Deus é Vermelho
4. O ancião da Igreja ⠀)
Capítulo 4
O ANCIÃO DA IGREJA (1)
o decorrer da minha pesquisa, deparei com um exemplar de The History of Christianity in Dali [A história do cristianismo em Dali], de Wu Yongsheng, que
N descreve o trabalho dos primeiros missionários no sudoeste da China. Eu estava
determinado a conversar com o autor a respeito da difusão da religião cristã no passado e atualmente.
A Igreja da Cidade Velha, construída em 1870, ocupa mais de 300 metros quadrados e é arquitetonicamente mista: o residencial da etnia bai encontra o gótico europeu. A fachada é de pedra, e uma cruz pintada em vermelho se põe em destaque no alto de uma torre de telhado tradicional chinês, semelhante a uma águia prestes a voar. As antigas casas de pátio e as edificações bai nas imediações são diminuídas pela presença da igreja.
A capela se achava vazia quando a visitei, na tarde de 11 de agosto de 2009, com meu amigo monge Ze Yu. Ao chegar, viramos numa pequena e tranquila travessa perto da capela. Com base no endereço fornecido pelo pessoal da igreja, batemos na porta de uma pequena casa com pátio. Uma senhora idosa, de cabelos grisalhos, pôs a cabeça para fora, com olhar severo e irritado. Quando ouviu que éramos amigos da igreja, refletiu por alguns segundos e nos levou a uma casa mobiliada de forma austera, onde havia cruzes penduradas, pergaminhos de provérbios da Bíblia e um retrato de família, que deduzi ser de Wu e a esposa, Zhang Fengxiang (a senhora de cabelos grisalhos), e seus descendentes, uns vinte no total.
Wu Yongsheng nasceu em 1924. Ancião na Igreja da Cidade Velha de Dali, ele era altamente respeitado na comunidade cristã. Três meses antes de nossa visita, teve um derrame e desmaiou. Ele recebeu tratamento adequado e, embora os movimentos estivessem prejudicados e caminhasse com uma bengala, conservara todas as faculdades e era articulado, com a mente lúcida. Ele me presenteou com um exemplar do livro de Salmos. Aceitei, dizendo que iria “estudá-lo”. Wu me corrigiu: “Você deve usá-lo como um espelho para confessar seus pecados e transformar-se”. Ele incentivou o monge Ze a abdicar da busca pela iluminação por meio de Buda e procurar Jesus para a salvação. Ze respondeu com um sorriso.
Durante nossa entrevista naquele agosto de 2009, Wu foi cauteloso, até evasivo, quando perguntei seu ponto de vista sobre as campanhas políticas do passado, embora a razão para a relutância em discutir tais questões se evidenciasse ao fim de nossa visita.
Wu Yongsheng: Nasci na capital da província de Kunming. Em 1937, quando estava terminando o ensino fundamental, o irmão mais novo de minha mãe retornou a Kunming, vindo de Dali, e me disse para abandonar a escola. “O país inteiro está em caos”, disse ele. “Os desastres são iminentes. Qual é a utilidade de frequentar a escola?” Esse tio me pediu para ajudá-lo como aprendiz e que me tornasse um carpinteiro. Embora a guerra [com o Japão] ainda não tivesse começado oficialmente, era possível senti-la. Sirenes tocavam o tempo todo. Os preços dos alimentos subiam de forma drástica e as pessoas estocavam bens. Nossa família vivia com medo constante. A oferta do tio alegrou meus pais, e eu retornei com ele para Dali num ônibus antiquado que levava tanto pessoas quanto mercadorias. Passamos quatro dias numa estrada pavimentada com pedras grandes, feito batatas. Uma viagem bastante instável. Sentia como se meu corpo inteiro estivesse se despedaçando. Atualmente, você vem de Kunming para cá em meio dia.
Liao Yiwu: Seu tio possuía um negócio próprio em Dali? Wu: Sim. Ele gerenciava a própria loja na parte antiga de Dali. Na função de aprendiz, no início eu apenas o ajudava com algumas tarefas simples. Ele era cristão e conhecia muitos missionários estrangeiros na cidade. Toda vez que precisavam realizar algum trabalho, procuravam-no. Ele me tratava como filho e me levava aos cultos dominicais toda semana. Em pouco tempo, aprendi a Bíblia e sabia cantar hinos. Em 1940, um casal americano chegou a Dali.
Liao: Você se lembra dos nomes?
Wu: Deixe-me ver... sr. e sra. Harold Taylor. Eles alugaram uma casa com pátio na rua Foreigner. Colocaram uma placa na porta. Dizia: “Igreja Cristã”. Pediram que reformássemos a casa. Durante a reforma, moramos no segundo andar. Os Taylor saíam de casa pela manhã e voltavam tarde da noite. Eles nos tratavam muito bem. Todos os dias, pediam que fizéssemos uma oração ou lêssemos a Bíblia antes de iniciar o trabalho. Seguíamos seus conselhos. Por volta de junho de 1941, me senti inspirado por Deus e fui batizado. Tinha 17 anos.
No dia do batismo, meu tio me acordou de madrugada. “Hoje é o dia de seu renascimento”, disse ele. O muro da antiga cidade ainda estava em boas condições na época, e era possível ver, do centro da cidade, todos os quatro portões das torres. Atravessamos o portão oeste e aguardamos perto de um riacho que escorria da montanha Cangshan. Um moinho de água havia sido construído ali para moer grãos. Ele possuía duas grandes rodas de madeira e operava dia e noite. Em 1940, o moinho de água era uma novidade. O reverendo Taylor tinha somente seus trinta e poucos anos e gostava de tecnologia. Ele considerava o riacho do moinho um local apropriado para me batizar. Ele me pôs dentro de um tanque no lado direito da roda d’água e recitou alguns versículos. Suas mãos grandes seguraram meu corpo pequeno e magro. Lentamente, ele me afundou na água, da cabeça aos pés. Mantive meus olhos abertos e pude ver o topo do muro da cidade, a montanha Cangshan, e as nuvens brancas e o céu azul. Pensei que veria meu Criador que reside lá em cima, no céu, mas estava contente por me sentir rodeado por belas nuvens brancas.
Liao: Deve ter sido uma sensação maravilhosa. Wu: Após a cerimônia, o reverendo Taylor segurou minhas mãos e disse, com seu chinês mal falado: “Irmão Wu, obrigado por assumir o controle”. Não compreendi o que ele queria dizer até que os Taylor tiveram de deixar Dali. As tropas japonesas haviam invadido Mianmar e ocuparam a cidade vizinha de Tengchong. Estavam bombardeando Kunming e Xiaguan. Muitos americanos decidiram partir.
Liao: Havia muitos estrangeiros em Dali?
Wu: Muitos, muitos. Alguns, porém, não ficavam muito tempo. Eles apenas vinham e partiam. Liao: Os Taylor eram conhecidos na região? Wu: Na verdade, não. Eles permaneceram em Dali não mais que dois anos. Construíram uma pequena igreja e tinham um número limitado de seguidores. O casal de missionários mais famoso era o sr. e a sra. Liang Xisheng. Os nomes ingleses eram, deixe-me lembrar, sr. e sra. William Allen. Eram muito conhecidos na região. Eles serviram na região de Dali por mais de dez anos e se tornaram conhecidos por sua generosidade, tanto material quanto espiritual. Ao contrário dos Taylor, eles foram bem-sucedidos e reuniram um amplo número de seguidores. Muitos estudantes do ensino médio tiveram aulas de inglês na casa deles. Uma noite, ao realizar suas orações noturnas, a sra. Allen notou de repente o pé de um homem saindo debaixo de sua cama: um dos antigos alunos havia se esgueirado na casa para roubar comida. Antes que ele tivesse tempo de fugir, a sra. Allen entrou no quarto. O rapaz se escondeu debaixo da cama, na esperança de escapar depois que ela adormecesse. A sra. Allen pulou e gritou, com medo. Assustado pelo barulho, o ladrão se arrastou ainda mais para o fundo. O reverendo Allen entrou correndo, vindo da sala de estar. Ele se curvou, tentando convencer o ladrão a sair: “Você não precisa se preocupar. Não vamos denunciá-lo à polícia. Eu sei que sua família é pobre. Apenas saia e leve o que você quiser. Eu não me importo”. O ladrão começou a chorar e prometeu engatinhar para fora se o reverendo Allen se afastasse da cama. Enquanto isso, a sra. Allen dizia: “Meu querido, eu vou orar por você. Vou pedir a Deus que perdoe seus pecados”. O ladrão respondeu: “Não, obrigado, não preciso que você ore por mim. Eu não sou cristão”. Após finalmente sair, o ladrão viu algo brilhando na mão do reverendo Allen. Pensando ser uma arma, o ladrão puxou sua faca e esfaqueou a coxa do missionário. No fim das contas, o reverendo segurava um copo de água para o ladrão. O esfaqueamento chocou a sra. Allen, que correu e gritou: “Socorro, socorro”. Os vizinhos ouviram o barulho e ajudaram a apanhar o ladrão.
Liao: Que história! O que aconteceu com o ladrão? Wu: No dia seguinte, o reverendo Allen foi à delegacia de polícia e pagou a fiança do ladrão. Ele sabia que o pobre garoto foi levado a roubar por causa da pobreza. Nunca cobrou nenhum encargo. Por um tempo, foi uma grande notícia por aqui, que se espalhou rapidamente na região. As pessoas realmente se comoviam com a generosidade do casal. Quando viam o reverendo Allen na rua, dirigiam-se a ele como um “santo”. Ele balançava as mãos e respondia em seu dialeto local: “Eu não mereço essa honra. Estou apenas fazendo a obra do Senhor”.
Desde os tempos antigos, Dali tem sido um terreno fértil para todo tipo de religião. Deuses e divindades preenchem cada centímetro de terra deste lugar. O budismo e o islamismo já estavam aqui quando o cristianismo chegou, mas este se espalhou com velocidade porque havia muitos cristãos maravilhosos como o reverendo Allen, que, através de seu comportamento, demonstrava a benevolência de Deus.
Liao: Você se considera um deles?
Wu: Eu sou apenas um cristão comum. Eu era um carpinteiro, nada digno de menção. Enfim, depois que o Japão bombardeou Pearl Harbor, os Estados Unidos entraram na guerra. Alguns ocidentais que trabalhavam em territórios ocupados por japoneses foram presos e assassinados. Muitos foram forçados a fugir para o sul. Um grande número deles veio para Dali. A China Inland Mission havia fundado um hospital cristão na província de Henan, perto de 1906, e o hospital se transferiu para Dali por volta dessa época.
Liao: Li a respeito da China Inland Mission, uma organização missionária britânica fundada em Londres, no ano de 1865, por James Hudson Taylor. No livro que você escreveu, descobri que o reverendo Taylor e outros dezesseis missionários chegaram a Xangai em 1866. Eles provavelmente estavam entre os primeiros missionários cristãos estrangeiros na China. Wu: Provavelmente.
Liao: Por favor, prossiga com sua história. Wu: Em 1942, as tropas japonesas ocuparam Mianmar. Cidades como Wanding, Tengchong e Baoshan sucumbiram, uma após outra. Kunming e Xiaguang eram bombardeadas com frequência. O hospital cristão estava aberto a todos. Os médicos estavam ocupados cuidando de civis e soldados feridos. Apareceu um surto de cólera. Havia muito que fazer ali. Eu realizava trabalhos de carpintaria para o hospital e me tornei um funcionário permanente. Fiquei interessado em medicina, tive aulas e me tornei um médico no hospital. Permaneci ali até me aposentar, em 1988.
Liao: Isso não simplifica demais sua vida nos últimos sessenta e poucos anos? Wu: Não quero viver no passado. Além disso, após sofrer o derrame, minha memória já não é mais tão boa. Nosso hospital cristão era o melhor de toda a região sudoeste. Ajudamos milhares de pacientes.
Ainda me lembro do nome de muitos missionários. Pessoas como De Meichun (Jessie McDonald), Bao Wenlian (Frances Powell), Shi Airen (M. E. Scott) e Ma Guangqi (Doris M. L. Madden) se transferiram da província de Henan para Dali em 1937. Eles dedicaram a vida para servir às pessoas daqui. Mas, quando as tropas comunistas apareceram, obrigaram todos os missionários estrangeiros a partir. Ainda me lembro da data, 4 de maio de 1951, quando as tropas tomaram o hospital. Elas inspecionaram os inventários de bens e depois ordenaram ao presidente, Jessie McDonald, que assinasse a cessão de todos os bens do hospital. Então o expulsaram.
Liao: Você foi condenado?
Wu: Comparando, os ataques contra mim foram mínimos. Afinal, eu era apenas um membro da equipe de funcionários no hospital. Na época, tínhamos cerca de cinquenta funcionários; apenas dez de nós éramos cristãos.
Liao: Você compareceu a sessões de denúncia pública? Wu: Eu não fui selecionado, mas tínhamos de participar de muitas sessões de estudo político.
Liao: Eles questionavam suas relações estreitas com os missionários estrangeiros? Wu: Os missionários estrangeiros tinham ido embora. Não havia nada a questionar. Eu tive, sim, que escrever muitas confissões. Escrevi centenas de confissões em minha vida.
Liao: Eles permitiam que as pessoas frequentassem os cultos da igreja?
Wu: Tivemos permissão no início. Depois, todas as atividades religiosas foram banidas. Muitas pessoas temiam ir. No começo, algumas participavam dos cultos, até que renunciaram abertamente a suas crenças. Eu persisti todo o tempo. Por fim, eu orava apenas em casa.
Liao: Deve ser estranho frequentar as sessões de estudo comunistas durante o dia e orar a Deus em casa à noite.
Wu: Eu fazia o que as autoridades queriam que eu fizesse no trabalho. No entanto, a política secular não podia substituir as práticas espirituais.
Liao: Na década de 1950, o reverendo Wu Yaozong, em Pequim, fundou a Igreja Patriótica das Três Autonomias, que depois foi aprovada pelo governo. Você apoiou os princípios das Três Autonomias?
Wu: Quando os ocidentais partiram, as igrejas já seguiam os princípios de governo autônomo, propagação autônoma e sustentação autônoma. Em Dali, fundamos também o Comitê Patriótico das Três Autonomias. O reverendo Duan Liben era o diretor. Apoiei as doutrinas expostas na Bíblia.
Liao: Você declarou abertamente essa posição na era Mao? Wu: Ah, eu não ousaria. Em 1952, o Departamento da Frente Unida de Dali ordenou a fusão das igrejas cristãs de diferentes denominações. Tínhamos a Igreja Católica, a Igreja Episcopal e a Igreja da Cidade Velha. Realizávamos cultos juntos até que as campanhas políticas se tornaram realmente perversas. As massas revolucionárias foram mobilizadas para atacar cristãos. O lema era: “Ferir a carne para mudar a alma”. Em consequência disso, as pessoas deixaram as igrejas aos bandos. No final, os únicos cristãos declarados em Dali eram o reverendo Hou Wuling e sua esposa, Li Quanben, e Yang Fengzhen...
Liao: O que aconteceu com eles?
Wu: Morreram, tragicamente. O reverendo Hou Wuling fora denunciado publicamente diversas vezes. Morreu durante uma sessão pública de estudo, um aneurisma... Mas, por favor, não vamos falar sobre ele. Meu coração se parte só de pensar nisso.
Antes do término da Revolução Cultural, todas as atividades religiosas públicas foram proibidas. As igrejas e seus bens foram apreendidos. Só se podia orar e ler as Escrituras em silêncio. Mover os lábios e formar o nome de Deus já era um deleite.
Eu não podia me dispor a boicotar abertamente as políticas do governo. Não me atrevia a revelar minha verdadeira fé em público. Quando percebi que não podia fazê-lo, pedi perdão a Deus. Graças ao Senhor misericordioso, consegui sobreviver às campanhas políticas da década de 1950.
Liao: Você sofreu durante a Revolução Cultural? Wu: A Guarda Vermelha queria eliminar todo tipo de “cobras e demônios”. Minha esposa e eu não podíamos fugir. Nossa casa foi saqueada, fomos interrogados. Colocaram chapéu de burro em nossa cabeça e nos fizeram desfilar pelas ruas. Queimaram nossas preciosas coleções de livros bíblicos. Oh, foi tão triste... Mas o passado é como nuvem passageira. Eu apenas o deixo ir.
[Zhang Fengxiang, percebendo quão afetado o marido estava ao falar sobre o passado, interveio neste momento da entrevista e se ofereceu para continuar a história. “O passado é traumático demais para meu marido”, disse ela. “Ele não quer revisitá-lo, especialmente após o derrame”.]
Zhang Fengxiang: Nasci numa família pobre em 1933, na cidade de Chuxiong, na província de Yunnan. Havia uma Igreja Betel perto de minha casa. Quando eu tinha cinco anos, comecei a me juntar a muitas crianças no bairro para participar das aulas gratuitas na igreja. Nossos professores eram estrangeiros com olhos azuis e nariz grande. Eles sorriam o tempo todo e eram muito pacientes. Eles nos ensinaram a ler e a escrever em inglês. Depois, aprendemos a orar e a cantar hinos. Poucos anos depois, começamos a aprender as histórias da Bíblia. Eu adorava ir às aulas, pois os professores distribuíam doces e brinquedos, se acertássemos as respostas a suas perguntas. Sob a influência dos professores, tornei-me cristã e fui batizada aos 15 anos. Em 1950, fui matriculada numa escola de enfermagem afiliada ao hospital cristão em Dali e me tornei enfermeira após a graduação. Em 1953, aos 20 anos, eu me casei com Wu Yongsheng numa igreja local. Nós dois trabalhávamos no mesmo hospital.
No início da Revolução Cultural, viramos o alvo principal no hospital. Sofremos todo tipo de torturas. Os rebeldes maoístas nos acusavam de espiões. Eles nos ajuntaram à frente da nossa igreja, batendo tambores e gongos, e cantavam canções revolucionárias. Realizaram ali uma sessão de denúncia pública. Primeiro, empilharam todos os documentos e livros bíblicos e depois tacaram fogo. Eles aplaudiam e dançavam. Muitos cristãos, incluindo meu marido e eu, foram forçados a se curvar num ângulo de 90 graus junto ao fogo.
Os rebeldes ainda não estavam satisfeitos. Quebraram os vidros, os bancos, as prateleiras de livros, a mobília, pinturas em pergaminhos antigos, e até o órgão de tubos, que foi levado para lá pelos missionários ocidentais. Havia um sino gigantesco instalado dentro da torre superior da igreja. Eles o levaram para baixo e tentaram quebrá-lo, mas não conseguiram produzir uma única rachadura. Por fim, levaram-no embora. Ninguém sabe onde está o sino hoje. Uma pena. O sino foi construído em Londres e transportado para Dali em 1905.
Fizeram o trabalho completo. Não deixaram nada para trás. Um deles pensou que, por sermos espiões, poderíamos ter escondido um telégrafo ou armas. Meu marido insistia que não éramos espiões. Mas o líder deles não quis ouvir: “Quando partiram, aqueles imperialistas plantaram vocês aqui. Eles atribuíram tarefas especiais a vocês. É melhor confessar se quiserem um tratamento brando”. Dei um passo à frente e expliquei em nome de meu marido: “Não é permitido esconder nada ilegal na igreja. É um lugar sagrado”. Eles me repreenderam por ser teimosa feito uma pedra. Em seguida, pegaram algumas pás e britadeiras elétricas. Em poucas horas, destruíram o assoalho e cavaram um buraco enorme no meio da capela.
Liao: Eles devem ter assistido a muitos filmes de espionagem. Zhang: Mais tarde, a igreja foi ocupada por dezenas de moradores que decidiram morar ali. A capela foi transformada em oficinas para ferreiros, fabricantes de fogão, oleiros e carpinteiros. Fomos detidos e torturados. Toda vez que nos soltavam, retornávamos ao trabalho no hospital e continuávamos a cuidar dos doentes. Certo dia, um grupo de camponeses fixou um cartaz escrito “Obrigado”. O cartaz se achava ao lado de uma porção de palavras de ordem: “Esmaguem a cabeça dos miseráveis Wu Yongsheng e Zhang Fengziang”.
Tentávamos tirar o melhor de uma situação ruim. Aceitamos a humilhação sem resistência.
Meu marido mencionou o reverendo Duan Liben, que dirigia o Comitê Patriótico das Três Autonomias. Em 1956, ele viajou a Pequim para uma conferência nacional sobre a reforma das igrejas cristãs na China. Em julho de 1966, o governo o deteve por ter participado de uma “conferência religiosa” — eles prenderam todos os líderes católicos e protestantes locais. O reverendo foi enviado ao campo para “reformar seu pensamento através do trabalho duro”. Ele sofreu muito, mais do que cristãos comuns como nós. Ele não está mais entre a gente.
Em 1980, o Departamento da Frente Unida informou que poderíamos realizar os cultos dominicais. Os cultos de adoração foram proibidos por mais de duas décadas. Eles não devolveram muitos dos bens da igreja, e duvidamos que devolvam algum dia.