Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 9 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte VII

 

 

1. “Mas aqui”, continuou FILÃO, “ao examinar o antigo sistema da

alma do mundo, arrebata-me de repente uma nova ideia que,

se justa, deve aproximar-se de subverter todo o teu raciocínio e

destruir mesmo as tuas primeiras inferências, nas quais

depositas tanta confiança. Se o universo sustenta uma

semelhança maior com os corpos animais e vegetais do que

com os trabalhos de arte humana, é mais provável que sua

causa se assemelhe mais à dos primeiros do que às dos

segundos, e sua origem deve ser atribuída antes à geração ou

à vegetação do que à razão ou ao desígnio. Tua conclusão,

mesmo de acordo com teus próprios princípios, é portanto

frouxa e defeituosa.”

2. “Rogo que explanes sobre este argumento um pouco mais”

disse DÊMEAS, “Pois eu não o apreendo direito nesta maneira

concisa em que o expressaste.”

3. “Nosso amigo CLEANTES,” replicou FILÃO, “como ouviste,

assere que porquanto nenhuma questão de fato pode ser

provada doutra maneira que não pela experiência, a existência

da Deidade não admite provas advindas doutro meio. O mundo,

diz ele, se parece com os trabalhos de engenho humano;

portanto, sua causa também deve se parecer com a destes.

Aqui podemos notar que a operação duma parte bem pequena

da natureza, a saber, o homem, sobre uma outra parte bem

pequena, a saber, a matéria inanimada que jaz sob seu

alcance, é a regra pela qual CLEANTES julga a origem do todo;

e ele mensura objetos tão vastamente desproporcionais pelo

mesmo padrão individual. Mas para pôr de lado todas as

objeções extraídas deste tópico, afirmo que há outras partes do

universo (além de máquinas de invenção humana) que

sustentam uma semelhança maior ainda com estrutura do

mundo e que portanto fornecem uma conjectura melhor sobre a

origem universal deste sistema. Estas partes são animais e

vegetais. O mundo claramente se assemelha mais a um animal

ou a um vegetal do que a um relógio ou a um tear. Sua causa,

portanto, é mais provável que se assemelhe à causa dos

primeiros. A causa dos primeiros é geração ou vegetação. A

causa do mundo, portanto, podemos inferir ser alguma coisa

similar ou análoga a geração ou vegetação.”

4. “Mas como é concebível”, disse DÊMEAS, “que o mundo possa

surgir dalguma coisa similar a vegetação ou geração?”

5. “Muito facilmente”, replicou FILÃO. “Assim como uma árvore

espalha suas sementes pelos campos vizinhos e produz outras

árvores, o grande vegetal, o mundo ou este sistema planetário,

produz em si mesmo certas sementes que, sendo dispersadas

pelo caos à volta, tornam-se por vegetação novos mundos. Um

cometa, por exemplo, é a semente dum mundo, e depois de ela

ter amadurecido ao passar de sol a sol e de estrela a estrela, é

por fim lançada aos elementos informes que rodeiam este

universo por toda parte e, tão logo brote, torna-se um novo

sistema.

6. “Ou se, por conta da variedade (pois não vejo outra vantagem)

houvéssemos de supor que este mundo é um animal, o cometa

seria o ovo deste animal, e assim como a avestruz deixa seu

ovo na areia que, sem qualquer outro cuidado, aninha o ovo e

produz um novo animal, o…”

7. “Eu te entendo,” diz DÊMEAS, “mas que suposições

extravagantes, arbitrárias são estas? Que dados tens para

conclusões tão extraordinárias? E acaso a semelhança tênue,

imaginária do mundo com um vegetal ou com um animal é

suficiente para estabelecer a mesma inferência a respeito de

ambos? Objetos que são em geral tão vastamente diferentes

podem ser padrão uns para os outros?”

8. “Certo!”, bradou FILÃO, “Este é o tópico sobre o qual venho

insistindo durante todo o tempo. Eu ainda afirmei que não

temos dados para estabelecer qualquer sistema de

cosmogonia. Nossa experiência, tão importante em si mesma e

tão limitada tanto em sua extensão quanto em sua duração, não

pode nos fornecer nenhuma conjectura provável sobre o todo

das coisas. Mas se tivermos necessariamente que nos fixar

nalguma hipótese, por que regra, rogo que se responda,

deveremos determinar nossa escolha? Há alguma outra regra

que não a maior similaridade dos objetos comparados? E uma

planta ou um animal, que surgem de vegetação ou geração,

sustentam uma semelhança mais forte com o mundo do que

qualquer máquina artificial que surge de razão e desígnio?”

9. “Mas o que é essa vegetação e geração de que falas?” disse

DÊMEAS. “Podes explicar suas operações e anatomizar essa

estrutura interna fina das quais elas dependem?” 10. “Pelo menos tão bem”, replicou FILÃO, “quanto CLEANTES

pode explicar as operações da razão ou anatomizar essa

estrutura interna da qual ela depende. Mas, sem quaisquer

disquisições elaboradas, quando vejo um animal infiro que ele

surgiu de geração; e isso com uma grande certeza tão grande

quanto a com que concluis que uma casa foi erguida por

desígnio. Estas palavras – ‘geração’, ‘razão’ – marcam apenas

certos poderes e energias na natureza cujos efeitos são

conhecidos, mas cuja essência é incompreensível; e um desses

princípios, mais do que nenhum outro, não tem privilégio

nenhum para que seja feito dele um padrão para o todo da

natureza.

11. “Na realidade, DÊMEAS, pode-se razoavelmente esperar que,

quanto mais largas as vistas que tomamos das coisas, melhor

elas nos conduzam em nossas conclusões concernentes a

assuntos tão extraordinários e tão magníficos. Apenas neste

canto estreito do mundo há quatro princípios – razão, instinto,

geração, vegetação, – que são similares uns aos outros e são

as causas de efeitos similares. Que número doutros princípios

poderíamos supor naturalmente na imensa extensão e

variedade do universo, se pudéssemos viajar de planeta a

planeta e de sistema a sistema a fim de examinar cada parte

desta estrutura imensa? Qualquer um desses quatro princípios

acima mencionados (e uma centena que está aberta para a

nossa conjectura) pode nos fornecer uma teoria pela qual se

julgue a origem do mundo, e é uma parcialidade palpável e

egrégia confinar nossas vistas inteiramente a este princípio

sobre o qual nossas próprias mentes operam. Fosse este

princípio mais inteligível por essa explicação, tal parcialidade

seria algo desculpável – mas a razão, em sua estrutura interna,

nos é realmente tão desconhecida quanto instinto ou

vegetação, e talvez mesmo essa palavra vaga, indeterminada,

‘natureza’, à qual o vulgo refere tudo, não seja no fundo mais

inexplicável. Os efeitos desses princípios nos são conhecidos

pela experiência – mas os próprios princípios e suas maneiras

de operação são totalmente desconhecidos, e tampouco é

menos inteligível ou menos conforme à experiência dizer que o

mundo surgiu por vegetação advindo duma semente lançada

por outro mundo do que dizer que ele surgiu duma razão ou

engenho divinos, de acordo com o sentido em que CLEANTES

entende.”

12. “Mas me parece”, disse DÊMEAS, “que se o mundo tivesse

uma qualidade vegetativa e pudesse semear as sementes de

novos mundos pelo caos infinito, esse poder seria ainda um

argumento adicional para desígnio em seu Autor. Pois donde

poderia surgir uma faculdade tão maravilhosa senão de

desígnio? Ou como pode a ordem surgir dalguma coisa que não

perceba a ordem que confere?”

13. “Precisas apenas olhar à tua volta”, replicou FILÃO, “para te

satisfazeres quanto a esta questão. Uma árvore confere ordem

e organização à árvore que surge dela sem conhecer a ordem;

um animal, da mesma maneira, à sua cria; um pássaro ao seu

ninho – e exemplos deste tipo são ainda mais frequentes neste

mundo do que aqueles de ordem que procedem de razão e

engenho. Dizer que toda essa ordem em animais e vegetais

procede em última instância de desígnio é petição de princípio,

e tampouco se pode asserir esse grande ponto doutro modo

que não provando a priori tanto que a ordem é por sua natureza

inseparavelmente ligada ao pensamento quanto que ela nunca

pode por si própria ou por princípios originais desconhecidos

pertencer à matéria.

14. “Mas mais ainda, DÊMEAS, esta objeção que incitas nunca

pode ser usada por CLEANTES sem renunciar a uma defesa

que ele já fez contra uma das minhas objeções. Quando

perguntei sobre a causa dessa razão e inteligência supremas

nas quais ele resolve todas as coisas, ele me contou que a

impossibilidade de satisfazer tais perguntas nunca poderia ser

admitida como uma objeção em qualquer espécie de filosofia.

‘Temos de parar algures’, diz ele, ‘e jamais estará ao alcance da

capacidade humana explicar as causas últimas ou mostrar as

últimas conexões de quaisquer objetos. Será suficiente se os

passos, até onde avancemos, forem sustentados por

experiência e observação.’ Ora, que se tenha a experiência de

a vegetação e a geração, tanto quanto a razão, serem

princípios de ordem, é inegável. Se eu sustentar meu sistema

de cosmogonia pela primeira preferivelmente à última, isto está

à minha escolha. A questão parece inteiramente arbitrária. E se

CLEANTES me perguntar qual é a causa do meu grande

sistema vegetativo ou gerativo, tenho igual direito de lhe

perguntar pela causa desse grande princípio raciocinativo.

Ambos os lados já concordamos em nos abster destas

questões, e na presente ocasião é sobretudo dele o interesse

de se agarrar a este acordo. A julgar pela nossa experiência

imperfeita e limitada, a geração tem alguns privilégios sobre a

razão – pois vemos todo dia a última surgir da primeira, nunca a

primeira da última.

15. “Compara, rogo a ti, as consequências em ambos os lados. O

mundo, digo eu, se assemelha a um animal, portanto é um

animal, portanto surgiu de geração. Os passos, confesso, são

largos; mas ainda há alguma aparência de analogia em cada

passo. O mundo, diz CLEANTES, se assemelha a uma

máquina, portanto é uma máquina, portanto surgiu de desígnio.

Os passos aqui são igualmente largos; e a analogia, menos

arrebatadora. E se ele pretende levar minha hipótese para um

passo mais adiante, e inferir desígnio ou razão a partir do

grande princípio de geração no qual insisto, eu posso, com

autoridade melhor, usar da mesma liberdade para levar mais

adiante sua hipótese e inferir uma geração divina ou teogonia a

partir de seu princípio de razão. Eu tenho pelo menos uma

tênue sombra de experiência, o que é o mais extremo que se

pode alcançar no presente assunto: Observa-se que a razão,

em inumeráveis exemplos, surge do princípio de geração, e que

nunca surge de qualquer outro princípio.

16. “HESÍODO e todos os mitólogos antigos foram tão arrebatados

por esta analogia que universalmente explicaram a origem da

natureza a partir dum nascimento animal e cópula. PLATÃO

também, na medida em que ele é inteligível, parece ter adotado

tal noção no seu TIMEU.

17. 22 “Os BRÂMANES asserem que o mundo surgiu duma aranha

infinita que teceu de suas entranhas esta massa complicada, e

aniquila depois o todo ou cada parte dela absorvendo-a de novo

e decompondo-a em sua própria essência. Aqui está uma

espécie de cosmogonia que nos parece ridícula, porque uma

aranha é um animal algo vil cujas operações somos propensos

a nunca tomar como modelo para o universo inteiro. Mas ainda

aqui há uma nova espécie de analogia, mesmo no nosso globo.

E houvesse um planeta inteiramente habitado por aranhas (o

que é bem possível), esta inferência pareceria lá tão natural e

irrefragável quanto esta que em nosso planeta atribui a origem

de todas as coisas a desígnio e inteligência, como CLEANTES

explica. Por que um sistema ordeiro não pode ser tecido pela

barriga tão bem como pelo cérebro será difícil para ele dar uma

razão satisfatória.”

18. “Devo confessar, FILÃO,” replicou CLEANTES, “que, de todos

os homens viventes, a tarefa que empreendeste, de levantar

dúvidas e objeções, te convém ao máximo e parece, de certo

modo, natural e inevitável para ti. Tão grande é a fertilidade de

tua invenção, que não me envergonho por me reconhecer

incapaz, de supetão, de resolver regularmente dificuldades tão

remotas como as que sem cessar levantas contra mim –

embora eu veja com clareza, no geral, sua falácia e erro. E não

questiono, mas tu próprio ora estás na mesma situação, e não

tens uma solução tão fácil quanto a objeção, ao passo que tens

de saber que o senso comum e a razão estão inteiramente

contra ti e que tais extravagâncias como as que proferiste

podem confundir, mas nunca nos convencer.”