Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 4 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte II

 

 

1. “Devo admitir, CLEANTES,” disse DÊMEAS, “que nada pode

me surpreender mais do que a luz sob a qual puseste todo o

tempo este argumento. Por todo o teor de teu discurso poder-

se-ia imaginar que estivesses mantendo a existência de um

Deus contra as cavilações de ateus e infiéis, e que te

empenhasses em virar um paladino deste princípio fundamental

da religião. Mas tal, espero, não é de modo algum uma questão

entre nós. Nenhum homem, ou ao menos nenhum homem de

senso comum, estou persuadido, jamais entreteve uma dúvida

séria quanto a uma verdade tão certa e autoevidente. A questão

não é concernente ao ser, mas à natureza de Deus. Esta eu

afirmo, a partir das fragilidades do entendimento humano, ser

ao mesmo tempo incompreensível e desconhecida para nós. A

essência dessa mente suprema, seus atributos, a maneira de

sua existência, a verdadeira natureza de sua duração – estes, e

todo particular referente a um Ser tão divino, são misteriosos

para o homem. Criaturas finitas, fracas e cegas, devemos nos

humilhar perante sua augusta presença e, conscientes de

nossas fraquezas, adorar em silêncio suas perfeições infinitas

que o olho não viu, a orelha não ouviu e tampouco adentrou o

coração do homem conceber. Elas estão encobertas numa

nuvem profunda para curiosidade humana: é profanidade tentar

penetrar essas obscuridades sagradas; e próxima à impiedade

de negar sua existência é a temeridade de intrometer-se em

sua natureza e essência, decretos e atributos.

2. “Mas para que não penses que minha piedade aqui ficou

melhor do que minha filosofia, devo sustentar minha opinião –

se ela precisar de algum sustento – com uma autoridade

grandíssima. Posso citar quase todos os teólogos, desde a

fundação do cristianismo, que trataram deste ou de qualquer

outro assunto teológico, mas devo confinar-me por ora apenas

a um célebre igualmente por piedade e filosofia. É o padre

MALEBRANCHE, quem, eu me lembro, assim se expressa*:

‘Deve-se’, diz ele, ‘chamar Deus de espírito não tanto para

expressar positivamente o que ele é, mas mais para dizer que

ele não é matéria. Ele é um Ser infinitamente perfeito: disto não

podemos duvidar. Mas do mesmo modo não devemos imaginar,

mesmo supondo-o corpóreo, que ele é revestido por um corpo

humano como os ANTROPOMORFISTAS afirmaram a pretexto

de que esta figura é a mais perfeita de todas, tampouco

devemos imaginar que o Espírito de Deus tem ideias humanas

ou mantém qualquer semelhança com o nosso espírito, a

pretexto de que não conhecemos nada mais perfeito do que a

mente humana. Devemos antes acreditar que como ele

compreende as perfeições da matéria sem ser material (…),

compreende também as perfeições dos espíritos criados na

maneira como concebemos espírito: que seu verdadeiro nome

é ‘Aquele que é’ ou, noutras palavras, Ser sem restrição, Todo o

Ser, o Ser infinito e universal.’”

3. “Depois de tão grande autoridade, DÊMEAS,” replicou FILÃO,

“como a que produziste e mil outras que podes produzir,

pareceria ridículo eu acrescentar minha opinião ou expressar

minha aprovação da tua doutrina. Decerto, onde homens

razoáveis tratam desses assuntos, a questão nunca pode

concernir ao ser, mas apenas à natureza da Deidade. A

primeira verdade, como bem podes observar, é inquestionável e

autoevidente. Nada existe sem uma causa, e à causa original

deste universo (qualquer que seja ela) chamamos DEUS e

piamente lhe atribuímos todas as espécies de perfeição. Quem

quer que tenha escrúpulos em aceitar esta verdade

fundamental merece toda punição que possa ser infligida entre

filósofos, a saber, o maior ridículo, desdém e desaprovação.

Mas como toda perfeição é inteiramente relativa, jamais

devemos imaginar que compreendemos os atributos desse Ser

divino ou supor que suas perfeições têm alguma analogia ou

semelhança com as perfeições duma criatura humana.

Sabedoria, pensamento, desígnio, conhecimento: estas lhe

atribuímos com justeza porque essas palavras são honoráveis

entre homens e não temos outra língua ou outras concepções

pelas quais possamos expressar nossa adoração por ele. Mas

vamos nos precaver para não pensar que nossas ideias dalgum

modo correspondem às suas perfeições ou que seus atributos

têm alguma semelhança com essas qualidades entre homens.

Ele é infinitamente superior a nossa visão e compreensão

limitadas, e é mais objeto de adoração no templo do que de

disputa nas escolas.

4. “Na realidade, CLEANTES,” continuou ele, “não há necessidade

alguma de ter recurso a esse ceticismo afetado, tão

desagradável para ti, para chegar a essa determinação. Nossas

ideias não alcançam mais longe do que nossa experiência; nós

não temos experiência de atributos e operações divinas: não

preciso concluir meu silogismo, podes tu mesmo tirar a

inferência. E é um prazer para mim (e espero que também para

ti) que raciocínio justo e piedade sã concorram na mesma

conclusão e ambas estabeleçam a adoravelmente misteriosa e

incompreensível natureza do Ser superior.”

5. “Para não perder tempo com circunlóquios,” disse CLEANTES

dirigindo-se a DÊMEAS, “muito menos respondendo às pias

declamações de FILÃO, devo explicar brevemente como

concebo essa questão. Olha o mundo à volta: contempla a

inteireza e cada parte sua: descobrirás que ele nada é senão

uma grande máquina, subdividida num número infinito de

máquinas menores que também admitem subdivisões até um

grau além do que sentidos e faculdades humanas podem traçar

e explicar. Todas essas várias máquinas, e mesmo suas mais

diminutas partes, são ajustadas umas às outras com uma

justeza que arrebata para a admiração todos os homens que as

contemplaram. A curiosa adaptação de meios a fins através de

toda a natureza se assemelha exatamente, embora muito

exceda, às produções de engenho humano, de desígnio,

pensamento, sabedoria e inteligência humanas. Uma vez,

portanto, que os efeitos se assemelham uns aos outros, somos

levados a inferir, por todas as regras de analogia, que as

causas também se assemelham, e que o autor da natureza é

dalgum modo similar à mente do homem, embora possuidor de

faculdades muito maiores, proporcionadas à grandeza do

trabalho que ele executou. Por este argumento a posteriori, e

por este argumento apenas, provamos de vez a existência

duma Deidade e sua similaridade à mente e inteligência

humanas.”

6. “Tomarei a liberdade, CLEANTES,” disse DÊMEAS, “de dizer-te

que desde o começo não pude aprovar tua conclusão

concernente à similaridade da Deidade com os homens, e

posso ainda menos aprovar os meios pelos quais tentaste

estabelecê-la. O quê! Sem demonstração da existência de um

Deus! Sem argumentos abstratos! Sem provas a priori! Serão

estas, em que os filósofos têm até agora insistido tanto, todas

falácias, todas sofismas? Não poderemos alcançar neste

assunto mais do que experiência e probabilidade? Não direi que

isto é trair a causa duma Divindade, mas certamente, por essa

candura afetada, dás uma vantagem aos ateus que eles nunca

poderiam obter pelo mero golpe de argumento e raciocínio.”

7. 7. “O que mais receio nesse assunto”, disse FILÃO, “não é

tanto que todos os argumentos religiosos sejam reduzidos por

CLEANTES à experiência, mas antes que eles sequer surjam

como os mais certos e irrefragáveis desse tipo inferior. Que

uma pedra cairá, que o fogo queimará, que a terra tem solidez,

já observamos milhares e milhares de vezes; e quando um

novo exemplo dessa natureza é apresentado, tiramos sem

hesitação a inferência costumeira. A similaridade exata dos

casos nos dá uma segurança perfeita de um evento similar, e

uma evidência maior nunca é desejada ou buscada. Mas onde

quer que te apartes o mínimo da similaridade dos casos,

diminuis proporcionalmente a evidência; e podes por fim ter

uma analogia bem fraca, que é confessadamente propensa a

erros e incerteza. Depois de termos experimentado a circulação

do sangue em criaturas humanas, não temos dúvidas de que

ela tem lugar em Tício e Mévio – mas, a partir de sua circulação

em sapos e peixes, é apenas uma presunção, embora uma

forte, advinda de analogia, que isso tome lugar em homens e

outros animais. O raciocínio analógico é muito mais fraco

quando inferimos a circulação da seiva em vegetais a partir de

nossa experiência de que sangue circula em animais, e aqueles

que apressadamente seguiram essa analogia imperfeita

descobrem, por experimentos mais acurados, estar enganados.

8. “Se vemos uma casa, CLEANTES, concluímos com a maior

certeza que ela teve um arquiteto ou construtor – porque esta é

precisamente aquela espécie de efeito do qual tivemos

experiência de proceder daquela espécie de causa. Mas

certamente não afirmarás que o universo sustenta tamanha

semelhança com uma casa que possamos com a mesma

certeza inferir uma causa similar, ou que a analogia é aqui

inteira e perfeita. A dessemelhança é tão arrebatadora que o

mais extremo que podes pretender aqui é um palpite, uma

conjectura, uma presunção concernente a uma causa similar –

e como essa pretensão será recebida no mundo, deixo para ti

considerar.”

9. “Seria decerto mal recebida”, replicou CLEANTES, “e eu seria

merecidamente culpado e detestado se concedesse que as

provas de uma Deidade montassem a não mais do que palpite

ou conjectura. Mas será todo o ajuste de meios a fins numa

casa e no universo uma semelhança tão tênue? A economia de

causas finais? A ordem, proporção e arranjo de cada parte?

Degraus duma escada são claramente engendrados para que

pernas humanas possam usá-los para escalar, e esta é uma

inferência certa e infalível. Pernas humanas também são

engendradas para andar e escalar, e esta semelhança, eu

concedo, não é tão certa por causa da dessemelhança que

apontaste, mas merece portanto o nome apenas de presunção

ou conjectura?”

10. “Bom Deus!”, bradou DÊMEAS interrompendo-o, “Onde

estamos?! Zelosos defensores da religião concedem que as

provas duma Deidade sejam insuficientes de evidência perfeita!

E tu, FILÃO, de cuja assistência eu dependia para provar o

adorável mistério da natureza divina, assentes a todas essas

opiniões extravagantes de CLEANTES? Pois que outro nome

posso dar a elas? Ou por que poupar minha censura quando

tais princípios são promovidos, sustentados por tal autoridade

perante um homem tão jovem como PÂNFILO?”

11. “Pareces não ter notado”, replicou FILÃO, “que discuto com

CLEANTES à sua própria maneira e, mostrando-lhe as

consequências perigosas de seus preceitos, espero por fim

reduzi-lo à nossa opinião. Mas ao que te aferras mais, observo,

é a representação que CLEANTES fez do argumento a

posteriori; e, achando que o argumento provavelmente escapa

a teu controle e desaparece no ar, pensas que está disfarçado

demais para que possas acreditar que esteja posto em sua

verdadeira luz. Agora, por mais que eu possa dissentir a outros

respeitos dos princípios perigosos de CLEANTES, devo

conceder que ele representou com justeza o argumento, e devo

tentar apresentar a questão para ti a fim de que não

entretenhas mais escrúpulos em relação a ele. 12. “Fosse um homem abstrair de todas as coisas de que sabe ou

já viu, seria totalmente incapaz, a partir meramente de suas

ideias, de determinar que tipo de cena o universo deve ser ou

dar preferência a um estado ou situação de coisas sobre outro.

Pois como nada que ele conceba claramente poderia ser

estimado impossível ou implicar contradição, toda quimera de

sua fantasia poderia estar em pé de igualdade; e tampouco

poderia determinar alguma razão justa por que ele adere a uma

ideia ou sistema e rejeita outras que são igualmente possíveis. 13. “De novo: depois que abrisse os olhos e contemplasse o mundo

tal como realmente é, ser-lhe-ia impossível de primeira atribuir a

causa de qualquer evento, e muito menos de todas as coisas e

do universo. Ele poderia ver sua fantasia perambulante, e ela

poderia trazer-lhe uma variedade infinita de relatos e

representações. Todas essas seriam possíveis; mas, sendo

todas igualmente possíveis, ele por si só jamais daria uma

explicação satisfatória para preferir uma delas às demais.

Apenas a experiência pode lhe apontar a verdadeira causa de

um fenômeno.

14. “Ora, de acordo com este método de raciocínio, DÊMEAS,

segue-se (e é, de fato, tacitamente admitido pelo próprio

CLEANTES) que ordem, arranjo ou ajuste de causas finais não

é, por si só, nenhuma prova de desígnio, mas apenas na

medida em que se tenha experiência de ela proceder deste

princípio. Pois devemos poder saber a priori que a matéria pode

conter a fonte ou motor de ordem originariamente em si mesma,

assim como a mente; e não há mais dificuldade em conceber

que os vários elementos possam a partir duma causa interna

desconhecida cair no ajuste mais primoroso, do que conceber

que suas ideias numa mente grande, universal, caiam em

ordem a partir duma causa igualmente interna, desconhecida. A

possibilidade igual de ambas estas suposições é concedida.

Pela experiência percebemos (de acordo com CLEANTES) que

há diferença entre elas. Atira juntos vários pedaços de aço sem

desenho ou forma: eles próprios nunca se arranjarão de modo a

comporem um relógio; pedra, argamassa, sem um arquiteto

nunca erigirão uma casa. A experiência, portanto, prova que há

um princípio de ordem na mente, não na matéria. De efeitos

similares inferimos causas similares. O ajuste de meios a fins é

semelhante no universo como numa máquina de engenho

humano. As causas, portanto, têm que ser semelhantes. 15. “Eu estava desde o começo escandalizado, devo admitir, com

essa semelhança que é afirmada entre a Deidade e as criaturas

humanas, e devo conceber que isto implica tal degradação do

Ser supremo como nenhum teísta são poderia suportar. Com

tua assistência portanto, DÊMEAS, devo tentar defender o que

chamas com justeza de adorável mistério da natureza divina, e

refutar esse raciocínio de CLEANTES, contanto que ele admita

que fiz deste uma representação justa.”

16. Quando CLEANTES assentiu, FILÃO, depois de uma pausa

curta, procedeu da seguinte maneira.

17. “Que todas as inferências, CLEANTES, concernentes a fatos

são fundadas na experiência, e que todos os raciocínios

experimentais são fundados nesta suposição de que causas

similares provam efeitos similares e efeitos similares causas

similares, não devo agora disputar muito contigo. Mas rogo:

observa com que cuidados extremos todos os raciocinadores

justos procedem na transferência de experimentos para causas

similares. A menos que as causas sejam exatamente similares,

não depositam nenhuma confiança perfeita ao aplicar sua

observação passada a qualquer fenômeno particular. Cada

alteração de circunstâncias ocasiona uma dúvida no que

concerne ao evento e requer novos experimentos para provar

com segurança que as circunstâncias novas não são de grande

importância ou pertinência. Uma mudança no tamanho,

situação, arranjo, era, disposição do ar ou objetos à volta –

cada um destes particulares pode ser acompanhado pelas

consequências mais inesperadas, e a menos que os objetos

nos sejam bem familiares, é a maior temeridade esperar com

certeza, depois de quaisquer destas mudanças, um evento

similar àquele que antes esteve sob nossa observação. Os

passos lentos e deliberados dos filósofos aqui, se não em toda

parte, são distintos da marcha precipitada dos homens

vulgares, que, apressados pela mais diminuta semelhança, são

incapazes de qualquer discernimento ou consideração. 18. “Mas podes pensar, CLEANTES, que teus usuais fleuma e

filosofia foram preservados num passo tão grande como o que

tomaste quando comparaste ao universo casas, navios, mobília,

máquinas, e de sua similaridade nalgumas circunstâncias

inferiste uma similaridade em suas causas? Pensamento,

desígnio, inteligência, tais como descobrimos em homens e

outros animais, nada mais são do que um dos motores e

princípios do universo, assim como calor e frio, atração e

repulsão, e uma centena doutros que estão sob nossa

observação diária. É uma causa ativa pela qual algumas partes

particulares da natureza, vemos, produzem alterações noutras

partes. Mas poderá uma conclusão, com alguma propriedade,

ser transferida de partes para o todo? A grande desproporção

não barra toda comparação e inferência? Por observar o

crescimento do cabelo podemos aprender alguma coisa sobre a

geração do homem? Iria a maneira de brotar duma folha,

embora perfeitamente conhecida, conferir-nos alguma instrução

sobre vegetação duma árvore?

19. “Mas, admitindo que tivéssemos que tomar as operações duma

parte da natureza sobre outra como fundamento de nosso juízo

sobre a origem do todo (o que nunca pode ser admitido), ainda

assim, por que selecionar um princípio tão diminuto, tão fraco,

tão limitado como a razão e desígnio de animais que se

encontram existentes neste planeta? Que privilégio peculiar tem

essa pequena agitação do cérebro que chamamos de

pensamento, para que devamos assim fazê-la o modelo do

universo inteiro? Nossa parcialidade a nosso próprio favor de

fato o apresenta em todas as ocasiões – mas a filosofia sã deve

guardar cuidadosamente contra uma ilusão tão natural. 20. “Longe de admitir”, continuou FILÃO, “que as operações duma

parte possam nos conferir alguma conclusão justa sobre a

origem do todo, não admitirei que nenhuma parte forme uma

regra para outra parte, se esta última for muito remota

daqueloutra. Há algum fundamento razoável para concluir que

os habitantes doutros planetas possuam pensamento,

inteligência, razão ou qualquer coisa similar a essas faculdades

dos homens? Se a natureza diversificou tão extremamente sua

maneira de operação neste pequeno globo, podemos imaginar

que ela se copie incessantemente através de tão imenso

universo? E se o pensamento, como podemos muito bem

supor, for confinado meramente a este canto estreito e tem

mesmo aqui uma esfera tão limitada de ação, com que

propriedade podemos lhe atribuir a causa original de todas as

coisas? As vistas estreitas de um camponês que faça das suas

economias domésticas a regra para o governo de reinos são

em comparação um sofisma perdoável.

21. “Mas estivéssemos tão seguros de que um pensamento e razão

assemelhados ao humano se achassem através de todo o

universo, e fosse sua atividade em qualquer outro lugar

vastamente maior e mais comandante do que aparece neste

globo – ainda assim, não consigo ver por que podem as

operações dum mundo constituído, arranjado, ser estendidas

com qualquer propriedade a um mundo que ainda está em seu

estado embrionário e avançando em direção a essa

constituição e arranjo. Por observação sabemos algo da

economia, ação e nutrição dum animal acabado; mas devemos

transferir com grande cuidado esta observação para o

crescimento dum feto no útero, e mais ainda para a formação

do animálculo nas entranhas do seu pai. A natureza,

descobrimos mesmo pela nossa experiência limitada, possui

um número infinito de motores e princípios que

incessantemente se desvelam a cada mudança de sua posição

e situação. E quais princípios novos e desconhecidos a

impeliriam para uma situação tão nova e desconhecida como a

formação do universo, nós não podemos, sem a mais extrema

temeridade, tentar determinar.

22. “Uma parte muito pequena desse grande sistema, durante um

tempo muito pequeno, é muito imperfeitamente descoberta para

nós – e a partir dela nos pronunciamos decididamente sobre o

todo?”

23. “Conclusão admirável! Pedra, madeira, tijolo, ferro, bronze não

têm, neste globo diminuto de terra, uma arte e arranjo sem

engenho humano: portanto, o universo não poderia atingir sua

ordem e arranjo sem algo semelhante a arte humana. Mas uma

parte da natureza é regra para outra parte bem variada dela? É

regra para o todo? Uma parte bem pequena é regra para o

universo? A natureza em certa situação é regra certeira para a

natureza noutra situação vastamente diferente daquela? 24. “E podes culpar-me, CLEANTES, se aqui eu imitar a reserva

prudente de SIMÔNIDES, que de acordo com a notável

história9, sendo-lhe perguntado por HIERÃO ‘O que é Deus?’

desejou um dia para pensar nisto, e depois mais dois, e desse

modo prolongou continuamente o termo sem jamais trazer sua

definição ou descrição? Poderias culpar-me se eu tivesse

respondido de primeira que eu não sei e tinha consciência de

que esse assunto jaz mui vastamente além do alcance das

minhas faculdades? Podes bradar cético e zombeteiro tanto

quanto quiseres – mas tendo descoberto, em tantos outros

assuntos, serem mais familiares as imperfeições e mesmo

contradições da razão humana, eu nunca deveria esperar

algum sucesso de suas frágeis conjecturas num assunto tão

sublime e tão distante da esfera de nossa observação. Quando

duas espécies de objetos sempre foram observadas em

conjunção, posso inferir por costume a existência de uma onde

quer que eu veja a existência da outra. E isto eu chamo um

argumento da experiência. Mas como pode este argumento ter

lugar onde os objetos, como no presente caso, são únicos,

individuais, sem paralelo ou semelhança específica, pode ser

difícil explicar. E quererá algum homem contar-me, mantendo o

rosto sério, que um universo ordeiro tem que surgir de algum

pensamento e arte como o humano porque temos experiência

disto? Para asserir este raciocínio seria necessário que

tivéssemos a experiência da origem de mundos, e com certeza

não é suficiente que tenhamos visto barcos e cidades surgirem

de arte e engenho humanos…”

25. FILÃO estava procedendo nesta maneira veemente, algo entre

zombeteira e séria como me pareceu, quando observou alguns

sinais de impaciência em CLEANTES e então parou rápido. “O

que tenho a sugerir”, disse CLEANTES, “é apenas que não

abuses dos termos nem faças uso de expressões populares

para subverter raciocínios filosóficos. Sabes que o vulgo

frequentemente distingue razão de experiência mesmo onde a

pergunta se relaciona apenas a questão de fato e existência,

embora se descubra, quando a razão é analisada propriamente,

que ela não é nada senão uma espécie de experiência. E um

cavilador pode levantar todas as mesmas objeções ao sistema

COPERNICANO, o qual incitaste contra meus raciocínios.

‘Tendes outras terras’, poderá ele dizer, ‘que vistes mover?

Tendes…’”

26. “Sim!”, bradou FILÃO interrompendo-o, “temos outras terras.

Não é a lua uma outra terra que vimos dar voltas em torno do

seu centro? Não é Vênus uma outra terra onde observamos o

mesmo fenômeno? Não são as revoluções do sol também uma

confirmação, por analogia, da mesma teoria? Todos os planetas

não são terras que giram em torno do sol? Não são os satélites

luas que se movem à volta de Júpiter e Saturno e, junto com

esses planetas primários, dão voltas ao redor do sol? Estas

analogias e semelhanças, junto com outras, são as únicas

provas do sistema COPERNICANO – e cabe a ti considerar se

tens analogias do mesmo tipo para sustentar tua teoria. 27. “Na realidade, CLEANTES,” continuou ele, “o sistema moderno

de astronomia é agora tão bem recebido por todos os

investigadores e se tornou uma parte tão essencial até da

nossa educação mais precoce que comumente não somos

muito escrupulosos em examinar as razões sobre as quais ele é

fundado. Agora é uma questão de mera curiosidade estudar os

primeiros escritores deste assunto, que tiveram a força plena do

preconceito para batalhar contra eles e foram obrigados a

alterar seus argumentos em cada canto a fim de torná-los

populares e convincentes. Mas se examinarmos os famosos

Diálogos sobre o sistema do mundo de GALILEU, veremos que

este grande gênio, um dos mais sublimes que já existiram,

empenhou primeiro todas as suas tentativas em provar que não

havia fundamento algum para as distinções comumente feitas

entre substâncias elementares e celestiais. As escolas,

procedendo a partir das ilusões dos sentidos, levaram para

muito longe essas distinções, e estabeleceram que aquelas

últimas substâncias eram inengendráveis, incorruptíveis,

inalteráveis, impassíveis; e atribuíram todas as qualidades

opostas àqueloutra. Mas GALILEU, começando com a lua,

provou sua similaridade em cada particular com a terra: sua

figura convexa, sua escuridão natural quando não iluminada,

sua densidade, sua distinção entre sólido e líquido, as

variações de suas fases, as iluminações mútuas entre a terra e

a lua, seus eclipses mútuos, as irregularidades na superfície

lunar, etc. Depois de muitos exemplos deste tipo no que diz

respeito a todos os planetas, os homens enxergaram

claramente que estes corpos se tornaram objetos de

experiência, e que a similaridade de sua natureza nos permitiu

estender os mesmos argumentos e fenômenos de um para o

outro.

28. “Neste procedimento cuidadoso dos astrônomos podes ler tua

própria condenação, CLEANTES; ou podes antes ver que o

assunto em que te engajas excede toda a razão e investigação

humana. Podes pretender mostrar alguma similaridade tal entre

a estrutura duma casa e a geração dum universo? Já viste a

natureza em alguma situação tal como se assemelha ao

primeiro arranjo dos elementos? Mundos já se formaram sob

teus olhos? E já tiveste o prazer de observar o progresso inteiro

desse fenômeno, desde a primeira aparição de ordem até sua

consumação final? Se tiveste, então cita tua experiência e

profere tua teoria.”