Diálogos sobre a religião natural
Referências
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Notas
1. Eis a referência: HUME, David. Dialogues concerning Natural
Religion. 2. ed. Nova Iorque: Macmillan, 1987.
↩
2. Em inglês, coherence, normalmente vertido por “coerência”, que
não faz sentido. Podem-se encontrar alguns latinismos no texto
de Hume, e um dos sentidos de cohæreo é aderir. Ademais,
observe-se que em certo momento Cícero fala de a “materia
ipsa cohærere” (Ac., I, 24), que Rackham, em sua tradução da
coleção Loeb, verteu por “form a concrete whole” (formar um
conjunto concreto).
↩
3. Como Hume marca de maneira igual palavras latinas, ênfases e
citações, é possível que, ao invés de “espécie” em inglês, aqui
se trate de species, a tradução latina do termo grego ἰδέα (cf.
Ac. I, 30). Talvez faça mais sentido que o estoico não se
arrebate com algum determinado tipo de bem, mas com a ideia
ou representação do bem.
↩
4. Kemp Smith nos informa tratar-se duma citação de Paradise
Lost, II, de Milton. Usei a versão de Antônio José de Lima
Leitão (1787-1856), disponível em www.ebooksbrasil.org.
↩
5. O uso intercambiável que Hume muitas vezes faz de religion e
superstition também não deixa de ser latinismo: No latim
clássico, religio e superstitio são sinônimos.
↩
6. Aqui vale lembrar que a física à época era um ramo da filosofia,
a filosofia natural.
↩
7. No período ao qual Hume alude, inexistia a palavra latina
scepticus, e ao invés disso se usava academicus. Usava-se
esta expressão por os únicos textos céticos disponíveis serem
os de Cícero, tendo Sexto Empírico sido redescoberto apenas
em meados da Renascença. A popularização filosófica do
termo se devesobretudo a Agostinho e Lactâncio, que
argumentavam respectivamente contra os acadêmicos e
baseado neles para assegurar a existência de Deus. Aqui,
Hume alude à estratégia cética fideísta à moda de Lactâncio.
Cf. o capítulo II de SCHMITT, Cicero Scepticus: A study of the
influence of the Academica in the Renaissance. Martinus
Nijhoff: Haia, 1972.
↩
8. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “desses cavalheiros
reverendos” substituiu “do clero”.
↩
9. ND, I, 60.
↩
10. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.
↩
11. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.
↩
12. Entre 1751 e 1763, este parágrafo substituiu o que segue:
“Quando consultamos a razão, todas as causas e efeitos
parecem igualmente explicáveis a priori, e tampouco é possível
determinar umas e outros por mera contemplação abstrata de
sua natureza, sem consultar a experiência ou considerar o que
descobrimos resultar da operação de objetos. E se essa
proposição for verdadeira em geral, que a razão, julgando a
priori, descobre serem todas as causas e efeitos igualmente
explicáveis, deve parecê-lo ainda mais quando comparamos o
mundo exterior de objetos àquele mundo de pensamento, que é
representado como sua causa. Se a razão nos diz que o mundo
de objetos requer uma causa, ela deve nos dar a mesma
informação sobre o mundo de pensamento – e se um parece à
razão requerer uma causa dalgum tipo particular, a outra tem
que requerer uma causa dum tipo parecido. Qualquer
proposição, portanto, que possamos formar sobre a causa do
primeiro, se for consistente ou inteligível ou necessária, tem
também que parecer à razão consistente ou inteligível ou 18. Cf. ND, I, 48: “Se a figura do homem supera todas as formas
necessária quando aplicada ao último, tal como o descreveste,
e vice-versa. É claro então que, até onde a razão abstrata
possa julgar, é perfeitamente indiferente se estamos no
universo de matéria ou no de pensamento, e não ganhamos
nada remontando um ao outro.” Hume riscou esta passagem,
depois acrescentou duas vezes à margem: “Escreve estas
linhas, embora apagadas”, e em ambos os casos riscou as
instruções.
↩
13. Hume na certa lera a historieta na seção 19 do capítulo XIII do
livro II do Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke.
Como para o filósofo indiano o mundo não poderia ficar solto no
espaço, haveria de repousar sobre um grande elefante. Mas
sobre o que estaria o elefante? Para Locke, bastaria, sem
elefantes, respondermos desde o começo que repousa sobre
substância, mesmo que não saibamos direito o que esta
significa – solução, sem dúvida, também nada humeana, já que
a clareza das ideias é indispensável em discussões filosóficas.
↩
14. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “qualquer significado
preciso” substituiu “um significado”.
↩
15. Em revisão feita entre 1751 e 1763, o começo deste parágrafo
até este ponto substituiu: “Tua resposta pode, talvez, ser boa,”
disse Filão, “com base em teus princípios de que o sistema
religioso pode ser provado pela experiência, e apenas pela
experiência, e de que a Deidade surgiu dalguma causa exterior.
Mas estas opiniões, sabe-lo, serão adotadas por pouquíssimos.
E para todos aqueles que raciocinam com base noutros
princípios e ainda negam a simplicidade misteriosa da natureza
divina, minha objeção ainda permanece boa.”
↩
16. Este parágrafo e o 9 foram acrescentados entre 1751 e 1763.
↩
17. Esta mesma imagem aparece na Investigação sobre o
entendimento humano, XI, §12.
↩
animais e de fato o deus é um animal, sua figura [i.e., a divina]
certamente é a mais bela de todas; e porquanto consta que o
deus é felicíssimo, e de fato ninguém pode ser feliz sem virtude
nem virtuoso sem razão, e consta que a razão não existe senão
em figura humana, está demonstrado que a representação
(species) do homem é a do deus.”
↩
19. No original, “symapthy”. Claro está que “sympathy” não pode
ser “simpatia”, então buscamos o significado que ela teria em
clássicos, e felizmente acontece de Cícero (ND, III, 28) tê-la
vertido para o latim: ele alude a “iste quasi consensus, quam
συμπάθειαν Grӕci vocant” que há por toda a natureza. Ora,
“sympathia” para Cícero virou “consensus”, que é
etimologicamente bom, mas cujo sentido, alterado com o
tempo, torna “consenso” uma tradução inviável. Então usei a
solução de Rackham de verter “consensus” por “concord”, i.e.,
“concórdia”.
↩
20. Cf. ND, I, 37: “Cleanthes […] tum ipsum mundum deum dicit
esse, tum totius naturӕ menti atque animo tribuit hoc nomen
[…].” Em português: “Cleantes […] ora diz que o próprio mundo
é Deus, ora dá este nome à mente e alma de toda a natureza
[…].” Cleantes de Assos era um filósofo estoico.
↩
21. Cf. ND, I, 33.
↩
22. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.
↩
23. Este parágrafo e o próximo foram acrescentados entre 1751 e
1763.
↩
24. Cf. RN, V, 849-859: “Vemos efetivamente que deve existir um
concurso de circunstâncias para que seja possível às gerações
o propagar-se; é necessário primeiro que haja alimentos e
depois que exista para os elementos seminais uma saída por
onde possam correr dos membros cansados; para que a fêmea 30. Não tendo sido encontrada, esta citação gera especulações de
se possa juntar aos machos, é preciso que tenha cada um o
que permita a troca de gozos. Tiveram então que desaparecer
muitas raças de seres vivos que não puderam, reproduzindo-se,
dar origem a uma descendência. Todas aquelas que vês se
alimentarem das auras vitais têm, ou a manha, ou a força, ou
então a mobilidade que, desde o princípio, protegeram a raça e
a conservaram.”
↩
25. Tive de usar este termo não dicionarizado para traduzir
“ectypal”, termo muito usado por Locke no Ensaio sobre o
entendimento humano para referir-se às ideias. É, por assim
dizer, antônimo de “arquétipo”: enquanto “arkhé” é “origem” em
grego, a preposição “ek” marca procedência. Assim, enquanto
um é o “tipo originário”; o outro, o “tipo procedente”.
↩
26. A passagem que vai desde o do começo do parágrafo 10 até
este ponto foi acrescentada entre 1751 e 1763. Toda a
passagem foi riscada por Hume e depois a instrução
acrescentada, também por Hume, à margem: “Imprime esta
passagem.” A abertura original do parágrafo 11 era: “‘Aventurar-
me-ei’, disse Filão, ‘a acrescentar a estes raciocínios de
Cleantes uma observação:’”
↩
27. Aqui, ao vertemos “imbecility”, consideramos tratar-se de mais
um latinismo de Hume: em latim, imbecilitas é apenas
impotência, fraqueza, sem conotação pejorativa do intelecto.
↩
28. Kemp Smith informa que esta é uma citação de Paradise Lost,
XI, de Milton. Usei a mesma versão.
↩
29. Note-se que Hume duplica aqui sua estratégia de colocar
posições censuráveis em diálogo: é um interlocutor hipotético
combatido por uma personagem que deve ceder nestes
diálogos. O duplo escrúpulo se explica quando vemos que ele
esboçará tratar do suicídio. Cf. seu apologético ensaio “Of
Suicide”.
↩
tradutores e editores. Parece ser uma citação às avessas de
Lucrécio, que disse dos que viveram a peste de Atenas:
“cobiçosos da vida, tementes à morte” (RN, VI,1240).
Significativamente, tratava-se de um ambiente desgraçado
onde as pessoas cobiçavam a vida. Por o De rerum natura ser
um livro bem conhecido à época, e ser clássica a sua descrição
da peste, era de esperar que o leitor erudito reconhecesse uma
passagem, mesmo adulterada.
↩
31. Segundo Kemp Smith, esta é uma citação de Dryden,
Aurengzebe, Ato IV, cena I, e Hume escreveu “espera” ao invés
de “pensa”.
↩
32. Entenda-se: são da mesma natureza porque tanto umas quanto
outras são desnecessárias à manutenção da espécie.
↩
33. Aqui haveria esta nota, que foi riscada: “César, falando dos
bosques na Germânia, menciona alguns animais como
subsistentes lá que estão agora absolutamente extintos. De
Bello Gall: lib. 6. Estes e mais alguns poucos exemplos podem
ser exceções à proposição proferida aqui. estrabão (lib. 44) cita
através de Políbio a descrição dum animal em torno de Tirol
que não mais se encontra. Se Políbio não estava enganado, o
que é possível, o animal deveria à época ser bem raro, já que
estrabão cita apenas uma autoridade e fala com dúvida.”
↩
34. A passagem que começa neste ponto e inclui o próximo
parágrafo foi acrescentada entre 1751 e 1763, tendo sido
depois ainda riscada e reescrita.
↩
35. Este parágrafo foi acrescentado entre 1751 e 1763.
↩
36. Hume parece ter omitido acidentalmente um y, transformando
de your (tua) em our (nossa).
↩
37. Este parágrafo foi acrescentado na revisão final de 1776, ano
da morte do autor.
↩
38. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “superstição” substituiu
“religião”.
↩
39. Há aqui uma passagem riscada: “Se de fato considerarmos a
questão a uma luz meramente abstrata, se compararmos
apenas a importância dos motivos e em seguida refletirmos
sobre o instinto de autopreservação [self-love] da espécie
humana, devemos não apenas procurar um efeito maior a partir
de considerações religiosas, mas devemos estimá-las
absolutamente irresistíveis e infalíveis em sua operação. Pois
qual outro motivo pode contrabalançá-las razoavelmente
mesmo por um momento? Mas não se vê isto se sustentar na
realidade; e, portanto, podemos estar certos de que há algum
outro princípio da natureza humana, o qual negligenciamos
aqui, e que ao menos diminui a força desses motivos. Este
princípio é o apego que temos, &c.”
↩
40. Hume também discute este assunto na seção XIV da História
natural da religião.
↩
41. Entre 1751 e 1763, Hume riscou o trecho que vai deste ponto
até o fim do parágrafo, e depois acrescentou à margem:
“Imprime esta passagem”.
↩
42. Em rasura, “observação vulgar” substituiu “fenômeno comum”.
Vale confrontar essas observações sobre o caráter do fiel com a
última entrevista de David Hume, concedida a Boswell: “Ele
disse então categoricamente que a moralidade de toda religião
era má, e de fato não acho que zombava quando disse que
quando ouvia que um homem era religioso, concluía que era
um canalha, embora conhecesse alguns exemplos de homens
muito bons que fossem religiosos.” (DNR, ed. Kemp Smith, p.
76)
↩
43. Na Roma antiga, símbolos do poder político.
↩
44. Em rasura feita entre 1751 e 1763, “comumente” substituiu
“sempre”.
↩
45. Aqui foi feito este acréscimo que depois foi riscado: “Uma vez
que governo, razão, estudo, amizade, amor e toda vantagem
humana é acompanhada por inconvenientes, como vemos
diariamente, o que não deve ser esperado de todos os vários
modelos de superstição, uma qualidade composta do que há de
mais absurdo, corrupto e bárbaro da nossa natureza?
Houvesse uma exceção a essa mistura universal de bem e mal
que se acha na vida, esta poderia ser declarada total e
inteiramente má.”
↩
46. Este parágrafo foi escrito à margem numa revisão entre 1751 e
1763, depois riscado e reescrito junto com o próximo parágrafo
na penúltima folha do manuscrito.
↩
47. No volume já aludido, à p. 211, Gaskin diz não ser esta uma
citação de Sêneca, mas uma paráfrase bem inexata das
Epistulӕ morales, 95. 50: “Primus est deorum cultus deos
credere”, ou seja, a primeira adoração aos deuses é crer neles.
↩
48. Este parágrafo é um acréscimo da revisão final de 1776.
↩
49. Aqui Hume é mais claro do que nos Diálogos ao descartar a
força do sentimento, da qual se vale o argumento do desígnio.
Em raciocínios pretensamente experimentais, não é em
sentimento que nos devemos basear, mas em fatos.
↩
50. I.e., raciocínio individual, do próprio fiel.
↩
51. O tópico das semelhanças e regularidades entre as religiões
mais diversas é desenvolvido na História natural da religião.
↩
52. Trata-se do diálogo que vem anexo à Investigação sobre os
princípios da moral.
↩
53. Hume emprega a palavra à maneira dos gregos: χράομαι pode
ser traduzido tanto como “usar” quanto como “fazer sexo com”.
↩
54. I.e., densidade demográfica.
↩
55. Trata-se da seguinte Petição dos Sacristãos, que não consta no
volume de cartas. Tirei-a de: PRICE, John Valdimir. The Ironic
Hume. Austin: Texas University Press, 1965, p. 173-5.
↩
56. À época, herdava as terras da família apenas o primogênito.
Hume, mesmo, ficara privado de terras.
↩
57. Do cume do monte Pisga, Moisés olhou para a terra prometida.
↩
58. Isto explica por que Dêmeas e Cleantes têm seus momentos
humeanos.
↩
59. Reproduzo traduzida a nota do editor destas cartas, J. Y. T.
Greig: “Elliot nunca alcançou indiferença nesses pontos. Ele foi
ancião líder na Igreja da Escócia, e de acordo com Thomas
Somerville, que se tornou ministro em Minto em 1767: ‘Quanto
à religião e à moral, sempre professou e inculcou os
sentimentos mais corretos e puros. Expressou uma acentuada
reprovação à filosofia cética inculcada com sutileza e elegância
ímpares na obra de David Hume, àquela época universalmente
lida e comumente admirada.’ (My own Life and Times, 122)”
↩
60. Nos Diálogos, não há nenhum sinal desta prova. Pelo contrário,
na História natural da religião aparece como explicação para a
atribuição por parte dos humanos de inteligência às forças
naturais: “Os homens têm uma tendência natural para conceber
todos os seres segundo sua própria imagem […]. Descobrimos
formas de faces humanas na lua, e de membros nas nuvens, e
por uma inclinação natural, se não for corrigida pela experiência 64. Segundo o editor, é a seguinte citação de Epicarmo errada:
ou pela reflexão, atribuímos maldade ou bondade a tudo o que
nos faz mal ou nos agrada. […] Não é surpreendente, então,
que o homem, absolutamente ignorante das causas, e ao
mesmo tempo tomado por tamanha ansiedade quanto ao seu
futuro destino, reconheça imediatamente que depende de
poderes invisíveis, dotados de sentimentos e inteligência.” (III,
§2)
↩
61. Segundo o editor, esta é uma citação de Horácio (Epístolas, I,
vi, 67-8). Ei-la completa: “Vive, vale! Si quid novistis rectius
istis,/ Candidus imperti; si nil his utere mecum.” Na tradução de
António Luiz de Seabra: “Adeus, e sê feliz. – Se outra doutrina/
Melhor conheces, franco ma revela;/ Mas se não a sabes, desta
te utiliza.” In: HORÁCIO FLACO, Quinto. Satyras e Epístolas.
Porto: Cruz Coutinho, 1846.
↩
62. Diz o editor das cartas: “James Balfour of Pilrig (1705-95), um
advogado. Indicado professor de Filosofia Moral em Edimburgo
(1754), transferido para a cadeira de Lei da Natureza e das
Nações (1764), autor de A delineation of the nature and
obligation of morality, with reflexions upon Mr. Hume’s book
entitled ‘An essay concerning the principles of morals’ (anon.
1753), Philosophical Essays (anon. 1768) e Philosophical
Dissertations (subscrito, 1782). Somerville, que assistiu às suas
aulas na Universidade, diz que suas conferências consistiam
basicamente em ilustrações desconexas do De Jure Civis de
Pufendorff, mas que ao final da sessão proferiu seis
conferências, cuidadosamente preparadas, que ‘pretendiam
refutar as doutrinas contidas nalguns dos Ensaios do Sr. Hume,
então universalmente lidos, em especial aqueles sobre poderes
ativos, causa e efeito, liberdade e necessidade.’ (My own Life
and Times, 17)”
↩
63. Hume nasceu em 1711 – seu destinatário era, portanto, seis
anos mais velho.
↩
“νᾶφε καὶ μέμνησ’ ἀπιστεῖν”, i.e., “Sê ajuizado e lembra-te de
não saber”. Ainda segundo ele, há chances de os erros não
serem de Hume, mas terem ocorrido numa transcrição da carta.
↩
65. Trata-se do diálogo que vem anexo à Investigação sobre os
princípios da moral.
↩
66. Aqui o editor das cartas pergunta: “Será que Hume supôs
honestamente que um parágrafo como o seguinte, tirado do
Diálogo, não ofenderia um pudico? – ‘É desnecessário
dissimular: a consequência dum comércio bem livre entre os
sexos e de eles viverem muito juntos terminará muito
frequentemente em intrigas e galanteio. Devemos sacrificar
algo de útil, se estivermos muito ansiosos para obter qualidades
agradáveis, e não podemos pretender alcançar igualmente todo
tipo de vantagem. Exemplos de licenciosidade, multiplicandose
diariamente, vão enfraquecer o escândalo entre um dos sexos,
e ao outro vão ensinar gradativamente a adotar a máxima de La
Fontaine sobre a infidelidade feminina: Se alguém sabe, é
besteira; se ninguém sabe, não existe.’”
↩
67. Segundo os editores das New Letters, Raymond Klibansky e
Ernerst Mossner, Warburton teve participação na censura que
transformou as pretendidas Cinco Dissertações nas Quatro
Dissertações, incluindo (1) “A História Natural da Religião”, (2)
”Das Paixões”, (3) “Da Tragédia”, (4) “Do padrão do gosto” e
deixando de fora (5) os ensaios “Do Suicídio” e “Da
Imortalidade da Alma”.
↩
68. Há um pano de fundo pagão aqui: Após a morte, as almas
poderiam seguir para o Rio Lete, do esquecimento, ou então,
caso fossem grandes mortais favoritos dos deuses, passavam a
eternidade entre imortais nos Campos Elíseos.
↩
69. Pedro Paulo Pimenta elenca especulações de que texto seja
este; dentre elas, a de ser um esboço do Ensaio de história da 77. Hume estava morrendo, com um câncer então incurável no
sociedade civil. (Cf. PIMENTA, P. P. G., “Entre refinamento e
civilização”, in Dois Pontos, v. 8, n. 11, 2011.)
↩
70. Tratava-se do próprio Hume.
↩
71. Esta é uma interpretação difícil de dar da posição de Voltaire.
Embora anticlerical, ele era um teísta, e ao longo do Dicionário
Filosófico afirma a providência (cf. o verbete “Teísta”), além de
adotar posições bem distintas da de Hume, como a de que é
preciso crer em Deus para ser bom (cf. “Ateu, ateísmo”).
Também por ser teísta, estava muito preocupado em sustentar
uma espécie de metafísica newtoniana (tendo chegado a
escrever La Métaphysique de Newton) e, por conseguinte,
atacar Leibniz.
↩
72. Hume citava de memória, e a versão correta é esta: “Non, si
quid turbida Roma/ Elevet, accedas; examenve improbum in illa/
Castiges trutina; nec te quæsiveris extra” (Persius, Sat., I. 5-7),
que significa “Se Roma, turva, ninguém desacredita, não adiras;
não te dês o pensamento de corrigir o torto juízo da lei; não o
procures fora de ti mesmo”. (Baseei-me na tradução de Amadio
Ronchini, cuja referência é: Persio FlaCo, Aulo. Le Satire.
Parma: Michele Adorni, 1889.)
↩
73. Talvez este seja aqui um sinônimo de exotérico, i.e., “passível
de ser ministrado a um grande público, e não somente a um
grupo seleto de alunos”, segundo o Houaiss.
↩
74. Da História da Inglaterra.
↩
75. O partido Whig era o liberal de então, e se contrapunha ao
conservador Tory.
↩
76. Esta carta chegou atrasada porque Hume escolhera mandá-la
pelo portador, ao invés de pelo correio, como veremos adiante.
↩
sistema digestivo.
↩
78. Trata-se da carta seguinte.
↩
79. Agora, trata-se d’ A Riqueza das Nações.
↩
80. William Strahan era o editor de Hume; John Pringle, um amigo
médico.
↩
81. Segundo o editor das Cartas, Greig, eram oito volumes da
História da Inglaterra e dois dos Ensaios. Ou seja, tratava-se
quase das obras completas, pois todos os escritos filosóficos, à
exceção do Tratado da natureza humana (que Hume substituiu
pelas duas Investigações e a Dissertação sobre as paixões) dos
Diálogos e dos ensaios “Sobre a Imortalidade da Alma” e “Do
suicídio”, saíram em dois volumes com o título Ensaios e
tratados sobre vários assuntos.
↩
82. Os volumes da época eram, em geral, quarto, oitavo e
duodécimo – o nome derivava da fração da folha que uma
página ocupava. Os mais comuns eram o oitavo, do tamanho
padrão de um livro de hoje. Contudo, o fato de existirem
edições em quarto conferia a uma obra algum prestígio.
Duodécimo, ao contrário, era o tipo de edição mais barato. Cf.
SHER. The Enlightenment & The Book. Chicago: Chicago
University Press, 2006.
↩
83. Hume morreu no dia 25 de agosto de 1776, aos sessenta e
cinco anos, e esta é sua última carta.
↩
84. Esta é uma versão curta sem revisão bibliográfica de minha
dissertação de mestrado, defendida em agosto de 2013 na
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal da Bahia, tendo como banca os professores João
Carlos Salles (orientador), João Paulo Monteiro e Rafael Azize.
↩
85. Cf. a Carta II deste volume.
↩
86. Servimo-nos da tradução de João Paulo Monteiro em seu Hume
e a Epistemologia, p. 159.
↩
87. Apud MONTEIRO, op. cit., p. 158.
↩
88. “É rara a felicidade dos tempos em que se possa pensar o que
bem se entenda, e o que se pense se possa dizer.” (Tradução
nossa.)
↩
89. “A analogia da religião (Introdução)”, p. 24.
↩
90. Op. cit., p. 25.
↩
91. Op. cit., p. 23.
↩
92. Op. cit., p. 24.
↩
93. Ibidem.
↩
94. A este respeito é interessante notar que ainda na Introdução, e
já em 1736, Butler assegura aos seus leitores que ele não
procederá como Descartes, dando por óbvio que ele está
errado ao não principiar a filosofia pela experiência: “Formar
nossas noções da constituição e do governo do mundo com
base em raciocínios, sem fundação para os princípios que
assumimos, quer dos atributos de Deus, quer de qualquer outra
coisa, é construir um mundo sobre hipóteses, como fizera
Descartes.” (Op. cit., p. 25.) Os Diálogos são quarenta anos
mais jovens do que a Analogia, e, tratando-se da evolução do
público leitor nesse ínterim, temos Mossner: “Na primeira
metade do século XVIII, duas escolas de pensamento religioso
floresceram na Igreja Anglicana: o grupo dogmático a priori
modificando os sistemas filosóficos de Descartes, Espinosa e
Leibniz […] e o grupo a posteriori, mais recente, envolvendo
uma filosofia religiosa a partir da fundamentação de Locke e
melhor representada por Joseph Butler. […] Ambos os grupos
foram influenciados pela Nova Ciência, especialmente como
conduzida por Isaac Newton; mas o primeiro estava mais
impressionado por sua matemática, e o outro por seu
empirismo. Entre líderes intelectuais importantes, o último grupo
foi ganhando lentamente um domínio sobre o primeiro. Em
1750, a vitória estava virtualmente completa.” (“The Enigma of
Hume”, p. 335.) (Tradução nossa.)
↩
95. NEWTON, Opticks, p. 369-70. (Tradução nossa.)
↩
96. NEWTON, “An account of Commercium Epistolicum”, p. 224.
(Tradução nossa.)
↩
97. Ibidem.
↩
98. Ibidem. O “se” é grifo nosso.
↩
99. Ibidem.
↩
100. PassMore, Hume’s Intentions, p. 43. (Tradução nossa.)
↩
101. NEWTON, The Principia, 1995, p. 320. (Tradução nossa da
versão inglesa.)
↩
102. Ibidem.
↩
103. Quanto às sereias, nunca vistas porém pensáveis, as partes
que a compõem são ideias de coisas já vistas. E, mesmo que
se tratasse de animal inteiramente extravagante, haveríamos de
ter no mínimo ideia das suas cores.
↩
104. Decerto, não era consequência do pirronismo duvidarmos das
coisas quotidianas – e Hume, que cita Sexto com referência
detalhada, dificilmente ignoraria isto. Ao invés de presumirmos
essa improvável ignorância da parte de Hume, mais vale
atentar à cobrança que ele faz de um resultado para a adoção
de princípios filosóficos. O problema do pirronismo há de ser,
então, o de não ter consequência prática possível – ao contrário
das tantas outras escolas da Antiguidade, que pretendiam ter
implicação moral, e, por que não, da filosofia do próprio Hume,
que condena o monoteísmo como nocivo à moralidade, à razão
e à política (cf. NHR, IX-XIV).
↩
105. Carnéades foi outro escolarca cético da Academia. Aquele que
queira inteirarse mais do assunto lerá com prazer Os céticos
gregos, de Victor Brochard, e Acadêmicos versus Pirrônicos, de
Roberto Bolzani Filho.
↩
106. SMITH, O ceticismo de Hume, p. 264.
↩
107. Para um cotejo detalhado dos argumentos de Cota e do Filão
humeano, cf. PRICE, “Sceptics in Cicero and Hume”.
↩
108. Esta objeção que tiramos a partir da filosofia desenvolvida nas
seções II, IV e V da Investigação aparece também na boca de
“um amigo que aprecia paradoxos céticos” (§1), na Seção XI:
“Pergunto quem os transportou para as regiões celestiais […]
para que tão imprudentemente possam afirmar que suas
divindades realizaram, ou irão realizar, algum propósito além do
que efetivamente apareceu?” (§16) O plural aparece por o
“amigo” se passar por Epicuro argumentando contra os
religiosos atenienses. Mas, além de elas valerem também para
o argumento do desígnio, de este ser descrito de maneira igual
à dos teístas do séc. XVIII (cf. §11), o amigo argumenta
igualmente contra um ponto ausente na religião grega: o da
futurição (cf. §21). Os que ignoram a censura terão aqui
dificuldade em explicar o porquê deste expediente.
↩
109. CLAY, Hesiod’s Cosmos, p. 14.
↩
110. Sigo João Paulo Monteiro (cf. “Causalidade e Seleção natural”
em Hume e a Epistemologia) ao dar este nome àquilo que
Hume chama de hipótese epicurista. Não é exato seguir o
filósofo, pois a hipótese de Lucrécio, o epicurista, é muito mais
pormenorizada do que a de Hume e tem as significativas
diferenças de a matéria ser infinita para um e finita para outro, e
por corpos eternos serem impossíveis para um mas não para o
outro. Por outro lado, “seleção natural” é frequentemente
atrelada a Darwin. Parece-me contudo defensável a escolha
deste termo se cuidarmos em reservar “evolução das espécies”
para o darwinismo, sendo por outro lado interessante
historiograficamente manter as hipóteses epicurista, humeana e
darwinista sob um mesmo espectro: todas elas tiram a causa
externa e explicam a ordem de maneira imanente. Digo
“historiograficamente” tanto por no passado o epicurismo ter
desempenhado o papel de adversário do finalismo
desempenhado hoje pelo darwinismo com assemelhadas
implicações teológicas, quanto para afastarmos a superstição
atual de que as grandes ideias recentes são de todo originais.
↩
111. MONTEIRO, op. cit., p. 117.
↩
112. Butler mesmo reclama daqueles que “se entregam a
especulações vãs e fúteis sobre como o mundo poderia ter sido
forjado de modo diferente e, ao imaginarem que as coisas
deveriam ter sido dispostas e continuado segundo um modelo
melhor do que o que aparece na sua presente disposição e
conduta, se baseiam na suposição de que as coisas poderiam
ser assim.” (Op. cit., p. 26)
↩
113. KEMP SMITH in Dialogues concerning natural religion, p. 39.
(Tradução nossa.)
↩
Crisipo apud Plut. derepug. Stoicorum. [As notas de Hume
estarão sempre com asterisco]
↩
L’art de penser. [A passagem aludida está no décimo primeiro
parágrafo do «Premier Discours» de La logique ou l’art de
penser, de Antoine Arnauld e Pierre Nicole.]
↩
Mons. Huet. [Kemp Smith informa que o texto aludido é o Traité
philosophique de la faiblesse de l’esprit humain.]
↩
Recherche de la vérité, liv. 3, chap. 9. [Segue a passagem
original: «on ne doit pas tant appeler Dieu un esprit, pour
montrer positivement ce qu’il est, que pour signifier qu’il n’est
pas matériel. C’est un être infiniment parfait, on n’en peut pas
douter. Mais, comme il ne faut pas s’imaginer avec les
antropomorphites qu’il doive avoir la figure humaine, à cause
qu’elle paraît la plus parfaite, quand même nous le
supposerions corporel, il ne faut aussi penser que l’esprit de
Dieu ait des pensées humaines, et son esprit soit semblable au
nôtre, à cause que nous ne connaissons rien de plus parfait que
notre esprit. Il faut plutôt croire que, comme il renferme dans lui-
même les perfections de la matière sans être materiel, puisqu’il
est certain que la matière a rapport à quelque perfection qui est
en Dieu, il comprend aussi les perfections des esprits creés
sans être esprit de la manière que nous concevons les esprits;
que son nom véritable est Celui qui est, c’est-à-dire l’être sans
restriction, tout-être, l’être infini et universel.» Em Hume e a
epistemologia, p. 148, João Paulo Monteiro nota que Hume
ressaltou uma palavra ausente do original.]
↩
[RN] Liv. II, 1095. [“quem poderia ter mãos bastante firmes para
manejar as fortes rédeas do infinito, quem poderia fazer girar
harmoniosos todos os céus, aquecer com fogo todas as terras
fertilizadas, em todos os lugares, em todos os tempos […]?”]
↩
De Nat. Deor., Liv. I [Em português: “Pois com que olhos d’alma
terá podido o vosso Platão contemplar aquela fábrica de tanto
trabalho, com a qual faz o mundo ter sido contruído e edificado
por um deus? com que método de engenharia? com quais
ferramentas? com quais alavancas? com quais máquinas?
quem foram os ministros de tantas tarefas? de que modo ar,
fogo, água e terra puderam obedecer e executar a vontade do
arquiteto?”]
↩
Dr. Clarke. [Não encontrei a citação original. Em nota ao volume
que organiza, Gaskin diz que Hume não cita Clarke, mas
parafraseia seu pensamento contido em A Discourse
concerning the Being and Attributes of God. (HUME, Dialogues
and Natural History of Religion. Oxford University: Oxford, 2008,
p. 207.)]
↩
République des Lettres, Août, 1685.
↩
Esta opinião foi mantida pelo Dr. King e alguns outros antes de
Leibniz, embora por nenhum de fama tão grande quanto a
deste filósofo alemão.
↩
Parece evidente que a disputa entre céticos e dogmáticos é
inteiramente verbal, ou ao menos diz respeito apenas aos graus
de dúvida e certeza que devemos dispensar a todos os
raciocínios – e tais disputas comumente são no fundo verbais e
não admitem qualquer determinação precisa. Nenhum
dogmático filosófico nega que há dificuldades acerca tanto dos
sentidos quanto de todas as ciências, e que estas dificuldades
sejam, num método regular e lógico, absolutamente insolúveis.
Nenhum cético nega que estamos sob uma necessidade
absoluta, apesar dessas dificuldades, de pensar e crer e
raciocinar sobre todo tipo de assunto, e mesmo de
frequentemente assentir com confiança e segurança. A única
diferença, então, entre estas seitas, se elas merecem este
nome, é que o cético, por hábito, capricho ou inclinação, insiste
mais nas dificuldades; o dogmático, por razões semelhantes, na
necessidade. [Esta nota, riscada e reescrita, foi acrescentada
entre 1751 e 1763.]
↩
Lib. 6, cap. 54.
↩
Iphigenia in Tauride.
↩
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David Hume