Diálogos sobre a religião natural
Parte IV
1. “Parece-me estranho”, disse CLEANTES, “que tu, DÊMEAS,
que és tão sincero na causa da religião, ainda mantenhas a
natureza da Deidade misteriosa, incompreensível, e insistas tão
arduamente que ela não tem nenhum modo de semelhança ou
similaridade com criaturas humanas. A Deidade, posso admitir
prontamente, possui muitos poderes e atributos dos quais não
podemos ter nenhuma compreensão: mas se nossas ideias, até
onde alcançam, não forem justas e adequadas, e
correspondentes à sua real natureza, não sei o que haveria
nesse assunto de digno de se insistir. O nome, sem qualquer
significado, é dotado de importância tão poderosa? Ou como
vós, MÍSTICOS, que sustentais a incompreensibilidade absoluta
da Deidade, diferis de céticos ou ateus, que afirmam que a
causa do Todo é desconhecida e ininteligível? Sua temeridade
terá que ser bem grande se, depois de rejeitarem a produção
por uma mente, quero dizer, uma mente assemelhada à
humana (pois não conheço nenhuma outra), eles pretenderem
atribuir com certeza qualquer outra causa específica e inteligível
– e sua consciência terá que ser de fato bem escrupulosa, se
se recusarem a chamar a causa universal, desconhecida, de
Deus ou Deidade e a outorgar-lhe tantos elogios sublimes e
epítetos sem significado quanto quiseres lhes pedir.”
2. “Quem poderia imaginar”, replicou DÊMEAS, “que CLEANTES,
o calmo, filosófico CLEANTES, tentaria refutar seus
antagonistas afixando-lhes um apelido e, qual carolas comuns e
inquisidores da era, ter recurso a invectiva e declamação ao
invés de raciocínio? Ou acaso não perceberá que estes tópicos
são facilmente replicados e que antropomorfista é uma
designação tão odiosa e implica consequências tão perigosas
quanto o epíteto de místico com o qual ele nos honrou? Na
realidade, CLEANTES, considera o que é que asseres quando
representas a Deidade similar à mente e entendimento
humanos. O que é a alma do homem? Uma composição de
várias faculdades, paixões, sentimentos e ideias unidas, de
fato, num único ego ou pessoa, mas ainda distintas umas das
outras. Quando raciocina, as ideias que são as partes do seu
discurso se arranjam numa certa forma ou ordem que não é
preservada inteira por um momento, mas imediatamente dá
lugar a outro arranjo. Novas opiniões, novas paixões, novas
afecções, novos sentimentos surgem, os quais diversificam o
cenário mental e produzem neste a maior variedade e a mais
rápida sucessão imaginável. Como isto é compatível com
aquela perfeita imutabilidade e simplicidade que todos os
teístas atribuem à Deidade? Pelo mesmo ato, dizem eles, ela
vê passado, presente e futuro; seu amor e seu ódio, sua
piedade e sua justiça, são uma operação individual; ela está
presente em cada ponto do espaço e completa em cada
instante de duração. Sem sucessão, sem mudança, sem
aquisição, sem diminuição. O que ela é não implica nem uma
sombra de distinção ou diversidade. E o que ela é neste
momento ela sempre foi e sempre será, sem qualquer novo
juízo, sentimento ou operação. Fica fixa num estado simples,
perfeito; e tampouco podes dizer com alguma propriedade que
esse ato dela é diferente daqueloutro, ou que aquele juízo ou
ideia foi formado mais tardiamente e dará lugar, por sucessão, a
certo juízo ou ideia diferente.”
3. “Posso admitir prontamente”, disse CLEANTES, “que aqueles
que mantêm a simplicidade perfeita do Ser supremo na
extensão em que a explicaste são místicos completos e
acusáveis de todas as consequências que tirei de sua opinião.
São, numa palavra, ateus sem saber disto. Pois embora se
admita que a Deidade possua atributos dos quais não temos
compreensão, ainda assim jamais devemos lhe imputar
quaisquer atributos que sejam incompatíveis com aquela
natureza inteligente que lhe é essencial. Uma mente cujos atos,
sentimentos e ideias não são distintos e sucessivos, que é
inteiramente simples, totalmente imutável, é uma mente que
não tem nenhum pensamento, nenhuma razão, nenhuma
vontade, nenhum sentimento, nenhum amor, nenhum ódio – ou,
numa palavra, não é nenhuma mente. É um abuso de termos
dar a isto esta designação, e podemos tão bem falar de
extensão limitada sem figura ou de número sem composição.”
4. “Rogo que consideres”, disse FILÃO, “quem estás condenando
agora. Honras com a designação de ateu quase todos os
teólogos sãos, ortodoxos, que trataram deste assunto, e
descobrirás ser tu próprio, de acordo com tua avaliação, o único
teísta são do mundo. Mas se idólatras forem ateus, como acho
que se pode asserir com justeza, e teólogos cristãos
igualmente, o que acontece com o tão celebrado argumento
derivado do consenso universal da humanidade?
5. “Mas porque sei que não és muito influenciado por nomes e
autoridades, tentarei mostrar-te, com um pouco mais de
distinção, as inconveniências desse antropomorfismo que
abraçaste, e hei de provar que não há fundamento para supor
que um plano do mundo tenha se formado na mente divina,
consistindo em ideias distintas arranjadas diferentemente, do
mesmo modo que um arquiteto forma em sua cabeça o plano
de uma casa que pretende executar.
6. “Não é fácil, admito, ver o que se ganha por esta suposição,
quer julguemos a questão pela razão, quer pela experiência.
Ainda ficamos obrigados a escalar mais alto para achar a causa
dessa causa, que assinalaste como satisfatória e conclusiva.
7. 12 “Se a razão, (quero dizer a razão abstrata, derivada de
investigações a priori) não for igualmente muda a respeito de
todas as questões relativas a causa e efeito, no mínimo esta
proposição se atreverá pronunciar: ‘Um mundo mental ou
universo de ideias requer uma causa tanto quanto um mundo
material ou universo de objetos; e, se similar em seu arranjo,
tem que requerer uma causa similar’. Pois o que há nesse
assunto que devesse ocasionar uma conclusão ou inferência
diferente? Num aspecto abstrato, eles são inteiramente
semelhantes; e nenhuma dificuldade acompanha uma
suposição sem ser comum a ambas.
8. “De novo: quando forçarmos a experiência a pronunciar alguma
proposição mesmo nesses assuntos que jazem além de sua
esfera, ela não só não pode perceber uma diferença material
entre dois tipos de mundo nesse particular, como os encontra
governados por princípios similares e dependentes duma
variedade de causas igual em suas operações. Temos espécies
em miniatura de ambos os mundos. Nossa própria mente se
assemelha a um; um corpo animal ou vegetal, ao outro. Que a
experiência, portanto, julgue a partir destas amostras. Nada
parece mais delicado no que diz respeito a suas próprias
causas do que o pensamento, e como essas causas jamais
operaram da mesma maneira em duas pessoas, então jamais
encontraremos duas pessoas que pensem exatamente igual.
Nem, de fato, a mesma pessoa pensa exatamente igual em
dois períodos diferentes. Uma diferença de idade, da disposição
do seu corpo, do clima, da comida, da companhia, de livros, de
paixões: quaisquer destes particulares e outros ainda mais
miúdos são suficientes para alterar a curiosa maquinaria e para
comunicar-lhe movimentos e operações bem diferentes. Até
onde possamos julgar, corpos animais e vegetais não são mais
delicados em seus movimentos, nem dependem de uma
variedade mais grandiosa ou ajuste mais curioso de motores e
princípios.
9. “Como, portanto, devemos nos satisfazer quanto à causa desse
Ser que supões o Autor da natureza ou, de acordo com teu
sistema de antropomorfismo, o mundo ideal ao qual remontas o
mundo material? Não temos a mesma razão para remontar
esse mundo ideal a outro mundo ideal ou a um novo princípio
inteligente? Mas se pararmos e não formos mais longe – para
que ir mais longe? Por que não pararmos no mundo material?
Como podemos nos satisfazer sem prosseguirmos in infinitum?
E afinal, qual satisfação há nessa progressão infinita?
Lembremonos da história do filósofo INDIANO e seu elefante 13.
Isto nunca foi mais aplicável do que no presente assunto. Se o
mundo material repousar sobre um mundo ideal similar, este
mundo ideal terá que repousar sobre algum outro, e assim por
diante, sem um fim; seria melhor, portanto, nunca olharmos
para além do presente mundo material. Ao supormos que ele
contenha em si próprio o princípio de sua própria ordem,
realmente afirmamos que ele é Deus; e quanto mais cedo
chegamos a esse Ser divino, melhor. Quando dás um passo
além do sistema mundano, apenas excitas um humor
investigativo que é impossível de ser satisfeito. 10. “Dizer que as diferentes ideias que compõem a razão do Ser
supremo se ordenam por si sós e por sua própria natureza é,
realmente, falar sem qualquer significado preciso 14. Caso tenha
um significado, eu ficaria contente em saber por que isto não é
de tanto bom-senso quanto dizer que as partes do mundo
material se ordenam por si sós por sua própria natureza.
Poderá uma opinião ser inteligível enquanto a outra não?
11. “Temos, de fato, experiência de ideias se ordenando por si sós
e sem qualquer causa conhecida – mas estou certo de que
também temos uma experiência muito mais larga da matéria
fazendo o mesmo, como em todos os exemplos de geração e
vegetação, onde a análise acurada da causa excede toda a
compreensão humana. Temos também experiência do
pensamento e da matéria que não têm nenhuma ordem: do
primeiro, a loucura; da outra, a corrupção. Por que, então,
devemos pensar que a ordem é mais essencial a um do que à
outra? E se ela requer uma causa em ambos, o que ganhamos
pelo teu sistema, remontando o universo de objetos a um
universo de ideias similar? O primeiro passo que damos nos
conduz à eternidade. Ser-nos-ia sábio, portanto, limitar nossas
investigações ao mundo presente sem olhar para mais longe.
Jamais se pode conseguir satisfação alguma através dessas
especulações que excedem tanto os limites estreitos do
entendimento humano.
12. “Foi usual entre os PERIPATÉTICOS, sabes, CLEANTES,
quando a causa dalgum fenômeno era demandada, ter recurso
às suas faculdades ou qualidades ocultas e dizer, por exemplo,
que o pão nutria por sua faculdade nutritiva e o sene purgava
por seu purgativo. Mas descobriu-se que este subterfúgio nada
era senão disfarce de ignorância, e que esses filósofos, embora
menos ingênuos, na verdade diziam o mesmo que os céticos ou
o vulgo, que de bom grado confessaram desconhecer a causa
desses fenômenos. De modo parecido, quando se pergunta
qual causa produz ordem nas ideias do Ser supremo, pode
outra razão ser assinalada por vós, antropomorfistas, senão
que é uma faculdade racional, e que tal é a natureza da
Deidade? Mas, por que uma resposta similar não será
igualmente satisfatória para dar conta da ordem no mundo sem
ter recurso a qualquer Criador inteligente como insistes, pode
ser difícil determinar. Basta dizer que tal é a natureza dos
objetos materiais e que eles são todos originariamente
possuidores duma faculdade de ordem e proporção. Estes são
apenas meios mais estudados e elaborados de confessarmos
nossa ignorância, e tampouco tem uma hipótese qualquer
vantagem real sobre a outra, exceto por sua maior
conformidade com preconceitos vulgares.” 13. “Expuseste o argumento com grande ênfase”, replicou
CLEANTES, “Não pareces ter consciência do quão fácil é
responder-lhe: Mesmo na vida comum, se eu apontar uma
causa para certo evento, acaso haverá qualquer objeção,
FILÃO, a que eu não possa apontar a causa dessa causa e
responder a toda nova questão que se possa se
incessantemente levantar? E que filósofos poderiam se
submeter a uma regra tão rígida? – filósofos, que confessam
serem as causas últimas totalmente desconhecidas, e que têm
consciência de os princípios mais refinados, aos quais eles
remontam os fenômenos, lhes serem ainda tão inexplicáveis
quanto esses mesmos fenômenos o são para o vulgo. A ordem
e arranjo da natureza, o curioso ajuste de causas finais, o claro
uso e intenção de cada parte e órgão: tudo isto manifesta na
linguagem mais clara uma causa inteligente ou Autor. Os céus e
a terra se aliam no mesmo testemunho, todo o coro da natureza
eleva um hino de louvores ao Criador – tu sozinho, ou quase
sozinho, perturbas esta harmonia geral. Levantas dúvidas,
cavilações e objeções abstrusas: perguntas-me qual é a causa
dessa causa? Eu não sei, eu não ligo, isso não me preocupa.
Encontrei uma Deidade, e aqui paro minha investigação. Que
sigam adiante os que forem mais sábios ou mais
empreendedores.”
14. “Não pretendo ser uma coisa nem outra”, replicou FILÃO, “E é
por esta mesma razão que eu talvez nunca tenha tentado ir tão
longe, especialmente quando estou ciente de que terei ao cabo
que me contentar em sentar com a mesma resposta que, sem
problemas mais longínquos, poderia ter me satisfeito desde o
começo. Se ainda deverei permanecer em total ignorância de
causas e não poderei dar explicação para absolutamente nada,
nunca hei considerar vantajoso postergar por um momento uma
dificuldade que, reconhece-lo, de imediato recairá com plena
força sobre mim. Os naturalistas, de fato, explicam com muita
justeza efeitos particulares por causas mais gerais, embora
estas próprias causas gerais devam ao cabo permanecer
totalmente inexplicáveis – mas decerto jamais acharam
satisfatório explicar um efeito particular por uma causa
particular que não precisou ser mais explicada do que o próprio
efeito. 15 Um sistema ideal, arranjado por si só, sem um desígnio
precedente, não é nem um pouquinho mais explicável do que
um material que atinge sua ordem duma maneira parecida, e
tampouco há mais dificuldade na primeira suposição do que na
última.”