Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 8 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte VI

 

 

1. “Há de ser uma estrutura tênue, de fato,” disse DÊMEAS, “a

que se pode erigir sobre um fundamento tão cambaleante.

Enquanto estivermos incertos de se há uma Deidade ou várias,

se a Deidade ou as Deidades a quem devemos nossa

existência são perfeitas ou imperfeitas, subordinadas ou

supremas, mortas ou vivas, que crédito ou confiança podemos

depositar nelas? Que devoção ou adoração podemos lhes

endereçar? Que veneração ou obediência podemos ter por

elas? Para todos os propósitos da vida, a teoria da religião se

torna completamente inútil – e, mesmo para as consequências

especulativas, sua incerteza, de acordo contigo, há de torná-la

totalmente precária e insatisfatória.”

2. “Para torná-la ainda mais insatisfatória”, disse FILÃO, “ocorre-

me uma outra hipótese que tem que adquirir um ar de

probabilidade a partir do método de raciocínio em que

CLEANTES insiste tanto. Efeitos semelhantes surgem de

causas semelhantes: este princípio ele supõe ser o fundamento

da religião. Mas há outro princípio do mesmo tipo, não menos

certo e derivado da mesma fonte de experiência: Onde se

observa que várias circunstâncias conhecidas são similares,

descobrir-se-á que a desconhecida também é similar. Assim, se

virmos os membros dum corpo humano, concluímos que eles

também são acompanhados por uma cabeça humana, embora

escondida de nós. Assim, se virmos através duma fenda na

parede uma pequena parte do sol, concluímos que, fosse a

parede removida, veríamos todo o corpo. Em poucas palavras:

este método de raciocínio é tão óbvio e familiar que não

podemos ter nenhuma hesitação a respeito de sua solidez.

3. “Ora, se examinarmos o universo, ele tem, até onde o

conheçamos, uma grande semelhança com um corpo animal

organizado, e parece movido por um princípio semelhante a

vida e movimento. Uma circulação contínua de matéria nele não

produz desordem alguma, um desgaste contínuo em cada parte

é incessantemente reparado, percebe-se a concórdia19 mais

minuciosa através do sistema inteiro, e cada parte ou membro,

ao desenvolver seu ofício próprio, opera tanto pela sua própria

preservação quanto pela do todo. O mundo portanto, infiro eu, é

um animal, e a Deidade é a ALMA do mundo, movendo-o e

sendo movida por ele. 20

4. “Tens estudo demais, CLEANTES, para te surpreenderes com

esta opinião que, tu o sabes, foi sustentada por quase todos os

teístas da antiguidade e prevalece ao máximo em seus

discursos e raciocínios. Pois embora algumas vezes os filósofos

antigos raciocinem a partir de causas finais, como se

pensassem ser o mundo obra de Deus, parece antes que sua

noção favorita é considerá-lo seu corpo, cuja organização o

torna subserviente a ele. E deve-se confessar que o universo se

assemelha mais a um corpo humano do que aos trabalhos de

arte e engenho humanos. Se nossa analogia limitada puder,

com alguma propriedade, ser estendida para a inteireza da

natureza, a inferência parece mais exata a favor da teoria

antiga do que da moderna.

5. "Há também muitas outras vantagens nessa teoria que a

recomendaram aos teólogos antigos. Nada é mais repugnante a

todas as suas noções, porque nada é mais repugnante à

experiência comum, do que mente sem corpo 21: uma

substância meramente espiritual que nunca esteve sob os seus

sentidos nem sua compreensão, e da qual não observaram um

único exemplo através de toda a natureza. Mente e corpo eles

conheceram, pois sentiram ambos; uma ordem, arranjo ou

maquinaria interna em ambos também conheceram da mesma

maneira – e não poderia deixar de parecer razoável transferir

esta experiência para o universo e supor que a mente e o corpo

divinos são também coevos e têm, ambos, ordem e arranjo que

lhes são naturalmente inerentes e inseparáveis.

6. “Aqui portanto está uma nova espécie de antropomorfismo,

CLEANTES, sobre a qual podes deliberar, e uma teoria que não

parece propensa a dificuldades consideráveis. És com certeza

superior demais a preconceitos de sistema para encontrar

alguma dificuldade a mais em supor que o corpo animal seja

originariamente, por si só ou por causas desconhecidas, dotado

de ordem e organização do que em supor que uma ordem

similar pertença à mente. Mas o preconceito vulgar de que

corpo e mente têm de estar sempre juntos não deve, poder-se-

ia pensar, ser inteiramente negligenciado, uma vez que se

funda na experiência vulgar – o único guia que professas seguir

em todas essas investigações teológicas. E se asserires que

nossa experiência limitada é um critério desigual para julgar

acerca da extensão ilimitada da natureza, abandonarás

inteiramente tua própria hipótese e terás a partir de então que

adotar nosso misticismo (como o chamas) e admitir a

incompreensibilidade absoluta da natureza divina.”

7. “Esta teoria, admito,” replicou CLEANTES, “nunca me ocorrera

antes, embora seja bem natural, e não posso prontamente,

sobre um exame e reflexão tão curtos, proferir alguma opinião a

seu respeito.” “És muito escrupuloso, de fato”, disse FILÃO,

“Fosse eu examinar qualquer sistema teu, não teria agido com

metade deste cuidado e reserva em levantar-lhe objeções e

dúvidas. No entanto, se alguma coisa te ocorrer, nos

obsequiarás propondo-a.”

8. “Pois bem,” disse CLEANTES, “parece-me que, embora o

mundo se assemelhe em muitas circunstâncias a um corpo

animal, esta analogia ainda é defectiva em muitas

circunstâncias das mais cruciais: sem órgão de sentido, sem

sede de pensamento ou razão, nenhuma origem precisa de

movimento ou ação. Em poucas palavras, ele parece sustentar

uma semelhança maior com um vegetal do que com um animal,

e tua inferência seria até agora inconclusiva a favor da alma do

mundo.

9. “Ademais, tua teoria parece implicar a eternidade do mundo, e

este é um princípio que, penso eu, pode ser refutado pelas

razões e probabilidades mais fortes. Hei de sugerir um

argumento a este propósito em que, creio, nunca autor algum

insistiu. Aqueles que raciocinam sobre a origem tardia das artes

e ciências, embora à sua inferência não falte força, podem

talvez ser refutados por considerações derivadas da natureza

da sociedade humana, que está em revolução contínua entre

ignorância e conhecimento, liberdade e escravidão, riqueza e

pobreza, de modo que nos é impossível, a partir de nossa

experiência limitada, predizer com segurança quais eventos

podem ou não podem ser esperados. A erudição e a história

antigas parecem ter estado em grande perigo de perecer

inteiramente depois da invasão das nações bárbaras; e

tivessem essas convulsões durado um pouco mais ou sido um

pouco mais violentas, provavelmente não saberíamos agora o

que se passou no mundo uns poucos séculos antes de nós.

Mais ainda: não fosse a superstição dos papas, que

preservaram um pequeno jargão do LATIM para manterem a

aparência duma igreja antiga e universal, essa língua deveria

ter sido completamente perdida: neste caso o Ocidente, sendo

totalmente bárbaro, não teria estado numa disposição

adequada para receber a língua e a erudição GREGAS às

quais teve acesso depois de saquear CONSTANTINOPLA. Se a

erudição e os livros tivessem sido extintos, mesmo as artes

mecânicas decairiam consideravelmente; e pode-se imaginar

facilmente que fábulas ou tradição poderiam imputar-lhes uma

origem muito mais tardia do que verdadeira. Este argumento

vulgar, portanto, contra a eternidade do mundo, parece um

pouco precário.

10. “Mas aqui parece estar o fundamento dum argumento melhor:

LUCULO foi o primeiro que trouxe cerejeiras da ÁSIA para a

EUROPA, embora esta árvore floresça tão bem em climas

EUROPEUS e cresça nos bosques sem qualquer cultivo. Será

possível que, através duma eternidade inteira, nenhum

EUROPEU tenha passado pela ÁSIA e pensado em

transplantar um fruto tão delicioso para seu próprio país? Ou se

a árvore foi uma vez transplantada e propagada, como poderia

perecer depois? Impérios podem ascender e cair, liberdade e

escravidão se sucederem alternadamente, ignorância e

conhecimento darem lugar uma ao outro – mas a cerejeira

ainda remanescerá nos bosques da GRÉCIA, da ESPANHA e

da ITÁLIA, e nunca será afetada pelas revoluções da sociedade

humana.

11. “Não faz dois mil anos que vinhas foram transplantadas para a

FRANÇA, embora não haja clima no mundo mais favorável a

elas. Não faz três séculos que cavalos, vacas, ovelhas, suínos,

cães, grãos, são conhecidos na AMÉRICA. É possível que,

durante as revoluções duma eternidade inteira, nunca tenha

surgido um COLOMBO que pudesse abrir a comunicação entre

a EUROPA e esse continente? Podemos imaginar isto tão bem

quanto que todos os homens usaram meias por dez mil anos e

jamais tiveram o senso de pensar em ligas para atá-las. Todas

estas parecem provas convincentes da juventude ou antes

infância do mundo, já que se fundam na operação de princípios

mais constantes e firmes do que aqueles sobre os quais a

sociedade humana é governada e dirigida. Nada menos do que

uma convulsão total dos elementos destruirá todos os animais e

vegetais EUROPEUS que se acham no Ocidente.” 12. “E que argumentos tens contra tais convulsões?”, perguntou

FILÃO. “É possível remontar a provas fortes e quase

incontestáveis sobre toda a terra de que cada parte deste globo

permaneceu por muitas eras inteiramente coberta por água. E

mesmo que a ordem fosse suposta como inseparável da

matéria e inerente a esta, ainda assim a matéria pode ser

suscetível a muitas e grandes revoluções através dos períodos

infindáveis de duração eterna. As mudanças incessantes, às

quais cada parte sua está sujeita, parecem anunciar algumas

tais transformações gerais; embora ao mesmo tempo seja

observável que todas as mudanças e corrupções das quais

sempre tivemos experiência sejam apenas passagens de um

estado de ordem para outro, e tampouco possa a matéria

permanecer para sempre em deformidade e confusão totais. O

que vemos nas partes podemos inferir no todo – ao menos este

é o método de raciocínio sobre o qual fundas toda a tua teoria.

E fosse eu obrigado a defender qualquer sistema particular

dessa natureza (o que eu jamais faria voluntariamente), não

estimo nenhum mais plausível do que aquele que atribui ao

mundo um princípio de ordem eterno, inerente, embora

acompanhado por revoluções e alterações contínuas e grandes.

Isto solve duma vez todas as dificuldades; e se a solução, por

ser tão geral, não é inteiramente completa e satisfatória, é ao

menos uma teoria à qual mais cedo ou mais tarde hemos de ter

recurso, qualquer que seja o sistema que abracemos. Como as

coisas poderiam ter sido como são, não houvesse um princípio

de ordem original, inerente, nalgum lugar, no pensamento ou na

matéria? E é bem indiferente a qual desses damos a

preferência. O acaso não tem lugar em hipótese alguma, cética

ou religiosa. Tudo é, seguramente, governado por leis firmes,

invioláveis; e fosse-nos exposta a essência mais recôndita das

coisas, descobriríamos então um cenário do qual agora não

podemos ter ideia. Ao invés de admirarmos a ordem dos seres

naturais, deveríamos ver claramente que lhes era

absolutamente impossível, até no menor artigo, admitir qualquer

outra disposição.

13. “Fosse alguém inclinado a reviver a antiga Teologia Pagã, que

manteve, como aprendemos por HESÍODO, que este globo era

governado por 30.000 Deidades que surgiram dos poderes

desconhecidos da natureza, poderias objetar naturalmente,

CLEANTES, que nada se ganha com esta hipótese; e que é tão

fácil quanto supor que todos os homens e animais, seres mais

numerosos mas menos perfeitos, surgiram todos imediatamente

duma origem parecida. Empurra a mesma inferência para mais

um passo adiante e acharás uma sociedade de Deidades

numerosa tão explicável quanto uma Deidade universal que

possui nela mesma os poderes e perfeições da sociedade

inteira. Todos esses sistemas, pois, de ceticismo, politeísmo e

teísmo, deves admiti-lo, com base nos teus princípios estão em

pé de igualdade, e nenhum deles tem qualquer vantagem sobre

os outros. Podes daí tomar conhecimento da falácia de teus

princípios.”