Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 15 de 21

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Deus é Vermelho

Parte 3: Pequim e Chengdu

Parte 3

PEQUIM E CHENGDU

Capítulo 13

A VISITA SECRETA

 

u Wenli era um notório ativista dos direitos humanos, e não deve surpreender que, em sua apertada casa com pátio na rodovia Baiguang, em Pequim, eu

X encontrasse pela primeira vez um membro do movimento clandestino chinês de

“igrejas domésticas”. Isso aconteceu em julho de 1998. Sedento por um pouco de chá, eu parara na casa de meu amigo, que tinha outro visitante, um homem de meia-idade com óculos, que me foi apresentado como Xu Yonghai, um neurologista. Acenamos um para o outro com a cabeça. Os dois Xus não eram parentes, mas pareciam irmãos, ambos magros e pálidos, de rosto fino; Wenli calvo no topo, Yonghai perdendo lentamente o cabelo.

Após a habitual troca de cumprimentos, Wenli fez sinal para que eu me sentasse e disse, como se pedisse desculpas: “Deixe-me só concluir a conversa com Yonghai”. Sentados próximos um do outro, a dupla sussurrava, mas com os fragmentos de conversa que pude reunir, deduzi que planejavam imprimir alguns materiais proibidos. Yonghai estava tenso e, quase de minuto em minuto, erguia a cabeça furtivamente e olhava para fora a fim de ver se havia alguém lá. Aparentemente eles haviam terminado suas atividades quando Yonghai se aproximou de mim e sussurrou: “Temos de ser cuidadosos. Acho que a casa de Wenli está grampeada”. Assenti com a cabeça, reconhecendo sua cautela.

Ele queria a ajuda de Xu com uma publicação para os membros das igrejas domésticas de Pequim e, com entusiasmo, falou sobre o conceito de salvação por intermédio de Deus. Eu sabia pouco sobre o cristianismo na época e estava interessado no que ele tinha a dizer, mas no fundo rejeitei seu proselitismo. Por fim, eu disse:

— Eu não vou à igreja.

Ele riu:

— Eu também não vou à igreja... Elas são todas controladas pelo governo.

Quatro meses depois, após retornar a Sichuan, descobri que haviam sentenciado Wenli a treze anos de prisão por fundar um partido de oposição na China. Soube ainda que, pouco antes da prisão, Yonghai ajudou a remover o manuscrito do meu livro Meus testemunhos que eu havia escondido na casa de Wenli, mas que agora se achava num lugar mais seguro.

Yonghai e eu conversamos algumas vezes por telefone até eu descobrir, em 2002, que seu aparelho havia sido desligado. Por meio de informantes, descobri também que o neurologista era pregador e líder nas “igrejas domésticas” em Pequim. Depois que sua casa foi marcada para ser demolida por uma empresa particular, Yonghai liderou um protesto de moradores contra o tratamento injusto, mas as numerosas petições por ajuda ao governo foram ignoradas. Após sua casa ser reduzida a escombros, considerou o suicídio como forma de firmar um posicionamento, mas foi dissuadido pelos companheiros cristãos. Contaram-me que ele havia abandonado seu consultório médico e se dedicado a seguir o caminho de Deus. Em 2004, li uma reportagem dizendo que Yonghai e outro cristão, Liu Fenggang, foram detidos enquanto pregavam o evangelho na província de Zhejiang. O governo bloqueou qualquer informação sobre o paradeiro ou a saúde dele. Ocasionalmente, via postagens on-line de sua esposa, a enfermeira Li Shanna, que convocava os companheiros cristãos a orar pela segurança do marido. Yonghai passou três anos na prisão.

Curioso sobre a história de Yonghai, decidi que precisava entrevistar um cristão das “igrejas domésticas” para compreender melhor o que os impulsionava a rejeitar a alternativa sancionada pelo governo. Voltei a Pequim em fevereiro de 2004, quando uma amiga pregadora, Liu Min, ligou para dizer que tinha um número de telefone para mim, caso eu quisesse conversar com Yuan Xiangchen, uma figura respeitada na comunidade cristã no norte da China. Entrei em contato com a esposa dele de 86 anos, e ela concordou em se encontrar comigo. Anotei o endereço e as instruções de como chegar até lá de metrô. Entusiasmado com a rara oportunidade de conversar com um casal cristão cuja vida atravessou grande parte do século 20, convidei uma documentarista de Taiwan, que atendia pelo nome de srta. Wen e que havia feito diversos filmes sobre questões sociais em sua terra.

Uma semana depois, nós três nos encontramos na estação de metrô de Xuanwumen. Ondas de vento frio e árido dos altos edifícios cinzentos açoitavam nosso rosto de forma implacável. Nós nos encolhemos e, instintivamente, apertamos os braços sobre o peito. Antes de descermos as escadas até as plataformas de trem, Liu Min avistou uma igreja católica no acostamento da rodovia, o sol pálido de inverno assinalando uma camada dourada na cruz que se erguia sobre o campanário da igreja. Liu sugeriu uma rápida visita. Dentro do amplo salão de oração, Liu se ajoelhou no piso para uma breve prece.

Embarcamos no metrô e descemos no Hospital Yangqiao. Liu Min, uma nativa de Pequim que, supostamente, era nossa guia, se perdeu. Demoramos, assim, outra meia hora para atingir nosso destino.

— Queremos visitar o tio Yuan — disse Liu Min ao guarda de segurança do edifício, que conseguimos encontrar com a ajuda de estranhos. — Ele mora no segundo andar.

— Quem é você? — perguntou o guarda, mas Liu Min o ignorou e apertou a campainha do apartamento 202.

A srta. Wen, que não conhecia muito bem a rígida situação política da China, tirou a câmera de vídeo da mochila e começou a filmar. Sua ação chamou a atenção do guarda. Naquele momento, porém, um morador que estava de saída abriu a porta principal e nós entramos.

O apartamento do reverendo Yuan Xiangchen era pequeno, mas confortável. Havia uma cruz na parede e vários pergaminhos em que estavam escritos provérbios bíblicos. Um retrato de família acima do sofá — de Yuan e a esposa cercados por mais de trinta pessoas — apresentava quatro gerações de uma família numerosa, e pude identificar mais de dez rostos na relativamente espaçosa sala de estar. Liu nos apresentou e depois se sentou perto da esposa de Yuan. Elas nunca haviam se encontrado, mas agiam como se conhecessem uma à outra há anos. Senti-me um pouco desconfortável perto de Yuan, que possuía a aura de parecer maior do que sua pequena ossatura deveria sugerir. Yuan tinha dificuldades auditivas, e, cada vez que eu dizia algo, ele moldava a mão direita em forma de concha sobre o ouvido a fim de captar minhas palavras. Para quebrar a tensão, Liu contou algumas histórias de amigos ativistas cristãos e seus quase sempre cômicos encontros com oficiais da polícia. Logo, todos estavam à vontade e sorrindo.

Peguei meu gravador e o bloco de anotações, a srta. Wen montou sua câmera sobre uma mesa próxima, e, ao sinal dela, comecei a entrevista mencionando a aparição de Yuan no documentário de Yuan Zhiming, A cruz: Jesus na China. Assim que Yuan começou a falar sobre seu envolvimento inicial na igreja, alguém bateu na porta.

O ar parece de fato congelar quando pessoas numa sala cheia ficam tensas exatamente no mesmo momento, e depois tremula de forma difusa, como um arco teso por completo. Num instante, a câmera de vídeo, o gravador e os materiais de leitura cristã desapareceram como os objetos num número de mágica. O filho mais velho de Yuan atravessou a sala em silêncio e colocou o ouvido na porta. Toc, toc, toc. O filho tossiu e perguntou em tom casual:

— Quem é?

— Somos a polícia da sucursal local.

— Por quê? O que aconteceu? — perguntou o filho de Yuan através da porta.

— Alguns vizinhos relataram que três estranhos com uma câmera de vídeo vieram a sua casa para entrevistas — disse a voz lá fora.

— Não há nenhuma entrevista aqui — respondeu o filho.

— Abra a porta. Estamos aqui para realizar uma verificação de rotina.

O filho de Yuan olhou ao redor para certificar que todos estavam prontos e, enfim, como se o diretor tivesse acabado de gritar “ação”, girou a maçaneta da porta.

Um oficial de polícia uniformizado, que disse estar no comando do distrito, e uma mulher, que se apresentou como a nova diretora do comitê de rua, foram convidados por Yuan a sentar. O policial olhou para mim, Liu e a srta. Wen:

— São vocês que estão realizando uma entrevista midiática aqui?

A esposa de Yuan disse:

— Ninguém está fazendo entrevistas midiáticas. Eles são companheiros cristãos. Estão aqui para uma visita casual.

O oficial se dirigiu a nós novamente:

— Vocês são todos amigos cristãos de Yuan?

— Sou cristã — disse Liu. Soube que o tio Yuan está doente. Então parei para uma visita rápida. Esses dois são meus amigos.

Balancei a cabeça e disse:

— Sim, estou curioso sobre a igreja e quero conversar com o sr. Yuan.

O oficial se virou para a srta. Wen:

— E você?

A srta. Wen corou — seu sotaque taiwanês a denunciaria — e, com rapidez, apontou para a garganta com um dedo.

— O que significa isto?

A srta. Wen abriu a boca, gesticulando com as mãos, os olhos piscando por trás dos óculos grossos.

Liu disse:

— Ela tem uma terrível infecção de garganta e não pode falar.

— OK, se ela não pode falar... — disse-lhe o oficial, o que significava que ele ao menos aceitava que Liu representasse o restante de nós — me diga quais temas vocês estão planejando discutir aqui.

Liu era esperta e transformou a interrogação numa palestra sobre o cristianismo. “No princípio...” até a ressurreição de Cristo. Ela era uma pregadora nata, confundindo o oficial e a diretora do comitê de rua. Os dois pareciam desnorteados. O policial tentou interromper Liu, mas ela não lhe dava oportunidade. Ele então desistiu e a deixou falar. O tempo passou bem rápido, e, quando estava pronta para uma pausa, Liu sorriu e perguntou ao oficial:

— Você tem alguma pergunta?

O policial balançou a cabeça, mas a diretora do comitê perguntou:

— Por que as pessoas acreditam em Deus? O que isso faz de bom por nós?

A sala riu e, embora enrubescida pelo constrangimento, ela também. Pensei que estávamos a salvo, quando o telefone do oficial tocou. Ele saiu. Olhamos uns para os outros, nervosos. Logo ele voltou, e Liu começou a responder à pergunta da diretora do comitê quando o telefone tocou novamente. Dessa vez, ele retornou com um policial mais velho, que entrou e cumprimentou Yuan como quem cumprimenta um amigo. Era o diretor adjunto da sucursal local do Gabinete de Segurança Pública. Ele exigiu ver nossa carteira de identidade. Eu sabia que a srta. Wen não possuía uma carteira de identidade, e a minha era de Sichuan.

— Quem andaria por aí com esses documentos durante o dia? — perguntei, tentando parecer irritado. — As coisas não são mais como se ainda estivéssemos na época da Revolução Cultural.

Liu apresentou sua identidade e disse:

— Eu trabalho para uma companhia americana. Posso me responsabilizar por eles?

O diretor adjunto pensou por alguns minutos, segurou a carteira de identidade de Liu e pediu que escrevêssemos nosso nome, telefone e endereço. A srta. Wen e eu colocamos nomes falsos. Liu usou seu nome real, bastante popular e partilhado com dezenas de milhares de pessoas em Pequim.

Com a audiência aumentada, Liu simplesmente prosseguiu de onde havia parado. Nossos “servidores públicos” pareciam atentos, balançando a cabeça vez ou outra, como se realmente a escutassem. Ela continuou a pregar, mas a tensão era palpável. O telefone do diretor adjunto tocou quatro vezes. A cada vez, o rosto de Liu se mostrava tenso, os olhos buscando involuntariamente os meus. O rosto da srta. Wen permanecia austero e enigmático. Yuan se impacientou. Por duas vezes, perguntou ao diretor adjunto:

— Você tem alguma outra pergunta para nós?

Sua mensagem implícita era: “Por favor, tirem o traseiro de vocês daqui. Não nos incomodem mais”. Mas eles continuavam sentados.

Impasse.

No momento em que dissemos adeus, eles também se despediram. Um dos filhos de Yuan entregou um pedaço de papel dobrado em minha mão. Andamos por um tempo depois que deixamos o edifício, os olhos atentos ao redor, como ladrões, mas não havia ninguém nos seguindo. Paramos um táxi e pulamos a bordo. O papel dobrado dizia: “Esperem na igreja católica próxima da estação de metrô”. Liu passou as instruções ao motorista, e chegamos ali em tempo hábil, mas nos surpreendemos por encontrar, ao entrarmos no pátio, um Audi novo estacionado perto da entrada. Eu desconfiava de automóveis Audi novos desde que notei um similar diante da casa de um amigo dissidente que eu visitara vários dias antes. Na ocasião, assim que entrei, diversos policiais desceram do Audi, seguraram a porta e me empurraram para fora. Por fim, percebi que não havia motivo para preocupação. Observamos o Audi estacionado diante da igreja por cerca de meia hora, quando um jovem com um bonito terno saiu e foi embora com o carro.

Nós três procuramos abrigo contra o vento frio sob a entrada arqueada da igreja. Eu disse que Liu me lembrou um personagem comunista ilegal num drama popular da televisão.

— Você enfrentou seus inimigos com inteligência e tranquilidade — disse, usando um dos clichês comuns do programa.

Liu simulou seriedade.

— Eu estava morrendo de medo — disse, com uma voz infantil, e todos nós rimos e andamos ao redor da igreja para nos manter aquecidos.

Após uma hora, aproximadamente, o segundo filho de Yuan, Yuan Fusheng, apareceu, carregando uma sacola de plástico. Dentro dela, a câmera de vídeo, o gravador e meu bloco de anotações, embrulhados em camadas de jornais antigos. Yuan Fusheng, de aparência magra e frágil, tinha muita experiência no trabalho com a igreja clandestina.

Yuan Fusheng me passou um número de telefone para que pudéssemos reagendar nossa entrevista. Já estava escurecendo quando nos despedimos. No caminho de volta, notei que o céu se enchia de nuvens vermelhas, a cor banhando tudo abaixo, as ruas e os carros, os prédios e as pessoas.