Diálogos sobre a religião natural

David Hume · Capítulo 18 de 26

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Diálogos sobre a religião natural

IV. Carta a Adam Smith

1753.

 

IV. Carta a Adam Smith

 

(NL, p. 51-5)

 

Lisle Street Leicester Fields, 12 de abril de 1759.

Caro Smith,

Agradeço a ti pelo agradável presente de tua Teoria [dos

sentimentos morais]. Wedderburn e eu fizemos de presente nossas cópias para conhecidos nossos que temos por bons juízes, e adequados para espalhar a reputação do livro. Mandei uma para o Duque de Argyle, para Lorde Lyttleton, Horace Walpole, Soames Jennyns e Burke, um cavalheiro irlandês que escreveu ultimamente um belo tratado sobre o sublime. Millar desejou minha permissão

para mandar uma em teu nome para o Dr. Warburton67. Demorei a escrever-te até que eu pudesse contar-te algo do sucesso do teu livro e prognosticar com alguma probabilidade se ele há de se condenar irremediavelmente ao Oblívio ou se há de se registrar no

Templo da Imortalidade68. Embora tenha sido publicado há apenas umas poucas semanas, acho que já aparecem alguns sintomas fortes, de modo que quase posso aventurar-me a predizer seu destino. Em resumo, é o seguinte – – Mas fui interrompido em minha carta por uma visita tola impertinente de alguém que há pouco voltou da Escócia. Ele me diz que a Universidade de Glasgow pretende declarar vacante o cargo de Rouet, já que este foi para o estrangeiro com Lorde Hope. Só não pergunto se terás nosso amigo Ferguson à vista, caso outro projeto de conseguir-lhe uma vaga na Universidade de Edimburgo falhe. Ferguson poliu e melhorou

muitíssimo seu Tratado sobre o refinamento 69, e com algumas correções dará um livro admirável, e desvelará um gênio elegante e singular. A Epigoníada, espero eu, bastará, mas é uma obra algo árdua. Como tenho certeza de que consultas às vezes as resenhas, verás na resenha crítica uma carta sobre esse poema, e desejo que empregues tuas conjecturas em descobrir o autor. Deixa-me ver uma amostra de tua habilidade em conhecer penas adivinhando tu

quem é a pessoa70. Tenho medo dos Law Tracts de Lorde Kames. Pode-se pensar tão bem em fazer um bom molho da mistura de losna e babosa quanto uma composição agradável juntando metafísica e Direito escocês. Contudo o livro, creio eu, tem mérito – embora poucos venham a se esforçar para mergulhar nele. Mas, para voltar ao teu livro e seu sucesso na cidade, devo dizer-te – – Uma praga de interrupções! Ordenei que ninguém entrasse, mas ainda assim está aqui alguém que me invadiu de novo. É um homem de letras, e tivemos um bocado de conversa literária. Contaste-me que estavas curioso a respeito de anedotas literárias e, portanto hei de informar-te dumas poucas que vieram ao meu conhecimento. Acredito que mencionei para ti o livro de Helvétius, De l’Esprit. É digno de tua leitura não por sua filosofia, à qual não dou valor tão alto, mas por sua composição agradável. Recebi uma carta dele há poucos dias, na qual me conta que meu nome era muito mais frequente no manuscrito, mas que o censor de livros em Paris o obrigou a retirar. Voltaire publicou recentemente uma pequena obra chamada Candide, ou l’Optimisme. É cheia de animação e impiedade, e é de fato uma sátira da providência sob

pretexto de criticar o sistema leibniziano 71. Devo te dar um pequeno detalhe dela – – “Mas o que tudo isto tem a ver com meu livro?”, dizes – – Meu caro Smith, tem paciência: Acalmate em tranquilidade: Mostra-te um filósofo na prática tão bem quanto na profissão: Pensa no vazio, e precipitação, e futilidade dos juízos comuns dos homens: O quão pouco regulados pela razão em qualquer assunto, ainda mais em assuntos filosóficos, que excedem tanto a compreensão do vulgo. Non si quid improba Roma, Elevet, accedas examenque improbum in illa, Perpendas trutina, nec te

quæsiveris extra 72. O reino dum homem sábio é seu próprio peito; ou, se ele for olhar mais longe, será apenas pelo juízo duns poucos seletos, que são livres de preconceitos e capazes de examinar seu trabalho. Nada de fato pode ser uma presunção maior de falsidade do que a aprovação pela multidão, e Focião, sabe-lo, sempre suspeitou de ter cometido alguma asneira quando era aplaudido pelo populacho.

Supondo, portanto, que te preparaste devidamente para o pior por

todas essas reflexões, prossigo para contar-te as melancólicas novas de que teu livro foi bem desafortunado: pois o público parece disposto a aplaudi-lo ao extremo. Ele foi procurado pela gente tola com alguma impaciência, e a turba de literati está começando a elogiar muito alto. Três bispos visitaram ontem a loja de Millar a fim de comprar cópias e fazer perguntas sobre o autor: o bispo de Peterborough disse que passou a noite com uma companhia da qual o ouviu exaltado sobre todos os livros do mundo. Podes concluir qual opinião verdadeiros filósofos entreterão do livro, quando advogados da superstição o elogiam tão altamente. O Duque de Argyle é mais decisivo a seu favor do que o costume: suponho que

ele ou considera o livro exótico73, ou acha que seu autor lhe será útil nas eleições de Glasgow. Lorde Lyttleton diz que Robertson, Smith e Bower são as glórias da literatura inglesa. Oswald alega não saber se colheu dele mais instrução ou entretenimento – mas podes julgar com facilidade qual confiança se deve depositar sobre esse juízo, de quem esteve envolvido por toda a vida em negócios públicos e nunca vê defeitos nos amigos. Millar exulta e se gaba de que dois terços da edição já foram vendidos, e que está agora seguro do sucesso. Vês que filho da terra é este, para avaliar livros só pelo lucro que lhe trazem. Deste ponto de vista, creio que o teu deve provar ser um livro muito bom.

Charles Townshend, que se passa pelo camarada mais esperto

da Inglaterra, está tão tomado pelo desempenho que disse a Oswald que colocaria o Duque de Buccleugh sob o cuidado do autor, e tentaria tornar para ele proveitoso aceitar o cargo. Tão logo ouvi isto, chamei-o duas vezes tendo em vistas em falar consigo sobre o assunto e convencê-lo da adequação de mandar um jovem nobre para Glasgow, pois não pude esperar que ele te oferecesse quaisquer condições que te tentassem a renunciar à tua carreira de professor. Mas não consegui falar com ele. O Sr. Townshend é tido por um pouco incerto em suas decisões, então talvez não precises se basear muito nesse ímpeto.

Em recompensa por tantas coisas mortificantes, que nada senão

a verdade poderia ter arrancado de mim e que eu poderia facilmente ter multiplicado para um número maior, não tenho dúvidas de que sejas um cristão tão bom para devolver bem pelo mal e lisonjear minha vaidade contando-me que todos os devotos da Escócia me insultam por causa da minha descrição de John Knox e a Reforma etc. Suponho que estejas feliz por ver meu papel acabar e que estou obrigado a concluir com