Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 19 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

V. Carta a Gilbert Elliot de Minto

Teu humilde servo,

DAVID HUME

 

V. Carta a Gilbert Elliot de Minto

 

(NL, p.69-71)

 

Caro senhor,

Nessa nova edição74 corrigi vários erros e negligências que

procederam principalmente dos pestilentos preconceitos do

whiggismo 75, com o qual eu estava infectado demais quando comecei o trabalho. Corrigi alguns desses erros numa edição anterior, mas, tendo resolvido acrescentar a esta as citações e autoridades para os reinados de Jaime I e Carlos I, fui obrigado a examinar outra vez os autores mais consideráveis que trataram desses reinados e, felizmente, descobri mais alguns erros, que corrigi agora. Comecei a História com esses dois reinados e agora descubro que eles, mais do que todos os outros, foram corrompidos pelo rancor whig, que realmente mereci o nome de “escritor de partido” e que me gabei de minha imparcialidade sem qualquer fundamento. Mas se agora me concederes a honra de fazer do meu trabalho um segundo exame, estou persuadido de que não mais me atirarás este epíteto reprovável e me absolverás de toda a propensão ao whiggismo. Se continuares a me repreender, ficarei obrigado a retaliar-te e a proclamar: Whig vous-même.

Na página 33, vol. 5, encontrarás uma justificação para as

imposições estabelecidas por Jaime I, sem autoridade do Parlamento; nas p.113, 114, 389, uma justificação para perseguir os puritanos, na p. 180, uma justificação para Carlos I arrecadar arqueação e poundage com consentimento do parlamento. Na p. 100 absolvo Jaime I da prevaricação da qual eu o tinha acusado antes precipitadamente. Este último erro de fato era inocente, e posso explicá-lo com facilidade: li a narrativa de Buckingham em Rushwort e Franklin, os dois arrecadadores opositores. Vi o que achei ser o mesmo papel na história parlamentar, mas não reparei numa linha ao fim, na qual se diz que o papel foi tirado do arquivo mais completo do que aquela coleção. Quando li isso depois, encontrei o artigo citado aqui. Então essa asneira não procedeu de nenhum espírito de whiggice.

Agora justifico Jaime II mais explicitamente em seu exercício de

dispensa de poder, que entrelaçou intimamente constituição e monarquia – cf. vol. 6, p. 393, 394, 395, 400. No Volume 4, p. 322, 323, menciono uma obra de tirania bem notável, ou do exercício de poder arbitrário praticado naquele período, e que vieram ao meu conhecimento desde a publicação desse volume.

Há muitos outros melhoramentos e alterações através do

conjunto, e estou contente por o próprio Millar ter feito a ti uma oferta dessa edição. Sem bajular-te, tenho de dizer que não há ninguém que eu queira tanto que veja meus escritos tão corretos quanto eu possa torná-los, e eu estava pensando em pedir ao Sr. Millar para te fazer essa oferta.

Mas não existe fim de correção. Nessa nova edição, vol. v, p. 205,

inseri uma historieta bem curiosa de Sir George Markham, que peguei de Lorde Lansdowne, o qual considerei uma autoridade a salvo da historiagem whig. Mas desde então me foram mostrados os Reports de Hobart, que é infinitamente mais autêntico do que Lorde Lansdowne, e a historieta é contada lá de modo a justificar inteiramente o rei e a Câmara Estrelada – então podes ainda me repreender dizendo que o pendor infame não foi inteiramente purgado.

Não estou ocupado com nenhum trabalho agora; mas, se eu me

cansar da ociosidade – ou, falando mais propriamente, da leitura como diversão –, posso continuar minha História. Meu único desencorajamento é que não posso pretender terminar esse trabalho no meu gabinete, mas tenho que solicitar ao governo documentos e serviços de informação, coisa que abomino mortalmente.

Não é duro e tirânico de tua parte, mais tirânico do que qualquer

ato dos Stuarts, não me permitir publicar os meus Diálogos? Ora, por favor, não pensas que uma dedicatória apropriada pode apaziguar o que for excepcional neles? Estou aderindo muito à mentalidade do meu amigo Corbyn Morrice, que diz que escreve todos os seus livros por causa das dedicatórias.