Deus é Vermelho
2. A velha freira
Capítulo 2
A VELHA FREIRA
hang Yinxian era veloz para alguém com mais de 100 anos, e, ao acompanhá-la pelo adro da igreja na parte antiga de Dali, ocorreu-me que ela era um bocado
Z parecida com um pedaço de ginseng fresco, ligeiramente recurvada, mas cheia de
vida e energia. Ela me ignorou enquanto eu a seguia, tentando me fazer agradável, e por fim expressou em palavras minha dificuldade de compreender que ela estava ocupada demais para conversar. “Ela é uma verdadeira celebridade por aqui”, disse o amigo que me convidara e a outros dois escritores em agosto de 2008 para ir ao monte Weibo visitar a antiga igreja católica romana, na avenida Renmin, onde um velho companheiro de escola era padre.
A irmã Zhang permaneceu em minha mente, e, uma semana depois, procurei-a novamente na igreja, mas logo ficou claro que seu pesado sotaque do sudoeste e a surdez parcial tornariam impossível qualquer conversa significativa. Meus gritos e gesticulações atraíram a atenção de algumas outras freiras, a mais jovem, supus, na casa dos 70 anos, e ela começou a me interrogar: De onde você é? O que você quer? Você é um paroquiano? Você é cristão? Eu disse a ela que era um escritor e queria entrevistar a irmã Zhang. “Quer dizer que você é jornalista ou algo do tipo?”, perguntou, e me disse que eu teria de partir e adquirir uma carta de aprovação do Gabinete de Assuntos Religiosos local. Repreendido, parti.
Visitei Dali novamente no ano seguinte e, após ter aprendido a lição, utilizei uma abordagem mais cautelosa, passando uns dias a recolher mais informações a respeito da igreja e da irmã Zhang. Também contei com a ajuda de meu amigo Kun Peng, que era cristão e bem versado em teologia. Peng tinha um contato, a irmã Tao, de seus trinta e poucos anos e dona de olhos brilhantes que irradiavam simpatia. Ela cuidava da irmã Zhang e disse que tentaria arranjar minha entrevista e atuaria como intérprete.
Kun Peng e eu retornamos no domingo seguinte, depois da missa da manhã, e fomos encaminhados a uma sala de conferências. Após cerca de uma hora, a irmã Tao apareceu com a irmã Zhang, atuando como uma intérprete fluente e necessária, pois achei difícil compreender a irmã Zhang. “A irmã Zhang perdeu todos os dentes”, disse a irmã Tao. “Ela é facilmente irritável e possui uma voz alta. Para pessoas de fora, soa como se ela estivesse berrando numa língua estrangeira.”
Durante toda a entrevista, a irmã Tao se sentou próxima a ela, um pouco atrás e à direita. A irmã Zhang era surda do ouvido esquerdo e a visão de seu olho esquerdo estava prejudicada, mas logo se tornou evidente que ela possuía uma memória incrível. Quando falava a respeito de temas sobre os quais tinha opiniões particularmente fortes, ela se levantava e batia os pés, lembrando-me um pouco das reclamações do rei Lear, de Shakespeare, contra os elementos. A irmã Zhang era louca, sim, mas não era uma loucura qualquer.
Nossa conversa teve um ritmo acelerado, mas, quando sugeri uma pausa para deixar a irmã Zhang descansar, a irmã Tao disse que isso era desnecessário. “Ela é muito mais resistente do que você pensa. A irmã Zhang cozinha as próprias refeições e tem um apetite muito saudável.” Em determinado momento, quando falávamos sobre seu estado de saúde, a irmã Zhang se dirigiu a um vaso de flor grande e pesado e atravessou toda a sala com ele. Todos nós rimos, e eu percebi que a risada da irmã Zhang se assemelhava à de uma criança, fluindo livremente, e as rugas em seu rosto quase desapareceram.
A irmã Zhang me mostrou três cruzes que carregava. Uma delas fazia sessenta anos que lhe pertencia. Conversamos por duas horas, até que a irmã Tao sugeriu que encerrássemos, porque era hora do almoço. A irmã Zhang não queria sair. Quando tentamos levantá-la da cadeira, ela nos repreendeu e continuou a falar, gesticulando repetidamente com os braços no ar. Não consegui entender o que ela tentava dizer e me virei para a irmã Tao em busca de ajuda. “Ela ainda está expressando seu desagrado com o fato de que uma extensa porção de terra pertencente à igreja foi confiscada pelo governo durante a Revolução Cultural”, disse a irmã Tao. “Ela quer de volta. Ela quer presenciar a devolução do terreno antes de deixar este mundo.” Um daqueles velhos ditados me veio à mente: “Pessoas de pavio curto têm vida curta”. Claramente, a irmã Zhang era uma exceção, pensei.
Liao Yiwu: Eu estava ansioso por falar com a senhora já há algum tempo. Irmã Zhang Yinxian: Eu estou aqui na igreja todo dia, orando, cozinhando, fazendo exercícios, jardinagem, amaciando a terra para as formigas e as minhocas. Se não estou por perto, é porque saí para comprar verduras no mercado.
Liao: Quando a senhora nasceu?
Irmã Zhang: Nasci no dia 3 de agosto de 1908 em Qujingcheng, na província de Yunnan. Não consigo sequer me lembrar da aparência de meus pais. Eles morreram quando eu tinha 3 anos. Fui órfã. Eu tinha um irmão. Ele foi levado por um caudilho local. Acho que morreu num campo de batalha. Fui enviada por um tio a Kunming para servir ao Senhor.
Liao: Seu tio?
Irmã Zhang: Ele era padre. Na dinastia Qing, sob o imperador Tongzhi [1856-1875], missionários católicos vieram do Vietnã para Yunnan. Quando eu era criança, havia muitos missionários estrangeiros, em particular da França. Eles me ensinaram a ler e a escrever. Estudava a Bíblia, assistia à missa e rezava.
Às vezes, fazia alguns bicos. Naquele período, as pessoas sofriam terrivelmente. O pequeno mosteiro me abrigou do caos exterior.
Quando completei 13 anos, acompanhei minha tia a Dali. Na época, havia várias igrejas na parte antiga da cidade. Apareceram então mais missionários católicos. Eles representavam diversas ordens religiosas: jesuítas, paulinos, franciscanos, e assim por diante. Nossa diocese expandiu rapidamente, indo para as regiões de Lijiang, Baoshan, Diqing, Lin Cang, Dehong e Xishuangbana. No auge, tivemos mais de oitenta mil paroquianos de todas as etnias: han, bai, tibetanos, yi, dai, jingpo. Esqueci alguém? Enfim, para acomodar o crescimento, os Missionários do Sagrado Coração compraram uma extensa faixa de terra, na década de 1920. Eles colocaram um bispo francês no comando. Seu nome chinês era Ye Meizhang. Sob sua liderança, a organização construiu um mosteiro, um orfanato e esta igreja aqui.
Naquele tempo, tínhamos cerca de quatrocentas pessoas vivendo dentro da igreja, e aos domingos os moradores locais lotavam a missa, vindos de toda parte. A igreja não conseguia conter tantas pessoas. Alguns acabavam em pé ou se ajoelhavam no pátio. Crianças vinham com seus pais. Quando se aborreciam, elas subiam nas árvores.
Como ingressei muito cedo na igreja, eu conhecia todos os hinos, e quando o padre citava uma passagem bíblica, eu poderia lhe dizer imediatamente o capítulo e o versículo, e conhecia todas as histórias associadas àquela referência. As pessoas sempre me cumprimentavam, dizendo quão inteligente eu era, mas minha tia me olhava com severidade e dizia: “Ei, não fique se exibindo assim”.
Liao: Eu cresci na década de 1960. Minha geração aprendeu que a religião era a ferramenta empregada pelos imperialistas para escravizar pessoas e que as freiras realizavam experimentos médicos em crianças nos orfanatos estrangeiros. Irmã Zhang: Mentiras, mentiras. Numa sessão de denúncia pública durante a Revolução Cultural, fomos acusados de assassinar órfãos. Eles diziam que os padres eram vampiros.
Em tempo de fome ou de guerra, os pobres abandonavam seus filhos na beira da estrada. Alguns escolhiam uma noite de luar agradável, cobriam o bebê com camadas de roupas e o abandonavam na entrada da igreja. Quando encontravam o bebê, as freiras traziam a criança para dentro, não importava se estivesse saudável ou doente. Alguns pais eram bastante astutos. Eles deixavam a criança conosco e voltavam depois que o período de dificuldades havia passado. Mas a maioria das crianças daqui nunca foi reivindicada. As pessoas eram pobres na época, e era comum uma família ter muitos filhos. Os pais tratavam seus bebês como pequenos animais. Se os bebês eram fortes e sobrevivessem, permaneciam com eles. Se os bebês adoecessem, os pais os abandonavam para estranhos ou então os deixavam morrer.
Vi muitos casos assim, sobretudo com meninas. Elas eram abandonadas à beira de trilhas das montanhas ou na praia. As felizardas eram apanhadas pelos viajantes, mas muitas se tornaram vítimas de animais, como cães. No caso dos meninos, se nasciam com deformidades ou doenças, eram sujeitos ao mesmo destino das meninas. Quando as freiras viam um bebê abandonado do lado de fora, levavam-no ao padre ou ao bispo que conhecesse medicina ocidental. Se o bebê tivesse permanecido lá fora por pouco tempo, havia esperança. Os que ficavam por um longo tempo podiam ter os braços ou as pernas destroçadas por animais selvagens. As chances de sobrevivência eram muito pequenas. Quando morria um bebê, fazíamos preces e o enterrávamos no cemitério católico. Localiza-se no lado sul da aldeia Wuliqiao, é aquele que foi destruído.
Liao: Visitei o cemitério. É um milharal agora. Irmã Zhang: Na verdade, havia dois cemitérios ali, um para católicos e outro para protestantes. Os dois se localizavam próximos um do outro. Ambos estão destruídos agora. Não conseguimos sequer a devolução da terra por parte do governo. Muitos católicos locais foram enterrados ali. Assim como as crianças abandonadas que não fomos capazes de salvar. Pobres bebês! Nós realizávamos uma cerimônia simples e lhes oferecíamos um enterro apropriado. Nos cemitérios, fazíamos sepulturas para todos, fosse você um bispo, um padre, uma freira, um monge, um paroquiano ou um bebê abandonado. Nas lápides, encontravam-se inscrições do nome, data de nascimento e morte, esse tipo de coisa.
Liao: Como vocês descobriam o nome dos bebês abandonados?
Irmã Zhang: Se não estivesse com o bebê, a freira que o encontrasse daria um nome, chinês ou francês. Aí anotávamos quando e onde nós o encontramos.
Por volta da década de 1940, nossa igreja havia adotado mais de duzentos órfãos. As freiras, na maioria, se tornaram babás em tempo integral. As que tinham treinamento médico viraram pediatras. Minha tarefa era trabalhar na cozinha, esquentando leite, cozinhando mingau de arroz. Às vezes, trazíamos quatro ou cinco bebês abandonados num único dia. Eles estavam tão famintos. Acho que um casal de antigos órfãos ainda vive aqui perto. Eles têm seus setenta ou oitenta anos agora. Mas, apesar do clima de mudança política, ainda não admitem suas relações com a igreja.
Liao: Por que isso?
Irmã Zhang: Eles renunciaram à igreja durante a Revolução Cultural, com medo de serem acusados de conluio com os imperialistas estrangeiros. Mesmo hoje, embora a situação tenha mudado para melhor na última década, eles provavelmente continuam com medo da perseguição.
Olhando em retrospecto para a primeira metade da minha vida, eu fui feliz de verdade. Todo dia a igreja causava um rebuliço entre o povo. No outono, quando a brisa soprava as folhas das árvores — Deus amado — o chão se cobria com uma camada de ouro. Durante as orações ou a missa, a igreja ficava repleta de fiéis, mas em outros momentos todo este pátio se mantinha em silêncio, um lugar de feliz tranquilidade. Nos velhos tempos, nossa igreja era enorme, e eu estava tão ocupada todos os dias que as costas doíam o tempo todo. Meu trabalho favorito era limpar o interior da igreja, tirando a poeira do altar, dos bancos, das estátuas. Tínhamos mais de uma dezena de padres da França, Suíça e Bélgica. Se eu fizesse algo errado, eles gracejavam comigo, dizendo: “Como castigo, você precisa cantar três hinos. Solo”. Eles se uniam a mim, e iniciávamos uma disputa de hinos.
Liao: E quanto à segunda metade de sua vida? Irmã Zhang: Em agosto de 1949, às vésperas do golpe comunista, um sacerdote sueco, padre Maurice Toruay — não consigo acreditar que ainda lembro o nome dele — viajou para a região de Cizhong [perto do Tibete] para pregar o evangelho. Ele foi baleado e morto. A notícia nos atingiu duramente. Era como ouvir o grasnar sinistro de corvos sombrios. Podíamos sentir o perigo à espreita. Nós todos ajoelhamos e oramos por proteção na nova fase. Durante uma missa em particular, nós nos fortalecemos, à espera do sofrimento que sabíamos iminente. Estávamos prontos para seguir os passos do padre Toruay e sacrificar a vida, se necessário, para glorificar a obra do Senhor. Sabíamos que o caminho à frente não seria fácil, mas estávamos preparados.
Em pouco tempo, as tropas comunistas invadiram a cidade. Pessoas agitavam bandeiras vermelhas e batiam tambores e gongos para receber os soldados. O país inteiro se tornou “vermelho”. As montanhas e o lago Erhai se tornaram “vermelhos”. Até a igreja foi decorada com bandeiras vermelhas e retratos do presidente Mao. Missionários estrangeiros foram segregados numa fileira de pequenas salas com as cortinas fechadas. Os soldados vigiavam as portas, e ninguém tinha permissão de se aproximar.
Liao: Em que ano isso aconteceu?
Irmã Zhang: Em 1952. Por volta de fevereiro daquele ano, todos os estrangeiros haviam ido embora.
Liao: Vocês realizaram uma última missa ou algo do tipo para se despedir deles? Irmã Zhang: Não. A capela foi lacrada e ninguém tinha autorização para entrar. Após a partida dos estrangeiros, todos na igreja tiveram que passar por um processo de revisão política. Tanto os leigos quanto os clérigos estavam assustados e partiram em bandos. Eles atenderam ao chamado do governo e foram para casa trabalhar na lavoura. Alguns renunciaram abertamente à igreja. Diziam: “Vou ouvir as palavras do presidente Mao e cortar todas as relações com a Igreja Católica que escraviza pessoas”. O governo alvejou os bens da igreja por toda a China. Bispos estrangeiros foram obrigados a entregar tudo ao novo governo e a assinar documentos preparados com antecedência. Eles diziam que as propriedades da igreja haviam sido obtidas através da exploração das massas. Dessa forma, todos os bens foram confiscados.
Nunca esquecerei 1952, o ano em que a igreja ficou vazia. Costumava ser tão gloriosa. Da noite para o dia, tudo se perdeu. Ratos tomaram conta do lugar. Tínhamos nos acostumado a ter quatrocentas pessoas trabalhando na igreja. Sobraram apenas três: eu, minha tia e o bispo Lui Hanchen. Fomos obrigados a sair. O bispo Liu argumentou e recusou-se a partir. “A igreja é nosso lar e não temos para onde ir”.
No início, permitiram que ficássemos. No fim do ano, membros da milícia local apareceram armados e nos levaram a uma aldeia aos pés da montanha Cangshan. As autoridades locais realizaram uma sessão pública, anunciando que estávamos sob a supervisão dos aldeões dali. Ordenaram que nos dedicássemos ao trabalho físico e reformássemos nosso modo de pensar. Construíram uma escola primária e uma escola secundária no terreno que haviam tomado da igreja e converteram o mosteiro num alojamento para funcionários do governo.
Liao: E assim, a senhora se tornou uma lavradora. Irmã Zhang: Uma cidadã de classe baixa espezinhada entre as massas.
Liao: Por quantos anos?
Irmã Zhang: De 1952 a 1983. São 31 anos, não?
Liao: Como conseguiu sobreviver?
Irmã Zhang: Cultivávamos a própria colheita e hortaliças para nos sustentar. Quando saímos da igreja, não obtivemos permissão para trazer nada conosco. Caminhamos todo o percurso até a vila, e, antes mesmo de conseguirmos um copo de água, os líderes locais nos arrastaram a uma sessão de denúncia pública. Eles nos fizeram desfilar em torno da aldeia, junto com alguns monges e monjas budistas, sacerdotes taoístas e vários líderes das igrejas protestantes locais. Mandaram que formássemos três filas na frente de uma plataforma. Demos de cara com centenas de aldeões de punhos erguidos, gritando palavras de ordem revolucionárias. Alguns cuspiram em nós. Esse tipo de ódio. Enquanto o líder agitava a multidão, um ativista camponês surgiu e estapeou o rosto do bispo Liu. Minha tia deu um passo à frente. “Como você ousa dar um tapa nele?” O ativista havia sido um lavrador pobre, e, quando os comunistas confiscaram as propriedades dos latifundiários, ele foi um dos beneficiários. Ele apontou para minha tia e berrou: “Você é uma contrarrevolucionária, e nós a derrotamos. Vocês são lacaios dos imperialistas que nos exploravam”. Minha tia disse: “Não somos. Viemos de famílias pobres e nunca exploramos ninguém”. O ativista gritou novamente: “Ainda por cima é teimosa e não vai admitir sua derrota. Você precisa ser punida”. Punhos se levantaram, e a multidão começou a entoar: “Abaixo a freira contrarrevolucionária!”. Minha tia não recuou. Ela disse ao agressor: “Bata em mim, se quiser. Se você me bater no lado esquerdo do rosto, eu lhe darei também o lado direito”.
Liao: Oferecer a outra face...
Irmã Zhang: Aqueles sujeitos não tinham ideia do que minha tia queria dizer. Tivemos de suportar muitos outros encontros políticos, mas, depois de um tempo, os comentários humilhantes não nos incomodavam mais. Ficamos mais espertos. Aprendemos a nos proteger. Essas campanhas todas, para denunciar tanto latifundiários, como budistas, católicos, ou intelectuais, eram todas iguais. Pessoas gritavam palavras de ordem —“Abaixo fulano!”, “Espanquem Li até ele não poder se levantar!”, “Viva o presidente Mao!”, “Viva o Partido Comunista!”, “Viva a vitória do que quer que seja!” — e a cada vez, obrigavam-nos a confessar. Em pouco tempo, já sabíamos o procedimento de cor; tudo o que fazíamos era alterar algumas palavras.
Liao: Como era viver na aldeia?
Irmã Zhang: A aldeia nos alojou numa casa de pedra com dois quartos, que eram muito frios. Parecia mais um chiqueiro do que uma casa. A nova vida foi realmente difícil para o bispo Liu e minha tia; ambos já estavam bem velhos. Eu era relativamente jovem. Então me dirigi ao líder da aldeia e pedi panelas e frigideiras, alguns grãos e roupas de cama. Ele me fez assinar um pedaço de papel, dizendo que eu iria reembolsar o valor depois que tivesse ganhado dinheiro suficiente.
O que se seguiu foi trabalho árduo. A atividade agrícola não era tão difícil, mas exigia bastante força física. Eu cuidava da maior parte do cultivo. Minha tia e o bispo Liu me ajudavam. Quando não havia sessões públicas de denúncia, podíamos viver a vida calmamente. A aldeia nos emprestou um boi para que pudéssemos arar o campo. Também criávamos porcos e galinhas e cultivávamos legumes. Fazíamos picles com os vegetais excedentes e vendíamos no mercado local. Ovos também. Com o dinheiro obtido, comprávamos óleo vegetal, molho de soja, esse tipo de coisa. A vida era dura, mas nos virávamos, e em pouco tempo pudemos respirar um pouco mais aliviados.
Liao: E aí, é claro, veio o Grande Salto Adiante [4]... Irmã Zhang: Subimos todos às montanhas para derrubar árvores, a fim de abastecer as fornalhas da produção de aço e ferro. Diziam que, se trabalhássemos duro, a China poderia se tornar uma nação industrializada em dois ou três anos. Na aldeia, tivemos de abrir mão de todas as nossas coisas, inclusive utensílios de cozinha. Mas ninguém se importou com as lavouras. A fome chegou. Muitas pessoas morreram. Foi horrível, realmente horrível. Nós nos mantínhamos com um caldo de milho ralo, quase tão incolor quanto água pura. Dava para ver o reflexo do sol no fundo da tigela; parecia uma gema de ovo. O bispo Liu costumava brincar que o desenho de um ovo era melhor que ovo nenhum, e minha tia levantava a tigela com as mãos e dizia, com seriedade: “Estamos comendo o caldo de ovo ensolarado oferecido pelo Senhor. Tenho certeza que o caldo dessa tigela possui mais nutrientes”.
Em pouco tempo, não restava mais nada. Tínhamos que buscar comida nas montanhas. Procurávamos verduras silvestres, raízes de capim, musgos, até mesmo cascas de árvore. Alguns dos aldeões se desesperaram tanto a ponto de desenterrar cadáveres e se regalar com a carne. Até monges budistas caçavam e comiam ratos. Vou lhe contar, havia caos em todo lugar. Se a fome tivesse durado mais, estou certa de que os aldeões teriam nos devorado. Graças a Deus, sobrevivemos.
Orávamos, na estrada, na subida de uma colina, em casa. Havíamos passado muitos anos lendo a Bíblia, e as palavras de Deus estavam esculpidas, martelada após martelada, na minha mente e no meu coração. Não importa quanto o governo tentasse, tais palavras não podiam ser apagadas. Quando nos sentíamos atordoados pela fome, nunca pedíamos ajuda, pois eles não podiam sequer ajudar a si próprios. Rezávamos para que o Senhor nos concedesse paz.
Certo dia, eu me juntei a outros aldeões para procurar comida numa área nas montanhas. Quase metade do dia se passara, e eu não havia encontrado nada. Estava exausta e caí no chão e não conseguia mais me levantar. Foi quando notei alguns cogumelos selvagens coloridos perto de mim. Eram os cogumelos venenosos que ninguém ousava tocar. A fome enfraquecia minha vontade e meu juízo. Apanhei os cogumelos e os levei à boca. Cresci na região e conhecia as terríveis consequências de se engolir cogumelos venenosos. Oh, bem, se eu tivesse de escolher entre morrer de fome e morrer envenenada... Escolhi a última opção e orei pelo perdão de Deus. Alguns minutos depois, tive uma dor de estômago intensa. Coloquei os dedos no fundo da garganta, na esperança de conseguir vomitar. Mas, como não havia nada em meu estômago, os cogumelos venenosos foram digeridos e absorvidos muito rapidamente. Minhas mãos e pés começaram a tremer. Meu corpo todo começou a chacoalhar. Enrolei-me em torno de uma árvore e continuei rezando. Se fosse morrer, queria morrer em oração.
Quando acordei, a lua já se achava no céu. Consegui ficar em pé. Ainda estava muito faminta, mas a dor de estômago sumira. “Amém”, murmurei para mim mesma. “Amém. Obrigado, Senhor, por sua proteção”. Eu estava viva, mesmo sabendo que deveria estar morta.
Liao: Vocês três sobreviveram.
Irmã Zhang: Durante a Revolução Cultural, o bispo Liu foi levado a algum lugar em Haidong para mais interrogatórios. Ele foi espancado várias vezes. Sua saúde se deteriorou muito. Em 1983, quando o Partido revogou sua política religiosa, nós nos reencontramos. O Gabinete de Assuntos Religiosos local encontrou para nós uma casa de dois quartos em frente à antiga igreja. Assim, nós três nos mudamos para lá e tentamos convencer os moradores e as autoridades escolares a nos devolver a igreja e a propriedade da igreja. O bispo Liu mencionou a política do partido nas negociações e disse a eles: “Embora sejamos velhos e fracos, não iremos ceder: esta é a igreja de Deus”. Os moradores lhe disseram: “Para o inferno com seu Deus”.
Depois, tentamos convencer os funcionários do Gabinete de Assuntos Religiosos local. Carregando minha tia nas costas, nos dirigimos ao prédio da prefeitura de Dali, mas ninguém quis falar conosco. Saí então do prédio e coloquei minha tia nas escadas externas. Sentei-me perto dela, jejuando e protestando pacificamente.
Liao: Qual a sua idade na época?
Irmã Zhang: Acho que 75 ou 76 anos. Minha tia já tinha passado dos 90. Chegávamos em casa à noite e voltávamos para lá na manhã seguinte. Minha tia tinha asma e mal podia respirar. Eu lhe dizia para ficar em casa, mas ela recusava. “O Senhor pertence a todos nós, não só a você”, falava. Na década de 1980, a estrada da parte antiga de Dali a Ziaguan, capital da província, era realmente ruim. Todo dia, eu acordava ao romper da aurora. Primeiro eu orava, depois varria o quintal e preparava o café da manhã. Minha tia havia se tornado freira aos 21 anos. Era uma bela mulher e se cuidou muito bem. Ela me censurava por eu ser meio moleca. Bem, eu precisava agir feito um homem. Tinha de trabalhar no campo, criar porcos e galinhas. Nunca tive tempo para mim. Na primeira manhã de nosso protesto oficial, minha tia me disse para usar roupas novas. “Estamos realizando um protesto no meio da rua. Não se vista como um mendigo para envergonhar o Senhor.” Levei-a ao terminal rodoviário fora do portão sul da cidade. Duas horas depois, estávamos na parte externa do edifício do governo da província. Estendi uma colcha no chão e deitei minha tia. Sentei perto dela e comecei a rezar. Logo, estávamos cercadas por uma multidão de curiosos. Disse a eles o que havia acontecido. Estávamos lá todos os dias. Fizesse chuva ou sol, não nos importávamos.
Tudo o que sabíamos era que um grande número de pessoas estaria ali diariamente. Às vezes a multidão era tão densa que parecia um muro humano. Sentia-me um pouco desconfortável. Então eu me levantava, erguia a cruz sobre a cabeça e pedia que se dispersassem. Mais pessoas, porém, paravam e olhavam. Algumas se aproximavam de minha tia e sussurravam para o grupo: “A velha ainda respira. Ela está resmungando algo para si”. Eu corrigia a pessoa, dizendo: “Ela não está falando sozinha. Está rezando”. E eles perguntavam: “O que ela está rezando?”. E eu repetia suas palavras em voz alta: “Querido Senhor, você me colocou aqui para me testar neste mundo secular. Por favor, perdoe meus pecados e corrija meus pensamentos. Por favor, resgate-me das forças más deste mundo. Amém”.
Liao: As pessoas entendiam?
Irmã Zhang: Não, não entendiam. Muitos diziam que estávamos loucas. Algumas pessoas de bom coração sugeriam que desistíssemos. “Vocês deveriam pensar do ponto de vista do governo”, diziam. “Eles têm uma província inteira para dirigir. Não é fácil. Vocês deveriam ser patriotas e amar seu país.” Eu não discutia com eles. Nós permanecemos do lado externo do prédio do governo da província por 28 dias. Durante o dia, eu jejuava. Bebia somente água. Tendo em conta a saúde ruim de minha tia, eu a alimentava com um pouco de sopa de macarrão por volta do meio-dia. Quando o sol começava a se pôr, eu a carregava até o terminal rodoviário e voltávamos para casa em Dali.
Com o passar do tempo, achei cada vez mais difícil carregar minha tia, já que eu só tomava o café da manhã e jejuava o dia todo. Estava perdendo peso. Minhas pernas estavam fracas. Começamos então a passar a noite na rua. Os guardas do prédio e a polícia tentavam nos expulsar dali. Nós os ignorávamos. Ninguém se atrevia a nos prender. Éramos duas senhoras de idade. Tenho certeza que eles se sentiam mal por nós.
Depois de um tempo, as pessoas na rua começaram a se acostumar com nossa presença. Alguns nos cumprimentavam quando passavam. Não havia mais multidão nenhuma. Um casal de crianças costumava aparecer e brincar conosco. Mas acredito que nossa presença causou uma impressão bem ruim ao governo, pois, no 28º dia, um oficial superior apareceu, acompanhado de dois assistentes. Ele se manteve ali por vários minutos, depois agachou perto de mim: “Você é Zhang Yinxian?”. “Sim”, eu disse. “E esta é minha tia, Li Huazhen”. Ele era um pouco sarcástico, e eu disse: “Não queremos lhe causar problemas. Só precisamos de um lugar para viver”. Ele se intrigou com minha resposta e disse: “Vocês têm um lugar. Uma casa de dois quartos não é grande o suficiente para vocês?”. Eu disse rapidamente: “Não somos esses idosos sem filhos que vivem numa pensão. Vocês não podem simplesmente nos jogar numa casa e nos calar. Queremos nossa igreja de volta. Precisamos de um lugar apropriado para adorar o Senhor”. Ele recuou um pouco e disse: “Bem, nós devolveremos os bens da igreja, afinal. Isso leva tempo”. Fiquei impaciente. “Tempo? Estamos esperando há 31 anos. Eu tenho apenas 70 anos, então ainda posso esperar, mas e minha tia? Ela já passou dos 90 e tem muitos problemas de saúde. Não acho que ela possa esperar.” O oficial se irritou. Ergueu a voz: “Quem você pensa que é? Você não pode ameaçar o governo e nos dizer o que fazer. Estamos trabalhando duro para que isso aconteça, mas leva tempo. Você terá de esperar ao menos mais três ou quatro anos”. Minha tia estava ouvindo, meio adormecida, e então me pediu para ajudá-la a levantar. Ela disse: “Se esse é o caso, eu vou morrer exatamente aqui, bem no meio da rua”. Acrescentei: “E eu também; nós duas estamos prontas para morrer aqui mesmo, na frente do prédio do governo”. O oficial respondeu: “Façam como quiser”. Ele estava com raiva e, antes de partir, virou-se para mim e vociferou: “Você está ameaçando o Partido Comunista?”. Com calma, eu disse: “Tudo o que eu quero é conseguir a igreja de volta. Não vou mantê-los responsáveis por nossa vida”.
Liao: O que aconteceu depois?
Irmã Zhang: Poucos meses após o confronto, informaram que poderíamos obter nossa igreja de volta: a capela antiga, duas fileiras de casas ao redor da capela e as duas casas com pátio. As pessoas na parte antiga ficaram chocadas. Diziam: “Essas duas velhas más. São bem teimosas. Até o governo cedeu”. Bem, isso não é o bastante. Nós só tínhamos conseguido reaver um quarto dos bens da igreja. As duas escolas do outro lado da rua também faziam parte da igreja. A propriedade era tão grande quanto três ou quatro campos de futebol. Nunca teremos aquele terreno de volta.
Liao: Vocês três vivendo neste lugar imenso; não era como um sonho realizado? Irmã Zhang: A igreja não nos pertence. Só cuidamos dela para o Senhor.
Liao: Como a senhora se sustentou naqueles dias? Irmã Zhang: A essa altura, os outros dois se encontravam velhos e doentes. Eu criava porcos e galinhas, cultivava legumes. Podíamos dar conta das despesas. Estávamos felizes. Minha tia morreu em 1989. Tinha 93 anos. O bispo Liu morreu em 1990, com 90 anos. Eles foram enterrados na montanha Cangshan. Há um local que me espera próximo à sepultura deles. Um dia antes de falecer, o bispo Liu me disse que queria celebrar uma missa na igreja, mas ele mal havia colocado sua batina quando se prostrou e caiu. Rezei por ele, e, ao suspirar pela última vez, seus olhos se fecharam. Ele sorria. O crepúsculo se aproximava. Eu podia sentir os anjos lá fora, voando em direção ao sol poente. Senti uma brisa suave.
Agora eu estava sozinha e me sentia muito triste. Às vezes eu me via procurando por eles dentro da igreja, no pátio e nos lugares onde eles passavam o tempo. Um dia, fechei meus olhos. Senti que eles tocavam minhas mãos. Fiquei tão feliz. Acordei e vi que era um cão, lambendo minhas mãos.
Em 1998, as coisas mudaram. Tínhamos um novo bispo. Uma nova geração de freiras, como a irmã Tao, apareceu. Sinto-me mais relaxada. Vou continuar a pressioná-los para que o governo devolva o restante da propriedade da igreja. Mesmo que não possamos recuperá-la, precisamos deixar registrado na história da igreja. As gerações futuras devem saber o que aconteceu.
Estou esperando que o Senhor me leve. Estou ansiosa para me reunir com o bispo Liu e minha tia. Sem que eu percebesse, mais dez anos se passaram. Vou completar 101 anos. As pessoas por aqui são trinta, quarenta anos mais jovens do que eu. O que posso fazer?
Liao: O que a senhora gostaria de fazer?
Irmã Zhang: Gostaria de continuar a louvar o Senhor. Gostaria de continuar a ter certeza de que nossa igreja receberá de volta nossa terra. Gostaria de continuar...