Diálogos sobre a religião natural
Parte VIII
1. “O que atribuis à fertilidade de minha invenção”, replicou FILÃO,
“se deve inteiramente à natureza do assunto. Em assuntos
apropriados para o âmbito estreito da razão humana, é comum
haver apenas uma determinação dotada de probabilidade ou
convicção, e a um homem de juízo são, todas as outras
suposições que não aquela parecem de todo absurdas e
quiméricas. Mas em questões tais como a presente, uma
centena de visões contraditórias pode preservar um tipo de
analogia imperfeita, e a invenção tem aqui pleno alcance para
atuar. Sem qualquer grande esforço de pensamento, creio que
pude num instante propor outros sistemas de cosmogonia que
teriam alguma tênue aparência de verdade, embora seja de mil,
de um milhão para um, se o teu ou algum dos meus for o
verdadeiro sistema.
2. “Por exemplo: e se eu quiser reviver a velha hipótese
EPICURISTA? É comumente e, creio, com justeza, estimado o
sistema mais absurdo jamais proposto; ainda assim, não sei se
com poucas alterações ele não pode ser trazido para uma
tênue aparência de probabilidade. Ao invés de supor a matéria
infinita, como EPICURO fez, suponhamo-la finita. Um número
finito de partículas é suscetível apenas a transposições finitas; e
tem de acontecer, numa duração eterna, que cada ordem ou
posição possíveis sejam tentadas num número infinito de
vezes. Este mundo, portanto, com todos os seus eventos,
mesmo os mais diminutos, foi antes produzido e destruído, e
será novamente produzido e destruído sem quaisquer
impedimentos ou limitações. Ninguém que tenha uma
concepção dos poderes do infinito em comparação ao finito
jamais terá escrúpulos para esta determinação.”
3. “Mas isto supõe”, disse DÊMEAS, “que a matéria pode adquirir
movimento sem qualquer agente ou motor voluntários.”
4. “E onde está a dificuldade”, replicou FILÃO, “desta suposição?
Todo evento antes da experiência é igualmente difícil e
incompreensível, e cada evento depois da experiência é
igualmente fácil e inteligível. O movimento, em vários exemplos
– pela gravidade, pela elasticidade, pela eletricidade –, começa
na matéria sem qualquer agente voluntário conhecido, e supor
sempre nestes casos um agente voluntário desconhecido é
mera hipótese, e hipótese acompanhada de nenhuma
vantagem. O começo do movimento na própria matéria é a
priori tão concebível quanto sua comunicação por mente e
inteligência.
5. “Ademais, por que o movimento não poderá ter se propagado
por impulso através de toda a eternidade e o mesmo estoque,
ou quase o mesmo, se preservado ainda no universo? Tanto
quanto é perdido pela composição do movimento é ganho pela
sua decomposição. E quaisquer que sejam as causas, o fato é
certo: a matéria sempre está e sempre esteve em agitação
contínua até onde a experiência ou tradição humanas
alcançam. Provavelmente agora não há no universo inteiro uma
única partícula de matéria em repouso absoluto.
6. “E também essa própria consideração,” continuou FILÃO, “com
a qual nos esbarramos no curso do argumento, sugere uma
nova espécie de cosmogonia que não é absolutamente absurda
e improvável. Haverá um sistema, uma ordem, uma economia
de coisas pela qual a matéria possa preservar essa agitação
perpétua que lhe parece essencial e ainda mantenha uma
constância nas formas que produz? Decerto há tal economia,
pois este de fato é o caso do mundo presente. O movimento
contínuo da matéria, portanto, em transposições menos do que
infinitas, tem que produzir esta economia ou ordem, e por sua
própria natureza essa ordem, quando uma vez estabelecida,
sustenta a si própria por muitas eras, se não pela eternidade.
Mas onde quer que a matéria seja equilibrada, arranjada e
ajustada assim, de modo a continuar em movimento e ainda
preservar constância em suas formas, sua situação tem
necessariamente que ter a mesmíssima aparência de arte e
engenho que ora observamos. Todas as partes de cada forma
têm de ter uma relação com cada outra e com o todo – e o
próprio todo tem de ter uma relação com as outras partes do
universo: com o elemento em cuja forma subsiste, com os
materiais com os quais repara sua perda e deterioração, e com
toda outra forma à qual é hostil ou amigável. Um defeito em
quaisquer desses particulares destrói a forma, e a matéria da
qual ela era composta é novamente solta e lançada em
movimentos e fermentações irregulares até unir se novamente
nalguma outra forma regular. Se nenhuma forma tal puder se
preparar para recebê-la, e se houver uma grande quantidade
dessa matéria corrupta no universo, o próprio universo fica
inteiramente desordenado: quer seja o embrião frágil de um
mundo em seus primeiros começos, quer seja uma carcaça
podre de um mundo se debilitando na velhice e na doença,
destrói-se desse modo. Em ambos os casos, segue-se um caos
até que revoluções finitas porém inumeráveis produzam ao
cabo algumas formas cujas partes e órgãos sejam ajustados de
modo a sustentarem-nas em meio a uma sucessão contínua de
matéria.
7. 23 “Supõe (pois devemos tentar variar a expressão) que a
matéria seja lançada em qualquer posição por uma força cega,
sem guia: é evidente que esta primeira posição deve ser, com
toda probabilidade, a mais confusa e desordeira que se possa
imaginar, desprovida de qualquer semelhança com trabalhos do
engenho humano, que encontra, com a simetria das partes, um
ajuste de meios a fins e uma tendência à autopreservação. Se a
força atuante cessar depois dessa operação, a matéria haverá
de permanecer para sempre em desordem e continuar num
caos imenso, sem proporção ou atividade. Mas supõe que a
força atuante, qualquer que seja, ainda continue na matéria:
essa primeira posição imediatamente dará lugar a uma
segunda, que com toda probabilidade será tão desordeira
quanto a primeira, e assim por diante, através de muitas
sucessões de mudanças e revoluções. Nenhuma ordem ou
posição particular jamais permanece por um momento
inalterada. A força original, ainda permanecendo em atividade,
dá uma incansabilidade perpétua à matéria. Toda situação
possível é produzida e instantaneamente destruída. Se um
vislumbre ou raiar de ordem aparece por um momento, é
instantaneamente tragado para longe e confundido por essa
força incessante que move cada parte da matéria.
8. “Assim o universo prosseguirá por muitas eras numa sucessão
contínua de caos e desordem. Mas não é possível que ele se
estabeleça por fim, de modo não a perder seu movimento e
força ativa (pois a supusemos inerente a ele), mas a preservar
uma uniformidade de aparência em meio ao movimento e
flutuação contínuos de suas partes? Isto descobrimos ser o
caso no universo agora: cada individuo está mudando
perpetuamente, e toda parte de todo indivíduo, e o todo, em sua
aparência, ainda permanece o mesmo. Não poderemos esperar
tal posição, ou antes nos assegurar dela, a partir das
revoluções eternas da matéria sem guia?, e isto não poderá dar
conta de toda a sabedoria e engenho aparentes que estão no
universo? Contemplemos o assunto um pouco e havemos de
descobrir que esse ajuste de estabilidade aparente nas formas,
se alcançado pela matéria com uma revolução de movimento
real e perpétua das partes, fornece para a dificuldade uma
solução possível, se não verdadeira.
9. “É vão, portanto, insistir nos usos das partes em animais e
vegetais, e no seu curioso ajuste mútuo. Eu gostaria de saber
como um animal poderia subsistir se suas partes não fossem
bem ajustadas. Não descobrimos que ele perece
imediatamente sempre que esse ajuste cessa e que sua
matéria ao corromper-se tenta uma nova forma? Acontece, de
fato, que as partes do mundo são tão bem ajustadas, que
alguma forma regular reivindica imediatamente essa matéria
corrompida. E se não fosse assim, o mundo poderia subsistir?
Não teria que se dissolver tanto quanto um animal e passar por
novas posições e situações, até por uma sucessão grande
porém finita cair enfim na presente ordem ou nalguma outra?”24 10. “Ainda bem que”, disse CLEANTES, “como nos disseste, esta
hipótese foi sugerida de repente, no curso do argumento.
Tivesses tido vagar para examiná-la, terias percebido logo as
objeções insuperáveis às quais ela está exposta. Nenhuma
forma, dizes, pode subsistir, a menos que possua aqueles
poderes e órgãos necessários para a sua subsistência. Alguma
nova ordem ou economia deve ser tentada daí em diante, sem
qualquer intervalo, até que surja ao cabo alguma ordem que
possa se sustentar e manter. Mas, de acordo com esta
hipótese, donde surgem as muitas conveniências e vantagens
que os homens e todos os animais possuem? Dois olhos, dois
ouvidos não são absolutamente necessários para a
subsistência da espécie. A raça humana poderia ser propagada
e preservada sem cavalos, cães, vacas, ovelhas e esses
inumeráveis frutos e produtos que servem à nossa satisfação e
diversão. Se nenhum camelo fosse criado para o uso do
homem nos desertos arenosos da ÁFRICA e ARÁBIA, o mundo
teria sido dissolvido? Se nenhum ímã tivesse sido forjado para
dar à agulha essa direção maravilhosa e útil, a sociedade e o
gênero humanos teriam sido imediatamente extintos? Embora
as máximas da natureza sejam no geral bem frugais, exemplos
desse tipo ainda estão longe de ser raros, e qualquer um deles
é prova suficiente de desígnio, e dum desígnio benevolente que
deu origem à ordem e arranjo do universo.”
11. “Ao menos podes inferir com segurança”, disse FILÃO, “que a
hipótese anterior está até agora incompleta e imperfeita, o que
não devo ter escrúpulos em admitir. Mas acaso podemos, com
razoabilidade, esperar sucesso maior nalguma tentativa desta
natureza? Ou podemos acaso esperar erigir um sistema de
cosmogonia que não será propenso a nenhuma exceção e não
conterá nenhuma circunstância repugnante à nossa experiência
imperfeita e limitada da analogia da natureza? Tua própria
teoria não pode pretender ter com segurança qualquer
vantagem – mesmo que tenhas corrido para o antropomorfismo,
o melhor para preservar uma conformidade à experiência
comum. Então levemos mais uma vez a julgamento isto: ‘Em
todos os exemplos que vimos, ideias são copiadas de objetos
reais; e são éctipos25, não arquétipos’, para expressar-me em
termos eruditos. Invertes esta ordem e dás ao pensamento a
precedência. Em todos os exemplos que já vimos, o
pensamento não tem nenhuma influência sobre a matéria,
exceto quando esta lhe é conjugada de modo a ter uma
influência igual recíproca sobre aquele. Nenhum animal pode
mover imediatamente outra coisa que não os membros do seu
próprio corpo; e, de fato, a igualdade entre ação e reação
parece ser uma lei universal da natureza. Mas a tua teoria
implica uma contradição a esta experiência. Tais exemplos,
juntos a muitos outros que são facilmente coletados
(particularmente a suposição duma mente ou sistema de
pensamento que é eterno ou, noutras palavras, um animal
inengendrável e imortal), estes exemplos, digo, podem nos
ensinar a todos nós a sobriedade ao condenarmos um ao outro,
e nos deixam ver que, como nenhum sistema deste tipo jamais
deve ser recebido duma analogia tênue, tampouco deve ser
rejeitado por ter uma pequena incongruência. Pois esta é uma
inconveniência da qual, podemos com justeza declarar,
ninguém está isento.
12. “Todos os sistemas religiosos, confessa-se, estão sujeitos a
dificuldades grandes e insuperáveis. Cada disputante triunfa a
seu turno, quando leva adiante uma guerra ofensiva e expõe os
absurdos, barbaridades e preceitos perniciosos do antagonista.
Mas todos eles, em conjunto, preparam um triunfo completo
para o cético, que lhes diz que não se deve abraçar nenhum
sistema a respeito desses assuntos, por esta razão simples:
não se deve jamais assentir a absurdo algum a respeito de
qualquer assunto. Uma suspensão total de juízo é aqui o nosso
único recurso razoável. E se todo ataque, como comumente se
observa, e nenhuma defesa entre teólogos tem sucesso, o quão
completa não tem que ser a vitória daquele, que permanece
sempre, com toda a humanidade, na ofensiva, e que não tem
ele próprio um posto fixo ou cidade em que more, a que esteja
sempre, em qualquer ocasião, obrigado a defender?”