Deus é Vermelho
5. O episcopal
Capítulo 5
O EPISCOPAL
m 1937, após o Japão invadir a China, Cai Yongchun e Wu Shengde, dois professores da Universidade de Huazhong, na cidade central de Wuhan,
E transferiram-se para Dali e fundaram a Igreja Episcopal de Dali. Em 1943, os dois
fundadores receberam fundos das dioceses em Xangai e compraram vinte prédios e casas num terreno de cerca de 6 mil metros quadrados. Eles transformaram as edificações em uma capela, um orfanato e uma escola de ensino fundamental, a fim de acelerar a propagação do evangelho. Em 1948, um jovem sacerdote, Hou Wuling, assumiu a igreja. Em 1964, durante uma sessão de estudo político, o reverendo Hou retirou do bolso do casaco uma cruz escondida e caiu ao chão. Ele morreu em decorrência de um aneurisma (Wu Yongsheng, A história do cristianismo em Dali).
Quem foi o jovem sacerdote Hou Wuling? A menção no livro de Wu Yongsheng é tão sucinta que não traz luz suficiente sobre a vida desse homem ou as circunstâncias que envolvem sua morte. Como pôde um líder religioso dessa grandeza — pois ele claramente era um dos grandes — passar como um meteoro, que cintila por um momento e desaparece sem quase deixar rastros? O que lhe aconteceu sob o regime comunista? O que o induziu a exibir a cruz escondida naquela sessão de estudo político? Fiquei intrigado; gosto de um bom mistério. Comecei a investigar a existência de registros das igrejas, mas não consegui encontrar nada a respeito de Hou.
No livro de Wu, encontrei também uma breve menção ao fato de que, quando o governo revogou o veredicto contra Hou, Wu se responsabilizou por entrar em contato com a família do reverendo. Wu me dissera que Hou dirigia a Igreja Episcopal de Dali, mas recusou fornecer mais detalhes. Estaria ele se esquivando de um campo minado político?
Contatei Kun Peng, que parecia conhecer todo mundo que interessava. Eu precisava de mais informações e esperava que Kun pudesse me apontar a direção correta. Em particular, queria encontrar os membros da família de Hou. Kun me ligou de volta alguns dias depois. Ele não conseguira rastrear a filha de Hou, mas encontrou três outros cristãos idosos que talvez soubessem algo sobre a vida do reverendo episcopal. Entrevistei cada um deles, e as conversas renderam alguns dados.
Hou assumiu a Igreja Episcopal de Dali em 1948, período em que o país estava envolvido na guerra civil. Ele se responsabilizou pelos bens que a igreja havia acumulado ao longo dos anos, mas a principal preocupação era ministrar aos milhares de seguidores que viviam em medo constante da guerra. Aplicado em suas funções, ele vivia seu melhor momento. Wu relembra que Hou tentara manter a igreja neutra na guerra entre os comunistas e os nacionalistas dominantes, e se afastou da política após a vitória de Mao Tsé-tung em 1949. Mas o novo governo comunista considerava os missionários estrangeiros “forças hostis”. As redes de relações religiosas de todos os credos se desintegraram. Cristãos renunciaram à fé nas sessões públicas como “um capítulo vergonhoso” na vida. Hou se sentiu arrasado com o rumo dos acontecimentos. A recusa em renunciar à fé fez dele um alvo político. Em conferência realizada pelo Departamento da Frente Unida, um oficial confrontou Hou: “Você está tentando desafiar o poder das massas revolucionárias?”. Ele permaneceu em silêncio. A resposta estava em suas ações: ele continuava a seguir o Senhor e era o guardião da igreja. Hou foi apelidado de “o cordeiro silencioso”.
A cada campanha política sucessiva, os oficiais comunistas escolhiam-no como alvo. Em 1953, o governo queria que ele renunciasse à posse da Escola Fundamental de Huiyu, que havia sido fundada e conduzida pela Igreja Episcopal de Dali. Os oficiais propuseram mudar o nome para Escola Fundamental de Dali nº 2. Hou não permitiu a entrada de oficiais do governo na escola. Eles contra-atacaram, enviando uma conta com as taxas de serviço da escola e os custos de uma reforma. Com todas as fontes de financiamento cortadas no novo regime, Hou não tinha como pagar. Ele então desligou a energia elétrica e disse aos estudantes: “Nosso coração está aberto e iluminado pela verdade; não precisamos de luzes elétricas”.
Enquanto orava à luz de velas na capela da escola, milicianos locais invadiram o local e levaram-no embora. Eles o acusavam de sabotar as instalações da escola e de promover atos contrarrevolucionários. Depois que o governo tomou a igreja de assalto e inspecionou as finanças de Hou, acusaram-no de corrupção contrarrevolucionária. Pouco tempo depois, o governo apresentou outra acusação: estupro de órfãs menores de idade. Com uma acusação após a outra contra si, Hou foi detido e encarcerado por um ano, mas não havia provas suficientes para a condenação, e ele foi então liberado.
Como Hou continuava a zelar por seu rebanho, o conflito com o partido prosseguiu. Um dia, uma cristã chamada Li Huijun bateu à porta com a filha de 10 anos. As duas fugiam de sua aldeia rural, onde a família de Li fora perseguida como membros da “classe dos latifundiários corruptos”. Hou e a esposa as acolheram. Poucos meses depois, a filha de Li, que tinha tuberculose, morreu. Na sequência, o comitê de rua notou a presença de Li na igreja e, após verificar seu histórico familiar, enviou-a de volta para sua aldeia. Li escapou de novo. Os milicianos locais caçaram-na e a trouxeram de volta. Em 1954, ela fugiu pela terceira vez e se escondeu na igreja. Os captores a seguiram até Dali. Ela foi encontrada numa sala ao lado da biblioteca da igreja. Li havia se enforcado.
No mesmo ano, Hou foi convidado a apoiar e se juntar à recém-formada Igreja Patriótica das Três Autonomias. Ele recusou, chamando-a de “rendição coletiva”. Líderes religiosos locais pró-governo realizaram uma conferência e, “por unanimidade”, votaram pela destituição de seus direitos e impediram-no de participar de qualquer atividade religiosa. Em 1957, rotularam-no de direitista. Em 1958, o governo local em Dali confiscou oficialmente a propriedade da Igreja Episcopal de Dali e a transformou num complexo químico. Hou foi ameaçado de prisão, caso se recusasse a sair. Ajeitaram-lhe uma cama num dormitório para operários. A esposa e uma filha retornaram a Chengdu para viver com os pais dela.
Hou era presença habitual nas denúncias públicas, que prosseguiam, mesmo depois que a fome assolou a China em 1959. Um cristão sobrevivente me disse que as pessoas estavam fracas demais para espancar os inimigos de classe. Assim, em vez das pancadas, as massas os mordiam e os beliscavam. Ele se lembra de ver Hou coberto de hematomas.
Em 1963, o governo do presidente Liu Shaoqi adotou uma série de políticas para desacelerar os programas radicais de industrialização e nacionalização de Mao e para ajudar a aliviar a situação de fome. Mao recuou. A perseguição aos cristãos diminuiu, e havia mais comida. Em 1964, Mao contra-atacou com a “Campanha de Educação Socialista”, e Hou foi convocado a participar de uma sessão de estudo político de uma semana com quarenta direitistas e contrarrevolucionários num prédio isolado vigiado por soldados. Forçaram-no a responder pergunta após pergunta, até que ele simplesmente parou de falar e caiu no chão, morto. Não há registro oficial sobre as especificidades da morte, e os presentes sofreram uma amnésia coletiva. Tudo que possuo para ir adiante são as linhas do livro de Wu: que Hou pegou sua cruz, perdeu o equilíbrio, caiu e morreu por causa de um aneurisma. Os interrogatórios, as sessões de denúncia pública e as sessões de estudo político foram demais para ele.
Sabemos que o corpo de Hou foi cremado várias horas após a morte. Não se realizou autópsia. Muitos dias depois, a esposa de Hou veio de Chengdu e levou para casa uma urna com as cinzas. Segundo o sr. Wu, ela nunca ousou perguntar como o marido havia morrido. “Talvez tenha sido bom que a morte acontecesse antes da Revolução Cultural”, disse Wu.
Em 1980, o Departamento da Frente Unida de Dali emitiu uma nota oficial isentando Hou de qualquer delito. Wu recebeu a notificação em nome da família de Hou e a enviou para Hou Mei-en, a filha que morava em Chengdu. Ele tem certeza de que a esposa e a filha de Hou ainda estão vivas, embora não tenha informações delas há trinta anos. Perguntei se o governo compensara a família pelo sofrimento, e Wu balançou a cabeça: “Nem um único centavo”. Os bens da igreja foram vendidos pelo governo para incorporadores privados. O complexo químico estatal construído sobre o terreno da igreja faliu e foi fechado. Hoje, o terreno é ocupado pelo Departamento de Medicina Interna do Hospital do Povo de Dali nº 2.