Diálogos sobre a religião natural
Parte VI
1. “Há de ser uma estrutura tênue, de fato,” disse DÊMEAS, “a
que se pode erigir sobre um fundamento tão cambaleante.
Enquanto estivermos incertos de se há uma Deidade ou várias,
se a Deidade ou as Deidades a quem devemos nossa
existência são perfeitas ou imperfeitas, subordinadas ou
supremas, mortas ou vivas, que crédito ou confiança podemos
depositar nelas? Que devoção ou adoração podemos lhes
endereçar? Que veneração ou obediência podemos ter por
elas? Para todos os propósitos da vida, a teoria da religião se
torna completamente inútil – e, mesmo para as consequências
especulativas, sua incerteza, de acordo contigo, há de torná-la
totalmente precária e insatisfatória.”
2. “Para torná-la ainda mais insatisfatória”, disse FILÃO, “ocorre-
me uma outra hipótese que tem que adquirir um ar de
probabilidade a partir do método de raciocínio em que
CLEANTES insiste tanto. Efeitos semelhantes surgem de
causas semelhantes: este princípio ele supõe ser o fundamento
da religião. Mas há outro princípio do mesmo tipo, não menos
certo e derivado da mesma fonte de experiência: Onde se
observa que várias circunstâncias conhecidas são similares,
descobrir-se-á que a desconhecida também é similar. Assim, se
virmos os membros dum corpo humano, concluímos que eles
também são acompanhados por uma cabeça humana, embora
escondida de nós. Assim, se virmos através duma fenda na
parede uma pequena parte do sol, concluímos que, fosse a
parede removida, veríamos todo o corpo. Em poucas palavras:
este método de raciocínio é tão óbvio e familiar que não
podemos ter nenhuma hesitação a respeito de sua solidez.
3. “Ora, se examinarmos o universo, ele tem, até onde o
conheçamos, uma grande semelhança com um corpo animal
organizado, e parece movido por um princípio semelhante a
vida e movimento. Uma circulação contínua de matéria nele não
produz desordem alguma, um desgaste contínuo em cada parte
é incessantemente reparado, percebe-se a concórdia19 mais
minuciosa através do sistema inteiro, e cada parte ou membro,
ao desenvolver seu ofício próprio, opera tanto pela sua própria
preservação quanto pela do todo. O mundo portanto, infiro eu, é
um animal, e a Deidade é a ALMA do mundo, movendo-o e
sendo movida por ele. 20
4. “Tens estudo demais, CLEANTES, para te surpreenderes com
esta opinião que, tu o sabes, foi sustentada por quase todos os
teístas da antiguidade e prevalece ao máximo em seus
discursos e raciocínios. Pois embora algumas vezes os filósofos
antigos raciocinem a partir de causas finais, como se
pensassem ser o mundo obra de Deus, parece antes que sua
noção favorita é considerá-lo seu corpo, cuja organização o
torna subserviente a ele. E deve-se confessar que o universo se
assemelha mais a um corpo humano do que aos trabalhos de
arte e engenho humanos. Se nossa analogia limitada puder,
com alguma propriedade, ser estendida para a inteireza da
natureza, a inferência parece mais exata a favor da teoria
antiga do que da moderna.
5. "Há também muitas outras vantagens nessa teoria que a
recomendaram aos teólogos antigos. Nada é mais repugnante a
todas as suas noções, porque nada é mais repugnante à
experiência comum, do que mente sem corpo 21: uma
substância meramente espiritual que nunca esteve sob os seus
sentidos nem sua compreensão, e da qual não observaram um
único exemplo através de toda a natureza. Mente e corpo eles
conheceram, pois sentiram ambos; uma ordem, arranjo ou
maquinaria interna em ambos também conheceram da mesma
maneira – e não poderia deixar de parecer razoável transferir
esta experiência para o universo e supor que a mente e o corpo
divinos são também coevos e têm, ambos, ordem e arranjo que
lhes são naturalmente inerentes e inseparáveis.
6. “Aqui portanto está uma nova espécie de antropomorfismo,
CLEANTES, sobre a qual podes deliberar, e uma teoria que não
parece propensa a dificuldades consideráveis. És com certeza
superior demais a preconceitos de sistema para encontrar
alguma dificuldade a mais em supor que o corpo animal seja
originariamente, por si só ou por causas desconhecidas, dotado
de ordem e organização do que em supor que uma ordem
similar pertença à mente. Mas o preconceito vulgar de que
corpo e mente têm de estar sempre juntos não deve, poder-se-
ia pensar, ser inteiramente negligenciado, uma vez que se
funda na experiência vulgar – o único guia que professas seguir
em todas essas investigações teológicas. E se asserires que
nossa experiência limitada é um critério desigual para julgar
acerca da extensão ilimitada da natureza, abandonarás
inteiramente tua própria hipótese e terás a partir de então que
adotar nosso misticismo (como o chamas) e admitir a
incompreensibilidade absoluta da natureza divina.”
7. “Esta teoria, admito,” replicou CLEANTES, “nunca me ocorrera
antes, embora seja bem natural, e não posso prontamente,
sobre um exame e reflexão tão curtos, proferir alguma opinião a
seu respeito.” “És muito escrupuloso, de fato”, disse FILÃO,
“Fosse eu examinar qualquer sistema teu, não teria agido com
metade deste cuidado e reserva em levantar-lhe objeções e
dúvidas. No entanto, se alguma coisa te ocorrer, nos
obsequiarás propondo-a.”
8. “Pois bem,” disse CLEANTES, “parece-me que, embora o
mundo se assemelhe em muitas circunstâncias a um corpo
animal, esta analogia ainda é defectiva em muitas
circunstâncias das mais cruciais: sem órgão de sentido, sem
sede de pensamento ou razão, nenhuma origem precisa de
movimento ou ação. Em poucas palavras, ele parece sustentar
uma semelhança maior com um vegetal do que com um animal,
e tua inferência seria até agora inconclusiva a favor da alma do
mundo.
9. “Ademais, tua teoria parece implicar a eternidade do mundo, e
este é um princípio que, penso eu, pode ser refutado pelas
razões e probabilidades mais fortes. Hei de sugerir um
argumento a este propósito em que, creio, nunca autor algum
insistiu. Aqueles que raciocinam sobre a origem tardia das artes
e ciências, embora à sua inferência não falte força, podem
talvez ser refutados por considerações derivadas da natureza
da sociedade humana, que está em revolução contínua entre
ignorância e conhecimento, liberdade e escravidão, riqueza e
pobreza, de modo que nos é impossível, a partir de nossa
experiência limitada, predizer com segurança quais eventos
podem ou não podem ser esperados. A erudição e a história
antigas parecem ter estado em grande perigo de perecer
inteiramente depois da invasão das nações bárbaras; e
tivessem essas convulsões durado um pouco mais ou sido um
pouco mais violentas, provavelmente não saberíamos agora o
que se passou no mundo uns poucos séculos antes de nós.
Mais ainda: não fosse a superstição dos papas, que
preservaram um pequeno jargão do LATIM para manterem a
aparência duma igreja antiga e universal, essa língua deveria
ter sido completamente perdida: neste caso o Ocidente, sendo
totalmente bárbaro, não teria estado numa disposição
adequada para receber a língua e a erudição GREGAS às
quais teve acesso depois de saquear CONSTANTINOPLA. Se a
erudição e os livros tivessem sido extintos, mesmo as artes
mecânicas decairiam consideravelmente; e pode-se imaginar
facilmente que fábulas ou tradição poderiam imputar-lhes uma
origem muito mais tardia do que verdadeira. Este argumento
vulgar, portanto, contra a eternidade do mundo, parece um
pouco precário.
10. “Mas aqui parece estar o fundamento dum argumento melhor:
LUCULO foi o primeiro que trouxe cerejeiras da ÁSIA para a
EUROPA, embora esta árvore floresça tão bem em climas
EUROPEUS e cresça nos bosques sem qualquer cultivo. Será
possível que, através duma eternidade inteira, nenhum
EUROPEU tenha passado pela ÁSIA e pensado em
transplantar um fruto tão delicioso para seu próprio país? Ou se
a árvore foi uma vez transplantada e propagada, como poderia
perecer depois? Impérios podem ascender e cair, liberdade e
escravidão se sucederem alternadamente, ignorância e
conhecimento darem lugar uma ao outro – mas a cerejeira
ainda remanescerá nos bosques da GRÉCIA, da ESPANHA e
da ITÁLIA, e nunca será afetada pelas revoluções da sociedade
humana.
11. “Não faz dois mil anos que vinhas foram transplantadas para a
FRANÇA, embora não haja clima no mundo mais favorável a
elas. Não faz três séculos que cavalos, vacas, ovelhas, suínos,
cães, grãos, são conhecidos na AMÉRICA. É possível que,
durante as revoluções duma eternidade inteira, nunca tenha
surgido um COLOMBO que pudesse abrir a comunicação entre
a EUROPA e esse continente? Podemos imaginar isto tão bem
quanto que todos os homens usaram meias por dez mil anos e
jamais tiveram o senso de pensar em ligas para atá-las. Todas
estas parecem provas convincentes da juventude ou antes
infância do mundo, já que se fundam na operação de princípios
mais constantes e firmes do que aqueles sobre os quais a
sociedade humana é governada e dirigida. Nada menos do que
uma convulsão total dos elementos destruirá todos os animais e
vegetais EUROPEUS que se acham no Ocidente.” 12. “E que argumentos tens contra tais convulsões?”, perguntou
FILÃO. “É possível remontar a provas fortes e quase
incontestáveis sobre toda a terra de que cada parte deste globo
permaneceu por muitas eras inteiramente coberta por água. E
mesmo que a ordem fosse suposta como inseparável da
matéria e inerente a esta, ainda assim a matéria pode ser
suscetível a muitas e grandes revoluções através dos períodos
infindáveis de duração eterna. As mudanças incessantes, às
quais cada parte sua está sujeita, parecem anunciar algumas
tais transformações gerais; embora ao mesmo tempo seja
observável que todas as mudanças e corrupções das quais
sempre tivemos experiência sejam apenas passagens de um
estado de ordem para outro, e tampouco possa a matéria
permanecer para sempre em deformidade e confusão totais. O
que vemos nas partes podemos inferir no todo – ao menos este
é o método de raciocínio sobre o qual fundas toda a tua teoria.
E fosse eu obrigado a defender qualquer sistema particular
dessa natureza (o que eu jamais faria voluntariamente), não
estimo nenhum mais plausível do que aquele que atribui ao
mundo um princípio de ordem eterno, inerente, embora
acompanhado por revoluções e alterações contínuas e grandes.
Isto solve duma vez todas as dificuldades; e se a solução, por
ser tão geral, não é inteiramente completa e satisfatória, é ao
menos uma teoria à qual mais cedo ou mais tarde hemos de ter
recurso, qualquer que seja o sistema que abracemos. Como as
coisas poderiam ter sido como são, não houvesse um princípio
de ordem original, inerente, nalgum lugar, no pensamento ou na
matéria? E é bem indiferente a qual desses damos a
preferência. O acaso não tem lugar em hipótese alguma, cética
ou religiosa. Tudo é, seguramente, governado por leis firmes,
invioláveis; e fosse-nos exposta a essência mais recôndita das
coisas, descobriríamos então um cenário do qual agora não
podemos ter ideia. Ao invés de admirarmos a ordem dos seres
naturais, deveríamos ver claramente que lhes era
absolutamente impossível, até no menor artigo, admitir qualquer
outra disposição.
13. “Fosse alguém inclinado a reviver a antiga Teologia Pagã, que
manteve, como aprendemos por HESÍODO, que este globo era
governado por 30.000 Deidades que surgiram dos poderes
desconhecidos da natureza, poderias objetar naturalmente,
CLEANTES, que nada se ganha com esta hipótese; e que é tão
fácil quanto supor que todos os homens e animais, seres mais
numerosos mas menos perfeitos, surgiram todos imediatamente
duma origem parecida. Empurra a mesma inferência para mais
um passo adiante e acharás uma sociedade de Deidades
numerosa tão explicável quanto uma Deidade universal que
possui nela mesma os poderes e perfeições da sociedade
inteira. Todos esses sistemas, pois, de ceticismo, politeísmo e
teísmo, deves admiti-lo, com base nos teus princípios estão em
pé de igualdade, e nenhum deles tem qualquer vantagem sobre
os outros. Podes daí tomar conhecimento da falácia de teus
princípios.”