Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 3 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte I

 

 

1. Depois que me juntei à companhia que encontrei sentada na

biblioteca de CLEANTES, DÊMEAS fez a CLEANTES alguns

cumprimentos pelo grande cuidado que ele tomou em minha

educação e por sua perseverança e constância incansáveis em

todas as suas amizades. “O pai de PÂNFILO”, disse ele, “era

teu amigo íntimo; o filho é teu pupilo, e pode de fato ser

considerado teu filho adotivo, se julgarmos pelos cuidados que

dispensas em fornecerlhe todo ramo útil de literatura e ciência.

Não és menos faltoso, estou persuadido, de prudência do que

de indústria. Portanto, comunicar-te-ei uma máxima que tenho

observado no que diz respeito às minhas próprias crianças, pois

posso assim me inteirar do quanto ela concorda com tua

prática. O método que sigo em sua educação se funda nos

dizeres de um antigo, que ‘estudantes de filosofia têm primeiro

que aprender lógica, então ética, a seguir física, por último a

natureza dos deuses’*. Essa ciência da teologia natural, de

acordo com ele, sendo a mais abstrusa e profunda de todas,

demandou o mais maduro juízo de seus estudantes, e a

ninguém, senão uma mente enriquecida com todas as outras

ciências, pode com segurança ser confiada.”

2. “Estás tão atrasado”, diz FILÃO, “em ensinar às tuas crianças

os princípios da religião? Não há perigo de elas negligenciarem

completamente aquelas opiniões das quais ouviram tão pouco

durante todo o curso de sua educação?” “É apenas enquanto

uma ciência”, replicou DÊMEAS, “sujeita ao raciocínio humano

e disputa, que eu adio o estudo de teologia natural. Temperar

suas mentes com piedade precoce é o meu cuidado principal; e

por preceito e instrução contínuos, e espero também que por

exemplo, gravo profundamente em suas mentes macias uma

reverência habitual a todos os princípios da religião. Enquanto

elas atravessam todas as outras ciências, aponto ainda a

incerteza de cada parte, as eternas disputas dos homens, a

obscuridade de toda filosofia e as conclusões estranhas,

ridículas, que alguns dos maiores gênios derivaram de seus

princípios da mera razão humana. Tendo assim domado suas

mentes para uma submissão apropriada e autodesconfiança,

não tenho mais escrúpulos em abrir para elas os maiores

mistérios da religião, e tampouco receio qualquer perigo

advindo dessa arrogância presunçosa da filosofia que possa

levá-las a rejeitar as mais estabelecidas doutrinas e opiniões.”

3. “Tua precaução”, diz FILÃO, “em temperar as mentes de tuas

crianças com piedade precoce é decerto muito razoável, e não

mais do que é necessária nesta era profana e irreligiosa. Mas o

que admiro principalmente em teu plano de educação é teu

método de tirar vantagem dos verdadeiros princípios de filosofia

e aprendizado que, inspirando orgulho e autossuficiência, têm

em todas as eras se achado tão destrutivos para os princípios

de religião. De fato os homens vulgares que, podemos notar,

são estranhos a ciência e investigação profunda, ao

observarem as disputas sem fim dos eruditos, têm comumente

um rematado desdém pela filosofia e fixam-se mais rápido,

desse modo, nos grandes pontos de teologia que lhes foram

ensinados. Aqueles que adentram um pouco em estudo e

investigação, ao encontrarem muitas aparências de evidência

nas doutrinas mais novas e mais extraordinárias, pensam que

nada é difícil demais para a razão humana; e, arrombando

pretensiosamente todas as cercas, profanam os mais

recônditos santuários do templo. Mas CLEANTES, espero,

concordará comigo que, depois de termos abandonado a

ignorância, que é o remédio mais seguro, resta ainda outro

expediente para prevenir essa liberdade profana. Que os

princípios de DÊMEAS sejam aprimorados e cultivados:

tornemonos completamente cônscios da fraqueza, da cegueira

e dos limites estreitos da razão humana; consideremos

devidamente sua incerteza e suas contrariedades infindáveis

mesmo nos assuntos de vida comum e prática; coloquem-se à

nossa frente erros e ilusões de nossos próprios sentidos, as

dificuldades insuperáveis que acompanham os primeiros

princípios de todo sistema, as contradições que aderem às

próprias ideias de matéria, causa e efeito, extensão, espaço,

tempo, movimento e, numa palavra, quantidade de todo tipo,

que é o objeto da única ciência que pode com justeza pretender

alguma certeza e evidência. Se esses tópicos forem expostos

em sua luz plena, como o são por alguns filósofos e quase

todos os teólogos, quem poderá reter tal confiança nessa frágil

faculdade da razão a ponto de ter alguma estima por suas

determinações em pontos tão sublimes, tão abstrusos, tão

remotamente distantes da vida comum e da experiência? Se a

aderência mútua2 das partes duma pedra ou mesmo a

composição das partes que a tornam extensa; se esses objetos

familiares, digo eu, são tão inexplicáveis e contêm

circunstâncias tão irreconciliáveis e contraditórias, com que

segurança poderemos decidir a respeito da origem de mundos,

ou remontar à sua história de eternidade a eternidade?”

4. Enquanto FILÃO pronunciava estas palavras, eu pude observar

um sorriso nos semblantes tanto de DÊMEAS quanto de

CLEANTES. O de DÊMEAS parecia implicar uma satisfação

sem reservas com as doutrinas proferidas – mas nas feições de

CLEANTES pude distinguir um ar de astúcia, como percebesse

alguma zombaria ou malícia artificiosa nos raciocínios de

FILÃO.

5. “Propões então, FILÃO,” disse CLEANTES, “erigir fé religiosa

sobre ceticismo filosófico, e pensas que, se a certeza e a

evidência forem expulsas de todo outro assunto de

investigação, retirarse-ão por inteiro para essas doutrinas

teológicas e lá adquirirão uma força superior e autoridade. Se

teu ceticismo for tão absoluto e sincero quanto pretendes,

descobri-lo-emos daqui a pouco, quando nossa companhia se

cessar: veremos então se sais pela porta ou pela janela, e se

duvidas mesmo de que teu corpo tem gravidade ou pode sofrer

injúrias pela queda, de acordo com a opinião popular derivada

de nossos falazes sentidos e falacíssima experiência. E essa

consideração, DÊMEAS, pode muito bem, penso eu, servir para

abater nossa má vontade para com essa seita humorística dos

céticos. Se eles estiverem completamente a sério, não

perturbarão o mundo por muito tempo com suas dúvidas,

cavilações e disputas; se estiverem apenas de brincadeira,

serão talvez maus zombeteiros, mas não poderão nunca ser

muito perigosos, quer para o Estado, para a filosofia ou para a

religião.

6. “Na realidade, FILÃO,” continuou ele, “parece certo que embora

um homem, numa descarga de humor depois de intensa

reflexão sobre as muitas contradições e imperfeições da razão

humana, possa renunciar inteiramente a toda crença e opinião,

é impossível para ele perseverar nesse ceticismo total ou fazê-

lo aparecer em sua conduta por umas poucas horas. Objetos

externos o pressionam, paixões o solicitam: sua melancolia

filosófica se dissipa, e mesmo a violência mais extrema sobre

sua índole não será capaz, durante algum tempo, de preservar

a pobre aparência de ceticismo. E por que razão impor a si

próprio tal violência? Este é um ponto em que lhe será

impossível satisfazer a si próprio de maneira consistente com

os seus princípios céticos; então, pelo conjunto, nada pode ser

mais ridículo do que os princípios dos antigos PIRRÔNICOS, se

eles realmente tentaram, como se pretende, prolongar o mesmo

ceticismo que aprenderam pelas declamações de sua escola e

que devem ter confinado a ela.

7. “Neste aspecto, surge uma grande semelhança entre a seita

dos ESTOICOS e a dos PIRRÔNICOS, embora sejam

antagonistas perpétuos: ambos parecem fundados nessa

máxima errônea de que o que um homem pode executar

algumas vezes e em algumas disposições, ele pode executar

sempre e em qualquer disposição. Quando a mente, por

reflexões estoicas, é elevada a um sublime entusiasmo de

virtude e é fortemente atingida por alguma 3 espécie de honra

ou bem público, a dor e o sofrimento físico mais extremos não

prevalecerão sobre tal senso elevado de dever; e é possível,

talvez, por meio disso, até sorrir e exultar em meio a torturas.

Se esse algumas vezes pode ser o caso em fato e realidade,

pode muito mais um filósofo, em sua escola ou até em seu

gabinete, estimular-se a si próprio para um tal entusiasmo e

suportar em imaginação a dor mais aguda ou o evento mais

calamitoso que lhe seja possível conceber. Mas como poderá

suportar esse próprio entusiasmo? O pendor de sua mente

relaxa e não pode ser chamado de volta para o prazer:

distrações o extraviam, infortúnios o atacam inesperadamente,

e o filósofo afunda gradualmente até o plebeu.”

8. “Admito a tua comparação entre os ESTOICOS e os

CÉTICOS”, replicou FILÃO. “Mas podes ao mesmo tempo

observar que embora a mente não seja capaz, no estoicismo,

suportar os voos mais altos da filosofia, ainda continua a reter

algo de sua disposição anterior mesmo quando ela se

aprofunda mais – e os efeitos do raciocínio estoico aparecerão

em sua conduta na vida comum e através de todo o teor de

suas ações. As antigas escolas, particularmente aquela de

ZENÃO, produziram exemplos de virtude e constância que

parecem espantosos aos tempos presentes.

 

Falsa filosofia, estéril ciência,

Contudo esses precitos miserandos

Conseguem por magia deleitosa

Algum tempo abrandar a dor, a angústia;

Embalam-se em falazes esperanças

E, como de aço tríplice, guarnecem

De inflexível paciência os peitos duros.4

 

Numa maneira semelhante, se um homem se acostumou a

considerações céticas sobre a incerteza e os limites estreitos da razão, não as esquecerá inteiramente quando voltar suas reflexões para outros assuntos, mas em todos os seus princípios filosóficos e raciocínios, não ouso dizer em sua conduta comum, será tido por diferente daqueles que não formaram opinião alguma sobre o caso ou que entretiveram opiniões mais favoráveis à razão humana.

 

9. “Para qualquer extensão que qualquer homem possa levar seus

princípios especulativos de ceticismo, ele terá que agir,

reconheço, e viver e conversar como os outros, e para essa

conduta não é obrigado a dar qualquer outra razão que não a

absoluta necessidade sob a qual jaz de fazê-lo assim. Se ele

alguma vez leva suas especulações para mais longe do que

essa necessidade o força, e filosofa quer sobre assuntos

morais, quer naturais, é seduzido por certo prazer e satisfação

que encontra em se empregar dessa maneira. Ele considera

ainda que todos, mesmo na vida comum, são forçados a ter

mais ou menos essa filosofia; que desde a nossa mais precoce

infância fazemos avanços contínuos ao formarmos princípios

mais gerais de conduta e raciocínio; que quanto mais larga a

experiência que adquirimos e mais forte a razão da qual somos

dotados, sempre tornaremos nossos princípios mais gerais e

compreensivos – e isso que chamamos de ‘filosofia’ não é nada

senão uma operação mais regular e metódica do mesmo tipo.

Filosofar sobre tais assuntos não é nada essencialmente

diferente de raciocinar sobre a vida comum, e podemos apenas

esperar maior estabilidade, se não maior verdade, de nossa

filosofia na descrição de seu método de procedimento mais

exato e escrupuloso.

10. “Mas quando olhamos além das questões humanas e as

propriedades dos corpos ao redor, quando carregamos nossas

especulações para ambas as eternidades, antes e depois do

estado de coisas presente – para criação e formação do

universo, a existência e propriedades de espíritos, os poderes e

operações dum espírito universal existente sem início e sem

fim, onipotente, onisciente, imutável, infinito e incompreensível

–, precisamos estar bem afastados até da mais ínfima

tendência de ceticismo para não ficarmos apreensivos por

termos ido muito além do alcance de nossas faculdades.

Enquanto confinamos nossas especulações a negócios, moral,

política ou crítica, apelamos a todo momento ao senso comum

e à experiência, que fortalecem nossas conclusões filosóficas e

removem (ao menos em parte) a suspeita que tão justamente

entretemos com relação a todo raciocínio que é muito sutil e

refinado. Mas em raciocínios teológicos não temos essa

vantagem, enquanto ao mesmo tempo estamos ocupados com

objetos que, temos de estar cônscios, são grandes demais para

o nosso alcance e, de todos os outros, são os que mais

requerem que estejam familiarizados à nossa apreensão.

Somos como forasteiros num país estranho, aos quais tudo tem

de parecer suspeito e que estão em perigo a cada momento de

transgredir as leis e costumes do povo com o qual eles vivem e

conversam. Não sabemos até onde podemos confiar em

nossos métodos vulgares de raciocínio em tal assunto, uma vez

que, mesmo na vida comum e naquela província que lhes é

peculiarmente apropriada, não podemos descrevê-los e somos

guiados por um tipo de instinto ou necessidade ao empregá-los.

11. “Todos os céticos pretendem que, se a razão for considerada

num aspecto abstrato, fornece argumentos invencíveis contra si

própria; e que não poderíamos reter jamais qualquer convicção

e segurança sobre qualquer assunto, não fossem os raciocínios

céticos tão refinados e sutis que não são capazes de contrapor-

se aos argumentos mais sólidos e naturais derivados dos

sentidos e da experiência. Mas é evidente, sempre que nossos

argumentos perdem essa vantagem e corremos para longe da

vida comum, que o mais refinado ceticismo passa a estar em pé

de igualdade com eles e é capaz de se lhes opor e

contrabalancear. Um não tem mais peso do que o outro. A

mente tem que permanecer em suspense entre ambos, e é bem

nesse suspense ou balanço que está o triunfo do ceticismo.” 12. “Mas observo”, diz CLEANTES, “a teu respeito, FILÃO, e de

todos os céticos especulativos, que vossa doutrina e prática

variam tanto nos pontos mais abstrusos de teoria quanto na

conduta da vida comum. Sempre que uma evidência se

desvela, aderis-lhe malgrado vosso pretenso ceticismo; e posso

observar também alguns de vossa seita serem tão decisivos

quanto aqueles que fazem as maiores profissões de certeza e

segurança. Na realidade, não pareceria ridículo um homem que

pretendesse rejeitar a explicação de NEWTON para os

maravilhosos fenômenos do arco-íris porque essa explicação

dá uma anatomia minuciosa dos raios de luz, um assunto de

fato refinado demais para a compreensão humana? E o que

dirias a alguém que, nada tendo em particular para objetar aos

argumentos de COPÉRNICO e GALILEU para o movimento da

terra, houvesse de recusar seu assentimento, fundando-se

nesse princípio geral de que tais assuntos são magníficos e

remotos demais para serem explicados pela estreita e falaz

razão do gênero humano?

13. “Há de fato um tipo de ceticismo bruto e ignorante, como bem

observaste, que dá aos homens vulgares um preconceito contra

aquilo que eles não entendem facilmente e os faz rejeitar todo

princípio que requer raciocínio elaborado para ser provado e

estabelecido. Esta espécie de ceticismo é fatal para o

conhecimento; não para a religião, porquanto vemos que

aqueles que fazem a sua maior profissão dão frequentemente

seus assentimentos não apenas às grandes verdades do

teísmo e da teologia natural, mas mesmo aos preceitos mais

absurdos que certa superstição5 tradicional lhes recomendou.

Creem firmemente em bruxas, embora não creiam ou escutem

a mais simples proposição de EUCLIDES. Mas os céticos

refinados e filosóficos caem numa inconsistência de natureza

oposta. Levam suas investigações para os cantos mais

abstrusos da ciência, e seu assentimento os acompanha a cada

passo, proporcionado à evidência que encontram. São

obrigados até mesmo a reconhecer que os objetos mais

abstrusos e remotos são os que se explicam melhor pela

filosofia 6. A luz está na realidade anatomizada; o verdadeiro

sistema dos corpos celestes está descoberto e averiguado. Mas

a nutrição dos corpos por comida está ainda um mistério

inexplicável; a aderência mútua das partes da matéria está

ainda incompreensível. Esses céticos, portanto, são obrigados

em toda questão a considerar cada evidência particular à parte

e a proporcionar seu assentimento ao grau preciso de evidência

que ocorre. Esta é sua prática em todas as ciências naturais,

matemáticas, morais e políticas. E por que não a mesma,

pergunto, na teológica e religiosa? Por que devem as

conclusões apenas dessa natureza ser rejeitadas sob a

presunção geral da insuficiência da razão humana sem

qualquer discussão particular da evidência? Não é tal conduta

desigual uma prova clara de preconceito e paixão? 14. “Nossos sentidos, dizes, são falazes; nosso entendimento,

errôneo; nossas ideias, mesmo dos objetos mais familiares, 17. “E aqui podemos observar”, continuou ele voltando-se para

extensão, duração, movimento, cheias de absurdos e

contradições. Desafias-me a dissolver as dificuldades ou

reconciliar as incompatibilidades que descobres nelas. Não

tenho capacidade para tal empreendimento, não tenho

ociosidade para isso, percebo que isso é supérfluo. Tua própria

conduta em toda circunstância refuta teus princípios e mostra a

mais firme confiança em todas as máximas recebidas da

ciência, moral, prudência e comportamento. 15. “Jamais hei de assentir a uma opinião tão severa como aquela

dum célebre escritor* que diz que os céticos não são uma seita

de filósofos, são uma seita de mentirosos. Eu posso, no

entanto, afirmar (espero que sem ofensa) que eles são uma

seita de bufões ou zombeteiros. Mas por minha parte, sempre

que me acho disposto a alegria e divertimento, devo certamente

escolher meu entretenimento de uma natureza menos

estupefaciente e abstrusa. Uma comédia, uma novela ou

quando muito uma História, parece uma recreação mais natural

do que tais sutilezas e abstrações metafísicas.

16. “Em vão o cético faria uma distinção entre ciência e vida

comum ou entre uma ciência e outra. Os argumentos

empregados em todas, se justos, são de uma natureza similar e

contêm a mesma força e evidência. Ou, se houver uma

diferença entre eles, a vantagem repousa inteiramente no lado

da teologia e religião natural. Muitos princípios da mecânica são

fundados em raciocínios bem abstrusos, ainda assim nenhum

homem que tenha pretensões de ciência e mesmo nenhum

cético especulativo pretende entreter a mais ínfima dúvida a

seu respeito. O sistema COPERNICANO contém o paradoxo

mais surpreendente e o mais contrário às nossas concepções

naturais, às aparências e aos nossos próprios sentidos: até

monges e inquisidores são agora obrigados a remover sua

oposição a ele. E deveria FILÃO, um homem de gênio tão

liberal e de conhecimento tão extenso, entreter quaisquer

escrúpulos gerais indistintos a respeito da hipótese religiosa,

que está fundada sobre os argumentos mais simples e óbvios

e, a menos que encontre obstáculos artificiosos, tem tal acesso

fácil e admissão na mente do homem?

DÊMEAS, “uma circunstância bem curiosa na história das

ciências. Depois da união da filosofia à religião popular, sobre o

primeiro estabelecimento da cristandade, nada era mais usual

entre todos os professores religiosos do que declamações

contra a razão, contra os sentidos e contra qualquer princípio

derivado meramente de pesquisas e investigações humanas.

Todos os tópicos dos antigos acadêmicos 7 foram adotados

pelos Padres da Igreja e aí propagados para várias eras em

toda escola e púlpito através da cristandade. Os Reformadores

abraçaram os mesmos princípios de raciocínio, ou antes

declamação, e todos os panegíricos sobre a excelência da fé

foram seguramente interpolados com alguns ataques severos

de sátiras contra a razão natural. Um célebre prelado também *,

da comunhão romana, um homem do mais extenso estudo que

escreveu uma demonstração do cristianismo, compôs ainda um

tratado que contém as cavilações do PIRRONISMO mais

audacioso e determinado. LOCKE parece ter sido o primeiro

cristão que se aventurou a declarar abertamente que fé não é

nada senão uma espécie de razão, que religião era apenas um

ramo da filosofia e que uma cadeia de argumentos similar

àquela que estabeleceu qualquer verdade em moral, política ou

física foi sempre empregada ao descobrir todos os princípios de

teologia natural e revelada. O mau uso que BAYLE e outros

libertinos fizeram do ceticismo filosófico dos Padres da Igreja e

dos primeiros Reformadores propagou ainda mais a judiciosa

opinião do Sr. LOCKE – e é agora, de certo modo, reconhecido

por todos os aspirantes ao raciocínio e à filosofia que ateu e

cético são quase sinônimos. E é certo que homem algum está a

sério quando professa este último princípio, e eu alegremente

esperaria que houvesse poucos que seriamente professam

aquele primeiro.”

18. “Não te lembras”, disse FILÃO, “dos excelentes dizeres de

Lorde BACON sobre isso?” “Que um pouco de filosofia” replicou

CLEANTES, “faz do homem ateu; um grande bocado converte-

o à religião.” “Esta é uma observação muito judiciosa também”,

disse FILÃO. “Mas o que tenho em vista é outra passagem,

onde, tendo mencionado o tolo de DAVI que disse que em seu

coração não havia nenhum Deus, esse grande filósofo observa

que os ateus de hoje têm um quinhão duplo de tolice por, não

contentes em dizerem que em seus corações não há nenhum

Deus, também pronunciam essa impiedade com seus lábios e

são, por isso, culpados de indiscrições e imprudências

multiplicadas. Tais pessoas, embora estejam sempre tão a

sério, não podem, creio eu, ser muito temíveis. 19. “Mas embora possas me considerar dentro dessa classe de

tolos, não posso evitar comunicar uma observação que me

ocorre da história do ceticismo religioso e irreligioso com a qual

nos entretiveste. Parece-me que há sintomas fortes de

padrismo em todo o progresso dessa questão. Durante eras

ignorantes, tais como as que seguiram a dissolução das antigas

escolas, os padres perceberam que ateísmo, deísmo ou heresia

de qualquer tipo poderiam proceder apenas do questionamento

presunçoso de opiniões recebidas e duma crença de que a

razão humana era igual a tudo. A educação tinha então uma

influência poderosa sobre as mentes dos homens e era quase

igual em força àquelas sugestões dos sentidos e entendimento

comum pelo qual o mais determinado cético deve permitir a si

próprio ser governado. Mas no presente, quando a influência da

educação diminuiu muito e os homens, por um comércio aberto

com o mundo, aprenderam a comparar os princípios populares

de nações e eras diferentes, nossos sagazes teólogos

mudaram todo o seu sistema de filosofia e falaram a linguagem

dos ESTOICOS, PLATÔNICOS e PERIPATÉTICOS, não aquela

dos PIRRÔNICOS e ACADÊMICOS. Se desacreditarmos a

razão humana, não teremos mais princípio algum para nos

levar à religião. Assim, céticos numa era, dogmáticos noutra,

qualquer que seja o sistema que melhor sirva ao propósito

desses cavalheiros reverendos 8 de dar-lhes uma ascendência

sobre a humanidade, têm certeza de fazê-lo o seu sistema

favorito e estabelecer o preceito.”

20. “É muito natural”, disse CLEANTES, “para os homens abraçar

os princípios pelos quais eles podem melhor defender suas

doutrinas e não têm que ter recurso a nenhum padrismo para

dar conta de expediente tão razoável. E certamente nada pode

conferir uma presunção mais forte de que uma série de

princípios seja verdadeira e deva ser abraçada do que observar

que ela tende à confirmação da verdadeira religião e serve para

confundir as cavilações dos ateus, libertinos e livres-

pensadores de toda denominação.”