Diálogos sobre a religião natural
VIII. Carta a William Strahan
Teu amigo e servo mais afeiçoado
DAVID HUME
Dr. Adam Smith
VIII. Carta a William Strahan
(L, v. II, p. 322-4)
Bath, 8 de junho de 1776.
Meu caro senhor,
Lastimarás ao ouvir que preciso retirar todas as minhas boas
descrições que eu te dera de meu estado de saúde. As águas, depois de parecerem se harmonizar comigo, têm sensivelmente um efeito mau, e abandonei completamente o seu uso. Espero apenas pelas direções de Sir John Pringle para deixar este lugar e devo, creio, viajar até o norte em poucos dias. Se alguma carta para mim chegou endereçada a ti, faz a gentileza de retê-las até que eu possa te informar minha rota.
Fico feliz em descobrir que foste capaz de começar essa edição
nova com tanto zelo. Fi-la extremamente correta; ao menos acho que, se eu fosse viver mais vinte anos, jamais conseguiria dar-lhe mais algum melhoramento. Isto é alguma pequena satisfação para mim na minha situação presente, e posso acrescentar que é quase a única que meus escritos já me ofereceram – pois quaisquer retornos convenientes de aprovação proveniente do público pelo cuidado, precisão, trabalho, desinteresse e coragem de minhas composições ainda estão por vir. Embora, confesso a ti, eu veja muitos sintomas de que eles estão por vir. Mas acontecerá comigo como com muitos outros escritores: embora eu tenha alcançado uma idade considerável, não hei de viver para ver alguma justiça feita a mim. Não é improvável, no entanto, que minha autoestima e boas impressões me conduzam a este modo de pensar.
Tão logo esta edição seja terminada, por favor manda uma cópia
de todos os dez volumes81 para Sir John Pringle, o mesmo para o Sr. Gibbon, uma cópia da História para a senhora Elliot na rua Brewer, seis cópias do todo para mim em Edimburgo, ou para meu irmão no caso de minha morte.
Se este evento acontecer, como é provável, antes da publicação
desta edição, há um pedido que quero fazer-te: antes de deixar Edimburgo, escrevi uma pequena obra (podes acreditar que é uma bem pequena) que chamo de “A História de minha própria vida”. Desejo que ela seja afixada nesta edição – isto será tido por curioso e divertido. Meu irmão ou o Dr. Adam Smith a mandarão para ti, e lhes darei instruções para este propósito.
Devo também falar-te dum outro trabalho mais importante. Há
alguns anos compus uma obra que podes fazer num pequeno
volume de duodécimo 82. Chamo-a de Diálogos sobre a religião natural. Alguns dos meus amigos me lisonjeiam dizendo que esta é a melhor coisa que jamais escrevi. Até agora me abstive de publicá-la porque ultimamente estive desejoso por viver quieto e me manter longe de todo clamor – pois, embora ela não seja mais ofensiva do que algumas coisas que já publiquei, ainda assim, sabes que algumas delas foram tidas por muito ofensivas e, sendo prudente, eu deveria tê-las suprimido. Lá introduzo um cético, que é de fato refutado e por fim desiste da argumentação – mais ainda, confessa que estava apenas se divertindo com cavilações –, mas, antes de ser silenciado, apresenta vários tópicos que gerarão ressentimento e serão tidos por audaciosos e livres demais, bem como muito distantes da via comum. Tão logo eu chegue a Edimburgo, pretendo imprimir uma pequena edição de 500, da qual posso dar uns 100 de presente e devo fazer do restante um presente para ti, junto com a propriedade literária do todo, desde que não tenhas nenhum escrúpulo, em tua situação presente, de ser o editor. Não é necessário que afixes teu nome na página com o título. Declaro seriamente que, depois que o Sr. Millar, tu e o Sr. Cadell reconhecestes vossa publicação da Investigação sobre o entendimento humano, não sei de nenhuma razão por que devesses ter o mínimo escrúpulo com relação a esses diálogos. Eles serão muito menos detestáveis para a lei, e não mais expostos ao clamor popular. Qualquer que seja a tua resolução, rogo para que mantenhas um completo silêncio sobre este assunto. Se eu tos deixar no meu testamento, executar o desejo dum amigo morto tornará a publicação ainda mais desculpável. Mallet nunca sofreu nada por ser o editor dos trabalhos de Bolingbroke.