Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 7 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte V

 

 

1. “Mas para mostrar-te ainda mais inconveniências”, continuou

FILÃO, “em teu antropomorfismo, peço que faças um novo

exame dos teus princípios. ‘Efeitos semelhantes provam causas

semelhantes’: Este é o argumento experimental, e este, dize-lo

também, é o único argumento teológico. Ora, é certo que,

quanto mais parecidos são os efeitos que se veem e mais

parecidas são as causas que se inferem, mais forte é o

argumento. Todo desvio de cada lado diminui a probabilidade e

torna o experimento menos conclusivo. Não podes duvidar

deste princípio nem rejeitar suas consequências.

2. “Todas as descobertas na astronomia que provam a imensa

grandeza e magnitude dos trabalhos da natureza são tantos

mais argumentos adicionais para uma Deidade, de acordo com

o verdadeiro sistema do teísmo – mas, de acordo com tuas

hipóteses de teísmo experimental, elas se tornam tantas

objeções mais, por removerem o efeito para mais longe de toda

semelhança com os efeitos de arte e engenho humanos. Pois

se LUCRÉCIO *, mesmo seguindo o velho sistema de mundo,

podia exclamar

 

Quis regere immensi summam, quis habere profundi

Indu manu validas potis est moderanter habenas?

Quis pariter cœlus omnes convertere? et omnes

Ignibus ætheriis terras suffire feraces?

Omnibus inve locis esse omni tempore præsto?

 

Se TÚLIO* achou este raciocínio tão natural para pô-lo na boca

dum EPICURISTA: ‘Quibus enim oculis animi intueri potuit vester Plato fabricam illa tanti operis, qua construi a Deo atque ædificari mundum facit? quæ molitio? quæ ferramenta? qui vectes? quæ maquinæ? qui ministri tanti muneris fuerunt? quemadmodum autem obedire et parere voluntati architecti aer, ignis, aqua, terra potuerunt?’; se este argumento, digo eu, teve alguma força em eras mais antigas, o quão maior deve não tê-la agora, quando os limites da natureza foram tão imensamente alargados, e um cenário tão magnificente nos foi aberto? É ainda menos razoável formar nossa ideia duma causa tão ilimitada a partir de nossa experiência das produções estreitas de desígnio e invenções humanas.

 

3. “As descobertas de microscópios, por abrirem um novo

universo em miniatura, são ainda objeções de acordo contigo;

argumentos, de acordo comigo. Para quanto mais longe

empurramos nossas investigações deste tipo, mais somos

levados a inferir que a causa universal do Todo é vastamente

diferente da espécie humana ou de qualquer objeto de

experiência e observação humanas.

4. “E o que dizes das descobertas em anatomia, química,

botânica…?” “Estas certamente não são objeções:”, disse

CLEANTES, “elas apenas desvelam novos exemplos de arte e

engenho. Ainda é a imagem da mente refletida sobre nós a

partir de inúmeros objetos.” “Acrescenta: uma mente parecida

com a humana”, disse FILÃO. “Não conheço nenhuma outra”,

replicou CLEANTES. “E quanto mais parecida, melhor”, insistiu

FILÃO. “Com certeza”, disse CLEANTES.

5. “Agora, CLEANTES,” disse FILÃO com um ar de presteza e

triunfo, “nota as consequências. Primeira: por este método,

renuncias a todas as reivindicações de infinitude em quaisquer

dos atributos da Deidade. Pois como a causa deve apenas ser

proporcionada ao efeito, e o efeito, até onde sabemos, não é

infinito, que pretensões temos, baseados em tuas suposições,

de atribuíla ao Ser divino? Ainda insistirás que, removendo este

Ser para tão longe de toda similaridade com criaturas humanas,

inclinamo-nos para as hipóteses mais arbitrárias e ao mesmo

tempo enfraquecemos todas as provas de sua existência.

6. “Segunda: não tens razão alguma, com base em tua teoria,

para atribuir perfeição à Deidade, mesmo em sua capacidade

finita, ou para supô-la livre de todo erro, falha ou incoerência

em seus empreendimentos. Há muitas dificuldades

inexplicáveis nos trabalhos da natureza, as quais, caso

admitamos que um Autor perfeito está provado a priori, se

dissolvem facilmente e tornamse apenas dificuldades

aparentes, oriundas da capacidade estreita do homem, que não

pode remontar a relações infinitas. Mas, de acordo com o teu

método de raciocínio, essas dificuldades se tornam todas reais,

e talvez se insista nelas como novos exemplos de semelhança

com arte e engendro humanos. No mínimo deves reconhecer

que nos é impossível dizer, a partir de nossas vistas estreitas,

se este sistema contém alguma falha grande ou merece algum

elogio considerável se comparado a outros sistemas possíveis

ou até reais. Acaso poderia um camponês, se a ENEIDA fosse

lida para ele, dizer que este poema é absolutamente impecável

ou atribuir-lhe o posto adequado dentre as produções do

espírito humano?, ele, que nunca viu outra produção?

7. 16 “Mas fosse mesmo este mundo uma produção tão perfeita,

deveria ainda permanecer incerto se todas as excelências do

trabalho podem ser, com justeza, atribuídas ao operário. Se

examinarmos um navio, que ideia exaltada não formaremos da

engenhosidade do carpinteiro que forjou uma máquina tão

complicada e bela? E que surpresa não teremos quando

descobrirmos um mecânico estúpido que imitou outros e copiou

uma arte que, através duma longa sucessão de eras, depois de

múltiplas tentativas, erros, deliberações e controvérsias, tem

sido melhorada gradualmente? Muitos mundos podem ter sido

remendados e estropiados através duma eternidade antes de

este sistema ser descoberto: na arte de fazer mundos, muito

trabalho pode ter sido perdido, muitas tentativas infrutíferas

terem sido feitas e um melhoramento lento, porém contínuo, ter

sido levado adiante por infinitas eras. Em tais assuntos, quem

pode determinar onde está a verdade? Mais ainda, quem pode

conjecturar onde está a probabilidade, em meio a um número

de hipóteses que podem ser propostas e um número maior

ainda que pode ser imaginado?

8. “E qual sombra de argumento”, continuou FILÃO, “podes

produzir a partir de tuas hipóteses para provar a unidade da

Deidade? Um grande número de homens se alia ao construir

uma casa ou navio, ao erguer uma cidade, ao forjar uma

comunidade: por que não podem combinar-se várias Deidades

ao engendrarem e forjarem um mundo? Isto é apenas uma

similaridade muito maior com negócios humanos. Dividindo o

trabalho entre várias, podemos ademais limitar os atributos e

nos livrar daqueles poder e conhecimento extensivos que, de

acordo contigo, podem apenas servir para enfraquecer a prova

de sua existência. E se criaturas tão tolas, tão viciosas como o

homem podem ainda se unir e executar um plano, o quão mais

não poderão essas Deidades ou Demônios, que podemos

supor mais perfeitos em vários graus?

9. “Multiplicar causas sem necessidade é, de fato, contrário à

verdadeira filosofia – mas este princípio não se aplica ao

presente caso. Fosse uma Deidade anteriormente provada por

tua teoria, a qual fosse possuidora de cada atributo necessário

à produção do universo, seria desnecessário, admito (embora

não absurdo), supor qualquer outra Deidade existente. Mas

enquanto ainda é questionável se todos esses atributos estão

unidos num único sujeito ou dispersos entre vários Seres

independentes, através de quais fenômenos da natureza

poderemos pretender resolver a controvérsia? Quando vemos

um corpo elevado num prato de balança, temos certeza de que

há no prato oposto, embora escondido das vistas, alguma

contraparte de peso igual – mas ainda é permitido duvidar se

esse peso é um agregado de vários corpos distintos ou uma

massa uniforme unida.17 E se o peso necessário excede muito

qualquer coisa que tenhamos visto conjuntas num corpo único,

a primeira suposição parece ainda mais provável e natural. Um

Ser inteligente de poder e capacidade tão vastos quanto os

necessários para produzir o universo – ou, para falar a

linguagem da filosofia antiga, um tão prodigioso animal –

excede toda analogia e mesmo compreensão. 10. “Mas mais ainda, CLEANTES, homens são mortais e renovam

sua espécie por geração, e isto é comum a toda criatura

vivente. Os dois grandiosos sexos do macho e da fêmea, diz

MILTON, animam o mundo. Por que esta circunstância tão

universal, tão essencial, tem que ser excluída dessas Deidades

limitadas e numerosas? Contempla, então, a teogonia dos

tempos antigos nos ser devolvida.

11. “E por que não tornar-se um antropomorfista perfeito? Por que

não asserir que a Deidade ou as Deidades são corpóreas e têm

olhos, um nariz, boca, orelhas, etc.? EPICURO sustentou que

homem algum viu razão fora duma figura humana, portanto os

deuses têm que ter uma figura humana18. E este argumento,

que é merecidamente tão ridicularizado por CÍCERO, se torna,

de acordo contigo, sólido e filosófico.

12. “Numa palavra, CLEANTES, um homem que siga tua hipótese

é capaz, talvez, de asserir ou conjecturar que o universo

nalgum tempo surgiu dalgo parecido com desígnio – mas, além

desta posição, ele não poderá descobrir uma única

circunstância e ficará autorizado em seguida para fixar qualquer

ponto de sua teologia pela mais extrema licença de fantasia e

de hipótese. Este mundo, pelo que ele saiba, é muito faltoso e

imperfeito comparado a certo padrão superior, e foi apenas o

primeiro ensaio rude dalguma Deidade criança que depois o

abandonou, envergonhada de seu desempenho parco; é

apenas o trabalho dalguma Deidade dependente, inferior, e é

objeto de escárnio por parte dos seus superiores; é a produção

da velhice e senilidade nalguma Deidade aposentada, e desde

a morte dela tem percorrido aventuras a partir do primeiro

impulso que lhe fora dado… Com justeza dás sinais de horror,

DÊMEAS, a estas suposições estranhas – mas estas e milhares

doutras deste mesmo tipo são suposições de CLEANTES, não

minhas. A partir do momento em que os atributos da Deidade

se supõem finitos, todas estas têm lugar. E não posso, de

minha parte, pensar que um sistema de teologia tão

extravagante e desordenado seja, a qualquer respeito,

preferível a não ter sistema nenhum.”

13. “Estas suposições eu repudio absolutamente!”, bradou

CLEANTES, “Elas, contudo, não me impressionam com horror

algum; em especial quando propostas dessa maneira

divagadora como tu as deixas escapulir. Ao contrário, dão-me

prazer quando vejo que, pela indulgência mais extrema de tua

imaginação, jamais te livraste da hipótese do desígnio no

universo, mas estás obrigado, a todo momento, a ter recurso a

ela. A esta concessão adiro firmemente, e isto eu vejo como um

fundamento suficiente para a religião.”