Deus é Vermelho
16. O músico cego
Capítulo 16
O MÚSICO CEGO
en Huachun é um músico de rua cego em Chengdu. Ele mora no segundo andar de um edifício precário num apartamento de mobília escassa. Há uma mesa,
W quatro bancos, uma televisão velha e uma série de instrumentos musicais, que
Wen diz ter construído sozinho. Wen é um talentoso tocador de erhu de duas cordas [tipo de violino chinês]. Na parede ao lado da janela, há um imenso pôster dos Beatles.
Um amigo poeta, Jiang Ji, ouviu falar do meu projeto e, em 25 de março de 2006, levou-me para conhecer Wen. Eu havia assistido a uma apresentação dele, cantando e tocando o erhu enquanto pedalava um órgão feito em casa, no distrito de Baiguolin, onde moro, e até lhe joguei 2 iuans no dia em que ele cantou “Entrando numa nova era”. Há um verso de que eu particularmente gosto: “A nova liderança carrega adiante a causa de nossos pioneiros e nos conduz a uma nova era...”.
Fomos recebidos na entrada do prédio pela esposa de Wen, vinte anos mais jovem que ele. Ela vem de uma aldeia rural. Seu lindo rosto exalava vivacidade e determinação. Ela disse que se sentiu atraída pelo talento e pela personalidade forte de Wen e sabia que passaria o resto da vida com ele. Após o casamento, ela comprou um triciclo com uma espécie de plataforma, no qual conduz, pedalando, o marido e seu equipamento musical por toda a cidade. “Eu sou esposa, motorista, babá, guarda-costas e os olhos dele”, brincou. Wen deve ter ouvido nossa conversa no corredor e abriu a porta. Reconheci seu rosto sorridente de imediato.
Falei a ele sobre sua execução de “Entrando numa nova era” e mencionei que a canção parecia popular entre os músicos cegos de rua. Eu a ouvira em Urumqi, no extremo noroeste, e em Pequim, mas gostei mais da versão dele porque eles haviam usado amplificadores estridentes.
Wen zombou, fingindo agressividade:
— Você está caçoando de nós?
Eu sorri:
— Será que eu ousaria?
Wen Huachuan: Você sabe, os tempos mudaram e a sociedade está avançando. Temos de guardar o passado e ser otimistas quanto ao futuro. Encarar o Partido Comunista é como lidar com um tigre enorme. Você pode dar tapinhas e escová-lo, mas tem de ser gentil. Se escová-lo na direção errada, estará em grandes apuros. Acho que isso se aplica tanto a cegos quanto a sujeitos normais. Temos de “entrar numa nova era”.
Liao Yiwu: Conte-me sobre sua vida. Como você perdeu a visão? Wen: Nasci em 8 de dezembro de 1944, em Huangjiaoye, na parte sul da cidade de Chongqing. Quando criança, segundo minha mãe, eu tinha a visão perfeita. Todos gostavam de mim porque eu nunca chorava. Lembro-me de minha mãe me levando a banquetes de casamento ou funerais e as pessoas na mesa me tratando como um prato, passando-me em volta e lambendo os lábios para gracejar comigo. Os anfitriões sempre enchiam meus bolsos com doces. Lembro também de perseguir e capturar galinhas no quintal. Ainda hoje, posso ver em minha mente as velhas ruas e as lojas próximas de casa. Minha avó costumava me carregar nas costas. Ela comprava sopa de tofu de vendedores ambulantes para mim. Então, em setembro de 1947, antes de completar 3 anos, minha ama-seca percebeu que eu tinha o que os nativos chamavam de “olhos de galo”.
Liao: O que é isso?
Wen: Eu podia enxergar bem à luz do dia, mas à noite, nada. Eu me assemelhava a um galo. Era como se meus olhos estivessem cobertos por uma cortina pesada que não pudesse ser erguida. Não sei se você repara nisso, mas, quando um galo olha para algo no chão, ele curva a cabeça. Quando comecei a ficar cego, eu fazia a mesma coisa, curvando a cabeça para tentar ver. Às vezes, meu pescoço se estendia para frente. Por fim, não conseguia ver nada e chorava e esfregava os olhos.
Liao: Era algum tipo de infecção?
Wen: Não sei. Meus pais estavam ocupados com os negócios na cidade. Fui criado no interior por uma ama-seca. Naquela época, as crianças não eram tratadas como são hoje. Minha ama-seca tinha vários filhos. Ela precisava trabalhar na lavoura durante o dia e realizar as tarefas domésticas à noite. Ela me amamentava durante os intervalos. Eu passava, portanto, a maior parte de meus dias engatinhando no chão, o rosto coberto de sujeira e lama.
Mas você sabe como as pessoas em Chongqing adoram comida apimentada! Eu comecei a comer alimentos picantes numa idade muito precoce, antes ainda que pudesse caminhar com firmeza. Carregava uma tigela enorme de arroz coberta com uma espessa camada de pimenta vermelha. Era tão ardido que o suor, a secreção do nariz e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Bom demais. As pessoas que não me conhecessem pensariam que eu estava sendo punido por algum delito. Nos dias de verão, eu sentava em torno de uma panela quente e mergulhava a carne crua no caldo de pimenta. Minha roupa se encharcava de suor. Eu tirava quase toda a roupa. Quando me levaram de volta para a cidade, meus pais tiveram de tomar um pote inteiro de pimentas de mim, pois irrompiam urticárias por toda parte do meu corpo, nos cantos da boca, nas axilas e nas costas. Havia duas feridas vermelhas enormes em cada lado de minhas têmporas, do tamanho de amendoins. Eu continuava a coçá-las, e elas ficaram infectadas. Meus pais tiveram de me levar a um médico. Vendo como era doloroso, me proibiram de comer alimentos apimentados. Comecei a recusar comida e quebrei minha tigela em protesto. Talvez tenha sido, portanto, o excesso de comida picante que causou a cegueira.
Minha ama-seca veio me visitar um dia, e, quando a ouvi conversando no pátio, corri para fora de casa, mas estava tateando meu caminho e tropecei e machuquei a cabeça. Ela me apertou contra o peito, examinou meus olhos ao sol e disse: “É terrível. A criança tem olhos de galo”. A ama-seca também contou a minha avó que havia me levado a um vidente certa vez e que o mestre dissera que a deficiência faria parte de meu destino.
Provavelmente, portanto, eu estava destinado a ser cego. Mas, segundo minha ama-seca, o mestre viu outro futuro possível ao montar seus cálculos baseados na hora, data e ano de meu nascimento. “Esta criança poderá ser uma figura poderosa, um oficial do governo, ao menos em nível de comarca. Mas você tem de mantê-lo no campo até ele completar 3 anos de idade. Caso contrário, seu destino pode se alterar. Ele poderá terminar com uma deficiência, no rosto ou nos pés”. Infelizmente, meus pais me trouxeram de volta para a cidade três meses antes de meu terceiro aniversário.
Liao: Você acredita nessas coisas?
Wen: Acredito. Minha avó me levou a outro vidente quando completei 4 anos. Essa pessoa disse coisas similares sobre meu futuro.
Liao: O que os médicos dizem a respeito de sua visão? Wen: Eu tinha uma irmã, um ano mais velha. Ela morreu de varíola em 1946. Por ter me tornado o único filho, meus pais possuíam um carinho enorme por mim. Levaram-me a hospitais e gastaram muito dinheiro com oftalmologistas. Minha mãe teve de penhorar quase tudo para cobrir as despesas médicas. Todos os médicos apresentaram o mesmo diagnóstico: meus olhos tinham o nervo ótico danificado. Eu havia tentado todo tipo de remédios. Ervas, comprimidos, pomadas, injeções. Consultei, provavelmente, mais de vinte médicos no espaço de um ano. Meus pais desanimaram. A família estava falida e eu continuava cego. Naquele momento de desespero, alguém recomendou que consultássemos um médico estrangeiro, um missionário.
Esse amigo disse que o estrangeiro era pastor e trabalhava para um hospital da igreja no alto da montanha Wang. Ele afirmava que estava realizando a obra de Deus. Meu pai era um pouco cético. Será que o estrangeiro trataria um não crente? Nosso amigo, que era adepto dessa religião estrangeira, assegurou a meu pai que Deus tratava cada sofredor de forma igualitária. Decidimos ir. O amigo nos levou ao hospital.
Liao: Deve ter sido um hospital católico.
Wen: Não faço ideia. Em minha vizinhança, as pessoas chamavam o cristianismo de “yang-jiao” ou “religião estrangeira”. Era bastante popular. O governo nacionalista havia transferido temporariamente a capital de Nanquim para Chongqing durante a invasão japonesa. Muitos americanos acabaram residindo em minha cidade. E mais, o generalíssimo Chiang Kai-shek e a esposa eram cristãos. Antes e depois da Segunda Guerra Mundial, muitos missionários ocidentais vieram para Chongqing. Eles construíram várias igrejas, hospitais e centros de caridade. Nossas religiões locais, o budismo e o taoísmo, exigem apenas que as pessoas queimem incenso e adorem.
Liao: Onde se localiza a montanha Wang?
Wen: Não muito distante de minha casa em Huangjiaoya, perto de Huangshan, em Chongqing, onde Chiang Kai-shek costumava ficar. Meus pais partiram de manhã e não voltaram até o findar da tarde. Eles trouxeram um frasco de colírio. Eu estava brincando na entrada. Disseram-me, com entusiasmo: “Meu bem, sente-se. Vamos lavar seus olhos”. Eu me sentei. Estava cansado de permanecer no escuro. Para quem nasce com a cegueira, a escuridão é a única realidade conhecida, mas para mim, que anteriormente podia ver, era difícil.
Antes de usarem o colírio, lavei os olhos com um pano molhado — vovó consumia até duas bacias de água — e a área em torno de meus olhos foi limpa e esterilizada com bolas de algodão embebidas em álcool que meus pais trouxeram do hospital. O médico missionário deve tê-los instruído a fazer aquilo tudo. Cerca de uma semana depois, eu podia dizer a diferença entre a luz e a escuridão, e após alguns meses, podia saber quando o sol estava se pondo. Era como um banho de luz a respingar sobre mim. Eu podia discernir pessoas por suas sombras e podia apontar para as árvores. Todos choravam de entusiasmo, e os vizinhos se aglomeravam para descobrir a causa da comoção. Alguém disse: “Esta criança é abençoada de verdade. Deus realizou um milagre”.
Meus pais se sentiram bastante encorajados pela melhoria, e, com a continuação do tratamento diário, a neblina começou a dissipar. Minha avó preparou um presente para meus pais entregarem ao médico.
Liao: O que havia nos colírios?
Wen: Não tenho ideia.
Liao: Seus pais não lhe disseram o nome do medicamento? Wen: Não creio que meus pais soubessem.
Liao: Quanto seus pais pagaram?
Wen: Nem um centavo. O médico disse que estava realizando a obra de Deus. Minha visão melhorava pouco a pouco quando completei 5 anos. As tropas comunistas se aproximavam da cidade. Podíamos ouvir os disparos e os tiros de canhões dia e noite. Havia tropas nacionalistas na cidade. Demorou um longo tempo até os comunistas esmagarem as defesas. Balas perdidas sobrevoavam nosso teto como gafanhotos, destruindo muitas telhas. Ninguém se atrevia a sair de casa.
Quando o frasco de colírio acabou, e apesar do caos e dos perigos, meus pais insistiram em sair para conseguir mais. Eles partiram no início da manhã e voltaram antes do anoitecer, exaustos, perturbados. Com a iminência da derrota do governo nacionalista, todos os estrangeiros em Chongqing, incluindo os missionários, haviam se retirado. Quando meus pais chegaram, o hospital já se achava deserto. O tiroteio prosseguiu por mais três dias e em seguida, de forma bastante abrupta, cessou. Minha avó disse que as tropas comunistas haviam tomado a cidade. Houve fogos de artifício. As pessoas dançavam e cantavam. Chongqing estava “liberta”.
Era tudo destino. A fundação da nova China comunista furtou-me de minha visão, mas eu sabia que nunca diria isso em público. Por poucos anos seguintes, ainda pude enxergar a luz e podia distinguir as pessoas por suas sombras, mas, gradualmente, retornei à escuridão. Meus pais continuavam tentando encontrar a cura que o médico estrangeiro lhes oferecera. Cada vez que me levavam a um médico chinês diferente, ele ou ela dizia sempre a mesma coisa: era tarde demais. Meus olhos estavam encolhendo. Se você olhar para mim agora, verá que minhas órbitas oculares parecem vazias.
No final, desistiram e atentaram para a outra advertência do mestre, de que eu deveria aprender uma técnica para poder me sustentar por conta própria. Eu era bastante inteligente na época e bastante disposto. Descobri assim que tinha talento para a música e gostei disso. Ficou decidido, então, que eu deveria me tornar um músico cego.
A rua na frente de casa era apelidada de Rua dos Artistas. Muitos músicos e artistas de rua — dançarinos, acrobatas, violinistas, tocadores de erhu e flautistas — gostavam de se reunir ali. Eu seguia os músicos por todo canto e adquiri algumas técnicas. Um vizinho, que eu chamava de tio Yuan, ensinou-me a tocar flauta. Não muito depois, tive aulas de erhu com o sr. Li, um cego que morava perto. Em pouco tempo, podia me apresentar sozinho. Eu estava distante de ser um tocador de erhu ou um flautista de primeira classe, mas era capaz de tocar algumas músicas razoavelmente bem.
Tínhamos de compor um monte de músicas revolucionárias a fim de angariar apoio para as diversas campanhas políticas nacionais e locais, tais como a guerra contra os americanos na
Coreia, o Movimento Três Anti, [12] as campanhas de prevenção contra incêndio e roubo e de exposição de espiões imperialistas, a aliança sino-soviética, a campanha Antidireitista e o Grande Passo Adiante. Tivemos de criar muitas canções, mas eu as aprendia muito rápido. Só precisava ensaiar um par de vezes e já conseguia memorizá-las.
Havia antigamente uma canção para alertar pessoas contra espiões imperialistas: “Quando está escuro, é preciso trancar a porta. Se um estranho bate, é preciso perguntar, é preciso pensar antes de falar. É preciso abrir os olhos e aguçar os ouvidos, pois talvez a pessoa esteja coletando informações”. Outras canções encorajavam pessoas a protestar contra os contrarrevolucionários e direitistas.
O comitê de rua me designou para tocar erhu numa pequena orquestra. Eu havia memorizado milhares de músicas e conquistado uma série de prêmios. Durante a fome, as pessoas estavam na miséria, mas o governo insistia em nos enviar para apresentações. Eu era muito jovem. Não recebia salário, mas ganhava um monte de cupons, que podiam ser trocados por alimentos, mas que só funcionavam quando havia comida para trocar. Minha família passou fome diversas vezes.
Liao: O que você tocava nos anos da fome? Wen: As velhas canções revolucionárias otimistas de sempre, louvando a grande liderança do partido e cantando sobre a vida maravilhosa que tínhamos. Como eu trabalhava duro, continuei a ganhar prêmios. Nos encontros públicos para deficientes, o presidente do comitê de rua me chamava ao pódio e me entregava um certificado vermelho. Após o encontro, eu podia trocar o certificado por uma tigela de batata-doce. Nossa trupe de apresentação se dispersou durante a Revolução Cultural, pois muitas trupes revolucionárias de canto e danças se formaram. Não precisavam mais de pessoas deficientes para apresentações. De modo que fiquei desempregado.
Liao: Você foi afetado de outras maneiras pela Revolução Cultural? Wen: Não, pelo menos não no início. Eu apenas permanecia em casa, sem coisa alguma para fazer. Nos últimos dias da Revolução Cultural, com todo mundo cansado das limitadas opções de entretenimento, alguns jovens começaram a me visitar. Eu os ensinava a tocar erhu, e, por isso, minha casa vivia cheia. Eu ensinava as velhas canções da década de 1950, até algumas canções românticas do período pré-comunista. Eu acompanhava o canto deles com meu erhu ou minha flauta. Vez ou outra, eu resgatava alguns LPs antigos do sótão e tocava para eles num velho gramofone. Também escutávamos rádios de ondas curtas e ouvíamos programas musicais do exterior. Tínhamos de ser cautelosos, pois qualquer um apanhado ouvindo rádios de ondas curtas era enviado para a prisão. Mas os jovens gostam de correr riscos, de modo que nos divertíamos muito. Logo, porém, o comitê de rua soube disso e me denunciou à polícia, com a acusação de que eu dirigia um “clube clandestino”. A polícia apareceu certa noite e revistou minha casa. Levaram-me para interrogatório. Não encontraram nada, e eu fui liberado. No decorrer dos anos seguintes, revistaram minha casa no meio da noite diversas vezes. Eu vivia entrando e saindo do centro de detenção. Mas, por eu ser cego, eles encontravam dificuldade em me prender.
O presidente Mao finalmente morreu. A Revolução Cultural terminou. Eu tinha de ganhar a vida. Tentei me apresentar nas ruas e descobri que as pessoas apreciavam minha música. Consegui o bastante para sobreviver. A polícia me perturbava de vez em quando. Eles confiscavam meus instrumentos musicais ou me detinham por alguns dias. Logo que me liberavam, eu voltava às ruas. Acho que eles simplesmente não sabiam o que fazer comigo.
São trinta anos desde que comecei minha carreira de músico de rua. Sou um veterano hoje em dia. A mídia tem escrito muitas histórias positivas a meu respeito. Mas a polícia ainda me vigia de perto, me detendo e me aplicando multas. Estou acostumado com isso.
Liao: Por que você tem um pôster dos Beatles em sua parede? Wen: Eu adoro as músicas deles. Algum dia, espero viajar para o exterior e tocar nas ruas da América. E quando estiver lá, quero descobrir que tipo de colírio o missionário americano me ofereceu. Isso tem me incomodado por anos e anos.
Liao: Ainda assim, se você não tivesse perdido a visão, não teria sido o brilhante músico de rua que você é.
Epílogo
O que havia no colírio do missionário que quase salvou a visão de Wen Huachun? Consultei Liu Shahe, um famoso historiador em Chengdu. “Óleo de peixe”, disse ele. “É um suplemento comum para os padrões de hoje. Mas, para o povo das montanhas, dificilmente se encontrava peixe no cardápio, e óleo de peixe, que ajuda o organismo a absorver nutrientes, era algo impensável. Quem imaginaria que os olhos precisam de alimentação, assim como a boca? Bem, os médicos ocidentais descobriram isso, extraíram óleo de peixe e o transformaram em colírios.”
De acordo com Liu, colírios feitos de óleo de peixe ajudaram muitas pessoas cegas na China antes da revolução comunista.