Diva
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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."
DIVA
JOSÉ DE ALENCAR
1864
A
G.M.
Envio-lhe outro perfil de m ulher, tirado ao vivo, com o o prim eiro. Deste, a senhora pode sem escrúpulo perm itir a leitura à sua neta.
É natural que desej e conhecer a origem deste livro; previno pois sua pergunta.
Foi em m arço de 1856. Havia dois m eses que eu tinha perdido a m inha Lúcia; ela enchera tanto a vida para m im , que partindo-se deixou-m e isolado neste m undo indiferente. Senti a necessidade de dar ao calor da fam ília um a nova têm pera à m inha alm a usada pela dor.
Parti para o Recife. A bordo encontrei o Dr. Am aral, que vira algum as vezes nas m elhores salas da corte. Form ado em m edicina, havia um ano apenas, com um a vocação decidida e um talento superior para essa nobre ciência, ele ia a Paris fazer na capital da Europa, que é tam bém o prim eiro hospital do m undo, o estádio quase obrigatório dos j ovens m édicos brasileiros.
Am aral, m oço de vinte e três anos, era um a natureza crioula de sangue europeu, plácida e serena, m as não fria; porque sentia-se em torno dela o doce e calm o calor das paixões em repouso. Minha alm a m agoada devia pois achar, nesse contato brando e suave, a delícia do corpo alquebrado, recostando-se em leito m acio e fresco.
Quanto a m im , Lúcia desenvolvera com tanto vigor em m eu coração as potências do am or, que cercava-m e um a com o atm osfera am ante, um a evaporação do sentim ento que exuberava. Havia em m eu coração tal riqueza de afeto que chegava para distribuir a tudo quanto eu via, e sobej ava-m e ainda.
Essa virtude am ante, que eu tinha em toda a m inha pessoa, exerceu sobre m eu com panheiro de viagem influência igual à que produzira em m im sua grande serenidade. Ele fora um repouso para m inha alm a; eu fui um estím ulo para a sua.
Sucedeu o que era natural. Desde a prim eira noite passada a bordo, fom os am igos. Essa am izade nascera na véspera, m as j á era velha no dia seguinte. As confidências a im pregnaram logo de um arom a de nossa m útua infância.
Separam o-nos em Pernam buco, apesar das instâncias de Am aral para que eu o acom panhasse à Europa. Durante dois anos, nos carteam os com um a pontualidade e abundância de coração dignas de nam orados. Em sua volta esteve com igo no Recife; escrevi-lhe ainda para o Rio; m as pouco tem po depois m inhas cartas ficaram sem resposta, e nossa correspondência foi interrom pida.
Decorreram m eses.
Um belo dia recebi pelo seguro um a carta de Am aral; envolvia um volum oso m anuscrito, e dizia:
“Adivinho que estás m uito queixoso de m im , e não tens razão.
Há tem pos m e escreveste, pedindo-m e notícias de m inha vida íntim a: desde então com ecei a resposta, que só agora concluí: é a m inha história num a carta. Foste m eu confidente, Paulo, sem o saberes, a só lem brança da tua am izade bastou m uitas vezes para consolar-m e, quando eu derram ava neste papel, com o se fora o invólucro de teu coração, todo o pranto de m inha alm a.”
O m anuscrito é o que lhe envio agora, um retrato ao natural, a que a senhora dará, com o ao outro, a graciosa m oldura.
P.