Diva
Capítulo X
Toda a noite tive deslum bram entos n'alm a.
Que esfinge era essa m oça de dezoito anos?
Virgem , que o severo pudor velava, e falando de am or com a franqueza e a calm a de quem j á dele se saciara! Coração puro de paixões e erm o j á de esperanças!
Seria a congelação precoce do sentim ento?
Não! pensava eu. Deve de ser a ingenuidade da inocência. As rosas de sua alm a não podem ter assim m urchado na prim avera da vida; estão apenas em botão; o que as desm aia é som bra da infância ainda, e não o verm e do coração – a dúvida.
Am ava Em ília, sem o saber; com ecei a adorá-la.
Que horas encantadas vivi repassando na m em ória os seus desdéns! Agora eu os com preendia: eles m e revelavam a torm enta de um a paixão nascente, que tolda a m anhã da vida, com o as tem pestades dos prim eiros dias do ano. Ela tinha m edo de am ar-m e...Talvez am ava-m e j á, resistindo ainda!...
– Meu Deus! exclam ei. – Que fiz eu para tanta felicidade!...
Um a circunstância unicam ente m e parecia obscura, depois da confidência de Em ília. Era a m aneira por que m e tinha recebido a prim eira vez depois da m inha volta. Era sobretudo aquele olhar fulgurante de cólera, de tão soberba cólera! Não houvera nos seus olhos despeito só ou repulsão; houvera m ais que ódio, profundo rancor.
Um a vez pedi-lhe a explicação desse olhar; ela enrubesceu:
– Não m e pergunte isso!... Não lho direi nunca!
Dois dias depois da nossa conversa j unto à cascata, fui a Matacavalos, onde esperava encontrá-la. Ia cheio dos enlevos de tão sonhadas esperanças, inundado da felicidade que borbotava em m eu seio... Ia assim , transbordando dilúvios de im enso am or, que ansiava por se roj ar a seus pés.
E bastou a sua presença para confranger de súbito as enérgicas expansões de m inha alm a.
Ela respondeu ao m eu cum prim ento com afabilidade; m as... Era a m esm a afabilidade que dispensava à turba dos seus adoradores! Quanto achei doce o passado desdém , que ao m enos m e distinguia!
Em ília m ostrava ter com pletam ente esquecido quanto entre nós houvera três dias antes. Um a vez no correr da noite quis falar-lhe. Vendo-m e aproxim ar, toda sua pessoa envolveu-se de repente na frieza glacial, que de longe ainda j á m e tinha congelado a palavra nos lábios. Essa m ulher, cheia de graça e vida, tinha o m ágico poder de fazer-se m árm ore, quando queria.
Nessa noite ela retirou-se m ais tarde do que tinha costum e. Ao sair passou j unto de m im sorrindo:
– Não quis hoj e conversar com igo? disse-m e com um doce enfado.
Faze ideia do pasm o em que fiquei.
Em ília continuou a ser para m im um a esfinge. Anim ado por aquela palavra afetuosa tornei-m e assíduo j unto dela; porém encontrava sem pre o m esm o acolhim ento; gelo na fronte, e sarcasm o no lábio. Era quando eu m enos esperava, nalgum m om ento em que nos achávam os sós, que ela vertia sobre m im , num olhar ou num a palavra, a ternura de sua alm a. Mas depois, quantos am argores, quantos azedum es não m e custavam aquelas gotas de m el?
A reunião de que m e falara D. Leocádia realizou-se afinal. Era o aniversário do Sr. Duarte. A casa do negociante encheu-se pela prim eira vez de um a m ultidão de convidados. A festa com eçou de m anhã e acabou em um baile esplêndido ao alvorecer do dia seguinte.
À noite um a cascata de luz, borbotando dos salões, despenhou-se pelos j ardins e alam edas da chácara. Os repuxos de m árm ore esguichavam rubis e diam antes líquidos. As folhas, que a brisa balouçava, eram nesse adereço do baile as esm eraldas, trem ulando entre áscuas de ouro.
Que m agnificências de luxo, que pom pas, a natureza e a arte não derram avam sobre aquela festa noturna! Um céu abriu-se ali; e a deusa dele atravessava com gesto olím pio a via-láctea dos salões resplandecentes. Seu passo tinha o sereno deslize, que foi o atributo da divindade; ela m ovia-se com o o cisne sobre as águas, por um a ligeira ondulação das form as.
A m ultidão afastava-se para deixá-la passar sem eclipse, na plenitude de sua beleza. Assim , por entre o esplêndido turbilhão, ela assom ava com o um sorriso; e era realm ente o sorriso m im oso daquela noite esplêndida.
Eu contem plava-a de longe e arredado. Sentia-m e triste. O dia inteiro, Em ília, absorvida pela festa, nem sequer notara a m inha presença. Esquecia-se de si própria, das hom enagens ardentes rendidas à sua beleza, para ocupar-se exclusivam ente dessa exibição de luxo e riqueza, que ela preparara com o um a inspiração de artista ou poeta, com o um painel ou um poem a.
Foi só quando o edifício ilum inou-se e a orquestra derram ou torrentes de harm onia que Em ília recolheu em si. Sem dúvida nesse m om ento ela deixou de ser artista para ser m ulher. Vi-a algum tem po absorta e isolada em sua alm a, no m eio da turba de adoradores.
De repente sobressaltou-se; com o um a estrela, que se desnubla em noite lím pida, com eçou a cintilar. A quadrilha a cham ava. Ela atravessou a sala, sem eando sorrisos e enlevos n'alm a daquela m ultidão extática, e desapareceu.
Fiquei onde estava, e sem ânim o de segui-la.
Eram onze horas j á. Duas vezes tinha-m e dirigido à porta para m e retirar, e duas vezes achara um pretexto para dem orar-m e. Em ília passou pelo braço do Dr. Chaves.
– Qual é a contradança que eu lhe dei? disse-m e ela com a m aior naturalidade.
Essa palavra m agoou-m e ainda m ais. Eu pensava que Em ília reparasse na m inha esquivança, e iludira-m e. Ia desfazer o seu engano, quando ela atalhou-m e:
– Ah!... Foi a sexta... É esta!
Depois voltou-se para seu cavalheiro:
– O senhor perm ite?...
Deixando o braço do deputado, tom ou o m eu.
– Creio que a senhora enganou-se, D. Em ília.
– Parece-lhe?... acudiu sorrindo.
– Decerto! Só um engano m e podia dar este prazer. Eu não m e anim ava a pedir-lhe um a contradança.
– Pois eu creio que foi o senhor quem se enganou. Não lhe perguntei qual foi a quadrilha que m e pediu, m as sim a que eu lhe dei... em bora não m e pedisse!
– Ah! Perdão!
– Eu devia – respondeu-m e séria. – Lem bre-se! Era um a reparação.
– Em bora! Com o m e podia eu supor tão feliz!
– Porquê! Por dançar um a contradança com igo? disse ela rindo. – Meu Deus!
O que é essa felicidade que os outros acham em coisas tão pequenas e eu...
– E a senhora?...
– E eu ainda não encontrei na m inha vida.
– Não diga isso, D. Em ília! A senhora não é feliz?
Tínham os chegado ao terraço, onde as luzes, brilhando entre as grandes folhas das palm eiras im periais agitadas pela brisa, faziam sobre o pavim ento um a ondulação constante de claros e som bras. Algum as flores de m agnólia exalavam para nós o seu fresco perfum e.
– Não, não sou feliz – disse Em ília descaindo-lhe a fronte. – Nada daquilo em que o m undo pensa que está a felicidade, nada m e falta; e eu não a tenho; não sei achá-la onde todos a encontram a cada m om ento. Às vezes, quantas!... sinto um quer que sej a, um a ligeira em oção, com o um sorriso que vem despontando em m inha alm a. É talvez a felicidade, digo baixinho; e fico m uda e extática para não perturbar dentro em m im esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente som e-se tudo, com o se um abism o se abrisse: procuro m inha alm a nesse vácuo im enso, e não a sinto!
Em ília falara m aviosa e triste; nesse m om ento ela pôs os olhos em m im e sorriu.
– Se isto fosse um a enferm idade, o senhor curava-m e; m as não é. E quem sabe? Talvez sej a!
– Não é um a enferm idade, não; é outra coisa.
– O quê? Diga!
– Não será um sonho ainda não realizado?... Um a aspiração vaga e indefinida?
– Pode ser! Não sei! respondeu-m e com encantadora ingenuidade.
Meu coração abriu-se de novo à doce esperança, que dele se partira.
Depois desse baile, a casa de Duarte recebeu todos os dom ingos a sociedade que D. Matilde reunia habitualm ente nas quintas-feiras. Encontrava-m e pois com Em ília dois dias na sem ana, além das visitas que algum as tardes fazia ao Rio Com prido.