Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 10 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

Parte VIII

 

 

1. “O que atribuis à fertilidade de minha invenção”, replicou FILÃO,

“se deve inteiramente à natureza do assunto. Em assuntos

apropriados para o âmbito estreito da razão humana, é comum

haver apenas uma determinação dotada de probabilidade ou

convicção, e a um homem de juízo são, todas as outras

suposições que não aquela parecem de todo absurdas e

quiméricas. Mas em questões tais como a presente, uma

centena de visões contraditórias pode preservar um tipo de

analogia imperfeita, e a invenção tem aqui pleno alcance para

atuar. Sem qualquer grande esforço de pensamento, creio que

pude num instante propor outros sistemas de cosmogonia que

teriam alguma tênue aparência de verdade, embora seja de mil,

de um milhão para um, se o teu ou algum dos meus for o

verdadeiro sistema.

2. “Por exemplo: e se eu quiser reviver a velha hipótese

EPICURISTA? É comumente e, creio, com justeza, estimado o

sistema mais absurdo jamais proposto; ainda assim, não sei se

com poucas alterações ele não pode ser trazido para uma

tênue aparência de probabilidade. Ao invés de supor a matéria

infinita, como EPICURO fez, suponhamo-la finita. Um número

finito de partículas é suscetível apenas a transposições finitas; e

tem de acontecer, numa duração eterna, que cada ordem ou

posição possíveis sejam tentadas num número infinito de

vezes. Este mundo, portanto, com todos os seus eventos,

mesmo os mais diminutos, foi antes produzido e destruído, e

será novamente produzido e destruído sem quaisquer

impedimentos ou limitações. Ninguém que tenha uma

concepção dos poderes do infinito em comparação ao finito

jamais terá escrúpulos para esta determinação.”

3. “Mas isto supõe”, disse DÊMEAS, “que a matéria pode adquirir

movimento sem qualquer agente ou motor voluntários.”

4. “E onde está a dificuldade”, replicou FILÃO, “desta suposição?

Todo evento antes da experiência é igualmente difícil e

incompreensível, e cada evento depois da experiência é

igualmente fácil e inteligível. O movimento, em vários exemplos

– pela gravidade, pela elasticidade, pela eletricidade –, começa

na matéria sem qualquer agente voluntário conhecido, e supor

sempre nestes casos um agente voluntário desconhecido é

mera hipótese, e hipótese acompanhada de nenhuma

vantagem. O começo do movimento na própria matéria é a

priori tão concebível quanto sua comunicação por mente e

inteligência.

5. “Ademais, por que o movimento não poderá ter se propagado

por impulso através de toda a eternidade e o mesmo estoque,

ou quase o mesmo, se preservado ainda no universo? Tanto

quanto é perdido pela composição do movimento é ganho pela

sua decomposição. E quaisquer que sejam as causas, o fato é

certo: a matéria sempre está e sempre esteve em agitação

contínua até onde a experiência ou tradição humanas

alcançam. Provavelmente agora não há no universo inteiro uma

única partícula de matéria em repouso absoluto.

6. “E também essa própria consideração,” continuou FILÃO, “com

a qual nos esbarramos no curso do argumento, sugere uma

nova espécie de cosmogonia que não é absolutamente absurda

e improvável. Haverá um sistema, uma ordem, uma economia

de coisas pela qual a matéria possa preservar essa agitação

perpétua que lhe parece essencial e ainda mantenha uma

constância nas formas que produz? Decerto há tal economia,

pois este de fato é o caso do mundo presente. O movimento

contínuo da matéria, portanto, em transposições menos do que

infinitas, tem que produzir esta economia ou ordem, e por sua

própria natureza essa ordem, quando uma vez estabelecida,

sustenta a si própria por muitas eras, se não pela eternidade.

Mas onde quer que a matéria seja equilibrada, arranjada e

ajustada assim, de modo a continuar em movimento e ainda

preservar constância em suas formas, sua situação tem

necessariamente que ter a mesmíssima aparência de arte e

engenho que ora observamos. Todas as partes de cada forma

têm de ter uma relação com cada outra e com o todo – e o

próprio todo tem de ter uma relação com as outras partes do

universo: com o elemento em cuja forma subsiste, com os

materiais com os quais repara sua perda e deterioração, e com

toda outra forma à qual é hostil ou amigável. Um defeito em

quaisquer desses particulares destrói a forma, e a matéria da

qual ela era composta é novamente solta e lançada em

movimentos e fermentações irregulares até unir se novamente

nalguma outra forma regular. Se nenhuma forma tal puder se

preparar para recebê-la, e se houver uma grande quantidade

dessa matéria corrupta no universo, o próprio universo fica

inteiramente desordenado: quer seja o embrião frágil de um

mundo em seus primeiros começos, quer seja uma carcaça

podre de um mundo se debilitando na velhice e na doença,

destrói-se desse modo. Em ambos os casos, segue-se um caos

até que revoluções finitas porém inumeráveis produzam ao

cabo algumas formas cujas partes e órgãos sejam ajustados de

modo a sustentarem-nas em meio a uma sucessão contínua de

matéria.

7. 23 “Supõe (pois devemos tentar variar a expressão) que a

matéria seja lançada em qualquer posição por uma força cega,

sem guia: é evidente que esta primeira posição deve ser, com

toda probabilidade, a mais confusa e desordeira que se possa

imaginar, desprovida de qualquer semelhança com trabalhos do

engenho humano, que encontra, com a simetria das partes, um

ajuste de meios a fins e uma tendência à autopreservação. Se a

força atuante cessar depois dessa operação, a matéria haverá

de permanecer para sempre em desordem e continuar num

caos imenso, sem proporção ou atividade. Mas supõe que a

força atuante, qualquer que seja, ainda continue na matéria:

essa primeira posição imediatamente dará lugar a uma

segunda, que com toda probabilidade será tão desordeira

quanto a primeira, e assim por diante, através de muitas

sucessões de mudanças e revoluções. Nenhuma ordem ou

posição particular jamais permanece por um momento

inalterada. A força original, ainda permanecendo em atividade,

dá uma incansabilidade perpétua à matéria. Toda situação

possível é produzida e instantaneamente destruída. Se um

vislumbre ou raiar de ordem aparece por um momento, é

instantaneamente tragado para longe e confundido por essa

força incessante que move cada parte da matéria.

8. “Assim o universo prosseguirá por muitas eras numa sucessão

contínua de caos e desordem. Mas não é possível que ele se

estabeleça por fim, de modo não a perder seu movimento e

força ativa (pois a supusemos inerente a ele), mas a preservar

uma uniformidade de aparência em meio ao movimento e

flutuação contínuos de suas partes? Isto descobrimos ser o

caso no universo agora: cada individuo está mudando

perpetuamente, e toda parte de todo indivíduo, e o todo, em sua

aparência, ainda permanece o mesmo. Não poderemos esperar

tal posição, ou antes nos assegurar dela, a partir das

revoluções eternas da matéria sem guia?, e isto não poderá dar

conta de toda a sabedoria e engenho aparentes que estão no

universo? Contemplemos o assunto um pouco e havemos de

descobrir que esse ajuste de estabilidade aparente nas formas,

se alcançado pela matéria com uma revolução de movimento

real e perpétua das partes, fornece para a dificuldade uma

solução possível, se não verdadeira.

9. “É vão, portanto, insistir nos usos das partes em animais e

vegetais, e no seu curioso ajuste mútuo. Eu gostaria de saber

como um animal poderia subsistir se suas partes não fossem

bem ajustadas. Não descobrimos que ele perece

imediatamente sempre que esse ajuste cessa e que sua

matéria ao corromper-se tenta uma nova forma? Acontece, de

fato, que as partes do mundo são tão bem ajustadas, que

alguma forma regular reivindica imediatamente essa matéria

corrompida. E se não fosse assim, o mundo poderia subsistir?

Não teria que se dissolver tanto quanto um animal e passar por

novas posições e situações, até por uma sucessão grande

porém finita cair enfim na presente ordem ou nalguma outra?”24 10. “Ainda bem que”, disse CLEANTES, “como nos disseste, esta

hipótese foi sugerida de repente, no curso do argumento.

Tivesses tido vagar para examiná-la, terias percebido logo as

objeções insuperáveis às quais ela está exposta. Nenhuma

forma, dizes, pode subsistir, a menos que possua aqueles

poderes e órgãos necessários para a sua subsistência. Alguma

nova ordem ou economia deve ser tentada daí em diante, sem

qualquer intervalo, até que surja ao cabo alguma ordem que

possa se sustentar e manter. Mas, de acordo com esta

hipótese, donde surgem as muitas conveniências e vantagens

que os homens e todos os animais possuem? Dois olhos, dois

ouvidos não são absolutamente necessários para a

subsistência da espécie. A raça humana poderia ser propagada

e preservada sem cavalos, cães, vacas, ovelhas e esses

inumeráveis frutos e produtos que servem à nossa satisfação e

diversão. Se nenhum camelo fosse criado para o uso do

homem nos desertos arenosos da ÁFRICA e ARÁBIA, o mundo

teria sido dissolvido? Se nenhum ímã tivesse sido forjado para

dar à agulha essa direção maravilhosa e útil, a sociedade e o

gênero humanos teriam sido imediatamente extintos? Embora

as máximas da natureza sejam no geral bem frugais, exemplos

desse tipo ainda estão longe de ser raros, e qualquer um deles

é prova suficiente de desígnio, e dum desígnio benevolente que

deu origem à ordem e arranjo do universo.”

11. “Ao menos podes inferir com segurança”, disse FILÃO, “que a

hipótese anterior está até agora incompleta e imperfeita, o que

não devo ter escrúpulos em admitir. Mas acaso podemos, com

razoabilidade, esperar sucesso maior nalguma tentativa desta

natureza? Ou podemos acaso esperar erigir um sistema de

cosmogonia que não será propenso a nenhuma exceção e não

conterá nenhuma circunstância repugnante à nossa experiência

imperfeita e limitada da analogia da natureza? Tua própria

teoria não pode pretender ter com segurança qualquer

vantagem – mesmo que tenhas corrido para o antropomorfismo,

o melhor para preservar uma conformidade à experiência

comum. Então levemos mais uma vez a julgamento isto: ‘Em

todos os exemplos que vimos, ideias são copiadas de objetos

reais; e são éctipos25, não arquétipos’, para expressar-me em

termos eruditos. Invertes esta ordem e dás ao pensamento a

precedência. Em todos os exemplos que já vimos, o

pensamento não tem nenhuma influência sobre a matéria,

exceto quando esta lhe é conjugada de modo a ter uma

influência igual recíproca sobre aquele. Nenhum animal pode

mover imediatamente outra coisa que não os membros do seu

próprio corpo; e, de fato, a igualdade entre ação e reação

parece ser uma lei universal da natureza. Mas a tua teoria

implica uma contradição a esta experiência. Tais exemplos,

juntos a muitos outros que são facilmente coletados

(particularmente a suposição duma mente ou sistema de

pensamento que é eterno ou, noutras palavras, um animal

inengendrável e imortal), estes exemplos, digo, podem nos

ensinar a todos nós a sobriedade ao condenarmos um ao outro,

e nos deixam ver que, como nenhum sistema deste tipo jamais

deve ser recebido duma analogia tênue, tampouco deve ser

rejeitado por ter uma pequena incongruência. Pois esta é uma

inconveniência da qual, podemos com justeza declarar,

ninguém está isento.

12. “Todos os sistemas religiosos, confessa-se, estão sujeitos a

dificuldades grandes e insuperáveis. Cada disputante triunfa a

seu turno, quando leva adiante uma guerra ofensiva e expõe os

absurdos, barbaridades e preceitos perniciosos do antagonista.

Mas todos eles, em conjunto, preparam um triunfo completo

para o cético, que lhes diz que não se deve abraçar nenhum

sistema a respeito desses assuntos, por esta razão simples:

não se deve jamais assentir a absurdo algum a respeito de

qualquer assunto. Uma suspensão total de juízo é aqui o nosso

único recurso razoável. E se todo ataque, como comumente se

observa, e nenhuma defesa entre teólogos tem sucesso, o quão

completa não tem que ser a vitória daquele, que permanece

sempre, com toda a humanidade, na ofensiva, e que não tem

ele próprio um posto fixo ou cidade em que more, a que esteja

sempre, em qualquer ocasião, obrigado a defender?”