Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 6 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte IV

 

 

1. “Parece-me estranho”, disse CLEANTES, “que tu, DÊMEAS,

que és tão sincero na causa da religião, ainda mantenhas a

natureza da Deidade misteriosa, incompreensível, e insistas tão

arduamente que ela não tem nenhum modo de semelhança ou

similaridade com criaturas humanas. A Deidade, posso admitir

prontamente, possui muitos poderes e atributos dos quais não

podemos ter nenhuma compreensão: mas se nossas ideias, até

onde alcançam, não forem justas e adequadas, e

correspondentes à sua real natureza, não sei o que haveria

nesse assunto de digno de se insistir. O nome, sem qualquer

significado, é dotado de importância tão poderosa? Ou como

vós, MÍSTICOS, que sustentais a incompreensibilidade absoluta

da Deidade, diferis de céticos ou ateus, que afirmam que a

causa do Todo é desconhecida e ininteligível? Sua temeridade

terá que ser bem grande se, depois de rejeitarem a produção

por uma mente, quero dizer, uma mente assemelhada à

humana (pois não conheço nenhuma outra), eles pretenderem

atribuir com certeza qualquer outra causa específica e inteligível

– e sua consciência terá que ser de fato bem escrupulosa, se

se recusarem a chamar a causa universal, desconhecida, de

Deus ou Deidade e a outorgar-lhe tantos elogios sublimes e

epítetos sem significado quanto quiseres lhes pedir.”

2. “Quem poderia imaginar”, replicou DÊMEAS, “que CLEANTES,

o calmo, filosófico CLEANTES, tentaria refutar seus

antagonistas afixando-lhes um apelido e, qual carolas comuns e

inquisidores da era, ter recurso a invectiva e declamação ao

invés de raciocínio? Ou acaso não perceberá que estes tópicos

são facilmente replicados e que antropomorfista é uma

designação tão odiosa e implica consequências tão perigosas

quanto o epíteto de místico com o qual ele nos honrou? Na

realidade, CLEANTES, considera o que é que asseres quando

representas a Deidade similar à mente e entendimento

humanos. O que é a alma do homem? Uma composição de

várias faculdades, paixões, sentimentos e ideias unidas, de

fato, num único ego ou pessoa, mas ainda distintas umas das

outras. Quando raciocina, as ideias que são as partes do seu

discurso se arranjam numa certa forma ou ordem que não é

preservada inteira por um momento, mas imediatamente dá

lugar a outro arranjo. Novas opiniões, novas paixões, novas

afecções, novos sentimentos surgem, os quais diversificam o

cenário mental e produzem neste a maior variedade e a mais

rápida sucessão imaginável. Como isto é compatível com

aquela perfeita imutabilidade e simplicidade que todos os

teístas atribuem à Deidade? Pelo mesmo ato, dizem eles, ela

vê passado, presente e futuro; seu amor e seu ódio, sua

piedade e sua justiça, são uma operação individual; ela está

presente em cada ponto do espaço e completa em cada

instante de duração. Sem sucessão, sem mudança, sem

aquisição, sem diminuição. O que ela é não implica nem uma

sombra de distinção ou diversidade. E o que ela é neste

momento ela sempre foi e sempre será, sem qualquer novo

juízo, sentimento ou operação. Fica fixa num estado simples,

perfeito; e tampouco podes dizer com alguma propriedade que

esse ato dela é diferente daqueloutro, ou que aquele juízo ou

ideia foi formado mais tardiamente e dará lugar, por sucessão, a

certo juízo ou ideia diferente.”

3. “Posso admitir prontamente”, disse CLEANTES, “que aqueles

que mantêm a simplicidade perfeita do Ser supremo na

extensão em que a explicaste são místicos completos e

acusáveis de todas as consequências que tirei de sua opinião.

São, numa palavra, ateus sem saber disto. Pois embora se

admita que a Deidade possua atributos dos quais não temos

compreensão, ainda assim jamais devemos lhe imputar

quaisquer atributos que sejam incompatíveis com aquela

natureza inteligente que lhe é essencial. Uma mente cujos atos,

sentimentos e ideias não são distintos e sucessivos, que é

inteiramente simples, totalmente imutável, é uma mente que

não tem nenhum pensamento, nenhuma razão, nenhuma

vontade, nenhum sentimento, nenhum amor, nenhum ódio – ou,

numa palavra, não é nenhuma mente. É um abuso de termos

dar a isto esta designação, e podemos tão bem falar de

extensão limitada sem figura ou de número sem composição.”

4. “Rogo que consideres”, disse FILÃO, “quem estás condenando

agora. Honras com a designação de ateu quase todos os

teólogos sãos, ortodoxos, que trataram deste assunto, e

descobrirás ser tu próprio, de acordo com tua avaliação, o único

teísta são do mundo. Mas se idólatras forem ateus, como acho

que se pode asserir com justeza, e teólogos cristãos

igualmente, o que acontece com o tão celebrado argumento

derivado do consenso universal da humanidade?

5. “Mas porque sei que não és muito influenciado por nomes e

autoridades, tentarei mostrar-te, com um pouco mais de

distinção, as inconveniências desse antropomorfismo que

abraçaste, e hei de provar que não há fundamento para supor

que um plano do mundo tenha se formado na mente divina,

consistindo em ideias distintas arranjadas diferentemente, do

mesmo modo que um arquiteto forma em sua cabeça o plano

de uma casa que pretende executar.

6. “Não é fácil, admito, ver o que se ganha por esta suposição,

quer julguemos a questão pela razão, quer pela experiência.

Ainda ficamos obrigados a escalar mais alto para achar a causa

dessa causa, que assinalaste como satisfatória e conclusiva.

7. 12 “Se a razão, (quero dizer a razão abstrata, derivada de

investigações a priori) não for igualmente muda a respeito de

todas as questões relativas a causa e efeito, no mínimo esta

proposição se atreverá pronunciar: ‘Um mundo mental ou

universo de ideias requer uma causa tanto quanto um mundo

material ou universo de objetos; e, se similar em seu arranjo,

tem que requerer uma causa similar’. Pois o que há nesse

assunto que devesse ocasionar uma conclusão ou inferência

diferente? Num aspecto abstrato, eles são inteiramente

semelhantes; e nenhuma dificuldade acompanha uma

suposição sem ser comum a ambas.

8. “De novo: quando forçarmos a experiência a pronunciar alguma

proposição mesmo nesses assuntos que jazem além de sua

esfera, ela não só não pode perceber uma diferença material

entre dois tipos de mundo nesse particular, como os encontra

governados por princípios similares e dependentes duma

variedade de causas igual em suas operações. Temos espécies

em miniatura de ambos os mundos. Nossa própria mente se

assemelha a um; um corpo animal ou vegetal, ao outro. Que a

experiência, portanto, julgue a partir destas amostras. Nada

parece mais delicado no que diz respeito a suas próprias

causas do que o pensamento, e como essas causas jamais

operaram da mesma maneira em duas pessoas, então jamais

encontraremos duas pessoas que pensem exatamente igual.

Nem, de fato, a mesma pessoa pensa exatamente igual em

dois períodos diferentes. Uma diferença de idade, da disposição

do seu corpo, do clima, da comida, da companhia, de livros, de

paixões: quaisquer destes particulares e outros ainda mais

miúdos são suficientes para alterar a curiosa maquinaria e para

comunicar-lhe movimentos e operações bem diferentes. Até

onde possamos julgar, corpos animais e vegetais não são mais

delicados em seus movimentos, nem dependem de uma

variedade mais grandiosa ou ajuste mais curioso de motores e

princípios.

9. “Como, portanto, devemos nos satisfazer quanto à causa desse

Ser que supões o Autor da natureza ou, de acordo com teu

sistema de antropomorfismo, o mundo ideal ao qual remontas o

mundo material? Não temos a mesma razão para remontar

esse mundo ideal a outro mundo ideal ou a um novo princípio

inteligente? Mas se pararmos e não formos mais longe – para

que ir mais longe? Por que não pararmos no mundo material?

Como podemos nos satisfazer sem prosseguirmos in infinitum?

E afinal, qual satisfação há nessa progressão infinita?

Lembremonos da história do filósofo INDIANO e seu elefante 13.

Isto nunca foi mais aplicável do que no presente assunto. Se o

mundo material repousar sobre um mundo ideal similar, este

mundo ideal terá que repousar sobre algum outro, e assim por

diante, sem um fim; seria melhor, portanto, nunca olharmos

para além do presente mundo material. Ao supormos que ele

contenha em si próprio o princípio de sua própria ordem,

realmente afirmamos que ele é Deus; e quanto mais cedo

chegamos a esse Ser divino, melhor. Quando dás um passo

além do sistema mundano, apenas excitas um humor

investigativo que é impossível de ser satisfeito. 10. “Dizer que as diferentes ideias que compõem a razão do Ser

supremo se ordenam por si sós e por sua própria natureza é,

realmente, falar sem qualquer significado preciso 14. Caso tenha

um significado, eu ficaria contente em saber por que isto não é

de tanto bom-senso quanto dizer que as partes do mundo

material se ordenam por si sós por sua própria natureza.

Poderá uma opinião ser inteligível enquanto a outra não?

11. “Temos, de fato, experiência de ideias se ordenando por si sós

e sem qualquer causa conhecida – mas estou certo de que

também temos uma experiência muito mais larga da matéria

fazendo o mesmo, como em todos os exemplos de geração e

vegetação, onde a análise acurada da causa excede toda a

compreensão humana. Temos também experiência do

pensamento e da matéria que não têm nenhuma ordem: do

primeiro, a loucura; da outra, a corrupção. Por que, então,

devemos pensar que a ordem é mais essencial a um do que à

outra? E se ela requer uma causa em ambos, o que ganhamos

pelo teu sistema, remontando o universo de objetos a um

universo de ideias similar? O primeiro passo que damos nos

conduz à eternidade. Ser-nos-ia sábio, portanto, limitar nossas

investigações ao mundo presente sem olhar para mais longe.

Jamais se pode conseguir satisfação alguma através dessas

especulações que excedem tanto os limites estreitos do

entendimento humano.

12. “Foi usual entre os PERIPATÉTICOS, sabes, CLEANTES,

quando a causa dalgum fenômeno era demandada, ter recurso

às suas faculdades ou qualidades ocultas e dizer, por exemplo,

que o pão nutria por sua faculdade nutritiva e o sene purgava

por seu purgativo. Mas descobriu-se que este subterfúgio nada

era senão disfarce de ignorância, e que esses filósofos, embora

menos ingênuos, na verdade diziam o mesmo que os céticos ou

o vulgo, que de bom grado confessaram desconhecer a causa

desses fenômenos. De modo parecido, quando se pergunta

qual causa produz ordem nas ideias do Ser supremo, pode

outra razão ser assinalada por vós, antropomorfistas, senão

que é uma faculdade racional, e que tal é a natureza da

Deidade? Mas, por que uma resposta similar não será

igualmente satisfatória para dar conta da ordem no mundo sem

ter recurso a qualquer Criador inteligente como insistes, pode

ser difícil determinar. Basta dizer que tal é a natureza dos

objetos materiais e que eles são todos originariamente

possuidores duma faculdade de ordem e proporção. Estes são

apenas meios mais estudados e elaborados de confessarmos

nossa ignorância, e tampouco tem uma hipótese qualquer

vantagem real sobre a outra, exceto por sua maior

conformidade com preconceitos vulgares.” 13. “Expuseste o argumento com grande ênfase”, replicou

CLEANTES, “Não pareces ter consciência do quão fácil é

responder-lhe: Mesmo na vida comum, se eu apontar uma

causa para certo evento, acaso haverá qualquer objeção,

FILÃO, a que eu não possa apontar a causa dessa causa e

responder a toda nova questão que se possa se

incessantemente levantar? E que filósofos poderiam se

submeter a uma regra tão rígida? – filósofos, que confessam

serem as causas últimas totalmente desconhecidas, e que têm

consciência de os princípios mais refinados, aos quais eles

remontam os fenômenos, lhes serem ainda tão inexplicáveis

quanto esses mesmos fenômenos o são para o vulgo. A ordem

e arranjo da natureza, o curioso ajuste de causas finais, o claro

uso e intenção de cada parte e órgão: tudo isto manifesta na

linguagem mais clara uma causa inteligente ou Autor. Os céus e

a terra se aliam no mesmo testemunho, todo o coro da natureza

eleva um hino de louvores ao Criador – tu sozinho, ou quase

sozinho, perturbas esta harmonia geral. Levantas dúvidas,

cavilações e objeções abstrusas: perguntas-me qual é a causa

dessa causa? Eu não sei, eu não ligo, isso não me preocupa.

Encontrei uma Deidade, e aqui paro minha investigação. Que

sigam adiante os que forem mais sábios ou mais

empreendedores.”

14. “Não pretendo ser uma coisa nem outra”, replicou FILÃO, “E é

por esta mesma razão que eu talvez nunca tenha tentado ir tão

longe, especialmente quando estou ciente de que terei ao cabo

que me contentar em sentar com a mesma resposta que, sem

problemas mais longínquos, poderia ter me satisfeito desde o

começo. Se ainda deverei permanecer em total ignorância de

causas e não poderei dar explicação para absolutamente nada,

nunca hei considerar vantajoso postergar por um momento uma

dificuldade que, reconhece-lo, de imediato recairá com plena

força sobre mim. Os naturalistas, de fato, explicam com muita

justeza efeitos particulares por causas mais gerais, embora

estas próprias causas gerais devam ao cabo permanecer

totalmente inexplicáveis – mas decerto jamais acharam

satisfatório explicar um efeito particular por uma causa

particular que não precisou ser mais explicada do que o próprio

efeito. 15 Um sistema ideal, arranjado por si só, sem um desígnio

precedente, não é nem um pouquinho mais explicável do que

um material que atinge sua ordem duma maneira parecida, e

tampouco há mais dificuldade na primeira suposição do que na

última.”