Deus é Vermelho
10. O ancião da Igreja ⠀㈀)
Capítulo 10
O ANCIÃO DA IGREJA (2)
o último dia de 2005, o dr. Sun e eu saímos da comarca de Luquan, em Yunnan, e embarcamos num ônibus para a comarca de Zehei. Um pesado nevoeiro havia
N acabado de se levantar, e a vegetação exuberante da serra refrescava a visão.
Nosso ônibus percorreu uma estrada estreita e sinuosa montanha acima, o tipo de estrada que vagueia entre ravinas profundas e penhascos íngremes. O dr. Sun disse que um ônibus carregado com vinte passageiros, malas e animais deslizara num desfiladeiro poucas semanas antes.
À distância, um ponto vermelho brilhante podia ser visto numa dobra rochosa da montanha Jiaozi, o pico coberto pela neve. Ao nos aproximarmos, o ponto se revelou uma cruz, uma cruz cristã, fixada no topo de uma imponente igreja branca de cinco andares sobre uma deprimente cidadezinha na comarca de Zehei.
“Muitos yi e miao vivem aqui”, disse o dr. Sun, enquanto andávamos pelas ruas vazias, observados por moradores sentados ou em pé sob o beiral de casinhas aparentemente idênticas. “Muitos deles são seguidores de Jesus.”
O dr. Sun me levou a uma das duas lojas no térreo da igreja — uma farmácia que ele ajudou a montar para servir aos moradores — e usou o telefone. Poucos minutos depois, uma moto roncou em nossa direção, e seu condutor, um jovem de pele queimada pelo sol, ajuntou as malas no banco de trás, e o seguimos até a parte alta da aldeia. O dr. Sun explicou que o centro da aldeia consistia, na maior parte, de lojas e pequenos comércios. A maioria dos moradores vivia nas partes altas e baixas da aldeia, que se estendiam até os campos agrícolas.
Caminhamos por trilhas de terra vermelha. Sobre um muro velho, rabiscada com uma tinta vermelha agora desbotada, a frase: “Todos os grupos étnicos são tratados igualmente”. Disseram ser um slogan da década de 1930, pintado durante uma passagem do exército comunista, que fugia das tropas nacionalistas. Entramos num pátio, e ali um casal de idosos, sorrisos se espalhando pela face enrugada, nos saudou. O homem era o mais respeitado ancião cristão na comarca de Zehei, Zhang Yingrong, e a mulher, sua esposa, Li Guizhi.
Zhang Yingrong: Nasci em 1922, embora não saiba a data exata, pois perdi minha mãe quando tinha 5 anos e meu pai não conseguia se lembrar. Ele era um ancião da igreja e devotou a vida a Deus. Tornei-me cristão ainda jovem, mas não entendia de verdade o que isso significava; lia a Bíblia porque meus pais queriam. Mas, aos 16 anos, dois cristãos estrangeiros vieram pregar na região. Participei de um culto e, com meus amigos, integrei um acampamento de estudos de três semanas. Meu coração foi tocado. Confessei meus pecados passados ao Senhor e me converti à fé cristã. Minha igreja em Salaowu me recomendou a uma escola bíblica frequentada por estudantes de todos os grupos étnicos da região: os han, os yi, os li, os gan e os dai. Estudei três anos ali.
Liao Yiwu: Visitamos o local do Seminário de Teologia do Sudoeste, fundado por dois missionários que morreram há mais de meio século. Você os conhecia? Zhang: Sim. O homem veio da Austrália. Ele tinha uns 50 anos na época. Seu nome chinês era Zhang Erchang. A esposa era canadense. Não consigo lembrar o nome dela agora. O reverendo Zheng Kaiyuan, da Grã-Bretanha, foi o outro fundador. Ele administrava uma escola religiosa na província de Sichuan. Depois que o Japão invadiu o norte da China, ele aproximou-se de Yunnan e ajudou a fundar o seminário. Meses depois, transferiram o seminário para Salaowu. Após me formar na escola bíblica, estive no primeiro grupo de estudantes a cursar o seminário. Durante as férias de verão, acompanhava meus professores pelas redondezas para aprender a pregar.
Nossa comarca era remota e atrasada, bastante diversa etnicamente. Naquele tempo, havia apenas trilhas nas montanhas e usávamos cavalos, burros e as pernas humanas para nos locomover. Viajar a Kunming levava vinte dias; hoje, é possível fazer o trajeto de ônibus em dez horas.
Eu queria permanecer em Yunnan, mas, poucos dias antes da formatura, o seminário recebeu uma carta de um pregador da comarca de Zhaojue, na província de Sichuan. Era um médico de Londres, que planejava montar uma escola de medicina ali, mas só sabia falar mandarim, e a comarca se localizava no centro da região yi. A linguagem e a cultura yi eram bastante desafiadoras para o médico britânico.
O seminário me enviou, junto a outro estudante yi. Nós dois trabalhamos como intérpretes e ensinamos o médico a falar yi. Regressei para casa no Natal de 1950.
Liao: A China então estava sob o comunismo. Zhang: Pouco antes do Natal de 1949, a província de Yunnan foi tomada pelos comunistas. No entanto, Zhaojue estava sob o domínio dos nacionalistas. Como cristão, eu não prestava muita atenção à política. Não importava quem governasse a China, as pessoas precisavam da orientação do evangelho. No final de 1950, o Partido Comunista estava ocupado demais com a mudança de regime para se preocupar com religião. Eles tinham acabado de iniciar o Movimento da Reforma Agrária e precisavam lidar com rebeliões armadas dos senhores de terra e das sociedades secretas locais. Eu tinha 30 anos e era casado. Infelizmente, minha família foi classificada como latifundiária.
Liao: Sua família era rica?
Zhang: Minha família tinha cinco rapazes e duas garotas. Eu era o segundo filho. Meu irmão mais velho era o chefe da comarca sob o governo nacionalista, mas não possuía muitos terrenos. Eu, como seminarista, não possuía nada em meu nome.
Liao: Como vocês obtiveram a classificação de latifundiários? Zhang: Foram diversas razões. Naqueles dias, não havia tantos cristãos na comarca. A maior parte dos cristãos entre nós herdou dos pais a fé cristã. Nossa família se sobressaía. Segundo, o seminário me enviou à comarca de Zhajoue, que estava sob o comando do exército nacionalista. Os comunistas suspeitavam que houvessem me enviado numa missão secreta para os imperialistas estrangeiros. Terceiro, o passado de meu irmão mais velho comprometia a família inteira.
Liao: O que aconteceu em seguida?
Zhang: Quando o Movimento da Reforma Agrária teve início, eu ainda vivia no seminário. Assim que minha família foi classificada, arrastaram-me de volta para a aldeia e me trancaram com dezenas de outros “latifundiários”. No início, o trabalho do Partido Comunista local era confiscar e distribuir terrenos e outros bens. Não usavam tanta violência. Muitas famílias abastadas enterravam roupas e alimentos, pensando que poderiam desenterrá-los depois que a campanha tivesse fim. Mas a campanha se tornou mais e mais violenta. Os alimentos e as roupas enterradas foram encontrados, e esses proprietários foram severamente punidos. Quando me pediram dinheiro, eu podia dizer com honestidade que não possuía nenhum. Quando tentaram confiscar meus bens, eu não podia oferecer nada a eles. Eles procuraram por toda parte. Ficaram injuriados. Eles foram ao seminário e trouxeram meus pertences, que se resumiam a um cobertor. Eu não possuía sequer lençóis. Os oficiais se irritaram de verdade e me xingaram sem parar. Como podia um latifundiário ser tão pobre? Eles não acreditaram em mim. Fizeram-me ajoelhar no chão por três dias e três noites. Os milicianos locais me vigiavam com bastões enormes, e cada vez que eu adormecia, eles batiam em mim.
Liao: Colocaram você numa cadeia?
Zhang: Não, era uma prisão ao ar livre. Eles quebraram algumas telhas e tijolos, colocando-os sob meus joelhos. Chovia o tempo todo. Eu ficava encharcado e tremendo de frio, ajoelhado numa poça que subia até minhas coxas. Fechava os olhos e orava.
Eu não era o único ajoelhado no terreiro. Havia mais de dez na mesma situação. Éramos forçados a confessar nossos “crimes”. Supostamente, eu deveria dizer o que havia feito na província de Sichuan, o motivo oculto de minha viagem. Teria eu tentado contatar o exército nacionalista ali? Antes que o governo revertesse o veredicto contra mim no final da década de 1970, eu havia escrito centenas de confissões.
[Zhang para de falar, ou muito cansado ou sem vontade de continuar sua história. A esposa prossegue.]
Li Guizhi: Após levarem meu marido, passei a viver com meus pais em Salaowu. Como minha família não possuía terras e meus pais não tinham conexões com o governo nacionalista ou a igreja, não fomos afetados; estávamos classificados entre as massas revolucionárias. Tudo que me restava fazer era chorar o dia inteiro. Um dia, alguém me parou e disse que meu marido estava morrendo. Fiquei desesperada e corri para Zehei, que se localizava a uns 45 quilômetros de distância. Eu o vi ajoelhado na chuva, como um fantasma. Agachei-me diante dele, mas ele não me reconheceu. Temi que sua alma tivesse partido. Após chamá-lo pelo nome algumas vezes, ele começou a responder. Eu havia levado batatas cozidas e o alimentei. Um dos milicianos apareceu e gritou conosco. Eu o ignorei e continuei a alimentar meu marido. O sujeito nos acertou com o bastão. Uma batata caiu no chão. Ele estivera ajoelhado por três dias e três noites sem comida. Percebi que não havia nada que pudesse fazer naquele lugar infernal. Eles me expulsaram. Quando voltei para a aldeia, minha casa estava vigiada por membros da Associação dos Camponeses Pobres. Não me permitiram mais sair de casa.
No final da campanha, meu marido se arrastou de volta para casa. Na noite do regresso, eu não tinha conseguido dormir e, pouco antes do amanhecer, ouvi ruídos estranhos de raspões do lado de fora. Quando abri a porta, havia uma pessoa coberta de lama a meus pés, as mãos estendidas para minhas pernas. Meu marido. Ele nem sequer tinha força para gemer. Puxei-o para dentro, envolvi-o num cobertor. Horas depois, a milícia local apareceu. Queriam arrastá-lo a uma sessão de denúncia pública. Quando os milicianos perceberam que ele não podia se mover, encontraram uma prancha de madeira e o levaram para fora, colocaram-no sobre a plataforma, e o forçaram a abrir os olhos.
Zhang: Havia cerca de três a quatro mil pessoas presentes. Eu não conseguia me mover. Havia outros dez na plataforma para a denúncia, todos amarrados com cordas. Meu irmão mais velho estava ao meu lado, os braços seguros por dois milicianos atrás de si, o corpo curvado num ângulo de 90 graus. Eu, deitado na prancha de madeira, olhando para cima. A chuva tinha parado. Em meio ao barulho dos gritos, eu podia ouvir o rio nas proximidades. As nuvens haviam se dispersado, e um azul límpido compunha o céu. Pensei: “As pessoas viveram em harmonia sob este mesmo céu, na mesma aldeia, por muitos anos. Por que agem desse modo agora? Por que se odeiam e se torturam assim? Então era isso a revolução comunista?”. Todas os “inimigos da classe” foram espancados. Os rostos estavam inchados, e as cabeças possuíam cicatrizes. As surras já não saciavam a sede. Eles começaram a matar. Depois daquela sessão, todos os antigos oficiais do antigo regime foram executados, incluindo meu irmão; os filhos deles foram condenados a dez ou vinte anos na cadeia, onde alguns enlouqueceram e outros morreram.
Eu não tinha envolvimento algum com política. Nunca havia explorado ninguém. Permitiram, portanto, que eu vivesse. A tortura me deixou aleijado pelo resto da vida. Fui obrigado a trabalhar sob a supervisão das massas revolucionárias. Não me era permitido pregar, obviamente. Em 1958, durante o Grande Salto Adiante, enviaram-me a um campo de trabalhos forçados. Na época, nossa comuna estava construindo uma barragem. Meu trabalho era escavar na lama. Depois disso, fui designado para um grupo diferente de reeducação e trabalhei num local de queima de carvão por dez meses. Nosso grupo tinha cerca de 250 membros; em um mês, um terço havia adoecido por falta de comida. Comíamos um mingau pastoso de arroz todo dia e não tínhamos força para o trabalho pesado. Eu não era mais um sujeito forte.
Isso aconteceu no verão de 1959, um ano de fome generalizada. Nós nos alimentávamos com qualquer coisa: casca de árvore, grama e folhas, coisas que os animais nem sequer tocavam. Muitos morreram por intoxicação alimentar. Um dia, três do meu grupo caíram mortos à beira da estrada. Andarilhos arrancaram suas roupas. Os dentes e a língua saltados para fora, como se ainda estivessem famintos. Tivemos de enterrar os corpos na maior profundidade possível, ou seriam desenterrados. As pessoas estavam desesperadas por qualquer coisa.
[Zhang interrompe a conversa para descansar.]
Li Guizhi: Quando o levaram para o campo de trabalhos forçados, nossa filha mais velha tinha apenas 3 meses. Ela chorava de fome o dia todo. Oito meses depois, ela morreu, e eu estava lamentando a perda quando meu primo me trouxe uma mensagem: “Seu marido está morrendo de inanição. É melhor você ir salvá-lo”. Se ele morresse, não creio que eu seria capaz de continuar vivendo. Assim, na manhã seguinte, antes do amanhecer, aguardei o dirigente da aldeia na entrada da casa dele. Quando acordou, entrei e me ajoelhei a sua frente, implorando que me fornecesse alguns cereais para que eu pudesse levar alguma comida para meu marido. Ele me deu 5 quilos e 3 iuans para a passagem de ônibus até o campo. Havia corpos por toda parte. Num minuto, você via alguém em pé na frente do forno de queimar carvão; no minuto seguinte, você se virava e a pessoa estava caída no chão, morta. Meu marido não estava no dormitório; então ofereci a alguém um pouco da comida que havia trazido comigo e pedi que me ajudasse a procurar. Encontrei-o enrolado numa pilha de grama apodrecida. Tive de chamar seu nome diversas vezes e sacudi-lo antes que abrisse os olhos. Ele devorou um pouco da comida e sentiu força suficiente para se levantar. Antes que eu fosse embora, ele escondeu o resto da comida num lugar secreto. No outono de 1959, o campo foi dissolvido, e ele retornou para casa. Pouco depois, ficou paralisado. Ele teve reumatismo. Durante três meses, não conseguia se mover. Como não podia trabalhar na lavoura, nossa ração foi reduzida, e a doença se agravou. Implorei novamente ao dirigente da aldeia que nos fornecesse mais comida. O dirigente discutiu o caso com outros oficiais da aldeia, e, por fim, nos concederam um pouco de trigo, que eu usava num mingau misturado com plantas silvestres para alimentá-lo a cada dia. Uma luta diária.
Certo dia, um médico herbal passou pela aldeia e soube da doença de meu marido. Ele me orientou a cavar um buraco no quintal e enchê-lo com folhas secas de amoreira. Em seguida, queimamos as folhas e colocamos meu marido agachado sobre elas. A fumaça chamuscou a pele dele por um dia inteiro, do nascer ao pôr do sol. A umidade em seu corpo vazou gradualmente. No dia seguinte, enchemos o buraco com folhas secas de pinheiro e fizemos a mesma coisa. E, quer saber? O remédio de fato funcionou. Em pouco tempo, ele conseguiu se levantar, embora somente por alguns minutos. Depois, um amigo nos presenteou com uma garrafa de pó branco de Yunnan, que era eficaz contra reumatismo. Era muito difícil obter esse remédio na época. Graças a Deus, ele concluiu as dosagens e se recuperou aos poucos. Ele ainda não consegue realizar o trabalho pesado na lavoura, mas pode se movimentar sem problemas.
Zhang: Também aprendi a sobreviver. Quando precisavam de mim para sessões de denúncia pública, estava presente na hora. Antes que me forçassem, eu me curvava por conta própria. Sobrevivi às campanhas das “Quatro Modernizações” e da “Educação Socialista”. A campanha mais horrível foi a Revolução Cultural. Só me restava um dente na boca. Os guardas vermelhos o arrancaram.
Liao: O que aconteceu após o fim da Revolução Cultural? Zhang: Antes de 1982, ninguém se atrevia a adorar a Deus em público. Caso nos apanhassem, teríamos de enfrentar as mesmas sessões de denúncia pública. De forma gradual, o cristianismo se difundiu secretamente entre as aldeias. Nos últimos dois anos, a política se afrouxou e houve um renascimento. As pessoas afluíam aos bandos para Deus, aldeia após aldeia. Antigamente, as pessoas eram adeptas fervorosas do comunismo. Ninguém acredita nisso hoje em dia. Até alguns membros do Partido Comunista aparecem para adorar a Deus e confessar seus pecados. Alguns chegaram a doar dinheiro para ajudar na reforma da igreja. Enfrentei, no passado, toda espécie de sofrimentos. Cada vez que me encontrava mergulhado em desespero, eu orava e buscava a orientação do Senhor. Atravessei cinquenta anos de dor.
No decorrer da vida, passei por quatro testes. O primeiro aconteceu quando eu tinha 8 anos. Eu pastoreava cabras num dia quente de outono e adormeci. Quando acordei, todas as cabras haviam fugido. Preocupado com a repreensão de meu pai, comecei a me lastimar e atraí dois lobos, que se achavam bem atrás de mim, prontos para me arrebatarem. Não percebi que estavam atrás de mim. Eu apenas continuei chorando. Os lobos são animais ferozes, mas desconfiados. Creio que meu choro incessante os confundiu. Eles permaneceram ali. Aí meu pai chegou; ele sabia lidar com lobos. Cobriu a boca com as mãos e uivou. Em seguida, os cães pastores ouviram o uivo e começaram a latir. Os lobos ficaram amedrontados e fugiram. Naquela noite, encontramos as cabras desgarradas. Quando ouvem essa história, as pessoas acreditam que fui protegido por Deus.
Quando tinha 17 anos, adquiri varíola sem me dar conta. No caminho para casa certo dia, senti meu corpo febril, era como se diversos brotos de feijão germinassem dos meus poros. Encontrei um pequeno riacho e me rastejei para beber a água dali. Logo, desmaiei. Quando acordei, notei as manchas vermelhas surgindo como vermes no rosto e no corpo. Durante um dia e meio, alternei entre a consciência e a inconsciência. Então um cachorro me encontrou e começou a latir, atraindo a atenção de viajantes, que me levaram à casa de um médico. Se Deus não estivesse comigo, o cão não teria me encontrado.
Depois, sobrevivi aos brutais espancamentos e me recuperei do reumatismo durante o Movimento da Reforma Agrária, e minha esposa salvou minha vida quando eu estava morrendo no campo de trabalhos forçados em 1959.
Liao: Você tem uma boa esposa.
Zhang: Quando se casou comigo, ela estava com apenas 17 anos, uma menina bonita. Cresceu numa família pobre. Naqueles dias, ela podia escolher o homem que desejasse. Eu a conheci quando meu irmão e eu íamos pregar em sua aldeia. Pedi a ajuda de uma casamenteira. Por sorte, ela disse sim. Minha esposa sofreu demais por minha causa. No momento, estou razoavelmente saudável, mas ela está doente há mais de sete anos, com reumatismo e câncer. Não há esperança de cura. Ainda que seja incapaz de ajudá-la e de partilhar seu sofrimento, espero que ela possa ser confortada pelo amor de Deus. Sem minha esposa, eu estaria morto há muito tempo. Neste momento, ela está cada vez mais fraca. Eu também estou envelhecendo. Não posso tomar parte da dor dela. Este é, provavelmente, nosso último obstáculo na vida.
Epílogo
O ancião Zhang morreu tranquilamente em casa no ano de 2007, no dia do Festival da Lua,[8] tradicional celebração asiática. Ele tinha 85 anos.