Deus é Vermelho

Liao Yiwu · Capítulo 16 de 21

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Deus é Vermelho

14. O pastor clandestino

Capítulo 14

O PASTOR CLANDESTINO

 

pós a tentativa frustrada de entrevistar o reverendo Yuan Xiangchen, personagem notório na comunidade cristã clandestina em Pequim, contatei seu segundo filho,

A Yuan Fusheng, em 3 de março de 2004. Yuan Fusheng ajudava o pai a ministrar

aos cristãos que recusaram frequentar as igrejas oficiais que operam sob o controle governamental na capital.

Era, necessariamente, uma entrevista secreta, conduzida na relativa segurança de um lugar público, no caso um McDonald’s próximo ao Templo da Terra. Nós dois chegamos adiantados e, após nos vermos, andamos separadamente em direções diferentes por um momento para assegurar-nos de que não havíamos sido seguidos. Eu tinha visto vários policiais nas ruas, já que o Congresso Popular Nacional se encontrava em sessão. Atravessamos a ponte de pedestres e entramos no McDonald’s lotado de adolescentes apaixonados por hambúrgueres. Encontramos uma mesa num canto relativamente tranquilo, e comprei uma Coca-Cola para cada um. Coloquei o gravador sobre a mesa, cobri-o com um guardanapo e o aproximei de Yuan.

“Há muita tensão hoje”, sussurrou Yuan. “É sempre assim nesta época do ano. Meu pai está sob estreita vigilância. Farei a entrevista em nome dele. Meu pai espera que você possa nos visitar novamente.”

Eu fingia observar um jovem casal sentado à mesa oposta e balancei a cabeça após suas palavras.

“No momento, meu pai organiza uma vigília para um pregador, dr. Xu Yonghai, que foi preso ao propagar o evangelho na província de Zhejiang. Num culto, não muito tempo atrás, meu pai disse que o dr. Xu é um exemplo maravilhoso para todos os jovens cristãos.”

Alegrei-me por ouvir a menção do nome de Yonghai. Meus olhos continuavam a se mover em torno do restaurante, sondando rostos, alerta a qualquer coisa fora do comum. E assim conversamos por três horas.

 

Yuan Fusheng: O nome de meu pai é Yuan Xiangchen. Nasceu em junho de 1914. Ele esqueceu a data exata, mas prefere celebrar o dia em que renasceu, quando se tornou cristão: 29 de dezembro de 1932. Meu pai diz que cada pessoa deveria ter dois aniversários, um para o corpo e outro para a alma. Quem o batizou foi o reverendo Wang Mingdao, na água pura do riacho que vem do Palácio de Verão, bem atrás da montanha Wanshou.

Meu pai nasceu na cidade de Bengbu, província de Anhui. Meu avô era natural de Guangdong. Quando jovem, meu avô trabalhou na construção da ferrovia Pequim-Guangdong, e a família inteira se mudou para o norte, de Guangdong para Bengbu, e por fim se estabeleceu em Pequim. Meu avô havia recebido uma educação ao estilo ocidental num colégio chinês, e, após trabalhar com os ocidentais na construção da ferrovia, seu inglês se aperfeiçoou bastante. Meu pai nasceu, portanto, numa família ocidentalizada. Aos 13 anos, entrou numa escola administrada pela Associação Cristã de Moços, estudou inglês e memorizou diversas passagens da Bíblia.

Os anos da adolescência foram difíceis. A mudança constante dos pais não lhe permitia criar raízes. Por um tempo, ele mergulhou em profunda depressão e tentou o suicídio duas vezes plugando uma tesoura numa tomada elétrica. Meu pai diz que dois professores exerceram enorme influência sobre ele. Um era americano, de nome chinês Xiao Anna, e o outro era chinês, Shi Tianmin, ambos cristãos devotos. Eles lhe ensinaram ciência moderna e o novo pensamento social defendido pelo dr. Sun Yat-sen após a queda da dinastia Qing e o nascimento da nova república. Eles também propagavam o evangelho. Meu pai se interessou por religião e foi apresentado ao reverendo Wang Mingdao.

No verão de 1934, meu pai concluiu seu ano de calouro numa escola do ensino médio. Os pais queriam que ele continuasse a estudar, obtivesse a graduação e conseguisse um emprego para que pudesse se casar, ter filhos e viver uma vida confortável. Mas meu pai resistiu. Ele abandonou a escola. Inspirado pela Bíblia, matriculou-se num seminário em Pequim, afiliado ao Colégio de Teologia do Extremo Oriente. Estudou ali por quatro anos. No verão de 1936, uniu-se a outros duzentos mil cristãos e participou de um retiro nacional de leitura e consulta da Bíblia. Em 1937, começou a publicar artigos inspiradores e traduziu do inglês para o chinês um manual para pregadores.

Naquele ano, o Japão invadiu a China. Foi um momento caótico. Sua futura esposa e minha mãe, Liang Huizchen, havia fugido da terra natal e chegado a Pequim após a ocupação japonesa. Ela também era cristã, e os dois se conheceram e se apaixonaram. Depois que meu pai concluiu os estudos no seminário, os dois ficaram noivos e se casaram em Pequim, em julho de 1938. O casamento foi metade ocidental e metade chinês, e com isso quero dizer que ele usou um terno, e ela usou um vestido de noiva ao estilo ocidental, mas foram levados à recepção numa carroça chinesa puxada por cavalos. Muitos cristãos chineses e missionários estrangeiros participaram do casamento.

No ano de 1939, minha mãe engravidou do meu irmão mais velho. Na mesma época, meu pai foi convidado pelo reitor do seminário a ficar como tradutor, o que lhe proporcionaria uma renda modesta para sustentar a família. Mas meu pai declinou, optando por ajudar a espalhar o evangelho nas áreas rurais. Assim, com a esposa e o filho, ele acompanhou um ministro evangélico americano para pregar no sul da província de Hebei e em partes da província de Shandong. Após o ataque a Pearl Harbor, as tropas japonesas cercaram os americanos e os colocaram num acampamento na comarca de Wei em Shandong. Uma noite, os soldados japoneses levaram o ministro americano, a esposa e seus dois filhos. O apartamento de meu pai também foi saqueado. Minha mãe era jovem e bonita e por muitos anos manchou o rosto com fuligem para evitar ser notada. Ela e meu irmão se escondiam num porão atrás da igreja.

Meu pai, relutante em desistir, mudou-se com a família para uma aldeia e vivia e trabalhava com os lavradores. A porção sul da província de Hebei estava, durante o dia, sob o comando das tropas japonesas. À noite, agitava-se um movimento de resistência organizado por guerrilhas comunistas. Com sua bicicleta, meu pai viajava a diferentes aldeias para pregar. Ele sempre carregava dois tipos de licença e de moedas, uma emitida pelos japoneses e outra pelos comunistas chineses. Cada vez que entrava numa das partes, tinha de pagar uma taxa na moeda respectiva, embora se declarasse neutro. Sua pregação atingiu um amplo número de aldeões. Ele havia se transformado completamente de um intelectual urbano em um lavrador, vestindo agasalhos pretos infestados de pulgas e comendo trigo puro e bolos de milho. Pregava dentro das aldeias ou nas margens da lavoura. Era tão dedicado que, quando seu pai faleceu, ele, o filho único, não teve sequer a chance de voltar para casa e dizer adeus.

Em 1945, na véspera da rendição do Japão, meu pai retornou a Pequim para cuidar da mãe, gravemente doente. Ele continuou a pregar numa igreja próxima e realizava trabalhos ocasionais para sustentar a família. Na época, a família havia aumentado para sete membros. Meu pai esperava que a situação melhorasse para retornar ao campo, onde se sentia mais necessário. Depois que as tropas japonesas deixaram a China, no entanto, os comunistas e os nacionalistas se envolveram numa guerra civil. Meu pai se inquietou. Ele orava sem cessar, tentando descobrir o plano de Deus para si. Nessa época, descobriu uma igreja cristã japonesa na rua Fuchengmen, 160. O pastor japonês havia fugido da China, e o governo nacionalista fechou a igreja. Meu pai conseguiu persuadir os oficiais do governo a deixar que ele alugasse a igreja. O aluguel mensal equivalia a 150 quilos de arroz. Com alguns bicos, ele providenciava suporte financeiro para a igreja e para a família. De certo modo, foi uma benção. A experiência reforçou sua habilidade como organizador, assim como seu espírito independente. Ele recusou qualquer ajuda de organizações governamentais, insistindo que a igreja deveria ser um lugar santo, sustentado pelos seguidores de Deus.

No final de 1948, com as tropas nacionalistas próximas da derrota, a situação em Pequim se deteriorou. Muitos missionários e cristãos deixaram a China. Meu pai decidiu permanecer. No dia 3 de fevereiro de 1949, tropas comunistas entraram em Pequim e desfilaram diante da igreja na Fuchengmen. Três semanas mais tarde, líderes de várias denominações religiosas se reuniram para discutir a forma de sobreviver num governo ateu. No encontro, meu pai pediu calma, pois os comunistas haviam anunciado que as pessoas poderiam usufruir de liberdade religiosa. Ele também acreditava que a religião deveria ser mantida separada da política secular. Sempre nos dizia: “Cristãos chineses devem possuir sua própria igreja independente. Devemos nos mover na direção da autossuficiência”.

O novo governo, no início, estava ocupado em manter a ordem e construir bases de apoio entre todos os setores da sociedade. O setor religioso teve autorização para operar sem interrupção. Um dia, meu pai levou vários de seus seguidores às ruas. Eles batiam tambores e gongos para atrair pessoas à igreja. Em pouco tempo, atraiu uma grande multidão. Ele também chamou a atenção dos soldados comunistas que patrulhavam as ruas. Os soldados dispersaram a multidão e levaram meu pai à Comissão de Controle Militar. Interrogaram-no brevemente. Ele citou a política de “liberdade religiosa” do governo como defesa. Ele ainda estava argumentando quando os interrogadores lhe disseram, de forma polida: “Você certamente pode desfrutar sua liberdade. Nós acabamos de tomar o controle e libertar a cidade. Há caos por toda parte. Pessoas com todo tipo de formação estão circulando por aí. Você não deveria pregar lá fora”. No fim, o líder militar permitiu que ele saísse sem causar nenhum transtorno.

Dentro do Partido Comunista, havia, na época, uma política interna para restringir as atividades religiosas, reformar os adeptos e, por fim, eliminar todas as práticas religiosas na China. No mundo da religião, nem todo mundo era tão santo quanto afirmava ser.

Liao Yiwu: Você está se referindo a Wu Yaozong? Yuan: Sim, estou me referindo ao sr. Wu, assim como a outras personalidades religiosas, como Ding Guangxun e Liu Liangmo. Vou lhe fazer uma breve contextualização sobre Wu Yaozong. Ele nasceu em 1893 e se tornou cristão cedo. Wu estudou num seminário em Nova York antes de retornar à China como ministro ordenado. Quando os comunistas tomaram a China, Wu tornou-se um grande apoiador do regime e aceitou a ideologia comunista. Ele dizia que havia experimentado as duas principais transformações na vida. A primeira foi ter recebido o cristianismo como sua fé, passando de um ateu a um homem com uma crença; a segunda foi sua aceitação das teorias sociais marxistas, que eram antirreligiosas. Sem nenhum pudor, ele misturava suas crenças religiosas com a ideologia comunista ateísta.

Wu foi eleito membro do Comitê Nacional de Conferência Consultiva das Políticas Populares Chinesas. Ele se reuniu três vezes com o primeiro-ministro Chu En-lai para traçar as estratégias de reforma do cristianismo na China. Seu plano era cortar todos os laços com os “imperialistas estrangeiros” e adotar os princípios de governo autônomo, sustentação autônoma — isto é, livre do apoio financeiro estrangeiro — e propagação autônoma, que significava trabalho missionário nativo. Esses são os princípios das Três Autonomias. Logo após o plano de Wu se tornar público, a China se juntou à guerra contra os americanos na Coreia. Os princípios das Três Autonomias rapidamente se transformaram num movimento patriótico. Todos os cristãos na China tinham de escolher entre “apoiar o próprio país” e “apoiar os imperialistas estrangeiros”. Virou fanatismo. Se não expressasse abertamente seu patriotismo, você era um contrarrevolucionário. Por volta de 33 mil cristãos na China assinaram apoio ao chamado Movimento Patriótico das Três Autonomias.

Apesar da pressão política, muitos cristãos mantiveram-se firmes e rejeitaram os princípios das Três Autonomias. Nessa época, havia aproximadamente sessenta igrejas e organizações cristãs em Pequim. Líderes representantes de onze igrejas declararam publicamente seu desacordo, dizendo que as igrejas na China já haviam adotado os princípios de governo autônomo, sustentação autônoma e propagação autônoma. Não havia necessidade de assinar novamente. Incluído entre esses corajosos líderes eclesiásticos, estava o amigo de meu pai, Wang Daoming.

Meu pai não estava entre os veementes líderes, mas havia muito defendia a separação entre a igreja e a política. Sua frase favorita era: “Deixe Deus cuidar de seus afazeres, e César tratar dos dele”. Nossa igreja não deveria ser usada para promover os interesses do Partido Comunista. Sua posição o indispôs com muitos de seus seguidores, e vários o abandonaram. A partir de 1952, os oficiais do governo passaram a envolvê-lo em conversas, pressionando-o a passar para o lado deles. Meu pai rejeitou as solicitações e recusou participar das sessões de estudo político.

No início, oficiais dos escritórios religiosos locais faziam visitas, na tentativa de convencê-lo a mudar de ideia. Agiam de modo semelhante ao dos oficiais de polícia em nossa casa naquele dia. Por volta de 1955, a tolerância do governo chegou ao fim. Acabou por ser a maior calamidade desde a Rebelião Boxer em 1900, quando mais de vinte mil cristãos foram assassinados. Em 1955, mais de mil igrejas foram incendiadas. Dezenas de milhares de cristãos foram detidos. Milhares e milhares foram executados sob a acusação de pertencerem a seitas. Em Pequim, o governo acreditava que os líderes religiosos rebeldes se intimidariam com o que acontecia nas outras partes do país. O presidente Mao chamava isso de “cercar seus inimigos”.

Liao: Ainda assim, ninguém se apresentou para apoiar o Movimento das Três Autonomias? Yuan: Exato. Na noite de 7 de agosto de 1955, o reverendo Wang Mingdao e sua esposa foram presos, juntamente com dezenas de outros pregadores.

Liao: Os líderes eclesiásticos pegavam longas penas de prisão. Yuan: De quinze anos à prisão perpétua. Sob a ameaça de tortura física, o reverendo Wang escreveu uma confissão, e soltaram-no imediatamente, mas ele foi assombrado por sua traição. A tortura espiritual era mais dolorosa do que a tortura física. Ele se entregou à polícia. Disse: “Passarei o resto do meu tempo na prisão para que possa aplacar a ira do Senhor”.

Meu pai também vacilou. Após as prisões de 7 de agosto, muitos pregadores, inclusive meu pai, cederam à pressão e participaram das sessões de estudo político. Um oficial comunista lhe disse: “Você ainda é jovem e tem um futuro brilhante pela frente. Você deveria tentar se reformar”. Ele encorajava meu pai a expressar abertamente seu apoio às políticas do partido nas sessões, mas meu pai optava por permanecer em silêncio. No fundo, ele estava dividido. Por fim, depois de orações e refletir, ele tomou sua decisão, e em 1957, quando convocado a declarar seu apoio aos princípios das Três Autonomias, disse que a política religiosa do governo era injusta. A liberdade religiosa era garantida na Constituição chinesa, mas os cristãos já não podiam desfrutar dela. Alguns cristãos, os favoritos do novo governo, abraçaram os princípios das Três Autonomias, mas eram hipócritas. Quando os japoneses apareceram, renderam-se aos invasores. Quando os americanos apareceram, trataram de participar de suas folhas de pagamento. Agora, congraçavam-se com o novo governo. Aquelas pessoas não eram patriotas. Eram simplesmente oportunistas que se aproveitavam da religião para servir os próprios interesses. Depois disso, meu pai disse que nunca se sentira tão exultante e liberto.

Em vez de prendê-lo, os grupos de estudo foram informados de que o governo requeria que cada um deles identificasse quatro “direitistas”, ou seja, pessoas que haviam se desviado da linha do partido. Desse modo, meu pai se tornara um inimigo do povo.

No entanto, uma vez que o declararam direitista, meu pai não precisava fingir ser politicamente progressista e parou de comparecer às sessões de estudo político. Ele permanecia em casa e manteve sua rotina de oração e estudo bíblico. Ele pregava. “O cabeça da igreja é Jesus, não um oficial do escritório de assuntos religiosos”, dizia quando os amigos pediam cautela. O pastor Qi, um velho amigo da família, disse a meu pai ao jantar conosco:

“Irmão Yuan, quero lhe dar alguns conselhos. Sei que você não ouvirá, mas, como amigo, sinto a obrigação de dizê-los. Você se encontra numa situação muito perigosa agora. Sob esse novo teto, eu o aconselho a curvar a cabeça e controlar seu temperamento. Se não for possível, você deve ao menos fingir ser submisso e continuar a comparecer às sessões de estudo político. Se continuar a ser teimoso e arraigado a seus pontos de vista, você pode enfrentar consequências inimagináveis. Faça isso pelo bem da sua família. Você tem de cuidar de sua mãe doente e de seus filhos. Se algo lhe acontecer, o que você espera que eles façam? Seus filhos carregarão o perverso rótulo de contrarrevolucionários pelo resto da vida. Não é justo com eles”.

O pastor Qi se emocionou enquanto falava. Lágrimas caíam por seu rosto. Meu pai não se comoveu. No fim, o pastor Qi disse: “Se os comunistas exigem que apoiemos as políticas das Três Autonomias, temos de aceitar. Que opções nós temos?”.

No final de 1957, o governo entrou em contato com a minha família pela última vez, a fim de “salvar” meu pai. Um diretor do Gabinete de Segurança Pública ligou para minha mãe e pediu que ela e minha avó comparecessem ao escritório local de assuntos religiosos. Quando chegaram, o diretor adjunto recebeu-as com alguns conselhos duros: “Convidei vocês na esperança de que possam conversar com Yuan Xiangchen e mudar seu modo de pensar. Como diz o ditado chinês: ‘Puxe as rédeas do cavalo à beira do precipício’. Não podemos aguentar a atitude complicada dele por mais tempo. Ele ainda é jovem, apenas 44 anos. Vocês deveriam ajudar o governo a resgatá-lo. Não confundam nossa benevolência com fraqueza. Se quisermos prendê-lo, nós o prenderemos num instante. Quando isso acontecer, a família inteira será prejudicada”.

Liao: O ditado “Puxe as rédeas do cavalo...” era usado durante a Revolução Cultural como um ultimato.

Yuan: Meu pai soube imediatamente o que aquelas palavras significavam.

Liao: Seu pai não poderia fazer algumas concessões em favor da família? Não havia justificativa para submeter a família a um sofrimento desses. Yuan: Ele havia pensado com cuidado sobre essas questões. Também se aconselhara com muitos amigos. Mas o maior infortúnio para um cristão não reside na calamidade que se abate sobre ele neste mundo. É a traição a Deus por causa das coisas seculares da terra. Ainda que você seja capaz de proteger seus parentes e posses materiais, sua alma será trancada para sempre nas trevas, sem perspectiva alguma de salvação. Meu pai acreditava que essa fosse a mais terrível calamidade.

Liao: Eu estive na cadeia por um longo tempo, mas ainda não consigo me ver tão determinado quanto seu pai. Se as autoridades usassem meus parentes e amigos como reféns para me ameaçar, forçando-me a desistir de minha fé, eu teria escrito confissões, mentido, feito o que fosse preciso.

Yuan: Mas você não cortaria a mão direita e juraria nunca mais escrever novamente, não é?

Liao: Claro que não.

Yuan: É o mesmo princípio. Meu pai não trairia sua fé, porque a fé era sua vida. Quando um indivíduo perde a vida, o que lhe resta para deixar à família?

Nessas longas noites sem dormir, meu pai se ajoelhava e orava por coragem. Ele tinha dois caminhos à frente: expressar sua disposição de mudar e se unir à igreja governamental das Três Autonomias, ou aceitar a prisão e a separação da família.

Meu pai orou por dez dias, período em que ninguém apareceu para importuná-lo. Ele começou a acreditar que, o governo pudesse ter mudado de ideia quanto a prendê-lo. Por volta das 11 horas da noite de 19 de abril de 1958, a polícia apareceu atrás dele. Bateram polidamente na porta. Dois policiais da divisão local aguardavam do lado de fora. Eles “convidaram” meu pai para uma rápida reunião no escritório local do Gabinete de Segurança Pública. Lá, vários policiais estavam a sua espera. Eles leram o mandato de prisão e o algemaram. Ele foi acusado de ser “um ativo contrarrevolucionário”. Ao mesmo tempo, um grupo de soldados revistava nossa casa, amontoando no chão e pisoteando cópias da Bíblia, hinários e outros materiais de leitura cristã. Eles abriam e esvaziavam malas, vasculharam todos os armários. Com barras de ferro, procuraram esconderijos sob o piso de madeira e nas paredes, arrancando partes da estrutura sempre que ouviam um som oco. Fizeram busca até no tanque usado nas cerimônias de batismo. Nada encontraram de incomum para um pregador. Nenhuma pepita de ouro, nenhum material anticomunista. Às 4h30 da manhã, os soldados partiram com uma carga de livros e tudo que tivesse algum valor. Nós, as crianças, permanecemos imóveis e observamos. Nunca esquecerei aquela noite.

Meu pai não voltou para casa novamente por 21 anos e 8 meses. Mamãe, agora esposa de um ativo contrarrevolucionário, foi destituída de seu emprego como diretora do comitê de rua. Meu irmão de 17 anos, que fora eleito líder de uma organização comunista juvenil, foi removido da posição na escola. Eles nos forçaram a sair da rua Fuchengmen, e nós oito nos apertamos numa casa minúscula de 15 metros quadrados na rua Baitasinei, que, ironicamente, integrava o que costumava ser a ala oeste da residência de um lama tibetano próximo ao templo da Torre Branca.

Para sustentar a família, minha mãe arrumou um emprego temporário na construção civil. Um trabalho pesado, árduo, que ninguém mais queria. Minha mãe era grata por qualquer emprego, embora mal pagasse alguma coisa.

Liao: Entre 1955 e 1958, ministros cristãos foram presos e igrejas por todo o país foram fechadas. Em Pequim, mais de sessenta igrejas foram unificadas em quatro, e, na Revolução Cultural, as quatro foram fechadas. De certa maneira, o governo conseguiu o que queria: a eliminação de toda atividade religiosa na China. Yuan: Mas eles não podiam controlar o que se encontra no coração das pessoas. Naqueles anos difíceis, nós nos juntávamos com nossa mãe em oração todos os dias. Um dia, ela não encontrou nada para alimentar os seis filhos. Ela ajoelhou e orou: “Deus, não temos arroz. Não temos farinha. Não temos nada para comer. Vai ser assim amanhã. Se o Senhor acha que devemos sofrer assim, nós iremos aceitar o sofrimento. Eu alimentarei as crianças com água quente...”.

No dia seguinte, uma mulher apareceu à porta. “É esta a casa do irmão Yuan?”, perguntou. Minha mãe balançou a cabeça. A mulher tirou um envelope do bolso e entregou-o a minha mãe. Dentro do envelope havia 50 iuans. Mamãe tornou o olhar para agradecer à mulher, mas ela havia partido. O dinheiro era suficiente para alimentar a família por dois meses. Mamãe se ajoelhou e ofereceu sua gratidão a Deus. Durante as duas décadas seguintes, recebemos regularmente dinheiro anônimo pelo correio.

Liao: Quando vocês descobriram o destino de seu pai? Yuan: Não tivemos notícias de seu paradeiro até novembro de 1958, quando um funcionário do tribunal local veio a nossa casa e entregou uma cópia do veredicto da corte para minha mãe. Ele havia pegado prisão perpétua. Quando enfrentavam a perseguição das autoridades seculares, os cristãos nunca recorriam. Assim, minha mãe manteve essa tradição. Teria sido inútil, de qualquer modo.

Em dezembro, meu pai nos enviou um cartão-postal de uma prisão em Pequim, que indicava a data de permissão de nossa primeira visita familiar. Minha mãe levou a mim, minha irmã caçula e minha avó para a rodovia Zixing.

A sala de espera estava lotada de visitantes. Pequenos grupos eram liberados para trinta minutos por vez. A cabeça de papai fora raspada, e ele parecia fraco. Estávamos tão emocionados por rever uns aos outros. Nós simplesmente nos demos as mãos e não sabíamos o que dizer. Minha mãe pretendia dizer que mais irmãos e irmãs cristãos haviam sido presos, mas um guarda permaneceu a nosso lado durante toda a visita.

Liao: Seu pai encontrou colegas cristãos na prisão? Yuan: Sim. Uma noite, em 1959, os prisioneiros estavam assistindo a um filme doutrinário do lado de fora, quando ele percebeu que, sentado a sua frente, estava seu mentor, reverendo Wang Mingdao. Eles se entreolharam por alguns segundos. Nada disseram, mas ambos olharam para o céu. Aludiam ao Senhor no paraíso. Às vezes, meu pai esbarrava num cristão conhecido, mas tinha muita cautela. No centro de detenção, um antigo católico delatou às autoridades que meu pai continuava a pregar durante o encarceramento. Ele foi punido.

No final de verão de 1960, havia fome em muitas partes da China e as taxas de criminalidade aumentaram de forma drástica. As prisões em Pequim estavam superlotadas. Assim, o governo decidiu enviar prisioneiros com sentenças longas para os campos de trabalhos forçados em Xingkaihu, na província nordeste de Heilongjiang, na fronteira com a então União Soviética. Meu pai foi um deles.

Quando chegaram lá, dormiam em tendas cercadas com arame farpado e produziam tijolos para construir a própria prisão. Quando ficou pronta, eles passaram a dormir lado a lado numa única cama de 50 metros de comprimento.

No inverno, a temperatura em Heilongjiang caía para -30ºC. Trabalhando na lavoura certo dia, um companheiro da prisão notou que o nariz de meu pai parecia descolorido. Papai correu para dentro a fim de se aquecer e foi poupado de danos mais sérios no nariz. Algumas pessoas, sem a mesma sorte, perdiam suas orelhas no frio. Meu pai viu vários prisioneiros congelarem até a morte, como troncos de árvores pelados no campo. É difícil imaginar como meu pai, um intelectual magro e fisicamente frágil, conseguiu sobreviver àqueles longos e frios invernos. Ele disse que nunca adoeceu. Em 1962, a China e a União Soviética romperam de maneira oficial sua amizade e se preparavam para entrar em guerra. Os campos foram fechados. Entre os mais de dois mil prisioneiros, cinquenta eram contrarrevolucionários — os mais perigosos dos criminosos — e foram enviados para Pequim. Meu pai considerou isso uma benção. Ele poderia rever a família, e a comida seria melhor. Em Heilongjiang, os prisioneiros viviam com pão feito de palha de milho ou vegetais silvestres. Em Pequim, ele podia ao menos comer batata-doce. As famílias tinham permissão de enviar comida extra para complementar a escassa ração da prisão.

Em outubro de 1965, eu me formei no ensino médio e fui designado para uma fazenda militar na província noroeste de Ningxia. Antes de partir, visitei papai. Ele agarrou minhas mãos e as segurou por um longo tempo: “Você já tem 18 anos e vai começar uma nova vida no interior. Você deve aprender a cuidar de si mesmo. Está seguro quanto a sua fé? Sabe cantar os hinos?”. Depois que respondi “sim” a todas as questões, ele sorriu. Eu poderia dizer que ele estava muito feliz. Não o vi novamente por catorze anos.

Liao: Como os guardas lidavam com a crença religiosa dele? Yuan: Os guardas foram doutrinados com a ideologia comunista. Na mente deles, não havia diferença entre religião e superstição. Monges e pregadores eram como feiticeiros e xamãs. Certo dia, um oficial da prisão distribuiu alguns panfletos sobre como eliminar as práticas supersticiosas na China. Meu pai se levantou após receber o material e disse: “Eu não me envolvo com práticas supersticiosas. Minha fé é verdadeira”. As pessoas a seu redor ficaram nervosas. Mas o oficial da prisão ficou curioso: “Você alega possuir a verdadeira fé. Os monges nos templos são considerados fiéis autênticos do budismo. Você era um monge?”. Meu pai respondeu num tom sério: “Não, eu não era um monge num templo chinês nativo. Se você realmente deseja usar um monge como referência, direi que sou um monge com cabelo num templo estrangeiro”. O oficial da prisão explodiu em risos, e, depois desse episódio, meu pai foi apelidado de “monge estrangeiro”.

Liao: Esse oficial parecia ter a mente aberta. Yuan: Comparado com outras províncias, os oficiais da prisão em Pequim eram muito mais educados e civilizados. As condições eram igualmente melhores. Mas os bons tempos não duraram muito. Em 1966, a Revolução Cultural teve início, e muitos intelectuais e antigos oficiais do governo foram classificados como contrarrevolucionários. Dentro de pouco tempo, as prisões em Pequim estavam cheias, e as autoridades voltaram a transferir prisioneiros com sentenças longas para Heilongjiang. Meu pai foi enviado para outra fazenda. Eles tiveram de recomeçar o trabalho. Produzir tijolos, construir novos dormitórios. No final de 1966, até os prisioneiros foram mobilizados pela Revolução Cultural e ordenados a expor as atividades e os pensamentos contrários ao partido uns dos outros. Meu pai era um “lacaio dos imperialistas estrangeiros” e foi transferido para uma prisão de supervisão mais rigorosa. Isso significava que ele teria de participar de sessões de estudo político todos os dias, ouvir discursos políticos e escrever autoconfissões. Na área política, meu pai era um analfabeto. Ainda que participasse de muitas sessões de estudo político, sua mente estava em outro lugar. Ele nunca prestava atenção. Um dia ele estava ouvindo o noticiário com um grupo de prisioneiros quando, distraído, perguntou em voz alta: “Como é que nunca ouvimos o presidente Liu Shaoqi em nosso noticiário diário? Ele perdeu o posto? Isso significa que há disputas políticas internas no Partido Comunista?”.

Liu Shaoqi havia sido destituído por Mao, e os comentários de meu pai foram relatados. Ele foi acusado de “esconder más intenções” contra o partido. Durante o interrogatório, a resposta foi curta: “Yuan Xiangchen, você ainda acredita em Deus?”. “Sim, eu acredito.” O oficial pensou ter ouvido mal. Repetiu a pergunta, e meu pai disse calmamente: “Sim, eu acredito”. O oficial se enfureceu. “Você é um maldito teimoso, incorrigível e contrarrevolucionário extremo. Seu problema não pode mais ser resolvido por meio de sessões de estudo. Você merece punição severa”.

Meu pai foi trancado numa pequena e escura cela, medindo cerca de 2 metros de comprimento por 2 metros de largura. Não havia janela nem ventilação. Meu pai disse que era como estar no interior de um túmulo. Duas vezes ao dia, alguém empurrava comida por uma pequena abertura na parte interior da porta, a “fresta para alimentar o cão”. Meu pai viveu ali por seis meses. Ele recebia ordens para sentar, encostar-se à parede e refletir sobre seus erros. Os guardas o monitoravam. Se demorasse a sentar, os guardas o espancavam.

Com a deterioração da situação política, mais pessoas eram removidas e lançadas na cadeia, e as prisões superlotavam cada vez mais. Com o intuito de acomodar o número crescente de pessoas “más”, a prisão forçava meu pai, algumas vezes, a partilhar sua minúscula cela com outro detento, mas a maioria apenas recebia punição extra por alguns dias e logo partia. Meu pai era um morador permanente.

Ele permaneceu na cela por seis meses — seis meses sem banho, sem trocar de roupas, sem ver o sol — e quando saiu, parecia um esqueleto, sujo e tão fraco que mal podia caminhar. Ao se levantar, o chão se inundou de pulgas. A luz do sol o cegou por um longo tempo, mas, lentamente, ele se recuperou.

Liao: Quando vi seu pai naquele dia, não pude acreditar que ele tinha quase 90 anos. Cabelos ainda escuros, a aparência forte e enérgica. Ele não carrega marcas de ter sofrido tanto. Yuan: Sua longevidade e boa saúde são muito comentadas. Isso pode soar estranho, mas a sentença de prisão o protegeu da perseguição mais severa em Pequim. Durante a Revolução Cultural, muitos pastores foram espancados até a morte pelos guardas vermelhos. Pequim estava no centro do tumulto. Por sorte, a situação no nordeste não era tão tensa.

Na primavera de 1969, a cadeia de meu pai estava superlotada. Assim, ele e outros infratores graves, cerca de mil prisioneiros, foram enviados para a remota região de Nenjiang. Mais uma vez, eles construíram seus próprios dormitórios e se reinstalaram.

Liao: Quantas vezes ele teve de construir a própria prisão? Yuan: Essa era a quarta vez. Logo após a chegada, deparou com um velho amigo, Wu Mujia, um dos onze líderes da igreja que recusaram endossar a política das Três Autonomias. Wu cumpria uma sentença de quinze anos. Meu pai o avistou quando estava trabalhando numa lavoura de vegetais. As regras da prisão proibiam os presidiários de conversar uns com os outros. Meu pai então começou a cantarolar em voz alta um hino como forma de saudação. Wu ouviu a melodia, ergueu os olhos e reconheceu meu pai. Eles se entreolharam por alguns segundos, e, em seguida, Wu se virou e partiu. Meu pai pensava que Wu iria acompanhá-lo na melodia do hino. Mas Wu não o fez, e meu pai ficou chocado com a reação do amigo. Os dois possuíam uma longa amizade e haviam passado por muitas coisas na vida. Mais tarde, meu pai descobriu que Wu desistira da fé. A notícia lhe causou bastante desânimo.

Liao: Ainda que não seja o caso, mas, enquanto alguns cediam sob a pressão política, outros mais se determinavam a perseverar. Lembro-me de um pregador cristão com o nome de Bafo na cidade de Yinchuan, no noroeste, que permaneceu na cadeia por muitos anos. Quando o presidente Mao morreu, liberaram-no antes do previsto. Nos documentos de sua soltura, as autoridades afirmavam que ele havia confessado seus crimes, o que não havia acontecido, e Bafo queria que corrigissem o registro. “Vocês não têm que me liberar. Eu nunca confessei meus crimes”. Sua requisição foi rejeitada, e Bafo pediu para ser enviado de volta à cadeia. Recusaram. Ele então construiu uma pequena cabana do lado de fora da prisão e viveu ali, jejuando cinco dias por semana para aplacar o que chamava de a ira de Deus. Bafo viveu no interior da cabana por mais de vinte anos antes de morrer. Yuan: A crença de meu pai o sustentou espiritualmente, tornando possível que ele seguisse adiante. Nenhum dos membros da família acreditava que ele pudesse sobreviver. Sob circunstâncias normais, muitos dos que pegavam prisão perpétua acabavam por cometer suicídio ou enlouqueciam. Meu pai sofreu terríveis torturas físicas, mas sobreviveu. Ele até graceja, dizendo que deveria ser grato. Num campo de trabalhos forçados no noroeste do país, ele tinha de carregar cestos de lixo equilibrados nas pontas de um bastão, mas as estradas eram escorregadias, e ele precisava manter as costas eretas ou achataria o rosto no chão. Hoje ele anda com as costas eretas, não mais curvadas, e não sofre com falta de ar, ao contrário das pessoas de sua idade.

Um dia, em dezembro de 1979, após meu pai voltar da lavoura, um oficial apareceu em seu dormitório e lhe entregou uma folha de papel, que dizia: “Concede-se liberdade condicional ao criminoso Yuan Xiangchen. Durante o período de liberdade condicional, que se inicia na data de soltura e vai até 1989, não lhe é permitido deixar sua residência em Pequim. Yuan deve reportar com regularidade suas atividades e sua maneira de pensar ao gabinete de segurança pública local”. Com o documento nas mãos, juntou seus pertences e, imediatamente, caminhou 3 quilômetros até o ponto de ônibus, pegou um trem na cidade seguinte e chegou a Pequim. Seu telegrama com a notícia de que estava voltando para casa causou uma surpresa imensa.

Meu irmão mais velho tinha escrito ao tribunal local, dizendo que meu pai havia sido injustamente acusado pelos fanáticos na época de Mao, e pedindo que o juiz seguisse a política do governo e revertesse o veredicto de meu pai e limpasse seu nome. Responderam-lhe que meu pai era o líder de uma facção contrarrevolucionária e que o veredicto seria mantido. Ele recebeu uma carta formal que declarava: “Revimos cuidadosamente vossa solicitação. Acreditamos que o veredicto original determinado por nosso tribunal contra vosso pai ainda se sustenta. As acusações contrárias a ele permanecem inalteradas”. A carta, datada de 16 de novembro de 1979, trazia o carimbo do tribunal.

Liao: E apenas um mês depois, seu pai está em liberdade condicional... Yuan: O Partido Comunista pode ser imprevisível. Nós estávamos na estação para encontrá-lo, mas, ansioso por voltar para casa, ele decidiu não aguardar e embarcou num ônibus noturno no ponto de Baitashi. Ao chegar, caminhou pelo bairro, à procura de nossa casa, e começou a gritar o nome de minha mãe. Minha cunhada estava em casa e ouviu o chamado. Era a primeira vez que os dois se encontravam. No momento em que chegamos, papai estava lavando os pés numa bacia de água quente.

Liao: Como seu pai se ajustou à vida fora da prisão? Yuan: Não foi fácil. Ele estava completamente desconectado da realidade da vida moderna, mas, enquanto precisava se reconectar ao mundo físico, permanecia em sintonia com o espiritual. Na verdade, sua fé havia se fortalecido. Após 1979, muitas pessoas que estiveram encarceradas por suas crenças religiosas foram libertas. Caso expressassem abertamente apoio às igrejas das Três Autonomias sancionadas pelo governo, o Gabinete de Assuntos Religiosos lhes designariam emprego, ofereceriam indenizações e lhes garantiriam moradia. Wu Mujia se uniu a uma igreja das Três Autonomias e conseguiu um emprego de professor na Academia Teológica de Yanjing. Ele levava uma vida bastante confortável. Meu pai nem se preocupou em pedir ao tribunal que limpasse seu nome e logo retomou suas atividades religiosas.

Ele transformou nossa casa numa igreja. Inicialmente, meu pai pregava para dez pessoas. Em alguns anos, a congregação cresceu para trezentos membros, e sua igreja doméstica era a maior em Pequim. Nossa casa, claro, era pequena demais para acomodar tanta gente — desmontávamos a cama para abrir mais espaço — e logo a viela inteira se enchia de seguidores quando ele pregava. Havia uma piada costumeira: “Falta tudo em casa, exceto Bíblias e bancos, que, por sua vez, nos foram presenteados”. Meu pai ainda mantém a opinião de que o governo e a igreja devem estar separados e que a igreja também deve ser autossustentável. Diversas organizações cristãs estrangeiras, tais como a Portas Abertas Internacional, oferecem ajuda por meio de doações de Bíblias. Papai não acredita que sua igreja doméstica precise ser registrada como uma organização sem fins lucrativos, já que isso o colocaria sob a autoridade governamental. Nossa casa foi revistada várias vezes, e sempre somos assediados, mas a posição dele permanece inalterada. Meu pai continua a pregar, e o número de fiéis aumentou muitas vezes desde então. Anos atrás, nós nos mudamos para um novo apartamento. Aquele que você visitou.

Liao: Decidi visitar os seus pais depois de assistir a uma entrevista deles num documentário recente, A cruz: Jesus na China. Há uma cena em que seu pai canta um hino para a câmera, com a voz rouca, mas animada: “Sim, eu amo a mensagem da cruz/ Té morrer eu a vou proclamar/ Levarei eu também minha cruz/ Té por uma coroa trocar”. Com sua mãe cantarolando junto, ele estendia os braços no ar, e seu rosto exalava entusiasmo. Era difícil acreditar que ele se aproximava dos 90 anos e que estivera trancado numa prisão por tanto tempo. Muito emocionante.

Yuan: O nome do hino é “Rude cruz”. Meus pais são jovens de coração. Devo mencionar a

noite de 3 de junho de 1989,[10] quando soldados armados tomaram as ruas e começaram a reprimir os protestos estudantis. Podíamos ouvir os disparos intermináveis de nossa casa. Meu pai não se intimidou. Ele insistia que os cultos da igreja prosseguissem sem nenhuma interrupção. Na manhã seguinte, acordou às 5 horas. Como não havia serviço de ônibus, ele pedalou 15 quilômetros até a casa de minha irmã e pregou aos cristãos de lá. Durante o sermão, condenou a ação do governo contra os estudantes e cidadãos. Invocou a Palavra de Deus para consolar as vítimas do massacre. Olhando para trás, deve ter sido bastante assustadora sua viagem solitária naquele dia. Ainda havia soldados disparando aleatoriamente nas ruas, mas meu pai, que já estava com quase 80 anos, partiu com calma e sem medo.

Liao: Quais são, hoje, as reações governamentais às atividades de seu pai? Yuan: Somos assediados o tempo todo. Ano após ano, a polícia acusa meu pai de organizar encontros ilegais e ameaça colocá-lo na prisão novamente. A frequência do assédio policial costuma coincidir com a situação política em Pequim. Por exemplo, quando o Congresso do Partido ou o Legislativo estão em sessão, ou durante o aniversário do Massacre da Praça da Paz Celestial, ou no Dia Nacional, ou quando chefes de Estado de países importantes visitam a China, ficamos sob vigilância policial 24 horas por dia. O telefone de casa começa a falhar ou é desligado por completo. Eles tornam praticamente impossível que companheiros cristãos se reúnam e ouçam os sermões de meu pai. Se o presidente Obama, ou líderes religiosos ou de organizações internacionais dos direitos humanos visitam a China, a polícia busca meus pais e os coloca num hotel qualquer para assegurar que meu pai não converse com a imprensa estrangeira ou faça algo que possa criar dificuldades para o governo. Em outras ocasiões, fica tudo bem.

Liao: Acredito que muitos dissidentes em Pequim recebam tratamento similar. Yuan: Ao contrário das atividades dos outros dissidentes, as ações de meu pai não pretendem ser contrárias ao governo. Ele está aqui para realizar a obra de Deus.

Liao: Como seu pai lida com esse tratamento? Yuan: Anos de encarceramento não mudaram nada nele. Na verdade, ele tem se mostrado cada vez mais resistente e determinado. Cada vez que aparecem em casa, ele se adianta e confronta a polícia: “Se meus companheiros cristãos desejam vir, não posso impedi-los, a menos que vocês coloquem um cadeado em minha casa e me prendam. Sou uma pessoa de fé. Quando a lei religiosa do país viola minha fé, sinto muito, mas tenho de seguir a Palavra de Deus”. Muitas vezes, os oficiais de polícia só podem balançar a cabeça. Como você pode ver, meu pai recusa ser influenciado pelo poder secular.

Liao: Ouvi dizer que o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, certa vez convidou seu pai para participar do Café da Manhã de Oração da Casa Branca, evento anual que conta com a presença de líderes cristãos de todo o mundo. Yuan: Sim, mas meu pai recusou o convite, pois o governo americano também convidou os líderes das igrejas das Três Autonomias. Ele não tinha nenhuma intenção de orar na mesma sala com indivíduos que se curvaram ao poder e abriram mão de sua fé. Além disso, ele não queria participar de atividades religiosas organizadas pelo governo, seja dos Estados Unidos, seja da China. Por último, ainda que ele tivesse aceitado o convite, o governo chinês não teria emitido um passaporte. Meu pai não se sente compelido a se aliar ao dinheiro ou ao poder. Não é fácil hoje em dia, mas nossa família inteira colabora com ele. Todos nós somos cristãos, e, apesar dos desafios, penso que o futuro parece promissor aqui na China.

 

Epílogo

O reverendo Yuan Xiangchen faleceu em 2005, aos 92 anos. Ele teve seis filhos, todos cristãos devotos. Seu filho, Yuan Fusheng, que entrevistei para este relato, permanece ativo na comunidade cristã em Pequim.