Deus é Vermelho
11. O ministro Yi
Capítulo 11
O MINISTRO YI
ma cena reminiscente da era Mao: a cada noite, membros de nossa comuna rural na província de Sichuan se reuniam numa casa com pátio e se sentavam em volta
U de lâmpadas de gás para sessões de estudo político ou de denúncia pública de
senhores de terras e contrarrevolucionários, ou para ouvir os resultados dos rendimentos anuais, ou para discutir a respeito da distribuição de grãos. Após um dia inteiro de trabalho nas lavouras, todos estavam cansados e muitos acabavam cochilando.
A reunião, dessa vez, era diferente; para começar, todos estavam acordados, alertas e ansiosos, até entusiasmados. O motorista que eu contratara como guia disse que assistiríamos à eucaristia, e os líderes eclesiásticos de aldeias num raio de 200 quilômetros estariam presentes. Essa cerimônia, em particular, ocorria uma vez por mês, transferindo-se para uma aldeia diferente em cada ocasião, e pastores e anciãos regressavam a seus lares para entregar a sagrada comunhão às respectivas congregações.
O motorista disse ser uma honra tremenda hospedar uma cerimônia multialdeias. Com tantos vilarejos na região de Sayingpan, muitos tinham de competir pela oportunidade. Quando a vez deles chegava, os anfitriões transformavam a ocasião num imenso festival. Por curiosidade, perguntei por que as cerimônias não eram realizadas dentro de uma capela.
— Vi vários prédios brancos de igrejas no caminho até aqui — observei.
— Os cultos são normalmente realizados em casas particulares — respondeu ele. — Por isso, o anfitrião irá abater porcos e galinhas e preparar um banquete para cada irmão presente na cerimônia.
A comida chegaria amanhã, após as orações matinais. Hoje à noite, seria algo mais formal.
Pessoas começavam a se sentar. Encontrei um canto, distante do palco improvisado defronte a casa. Eu mal havia me sentado quando três pares de mãos se estenderam diante de mim, um deles segurando uma xícara de chá e os outros dois com taças cheias até a borda com doces macios e sementes de melancia preta. Hesitei e, em seguida, aceitei-as com gratidão.
A multidão se adensava, joelhos tocando joelhos, o odor de tabaco e alho pesando no ar. Acima, um céu límpido repleto de estrelas e uma lua crescente. A cerimônia havia aparentemente começado, mas eu não compreendia a linguagem, nem pude ver quem estava falando em meio à selva de cabeças à frente. Pelo que pude perceber, eu era o único han presente. Todos os demais eram yi, um pequeno mas distinto grupo étnico que totalizava cerca de oito milhões de pessoas na China, e eu não estava familiarizado com os costumes de seu clã. Claro, eu podia muito bem me achar na profunda e sombria África, em vez de estar num canto afastado de minha própria comarca. Mas me sentia bastante seguro, embora um tanto só. A voz vinda do palco prosseguiu ininterrupta por cerca de uma hora e meia. Não houve interrupções, nenhum cântico ou salmos.
Deveras constrangido após fotografar o ministro no palco com um flash, escapuli pelo pátio, onde esbarrei no motorista que, enquanto tentava me explicar o que estava sendo dito no palco, parou no meio da frase, me pegou pelo braço e levou-me a um senhor de cabelos grisalhos que havia acabado de sair do banheiro público.
— Este é o reverendo Zhang Mao-en — disse o motorista. — A pessoa que você deseja entrevistar.
Zhang era o clérigo de posição mais elevada na região de Sayingpan; era ele quem presidia a cerimônia.
Trocamos saudações rapidamente, e aproveitei a ocasião para insistir por uma entrevista, que não foi confirmada de imediato. Ele parecia intrigado com o fato de eu estar trabalhando num livro sobre cristãos na China e disse:
— Verei o que posso fazer. É provável que demore um pouco. Tudo bem?
Assenti com a cabeça:
— Sem problema algum. Posso esperar.
— Você não precisa ficar por aí — disse ele. — Você teve um dia longo. Vá se hospedar em minha casa hoje à noite. Podemos conversar de manhã. Às seis? Seu motorista sabe onde moro.
Aceitei a oferta de Zhang. Eram quase duas horas da manhã quando chegamos à casa dele. A esposa de Zhang derramou água quente em duas bacias de madeira, e molhamos nossos pés. Em seguida, guiou-nos com uma lâmpada de óleo até um quarto no segundo andar, onde, exausto, caí ainda vestido na cama dura. Com o som dos latidos de cães, abri meus olhos e vi que já era manhã.
Zhang não se achava presente. Assim, refizemos nosso caminho e o encontramos na casa de um fazendeiro, junto a um fogão numa cozinha escura, com aparência de caverna, na companhia de seu assistente. Quase não dormira. Eles preparavam caixas com tabletes de hóstias em forma de moeda e garrafas de vinho vermelho para os pastores levarem e usarem na celebração da eucaristia.
Sentamos perto do fogão. O assistente, a nova face da igreja, retirou-se para um canto do cômodo fuliginoso, e Zhang fechou os olhos por alguns minutos antes de indicar que estava preparado para minhas perguntas. Era o amanhecer do dia 6 de agosto de 2006.
Liao Yiwu: Quando você se tornou um cristão? Zhang Mao-en: Quando ainda estava dentro do ventre de minha mãe.
Liao: O que você quer dizer?
Zhang: Minha família tem sido cristã há 92 anos. Se meu irmão mais velho, Zhang Run-en, ainda vivesse, ele teria 92 anos. Meu pai se converteu quando Run-en nasceu e o batizaram. Somos uma das primeiras famílias cristãs na província de Yunnan. Uma família yi no outro lado do rio Pudu se tornou cristã ainda mais cedo. No início do século 20, existia intensa atividade comercial na região do rio Pudu, e os pregadores seguiram os mercadores a cavalo e levaram o evangelho a Dega, e, de lá, o evangelho se espalhou para as regiões montanhosas: Shengfa, Zehei, Malutang e Salaowu.
Essas áreas eram, no início da década de 1920, bastante pobres. Não havia escolas antes do aparecimento da igreja. Após o Japão invadir a China em 1937, um missionário australiano fugiu para a região e fundou aqui um seminário. Não sei seu nome inglês, mas o nome chinês era Zhang Erchang. Na época em que nasci, em 1939, havia uma grande quantidade de cristãos: meus pais e irmãos, os pais de meus pais, parentes imediatos ou distantes, meus conterrâneos ricos e pobres. Assim que aprendi a falar, pude memorizar os hinos mais simples. O primeiro livro que meus pais me deram foi a Bíblia. Nas aldeias remotas yi, muitos eram analfabetos, mas só era preciso mencionar uma determinada passagem da Bíblia e os aldeões podiam recitá-la de memória.
Antes da tomada comunista, minha família era considerada abastada. Meu pai era presbítero na igreja. Ele pregava com o reverendo Zhang Erchang. Em casa, administrava os negócios da família. Meu pai foi criado numa família de quatro gerações de agricultores. No tempo de meu pai, os preços da safra haviam caído e quase não se obtinha dinheiro do trabalho agrícola. Começaram, assim, a criar gado, cavalos, porcos e patos. Criavam também abelhas. Para conseguir um preço melhor pelos animais, minha família vendia os porcos e patos para mercados maiores em Jiulong e Zhuanlong. Não existiam caminhões naqueles dias. Meus parentes tinham de guiar os porcos e os patos por todo o caminho. A viagem durava, normalmente, de dez a quinze dias. Nós também colhíamos mel duas vezes por ano e contratávamos carregadores para levá-lo à capital provincial de Kunming. Possuíamos cinquenta colmeias, que eram trabalhosas, mas bastante lucrativas.
Com o dinheiro obtido, meu pai podia doar alimentos e suprimentos para a igreja. Os negócios e a pregação logo se tornaram muito cansativos para ele. Quando eu tinha 4 anos, meu pai morreu e o irmão dele assumiu o controle.
O início da década de 1940 representou uma época de ouro para o cristianismo. Nossa igreja principal se localizava em Salaowu. Tínhamos doze pastores. Havia ramificações em Shengfa, Pufu, Zehei, Malutang, Dasongshu, Jiaoxi e Jiaoping. A congregação em Dega era a segunda maior, depois da igreja principal. Meu tio se tornou um ancião em nossa filial. Ele manteve a posição até a tomada comunista em 1949. Em seguida, todas as atividades religiosas foram banidas.
Meu irmão mais velho e eu nascemos no ano do coelho, mas ele tinha 24 anos a mais. Aos 20 anos, casou-se com uma mulher em Pufu e se mudou com a família da esposa. Seu sogro era um ancião da igreja em Pufu e precisava da ajuda do genro. Meu irmão tinha se formado num colégio cristão local. Era bastante esperto e dedicado. Ele se saía notavelmente bem no mundo dos seres humanos, assim como no mundo de Deus. Foi dirigente da comarca em Pufu e depois assumiu o comando do alistamento militar. Ele usava suas posições dentro do governo local para criar condições favoráveis à propagação do evangelho. Quando a igreja criou o Seminário Teológico do Sudoeste em Salaowu, abriu mão do emprego no governo e se tornou o administrador. Ele selecionava pessoalmente cada professor e se envolvia na aferição e recrutamento dos talentos locais. Ano após ano, doava mais de 100 quilos de cereais para auxiliar os pregadores. Todos os missionários estrangeiros gostavam dele.
Meu irmão também se dedicava a questões sociais. Historicamente, a região se notabilizara pela dependência do ópio, difundido tanto entre ricos quanto pobres. Além disso, o povo yi também se viciara no jogo de azar. Esses dois flagelos resultaram em muitas turbulências
sociais. Ladrões e membros da tríade[9] agiam de maneira desenfreada. Uma dor de cabeça para todo governante no poder. Meu irmão mais velho acreditava firmemente que a fé cristã aperfeiçoava os valores morais das pessoas. A fé ajudaria a expulsar o vício no ópio e nos jogos de azar. Ele promovia ativamente a fé como um modo de purificar os males sociais.
Liao: Seu irmão tinha um futuro promissor... Zhang: Infelizmente, ele faleceu aos 36 anos.
Liao: Morreu de alguma doença?
Zhang: Não. Ele foi executado em 1951, quando eu tinha 12 anos. O falecimento deixou uma memória dolorosa em minha família, mas ele partiu deste mundo com dignidade.
Liao: O que aconteceu?
Zhang: Quando o Movimento da Reforma Agrária teve início, escolheram nossa família como alvo principal. A família de meu irmão mais velho foi classificada latifundiária. Meu irmão e seu sogro, o ancião local, foram trancados numa prisão da comarca. Foram torturados. Meu irmão havia servido ao governo nacionalista derrotado, mas tinha ficha limpa. Era bastante querido pelo pessoal daqui. Assim, quando o novo governo comunista enviou equipes de trabalho para diferentes aldeias e mobilizou o povo, repetidamente, a tomar posição e rejeitar meu irmão, ninguém se dispôs a agir abertamente. Na década de 1950, houve um grande impulso para execução de membros da tríade e latifundiários malévolos. Meu irmão foi poupado, no início. Mas o governo não o deixaria em paz. Em 1951, lançaram-no na cadeia da comarca de Luquan, e, sob pressão governamental, os oficiais da aldeia, outrora pobres e desabrigados, concordaram em “acertar contas” com meu irmão.
Não tínhamos permissão para visitá-lo; não sabíamos o que fazer para defendê-lo. Descobri mais tarde que, embora acusado de criminoso, nunca apresentaram detalhes do que ele havia feito. Eles precisavam de algo para justificar o motivo de trancafiarem-no por tanto tempo. Soube que um líder da equipe de trabalho leu as acusações forjadas por um dirigente local, mas, quando o primeiro pediu detalhes, o dirigente da aldeia não pôde responder e, ao sentir que a questão prejudicava seu prestígio, gritou contra o líder da equipe de trabalho. Como não existiam provas suficientes, outro oficial da aldeia sugeriu que meu irmão fosse poupado da pena de morte, mas um oficial em nível regional preocupou-se que o poupassem, o caso de meu irmão poderia abrir um precedente ruim e reduziria o entusiasmo das massas. Nesse período, para tornar-se candidato potencial à liderança da aldeia, bastava gritar o mais alto possível nas sessões de denúncia pública e ser impiedoso com os “os inimigos da classe”.
Você é jovem demais para entender como funcionava. Recebíamos tratamento pior que o dispensado aos animais. Pessoas nos torturavam sempre que sentiam vontade. Durante o auge da campanha, as equipes de trabalho do governo incentivavam o sentimento de ódio. Até os mais gentis e amáveis camponeses começaram a brandir seus punhos e nos estapear ou desferir pontapés. Perto do final, os camponeses revolucionários não precisavam de razões para matar um latifundiário. Nas sessões de denúncia pública, o povo se deixava levar por suas emoções e arrastavam alguém para o local e atiravam nele. Bang-bang, e o sujeito partia para sempre. Ninguém questionava ou assumia a responsabilidade por essa prática impiedosa. A maior parte dos membros das equipes de trabalho vinha das cidades. Eles não estavam cientes do que acontecia em nível local. O presidente Mao dizia que as autoridades deveriam escutar a voz do povo. E os membros das equipes de trabalho não ousavam ignorar a voz popular. Assim que sofriam a lavagem cerebral da ideologia comunista e a propaganda de Mao, o modo de pensar do povo se tornava caótico. Toda a humanidade se perdia. No auge, até a equipe de trabalho encontrava dificuldade para refrear o fanatismo.
Deixe-me explicar. Nesta região, era raro encontrar alguém que não fosse viciado em ópio ou jogos de azar. Somente quem houvesse abraçado Deus possuía a energia necessária para se livrar de seus hábitos. Lembro-me que, quando criança, as pessoas na região não trabalhavam na lavoura. Em vez disso, criavam papoulas. Costumávamos correr em volta dos campos de papoula para caçar borboletas. As pessoas também apostavam pesado. Esse era um fenômeno muito estranho. A riqueza das pessoas passava de mão em mão, com uma velocidade espantosa. No entardecer, o sujeito podia ser um fazendeiro rico. À noite, ele estava desabrigado após ter apostado tudo: o terreno, a casa, até a esposa.
Quando apareceram, os comunistas baniram o fumo de ópio e os jogos de azar, e baniram o cristianismo. Além do trabalho nos campos, não havia muito que fazer à noite. As campanhas políticas se transformaram numa espécie de entretenimento. Dedicava-se toda energia extra para espancar pessoas, matá-las e confiscar a propriedade alheia. Os jogadores e os viciados sem teto de repente se tornaram aliados leais da revolução. Eles não tinham de pagar suas dívidas; as apostas e o consumo da droga, a pobreza, a prática de penhorar as esposas e os filhos para sustentar o vício, o desalojamento, tudo era culpa dos latifundiários exploradores dos revolucionários pobres. A pobreza se converteu em símbolo de honra, e os filhos dos pobres se tornaram a descendência do verdadeiro proletariado. Sentiam-se superiores aos demais e se alimentavam e se vestiam bem. Não precisavam sequer assumir responsabilidades quando matavam alguém nas sessões de denúncia pública. Algo mais divertido que fumar ópio e jogar, não acha?
Liao: Na era Mao, as pessoas se tornaram os verdadeiros senhores da nação. É o que dizemos.
Zhang: Talvez as políticas do Partido Comunista fossem bem-intencionadas, mas as pessoas que as implantaram tomaram uma série de liberdades e as interpretaram a sua própria maneira. Matanças aleatórias eram bastante liberadas. Meu irmão mais velho sabia que não iria sobreviver.
Liao: Onde você estava quando seu irmão foi morto? Zhang: Depois que meu irmão foi preso, ninguém, nem mesmo a esposa e os filhos, conhecia seu paradeiro. Dois dias antes da execução, minha família foi informada de que meu irmão seria transferido de uma prisão na comarca de Luquan para Sayingpan, devido a uma sessão de condenação, e, em seguida, para outra prisão no distrito de Shengfa. Depois disso, ele seria enviado de volta a Pufu para ser executado. Se quiséssemos vê-lo pela última vez, tínhamos de nos levantar à meia-noite, caminhar 20 quilômetros a um lugar entre Sayingpan e Shengfa e esperar na margem de uma estrada. Assim agimos. Na noite anterior da partida de minha mãe, nós nos sentamos juntos e choramos. Tentávamos manter a voz baixa para que os vizinhos não nos ouvissem. Minha mãe abateu um frango e o cozinhou com arroz e saiu de casa com meu segundo irmão mais velho e minha irmã mais velha. Ela não permitiu que eu os acompanhasse, por medo de que pudesse ser traumático demais para mim. Eu tinha 13 anos. Perguntei se meu irmão havia comido o frango. Minha mãe, de olhos vermelhos, fez que sim com a cabeça. Com o passar dos anos, minha mãe me contou sobre esse último encontro.
Eles aguardaram no local designado por cerca de três horas. O caminhão que trazia meu irmão parou, e ele desceu. Minha mãe implorou aos milicianos que tirassem as algemas para que ele pudesse comer sua última refeição. Eles tiraram. Meu irmão comeu o frango e a sopa. Quando terminou de comer, sussurrou para minha mãe:
“Eu partirei em breve. Não se entristeça. Eu não temo a morte. Quando me trancafiaram na cadeia, eu carregava uma Bíblia em miniatura e a trouxe comigo às escondidas. Eu estive orando em meu coração. Sei que não poderei escapar da morte. As pessoas na região me acusaram de muitos crimes, embora nem mesmo me conheçam. Sou inocente, e as acusações são falsas. Não admitirei culpa. Mas também não irei recorrer. Sei que é inútil. Eles me enviarão de volta a Pufu para me matar. Estou contente por voltar a Pufu. Tenho minha Bíblia comigo. Serei enterrado no local onde eu trabalhava e pregava. Mãe, todos nós vamos morrer um dia. Não desanime por minha morte. Prossiga com sua fé”.
No dia da execução, os milicianos apareceram e disseram a minha cunhada: “Vamos executar seu homem. Traga alguma comida gostosa”.
Como fizera minha mãe, a esposa de meu irmão preparou um frango cozido e um pouco de arroz. Ele comeu tudo. Ela soluçava. Meu irmão enxugava suas lágrimas e lhe dizia que seguisse as palavras do “líder”. Pediu-lhe que se concentrasse nas crianças e não se incomodasse com as provocações e os insultos.
Nós sabíamos exatamente o que significava a palavra “líder”. Ele não queria comprometer a esposa na frente dos guardas. Minha cunhada compreendeu. Ela parou de chorar. Eles o levaram. Após uma sessão final de condenação pública, os milicianos atiraram nele na beira da estrada e despejaram o corpo na cova rasa de um barranco. Cerca de dez meses depois, fomos notificados de que poderíamos recolher o corpo. Sabe o motivo? O barranco se localizava bem perto da estrada principal, e o cadáver exposto de meu irmão assustava as pessoas. A liderança do condado decidiu que nossa família devia levar o corpo do contrarrevolucionário para que ninguém tivesse de olhar para ele.
O cadáver em decomposição parecia uma árvore caída presa num córrego. Meu segundo irmão mais velho e minha mãe desceram até a água para trazê-lo para cima, e o corpo se quebrou em pedaços. Recolhemos e lavamos os ossos e os colocamos dentro de uma caixa que trouxemos conosco.
Entrelaçada no meio das roupas apodrecidas, minha mãe encontrou a pequena Bíblia. Tinha cerca de dois centímetros de espessura, não maior que a palma da minha mão. Embora a carne e as roupas tivessem apodrecido após dez meses na água no fundo de um barranco, a Bíblia sobreviveu. Todos nós paramos o que estávamos fazendo e começamos a orar, não uma oração formal, mas orações silenciosas de agradecimento. Deus havia permanecido com ele por todos aqueles meses. Sabíamos que sua alma se encontrava no paraíso.
Liao: Como estava a aparência da Bíblia? Zhang: Estava encadernada com couro e barbantes. Algumas páginas tinham se grudado, algumas palavras estavam borradas, e havia manchas de sangue. Nós a conservamos por muitos anos. Com uma campanha política atrás da outra, porém, já era difícil o bastante preservar nossa vida, e a Bíblia constituía uma “evidência contrarrevolucionária”. Durante a Revolução Cultural, minha mãe a queimou. Ela não teve escolha.
Tivemos sorte por não nos prenderem como a meu irmão mais velho, mas nos expulsaram de casa. Minha mãe, meu segundo irmão mais velho e eu fomos classificados como proprietários de terra.
Minha irmã se casara com um homem na região de Jiaoxi, e eles também eram da classe de proprietários. Meu tio, um ancião da igreja, foi rotulado latifundiário contrarrevolucionário. Toda a família estava em apuros. Ficamos desabrigados e vivíamos em estábulos. Diversas vezes, quando me encontrava com os filhos dos camponeses nas ruas, acusavam-me de usar boas roupas e me faziam tirá-las. Não possuíamos o suficiente para comer e éramos, com frequência, alvo de sessões de condenação.
Caso estivessem mal-humorados, os oficiais da aldeia nos insultavam ao nos encontrar nas ruas, ou então nos agrediam. Se estivessem de bom humor, mandavam-nos trabalhar na lavoura para realizar o trabalho deles, mesmo com nosso estado de fraqueza por causa da fome. Éramos alvo de perseguição a cada nova campanha. Meu tio passou por trezentas sessões de condenação pública. Sua saúde se deteriorou rapidamente. Morreu em 1958. Tuberculose.
Em 1953, reclassificaram minha mãe. Rebaixaram-nos de proprietários para camponeses ricos, e pudemos reaver uma pequena porção de terra e nossa casa, que fora apreendida pela aldeia.
Meu segundo irmão mais velho — doze anos mais velho que eu — possuía problemas de audição. Ele era um cristão devoto. Manteve suas orações por toda a década de 1950, quando minha família sofria nas mãos das equipes de trabalho. Um dia, viram-no de joelhos orando e delataram o fato à equipe de trabalho. Ordenaram que ele dissesse que a crença em Deus era superstição e contrarrevolucionária. Ele recusou renunciar a sua fé. Em vez disso, fechou os olhos e continuou orando. Amarraram suas mãos e seus pés e o penduraram numa árvore por vários dias. Quando o desceram, ele se ajoelhou novamente, orando para que Deus perdoasse seus algozes. Sua saúde declinou. Ele contraiu tuberculose. Mas persistiu. Antes da morte, em 1999, ele viajou por toda a região, orando e ajudando os pobres e enfermos.
Nos últimos anos da Revolução Cultural, fui preso três vezes por pregar secretamente o evangelho. Sofri, mas sobrevivi. Em 1979, o governo suavizou o controle sobre a religião. De 1979 a 2003, servi como ancião da igreja. Depois, fui ordenado ministro na região de Sayingpan. Sou o primeiro ministro ordenado na família. Como ocorreu com meu irmão, também sofro de tuberculose e uso todo tipo de medicamento. Nenhum que tenha ajudado muito. Meu segundo irmão morreu aos 72 anos. Tenho 68 anos. Não sei o que Deus planejou para mim, mas, enquanto for capaz, quero tentar fazer mais. Como você pôde ver na noite passada, mais e mais moradores estão seguindo Jesus. Isso me encoraja.