Diálogos sobre a religião natural
Parte VII
1. “Mas aqui”, continuou FILÃO, “ao examinar o antigo sistema da
alma do mundo, arrebata-me de repente uma nova ideia que,
se justa, deve aproximar-se de subverter todo o teu raciocínio e
destruir mesmo as tuas primeiras inferências, nas quais
depositas tanta confiança. Se o universo sustenta uma
semelhança maior com os corpos animais e vegetais do que
com os trabalhos de arte humana, é mais provável que sua
causa se assemelhe mais à dos primeiros do que às dos
segundos, e sua origem deve ser atribuída antes à geração ou
à vegetação do que à razão ou ao desígnio. Tua conclusão,
mesmo de acordo com teus próprios princípios, é portanto
frouxa e defeituosa.”
2. “Rogo que explanes sobre este argumento um pouco mais”
disse DÊMEAS, “Pois eu não o apreendo direito nesta maneira
concisa em que o expressaste.”
3. “Nosso amigo CLEANTES,” replicou FILÃO, “como ouviste,
assere que porquanto nenhuma questão de fato pode ser
provada doutra maneira que não pela experiência, a existência
da Deidade não admite provas advindas doutro meio. O mundo,
diz ele, se parece com os trabalhos de engenho humano;
portanto, sua causa também deve se parecer com a destes.
Aqui podemos notar que a operação duma parte bem pequena
da natureza, a saber, o homem, sobre uma outra parte bem
pequena, a saber, a matéria inanimada que jaz sob seu
alcance, é a regra pela qual CLEANTES julga a origem do todo;
e ele mensura objetos tão vastamente desproporcionais pelo
mesmo padrão individual. Mas para pôr de lado todas as
objeções extraídas deste tópico, afirmo que há outras partes do
universo (além de máquinas de invenção humana) que
sustentam uma semelhança maior ainda com estrutura do
mundo e que portanto fornecem uma conjectura melhor sobre a
origem universal deste sistema. Estas partes são animais e
vegetais. O mundo claramente se assemelha mais a um animal
ou a um vegetal do que a um relógio ou a um tear. Sua causa,
portanto, é mais provável que se assemelhe à causa dos
primeiros. A causa dos primeiros é geração ou vegetação. A
causa do mundo, portanto, podemos inferir ser alguma coisa
similar ou análoga a geração ou vegetação.”
4. “Mas como é concebível”, disse DÊMEAS, “que o mundo possa
surgir dalguma coisa similar a vegetação ou geração?”
5. “Muito facilmente”, replicou FILÃO. “Assim como uma árvore
espalha suas sementes pelos campos vizinhos e produz outras
árvores, o grande vegetal, o mundo ou este sistema planetário,
produz em si mesmo certas sementes que, sendo dispersadas
pelo caos à volta, tornam-se por vegetação novos mundos. Um
cometa, por exemplo, é a semente dum mundo, e depois de ela
ter amadurecido ao passar de sol a sol e de estrela a estrela, é
por fim lançada aos elementos informes que rodeiam este
universo por toda parte e, tão logo brote, torna-se um novo
sistema.
6. “Ou se, por conta da variedade (pois não vejo outra vantagem)
houvéssemos de supor que este mundo é um animal, o cometa
seria o ovo deste animal, e assim como a avestruz deixa seu
ovo na areia que, sem qualquer outro cuidado, aninha o ovo e
produz um novo animal, o…”
7. “Eu te entendo,” diz DÊMEAS, “mas que suposições
extravagantes, arbitrárias são estas? Que dados tens para
conclusões tão extraordinárias? E acaso a semelhança tênue,
imaginária do mundo com um vegetal ou com um animal é
suficiente para estabelecer a mesma inferência a respeito de
ambos? Objetos que são em geral tão vastamente diferentes
podem ser padrão uns para os outros?”
8. “Certo!”, bradou FILÃO, “Este é o tópico sobre o qual venho
insistindo durante todo o tempo. Eu ainda afirmei que não
temos dados para estabelecer qualquer sistema de
cosmogonia. Nossa experiência, tão importante em si mesma e
tão limitada tanto em sua extensão quanto em sua duração, não
pode nos fornecer nenhuma conjectura provável sobre o todo
das coisas. Mas se tivermos necessariamente que nos fixar
nalguma hipótese, por que regra, rogo que se responda,
deveremos determinar nossa escolha? Há alguma outra regra
que não a maior similaridade dos objetos comparados? E uma
planta ou um animal, que surgem de vegetação ou geração,
sustentam uma semelhança mais forte com o mundo do que
qualquer máquina artificial que surge de razão e desígnio?”
9. “Mas o que é essa vegetação e geração de que falas?” disse
DÊMEAS. “Podes explicar suas operações e anatomizar essa
estrutura interna fina das quais elas dependem?” 10. “Pelo menos tão bem”, replicou FILÃO, “quanto CLEANTES
pode explicar as operações da razão ou anatomizar essa
estrutura interna da qual ela depende. Mas, sem quaisquer
disquisições elaboradas, quando vejo um animal infiro que ele
surgiu de geração; e isso com uma grande certeza tão grande
quanto a com que concluis que uma casa foi erguida por
desígnio. Estas palavras – ‘geração’, ‘razão’ – marcam apenas
certos poderes e energias na natureza cujos efeitos são
conhecidos, mas cuja essência é incompreensível; e um desses
princípios, mais do que nenhum outro, não tem privilégio
nenhum para que seja feito dele um padrão para o todo da
natureza.
11. “Na realidade, DÊMEAS, pode-se razoavelmente esperar que,
quanto mais largas as vistas que tomamos das coisas, melhor
elas nos conduzam em nossas conclusões concernentes a
assuntos tão extraordinários e tão magníficos. Apenas neste
canto estreito do mundo há quatro princípios – razão, instinto,
geração, vegetação, – que são similares uns aos outros e são
as causas de efeitos similares. Que número doutros princípios
poderíamos supor naturalmente na imensa extensão e
variedade do universo, se pudéssemos viajar de planeta a
planeta e de sistema a sistema a fim de examinar cada parte
desta estrutura imensa? Qualquer um desses quatro princípios
acima mencionados (e uma centena que está aberta para a
nossa conjectura) pode nos fornecer uma teoria pela qual se
julgue a origem do mundo, e é uma parcialidade palpável e
egrégia confinar nossas vistas inteiramente a este princípio
sobre o qual nossas próprias mentes operam. Fosse este
princípio mais inteligível por essa explicação, tal parcialidade
seria algo desculpável – mas a razão, em sua estrutura interna,
nos é realmente tão desconhecida quanto instinto ou
vegetação, e talvez mesmo essa palavra vaga, indeterminada,
‘natureza’, à qual o vulgo refere tudo, não seja no fundo mais
inexplicável. Os efeitos desses princípios nos são conhecidos
pela experiência – mas os próprios princípios e suas maneiras
de operação são totalmente desconhecidos, e tampouco é
menos inteligível ou menos conforme à experiência dizer que o
mundo surgiu por vegetação advindo duma semente lançada
por outro mundo do que dizer que ele surgiu duma razão ou
engenho divinos, de acordo com o sentido em que CLEANTES
entende.”
12. “Mas me parece”, disse DÊMEAS, “que se o mundo tivesse
uma qualidade vegetativa e pudesse semear as sementes de
novos mundos pelo caos infinito, esse poder seria ainda um
argumento adicional para desígnio em seu Autor. Pois donde
poderia surgir uma faculdade tão maravilhosa senão de
desígnio? Ou como pode a ordem surgir dalguma coisa que não
perceba a ordem que confere?”
13. “Precisas apenas olhar à tua volta”, replicou FILÃO, “para te
satisfazeres quanto a esta questão. Uma árvore confere ordem
e organização à árvore que surge dela sem conhecer a ordem;
um animal, da mesma maneira, à sua cria; um pássaro ao seu
ninho – e exemplos deste tipo são ainda mais frequentes neste
mundo do que aqueles de ordem que procedem de razão e
engenho. Dizer que toda essa ordem em animais e vegetais
procede em última instância de desígnio é petição de princípio,
e tampouco se pode asserir esse grande ponto doutro modo
que não provando a priori tanto que a ordem é por sua natureza
inseparavelmente ligada ao pensamento quanto que ela nunca
pode por si própria ou por princípios originais desconhecidos
pertencer à matéria.
14. “Mas mais ainda, DÊMEAS, esta objeção que incitas nunca
pode ser usada por CLEANTES sem renunciar a uma defesa
que ele já fez contra uma das minhas objeções. Quando
perguntei sobre a causa dessa razão e inteligência supremas
nas quais ele resolve todas as coisas, ele me contou que a
impossibilidade de satisfazer tais perguntas nunca poderia ser
admitida como uma objeção em qualquer espécie de filosofia.
‘Temos de parar algures’, diz ele, ‘e jamais estará ao alcance da
capacidade humana explicar as causas últimas ou mostrar as
últimas conexões de quaisquer objetos. Será suficiente se os
passos, até onde avancemos, forem sustentados por
experiência e observação.’ Ora, que se tenha a experiência de
a vegetação e a geração, tanto quanto a razão, serem
princípios de ordem, é inegável. Se eu sustentar meu sistema
de cosmogonia pela primeira preferivelmente à última, isto está
à minha escolha. A questão parece inteiramente arbitrária. E se
CLEANTES me perguntar qual é a causa do meu grande
sistema vegetativo ou gerativo, tenho igual direito de lhe
perguntar pela causa desse grande princípio raciocinativo.
Ambos os lados já concordamos em nos abster destas
questões, e na presente ocasião é sobretudo dele o interesse
de se agarrar a este acordo. A julgar pela nossa experiência
imperfeita e limitada, a geração tem alguns privilégios sobre a
razão – pois vemos todo dia a última surgir da primeira, nunca a
primeira da última.
15. “Compara, rogo a ti, as consequências em ambos os lados. O
mundo, digo eu, se assemelha a um animal, portanto é um
animal, portanto surgiu de geração. Os passos, confesso, são
largos; mas ainda há alguma aparência de analogia em cada
passo. O mundo, diz CLEANTES, se assemelha a uma
máquina, portanto é uma máquina, portanto surgiu de desígnio.
Os passos aqui são igualmente largos; e a analogia, menos
arrebatadora. E se ele pretende levar minha hipótese para um
passo mais adiante, e inferir desígnio ou razão a partir do
grande princípio de geração no qual insisto, eu posso, com
autoridade melhor, usar da mesma liberdade para levar mais
adiante sua hipótese e inferir uma geração divina ou teogonia a
partir de seu princípio de razão. Eu tenho pelo menos uma
tênue sombra de experiência, o que é o mais extremo que se
pode alcançar no presente assunto: Observa-se que a razão,
em inumeráveis exemplos, surge do princípio de geração, e que
nunca surge de qualquer outro princípio.
16. “HESÍODO e todos os mitólogos antigos foram tão arrebatados
por esta analogia que universalmente explicaram a origem da
natureza a partir dum nascimento animal e cópula. PLATÃO
também, na medida em que ele é inteligível, parece ter adotado
tal noção no seu TIMEU.
17. 22 “Os BRÂMANES asserem que o mundo surgiu duma aranha
infinita que teceu de suas entranhas esta massa complicada, e
aniquila depois o todo ou cada parte dela absorvendo-a de novo
e decompondo-a em sua própria essência. Aqui está uma
espécie de cosmogonia que nos parece ridícula, porque uma
aranha é um animal algo vil cujas operações somos propensos
a nunca tomar como modelo para o universo inteiro. Mas ainda
aqui há uma nova espécie de analogia, mesmo no nosso globo.
E houvesse um planeta inteiramente habitado por aranhas (o
que é bem possível), esta inferência pareceria lá tão natural e
irrefragável quanto esta que em nosso planeta atribui a origem
de todas as coisas a desígnio e inteligência, como CLEANTES
explica. Por que um sistema ordeiro não pode ser tecido pela
barriga tão bem como pelo cérebro será difícil para ele dar uma
razão satisfatória.”
18. “Devo confessar, FILÃO,” replicou CLEANTES, “que, de todos
os homens viventes, a tarefa que empreendeste, de levantar
dúvidas e objeções, te convém ao máximo e parece, de certo
modo, natural e inevitável para ti. Tão grande é a fertilidade de
tua invenção, que não me envergonho por me reconhecer
incapaz, de supetão, de resolver regularmente dificuldades tão
remotas como as que sem cessar levantas contra mim –
embora eu veja com clareza, no geral, sua falácia e erro. E não
questiono, mas tu próprio ora estás na mesma situação, e não
tens uma solução tão fácil quanto a objeção, ao passo que tens
de saber que o senso comum e a razão estão inteiramente
contra ti e que tais extravagâncias como as que proferiste
podem confundir, mas nunca nos convencer.”