Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 16 de 26

Páginas do PDF

Diálogos sobre a religião natural

II. Carta a Gilbert Elliot de Minto

Agora, digno e honorável Senhor, se fordes o instrumento do

Senhor em seu empreendimento sagrado, eu, por meio deste, vos prometo em meu próprio nome e no de todos os meus confrades que, aquele entre nós a quem o Senhor abençoar com a confortável tarefa de fazer-vos a última obra em nosso poder, o fará tão cuidadosamente que nunca achareis razão para queixar-vos.

Sou,

Honrado e digno senhor,

Vosso amigo e servo no Senhor,

ZOROBABEL M’GILCHRIST,

Sacristão de Buckhaven.

 

II. Carta a Gilbert Elliot de Minto

 

(L, v. I, p. 153-7)

 

Caro senhor,

Perceberias pela amostra que te dei que faço de Cleantes o herói

do Diálogo. O que quer que consigas pensar para fortalecer esse lado do argumento ser-me-á muitíssimo bem-vindo. Qualquer propensão que imagines que eu tenha para o outro lado desmoronou contra a minha vontade – e não foi há muito que queimei um livro manuscrito feito antes dos meus vinte anos, o qual continha, página após página, o progresso gradual dos meus pensamentos sobre este tópico. Começava com uma busca ansiosa por argumentos para confirmar a opinião comum – dúvidas se introduziram, se dissiparam, voltaram, dissiparam-se de novo, e era uma luta perpétua duma imaginação incansável contra a inclinação, talvez até contra a razão.

Amiúde pensei que o melhor jeito de compor um diálogo seria

duas pessoas de opiniões diferentes sobre alguma questão de importância escreverem alternativamente as diferentes partes do discurso e replicarem uma à outra. Por este meio evitar-se-ia aquele

erro vulgar de se pôr apenas nonsense na boca do adversário 58, e ao mesmo tempo uma diversidade de caráter e gênio, sendo preservada, faria o conjunto parecer mais natural e menos afetado. Tivesse eu a boa fortuna de viver perto de ti, teria tomado para mim o caráter de Filão no Diálogo, o qual reconhecerás que eu poderia ter sustentado com bastante naturalidade – e tu não serias avesso ao de Cleantes. Acredito, também, que poderíamos os dois ter mantido nossa calma muito bem; bastaria não teres alcançado uma

indiferença filosófica absoluta nestes assuntos. 59 Que perigo pode vir de raciocínio e investigação engenhosos? O pior cético especulativo que já conheci foi um homem muito melhor do que o melhor devoto e carola supersticioso. Devo informar-te, também, que esta era a maneira de pensar dos antigos neste assunto. Se um homem fez profissão de filosofia, qualquer que fosse sua seita, eles sempre esperavam encontrar mais regularidade em sua vida e maneiras do que nas dos ignorantes e iletrados. Há uma passagem notável de Apiano a este propósito: este historiador informa que, não obstante o estabelecido preconceito a favor da boa instrução, ainda assim alguns filósofos aos quais foi confiado poder absoluto abusaram muito deste; e ele se baseia muito em Crítias, o mais violento dos Trinta, e em Aristão, que governou Atenas no tempo de Silas. No entanto descubro, com base em investigação, que Crítias era um ateu professo; e Aristão, um epicurista – o que era pouco ou nada diferente. E ainda assim Apiano se espanta com sua corrupção tanto quanto se eles tivessem sido estoicos ou platônicos. Um zelote moderno teria pensado que essa corrupção era inevitável.

Eu queria que o argumento de Cleantes fosse analisado de modo

a tornar-se bem formal e regular. A propensão da mente em direção a ele, a menos que essa propensão seja tão forte e universal quanto a de acreditar em nossos sentidos e experiências, ainda será, receio, estimada uma fundamentação suspeita. É aqui que desejo a

tua assistência: temos60 de tentar provar que essa propensão é dalguma maneira diferente da nossa inclinação de achar nossas próprias figuras nas nuvens, nossa face na lua, nossas paixões e sentimentos até em matéria inanimada. Tal inclinação pode e deve ser controlada, e jamais poderá ser um fundamento legítimo para o assentimento.

Os exemplos que escolhi para Cleantes são, espero,

toleravelmente felizes, e a confusão em que represento o cético

parece natural. Mas si quid novisti rectius, etc. 61

Perguntas-me: “Se a ideia de causa e efeito é apenas vizinhança”

(deverias ter dito vizinhança constante ou conjunção regular) “eu saberia de bom grado donde vem essa ideia longínqua de causação contra a qual argumentas.” Esta questão é pertinente, mas espero tê-la respondido. Sentimos, após a conjunção constante, uma transição fácil duma ideia para a outra, ou uma conexão na imaginação. E, como nos é usual transferir nossos próprios sentimentos para os objetos dos quais eles são dependentes, atrelamos o sentimento interno aos objetos externos. Se nenhum dos exemplos de causa e efeito parece ter qualquer conexão, mas apenas similares repetidos, achar-te-ás obrigado a ter recurso a esta teoria.

Lamento que nossa correspondência nos leve a estas

especulações abstratas. Pensei, li e compus muito pouco sobre tais questões ultimamente. Ética, política e literatura empregam todo o meu tempo, mas ainda tenho de achar os outros tópicos mais curiosos, importantes e úteis do que qualquer geometria que seja mais profunda que Euclides. Se, para responder às dúvidas levantadas, novos princípios de filosofia têm que ser lançados, essas dúvidas não serão elas próprias muito úteis? Não serão preferíveis ao assentimento cego e ignorante? Espero poder responder às minhas próprias dúvidas: mas, e se eu não puder, o que há de admirar nisto? Para dar fôlego a mim mesmo e falar magnificente, acaso não poderei observar que Colombo não conquistou impérios nem implantou colônias?

Se não desembaracei o nó tão bem nesses últimos papéis que te

enviei, como talvez o tenha feito no mais recente, asseguro-te que isto não procedeu de falta de boa-vontade. Mas alguns assuntos são mais fáceis do que outros; nalgumas vezes, é-se mais feliz nas pesquisas e investigações do que noutras. Ainda tenho recurso ao si quid novisti rectius. Não a fim de fazer-te um elogio, mas sim por uma dúvida ou curiosidade real filosófica.

Não faço elogios porque não os desejo. Por esta razão, agradame

muito teres falado tão friamente da minha Petição. Não obstante, dei ordens para que ela fosse impressa, as quais talvez sejam executadas – embora eu creia que talvez tivesse feito melhor em abandoná-la. Não porque ela causará ofensa, mas porque não dará entretenimento; não porque ela pode ser chamada de profana, mas porque pode talvez merecidamente ser chamada de obtusa. Para falar a verdade, sempre fui tão indiferente à fortuna, – e, especialmente agora que estou mais avançado na vida, estou um pouco mais à minha vontade, adaptado à minha frugalidade, – que não temo nem espero nada de qualquer homem, e estou bem indiferente tanto à ofensa quanto ao favor. Eu não apenas não sacrificaria a verdade ou razão por opiniões políticas, como nem mesmo uma piada. Podes dizer-me que devo ter invertido a ordem destes pontos e pus a piada em primeiro lugar, já que é usual para as pessoas ser muitíssimo afeitas às suas performances nos assuntos nos quais elas no mínimo fizeram por exceler; e que, consequentemente, eu daria mais para ser tido por bom cômico do que para ser elogiado pela erudição, sutileza e invenção. A esta insinuação maliciosa não darei resposta, mas procederei com meu assunto.

Creio, no entanto, que não tenho mais nada a dizer sobre isso,

mas sim a agradecer-te pelo Estrabão. Se o portador que te entregará isto não te encontrar em casa, mandarás, por favor, o livro para seu alojamento. Seu nome é Thomas Henderson, o portador de Berwick. Ele deixa a cidade às terças-feiras por volta do meio-dia e envia para James Henderson, Stables, entre Foot of Cant’s Close e Blackfriars’ Wynd.

Depois de teres terminado com esses papéis, por favor retorne-os

pelo mesmo portador. Mas não há pressa. Ao contrário, quanto maior o tempo em que os retiveres, devo crer que estás pensando mais seriamente em executar o que desejo de ti. Sou, caro Senhor,

Teu o mais sinceramente,

DAVID HUME.

Ninewells near Berwick.

10 de março de 1751

P.S.