Diva

José de Alencar · Capítulo 1 de 22

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Diva

Capítulo I

 

Em ília tinha quatorze anos quando a vi pela prim eira vez.

Era um a m enina m uito feia, m as da fealdade núbil que prom ete à donzela esplendores de beleza.

Há m eninas que se fazem m ulheres com o as rosas: passam de botão à flor: desabrocham . Outras saem das faixas com o os colibris da gem a: enquanto não em plum am são m onstrinhos; depois tornam -se m aravilhas ou prim ores.

Era Em ília um colibri im plum e; por conseguinte um m onstrinho.

Seu crescim ento fora m uito rápido; tinha j á altura de m ulher em talhe de criança. Daí um a excessiva m agreza: quanta seiva acum ulava aquele organism o era consum ida no desenvolvim ento precoce da estatura.

Ninguém caracterizava com m ais propriedade esse defeito de Em ília do que a m enina Júlia, sua prim a. Quando as duas se agastavam , o que era frequente, Júlia a cham ava de esguicho de gente.

Não parava aí a fealdade da pobre Em ília. A óssea estrutura do talhe tinha nas espáduas, no peito e nos cotovelos, agudas saliências, que davam ao corpo um a aspereza hirta. Era um a boneca, desconj untada am iúdo pelo gesto ao m esm o tem po brusco e tím ido.

Com o ela trazia a cabeça constantem ente baixa, a parte inferior do rosto ficava na som bra. A barba fugia-lhe pelo pescoço fino e longo; faces, não as tinha; a testa era com prim ida sob as pastas batidas do cabelo, que repuxavam duas tranças com pridas e espessas.

Restava apenas um a nesga de fisionom ia para os olhos, o nariz e a boca. Esta rasgava a m axila de um a orelha à outra. O nariz rom ano seria bonito em outro sem blante m ais regular. Os olhos negros e desm edidam ente grandes afundavam na penum bra do sobrolho sem pre carregado, com o buracos, pelas órbitas.

A respeito do traj o, que é segunda epiderm e da m ulher e pétalas dessa flor anim ada, o da m enina correspondia a seu físico.

Com punha-se ele de um vestido liso e escorrido, que fechava o corpo com o um a bainha desde a garganta até os punhos e tornozelos; de um lenço enrolado no pescoço; e de um as calças largas, que arrastavam , escondendo quase toda a botina.

Em ília ainda assim não parecia satisfeita. Estava constantem ente a encolher-se, fazendo trej eitos para m ergulhar o resto do pescoço e o queixo no talho do vestido, e sum ir as m ãos no punho das m angas. Cam inhando, dobrava as curvas a fim de tornar com prida a saia curta; sentada, m etia os pés por baixo da cadeira.

Tinha um cuidado extrem o em puxar para a frente as longas tranças do cabelo, que andavam sem pre a dançar-lhe, com o antolhos pelo rosto. Se lhe falava algum a pessoa de intim idade da fam ília, não lhe voltava as costas com o fazia com os estranhos; m as sentia logo um a necessidade invencível de coçar a cabeça, acom panhada por um repuxam ento dos om bros. Eram m odos de atravessar o braço diante do rosto e furtar o queixo, escondendo assim o que lhe restava de fisionom ia.

Muitas vezes o Sr. Duarte zom bava com terna ironia desses biocos da filha:

– Deixa estar, Mila!... dizia ele abraçando-a. – Vou m andar fazer para ti um saco de lã com dois buracos no lugar dos olhos.

Tal era Em ília aos quatorze anos.

Entretanto, quem soubera a anatom ia viva da beleza, conhecera que havia nessa m enina feia e desengraçada o arcabouço de um a soberba m ulher. O esqueleto ali estava: só carecia da encarnação.

Ainda m e lem bro da cólera infantil de Em ília, quando, a prim eira vez que estive com ela, eu a perseguia de longe cham ando-a:

– Minha noiva!

– Feio!... dizia-m e então.

E pronunciava essa palavra com o se ela sim bolizasse a m aior inj úria possível.