Diálogos sobre a religião natural
Parte II
1. “Devo admitir, CLEANTES,” disse DÊMEAS, “que nada pode
me surpreender mais do que a luz sob a qual puseste todo o
tempo este argumento. Por todo o teor de teu discurso poder-
se-ia imaginar que estivesses mantendo a existência de um
Deus contra as cavilações de ateus e infiéis, e que te
empenhasses em virar um paladino deste princípio fundamental
da religião. Mas tal, espero, não é de modo algum uma questão
entre nós. Nenhum homem, ou ao menos nenhum homem de
senso comum, estou persuadido, jamais entreteve uma dúvida
séria quanto a uma verdade tão certa e autoevidente. A questão
não é concernente ao ser, mas à natureza de Deus. Esta eu
afirmo, a partir das fragilidades do entendimento humano, ser
ao mesmo tempo incompreensível e desconhecida para nós. A
essência dessa mente suprema, seus atributos, a maneira de
sua existência, a verdadeira natureza de sua duração – estes, e
todo particular referente a um Ser tão divino, são misteriosos
para o homem. Criaturas finitas, fracas e cegas, devemos nos
humilhar perante sua augusta presença e, conscientes de
nossas fraquezas, adorar em silêncio suas perfeições infinitas
que o olho não viu, a orelha não ouviu e tampouco adentrou o
coração do homem conceber. Elas estão encobertas numa
nuvem profunda para curiosidade humana: é profanidade tentar
penetrar essas obscuridades sagradas; e próxima à impiedade
de negar sua existência é a temeridade de intrometer-se em
sua natureza e essência, decretos e atributos.
2. “Mas para que não penses que minha piedade aqui ficou
melhor do que minha filosofia, devo sustentar minha opinião –
se ela precisar de algum sustento – com uma autoridade
grandíssima. Posso citar quase todos os teólogos, desde a
fundação do cristianismo, que trataram deste ou de qualquer
outro assunto teológico, mas devo confinar-me por ora apenas
a um célebre igualmente por piedade e filosofia. É o padre
MALEBRANCHE, quem, eu me lembro, assim se expressa*:
‘Deve-se’, diz ele, ‘chamar Deus de espírito não tanto para
expressar positivamente o que ele é, mas mais para dizer que
ele não é matéria. Ele é um Ser infinitamente perfeito: disto não
podemos duvidar. Mas do mesmo modo não devemos imaginar,
mesmo supondo-o corpóreo, que ele é revestido por um corpo
humano como os ANTROPOMORFISTAS afirmaram a pretexto
de que esta figura é a mais perfeita de todas, tampouco
devemos imaginar que o Espírito de Deus tem ideias humanas
ou mantém qualquer semelhança com o nosso espírito, a
pretexto de que não conhecemos nada mais perfeito do que a
mente humana. Devemos antes acreditar que como ele
compreende as perfeições da matéria sem ser material (…),
compreende também as perfeições dos espíritos criados na
maneira como concebemos espírito: que seu verdadeiro nome
é ‘Aquele que é’ ou, noutras palavras, Ser sem restrição, Todo o
Ser, o Ser infinito e universal.’”
3. “Depois de tão grande autoridade, DÊMEAS,” replicou FILÃO,
“como a que produziste e mil outras que podes produzir,
pareceria ridículo eu acrescentar minha opinião ou expressar
minha aprovação da tua doutrina. Decerto, onde homens
razoáveis tratam desses assuntos, a questão nunca pode
concernir ao ser, mas apenas à natureza da Deidade. A
primeira verdade, como bem podes observar, é inquestionável e
autoevidente. Nada existe sem uma causa, e à causa original
deste universo (qualquer que seja ela) chamamos DEUS e
piamente lhe atribuímos todas as espécies de perfeição. Quem
quer que tenha escrúpulos em aceitar esta verdade
fundamental merece toda punição que possa ser infligida entre
filósofos, a saber, o maior ridículo, desdém e desaprovação.
Mas como toda perfeição é inteiramente relativa, jamais
devemos imaginar que compreendemos os atributos desse Ser
divino ou supor que suas perfeições têm alguma analogia ou
semelhança com as perfeições duma criatura humana.
Sabedoria, pensamento, desígnio, conhecimento: estas lhe
atribuímos com justeza porque essas palavras são honoráveis
entre homens e não temos outra língua ou outras concepções
pelas quais possamos expressar nossa adoração por ele. Mas
vamos nos precaver para não pensar que nossas ideias dalgum
modo correspondem às suas perfeições ou que seus atributos
têm alguma semelhança com essas qualidades entre homens.
Ele é infinitamente superior a nossa visão e compreensão
limitadas, e é mais objeto de adoração no templo do que de
disputa nas escolas.
4. “Na realidade, CLEANTES,” continuou ele, “não há necessidade
alguma de ter recurso a esse ceticismo afetado, tão
desagradável para ti, para chegar a essa determinação. Nossas
ideias não alcançam mais longe do que nossa experiência; nós
não temos experiência de atributos e operações divinas: não
preciso concluir meu silogismo, podes tu mesmo tirar a
inferência. E é um prazer para mim (e espero que também para
ti) que raciocínio justo e piedade sã concorram na mesma
conclusão e ambas estabeleçam a adoravelmente misteriosa e
incompreensível natureza do Ser superior.”
5. “Para não perder tempo com circunlóquios,” disse CLEANTES
dirigindo-se a DÊMEAS, “muito menos respondendo às pias
declamações de FILÃO, devo explicar brevemente como
concebo essa questão. Olha o mundo à volta: contempla a
inteireza e cada parte sua: descobrirás que ele nada é senão
uma grande máquina, subdividida num número infinito de
máquinas menores que também admitem subdivisões até um
grau além do que sentidos e faculdades humanas podem traçar
e explicar. Todas essas várias máquinas, e mesmo suas mais
diminutas partes, são ajustadas umas às outras com uma
justeza que arrebata para a admiração todos os homens que as
contemplaram. A curiosa adaptação de meios a fins através de
toda a natureza se assemelha exatamente, embora muito
exceda, às produções de engenho humano, de desígnio,
pensamento, sabedoria e inteligência humanas. Uma vez,
portanto, que os efeitos se assemelham uns aos outros, somos
levados a inferir, por todas as regras de analogia, que as
causas também se assemelham, e que o autor da natureza é
dalgum modo similar à mente do homem, embora possuidor de
faculdades muito maiores, proporcionadas à grandeza do
trabalho que ele executou. Por este argumento a posteriori, e
por este argumento apenas, provamos de vez a existência
duma Deidade e sua similaridade à mente e inteligência
humanas.”
6. “Tomarei a liberdade, CLEANTES,” disse DÊMEAS, “de dizer-te
que desde o começo não pude aprovar tua conclusão
concernente à similaridade da Deidade com os homens, e
posso ainda menos aprovar os meios pelos quais tentaste
estabelecê-la. O quê! Sem demonstração da existência de um
Deus! Sem argumentos abstratos! Sem provas a priori! Serão
estas, em que os filósofos têm até agora insistido tanto, todas
falácias, todas sofismas? Não poderemos alcançar neste
assunto mais do que experiência e probabilidade? Não direi que
isto é trair a causa duma Divindade, mas certamente, por essa
candura afetada, dás uma vantagem aos ateus que eles nunca
poderiam obter pelo mero golpe de argumento e raciocínio.”
7. 7. “O que mais receio nesse assunto”, disse FILÃO, “não é
tanto que todos os argumentos religiosos sejam reduzidos por
CLEANTES à experiência, mas antes que eles sequer surjam
como os mais certos e irrefragáveis desse tipo inferior. Que
uma pedra cairá, que o fogo queimará, que a terra tem solidez,
já observamos milhares e milhares de vezes; e quando um
novo exemplo dessa natureza é apresentado, tiramos sem
hesitação a inferência costumeira. A similaridade exata dos
casos nos dá uma segurança perfeita de um evento similar, e
uma evidência maior nunca é desejada ou buscada. Mas onde
quer que te apartes o mínimo da similaridade dos casos,
diminuis proporcionalmente a evidência; e podes por fim ter
uma analogia bem fraca, que é confessadamente propensa a
erros e incerteza. Depois de termos experimentado a circulação
do sangue em criaturas humanas, não temos dúvidas de que
ela tem lugar em Tício e Mévio – mas, a partir de sua circulação
em sapos e peixes, é apenas uma presunção, embora uma
forte, advinda de analogia, que isso tome lugar em homens e
outros animais. O raciocínio analógico é muito mais fraco
quando inferimos a circulação da seiva em vegetais a partir de
nossa experiência de que sangue circula em animais, e aqueles
que apressadamente seguiram essa analogia imperfeita
descobrem, por experimentos mais acurados, estar enganados.
8. “Se vemos uma casa, CLEANTES, concluímos com a maior
certeza que ela teve um arquiteto ou construtor – porque esta é
precisamente aquela espécie de efeito do qual tivemos
experiência de proceder daquela espécie de causa. Mas
certamente não afirmarás que o universo sustenta tamanha
semelhança com uma casa que possamos com a mesma
certeza inferir uma causa similar, ou que a analogia é aqui
inteira e perfeita. A dessemelhança é tão arrebatadora que o
mais extremo que podes pretender aqui é um palpite, uma
conjectura, uma presunção concernente a uma causa similar –
e como essa pretensão será recebida no mundo, deixo para ti
considerar.”
9. “Seria decerto mal recebida”, replicou CLEANTES, “e eu seria
merecidamente culpado e detestado se concedesse que as
provas de uma Deidade montassem a não mais do que palpite
ou conjectura. Mas será todo o ajuste de meios a fins numa
casa e no universo uma semelhança tão tênue? A economia de
causas finais? A ordem, proporção e arranjo de cada parte?
Degraus duma escada são claramente engendrados para que
pernas humanas possam usá-los para escalar, e esta é uma
inferência certa e infalível. Pernas humanas também são
engendradas para andar e escalar, e esta semelhança, eu
concedo, não é tão certa por causa da dessemelhança que
apontaste, mas merece portanto o nome apenas de presunção
ou conjectura?”
10. “Bom Deus!”, bradou DÊMEAS interrompendo-o, “Onde
estamos?! Zelosos defensores da religião concedem que as
provas duma Deidade sejam insuficientes de evidência perfeita!
E tu, FILÃO, de cuja assistência eu dependia para provar o
adorável mistério da natureza divina, assentes a todas essas
opiniões extravagantes de CLEANTES? Pois que outro nome
posso dar a elas? Ou por que poupar minha censura quando
tais princípios são promovidos, sustentados por tal autoridade
perante um homem tão jovem como PÂNFILO?”
11. “Pareces não ter notado”, replicou FILÃO, “que discuto com
CLEANTES à sua própria maneira e, mostrando-lhe as
consequências perigosas de seus preceitos, espero por fim
reduzi-lo à nossa opinião. Mas ao que te aferras mais, observo,
é a representação que CLEANTES fez do argumento a
posteriori; e, achando que o argumento provavelmente escapa
a teu controle e desaparece no ar, pensas que está disfarçado
demais para que possas acreditar que esteja posto em sua
verdadeira luz. Agora, por mais que eu possa dissentir a outros
respeitos dos princípios perigosos de CLEANTES, devo
conceder que ele representou com justeza o argumento, e devo
tentar apresentar a questão para ti a fim de que não
entretenhas mais escrúpulos em relação a ele. 12. “Fosse um homem abstrair de todas as coisas de que sabe ou
já viu, seria totalmente incapaz, a partir meramente de suas
ideias, de determinar que tipo de cena o universo deve ser ou
dar preferência a um estado ou situação de coisas sobre outro.
Pois como nada que ele conceba claramente poderia ser
estimado impossível ou implicar contradição, toda quimera de
sua fantasia poderia estar em pé de igualdade; e tampouco
poderia determinar alguma razão justa por que ele adere a uma
ideia ou sistema e rejeita outras que são igualmente possíveis. 13. “De novo: depois que abrisse os olhos e contemplasse o mundo
tal como realmente é, ser-lhe-ia impossível de primeira atribuir a
causa de qualquer evento, e muito menos de todas as coisas e
do universo. Ele poderia ver sua fantasia perambulante, e ela
poderia trazer-lhe uma variedade infinita de relatos e
representações. Todas essas seriam possíveis; mas, sendo
todas igualmente possíveis, ele por si só jamais daria uma
explicação satisfatória para preferir uma delas às demais.
Apenas a experiência pode lhe apontar a verdadeira causa de
um fenômeno.
14. “Ora, de acordo com este método de raciocínio, DÊMEAS,
segue-se (e é, de fato, tacitamente admitido pelo próprio
CLEANTES) que ordem, arranjo ou ajuste de causas finais não
é, por si só, nenhuma prova de desígnio, mas apenas na
medida em que se tenha experiência de ela proceder deste
princípio. Pois devemos poder saber a priori que a matéria pode
conter a fonte ou motor de ordem originariamente em si mesma,
assim como a mente; e não há mais dificuldade em conceber
que os vários elementos possam a partir duma causa interna
desconhecida cair no ajuste mais primoroso, do que conceber
que suas ideias numa mente grande, universal, caiam em
ordem a partir duma causa igualmente interna, desconhecida. A
possibilidade igual de ambas estas suposições é concedida.
Pela experiência percebemos (de acordo com CLEANTES) que
há diferença entre elas. Atira juntos vários pedaços de aço sem
desenho ou forma: eles próprios nunca se arranjarão de modo a
comporem um relógio; pedra, argamassa, sem um arquiteto
nunca erigirão uma casa. A experiência, portanto, prova que há
um princípio de ordem na mente, não na matéria. De efeitos
similares inferimos causas similares. O ajuste de meios a fins é
semelhante no universo como numa máquina de engenho
humano. As causas, portanto, têm que ser semelhantes. 15. “Eu estava desde o começo escandalizado, devo admitir, com
essa semelhança que é afirmada entre a Deidade e as criaturas
humanas, e devo conceber que isto implica tal degradação do
Ser supremo como nenhum teísta são poderia suportar. Com
tua assistência portanto, DÊMEAS, devo tentar defender o que
chamas com justeza de adorável mistério da natureza divina, e
refutar esse raciocínio de CLEANTES, contanto que ele admita
que fiz deste uma representação justa.”
16. Quando CLEANTES assentiu, FILÃO, depois de uma pausa
curta, procedeu da seguinte maneira.
17. “Que todas as inferências, CLEANTES, concernentes a fatos
são fundadas na experiência, e que todos os raciocínios
experimentais são fundados nesta suposição de que causas
similares provam efeitos similares e efeitos similares causas
similares, não devo agora disputar muito contigo. Mas rogo:
observa com que cuidados extremos todos os raciocinadores
justos procedem na transferência de experimentos para causas
similares. A menos que as causas sejam exatamente similares,
não depositam nenhuma confiança perfeita ao aplicar sua
observação passada a qualquer fenômeno particular. Cada
alteração de circunstâncias ocasiona uma dúvida no que
concerne ao evento e requer novos experimentos para provar
com segurança que as circunstâncias novas não são de grande
importância ou pertinência. Uma mudança no tamanho,
situação, arranjo, era, disposição do ar ou objetos à volta –
cada um destes particulares pode ser acompanhado pelas
consequências mais inesperadas, e a menos que os objetos
nos sejam bem familiares, é a maior temeridade esperar com
certeza, depois de quaisquer destas mudanças, um evento
similar àquele que antes esteve sob nossa observação. Os
passos lentos e deliberados dos filósofos aqui, se não em toda
parte, são distintos da marcha precipitada dos homens
vulgares, que, apressados pela mais diminuta semelhança, são
incapazes de qualquer discernimento ou consideração. 18. “Mas podes pensar, CLEANTES, que teus usuais fleuma e
filosofia foram preservados num passo tão grande como o que
tomaste quando comparaste ao universo casas, navios, mobília,
máquinas, e de sua similaridade nalgumas circunstâncias
inferiste uma similaridade em suas causas? Pensamento,
desígnio, inteligência, tais como descobrimos em homens e
outros animais, nada mais são do que um dos motores e
princípios do universo, assim como calor e frio, atração e
repulsão, e uma centena doutros que estão sob nossa
observação diária. É uma causa ativa pela qual algumas partes
particulares da natureza, vemos, produzem alterações noutras
partes. Mas poderá uma conclusão, com alguma propriedade,
ser transferida de partes para o todo? A grande desproporção
não barra toda comparação e inferência? Por observar o
crescimento do cabelo podemos aprender alguma coisa sobre a
geração do homem? Iria a maneira de brotar duma folha,
embora perfeitamente conhecida, conferir-nos alguma instrução
sobre vegetação duma árvore?
19. “Mas, admitindo que tivéssemos que tomar as operações duma
parte da natureza sobre outra como fundamento de nosso juízo
sobre a origem do todo (o que nunca pode ser admitido), ainda
assim, por que selecionar um princípio tão diminuto, tão fraco,
tão limitado como a razão e desígnio de animais que se
encontram existentes neste planeta? Que privilégio peculiar tem
essa pequena agitação do cérebro que chamamos de
pensamento, para que devamos assim fazê-la o modelo do
universo inteiro? Nossa parcialidade a nosso próprio favor de
fato o apresenta em todas as ocasiões – mas a filosofia sã deve
guardar cuidadosamente contra uma ilusão tão natural. 20. “Longe de admitir”, continuou FILÃO, “que as operações duma
parte possam nos conferir alguma conclusão justa sobre a
origem do todo, não admitirei que nenhuma parte forme uma
regra para outra parte, se esta última for muito remota
daqueloutra. Há algum fundamento razoável para concluir que
os habitantes doutros planetas possuam pensamento,
inteligência, razão ou qualquer coisa similar a essas faculdades
dos homens? Se a natureza diversificou tão extremamente sua
maneira de operação neste pequeno globo, podemos imaginar
que ela se copie incessantemente através de tão imenso
universo? E se o pensamento, como podemos muito bem
supor, for confinado meramente a este canto estreito e tem
mesmo aqui uma esfera tão limitada de ação, com que
propriedade podemos lhe atribuir a causa original de todas as
coisas? As vistas estreitas de um camponês que faça das suas
economias domésticas a regra para o governo de reinos são
em comparação um sofisma perdoável.
21. “Mas estivéssemos tão seguros de que um pensamento e razão
assemelhados ao humano se achassem através de todo o
universo, e fosse sua atividade em qualquer outro lugar
vastamente maior e mais comandante do que aparece neste
globo – ainda assim, não consigo ver por que podem as
operações dum mundo constituído, arranjado, ser estendidas
com qualquer propriedade a um mundo que ainda está em seu
estado embrionário e avançando em direção a essa
constituição e arranjo. Por observação sabemos algo da
economia, ação e nutrição dum animal acabado; mas devemos
transferir com grande cuidado esta observação para o
crescimento dum feto no útero, e mais ainda para a formação
do animálculo nas entranhas do seu pai. A natureza,
descobrimos mesmo pela nossa experiência limitada, possui
um número infinito de motores e princípios que
incessantemente se desvelam a cada mudança de sua posição
e situação. E quais princípios novos e desconhecidos a
impeliriam para uma situação tão nova e desconhecida como a
formação do universo, nós não podemos, sem a mais extrema
temeridade, tentar determinar.
22. “Uma parte muito pequena desse grande sistema, durante um
tempo muito pequeno, é muito imperfeitamente descoberta para
nós – e a partir dela nos pronunciamos decididamente sobre o
todo?”
23. “Conclusão admirável! Pedra, madeira, tijolo, ferro, bronze não
têm, neste globo diminuto de terra, uma arte e arranjo sem
engenho humano: portanto, o universo não poderia atingir sua
ordem e arranjo sem algo semelhante a arte humana. Mas uma
parte da natureza é regra para outra parte bem variada dela? É
regra para o todo? Uma parte bem pequena é regra para o
universo? A natureza em certa situação é regra certeira para a
natureza noutra situação vastamente diferente daquela? 24. “E podes culpar-me, CLEANTES, se aqui eu imitar a reserva
prudente de SIMÔNIDES, que de acordo com a notável
história9, sendo-lhe perguntado por HIERÃO ‘O que é Deus?’
desejou um dia para pensar nisto, e depois mais dois, e desse
modo prolongou continuamente o termo sem jamais trazer sua
definição ou descrição? Poderias culpar-me se eu tivesse
respondido de primeira que eu não sei e tinha consciência de
que esse assunto jaz mui vastamente além do alcance das
minhas faculdades? Podes bradar cético e zombeteiro tanto
quanto quiseres – mas tendo descoberto, em tantos outros
assuntos, serem mais familiares as imperfeições e mesmo
contradições da razão humana, eu nunca deveria esperar
algum sucesso de suas frágeis conjecturas num assunto tão
sublime e tão distante da esfera de nossa observação. Quando
duas espécies de objetos sempre foram observadas em
conjunção, posso inferir por costume a existência de uma onde
quer que eu veja a existência da outra. E isto eu chamo um
argumento da experiência. Mas como pode este argumento ter
lugar onde os objetos, como no presente caso, são únicos,
individuais, sem paralelo ou semelhança específica, pode ser
difícil explicar. E quererá algum homem contar-me, mantendo o
rosto sério, que um universo ordeiro tem que surgir de algum
pensamento e arte como o humano porque temos experiência
disto? Para asserir este raciocínio seria necessário que
tivéssemos a experiência da origem de mundos, e com certeza
não é suficiente que tenhamos visto barcos e cidades surgirem
de arte e engenho humanos…”
25. FILÃO estava procedendo nesta maneira veemente, algo entre
zombeteira e séria como me pareceu, quando observou alguns
sinais de impaciência em CLEANTES e então parou rápido. “O
que tenho a sugerir”, disse CLEANTES, “é apenas que não
abuses dos termos nem faças uso de expressões populares
para subverter raciocínios filosóficos. Sabes que o vulgo
frequentemente distingue razão de experiência mesmo onde a
pergunta se relaciona apenas a questão de fato e existência,
embora se descubra, quando a razão é analisada propriamente,
que ela não é nada senão uma espécie de experiência. E um
cavilador pode levantar todas as mesmas objeções ao sistema
COPERNICANO, o qual incitaste contra meus raciocínios.
‘Tendes outras terras’, poderá ele dizer, ‘que vistes mover?
Tendes…’”
26. “Sim!”, bradou FILÃO interrompendo-o, “temos outras terras.
Não é a lua uma outra terra que vimos dar voltas em torno do
seu centro? Não é Vênus uma outra terra onde observamos o
mesmo fenômeno? Não são as revoluções do sol também uma
confirmação, por analogia, da mesma teoria? Todos os planetas
não são terras que giram em torno do sol? Não são os satélites
luas que se movem à volta de Júpiter e Saturno e, junto com
esses planetas primários, dão voltas ao redor do sol? Estas
analogias e semelhanças, junto com outras, são as únicas
provas do sistema COPERNICANO – e cabe a ti considerar se
tens analogias do mesmo tipo para sustentar tua teoria. 27. “Na realidade, CLEANTES,” continuou ele, “o sistema moderno
de astronomia é agora tão bem recebido por todos os
investigadores e se tornou uma parte tão essencial até da
nossa educação mais precoce que comumente não somos
muito escrupulosos em examinar as razões sobre as quais ele é
fundado. Agora é uma questão de mera curiosidade estudar os
primeiros escritores deste assunto, que tiveram a força plena do
preconceito para batalhar contra eles e foram obrigados a
alterar seus argumentos em cada canto a fim de torná-los
populares e convincentes. Mas se examinarmos os famosos
Diálogos sobre o sistema do mundo de GALILEU, veremos que
este grande gênio, um dos mais sublimes que já existiram,
empenhou primeiro todas as suas tentativas em provar que não
havia fundamento algum para as distinções comumente feitas
entre substâncias elementares e celestiais. As escolas,
procedendo a partir das ilusões dos sentidos, levaram para
muito longe essas distinções, e estabeleceram que aquelas
últimas substâncias eram inengendráveis, incorruptíveis,
inalteráveis, impassíveis; e atribuíram todas as qualidades
opostas àqueloutra. Mas GALILEU, começando com a lua,
provou sua similaridade em cada particular com a terra: sua
figura convexa, sua escuridão natural quando não iluminada,
sua densidade, sua distinção entre sólido e líquido, as
variações de suas fases, as iluminações mútuas entre a terra e
a lua, seus eclipses mútuos, as irregularidades na superfície
lunar, etc. Depois de muitos exemplos deste tipo no que diz
respeito a todos os planetas, os homens enxergaram
claramente que estes corpos se tornaram objetos de
experiência, e que a similaridade de sua natureza nos permitiu
estender os mesmos argumentos e fenômenos de um para o
outro.
28. “Neste procedimento cuidadoso dos astrônomos podes ler tua
própria condenação, CLEANTES; ou podes antes ver que o
assunto em que te engajas excede toda a razão e investigação
humana. Podes pretender mostrar alguma similaridade tal entre
a estrutura duma casa e a geração dum universo? Já viste a
natureza em alguma situação tal como se assemelha ao
primeiro arranjo dos elementos? Mundos já se formaram sob
teus olhos? E já tiveste o prazer de observar o progresso inteiro
desse fenômeno, desde a primeira aparição de ordem até sua
consumação final? Se tiveste, então cita tua experiência e
profere tua teoria.”