. Mas, no papel de administrador, nenhuma das habilidades que eu adquirira se aplicava. Desempenhava-se um conjunto diferente de regras. Na minha posição de liderança, iniciei algumas medidas de reforma. A faculdade me concedeu um carro modelo Santana, mas eu pedi às autoridades para vender o automóvel e gastar o dinheiro no hospital. Eu subia em minha bicicleta para trabalhar todos os dias. Aboli o tradicional banquete de funcionários durante os feriados e bani o uso de dinheiro público para comida e bebida. Também reforcei o reembolso das despesas. Todas essas medidas prejudicaram os interesses dos outros líderes; eles ficaram transtornados de ódio e conspiravam contra mim. Foi muito frustrante e deprimente. No início de 1990, nossa faculdade convidou alguns professores e estudantes estrangeiros para lecionar e estudar conosco. Foi por meio deles que segurei uma Bíblia. Estava fazendo um balanço da minha vida na época. Sentia uma frustração imensa com meu trabalho como vice-reitor. A Bíblia me ensinava a permanecer no temor de Deus e a amar, duas qualidades importantes de que o povo chinês carecia. Muitos chineses fazem qualquer coisa por ganhos materiais triviais e não têm consideração pela moralidade, ética ou lei. Como modificar isso? Podemos contar com o Partido Comunista? Podemos confiar nas regras e regulamentos do governo? Aparentemente, não.

Em setembro de 1990, participei de uma reunião de oração num dormitório de estudantes estrangeiros. Foi a primeira vez que orei. Vi vários estudantes chineses ali. Comecei a participar da missa dominical nas casas particulares e, aos poucos, criei o hábito de orar antes de dormir toda noite, refletindo sobre o que eu fizera no dia e como poderia melhorar. No inverno de 1991, passei as férias em Xishuangbana. Por acaso, era Natal. Ao participar de uma celebração de Natal na casa de um cristão, meu coração foi tocado de uma maneira que nunca havia sido tocado antes. Com o apoio de um missionário da Alemanha, fui batizado.

Liao: Você podia ser um cristão e um oficial do governo ao mesmo tempo? Sun: Senti que precisava fazer uma escolha, mas, em grande medida, fizeram a escolha para mim. Um dos estudantes de minha primeira sessão particular de oração me delatou. Em 1997, meu superior apareceu com um formulário de adesão ao Partido Comunista. Ele me disse que, ao me unir ao Partido, eu poderia dissipar os “rumores” de minha associação com o movimento cristão, que eu estivera no sistema por muitos anos e havia me estabelecido na área médica, e que aquilo seria uma concessão menor e muitas portas se abririam para mim.

Disse-lhe que não podia preencher o formulário de adesão. Afirmei: “O que você ouviu não são rumores. É verdade”. Meu superior ficou chocado e fingiu não ter ouvido o que eu disse. “Eu creio em Jesus Cristo”, falei. “Já realizei minha escolha, e esta é a única opção.”

Ele se aborreceu tremendamente. “Você é um oficial comunista. Você desfruta o salário e os benefícios de um oficial comunista e, ainda assim, acredita em Jesus Cristo. O que se pode fazer com Jesus? Ele pode providenciar alimentação e roupas para você?”.

Olhei-o nos olhos e disse, totalmente decidido: “Estou parando por aqui. Preciso salvar minha alma”.

O hospital me desobrigou de todos os meus deveres, e tive de sair da faculdade de medicina. Pouco depois, fui contratado pelo Hospital Jinghong, em Xishuangbana, mas não deu certo. Procurei a Zona Econômica Especial de Shenzhen e, por fim, aterrissei na Tailândia, onde viajei até a bela cidade de Chiang Mai, no norte. Fui recrutado como voluntário por um hospital mantido por uma organização humanitária internacional e fui para uma região montanhosa pobre em Mianmar, devastada pela guerra, doenças epidêmicas e pobreza. Havia plantações de papoula em todo lugar e guerrilheiros empunhando armas que mais pareciam bandoleiros. Ouvi disparos algumas vezes. O “hospital” era um amontoado de barracões com telhados de palha no meio de uma floresta, mas contava com alguns médicos altamente qualificados, muitos deles do Ocidente, que vinham em turnos.

Liao: Como você se comunicava com os pacientes e os colegas médicos? Sun: Muitos dos pacientes falavam chinês. Eu também sabia um pouco de dai e inglês. As condições eram duras, mas, surpreendentemente, tínhamos relações de trabalho amigáveis. Levávamos nosso emprego muito a sério, e não era incomum trabalharmos dias sem interrupção. Aprendi bastante trabalhando ali.

Regressei à China em 1999. Eu possuía credibilidade, mas já não tanta. Meu sobrinho me ajudou a conseguir um emprego como professor adjunto na faculdade de medicina da Universidade de Yunnan.

Liao: Com sua experiência, por que não um hospital governamental importante? Sun: Sou cristão. Achava isso impossível.

Liao: Como a fé podia ser um obstáculo para sua carreira? Sun: Não é isso. Eu não poderia trabalhar ali sem consciência. Digamos que um paciente, torturado pela doença, senta-se a sua frente, olhando para você, esperando que você possa encontrar uma cura para ele. Que tipo de medicamento você deveria prescrever? Muitos remédios produzem o mesmo efeito, mas os preços podem variar bastante. Eu prescreveria o mais barato e mais efetivo. Mas, se continuasse a fazer isso, a farmácia e o hospital se irritariam, pois eu estaria impedindo seus lucros, perturbando o acordo confortável que existe entre as companhias farmacêuticas e os hospitais. Quando se quebra regras ocultas e prejudica-se o interesse coletivo dos hospitais e médicos, você se torna muito malquisto.

Liao: Há um ditado, hoje, na China: “Médicos são como ladrões, corruptos e inescrupulosos”. Sun: Você tem razão. Os médicos deveriam ser capazes de diagnosticar diversos tipos de doenças com facilidade e tratá-las com o tipo certo de medicamento. Deveria ser simples, como empurrar um barco encalhado de volta para a água corrente. A recompensa está em socorrer o paciente. Mas a realidade é completamente diferente na China. Hoje cobram centenas de iuans por uma consulta médica, mesmo para uma pequena indisposição. Em vez de um tratamento baseado em antibióticos ou ervas tradicionais, que custam 10 ou 20 iuans, e que inclui um lucro decente, hospitais querem médicos que cobrem dez vezes isso. É ganância. Como cristão, tenho que dizer a verdade a meus pacientes. Não posso mentir para tirar mais dinheiro deles.

Liao: Assim você foi forçado a se tornar um “médico itinerante”. Sun: Ninguém me forçou a nada. Um dia, esbarrei num antigo aluno meu na igreja. No início, não o reconheci. Lecionei para muitos estudantes na Universidade de Yunnan. Ele me disse que havia crescido nas áreas rurais de Jiaoxi, na comarca de Luquan, na área mais remota das montanhas, junto ao rio Jinsha. A aldeia é afastada, mas seu povo acolhe bem os forasteiros. Todos os aldeões se converteram ao cristianismo. Meu aluno disse que uma mulher na aldeia estava morrendo de uma doença desconhecida. Perguntou se eu estava interessado em fazer uma viagem para lá. Eu fui evasivo, mas ele apareceu em minha porta no dia seguinte, e o acompanhei. Levamos o dia inteiro num ônibus para chegar ao lugar. Era a esposa de um pastor local que se achava doente. Ela estava com câncer de mama; o tumor era tão grande quanto um ovo e precisava de uma cirurgia com urgência. O pastor explicou que levara a esposa a vários hospitais na capital da província, a cidade de Kunming, mas queriam 8 mil iuans [cerca de 2 mil reais] para a operação. Ele recorrera a parentes e companheiros da aldeia, mas tudo que conseguira juntar foram 2 mil iuans [cerca de 500 reais]. Disse ao pastor que faria a cirurgia de graça, que eu havia realizado cirurgias muito mais complicadas que a exigida ali, e que ele precisava confiar em mim. Ele me olhou com descrença, da mesma forma que os aldeões que se ajuntaram em torno de nós. Não tenho certeza de qual das minhas afirmações parecia mais difícil de acreditar.

Queria levar a mulher comigo para Kunming, a fim de usar uma sala de cirurgia adequada, mas ela não queria sair de casa. Naquela noite, ajoelhei e orei. Enquanto orava, um velho programa de televisão americano surgiu em minha mente: uma equipe de médicos divertidos realizando uma cirurgia enquanto contavam piadas, um hospital militar móvel, tendas num campo aberto, a Guerra na Coreia.

Liao: Você deve estar falando da série de televisão M*A*S*H.[7] Assisti a alguns episódios. Sun: Sim. Eu me senti inspirado. No dia seguinte, comprei alguns instrumentos cirúrgicos básicos para complementar o material que carregava comigo, e realizamos a operação no quarto dela. A cama era uma prancha de madeira. Não havia necessidade de mesa. Tudo que tínhamos a fazer era limpar um pouco o quarto e aí poderíamos realizar o procedimento.

Liao: Alguém o ajudou?

Sun: Sim, outro pastor da aldeia. Ele estava com seus 60 anos, um jeito de vovô. O quarto era muito escuro. Mesmo após abrirmos as janelas, ainda estava bem ruim. Amarrei quatro lanternas juntas, e o vovô as segurou como luzes cirúrgicas. O vovô era forte e possuía ótima saúde. Ele permaneceu ali por horas sem se mover, mantendo a iluminação estável. Removi o tumor, o que tomou um bom tempo, mas não me senti nem um pouco cansado. Era uma sensação doce estar ali, com os aldeões pobres, e fazer a obra de Deus, embora eu nunca pensasse ter de realizar uma cirurgia naquelas condições.

Após a cirurgia, a notícia se espalhou mais rápido que o vento, e fui inundado de pedidos de ajuda dos aldeões. Acabei permanecendo mais de uma semana, fazendo inclusive uma caminhada de oito horas a pé de Jiaoxi a Zhaji, na comarca de Wuding. Não havia estrada. Subi morros, cruzei rios. No momento em que chegamos lá, meus sapatos se achavam quase inutilizáveis. Eu era bom em caminhadas, mas aquela viagem foi a mais longa e árdua que já havia feito.

Liao: Conheço a região. Os moradores usam burros para transportar seus produtos, e os animais escorregam e caem em barrancos o tempo todo. Sun: Após a escalada e a caminhada, dormi profundamente e realizei duas cirurgias, uma relacionada a um câncer no queixo e outra a um câncer de pele. Ambas ocorreram sem problemas. Eu havia encontrado meu caminho e minha missão.

A comarca de Yiliang, na região de Shaotong, é uma das mais pobres de Yunnan. As árvores do topo das montanhas foram desmatadas, e as aldeias são espalhadas. Pessoas vivem em casas humildes de palha, com portas semelhantes a entradas de caverna, em que é preciso se inclinar para entrar. Numa aldeia que visitei, as pessoas contavam com dois poços para extrair água, um para os animais e outro para os humanos. Quando a seca atingia a região, os aldeões tinham de carregar água de um rio no pé da montanha.

Eu viajei para lá em diversas missões médicas. Por vezes, não tínhamos água limpa, e eu passava dias sem tomar banho e até sem lavar o rosto. Mas não me importava.

Numa dessas viagens, encontrei um yi mancando com uma muleta rudimentar. Uma das pernas de sua calça pendia vazia, e um lado do rosto estava contraído. Quando perguntei a respeito de sua situação, ele disse que perdera parte da perna num acidente de trânsito. Perguntei se poderia examinar, e ele se sentou. Não sei que canalha realizou a amputação, mas a aparência era horrível. Faltava metade da perna direita, e o osso da coxa projetava-se para fora como uma faca; a carne em torno se deteriorara, e o cheiro era medonho. Disse a ele: “Tenho de corrigir isso, agora, ou você vai morrer”.

Ele me olhou, perplexo no início, mas compreendeu, e as lágrimas correram pelo seu rosto. Eu tinha de amputar o resto da perna se quisesse salvar-lhe a vida. Logo, me vi cercado por uma multidão. Ninguém sabia quem eu era, apenas que viera de Kunming. Mas estavam confiantes e ajudaram a carregar o homem para a casa dele e o deitaram na horizontal em sua cama. Abri minha mochila, esterilizei os instrumentos e a área infectada, injetei a anestesia e removi o tecido gangrenado.

Separei os vasos sanguíneos, costurei-os, como uma avó costura as solas de sapatos, e iniciei a amputação. O processo não tem nada de misterioso. É muito parecido com marcenaria. Você precisa de uma serra, uma lima, um cinzel, um martelo e uma plaina. Carregava comigo uma pequena serra com dentes afiados. O osso da coxa de um adulto é bastante duro; não tanto quanto aço, mas mais duro que madeira. Não é fácil cortar a perna de um homem. Meus braços ficaram dormentes com a vibração da serra, indo e voltando, indo e voltando. O suor escorria pelo rosto. Se estivéssemos num hospital normal, os enfermeiros teriam ajudado, mas tudo que eu tinha eram aldeões destreinados, que aguardavam ali, inocentes. Alisei e arredondei o osso cortado com um martelo e um cinzel e costurei a pele saudável e a carne.

Noutra ocasião, eu viajara para a prefeitura de Rio Vermelho, onde se localiza a famosa Fábrica de Cigarros de Rio Vermelho. Visitei um hospital de leprosos para operar um indivíduo com apendicite. Nenhum dos médicos na região o examinou. Um médico lhe enviou um remédio, mas não compareceu para um diagnóstico. Remoção de apêndice é uma cirurgia relativamente sem importância, e eu sabia que nada poderia me impedir de realizar a operação, embora os pacientes nas enfermarias estivessem surpresos. “Você certamente tem coragem de nos visitar aqui”, diziam. O paciente era um homem de meia-idade; as mãos e os pés pareciam deformados por causa da pele morta e moribunda. Ele estava bastante calmo, nunca reclamava da dor. Uma garota católica da província de Gansou me ajudou com a operação. Sem maiores problemas. Foi um procedimento simples, feito com anestesia local. Após os pontos, o paciente acenou, com apreço, e caminhou lentamente de volta a sua ala.

Falando em lepra, enquanto aguardava o ônibus à beira de uma estrada próxima a Shimenkan certo dia, vi ao longe uma casa de palha meio escondida entre as árvores numa colina. Pensando que pudesse ser a residência de um eremita ou de um sábio, decidi fazer uma visita. O guia parecia assustado e me parou: “Esta é a casa de dois pacientes com lepra”. Impulsionado pela curiosidade, ignorei o aviso do guia e fui até lá. Avistei um casal de idosos cochilando ao sol. Quando os examinei, vi que não exibiam sintoma algum de lepra. Eram pessoas bastante saudáveis.

O velho senhor, Zhang Zhi-en, vivia numa aldeia próxima. Na década de 1970, enquanto desenterrava plantas nas montanhas, deparou com uma cobra, que os locais chamam de cobra ma. Ele a matou com uma enxada. Quando contou a história aos companheiros de aldeia, espalharam rumores de que ele tinha lepra. Segundo o folclore local, contrai-se lepra ao se deparar com uma cobra ma, cujo nome soa semelhante ao da doença. Ele ficou trancado num sanatório local por anos. A ex-esposa, que também fora acusada de ter lepra, foi queimada viva, quando estava acamada devido a outras enfermidades. A velha senhora que conheci naquele dia era a segunda esposa. Uma vida bastante infeliz, a do casal. Ninguém conversava com eles. Parte da casa havia desmoronado, mas eles não possuíam recursos para consertá-la. Contatei a igreja local e doei 2 mil iuans para o projeto de reforma. Colocamos telhas no telhado, e hoje a casa tem uma aparência realmente agradável. Compramos ainda alguns porcos e galinhas para eles criarem. A vida é muito melhor. Ele agora é aceito pelas pessoas na igreja.

Liao: Fale sobre o rapaz, Little Sun, da aldeia de Malutang. Sun: Ele era trabalhador temporário num estaleiro na cidade de Guangzhou, casado, com filhos. A vida lhe parecia ótima até perder a função das pernas. Buscou tratamento em todo lugar. Um professor conhecido na Universidade de Medicina de Zhongshan o examinou, mas apenas balançou a cabeça. Com a progressão da paralisia, a esposa o abandonou. Os colegas de trabalho o enviaram de volta à aldeia natal, onde os pais cuidavam de tudo para ele, da alimentação aos excrementos. Uma situação bastante trágica. A cirurgia não constituía uma solução, nem a medicina ocidental, mas me ocorreu que a acupuntura tradicional pudesse ser a resposta. Eu não possuía treinamento formal em acupuntura. Por isso, tomei lições de um conhecido médico herbal chinês, sr. Liang. Foi uma experiência verdadeiramente divertida e gratificante. Assim que o sr. Liang assinou meu certificado, visitei Little Sun, e ele concordou em tentar o tratamento. Após minha primeira visita, ele disse que as pernas doíam, de modo que podia senti-las. Mantivemos o tratamento. Ao mesmo tempo, prescrevi algumas ervas. Lentamente, ele pôde levantar e hoje pode caminhar sem a bengala. Ele está tendo aulas de medicina comigo e pode cuidar de indisposições comuns.

Liao: Ele abriu uma barbearia no município, onde também faz trabalhos odontológicos. Sun: Eu o apresentei a um dentista visitante dos Estados Unidos. Little Sun recebeu treinamento dele. Disseram-me que é muito bom no que faz.

Liao: Conheci vários de seus alunos.

Sun: Nos últimos oito anos, treinei uns trinta ou quarenta, e agora temos uma rede médica rural elementar. Embora seja importante ter médicos com formação profissional disponíveis, é mais urgente e realista contar com pessoas que possuam algum conhecimento médico básico no local. Nas áreas rurais, quando há uma emergência, leva tempo até um médico aparecer. A vida é realmente difícil para os aldeões nessas regiões montanhosas, a horas do município mais próximo, e mesmo lá os hospitais possuem equipes e equipamentos deficientes. Não há problema se você estiver bem e saudável. Uma vez que um aldeão seja atingido por uma doença repentina, porém, ele se encontra em apuros. Muitos morrem a cada ano do que, na verdade, são doenças e lesões menores.

Liao: Mas a criação e o funcionamento de uma rede rural médica são de responsabilidade do governo.

Sun: O Partido Comunista é corrupto; como podemos confiar neste governo? Algumas instituições beneficentes estrangeiras têm sido de grande ajuda, mas é uma ajuda temporária. Na maioria das vezes, temos de confiar em nossos próprios recursos locais. Em 1999, contatei uma instituição beneficente em Cingapura. Eles enviaram três médicos, um dos Estados Unidos, um de Hong Kong e outro de Cingapura. Visitamos a região. Foi aí que conheci outro sujeito chamado Sun. Ele vive na aldeia Dazhuji, na comarca de Zehei. Ele possuía alguma experiência médica e dirigia uma pequena clínica, mas estava afundado em dívidas, e a clínica estava à beira da falência. A instituição ofereceu ajuda financeira. Mas creio que, mais importante, lhe oferecemos a confiança tão necessária. Disse a ele: “A ajuda externa é certamente boa, mas você não pode confiar nela. Você tem de descobrir um modo de usar os recursos locais. A melhor maneira de fazer isso é explorar as ervas chinesas. Elas estão prontamente disponíveis na região”. No decorrer dos anos, o sr. Sun foi capaz de ajudar os outros e pagar suas dívidas. Hoje ele está bastante bem.

Liao: Encontrei dois médicos sino-americanos em sua casa em Kunming. Eles têm ajudado? Sun: Eles viajaram para as regiões rurais várias vezes e estavam dispostos a contribuir financeiramente. Conheceram o que é a China nas áreas remotas do país. Aconselhei-os a se manter afastados dos oficiais do governo, para que o dinheiro possa beneficiar diretamente os moradores rurais.

Mas tenho de admitir que nossa ajuda é limitada. Muitas vezes, ficamos impotentes diante do sofrimento humano. Numa aldeia remota em Jiaoxi, reuni-me com o líder do vilarejo, que possuía um tumor enorme no pescoço. No início, o tumor era pequeno, e um médico tentou removê-lo, mas não o erradicou. O tumor retornou e cresceu mais e mais. Quando me encontrei com ele, o tumor já havia se espalhado até o ombro esquerdo e a parte traseira da cabeça. Era tão pesado que ele não conseguia manter o equilíbrio quando estava em pé. Era câncer dos gânglios linfáticos e havia avançado ao estágio em que uma cirurgia já não era possível. Tudo que podia fazer era me sentar com ele. Li algo da Bíblia e disse: “Sua vida neste mundo é finita, mas, para Deus, é infinita”. Ele acenou para mim e sorriu. Segurei suas mãos e permaneci com ele em silêncio por uma hora. Morreu no dia seguinte.

Certa vez, fui levado à casa de uma senhora de 50 anos. Ela lutava contra problemas de respiração, um sofrimento enorme. Tinha hemorragia interna, e era tarde demais para qualquer tratamento. Pedi uma bacia de água morna e lavei seu rosto e penteei seu cabelo. No papel de médico, não havia nada que pudesse fazer por ela. Mas, como pessoa, podia lhe restituir alguma dignidade. Sentei-me com ela, segurei-lhe as mãos. Sua respiração era pesada, dolorosa. Senti-me muito triste por ela. Então sussurrei: “Grande irmã, sei que você sofreu muito nesta vida. Não se assuste. Não tenha medo. Isso terá fim. O portão do céu está aberto para você. Seus sofrimentos terminarão ali”. Lágrimas escorreram por seu rosto, o corpo se contraiu algumas vezes, e poucos minutos depois ela partiu. As coisas aconteceram bem rápido.

Agora, deixe-me contar uma história edificante. No verão de 2001, estava viajando na região de Jiaoxi e parei numa aldeia por volta de 3 horas da tarde. Após descansar por uma hora, um funcionário local perguntou se eu poderia ver um homem que estava morrendo de uma doença misteriosa. Foi uma caminhada de duas horas e meia em caminhos lamacentos nas montanhas. Escorreguei e caí diversas vezes. Eram 8 horas quando chegamos. Lembro-me do sol se pondo por trás das colinas. Devia haver cerca de cem aldeões em torno da escura casa de palha do paciente. Um caixão vermelho aguardava no lado de fora, a tampa escancarada. Um tanto assustador. O paciente tossia sangue. Havia manchas de sangue por toda parte. Ele parecia estar no limiar da vida. Os familiares disseram que ele tinha câncer de pulmão e me mostraram seus exames de raios X. O paciente se encontrava bastante lúcido. Apliquei uma injeção para interromper o sangramento e pedi o histórico de sua doença. Após uma análise, obtive a certeza de que aquilo não era câncer, mas tuberculose. Bastante grave, de qualquer modo. Não havia nenhum medicamento de tuberculose comigo. Na manhã seguinte, parti com as duas filhas do paciente para Kunming, chegamos no meio da tarde, e enviei-as de volta com alguns medicamentos e instruções sobre a dosagem correta. Quando liguei três dias depois, o caixão tinha sido removido da porta e a condição do homem vinha melhorando. Um checkup três semanas depois confirmou que ele passava por uma rápida recuperação.

Liao: Você percorre as áreas rurais, providenciando esses serviços às pessoas. Como se sustenta financeiramente? Você cobra as pessoas pelo tratamento? Sun: Nos primeiros dois anos, uma organização eclesiástica nos Estados Unidos providenciou algum apoio financeiro para que eu pudesse realizar meu trabalho assistencial. Desenvolvi uma estreita amizade com uma jovem nessa organização. Mais tarde, o chefe dela mudou de ideia e interrompeu o auxílio financeiro. Mas confio em Deus. Não tenho muitos gastos. O único dinheiro de que preciso é para passagens de ônibus e trem. Quando viajo de aldeia a aldeia, hospedo-me nas casas dos camponeses, que me alimentam com uma tigela de arroz e feijão.

Liao: Mas esse não é de fato um plano de longo prazo. Sun: As pessoas são realmente amáveis. Alguns camponeses insistem em pagar pelo tratamento: 10 ou 20 iuans [cerca de 2 a 5 reais]. Aqueles que requerem tratamento mais complexo oferecem 200 a 300 iuans [cerca de 50 a 75 reais]. Tenho alguns contatos dispostos a permitir que eu pague remédios pelo preço de atacado, e o dinheiro ofertado pelos camponeses cobre esses custos. Nos últimos dois anos, alguns médicos no exterior descobriram minha situação e se interessaram no que faço. Eles contribuem com medicamentos, e os dois médicos sino-americanos alugaram um lugar em Kunming para utilizar quando estão aqui. Eu cuido de seus pacientes quando eles estão nos Estados Unidos.

Liao: Eu estive no consultório deles uma vez. Sun: O lugar pode acomodar seis pessoas por vez. Há médicos suficientes nas grandes cidades. Acho que vou passar o resto da vida neste lugar. É perfeito para mim.

Epílogo

Em 2009, o dr. Sun atraiu a atenção dos oficiais do governo de Yunnan, que o acusaram de nutrir “motivos ocultos” ao tratar os pobres de graça e, posteriormente, proibiram suas missões médicas na província. Entretanto, após Liao publicar a história num site chinês no exterior, o dr. Sun recebeu um convite de uma igreja chinesa nos Estados Unidos para conversar sobre seu trabalho. Ele foi aos Estados Unidos em 2009, mas não obteve permissão para regressar à China. Hoje, reside na Califórnia, tentando aprimorar seu inglês e buscando oportunidades missionárias na África.