Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 26 de 26

Páginas do PDF

Diálogos sobre a religião natural

Referências

 

BOLZANI, R. Acadêmicos versus pirrônicos. São Paulo: Alameda, 2013.

 

BROCHARD, V. Os céticos gregos. Tradução de Jaimir Conte. São Paulo: Odysseus, 2009

 

BUTLER, Joseph. A analogia da religião (Introdução). Griot: Revista de filosofia, Amargosa, v. 6, n. 2, p. 20-9, dez. 2012. Tradução de Bruna Frascolla Bloise.

 

CLAY, J. S. Hesiod’s Cosmos. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. 209p.

 

FRASCOLLA, B. Hume: Epistemologia e crítica à religião. 2013. 220 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador. 2013.

 

MONTEIRO, J. P. Hume e a epistemologia. São Paulo: UNESP; Discurso, 2009. 227p.

 

MOSSNER, E. C. The Enigma of Hume. Mind, Oxford, v. 45, n. 179, p. 334-49, jul., 1936.

 

NEWTON, I. An account of the book entituled Commercium epistolicum collinii et aliorum, de analyse promota. Philosophical Transaction of the Royal Society, Londres, n. 342, p. 173-224, jan./fev., 1715.

 

NEWTON, I. Opticks. Nova Iorque: Prometheus, 2003. 414p.

 

NEWTON, I. The Principia. Tradução de Andrew Motte, Nova Iorque: Prometheus, 1995. 445p.

PASSMORE, J. Hume’s Intentions. 3. ed. Grã-Bretanha: Duckworth, 1980. 180p.

 

PRICE, J. V. Sceptics in Cicero and Hume. Journal of History of Ideas, Pensilvânia, v. 25, n. 1, p. 97-106, jan./mar. 1964.

 

SMITH, N. K. Introduction. In: HUME, D. Dialogues Concerning Natural Religion. 2. ed. Nova Iorque: Macmillan, 1987. 249p.

 

SMITH, P. J. O ceticismo de Hume. São Paulo: Loyola, 1995. 303p.

Notas

 

1. Eis a referência: HUME, David. Dialogues concerning Natural

Religion. 2. ed. Nova Iorque: Macmillan, 1987.

↩

2. Em inglês, coherence, normalmente vertido por “coerência”, que

não faz sentido. Podem-se encontrar alguns latinismos no texto

de Hume, e um dos sentidos de cohæreo é aderir. Ademais,

observe-se que em certo momento Cícero fala de a “materia

ipsa cohærere” (Ac., I, 24), que Rackham, em sua tradução da

coleção Loeb, verteu por “form a concrete whole” (formar um

conjunto concreto).

↩

3. Como Hume marca de maneira igual palavras latinas, ênfases e

citações, é possível que, ao invés de “espécie” em inglês, aqui

se trate de species, a tradução latina do termo grego ἰδέα (cf.

Ac. I, 30). Talvez faça mais sentido que o estoico não se

arrebate com algum determinado tipo de bem, mas com a ideia

ou representação do bem.

↩

4. Kemp Smith nos informa tratar-se duma citação de Paradise

Lost, II, de Milton. Usei a versão de Antônio José de Lima

Leitão (1787-1856), disponível em www.ebooksbrasil.org.

↩

5. O uso intercambiável que Hume muitas vezes faz de religion e

superstition também não deixa de ser latinismo: No latim

clássico, religio e superstitio são sinônimos.

↩

6. Aqui vale lembrar que a física à época era um ramo da filosofia,

a filosofia natural.

↩

7. No período ao qual Hume alude, inexistia a palavra latina

scepticus, e ao invés disso se usava academicus. Usava-se

esta expressão por os únicos textos céticos disponíveis serem

os de Cícero, tendo Sexto Empírico sido redescoberto apenas

em meados da Renascença. A popularização filosófica do

termo se devesobretudo a Agostinho e Lactâncio, que

argumentavam respectivamente contra os acadêmicos e

baseado neles para assegurar a existência de Deus. Aqui,

Hume alude à estratégia cética fideísta à moda de Lactâncio.

Cf. o capítulo II de SCHMITT, Cicero Scepticus: A study of the

influence of the Academica in the Renaissance. Martinus

Nijhoff: Haia, 1972.

↩

8. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “desses cavalheiros

reverendos” substituiu “do clero”.

↩

9. ND, I, 60.

↩

10. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.

↩

11. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.

↩

12. Entre 1751 e 1763, este parágrafo substituiu o que segue:

“Quando consultamos a razão, todas as causas e efeitos

parecem igualmente explicáveis a priori, e tampouco é possível

determinar umas e outros por mera contemplação abstrata de

sua natureza, sem consultar a experiência ou considerar o que

descobrimos resultar da operação de objetos. E se essa

proposição for verdadeira em geral, que a razão, julgando a

priori, descobre serem todas as causas e efeitos igualmente

explicáveis, deve parecê-lo ainda mais quando comparamos o

mundo exterior de objetos àquele mundo de pensamento, que é

representado como sua causa. Se a razão nos diz que o mundo

de objetos requer uma causa, ela deve nos dar a mesma

informação sobre o mundo de pensamento – e se um parece à

razão requerer uma causa dalgum tipo particular, a outra tem

que requerer uma causa dum tipo parecido. Qualquer

proposição, portanto, que possamos formar sobre a causa do

primeiro, se for consistente ou inteligível ou necessária, tem

também que parecer à razão consistente ou inteligível ou 18. Cf. ND, I, 48: “Se a figura do homem supera todas as formas

necessária quando aplicada ao último, tal como o descreveste,

e vice-versa. É claro então que, até onde a razão abstrata

possa julgar, é perfeitamente indiferente se estamos no

universo de matéria ou no de pensamento, e não ganhamos

nada remontando um ao outro.” Hume riscou esta passagem,

depois acrescentou duas vezes à margem: “Escreve estas

linhas, embora apagadas”, e em ambos os casos riscou as

instruções.

↩

13. Hume na certa lera a historieta na seção 19 do capítulo XIII do

livro II do Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke.

Como para o filósofo indiano o mundo não poderia ficar solto no

espaço, haveria de repousar sobre um grande elefante. Mas

sobre o que estaria o elefante? Para Locke, bastaria, sem

elefantes, respondermos desde o começo que repousa sobre

substância, mesmo que não saibamos direito o que esta

significa – solução, sem dúvida, também nada humeana, já que

a clareza das ideias é indispensável em discussões filosóficas.

↩

14. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “qualquer significado

preciso” substituiu “um significado”.

↩

15. Em revisão feita entre 1751 e 1763, o começo deste parágrafo

até este ponto substituiu: “Tua resposta pode, talvez, ser boa,”

disse Filão, “com base em teus princípios de que o sistema

religioso pode ser provado pela experiência, e apenas pela

experiência, e de que a Deidade surgiu dalguma causa exterior.

Mas estas opiniões, sabe-lo, serão adotadas por pouquíssimos.

E para todos aqueles que raciocinam com base noutros

princípios e ainda negam a simplicidade misteriosa da natureza

divina, minha objeção ainda permanece boa.”

↩

16. Este parágrafo e o 9 foram acrescentados entre 1751 e 1763.

↩

17. Esta mesma imagem aparece na Investigação sobre o

entendimento humano, XI, §12.

↩

animais e de fato o deus é um animal, sua figura [i.e., a divina]

certamente é a mais bela de todas; e porquanto consta que o

deus é felicíssimo, e de fato ninguém pode ser feliz sem virtude

nem virtuoso sem razão, e consta que a razão não existe senão

em figura humana, está demonstrado que a representação

(species) do homem é a do deus.”

↩

19. No original, “symapthy”. Claro está que “sympathy” não pode

ser “simpatia”, então buscamos o significado que ela teria em

clássicos, e felizmente acontece de Cícero (ND, III, 28) tê-la

vertido para o latim: ele alude a “iste quasi consensus, quam

συμπάθειαν Grӕci vocant” que há por toda a natureza. Ora,

“sympathia” para Cícero virou “consensus”, que é

etimologicamente bom, mas cujo sentido, alterado com o

tempo, torna “consenso” uma tradução inviável. Então usei a

solução de Rackham de verter “consensus” por “concord”, i.e.,

“concórdia”.

↩

20. Cf. ND, I, 37: “Cleanthes […] tum ipsum mundum deum dicit

esse, tum totius naturӕ menti atque animo tribuit hoc nomen

[…].” Em português: “Cleantes […] ora diz que o próprio mundo

é Deus, ora dá este nome à mente e alma de toda a natureza

[…].” Cleantes de Assos era um filósofo estoico.

↩

21. Cf. ND, I, 33.

↩

22. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.

↩

23. Este parágrafo e o próximo foram acrescentados entre 1751 e

1763.

↩

24. Cf. RN, V, 849-859: “Vemos efetivamente que deve existir um

concurso de circunstâncias para que seja possível às gerações

o propagar-se; é necessário primeiro que haja alimentos e

depois que exista para os elementos seminais uma saída por

onde possam correr dos membros cansados; para que a fêmea 30. Não tendo sido encontrada, esta citação gera especulações de

se possa juntar aos machos, é preciso que tenha cada um o

que permita a troca de gozos. Tiveram então que desaparecer

muitas raças de seres vivos que não puderam, reproduzindo-se,

dar origem a uma descendência. Todas aquelas que vês se

alimentarem das auras vitais têm, ou a manha, ou a força, ou

então a mobilidade que, desde o princípio, protegeram a raça e

a conservaram.”

↩

25. Tive de usar este termo não dicionarizado para traduzir

“ectypal”, termo muito usado por Locke no Ensaio sobre o

entendimento humano para referir-se às ideias. É, por assim

dizer, antônimo de “arquétipo”: enquanto “arkhé” é “origem” em

grego, a preposição “ek” marca procedência. Assim, enquanto

um é o “tipo originário”; o outro, o “tipo procedente”.

↩

26. A passagem que vai desde o do começo do parágrafo 10 até

este ponto foi acrescentada entre 1751 e 1763. Toda a

passagem foi riscada por Hume e depois a instrução

acrescentada, também por Hume, à margem: “Imprime esta

passagem.” A abertura original do parágrafo 11 era: “‘Aventurar-

me-ei’, disse Filão, ‘a acrescentar a estes raciocínios de

Cleantes uma observação:’”

↩

27. Aqui, ao vertemos “imbecility”, consideramos tratar-se de mais

um latinismo de Hume: em latim, imbecilitas é apenas

impotência, fraqueza, sem conotação pejorativa do intelecto.

↩

28. Kemp Smith informa que esta é uma citação de Paradise Lost,

XI, de Milton. Usei a mesma versão.

↩

29. Note-se que Hume duplica aqui sua estratégia de colocar

posições censuráveis em diálogo: é um interlocutor hipotético

combatido por uma personagem que deve ceder nestes

diálogos. O duplo escrúpulo se explica quando vemos que ele

esboçará tratar do suicídio. Cf. seu apologético ensaio “Of

Suicide”.

↩

tradutores e editores. Parece ser uma citação às avessas de

Lucrécio, que disse dos que viveram a peste de Atenas:

“cobiçosos da vida, tementes à morte” (RN, VI,1240).

Significativamente, tratava-se de um ambiente desgraçado

onde as pessoas cobiçavam a vida. Por o De rerum natura ser

um livro bem conhecido à época, e ser clássica a sua descrição

da peste, era de esperar que o leitor erudito reconhecesse uma

passagem, mesmo adulterada.

↩

31. Segundo Kemp Smith, esta é uma citação de Dryden,

Aurengzebe, Ato IV, cena I, e Hume escreveu “espera” ao invés

de “pensa”.

↩

32. Entenda-se: são da mesma natureza porque tanto umas quanto

outras são desnecessárias à manutenção da espécie.

↩

33. Aqui haveria esta nota, que foi riscada: “César, falando dos

bosques na Germânia, menciona alguns animais como

subsistentes lá que estão agora absolutamente extintos. De

Bello Gall: lib. 6. Estes e mais alguns poucos exemplos podem

ser exceções à proposição proferida aqui. estrabão (lib. 44) cita

através de Políbio a descrição dum animal em torno de Tirol

que não mais se encontra. Se Políbio não estava enganado, o

que é possível, o animal deveria à época ser bem raro, já que

estrabão cita apenas uma autoridade e fala com dúvida.”

↩

34. A passagem que começa neste ponto e inclui o próximo

parágrafo foi acrescentada entre 1751 e 1763, tendo sido

depois ainda riscada e reescrita.

↩

35. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.

↩

36. Hume parece ter omitido acidentalmente um y, transformando

de your (tua) em our (nossa).

↩

37. Este parágrafo foi acrescentado na revisão final de 1776, ano

da morte do autor.

↩

38. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “superstição” substituiu

“religião”.

↩

39. Há aqui uma passagem riscada: “Se de fato considerarmos a

questão a uma luz meramente abstrata, se compararmos

apenas a importância dos motivos e em seguida refletirmos

sobre o instinto de autopreservação [self-love] da espécie

humana, devemos não apenas procurar um efeito maior a partir

de considerações religiosas, mas devemos estimá-las

absolutamente irresistíveis e infalíveis em sua operação. Pois

qual outro motivo pode contrabalançá-las razoavelmente

mesmo por um momento? Mas não se vê isto se sustentar na

realidade; e, portanto, podemos estar certos de que há algum

outro princípio da natureza humana, o qual negligenciamos

aqui, e que ao menos diminui a força desses motivos. Este

princípio é o apego que temos, &c.”

↩

40. Hume também discute este assunto na seção XIV da História

natural da religião.

↩

41. Entre 1751 e 1763, Hume riscou o trecho que vai deste ponto

até o fim do parágrafo, e depois acrescentou à margem:

“Imprime esta passagem”.

↩

42. Em rasura, “observação vulgar” substituiu “fenômeno comum”.

Vale confrontar essas observações sobre o caráter do fiel com a

última entrevista de David Hume, concedida a Boswell: “Ele

disse então categoricamente que a moralidade de toda religião

era má, e de fato não acho que zombava quando disse que

quando ouvia que um homem era religioso, concluía que era

um canalha, embora conhecesse alguns exemplos de homens

muito bons que fossem religiosos.” (DNR, ed. Kemp Smith, p.

76)

↩

43. Na Roma antiga, símbolos do poder político.

↩

44. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “comumente” substituiu

“sempre”.

↩

45. Aqui foi feito este acréscimo que depois foi riscado: “Uma vez

que governo, razão, estudo, amizade, amor e toda vantagem

humana é acompanhada por inconvenientes, como vemos

diariamente, o que não deve ser esperado de todos os vários

modelos de superstição, uma qualidade composta do que há de

mais absurdo, corrupto e bárbaro da nossa natureza?

Houvesse uma exceção a essa mistura universal de bem e mal

que se acha na vida, esta poderia ser declarada total e

inteiramente má.”

↩

46. Este parágrafo foi escrito à margem numa revisão entre 1751 e

1763, depois riscado e reescrito junto com o próximo parágrafo

na penúltima folha do manuscrito.

↩

47. No volume já aludido, à p. 211, Gaskin diz não ser esta uma

citação de Sêneca, mas uma paráfrase bem inexata das

Epistulӕ morales, 95. 50: “Primus est deorum cultus deos

credere”, ou seja, a primeira adoração aos deuses é crer neles.

↩

48. Este parágrafo é um acréscimo da revisão final de 1776.

↩

49. Aqui Hume é mais claro do que nos Diálogos ao descartar a

força do sentimento, da qual se vale o argumento do desígnio.

Em raciocínios pretensamente experimentais, não é em

sentimento que nos devemos basear, mas em fatos.

↩

50. I.e., raciocínio individual, do próprio fiel.

↩

51. O tópico das semelhanças e regularidades entre as religiões

mais diversas é desenvolvido na História natural da religião.

↩

52. Trata-se do diálogo que vem anexo à Investigação sobre os

princípios da moral.

↩

53. Hume emprega a palavra à maneira dos gregos: χράομαι pode

ser traduzido tanto como “usar” quanto como “fazer sexo com”.

↩

54. I.e., densidade demográfica.

↩

55. Trata-se da seguinte Petição dos Sacristãos, que não consta no

volume de cartas. Tirei-a de: PRICE, John Valdimir. The Ironic

Hume. Austin: Texas University Press, 1965, p. 173-5.

↩

56. À época, herdava as terras da família apenas o primogênito.

Hume, mesmo, ficara privado de terras.

↩

57. Do cume do monte Pisga, Moisés olhou para a terra prometida.

↩

58. Isto explica por que Dêmeas e Cleantes têm seus momentos

humeanos.

↩

59. Reproduzo traduzida a nota do editor destas cartas, J. Y. T.

Greig: “Elliot nunca alcançou indiferença nesses pontos. Ele foi

ancião líder na Igreja da Escócia, e de acordo com Thomas

Somerville, que se tornou ministro em Minto em 1767: ‘Quanto

à religião e à moral, sempre professou e inculcou os

sentimentos mais corretos e puros. Expressou uma acentuada

reprovação à filosofia cética inculcada com sutileza e elegância

ímpares na obra de David Hume, àquela época universalmente

lida e comumente admirada.’ (My own Life and Times, 122)”

↩

60. Nos Diálogos, não há nenhum sinal desta prova. Pelo contrário,

na História natural da religião aparece como explicação para a

atribuição por parte dos humanos de inteligência às forças

naturais: “Os homens têm uma tendência natural para conceber

todos os seres segundo sua própria imagem […]. Descobrimos

formas de faces humanas na lua, e de membros nas nuvens, e

por uma inclinação natural, se não for corrigida pela experiência 64. Segundo o editor, é a seguinte citação de Epicarmo errada:

ou pela reflexão, atribuímos maldade ou bondade a tudo o que

nos faz mal ou nos agrada. […] Não é surpreendente, então,

que o homem, absolutamente ignorante das causas, e ao

mesmo tempo tomado por tamanha ansiedade quanto ao seu

futuro destino, reconheça imediatamente que depende de

poderes invisíveis, dotados de sentimentos e inteligência.” (III,

§2)

↩

61. Segundo o editor, esta é uma citação de Horácio (Epístolas, I,

vi, 67-8). Ei-la completa: “Vive, vale! Si quid novistis rectius

istis,/ Candidus imperti; si nil his utere mecum.” Na tradução de

António Luiz de Seabra: “Adeus, e sê feliz. – Se outra doutrina/

Melhor conheces, franco ma revela;/ Mas se não a sabes, desta

te utiliza.” In: HORÁCIO FLACO, Quinto. Satyras e Epístolas.

Porto: Cruz Coutinho, 1846.

↩

62. Diz o editor das cartas: “James Balfour of Pilrig (1705-95), um

advogado. Indicado professor de Filosofia Moral em Edimburgo

(1754), transferido para a cadeira de Lei da Natureza e das

Nações (1764), autor de A delineation of the nature and

obligation of morality, with reflexions upon Mr. Hume’s book

entitled ‘An essay concerning the principles of morals’ (anon.

1753), Philosophical Essays (anon. 1768) e Philosophical

Dissertations (subscrito, 1782). Somerville, que assistiu às suas

aulas na Universidade, diz que suas conferências consistiam

basicamente em ilustrações desconexas do De Jure Civis de

Pufendorff, mas que ao final da sessão proferiu seis

conferências, cuidadosamente preparadas, que ‘pretendiam

refutar as doutrinas contidas nalguns dos Ensaios do Sr. Hume,

então universalmente lidos, em especial aqueles sobre poderes

ativos, causa e efeito, liberdade e necessidade.’ (My own Life

and Times, 17)”

↩

63. Hume nasceu em 1711 – seu destinatário era, portanto, seis

anos mais velho.

↩

“νᾶφε καὶ μέμνησ’ ἀπιστεῖν”, i.e., “Sê ajuizado e lembra-te de

não saber”. Ainda segundo ele, há chances de os erros não

serem de Hume, mas terem ocorrido numa transcrição da carta.

↩

65. Trata-se do diálogo que vem anexo à Investigação sobre os

princípios da moral.

↩

66. Aqui o editor das cartas pergunta: “Será que Hume supôs

honestamente que um parágrafo como o seguinte, tirado do

Diálogo, não ofenderia um pudico? – ‘É desnecessário

dissimular: a consequência dum comércio bem livre entre os

sexos e de eles viverem muito juntos terminará muito

frequentemente em intrigas e galanteio. Devemos sacrificar

algo de útil, se estivermos muito ansiosos para obter qualidades

agradáveis, e não podemos pretender alcançar igualmente todo

tipo de vantagem. Exemplos de licenciosidade, multiplicandose

diariamente, vão enfraquecer o escândalo entre um dos sexos,

e ao outro vão ensinar gradativamente a adotar a máxima de La

Fontaine sobre a infidelidade feminina: Se alguém sabe, é

besteira; se ninguém sabe, não existe.’”

↩

67. Segundo os editores das New Letters, Raymond Klibansky e

Ernerst Mossner, Warburton teve participação na censura que

transformou as pretendidas Cinco Dissertações nas Quatro

Dissertações, incluindo (1) “A História Natural da Religião”, (2)

”Das Paixões”, (3) “Da Tragédia”, (4) “Do padrão do gosto” e

deixando de fora (5) os ensaios “Do Suicídio” e “Da

Imortalidade da Alma”.

↩

68. Há um pano de fundo pagão aqui: Após a morte, as almas

poderiam seguir para o Rio Lete, do esquecimento, ou então,

caso fossem grandes mortais favoritos dos deuses, passavam a

eternidade entre imortais nos Campos Elíseos.

↩

69. Pedro Paulo Pimenta elenca especulações de que texto seja

este; dentre elas, a de ser um esboço do Ensaio de história da 77. Hume estava morrendo, com um câncer então incurável no

sociedade civil. (Cf. PIMENTA, P. P. G., “Entre refinamento e

civilização”, in Dois Pontos, v. 8, n. 11, 2011.)

↩

70. Tratava-se do próprio Hume.

↩

71. Esta é uma interpretação difícil de dar da posição de Voltaire.

Embora anticlerical, ele era um teísta, e ao longo do Dicionário

Filosófico afirma a providência (cf. o verbete “Teísta”), além de

adotar posições bem distintas da de Hume, como a de que é

preciso crer em Deus para ser bom (cf. “Ateu, ateísmo”).

Também por ser teísta, estava muito preocupado em sustentar

uma espécie de metafísica newtoniana (tendo chegado a

escrever La Métaphysique de Newton) e, por conseguinte,

atacar Leibniz.

↩

72. Hume citava de memória, e a versão correta é esta: “Non, si

quid turbida Roma/ Elevet, accedas; examenve improbum in illa/

Castiges trutina; nec te quæsiveris extra” (Persius, Sat., I. 5-7),

que significa “Se Roma, turva, ninguém desacredita, não adiras;

não te dês o pensamento de corrigir o torto juízo da lei; não o

procures fora de ti mesmo”. (Baseei-me na tradução de Amadio

Ronchini, cuja referência é: Persio FlaCo, Aulo. Le Satire.

Parma: Michele Adorni, 1889.)

↩

73. Talvez este seja aqui um sinônimo de exotérico, i.e., “passível

de ser ministrado a um grande público, e não somente a um

grupo seleto de alunos”, segundo o Houaiss.

↩

74. Da História da Inglaterra.

↩

75. O partido Whig era o liberal de então, e se contrapunha ao

conservador Tory.

↩

76. Esta carta chegou atrasada porque Hume escolhera mandá-la

pelo portador, ao invés de pelo correio, como veremos adiante.

↩

sistema digestivo.

↩

78. Trata-se da carta seguinte.

↩

79. Agora, trata-se d’ A Riqueza das Nações.

↩

80. William Strahan era o editor de Hume; John Pringle, um amigo

médico.

↩

81. Segundo o editor das Cartas, Greig, eram oito volumes da

História da Inglaterra e dois dos Ensaios. Ou seja, tratava-se

quase das obras completas, pois todos os escritos filosóficos, à

exceção do Tratado da natureza humana (que Hume substituiu

pelas duas Investigações e a Dissertação sobre as paixões) dos

Diálogos e dos ensaios “Sobre a Imortalidade da Alma” e “Do

suicídio”, saíram em dois volumes com o título Ensaios e

tratados sobre vários assuntos.

↩

82. Os volumes da época eram, em geral, quarto, oitavo e

duodécimo – o nome derivava da fração da folha que uma

página ocupava. Os mais comuns eram o oitavo, do tamanho

padrão de um livro de hoje. Contudo, o fato de existirem

edições em quarto conferia a uma obra algum prestígio.

Duodécimo, ao contrário, era o tipo de edição mais barato. Cf.

SHER. The Enlightenment & The Book. Chicago: Chicago

University Press, 2006.

↩

83. Hume morreu no dia 25 de agosto de 1776, aos sessenta e

cinco anos, e esta é sua última carta.

↩

84. Esta é uma versão curta sem revisão bibliográfica de minha

dissertação de mestrado, defendida em agosto de 2013 na

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade

Federal da Bahia, tendo como banca os professores João

Carlos Salles (orientador), João Paulo Monteiro e Rafael Azize.

↩

85. Cf. a Carta II deste volume.

↩

86. Servimo-nos da tradução de João Paulo Monteiro em seu Hume

e a Epistemologia, p. 159.

↩

87. Apud MONTEIRO, op. cit., p. 158.

↩

88. “É rara a felicidade dos tempos em que se possa pensar o que

bem se entenda, e o que se pense se possa dizer.” (Tradução

nossa.)

↩

89. “A analogia da religião (Introdução)”, p. 24.

↩

90. Op. cit., p. 25.

↩

91. Op. cit., p. 23.

↩

92. Op. cit., p. 24.

↩

93. Ibidem.

↩

94. A este respeito é interessante notar que ainda na Introdução, e

já em 1736, Butler assegura aos seus leitores que ele não

procederá como Descartes, dando por óbvio que ele está

errado ao não principiar a filosofia pela experiência: “Formar

nossas noções da constituição e do governo do mundo com

base em raciocínios, sem fundação para os princípios que

assumimos, quer dos atributos de Deus, quer de qualquer outra

coisa, é construir um mundo sobre hipóteses, como fizera

Descartes.” (Op. cit., p. 25.) Os Diálogos são quarenta anos

mais jovens do que a Analogia, e, tratando-se da evolução do

público leitor nesse ínterim, temos Mossner: “Na primeira

metade do século XVIII, duas escolas de pensamento religioso

floresceram na Igreja Anglicana: o grupo dogmático a priori

modificando os sistemas filosóficos de Descartes, Espinosa e

Leibniz […] e o grupo a posteriori, mais recente, envolvendo

uma filosofia religiosa a partir da fundamentação de Locke e

melhor representada por Joseph Butler. […] Ambos os grupos

foram influenciados pela Nova Ciência, especialmente como

conduzida por Isaac Newton; mas o primeiro estava mais

impressionado por sua matemática, e o outro por seu

empirismo. Entre líderes intelectuais importantes, o último grupo

foi ganhando lentamente um domínio sobre o primeiro. Em

1750, a vitória estava virtualmente completa.” (“The Enigma of

Hume”, p. 335.) (Tradução nossa.)

↩

95. NEWTON, Opticks, p. 369-70. (Tradução nossa.)

↩

96. NEWTON, “An account of Commercium Epistolicum”, p. 224.

(Tradução nossa.)

↩

97. Ibidem.

↩

98. Ibidem. O “se” é grifo nosso.

↩

99. Ibidem.

↩

100. PassMore, Hume’s Intentions, p. 43. (Tradução nossa.)

↩

101. NEWTON, The Principia, 1995, p. 320. (Tradução nossa da

versão inglesa.)

↩

102. Ibidem.

↩

103. Quanto às sereias, nunca vistas porém pensáveis, as partes

que a compõem são ideias de coisas já vistas. E, mesmo que

se tratasse de animal inteiramente extravagante, haveríamos de

ter no mínimo ideia das suas cores.

↩

104. Decerto, não era consequência do pirronismo duvidarmos das

coisas quotidianas – e Hume, que cita Sexto com referência

detalhada, dificilmente ignoraria isto. Ao invés de presumirmos

essa improvável ignorância da parte de Hume, mais vale

atentar à cobrança que ele faz de um resultado para a adoção

de princípios filosóficos. O problema do pirronismo há de ser,

então, o de não ter consequência prática possível – ao contrário

das tantas outras escolas da Antiguidade, que pretendiam ter

implicação moral, e, por que não, da filosofia do próprio Hume,

que condena o monoteísmo como nocivo à moralidade, à razão

e à política (cf. NHR, IX-XIV).

↩

105. Carnéades foi outro escolarca cético da Academia. Aquele que

queira inteirarse mais do assunto lerá com prazer Os céticos

gregos, de Victor Brochard, e Acadêmicos versus Pirrônicos, de

Roberto Bolzani Filho.

↩

106. SMITH, O ceticismo de Hume, p. 264.

↩

107. Para um cotejo detalhado dos argumentos de Cota e do Filão

humeano, cf. PRICE, “Sceptics in Cicero and Hume”.

↩

108. Esta objeção que tiramos a partir da filosofia desenvolvida nas

seções II, IV e V da Investigação aparece também na boca de

“um amigo que aprecia paradoxos céticos” (§1), na Seção XI:

“Pergunto quem os transportou para as regiões celestiais […]

para que tão imprudentemente possam afirmar que suas

divindades realizaram, ou irão realizar, algum propósito além do

que efetivamente apareceu?” (§16) O plural aparece por o

“amigo” se passar por Epicuro argumentando contra os

religiosos atenienses. Mas, além de elas valerem também para

o argumento do desígnio, de este ser descrito de maneira igual

à dos teístas do séc. XVIII (cf. §11), o amigo argumenta

igualmente contra um ponto ausente na religião grega: o da

futurição (cf. §21). Os que ignoram a censura terão aqui

dificuldade em explicar o porquê deste expediente.

↩

109. CLAY, Hesiod’s Cosmos, p. 14.

↩

110. Sigo João Paulo Monteiro (cf. “Causalidade e Seleção natural”

em Hume e a Epistemologia) ao dar este nome àquilo que

Hume chama de hipótese epicurista. Não é exato seguir o

filósofo, pois a hipótese de Lucrécio, o epicurista, é muito mais

pormenorizada do que a de Hume e tem as significativas

diferenças de a matéria ser infinita para um e finita para outro, e

por corpos eternos serem impossíveis para um mas não para o

outro. Por outro lado, “seleção natural” é frequentemente

atrelada a Darwin. Parece-me contudo defensável a escolha

deste termo se cuidarmos em reservar “evolução das espécies”

para o darwinismo, sendo por outro lado interessante

historiograficamente manter as hipóteses epicurista, humeana e

darwinista sob um mesmo espectro: todas elas tiram a causa

externa e explicam a ordem de maneira imanente. Digo

“historiograficamente” tanto por no passado o epicurismo ter

desempenhado o papel de adversário do finalismo

desempenhado hoje pelo darwinismo com assemelhadas

implicações teológicas, quanto para afastarmos a superstição

atual de que as grandes ideias recentes são de todo originais.

↩

111. MONTEIRO, op. cit., p. 117.

↩

112. Butler mesmo reclama daqueles que “se entregam a

especulações vãs e fúteis sobre como o mundo poderia ter sido

forjado de modo diferente e, ao imaginarem que as coisas

deveriam ter sido dispostas e continuado segundo um modelo

melhor do que o que aparece na sua presente disposição e

conduta, se baseiam na suposição de que as coisas poderiam

ser assim.” (Op. cit., p. 26)

↩

113. KEMP SMITH in Dialogues concerning natural religion, p. 39.

(Tradução nossa.)

↩

 

Crisipo apud Plut. derepug. Stoicorum. [As notas de Hume

estarão sempre com asterisco]

↩

L’art de penser. [A passagem aludida está no décimo primeiro

parágrafo do «Premier Discours» de La logique ou l’art de

penser, de Antoine Arnauld e Pierre Nicole.]

↩

Mons. Huet. [Kemp Smith informa que o texto aludido é o Traité

philosophique de la faiblesse de l’esprit humain.]

↩

Recherche de la vérité, liv. 3, chap. 9. [Segue a passagem

original: «on ne doit pas tant appeler Dieu un esprit, pour

montrer positivement ce qu’il est, que pour signifier qu’il n’est

pas matériel. C’est un être infiniment parfait, on n’en peut pas

douter. Mais, comme il ne faut pas s’imaginer avec les

antropomorphites qu’il doive avoir la figure humaine, à cause

qu’elle paraît la plus parfaite, quand même nous le

supposerions corporel, il ne faut aussi penser que l’esprit de

Dieu ait des pensées humaines, et son esprit soit semblable au

nôtre, à cause que nous ne connaissons rien de plus parfait que

notre esprit. Il faut plutôt croire que, comme il renferme dans lui-

même les perfections de la matière sans être materiel, puisqu’il

est certain que la matière a rapport à quelque perfection qui est

en Dieu, il comprend aussi les perfections des esprits creés

sans être esprit de la manière que nous concevons les esprits;

que son nom véritable est Celui qui est, c’est-à-dire l’être sans

restriction, tout-être, l’être infini et universel.» Em Hume e a

epistemologia, p. 148, João Paulo Monteiro nota que Hume

ressaltou uma palavra ausente do original.]

↩

[RN] Liv. II, 1095. [“quem poderia ter mãos bastante firmes para

manejar as fortes rédeas do infinito, quem poderia fazer girar

harmoniosos todos os céus, aquecer com fogo todas as terras

fertilizadas, em todos os lugares, em todos os tempos […]?”]

↩

De Nat. Deor., Liv. I [Em português: “Pois com que olhos d’alma

terá podido o vosso Platão contemplar aquela fábrica de tanto

trabalho, com a qual faz o mundo ter sido contruído e edificado

por um deus? com que método de engenharia? com quais

ferramentas? com quais alavancas? com quais máquinas?

quem foram os ministros de tantas tarefas? de que modo ar,

fogo, água e terra puderam obedecer e executar a vontade do

arquiteto?”]

↩

Dr. Clarke. [Não encontrei a citação original. Em nota ao volume

que organiza, Gaskin diz que Hume não cita Clarke, mas

parafraseia seu pensamento contido em A Discourse

concerning the Being and Attributes of God. (HUME, Dialogues

and Natural History of Religion. Oxford University: Oxford, 2008,

p. 207.)]

↩

République des Lettres, Août, 1685.

↩

Esta opinião foi mantida pelo Dr. King e alguns outros antes de

Leibniz, embora por nenhum de fama tão grande quanto a

deste filósofo alemão.

↩

Parece evidente que a disputa entre céticos e dogmáticos é

inteiramente verbal, ou ao menos diz respeito apenas aos graus

de dúvida e certeza que devemos dispensar a todos os

raciocínios – e tais disputas comumente são no fundo verbais e

não admitem qualquer determinação precisa. Nenhum

dogmático filosófico nega que há dificuldades acerca tanto dos

sentidos quanto de todas as ciências, e que estas dificuldades

sejam, num método regular e lógico, absolutamente insolúveis.

Nenhum cético nega que estamos sob uma necessidade

absoluta, apesar dessas dificuldades, de pensar e crer e

raciocinar sobre todo tipo de assunto, e mesmo de

frequentemente assentir com confiança e segurança. A única

diferença, então, entre estas seitas, se elas merecem este

nome, é que o cético, por hábito, capricho ou inclinação, insiste

mais nas dificuldades; o dogmático, por razões semelhantes, na

necessidade. [Esta nota, riscada e reescrita, foi acrescentada

entre 1751 e 1763.]

↩

Lib. 6, cap. 54.

↩

Iphigenia in Tauride.

↩

Você terminou Diálogos sobre a religião natural

David Hume

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.