Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 5 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte III

 

 

1. “Agora o argumento mais absurdo”, replicou CLEANTES, “nas

mãos dum homem de engenhosidade e invenção, pode adquirir

um ar de probabilidade! Não estás ciente, FILÃO, de que se

tornou necessário para COPÉRNICO e seus primeiros

discípulos provar a similaridade da matéria terrestre e celeste

porque vários filósofos, cegados por velhos sistemas e

apoiados nalgumas aparências sensíveis, negaram esta

similaridade?, mas que não é de modo algum necessário que

teístas provem a similaridade dos trabalhos da natureza

àqueles da arte porque tal é autoevidente e inegável? A mesma

matéria, uma forma parecida: o que mais é preciso para mostrar

uma analogia entre suas causas e afirmar a origem de todas as

coisas advinda de propósito e intenção divina? Tuas objeções –

tenho de dizer-to tranquilamente – não são em nada melhores

do que as cavilações abstrusas daqueles filósofos que negaram

o movimento, e devem ser refutadas do mesmo modo: por

ilustrações e exemplos, ao invés de argumentos sérios e

filosofia.

2. "Supõe, portanto, que uma voz articulada foi ouvida nas

nuvens, muito mais alta e melodiosa do que qualquer arte

humana possa alcançar; supõe que esta voz se estendeu no

mesmo instante por todas as nações e falou a cada uma em

sua língua e dialeto. Supõe que as palavras proferidas não

apenas contêm um sentido e significado justos, mas fornecem

alguma instrução inteiramente digna dum Ser benevolente,

superior à humanidade: serias capaz de hesitar por um

momento a respeito desta voz? E não tens que atribuí-la

instantaneamente a algum desígnio e propósito? Ainda não

posso ver senão todas as mesmas objeções (se elas merecem

este nome) que jazem contra o sistema do teísmo; elas podem

também ser produzidas contra esta inferência.

3. “Acaso não poderias dizer que todas as conclusões

concernentes a fatos são fundadas em experiência – que

quando ouvimos uma voz articulada no escuro e daí inferimos

um homem é apenas a semelhança dos efeitos que nos leva a

concluir que há uma semelhança parecida na causa –, mas que

essa voz extraordinária, por sua altura, extensão e flexibilidade

a todas as linguagens, sustenta uma analogia tão pequena com

qualquer voz humana que não temos razão para supor uma

analogia entre suas causas? E, consequentemente, que uma

fala racional, sábia, coerente, procedeu não sabias donde,

talvez dum assobio acidental dos ventos, e não dalguma razão

ou inteligência divina? Vês claramente tuas próprias objeções

nestas cavilações; e, espero também, vês claramente que elas

são incapazes de ter mais força num caso do que noutro.

4. “Mas, para trazer o caso para ainda mais perto deste do

universo, farei duas suposições que não implicam nem absurdo,

nem impossibilidade. Supõe que há uma língua natural,

universal, invariável, comum a cada indivíduo de raça humana,

e que livros são produções naturais que se perpetuam do

mesmo jeito que animais e vegetais: por descendência e

propagação. Várias expressões de nossas paixões contêm uma

língua universal: todos os animais brutos têm uma fala natural

que, embora limitada, é bem inteligível para suas próprias

espécies. E como há infinitamente menos partes e menos

engenho na melhor composição de eloquência do que no corpo

organizado mais grosseiro, a propagação duma Ilíada ou duma

Eneida é uma suposição mais fácil do que a de qualquer planta

ou animal.

5. “Supõe, portanto, que entras em tua biblioteca, povoada assim

por volumes naturais, contendo a mais refinada razão e a mais

maravilhosa beleza: poderias abrir um deles e duvidar de que

sua causa original sustentasse a mais forte analogia com a

mente e a inteligência? Quando aquilo raciocinasse e

discursasse, quando protestasse, argumentasse e reforçasse

suas opiniões e tópicos; quando se aplicasse às vezes ao

intelecto puro, às vezes às afecções; quando coletasse,

dispusesse e adornasse alguma consideração adequada ao

objeto – poderias persistir em afirmar que tudo isso realmente

não tem mesmo nenhum significado e a primeira formação

desse volume nas entranhas do seu pai original não procedeu

de pensamento e desígnio? Tua teimosia, eu sei, não alcança

tal grau de firmeza: até tua brincadeira e licenciosidade céticas

ficariam vexadas ante um absurdo tão manifesto.

6. “Mas se houver alguma diferença, FILÃO, entre esse caso

suposto e o caso real do universo, toda a vantagem está neste

último. A anatomia dum animal confere exemplos muito mais

fortes de desígnio do que o exame de LÍVIO ou TÁCITO – e

qualquer objeção que lançaste naquele caso, conduzindo-me

de volta para uma cena tão inusual e extraordinária como a

formação de mundos, terá igual lugar no caso da biblioteca

vegetativa. Escolhe, pois, teu partido, FILÃO, sem qualquer

ambiguidade ou evasão: afirma ou que um volume racional não

é prova de causa racional ou admite uma causa similar para

todos os trabalhos da natureza.

7. “Deixa-me observar também aqui”, continuou CLEANTES, “que

este argumento religioso, ao invés de se enfraquecer por esse

ceticismo tão afetado por ti, antes adquire força por ele e torna-

se mais firme e indisputável. Excluir todo raciocínio ou

argumento de todo tipo é ou afetação ou loucura. A profissão

declarada de todo cético razoável é rejeitar apenas argumentos

abstrusos, remotos e refinados, aderir ao senso comum e aos

instintos simples da natureza e assentir onde quer que algumas

razões o arrebatem com uma força tão grande que ele não

possa, sem a maior violência, impedi-lo. Ora, os argumentos

para a religião natural são claramente deste tipo, e nada senão

a metafísica mais perversa e obstinada pode rejeitá-los.

Considera, anatomiza o olho: examina sua estrutura e engenho

e diz-me, pelo teu próprio sentimento, se a ideia de um

engendrador não flui imediatamente sobre ti com uma força tal

como a duma sensação. A conclusão mais óbvia é decerto em

favor do desígnio, e é preciso tempo, reflexão e estudo para

evocar essas objeções frívolas, embora abstrusas, que podem

sustentar infidelidade. Quem poderá contemplar o macho e a

fêmea de cada espécie, a correspondência de suas partes e

instintos, suas paixões e todo o curso da vida antes e depois da

geração, sem ficar cônscio de que a propagação das espécies

é pretendida pela natureza? Milhões e milhões de tais exemplos

se apresentam através de cada parte do universo, e nenhuma

língua pode exprimir um significado mais inteligível, irresistível,

do que o curioso ajuste de causas finais. Que grau, portanto, de

dogmatismo cego deve-se alcançar para rejeitar argumentos

tão naturais e convincentes?

8. 10 “Há certas belezas na escrita, com as quais podemos nos

deparar, que parecem contrárias a regras e que ganham

afecções e animam a imaginação em oposição a todos os

preceitos da crítica e às autoridades dos mestres da arte

estabelecidos. E se o argumento para o teísmo for, como

pretendes, contraditório aos princípios da lógica, sua influência

universal, irresistível, prova claramente que pode haver

argumentos duma natureza irregular parecida. Por mais que

cavilações possam ser incitadas, um mundo ordeiro, bem como

fala coerente, articulada, ainda será recebido como uma prova

incontestável de desígnio e intenção.

9. “Algumas vezes acontece, admito, de os argumentos religiosos

não terem sua devida influência sobre um selvagem ignorante e

bárbaro; não porque são obscuros e difíceis, mas porque ele

nunca se questiona a seu respeito. Donde surge a curiosa

estrutura dum animal? Da cópula de seus pais. E estes, donde?

Dos pais deles. Uns poucos removem a série de objetos a tal

distância que para ele se perdem em escuridão e confusão; e

tampouco ele é movido por alguma curiosidade a pesquisá-los

até mais longe. Mas isto não é nem dogmatismo nem ceticismo;

é estupidez, um estado de mente muito diferente da tua

disposição esmiuçadora e inquisitiva, meu engenhoso amigo.

Podes remontar a causas a partir de efeitos, podes comparar os

mais distantes e remotos objetos, e teus maiores erros

procederem não da esterilidade de pensamento e invenção,

mas duma fertilidade luxuriante demais, que suprime teu bom-

senso natural com uma profusão de escrúpulos e objeções

desnecessários.”

10. Aqui pude observar, HERMIPO, que FILÃO estava um pouco

embaraçado e confuso: mas enquanto ele hesitava em proferir

uma resposta, para sua sorte DÊMEAS interrompeu o discurso

e livrou-lhe a cara.

11. “Teu exemplo, CLEANTES,” disse ele, “tirado dos livros e da

língua, sendo familiar, teve, confesso, muito mais força nessa

explicação; mas não há algum perigo nessa circunstância

mesma?, e isso não pode nos tornar presunçosos ao nos fazer

imaginar que compreendemos a Deidade e temos ideia de sua

natureza e atributos? Quando leio um volume, entro na mente e

intenção do autor: eu mo torno, de certo modo, naquele

instante, e tenho um sentimento e concepção imediatos

daquelas ideias que se revolveram em sua imaginação

enquanto estava empregado naquela composição. Mas tal

aproximação nunca podemos fazer da Deidade com segurança.

Seus meios não são nossos meios. Seus atributos são

perfeitos, mas incompreensíveis. E esse volume da natureza

contém um grande e inexplicável enigma, mais do que qualquer

discurso ou raciocínio inteligível.

12. “Os antigos PLATÔNICOS, tu o sabes, foram os mais religiosos

e devotos de todos os filósofos pagãos; ainda assim, muitos

deles – em particular PLOTINO – declararam expressamente

que o intelecto ou entendimento não pode ser atribuído à

Deidade, e que nossa mais perfeita adoração a ela consiste não

em atos de veneração, gratidão ou amor, mas em certa

autoaniquilação misteriosa ou extinção total de nossas

faculdades. Tais ideias são, talvez, muito exageradas, mas

ainda se deve reconhecer que ao representar a Deidade como

tão inteligível e compreensível, e tão similar à mente humana,

somos culpados da parcialidade mais grosseira e estreita, e

fazemos de nós mesmos o modelo de todo o universo.

13. 11 “Todos os sentimentos da mente humana – gratidão,

ressentimento, amor, amizade, aprovação, culpa, piedade,

emulação, inveja –, têm uma referência plena ao estado e

situação do homem, e são calculados para preservar a

existência e promover a atividade de certo ser em certas

circunstâncias. Todas as nossas ideias, derivadas dos sentidos,

são confessadamente falsas e ilusórias; não podem, portanto,

ser suspeitas de ter lugar numa inteligência suprema. E como

as ideias de sentimento interno, acrescentadas àquelas dos

sentidos externos, compõem todo o equipamento do

entendimento humano e devemos assim concluir que nenhuns

dos materiais do pensamento são em algum respeito iguais à

maneira de pensar, como podemos fazer alguma comparação

entre elas ou supô-las dalgum jeito assemelhadas? Nosso

pensamento é flutuante, incerto, passageiro, sucessivo e

composto; e fôssemos remover essas circunstâncias,

aniquilaríamos absolutamente sua essência, e seria em tal caso

um abuso de termos aplicar a isso o nome de pensamento ou

razão. No mínimo, se parecer mais pio e respeitoso (como

realmente o é) ainda reter esses termos, quando mencionamos

o Ser supremo temos de reconhecer que seu significado neste

caso é totalmente incompreensível, e que as debilidades de

nossa natureza não nos permitem alcançar ideias que

correspondam minimamente à sublimidade inefável dos

atributos divinos.”